SERMÃO 132

Sobre o lançamento dos alicerces da nova capela, próxima à City Road, Londres

“Que coisas Deus tem feito!” — no lançamento da capela de City Road, Wesley define o metodismo: não uma religião nova, mas a velha religião da Bíblia e da igreja primitiva.

Nm 23.23, NAA ⏱ 21 min de leituraIgreja, unidade e missão

“Naquele tempo se dirá: ‘Que coisas Deus tem feito!’”

(Nm 23.23, NAA)

Antes de ler

Este sermão foi pregado durante o lançamento dos alicerces da capela que posteriormente ficou conhecida como Wesley’s Chapel, em Londres. Aproveitando a ocasião, John Wesley apresenta um resumo histórico do surgimento e da expansão do metodismo.

O sermão contém uma das definições mais importantes de Wesley: o metodismo não pretendia ser uma nova religião, mas uma recuperação da religião bíblica, da fé da Igreja primitiva e da doutrina da Igreja da Inglaterra. Essa religião consiste no amor a Deus e a toda a humanidade, manifestado em santidade interior e exterior.

Wesley também reafirma seu propósito, naquele momento, de não formar uma denominação separada. O desenvolvimento histórico posterior conduziu as comunidades metodistas à organização como Igrejas autônomas. Isso não diminui o valor de seu chamado à unidade cristã, à cooperação e à centralidade do amor.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

Pregado na segunda-feira, 21 de abril de 1777.

1. Não precisamos investigar agora em que sentido estas palavras se aplicavam aos filhos de Israel. Talvez seja mais proveitoso considerar em que sentido se aplicam a nós: até que ponto o povo da Inglaterra possui razão para declarar: “Naquele tempo se dirá: ‘Que coisas Deus tem feito!’”

2. Um grande homem, que confio estar agora num mundo melhor, o doutor Gibson, falecido bispo de Londres, negou claramente, numa de suas orientações ao clero, que Deus tivesse realizado alguma “obra extraordinária” em nossa nação. Afirmou até que imaginar semelhante coisa não passava de verdadeiro fanatismo. Realmente seria fanatismo caso sua suposição fosse verdadeira, isto é, caso Deus não tivesse realizado obra extraordinária. Caso, porém, realmente tenha realizado, poderemos acreditar nisso e afirmá-lo sem merecermos semelhante acusação.

3. Entretanto, um homem ainda maior de uma nação vizinha, uma luz brilhante e ardente, igualmente notável pela piedade e pelo conhecimento, confirmou parcialmente a suposição do bispo. Bengel, quando lhe perguntaram por que colocava o grande avivamento religioso somente no ano de 1836, respondeu: “Reconheço que todas as profecias me levariam a colocá-lo um século antes. Existe, porém, dificuldade insuperável: não consigo harmonizar isso com os acontecimentos, pois desconheço alguma obra notável de Deus realizada na terra entre os anos de 1730 e 1740.”

Isso é realmente surpreendente. É estranho que pessoas sensatas conheçam tão pouco aquilo que acontece a distância tão pequena. Como homem tão importante poderia ignorar aquilo que acontecia na Inglaterra, especialmente considerando os relatos publicados na Alemanha, alguns deles razoavelmente imparciais? Mais ainda: considerando o relato específico que eu havia enviado, já em 1742, a uma pessoa conhecida em todo o império, o pastor — posteriormente superintendente — Steinmetz?

4. Deus realizou realmente alguma obra extraordinária na Inglaterra durante este século? Essa é pergunta importante, certamente digna de séria consideração. É possível respondê-la para plena satisfação de todo investigador imparcial. Poderá informar-se facilmente sobre qual foi essa obra e de que maneira foi realizada.

É verdade que, sob determinado aspecto, não sou a pessoa mais apropriada para oferecer essa informação, pois serei obrigado a falar frequentemente sobre mim mesmo, o que poderá parecer ostentação. Quanto a isso, somente posso confiar na generosidade dos ouvintes, convencido de que interpretarão da maneira mais favorável aquilo que não faço por escolha, mas por necessidade.

Caso eu recuse essa tarefa, não existe outra pessoa que possa ocupar meu lugar e que possua conhecimento completo dessa obra, desde o princípio até o presente dia. Podemos considerar:

Primeiro, o surgimento e o progresso dessa obra;

Segundo, sua natureza.

O SURGIMENTO E O PROGRESSO DA OBRA

1. Quanto ao seu surgimento: no ano de 1725, um jovem estudante de Oxford ficou profundamente impressionado ao ler Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis, e Regras para Viver e Morrer Santamente, do bispo Jeremy Taylor. Sentiu intenso desejo de viver de acordo com aquelas orientações e de fugir da ira futura. Procurou pessoas que o acompanhassem nesse caminho, mas não encontrou nenhuma. Durante vários anos, foi obrigado a caminhar sozinho, sem pessoa alguma que o orientasse ou ajudasse.

No ano de 1729, porém, encontrou alguém que possuía o mesmo desejo. Procuraram, então, ajudar um ao outro. No final do ano, outros dois se uniram a eles. Logo concordaram em passar duas ou três horas juntos todos os domingos à noite. Depois, reuniam-se duas noites por semana e, algum tempo mais tarde, seis noites, dedicando aquele período à leitura das Escrituras e ao incentivo mútuo ao amor e às boas obras.

2. A regularidade de seu comportamento levou um jovem do colégio a dizer: “Parece que agora temos novo grupo de metodistas”, fazendo referência a uma escola de médicos que começou a prosperar em Roma aproximadamente na época de Nero e permaneceu durante diversos séculos.

O nome era novo e curioso e imediatamente ficou ligado a eles. Desde aquele momento, tanto aqueles quatro jovens quanto todos os que possuíam algum relacionamento religioso com eles passaram a ser conhecidos como metodistas.

3. Nos quatro ou cinco anos seguintes, uma pessoa após outra se acrescentou ao grupo, até que, em 1735, catorze pessoas se reuniam regularmente. Três delas eram tutores em seus respectivos colégios; as demais eram bacharéis em Artes ou estudantes de graduação.

Todos possuíam precisamente o mesmo julgamento e a mesma alma. Eram extremamente zelosos pela ordem e observavam, por motivo de consciência, todas as regras da Igreja, todos os estatutos da Universidade e de seus respectivos colégios. Eram ortodoxos em todos os aspectos, acreditando firmemente não somente nos três credos, mas em tudo aquilo que consideravam doutrina da Igreja da Inglaterra, conforme seus Artigos e suas Homilias.

Quanto à prática da Igreja apostólica de ter todas as coisas em comum — prática que continuou, pelo menos em muitas Igrejas, até o tempo de Tertuliano —, eles não possuíam regra nem plano formal a respeito disso. Na prática, porém, era isso que acontecia, e não poderia ser diferente, pois ninguém permanecia em necessidade quando outra pessoa possuía alguma coisa que poderia repartir.

Essa foi a infância da obra. Não possuíam concepção alguma daquilo que viria depois. Na realidade, não se preocupavam com o dia seguinte, desejando apenas viver o dia presente.

4. Muitos imaginavam que aquela pequena sociedade seria dispersa e que o metodismo, assim chamado, terminaria quando, em outubro de 1735, meu irmão, o senhor Ingham e eu fomos conduzidos, por extraordinária sequência de providências, à nova colônia da Geórgia.

Nosso propósito era pregar às nações indígenas que habitavam as regiões próximas daquela província. Fomos, porém, impedidos de fazê-lo em Savannah e Frederica pela insistência dos habitantes que, não possuindo outros ministros, pediram seriamente que não os abandonássemos.

Depois de algum tempo, convidei as pessoas mais sérias a reunirem-se uma ou duas vezes por semana em minha casa. Ali estavam os primeiros elementos de uma sociedade metodista. Apesar disso, meu irmão e eu permanecíamos tão intensamente ligados à Igreja quanto anteriormente e a todas as suas regras, a ponto de eu jamais admitir uma pessoa dissidente à Ceia do Senhor sem que fosse novamente batizada.

Quando o ministro luterano dos salzburgueses de Ebenezer, estando em Savannah, pediu para participar da Ceia, respondi que não me atrevia a administrá-la a ele porque o considerava não batizado. Naquele tempo, julgava inválido o batismo administrado por leigos e considerava leigos todos aqueles que não haviam sido ordenados episcopalmente.

5. Cheio dessas opiniões e desse zelo pela Igreja — dos quais bendigo a Deus por ter-me libertado —, retornei à Inglaterra no início de fevereiro de 1738. Desejava retirar-me rapidamente para Oxford e esconder-me em minha amada obscuridade. Fui, porém, mantido em Londres semana após semana pelos administradores da Colônia da Geórgia.

Enquanto isso, recebia continuamente convites para pregar numa igreja após outra, não somente pela manhã, à tarde e à noite dos domingos, mas também durante a semana.

Como eu havia acabado de retornar de país distante, grandes multidões se reuniam. Em pouco tempo, porém, em parte por causa das multidões difíceis de acomodar e em parte por causa de minha doutrina fora de moda, fui excluído de uma igreja após outra e, finalmente, de todas elas.

Não me atrevendo a permanecer em silêncio, depois de breve conflito entre a honra e a consciência, transformei a necessidade em virtude e preguei no centro de Moorfields.

Ali estavam milhares e milhares de pessoas, número muito maior do que qualquer igreja poderia receber. Entre elas, encontravam-se muitas que nunca frequentavam igreja ou qualquer outro lugar de culto público.

Cada vez mais pessoas foram profundamente convencidas e me procuraram chorando, perguntando com grande ansiedade o que deveriam fazer para serem salvas. Respondi: “Caso todos vocês se reúnam na quinta-feira à noite, procurarei orientá-los da melhor maneira possível.”

Na primeira noite, vieram aproximadamente doze pessoas; na semana seguinte, trinta ou quarenta. Quando o número aumentou para aproximadamente cem, anotei seus nomes e endereços, planejando visitá-las em suas casas sempre que fosse conveniente.

Assim, sem plano ou projeto anterior, começou a sociedade metodista na Inglaterra: grupo de pessoas que se associava para ajudar mutuamente cada participante a desenvolver a própria salvação.

6. Na primavera seguinte, fomos convidados para Bristol e Kingswood, onde sociedades também foram rapidamente formadas. No ano seguinte, viajamos para Newcastle-upon-Tyne e pregamos a todos os mineiros e trabalhadores dos barcos da região.

Em 1744, percorremos a Cornualha até Sennen, próximo de Land’s End. No espaço de mais dois ou três anos, alcançamos quase todas as partes da Inglaterra.

Algum tempo depois, fomos convidados para a Irlanda e, progressivamente, para todos os seus condados.

Finalmente, fomos convidados para Musselburgh, Glasgow e diversas outras regiões da Escócia. Foi, porém, em Edimburgo, Glasgow, Dundee, Arbroath e Aberdeen que contemplamos o maior fruto de nosso trabalho.

A NATUREZA DO METODISMO

1. Assim surgiu e assim progrediu o metodismo, desde o princípio até o presente momento. Naturalmente, vocês perguntarão: “O que é o metodismo? O que significa essa nova palavra? Não seria uma nova religião?”

Essa é suposição muito comum, praticamente universal. Nada, porém, poderia estar mais distante da verdade. É completo engano.

O metodismo, assim chamado, é a antiga religião: a religião da Bíblia, a religião da Igreja primitiva e a religião da Igreja da Inglaterra.

Essa antiga religião, como observei no Apelo Sério aos Homens de Razão e Religião, não é outra coisa além do amor: amor a Deus e a toda a humanidade.

É amar a Deus com todo o coração, toda a alma e todas as forças, reconhecendo que ele nos amou primeiro e que é a fonte de todo o bem que recebemos e de tudo aquilo que esperamos desfrutar. É amar toda alma criada por Deus, toda pessoa sobre a terra, como amamos a própria alma.

Esse amor é o grande remédio da vida, a cura que nunca falha para todos os males de um mundo desordenado, para todas as misérias e vícios humanos.

Onde ele existe, virtude e felicidade caminham juntas. Ali existem humildade, mansidão, paciência e toda a imagem de Deus. Ao mesmo tempo, existe a paz que excede todo entendimento e alegria indescritível e cheia de glória.

Essa religião do amor, da alegria e da paz possui sua morada no mais íntimo da alma. Entretanto, manifesta-se sempre por seus frutos, surgindo continuamente não somente na inocência — pois o amor não pratica o mal contra o próximo —, mas também em toda espécie de generosidade, espalhando virtude e felicidade ao redor.

2. Essa é a religião da Bíblia, como ninguém poderá negar caso a leia com atenção. É a religião ensinada continuamente nela e que percorre tanto o Antigo quanto o Novo Testamento.

Moisés e os Profetas, nosso bendito Senhor e seus apóstolos proclamam com uma só voz: “Ame o Senhor, seu Deus, com toda a sua alma e o próximo como a si mesmo.”

A Bíblia declara que o amor é o cumprimento da Lei e a finalidade do mandamento, de todos os mandamentos contidos nos oráculos de Deus.

Os frutos interiores e exteriores desse amor também são amplamente descritos pelos escritores inspirados. Portanto, todo aquele que reconhece as Escrituras como Palavra de Deus precisa reconhecer que essa é a verdadeira religião.

3. Essa é a religião da Igreja primitiva, de toda a Igreja em suas épocas mais puras. É claramente expressa até mesmo nos pequenos escritos restantes de Clemente de Roma, Inácio e Policarpo. Aparece mais amplamente nos escritos de Tertuliano, Orígenes, Clemente de Alexandria e Cipriano. Mesmo no quarto século, encontra-se nas obras de Crisóstomo, Basílio, Efrém, o Sírio, e Macário.

Seria fácil apresentar “grande nuvem de testemunhas” afirmando a mesma coisa, caso esse ponto pudesse ser contestado por alguém que possua o menor conhecimento da Antiguidade cristã.

4. Essa também é a religião da Igreja da Inglaterra, como se percebe em todos os seus documentos oficiais, no conteúdo uniforme de sua liturgia e em inúmeras passagens de suas Homilias.

A religião bíblica e primitiva do amor, que atualmente está sendo despertada nos três reinos, encontra-se em seus cultos matutino e vespertino e em suas orações diárias e ocasionais.

Toda ela está belamente resumida naquela oração abrangente: “Purifica os pensamentos de nosso coração pela inspiração de teu Espírito Santo, para que possamos amar-te perfeitamente e magnificar dignamente teu santo nome.”

5. Permitam-me apresentar relato um pouco mais completo sobre o progresso e a natureza dessa religião, utilizando trecho de tratado publicado muitos anos antes:

“Exatamente quando faltava pouco para completarmos a medida de nossas iniquidades, dois ou três clérigos da Igreja da Inglaterra começaram a chamar vigorosamente os pecadores ao arrependimento.

“Muitos milhares se reuniram para ouvi-los. Em todos os lugares aos quais chegaram, muitas pessoas começaram a demonstrar preocupação com a religião como nunca haviam demonstrado anteriormente.

“Em pouco tempo, muitas foram profundamente convencidas da quantidade e gravidade dos próprios pecados, das disposições más, da incapacidade de ajudarem a si mesmas e da inutilidade de uma religião exclusivamente exterior.

“Desse arrependimento nasceram frutos dignos de arrependimento. Toda a forma de sua vida foi transformada.

“Deixaram de praticar o mal e aprenderam a praticar o bem.

“Isso, porém, não foi tudo. Além da transformação exterior, começaram a experimentar religião interior. O amor de Deus foi derramado em seu coração, e elas o desfrutam até hoje.

“Amam a Deus porque ele as amou primeiro. Esse amor as constrange a amar toda a humanidade e inspira nelas todas as disposições santas e celestiais, a mesma mente que houve em Cristo.

“Por isso, atualmente são uniformes em seu comportamento e irrepreensíveis em toda sua maneira de viver. Em qualquer condição, aprenderam a permanecer contentes.

“Assim, caminham tranquilamente pela vida, sem murmuração, queixa ou insatisfação, até chegar a hora em que deixarão esta cobertura terrena e retornarão ao Pai dos espíritos.”

6. Esse avivamento religioso espalhou-se numa extensão desconhecida por nós e por nossos pais. Como tem sido amplo! Dificilmente existe cidade importante no reino na qual algumas pessoas não tenham se tornado suas testemunhas.

Alcançou todas as idades e os dois sexos, a maioria das classes e posições sociais e até grande número daqueles que anteriormente eram considerados exemplos extremos de perversidade.

Considerem sua rapidez, assim como sua extensão. Em qual época tão grande número de pecadores foi recuperado, em tão pouco tempo, do erro de seus caminhos?

Quando a verdadeira religião — não digo somente desde a Reforma, mas desde o tempo de Constantino, o Grande — realizou progresso tão amplo numa nação durante espaço tão pequeno de tempo?

Creio que dificilmente a história antiga ou moderna poderia apresentar exemplo paralelo.

7. Podemos observar também a profundidade da obra realizada tão extensa e rapidamente. Multidões foram profundamente convencidas do pecado e, pouco depois, tão cheias de alegria e amor que dificilmente sabiam se estavam no corpo ou fora dele.

Pelo poder desse amor, pisaram todas as coisas que o mundo considera assustadoras ou desejáveis. Demonstraram, nas provações mais severas, boa vontade constante e terna para com a humanidade e todos os frutos da santidade.

O mundo não contemplava havia muitas gerações arrependimento tão profundo, fé tão forte, amor tão fervoroso e santidade tão irrepreensível, produzidos em tantas pessoas durante período tão pequeno.

8. Igualmente notável é a pureza da religião que se espalhou tão profunda e rapidamente. Refiro-me especialmente às doutrinas sustentadas por aqueles que participam dela.

Pelo menos os membros da Igreja da Inglaterra precisam reconhecer isso, pois onde encontraremos grupo de pessoas que, proporcionalmente, permaneça tão próximo das doutrinas da Igreja?

Sua religião está tão livre da superstição quanto da heresia. Em épocas anteriores, sempre que aparecia preocupação religiosa incomum, surgia juntamente com ela zelo por coisas que não pertenciam à religião.

Isso não aconteceu no caso presente. Nenhuma importância foi atribuída como necessária à salvação a coisa alguma que não esteja claramente contida na Palavra de Deus.

Entre as coisas nela contidas, a importância atribuída a cada uma corresponde à proximidade de sua relação com aquilo que é apresentado como resumo de todas: o amor a Deus e ao próximo.

Assim, a religião recentemente espalhada nesta nação está livre tanto da superstição quanto do erro.

9. Também é racional. Está tão livre do fanatismo quanto da superstição.

É verdade que o contrário tem sido continuamente afirmado. Afirmar, porém, é uma coisa; provar é outra.

Quem demonstrará que amar a Deus, sim, amá-lo de todo o coração, é fanatismo? Quem conseguirá demonstrar essa acusação contra o amor por toda a humanidade?

Caso não consigam demonstrá-la, reconheçam que essa religião é equilibrada, digna, racional e divina.

10. Também está livre da intolerância. Aqueles que a sustentam não são intolerantes quanto às opiniões. Desejam possuir opiniões corretas, mas possuem cuidado especial para não colocar nelas todo o peso do cristianismo.

Não possuem apego tão exagerado a alguma opinião a ponto de imaginar que somente ela os transformará em cristãos ou de limitar seu afeto e consideração àqueles que concordam com eles.

Também não são excessivamente ligados a algum aspecto específico da religião prática. Não estão unidos a um ponto mais do que aos outros, mas procuram obediência uniforme e universal.

Não defendem coisa alguma circunstancial como se fosse essencial à religião, mas colocam cada coisa em sua devida ordem.

11. Temem aquele zelo amargo, aquele espírito de perseguição, que tantas vezes acompanhou o espírito de reforma.

Não aprovam a utilização de violência de espécie alguma e sob pretexto algum nas questões religiosas. Não reconhecem método algum para conduzir pessoas ao conhecimento da verdade além da razão e da persuasão.

Sua prática concorda com sua profissão. Não impedem as pessoas que deles dependem de adorarem a Deus, em todos os aspectos, segundo a própria consciência.

Caso essas coisas sejam verdadeiras, não poderíamos declarar: “Que coisas Deus tem feito!”?

Considerando a extensão dessa obra, a rapidez com que se espalhou, a profundidade da religião difundida tão rapidamente e sua pureza de toda mistura corrupta, precisamos reconhecer que, em todas essas circunstâncias reunidas, dificilmente existe coisa semelhante nos registros ingleses desde que o cristianismo foi introduzido nesta ilha.

12. Talvez seja proveitoso mencionar mais uma circunstância relacionada ao atual avivamento religioso. Segundo meu entendimento, ela lhe é inteiramente peculiar. Não me recordo de ter visto, ouvido ou lido coisa semelhante.

Não se pode negar que existiram diversos avivamentos religiosos importantes na Inglaterra desde a Reforma.

A maioria da nação inglesa, porém, recebeu pequeno benefício deles, pois as pessoas envolvidas nesses avivamentos — pregadores e povo — logo se separaram da Igreja estabelecida e formaram seita distinta.

Assim fizeram primeiramente os presbiterianos; depois, os independentes, os anabatistas e os quakers.

Depois que fizeram isso, realizaram pouco bem além dos limites de seu pequeno grupo.

Assim como escolheram separar-se da Igreja, as pessoas que permaneceram nela também se separaram deles e geralmente desenvolveram preconceito contra eles.

Essas pessoas constituíam número imensamente maior. Por isso, mediante aquela separação infeliz, toda esperança de reforma geral e nacional foi interrompida.

13. Isso, porém, não acontece no atual avivamento religioso. Os metodistas, assim chamados, conhecem sua vocação.

Consideraram a questão desde o início e, depois de reflexão madura, decidiram continuar na Igreja.

Desde então, não lhes faltaram tentações de todas as espécies para alterar essa decisão.

Ouviram grande quantidade de argumentos sobre o assunto, talvez tudo aquilo que possa ser dito. Leram os escritos dos defensores mais conhecidos da separação, tanto do século anterior quanto do presente.

Passaram diversos dias numa Conferência Geral examinando esta pergunta: “É conveniente — supondo, mas não reconhecendo, que seja lícito — separar-nos da Igreja estabelecida?”

Ainda assim, não conseguiram enxergar causa suficiente para abandonar sua primeira decisão.

Seu propósito firme, portanto, é este: quer o clero e os leigos os tratem bem ou mal, pela graça de Deus suportarão todas as coisas, continuarão no mesmo caminho e permanecerão na Igreja, apesar das pessoas ou dos demônios, a menos que Deus permita que sejam expulsos.

14. Aproximadamente vinte anos antes, logo depois da consulta solene sobre esse assunto, um clérigo que havia ouvido toda a discussão declarou com grande seriedade:

“Em nome de Deus, não permitam que coisa alguma os faça recuar dessa decisão. Deus está verdadeiramente com vocês e continuará estando enquanto permanecerem na Igreja. No momento em que os metodistas abandonarem a Igreja, Deus os abandonará.”

Senhor, o que é o ser humano! Poucos meses depois, o próprio senhor Ingham abandonou a Igreja e transformou todas as sociedades sob seus cuidados em congregações independentes.

Qual foi o resultado? Exatamente aquilo que havia predito: rapidamente se desfizeram e desapareceram.

Alguns anos depois, uma pessoa de posição social elevada me disse: “Esta é a glória peculiar dos metodistas: por mais conveniente que parecesse, não formariam, sob hipótese ou pretexto algum, seita ou partido separado. Não permita que alguém retire de vocês essa glória.”

Confio que ninguém o fará enquanto eu viver. A pessoa que apresentou esse conselho, porém, esqueceu-se completamente dele em pouquíssimo tempo e, desde então, tem trabalhado para formar congregações independentes.

15. Isso levou muitos a perguntarem: “Por que você afirma que os metodistas não formam partido separado e não abandonam a Igreja? Não existem milhares de metodistas que realmente abandonaram a Igreja, nunca frequentam seu culto, nunca participam ali da Ceia do Senhor e até falam contra a Igreja com amargura, tanto pública quanto particularmente? Não marcam e frequentam reuniões religiosas no mesmo horário? Como, então, você poderá afirmar que os metodistas não abandonam a Igreja?”

Alegro-me por possuir oportunidade pública de explicar isso. Para fazê-lo, será necessário olhar alguns anos para trás.

Os metodistas de Oxford constituíam um só corpo e, por assim dizer, uma só alma. Eram zelosos pela religião da Bíblia, da Igreja primitiva e, consequentemente, da Igreja da Inglaterra, pois acreditavam que ela se aproximava mais do plano bíblico e primitivo do que qualquer outra Igreja nacional existente.

Quando meu irmão e eu retornamos da Geórgia, permanecíamos com o mesmo pensamento. Naquele tempo, nós e nossos amigos éramos as únicas pessoas às quais aquele nome inocente era aplicado.

Até então, portanto, todos os metodistas permaneciam firmemente ligados à Igreja da Inglaterra.

16. Um homem bom que se reunia conosco em Oxford, porém, durante sua ausência conversou muito com dissidentes e desenvolveu forte preconceito contra a Igreja. Refiro-me ao senhor Whitefield. Pouco depois, separou-se completamente de nós.

Alguns anos depois, William Cudworth e diversos outros se separaram dele e tornaram-se independentes, assim como o senhor Maxfield e poucos outros depois de se separarem de nós.

Finalmente, uma escola foi estabelecida perto de Trevecca, no País de Gales. Praticamente todos os que foram educados ali — exceto aqueles que foram ordenados, e até alguns destes —, assim como rejeitavam qualquer relacionamento com os metodistas, também rejeitavam a Igreja e falavam dela em todas as ocasiões com extraordinária amargura e desprezo.

Toda pessoa imparcial julgue se somos responsáveis por algum desses grupos. Nenhum deles possui qualquer relacionamento com os metodistas originais. São ramos quebrados da árvore. Caso também se separem da Igreja, não somos responsáveis por isso.

Esses grupos, portanto, não anulam nossa afirmação de que não formamos e não formaremos seita separada, mas permanecemos, por princípio, aquilo que sempre fomos: verdadeiros membros da Igreja da Inglaterra.

17. Irmãos, suponho que a maior parte de vocês também seja membro da Igreja da Inglaterra. Pelo menos é assim que são chamados.

Não são, porém, verdadeiramente membros, a menos que sejam testemunhas da religião descrita anteriormente.

Realmente são? Não julguem uns aos outros; cada pessoa examine o próprio coração. Qual é a situação em seu interior? Examine a consciência diante de Deus.

Participa alegremente dessa religião bíblica e verdadeiramente primitiva? É testemunha da religião do amor?

Ama a Deus e toda a humanidade? Seu coração arde de gratidão ao Doador de toda dádiva boa e perfeita, ao Pai dos espíritos, que lhe concede vida, respiração e todas as coisas; que entregou o próprio Filho, seu único Filho, para que você não perecesse, mas possuísse a vida eterna?

Sua alma está aquecida pela benevolência para com toda a humanidade? Deseja que todas as pessoas sejam virtuosas e felizes?

O curso constante de sua vida e de sua conversa oferece testemunho disso? Você ama não somente por palavras, mas por ações e em verdade?

Persevera na obra da fé e no trabalho do amor? Caminha em amor, assim como Cristo nos amou e se entregou por nós?

Enquanto possui oportunidade, pratica o bem em favor de todas as pessoas e no mais elevado grau de que é capaz?

Todo aquele que pratica assim a vontade de meu Pai celestial é meu irmão, minha irmã e minha mãe.

Quem quer que seja você, caso seu coração seja como o meu nessa questão, estenda-me a mão!

Venha, engrandeçamos juntos o Senhor e trabalhemos para promover seu Reino sobre a terra!

Unamos o coração e as mãos nessa obra bendita, procurando produzir glória a Deus nas maiores alturas mediante o estabelecimento da paz e da boa vontade entre as pessoas, até o limite de nossas forças!

Primeiramente, que nossos corações estejam unidos nisso. Unamos nossos desejos e nossas orações. Que toda nossa alma deseje ardentemente avivamento geral da religião pura e sem contaminação, a restauração da imagem de Deus — do puro amor — em todo filho dos seres humanos!

Depois, procuremos promover em nossa posição essa religião bíblica e primitiva. Com toda dedicação, espalhemos a religião do amor entre todas as pessoas com as quais possuímos contato.

Incentivemos todos, não à hostilidade e às discussões, mas ao amor e às boas obras, lembrando sempre estas profundas palavras — que Deus as grave em nosso coração:

“Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele.”

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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