História da IgrejaSérie 2 · Aula 1

Puritanos, Armínio e o século da ortodoxia

“Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens.”Tito 2.11 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: 1Tm 2.1-6; Tt 2.11-14; At 5.27-32

Para começar

Depois da Reforma, o quê?

A Reforma recuperou o evangelho; e a geração seguinte, o que fez com ele? Quem foram os puritanos, e por que tanta gente séria os admira e tão pouca gente os conhece? E quem foi Jacó Armínio, o teólogo holandês cujo nome carregamos no adjetivo “arminiano”, e o que ele realmente ensinou, por trás das caricaturas?

1

O perigo da segunda geração

Doutrina purificada pode virar ortodoxia congelada. O século 17 foi o século dos sistemas, das confissões e, também, das primeiras reações à fé fria.

2

O debate que nos define

Armínio contra a dupla predestinação; a Remonstrância de 1610; o Sínodo de Dort. É a raiz do debate que atravessa o metodismo até hoje.

O que esta aula cobre. O século 17, de 1600 a 1700: os puritanos ingleses, Jacó Armínio e os remonstrantes, o Sínodo de Dort, a Grande Ejeção e o solo em que, uma geração depois, nasceria o metodismo. É a primeira de oito aulas da série Da Reforma aos nossos dias.

Situando-se na história

Linha do tempo (1600-1700)

1603

Armínio em Leiden

O pastor de Amsterdã torna-se professor de teologia na universidade de Leiden, e o debate sobre a predestinação esquenta na Holanda.

1610

A Remonstrância

Um ano após a morte de Armínio, seus discípulos resumem a posição dele em cinco artigos: a eleição é em Cristo, dos que creem; a graça alcança a todos e pode ser resistida.

1618-1619

Sínodo de Dort

O sínodo calvinista condena os remonstrantes e formula os cinco pontos que ficariam conhecidos pela sigla TULIP. Pastores remonstrantes são depostos e exilados.

1620

O Mayflower

Separatistas ingleses partem para a América em busca de liberdade para viver sua fé: a semente puritana do Novo Mundo.

1643-1649

Assembleia de Westminster

No meio da guerra civil inglesa, teólogos puritanos produzem os documentos que definiriam o calvinismo de língua inglesa.

1662

A Grande Ejeção

Cerca de dois mil pastores puritanos são expulsos da Igreja da Inglaterra por recusar o conformismo imposto. Entre eles, os dois avôs de John Wesley.

1678

O Peregrino

Da prisão de Bedford, o funileiro batista John Bunyan publica O Peregrino, o livro cristão mais lido da história depois da Bíblia.

1689

Ato de Tolerância

A Inglaterra concede liberdade de culto aos dissidentes protestantes. O terreno do futuro avivamento está preparado.

Parte 1

Os puritanos: a Reforma levada para dentro de casa

“Puritano” nasceu como apelido de zombaria, como “metodista” nasceria depois. Designava os ingleses que achavam que a Reforma da sua igreja havia parado no meio do caminho: reformou-se a doutrina, mas faltava reformar a vida, o culto e o coração.

O que os puritanos queriam, na essência, era levar a Reforma da catedral para a cozinha: culto centrado na pregação da Escritura, domingo dedicado ao Senhor, culto doméstico diário com Bíblia e salmos, autoexame sério da alma, vocação vivida como serviço a Deus. Produziram uma literatura pastoral que ainda alimenta a igreja: Richard Baxter escreveu O Pastor Aprovado; John Owen, tratados sobre a mortificação do pecado; e John Bunyan, da cadeia, deu à fé cristã o seu maior romance, O Peregrino, a jornada de Cristão da Cidade da Destruição à Cidade Celestial.

O que herdar deles

A seriedade com a Escritura, a piedade doméstica, o domingo guardado, a consciência examinada, a vocação santificada. Wesley leu os puritanos a vida inteira e os republicou na sua Biblioteca Cristã.

O que não herdar

Quando tiveram poder político (na Inglaterra de Cromwell e na Nova Inglaterra), tentaram impor santidade por lei, e a experiência azedou. Santidade imposta não é santidade; é a velha tentação constantiniana de novo.

Parte 2

Armínio: o teólogo que ousou reexaminar

Jacó Armínio (1560-1609) não era um rebelde; era um pastor e professor reformado, formado na Genebra de Beza, respeitado por piedade e erudição. Encarregado de refutar críticos da dupla predestinação, fez o que um teólogo honesto faz: reexaminou a questão pela Escritura. E concluiu que os críticos tinham razão no essencial.

O que Armínio passou a ensinar, e que expôs em sua Declaração de Sentimentos (1608), pode ser resumido assim: a eleição de Deus não é um decreto arbitrário sobre indivíduos sem consideração da fé; Deus elege, em Cristo, os que creem e perseveram (Ef 1.4; Jo 3.16). Cristo morreu por todos os homens (1Jo 2.2; Hb 2.9). O homem caído nada pode sem a graça, e Armínio foi enfático nisso: toda a iniciativa é de Deus. Mas a graça que precede, desperta e capacita não é irresistível: pode ser recusada (At 7.51; Mt 23.37).

Desfazendo a caricatura: Armínio não ensinou salvação por mérito, não negou o pecado original, não diminuiu a graça. A diferença entre Armínio e Dort nunca foi “graça contra obras”: o debate formal tratava de eleição, alcance da expiação, graça e perseverança. Da perspectiva armínio-wesleyana, porém, essas diferenças tocam por fim o caráter de Deus: Deus quer que todos sejam salvos (1Tm 2.4), ou decretou desde a eternidade a perdição de parte da humanidade? Este site mantém dois estudos detalhados sobre esse debate, com os textos bíblicos examinados um a um.

Armínio morreu em 1609, no meio da controvérsia. Em 1610, seus discípulos apresentaram ao governo holandês a Remonstrância, um protesto em cinco artigos: eleição condicional (dos que creem), expiação universal, incapacidade humana sem a graça, graça resistível, e perseverança dependente da permanência em Cristo. A resposta veio no Sínodo de Dort (1618-1619): os remonstrantes foram convocados, mas não admitidos como participantes em igualdade de condições; após semanas de conflito sobre o procedimento, foram afastados das sessões, e o sínodo julgou e condenou suas doutrinas a partir dos seus escritos. Cerca de duzentos pastores foram depostos e muitos exilados; e, no conflito político paralelo, o estadista Oldenbarnevelt, aliado dos remonstrantes, foi condenado pelo Estado e executado. Os cânones de Dort seriam resumidos, muito mais tarde, na sigla popular TULIP.

Parte 3

Depois de Dort: o século dos sistemas e o perigo da fé fria

O século 17 foi o século da ortodoxia confessional: cada tradição protestante lapidou seus documentos, seus sistemas, suas fronteiras. Dort na Holanda, Westminster na Inglaterra, a escolástica luterana na Alemanha. Havia ganho real nisso: precisão, catecismo, solidez.

Mas o século dos sistemas gerou um efeito colateral que os próprios contemporâneos denunciaram: a fé podia virar assinatura de documento. Nascia-se luterano, calvinista ou anglicano como se nasce cidadão; a ortodoxia da cabeça convivia com a frieza do coração; e as guerras religiosas (a Guerra dos Trinta Anos devastou a Alemanha entre 1618 e 1648) desacreditaram a fé diante de uma Europa exausta. É contra esse pano de fundo que Deus levantaria as duas reações que estudaremos a seguir: o pietismo alemão (próxima aula) e o avivamento metodista (aula 3).

A Inglaterra da Restauração

Depois de Cromwell, a monarquia restaurada impôs a uniformidade (1662), expulsou os puritanos e abriu um período de decadência moral notória na corte e de sonolência espiritual nas paróquias. O Ato de Tolerância (1689) deu liberdade aos dissidentes, mas a vitalidade não voltou por decreto.

O vazio que o avivamento preencheria

No início do século 18, observadores sérios descreviam uma Inglaterra de igrejas formais, embriaguez epidêmica e povo abandonado. Foi nesse país que dois netos de puritanos ejetados, criados numa reitoria anglicana, sentiriam o coração aquecido.

Fontes primárias

Vozes do século 17

A ponte wesleyana

Por que Wesley se chamou arminiano

Cento e setenta anos depois de Dort, John Wesley deu ao periódico do metodismo o nome de Revista Arminiana (The Arminian Magazine, 1778). Não foi capricho: foi bandeira.

Wesley recebeu dos puritanos, pela casa da mãe (Susanna era filha do ejetado Samuel Annesley), a seriedade da piedade, o método da vida examinada e o não-conformismo da consciência. E abraçou de Armínio a resposta à pergunta decisiva: a quem Deus ama e quer salvar? A todos. Wesley pregou a vida inteira que a graça de Deus é livre em todos e para todos: preveniente (alcança cada pessoa antes de qualquer mérito), suficiente (capaz de salvar qualquer pecador) e resistível (pode ser recusada, por isso o evangelho suplica: “não recebam em vão a graça de Deus”, 2Co 6.1).

Da história para a vida

Aplicação pastoral

1

Ortodoxia sem coração adoece

O século 17 provou que doutrina exata não substitui vida com Deus. A pergunta puritana continua válida: a sua fé chegou à sua casa, ao seu domingo, ao seu bolso, à sua agenda? Ou mora só na sua cabeça?

2

Consciência não se terceiriza

Dois mil pastores perderam tudo em 1662 por não assinarem o que não criam. Numa época de conveniências, a Grande Ejeção pergunta: o que você não assinaria, mesmo que custasse caro (At 5.29)?

3

Defenda a graça para todos, com graça

Armínio debateu sem perder a mansidão, e pagou caro por reexaminar tudo pela Escritura. Ao conversar com irmãos calvinistas, honre-os como irmãos: o debate é de família, e o alvo é a verdade, não a vitória (Ef 4.15).

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o conteúdo. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Dez questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe: errar aqui também ensina.

0 de 10 respondidas

Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Os puritanos levavam a fé para dentro de casa: culto doméstico diário, com Escritura, oração e salmos. O que existe hoje de culto doméstico na sua casa, e qual seria um primeiro passo realista nesta semana?Ver resposta sugerida
Seja honesto no diagnóstico: na maioria dos lares evangélicos brasileiros, a fé é terceirizada ao culto de domingo, e a casa ficou sem altar. O primeiro passo não é um programa de uma hora, é um hábito de dez minutos: um horário fixo (o jantar é o mais realista), um texto curto lido em voz alta (um evangelho, seguido), uma pergunta simples (“o que este texto diz de Deus? e de nós?”), uma oração de cada pessoa, mesmo de uma linha, e talvez um cântico. Dt 6.6-7 põe a responsabilidade nos pais, não na igreja: “você as inculcará a seus filhos”. Duas advertências puritanas continuam válidas: constância vale mais que intensidade (dez minutos diários formam mais que um retiro anual) e o pai ou a mãe que lidera precisa ter vida secreta com Deus, porque criança percebe encenação. Comece nesta semana, com data marcada, e conte a alguém que possa cobrar de você.
Um irmão calvinista sincero diz: “o arminianismo rouba a glória de Deus, porque faz a salvação depender do homem”. Como responder com verdade e mansidão, usando o que esta aula mostrou?Ver resposta sugerida
Primeiro, agradeça o zelo: a preocupação com a glória de Deus e com a graça é justa, e é nossa também. Depois, desfaça o equívoco com o próprio Armínio: “atribuo à graça o começo, a continuação e a consumação de todo bem”. No arminianismo clássico, ninguém dá um passo em direção a Deus sem que a graça preveniente o tenha alcançado primeiro; a fé não é obra meritória, é a mão vazia do mendigo que recebe (Rm 4.16; Ef 2.8-9). A pergunta real do debate é outra: a graça que salva é oferecida a todos e pode ser recusada, ou é concedida irresistivelmente a alguns e negada aos demais desde a eternidade? Cremos que a Escritura responde: Deus quer que todos sejam salvos (1Tm 2.4), Cristo provou a morte por todos (Hb 2.9), e homens resistiram ao Espírito (At 7.51; Mt 23.37). E devolva a pergunta sobre a glória com carinho: o que glorifica mais a Deus, um amor que alcança de fato cada pecador, ou um decreto que exclui parte deles antes que nascessem? Termine como a aula: o debate é de família, e o irmão continua irmão. Indique os dois estudos deste site sobre os textos do debate.

Para casa e próxima aula

Para aprofundar. Sobre o debate entre calvinismo e arminianismo, leia os estudos deste site: Os textos de prova do calvinismo e Os textos do debate, com 44 versículos examinados à luz das Notas de Wesley. E leia O Peregrino, de Bunyan, disponível em várias edições brasileiras.

Na próxima aula: “O pietismo: a religião do coração (1650-1750)”. Spener, Francke, Zinzendorf e os morávios: a corrente que aqueceria o coração de Wesley.

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. Trechos de fontes históricas traduzidos dos originais em domínio público com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.