“Amplie o espaço da sua tenda; estendam-se as cortinas da sua habitação; não o impeça; alongue as suas cordas e firme bem as suas estacas.”Isaías 54.2 · NAA
Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Is 54.1-5; Mt 28.18-20; Rm 10.11-17
Enquanto Wesley cavalgava a Inglaterra, o que Deus fazia do outro lado do Atlântico? Como o metodismo, minúsculo na independência americana, tornou-se em duas gerações a maior denominação protestante dos Estados Unidos? E como um sapateiro inglês se tornou o grande catalisador da era das missões modernas que chegaria até nós?
O que esta aula cobre. De 1730 a 1850: o Primeiro Grande Despertamento (Edwards e Whitefield), o Segundo (acampamentos e cavaleiros de circuito), Francis Asbury e o metodismo americano, William Carey e as missões modernas, e a força evangélica que derrubou o tráfico de escravos no império britânico.
Situando-se na história
Linha do tempo (1730-1850)
1734-1735
Northampton
Avivamento na igreja de Jonathan Edwards, na Nova Inglaterra: a faísca do Primeiro Grande Despertamento.
1739-1770
Whitefield nas colônias
George Whitefield cruza o Atlântico treze vezes e prega a multidões de todas as denominações: o Despertamento vira incêndio continental.
1771
Asbury chega à América
O jovem pregador enviado por Wesley cavalgará quase meio século pelos caminhos americanos, dormindo onde desse, formando circuitos.
1784
Igreja Metodista Episcopal
Na Conferência de Natal, em Baltimore, o metodismo americano se organiza como igreja, com Asbury e Coke à frente.
1792-1793
Carey
O sapateiro-pastor publica sua Investigação, prega “espere grandes coisas de Deus; empreenda grandes coisas para Deus”, funda-se a sociedade missionária batista, e Carey parte para a Índia.
1801
Cane Ridge
No Kentucky, o acampamento reúne dezenas de milhares: o Segundo Grande Despertamento incendeia a fronteira americana.
1807-1833
Abolição britânica
O parlamento proíbe o tráfico (1807) e depois a escravidão no império (1833): a longa luta de Wilberforce e dos evangélicos chega à vitória.
1812-1850
A era das missões
Judson na Birmânia, sociedades missionárias em cada denominação, traduções da Bíblia em dezenas de línguas: começa a globalização do evangelho.
Parte 1
O Primeiro Grande Despertamento
Nas colônias americanas dos anos 1730, a fé dos fundadores puritanos tinha esfriado em religião de costume. O despertar começou em Northampton, na igreja de Jonathan Edwards (1703-1758), pastor e o maior intelecto teológico da América colonial, quando pregações sobre a justificação pela fé produziram, em meses, uma cidade transformada.
O fogo virou incêndio continental com George Whitefield (1714-1770), o companheiro de Oxford dos Wesley, dono da voz mais poderosa do século. Whitefield cruzou o Atlântico treze vezes e pregou ao ar livre de Boston à Geórgia, a multidões que somavam boa parte da população colonial; até Benjamin Franklin, cético, virou seu amigo e admirador. Pela primeira vez, as colônias viveram um acontecimento comum a todas: há historiadores que veem no Despertamento um dos berços da futura identidade americana.
Registro honesto de família: Whitefield era calvinista, e ele e Wesley divergiram publicamente sobre a predestinação, com escritos duros de parte a parte. Mas a amizade sobreviveu à divergência: Wesley pregou, a pedido do próprio Whitefield, o sermão em sua memória (1770). Fica o modelo: convicção sem rodeios, comunhão sem ruptura (Ef 4.15).
Parte 2
Asbury e os cavaleiros de circuito
Em 1771, Wesley perguntou à conferência quem se ofereceria para a América. Um jovem de 26 anos, Francis Asbury (1745-1816), levantou a mão e nunca mais voltou. Em 45 anos, cavalgou cerca de 400 mil quilômetros pelos caminhos e desertos americanos, sem casa própria, dormindo em cabanas e celeiros, atravessando febres e nevascas, ordenando pregadores e plantando circuitos.
Na independência (1776), os metodistas americanos eram poucos milhares. Quando Asbury morreu (1816), passavam de duzentos mil; em 1850, o metodismo era, de longe, a maior denominação protestante dos Estados Unidos. O instrumento foi o cavaleiro de circuito: o pregador itinerante que chegava aonde nenhuma igreja chegava, pregava na clareira, organizava a classe e seguia viagem. “Hoje faz tempo de ninguém sair de casa, só de cavaleiro de circuito”, dizia o povo da fronteira.
Somou-se a isso o Segundo Grande Despertamento: a partir de 1800, os acampamentos (camp meetings) como o de Cane Ridge (1801) reuniam dezenas de milhares na fronteira, por dias, ao redor de pregação, arrependimento e Ceia. Com todos os excessos emocionais que os críticos apontaram (e que havia), o avivamento contribuiu decisivamente para evangelizar e organizar religiosamente a fronteira em uma geração; e, especialmente no metodismo que a dominava, a pregação tinha lógica arminiana: oferecia-se o evangelho a todos, como a quem pode ser salvo, porque pode.
Parte 3
Carey e a era das missões modernas
Em 1792, um sapateiro e pastor batista inglês chamado William Carey (1761-1834) enfrentou a teologia acomodada do seu meio, que dizia que a Grande Comissão fora dada só aos apóstolos, publicou sua Investigação sobre a obrigação dos cristãos de usar meios para a conversão dos pagãos, e pregou o sermão que virou lema: “Espere grandes coisas de Deus; empreenda grandes coisas para Deus”.
No ano seguinte partiu para a Índia, onde trabalhou quarenta anos sem voltar: com a equipe de Serampore (Marshman, Ward e colaboradores indianos), traduziu a Bíblia, inteira ou em parte, para dezenas de línguas e dialetos, fundou escolas e o colégio de Serampore, combateu a queima de viúvas (sati) até vê-la proibida, e morreu pedindo que em seu túmulo se escrevesse apenas: “Um verme pobre e miserável, caído em Tuas bondosas mãos”.
A onda que ele abriu
Em poucas décadas, cada família denominacional tinha sua sociedade missionária; Adoniram Judson entrou na Birmânia (1813) e sofreu prisões e lutos para dar-lhe a Bíblia; sociedades bíblicas se multiplicaram; e o eixo do cristianismo começou, sem que ninguém percebesse, a caminhar para o sul do mundo, movimento que a aula 6 mostrará consumado.
A honestidade necessária
A era das missões conviveu com a era dos impérios coloniais, e nem sempre soube distinguir evangelho de civilização europeia. Os melhores missionários (Carey entre eles) serviram o povo, aprenderam as línguas, formaram líderes locais e enfrentaram os próprios colonizadores; outros confundiram as bandeiras. A régua para julgar é a mesma da série inteira: o evangelho não precisa de espada nem de império (Mt 26.52).
Parte 4
A fé que derrubou o tráfico
A última carta de Wesley (aula anterior) animava William Wilberforce (1759-1833), o deputado convertido que fizera da abolição a causa da sua vida. Ao lado do grupo evangélico de Clapham, dos quakers e de ativistas incansáveis como Thomas Clarkson, e somando-se ao testemunho de ex-escravizados como Olaudah Equiano e à resistência dos próprios escravizados nas colônias, Wilberforce apresentou moções contra o tráfico ano após ano, derrotado ano após ano, por quase vinte anos.
Em 1807, o parlamento britânico proibiu o tráfico de escravos; em 1833, no leito de morte de Wilberforce, aboliu a escravidão em todo o império. Ao lado deles, o ex-capitão de navio negreiro John Newton, convertido, autor de “Maravilhosa graça”, que testemunhou ao parlamento os horrores que ajudara a cometer.
Para a nossa memória: a geração dos despertamentos entendia que conversão gera reforma. Do avivamento saíram a abolição, as escolas dominicais (Robert Raikes, 1780, alfabetizando crianças pobres), as sociedades bíblicas e as missões. Quando alguém disser que avivamento é alienação, a história responde com datas.
Fontes primárias
Vozes dos despertamentos
Sermão de Nottingham · 30 de maio de 1792
Carey, o lema das missões modernas
“Espere grandes coisas de Deus; empreenda grandes coisas para Deus.”
Pregado sobre Isaías 54.2-3: “Amplie o espaço da sua tenda… porque você se estenderá para a direita e para a esquerda”. No ano seguinte, Carey partia para a Índia.
Diário de Francis Asbury
O preço dos circuitos
“Meu corpo está fraco… mas a minha alma tem estado, em geral, em paz. […] Estou disposto a sofrer qualquer coisa, contanto que possa terminar a minha carreira com alegria e ver a obra de Deus reviver por toda parte.”
Epitáfio ditado por ele mesmo · 1834
Carey, no fim
“Um verme pobre e miserável, caído em Tuas bondosas mãos.”
Quarenta anos de Índia, dezenas de línguas com Escritura, o sati combatido até a proibição; e, no túmulo, só a graça.
A ponte wesleyana
O metodismo vira movimento mundial
Esta aula é a história do metodismo saindo da Inglaterra. Na Conferência de Natal (Baltimore, 1784), com pregadores ordenados que Wesley enviara, o metodismo americano organizou-se como Igreja Metodista Episcopal, e Asbury tornou-se seu bispo itinerante, recusando qualquer conforto que seus pregadores não tivessem.
O sistema wesleyano (circuitos, classes, conferência, pregadores leigos, hinos, arminianismo pregado a todos) mostrou-se a ferramenta perfeita para uma nação em expansão. E é dessa igreja americana, com suas glórias e com as concessões que faria ao acomodar-se (inclusive diante da escravidão), que nascerá, na próxima aula, a Igreja Metodista Livre: quando os netos esfriam, Deus reacende o fogo dos avós.
Da história para a vida
Aplicação pastoral
1
Divergir sem romper
Wesley e Whitefield discordaram publicamente sobre a predestinação e permaneceram irmãos até a morte. Numa era de cancelamentos, inclusive eclesiásticos, eles ensinam a discutir doutrina com firmeza e enterrar-se mutuamente com honra (Ef 4.15).
2
Espere e empreenda
O lema de Carey tem duas metades inseparáveis: sem esperar de Deus, o empreender vira ativismo; sem empreender, o esperar vira desculpa. O que a sua igreja está esperando de Deus que exija dela empreender algo grande?
3
Vá aonde ninguém vai
O cavaleiro de circuito chegava aonde não havia igreja. O Brasil tem seus sertões e suas periferias sem presença evangélica real. A pergunta de Asbury permanece: quem se oferece, e que conforto está disposto a perder?
Fixação
Cartões de memorização
Toque no cartão para ver o conteúdo. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Teste o que você aprendeu
Dez questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe: errar aqui também ensina.
0 de 10 respondidas
Para pensar e conversar
Perguntas para reflexão
O cavaleiro de circuito ia aonde não havia igreja. Olhe para a sua cidade e região: onde não há presença evangélica real (um bairro, um condomínio, um povoado, um turno da vida urbana), e o que seria, hoje, “cavalgar o circuito” até lá?Ver resposta sugerida
Faça o exercício com mapa, não com impressões: liste os bairros e distritos do seu município e marque onde existe igreja viva e onde não existe (ou onde a que existe não alcança o povo dali). As lacunas modernas raramente são só geográficas: há circuitos esquecidos como o turno da madrugada (trabalhadores de escala), os condomínios fechados (onde ninguém bate à porta), as periferias novas (que crescem mais rápido que as igrejas) e o interior esvaziado. “Cavalgar” hoje pode ser um culto no salão de festas do condomínio, uma classe na casa de um irmão do bairro sem igreja, um ponto de pregação no distrito rural, um pequeno grupo às 6h para quem entra às 7h. O padrão de Asbury impõe duas condições: alguém que se ofereça (a pergunta de 1771 continua aberta) e a disposição de perder conforto: circuito não se faz do sofá. Leve o mapa à liderança da sua igreja e proponha um alvo: um novo “ponto de circuito” por ano.
“Espere grandes coisas de Deus; empreenda grandes coisas para Deus.” Onde a sua igreja (ou a sua vida) está esperando sem empreender, e onde está empreendendo sem esperar?Ver resposta sugerida
As duas doenças têm sintomas claros. Esperar sem empreender soa piedoso: “estamos orando por um avivamento”, “se Deus quiser, um dia teremos um trabalho com jovens”; mas Carey enfrentou exatamente essa piedade paralisada, que transforma a soberania de Deus em desculpa para a inércia, e respondeu com a Investigação: Deus usa meios, e os meios somos nós (Rm 10.14-15). Empreender sem esperar é o erro oposto e mais moderno: projetos, campanhas e metas tocados a técnica e ansiedade, onde a oração é abertura protocolar e o resultado depende do marketing; isso esgota as pessoas e envaidece ou desespera os líderes (Sl 127.1). O teste prático: pegue o principal sonho da sua igreja e faça duas perguntas: que passo concreto e custoso já demos por ele? (se nenhum, estamos esperando sem empreender) e quanto tempo de oração real o sustenta por semana? (se quase nenhum, estamos empreendendo sem esperar). O lema de Carey só funciona inteiro; e ele mesmo o viveu: esperou quarenta anos de Deus o que empreendeu quarenta anos para Deus.
Na próxima aula, a história da nossa própria casa: “O movimento de santidade e B. T. Roberts (1830-1900)”: por que nasceu a Igreja Metodista Livre, e o que o “Livre” do nosso nome significa.
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. Trechos de fontes históricas traduzidos dos originais em domínio público com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.