1928 — Hoje

História da Igreja Metodista Livre no Brasil

Da chegada de um pastor japonês, em 1928, ao Concílio Geral Brasileiro de hoje — o relato detalhado de como Deus edificou a Igreja Metodista Livre em terras brasileiras.

1860Origens: santidade e justiça

Antes de chegar ao Brasil, vale recordar de onde viemos. A Igreja Metodista Livre nasceu nos Estados Unidos, em Pekin, no estado de Nova York, em 23 de agosto de 1860, reunindo cerca de 15 pastores e 80 leigos. Sob a liderança do Rev. Benjamin Titus Roberts, eram cristãos excluídos da Igreja Metodista Episcopal por defenderem, com sinceridade, as doutrinas e práticas do autêntico metodismo wesleyano — em especial a experiência da inteira santificação.

O nome guardava um duplo sentido: “Metodista”, pela fidelidade à herança de Wesley; e “Livre”, por cinco liberdades que marcaram a nova igreja:

  • Livre da escravidão — proibia-se que os membros comprassem, vendessem ou possuíssem escravos.
  • Assentos gratuitos — nenhum banco era alugado, para que o pobre não fosse humilhado à porta do templo.
  • Liberdade de adoração — o culto fervoroso, sob a direção do Espírito Santo, contra a formalidade sufocante.
  • Livre das sociedades secretas — como a maçonaria, para manter total lealdade a Cristo.
  • Livre para a santificação — a busca da transformação do coração pela fé, e não a mera contenção do pecado.

Desde o princípio, a nova igreja uniu santidade e justiça: criou lares para idosos, órfãos e crianças abandonadas, um hospital e uma casa de amparo a mães solteiras; fundou colégios, seminários e uma editora; e foi uma das primeiras denominações a reconhecer as mulheres no ministério, inclusive como pastoras. O primeiro Concílio Geral reuniu-se em outubro de 1862, em St. Charles, Illinois. Desde então, a IMeL se espalhou pelo mundo pelo esforço missionário — e, em 1928, chegaria ao Brasil.

De costa a costa nos Estados Unidos, a nova igreja logo cruzou fronteiras: chegou ao Canadá em 1880 e, em 1895, ao Japão, onde formou pastores em seu próprio seminário. Foi de lá que, décadas depois, um desses pastores ouviria o chamado para o Brasil.

À frente desse movimento estava Benjamin Titus Roberts, pregador da inteira santificação e defensor dos pobres e dos escravizados — figura que está na própria raiz da nossa identidade.

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1927 – 1936Os primórdios no Brasil

Antes mesmo do pastor Nishizumi, em 1927 chegou ao Brasil o metodista livre japonês Yoshitaru Fujita, colportor da Sociedade Bíblica do Japão. No ano seguinte desembarcava o Rev. Massayoshi “Daniel” Nishizumi, formado em Osaka e apoiado pela missionária Eva Millikan, que o evangelizara e patrocinara sua formação. O sustento diário da missão veio, sobretudo, de um jovem leigo extraordinário: Shokoh Mita, que trabalhava a terra e entregava tudo ao pastor. O idoso Wada apenas trouxe os jovens ao Brasil e logo retornou ao Japão, onde tinha sua rede de lojas; enquanto isso, o próprio Nishizumi fazia manutenção das máquinas seletoras de café para ganhar alguns trocados a mais. Mais tarde chegariam também os obreiros Seiiti Shimizu (1938) e Sukeiti Ono (1939), em resposta a um apelo do próprio Nishizumi.

Em 1934, o metodista livre Hiroyuki Hayashi chegou ao Brasil e, depois de contrair malária na Amazônia, fixou-se em São Paulo como dentista. Por “coincidência”, tornou-se cliente de Nishizumi — que, naquele momento, andava desanimado pela falta de apoio de seus superiores. Foi preciso muita oração e a insistência amorosa do Dr. Hayashi para que a obra tomasse forma. Enfim, em 1º de novembro de 1936, as famílias japonesas Yamada, Katayama, Maruyama e Watanabe, com os missionários, iniciaram oficialmente o trabalho no refeitório do consultório do Dr. Murakami, à Rua Conde de Sarzedas, 40. Assistiram ao primeiro culto 21 pessoas.

1935 – 1945Amizade, missionários e a guerra

Bispo Mark Ormiston
Bispo Mark Ormiston

Em 1935, Nishizumi conheceu o pastor José Emílio Emerenciano, da Igreja Holiness. Nascido em Macau, no Rio Grande do Norte (1902), Emerenciano convertera-se aos vinte anos e, a convite do bispo japonês Juji Nakada, chegara a estudar no Japão (1929) para voltar e pastorear os imigrantes, sendo ordenado ministro em 1935. Falando inglês e japonês, Emerenciano passou a servir de intérprete nos encontros com os missionários americanos. Em 1940 estiveram no Brasil os missionários E. E. Shelhammer, B. H. Pearson e o secretário executivo H. T. Johnson; mais tarde vieram o Bispo Mark Ormiston e o Rev. Byron Lamson, que visitaram Jabaquara, Moema e Santo Amaro para planejar o trabalho entre os brasileiros. A Igreja tinha então 60 membros. Com a Segunda Guerra Mundial, os projetos ficaram parados — o Japão era agora país inimigo. Ainda assim, em 1945 o trabalho entre os japoneses já chegava a 80 membros.

1946 – 1947A partida de Nishizumi, o início entre os brasileiros e o avivamento

Terminada a guerra, o Bispo Ormiston retornou ao Brasil e, em junho de 1946, chegaram as missionárias Lucile Damon e Helen Voller. Foi em meio a esse movimento que, em 26 de junho de 1946, o Rev. Nishizumi morreu, atropelado ao descer do bonde. Poucos meses depois, em 7 de setembro de 1946, começou o trabalho entre os brasileiros, na casa do Pr. Emerenciano, à Rua dos Jacintos, 43, na Vila Mariana. Mais tarde, a Missão adquiriu um terreno na Rua das Rosas, em Mirandópolis, onde se organizou oficialmente a primeira Igreja Metodista Livre entre brasileiros.

Em 1947, a obra viveu um grande avivamento espiritual entre pastores e leigos: nas reuniões de oração, muitos eram cheios do Espírito Santo e recebiam a inteira santificação — a marca mais cara da herança wesleyana.

Assim se encerrou, de forma abrupta, a vida do homem que lançou os fundamentos da obra. Ele plantou; outros regaram; mas foi Deus quem deu o crescimento (1Co 3.6-7).

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1948 – 1966Organização e um crescimento extraordinário

Bispo Paul N. Ellis
Bispo Paul N. Ellis

Em 1948 o trabalho foi organizado como Concílio Missionário Brasileiro, e vários missionários americanos chegaram para ajudar. Em 1952 a Missão comprou um terreno em Mairiporã e, em 1957, fundou a Faculdade de Teologia da Igreja Metodista Livre. O crescimento foi impressionante: de 80 membros em 1945 chegou-se a 1.700 em 1955. Em 1954 formou-se o Concílio Provisional da América do Sul, unindo as alas japonesa e brasileira ao trabalho no Paraguai. Diante da dificuldade de administrar três idiomas e culturas, em janeiro de 1966 sob a presidência do Bispo Paul N. Ellis, o concílio foi desmembrado: nasceram o Concílio Anual Nikkei e o Concílio Anual Paulista, além do Provisional Paraguaio.

Foi também um tempo de reforços. Chegaram os casais de missionários americanos que ajudariam a erguer a obra: os Junker (1948), os Ryckman e os Bowen (1950), Carol Wesley e Mary King (1955), os Thompson e os Owsley (1958) e os Kenny (1959), entre outros. Em 1956 abriu-se a Escola Americana, dirigida pela missionária Helen Voller, e em 1957 foi fundada, em Mairiporã, a Faculdade de Teologia da Igreja Metodista Livre. O vigor do crescimento levou, em 1964, à elevação do trabalho a Concílio Anual Sul-Americano.

Ao longo dessas décadas, a continuidade da obra passou pelas mãos do Rev. José Emílio Emerenciano e de sua esposa, Dona Irene. O casal plantou igrejas e formou pessoas em Mirandópolis, Lins, Guarulhos e São José do Rio Preto, com Escola Dominical, acampamentos, programas de rádio e um evangelismo criativo, confiando às novas gerações o que haviam recebido (2Tm 2.2). Já idoso, o Rev. Emerenciano mantinha um quarto de oração onde intercedia, um a um, pelo nome de cada pastor da Igreja Metodista Livre, até partir em 1998, depois de uma vida inteiramente consagrada.

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1966 – 2002A ala brasileira e a expansão nacional

Bispo Clyde Van Valin
Bispo Clyde Van Valin
Bispo Richard Snyder
Bispo Richard Snyder

Em 1971, o Concílio Paulista mudou de nome para Concílio Brasileiro, anunciando sua vocação de alcançar todo o país. Após anos difíceis (1973–1976), o Rev. C. Wesley King implantou, a partir de 1979, os Planos Quinquenais de Evangelismo, Discipulado e Fundação de Igrejas, que trouxeram grande crescimento e as primeiras missões ao exterior — Leda Gonçalves a Israel e Ieda Pires à Índia. A obra alcançou o Nordeste, e em 1996 formou-se o Concílio do Nordeste.

Portas adentro, a igreja também amadurecia. O Rev. João Mizuki foi o primeiro superintendente do Concílio Paulista (1966), e os missionários Douglas e Elizabeth Smith (a partir de 1971) integraram-se profundamente ao povo brasileiro. Em 1984, ao pastorear Cidade Ademar/Jardim Rey, o Rev. King restaurou ao ministério dois jovens que haviam sido afastados por causa de suas convicções sobre a renovação espiritual — José Ildo Swartele de Mello e Nilson Campos Portugal Santos —, que se formariam pastores e se tornariam líderes da denominação.

Amadurecida em número, organização e visão missionária, a Igreja caminhou rumo à autonomia. A partir de 1994, o Bispo Clyde Van Valin preparou as lideranças para a emancipação, obra continuada pelos Bispos Richard Snyder e Roger Haskins; em 1998 foi criada a Comissão de Estudos para a organização do Concílio Geral Provisional, presidida pelo Rev. Nilson Campos Portugal Santos; e, em 2000, o Plano de Expansão Nacional impulsionou um crescimento extraordinário — de 2.542 membros em 1995 a 6.817 ao fim de 2002.

2003Autonomia e a consagração do primeiro bispo brasileiro

Bispo Roger Haskins
Bispo Roger Haskins

Depois de 39 anos de caminhada, em abril de 2003 o Concílio Geral norte-americano aprovou o pedido de autonomia do Concílio Brasileiro. Nos dias 27 a 29 de novembro de 2003 realizaram-se as sessões de instalação do Concílio Geral Provisional Brasileiro e a consagração do seu primeiro bispo nacional — o Rev. José Ildo Swartele de Mello, fruto da evangelização da própria Igreja Metodista Livre no Brasil e filho da IMeL de Cidade Ademar.

Na noite de sábado, 29 de novembro de 2003, cerca de 3.000 pessoas lotaram o templo da Igreja Assembleia de Deus do Bom Retiro, em São Paulo, para o culto de celebração e consagração. O Bispo Roger Haskins presidiu a cerimônia: após as leituras bíblicas alusivas ao ofício episcopal e o ato de compromisso, o Rev. José Ildo ajoelhou-se para receber a imposição de mãos do presbitério e foi investido da veste episcopal — uma toga com estola vermelha e uma cruz dourada. Três gerações de metodistas livres celebravam ali o passado desbravador, o presente vitorioso e o futuro cheio de desafios e de confiança em Deus.

A imposição de mãos, pelo Bispo Roger Haskins
A imposição de mãos, pelo Bispo Roger Haskins
A cerimônia do lava-pés
A cerimônia do lava-pés
A consagração, oficiada pelo Bispo Roger Haskins
A consagração, oficiada pelo Bispo Roger Haskins
O Bispo Ildo com a esposa, Cristina, e os filhos
O Bispo Ildo com a esposa, Cristina, e os filhos

De 2007 a 2015, o Bispo Ildo Mello serviu também como presidente do Concílio Mundial de Bispos da Igreja Metodista Livre.

Homenagem aos missionários que serviram no Brasil →
2024 – 2025 · Um marco histórico

A união dos concílios num só Concílio Geral

No Concílio Geral de 2024, deu-se um passo histórico: os concílios Brasileiro e Nikkei se uniram no Concílio Geral Brasileiro, conduzida por dois bispos. As duas alas que a história separara em 1966 voltaram a caminhar juntas, sob um mesmo Concílio Geral.

Conferência Brasileira
José Ildo Swartele de Mello
Conferência Nikkei
Daniel Abe
Em 2025, sucedido por Paulo Emori

Em 2025, Paulo Emori foi eleito bispo, sucedendo Daniel Abe na liderança da Conferência Nikkei.

“Eu plantei, Apolo regou; mas o crescimento veio de Deus.” (1Co 3.6)
De três pessoas, em 1928, a uma conferência geral que abraça todo o Brasil.

Créditos. Pr. Luiz Roberto da Silva, Pr. Nilson Campos Portugal Santos, Sr. Silvio Maemura, Sra. Carmem Abe, Bispo Daniel Abe. Organização e edição: Bispo Ildo Mello.

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