SERMÃO 26

A intenção pura e o Pai-Nosso

Sexto dos treze discursos de Wesley sobre o Sermão do Monte.

Mt 6.1–15, NAA ⏱ 31 min de leituraSermão do Monte

“Guardem-se de fazer a sua justiça diante dos homens, com o fim de serem vistos por eles… Vocês, portanto, orem assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome…”

(Mt 6.1–15, NAA)

Antes de ler

Se os discursos anteriores descreveram o que o cristão deve ser, este mostra como até as nossas ações mais comuns podem tornar-se santas — pela intenção pura. Wesley trata da esmola, da oração e (implicitamente) do jejum, sempre com o mesmo alerta: fazer o bem para ser visto, ou por qualquer recompensa deste mundo, esvazia a obra diante de Deus. O coração do sermão é uma exposição do Pai-Nosso, cláusula por cláusula, que está entre as páginas mais belas e completas que Wesley escreveu — uma verdadeira teologia da oração. Ao final, ele acrescenta a paráfrase em verso do Pai-Nosso composta por Charles Wesley.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1. No capítulo anterior, o nosso Senhor descreveu a religião interior nos seus vários ramos. Expôs diante de nós aquelas disposições da alma que constituem o cristianismo real: as disposições interiores contidas naquela “santidade sem a qual ninguém verá o Senhor”; os afetos que, quando fluem da sua devida fonte, de uma fé viva em Deus por Cristo Jesus, são intrínseca e essencialmente bons e agradáveis a Deus. Ele passa a mostrar, neste capítulo, como também todas as nossas ações — mesmo as que são indiferentes por natureza — podem tornar-se santas, boas e agradáveis a Deus por uma intenção pura e santa. Tudo o que é feito sem isto, ele amplamente declara, não tem valor algum diante de Deus. Ao passo que quaisquer obras exteriores que sejam assim consagradas a Deus são, aos olhos dele, de grande preço.

2. A necessidade dessa pureza de intenção ele mostra, primeiro, quanto àquelas ações que costumam ser tidas por religiosas, e que de fato o são quando realizadas com reta intenção. Algumas delas são comumente chamadas de obras de piedade; as demais, de obras de caridade ou misericórdia. Destas últimas, ele nomeia particularmente a esmola; das primeiras, a oração e o jejum. Mas as orientações dadas para estas aplicam-se igualmente a toda obra, seja de caridade, seja de misericórdia.

I. As obras de misericórdia

1. Primeiro, quanto às obras de misericórdia. “Guardem-se”, diz ele, “de fazer a sua esmola diante dos homens, com o fim de serem vistos por eles; doutra sorte, não terão recompensa junto do Pai de vocês, que está nos céus.” “De fazer a sua esmola”: embora só esta seja nomeada, toda obra de caridade está incluída — tudo o que damos, dizemos ou fazemos, pelo que o nosso próximo possa ser beneficiado, pelo que outra pessoa possa receber alguma vantagem, no corpo ou na alma. Alimentar o faminto, vestir o nu, acolher ou socorrer o estrangeiro, visitar os doentes ou os presos, consolar os aflitos, instruir os ignorantes, repreender os maus, exortar e encorajar os que fazem o bem — e, se há qualquer outra obra de misericórdia, ela está igualmente incluída nesta orientação.

2. “Guardem-se de fazer a sua esmola diante dos homens, com o fim de serem vistos por eles.” O que aqui se proíbe não é simplesmente o fazer o bem à vista dos homens; essa circunstância, por si só — que outros vejam o que fazemos —, não torna a ação nem pior nem melhor; mas o fazê-la diante dos homens “com o fim de serem vistos por eles”, com essa mira, com essa intenção somente. Digo, com essa intenção somente; pois isto pode, em certos casos, ser parte da nossa intenção: podemos querer que algumas das nossas ações sejam vistas e, ainda assim, elas serem agradáveis a Deus. Podemos querer que a nossa luz brilhe diante dos homens, quando a nossa consciência nos dá testemunho no Espírito Santo de que o nosso fim último, ao querer que eles vejam as nossas boas obras, é “que glorifiquem o nosso Pai que está nos céus”. Mas guardem-se de fazer a menor coisa com vistas à própria glória; guardem-se de que a consideração pelo louvor dos homens tenha lugar algum nas suas obras de misericórdia. Se vocês buscam a própria glória, se têm algum desígnio de ganhar a honra que vem dos homens, o que quer que seja feito com essa mira não vale nada; não é feito para o Senhor; ele não o aceita; vocês “não têm recompensa junto do Pai de vocês, que está nos céus”.

3. “Portanto, quando você der esmola, não faça tocar a trombeta diante de si, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens.” A palavra “sinagoga” não significa aqui um lugar de culto, mas qualquer lugar de reunião pública, como a praça ou o mercado. Era coisa comum entre os judeus abastados, particularmente entre os fariseus, mandar tocar uma trombeta diante de si nas partes mais públicas da cidade, quando iam dar alguma esmola considerável. O pretexto para isso era reunir os pobres para recebê-la; mas o real desígnio, ser glorificados pelos homens. Mas você não seja como eles. Não faça tocar a trombeta diante de si. Não use ostentação alguma no fazer o bem. Vise à honra que vem só de Deus. Os que buscam o louvor dos homens já têm a sua recompensa: não terão louvor algum de Deus.

4. “Mas, quando você der esmola, ignore a sua mão esquerda o que faz a direita.” Esta é uma expressão proverbial, cujo sentido é: faça-o do modo mais secreto possível — tão secreto quanto seja compatível com fazê-lo de fato (pois não deve ficar por fazer; não omita oportunidade alguma de fazer o bem, secreta ou abertamente) e com fazê-lo do modo mais eficaz. Pois aqui há também uma exceção a fazer: quando você estiver plenamente persuadido, no seu íntimo, de que, por não ocultar o bem que se faz, ou você mesmo será capacitado, ou outros serão estimulados, a fazer mais bem, então você não deve ocultá-lo; então faça aparecer a sua luz e “brilhe a todos os que estão na casa”. Mas, a não ser onde a glória de Deus e o bem da humanidade o obriguem ao contrário, aja do modo mais privado e despercebido que a natureza da coisa admita — “para que a sua esmola fique em secreto; e o seu Pai, que vê em secreto, o recompensará”; talvez no mundo presente (muitos exemplos disso estão registrados em todas as eras), mas infalivelmente no mundo vindouro, diante da assembleia geral de homens e anjos.

II. A oração

1. Das obras de caridade ou misericórdia, o nosso Senhor passa às que se chamam obras de piedade. “E, quando você orar”, diz ele, “não seja como os hipócritas; porque gostam de orar em pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens.” “Não seja como os hipócritas.” A hipocrisia, então, ou a insinceridade, é a primeira coisa de que nos devemos guardar na oração. Cuidado para não dizer o que você não sente. A oração é o elevar do coração a Deus; todas as palavras de oração, sem isto, são mera hipocrisia. Sempre que, portanto, você tentar orar, veja que seja o seu único desígnio comungar com Deus, elevar-lhe o coração, derramar diante dele a sua alma; não como os hipócritas, que gostam, ou têm por costume, “orar em pé nas sinagogas”, na praça ou no mercado, “e nas esquinas das ruas”, onde há mais gente, “para serem vistos pelos homens”: este era o único desígnio, o motivo e o fim das orações que ali repetiam. “Em verdade lhes digo: eles já receberam a recompensa.” Não devem esperar nenhuma do Pai de vocês, que está nos céus.

2. Mas não é só o ter em vista o louvor dos homens que nos corta qualquer recompensa no céu, que não nos deixa lugar para esperar a bênção de Deus sobre as nossas obras, sejam de piedade, sejam de misericórdia. A pureza de intenção é igualmente destruída por vistas a qualquer recompensa temporal que seja. Se repetimos as nossas orações, se assistimos ao culto público de Deus, se socorremos os pobres, com vistas a ganho ou interesse, isto não é nem um pouco mais aceitável a Deus do que se fosse feito com vistas ao louvor. Qualquer vista temporal, qualquer motivo aquém da eternidade, qualquer desígnio que não seja o de promover a glória de Deus e a felicidade dos homens por amor de Deus, torna cada ação — por bela que possa parecer aos homens — uma abominação para o Senhor.

3. “Mas você, quando orar, entre no seu quarto e, fechada a porta, ore ao seu Pai, que está em secreto.” Há um tempo em que você deve glorificar a Deus abertamente, orar e louvá-lo na grande congregação. Mas, quando você desejar apresentar mais amplamente e mais particularmente os seus pedidos a Deus, seja de noite, de manhã ou ao meio-dia, “entre no seu quarto e feche a porta”. Use toda a privacidade que puder. (Apenas não deixe de fazê-lo, tenha você quarto e privacidade, ou não. Ore a Deus, se possível, onde ninguém veja senão ele; mas, se não for possível, ore a Deus assim mesmo.) Assim, “ore ao seu Pai, que está em secreto”; derrame diante dele o seu coração; “e o seu Pai, que vê em secreto, o recompensará”.

4. “E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios.” Não use abundância de palavras sem significado algum. Não diga a mesma coisa vez após vez; não pense que o fruto das suas orações depende do comprimento delas, como os gentios; pois “imaginam que por muito falarem serão ouvidos”. O que aqui se repreende não é simplesmente o comprimento, tampouco a brevidade das nossas orações; mas, primeiro, o comprimento sem sentido: o falar muito e sentir pouco ou nada; o uso (não de toda repetição — pois o próprio Senhor orou três vezes, repetindo as mesmas palavras — mas) de vãs repetições, como faziam os gentios, recitando os nomes dos seus deuses vez após vez; como fazem entre os cristãos (assim chamados), e não só entre os romanistas, os que repetem a mesma ladainha de orações sem nunca sentir o que dizem. Segundo, o pensar que serão ouvidos por muito falarem — o imaginar que Deus mede as orações pelo comprimento delas, e que mais se agrada das que contêm mais palavras, das que soam mais tempo aos seus ouvidos. Estes são exemplos de superstição e insensatez que todos os que trazem o nome de Cristo devem deixar aos gentios, àqueles sobre quem a gloriosa luz do evangelho jamais brilhou.

5. “Não sejam, pois, semelhantes a eles.” Vocês, que provaram a graça de Deus em Cristo Jesus, estão plenamente convencidos: “O Pai de vocês sabe do que vocês precisam, antes de lho pedirem.” De modo que o fim do seu orar não é informar a Deus, como se ele já não soubesse das suas carências; mas antes informar a si mesmos, fixar mais profundamente no seu coração o senso dessas carências, e o senso da sua contínua dependência daquele que só é capaz de suprir todas elas. Não é tanto para mover a Deus — que está sempre mais pronto a dar do que vocês a pedir — quanto para mover a si mesmos, para que estejam dispostos e prontos a receber as coisas boas que ele lhes preparou.

III. O Pai-Nosso

1. Depois de ensinar a verdadeira natureza e os fins da oração, o nosso Senhor acrescenta um exemplo dela: aquela divina forma de oração que, neste lugar, parece proposta principalmente como padrão, como modelo e norma de todas as nossas orações: “Vocês, portanto, orem assim.” Ao passo que, em outro lugar, ele ordena o uso destas mesmas palavras: “Disse-lhes: Quando orardes, dizei…” (Lc 11.2).

2. Podemos observar, em geral, a respeito desta divina oração: primeiro, que ela contém tudo o que podemos, razoável ou inocentemente, pedir. Não há nada que precisemos pedir a Deus, nada que possamos pedir sem ofendê-lo, que não esteja incluído, direta ou indiretamente, nesta forma abrangente. Segundo, que ela contém tudo o que podemos, razoável ou inocentemente, desejar; tudo o que é para a glória de Deus, tudo o que é necessário ou proveitoso, não só para nós, mas para toda criatura no céu e na terra. E, de fato, as nossas orações são a verdadeira prova dos nossos desejos: nada é digno de ter lugar nos nossos desejos que não seja digno de ter lugar nas nossas orações; o que não podemos pedir, tampouco devemos desejar. Terceiro, que ela contém todo o nosso dever para com Deus e para com o próximo; tudo o que é puro e santo, tudo o que Deus requer dos filhos dos homens, tudo o que é aceitável aos seus olhos, tudo aquilo com que possamos beneficiar o próximo, está nela expresso ou implícito.

3. Ela consta de três partes: o prefácio, as petições e a doxologia, ou conclusão. O prefácio — “Pai nosso, que estás nos céus” — lança um fundamento geral para a oração, contendo o que primeiro devemos saber de Deus antes de podermos orar com a confiança de sermos ouvidos. Aponta-nos também todas aquelas disposições com que devemos aproximar-nos de Deus, que são essencialmente requeridas, se desejamos que as nossas orações, ou as nossas vidas, encontrem aceitação com ele.

4. “Pai nosso”: se ele é Pai, então é bom, então é amoroso para com os seus filhos. E aqui está a primeira e grande razão para orar. Deus está disposto a abençoar; peçamos-lhe uma bênção. “Pai nosso”: nosso Criador, o Autor do nosso ser; aquele que nos levantou do pó da terra, que soprou em nós o fôlego de vida, e nos tornamos almas viventes. Mas, se ele nos fez, peçamos-lhe, e ele não negará bem algum à obra das suas próprias mãos. “Pai nosso”: nosso Preservador, que, dia após dia, sustenta a vida que deu; de cujo amor contínuo recebemos, agora e a cada momento, a vida, o fôlego e todas as coisas. Tanto mais ousadamente cheguemos a ele, e alcançaremos “misericórdia e acharemos graça para socorro em ocasião oportuna”. Acima de tudo, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, e de todos os que nele creem; que nos justifica “gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Jesus”; que “apagou todos os nossos pecados e sarou todas as nossas enfermidades”; que nos recebeu por seus próprios filhos, por adoção e graça; e, “porque somos filhos, enviou ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai”; que “nos gerou de novo, de semente incorruptível”, e “nos criou de novo em Cristo Jesus”. Por isso sabemos que ele sempre nos ouve; por isso oramos a ele sem cessar. Oramos porque amamos; e “nós o amamos porque ele nos amou primeiro”.

5. “Pai nosso”: não apenas meu, que agora clamo a ele, mas nosso, no sentido mais amplo. O Deus e “Pai dos espíritos de toda carne”; o Pai dos anjos e dos homens — como até os próprios gentios reconheciam ser. O Pai do universo, de todas as famílias, tanto no céu quanto na terra. Portanto, com ele não há acepção de pessoas. Ele ama tudo o que fez. “É bondoso para com todos, e as suas misericórdias estão sobre todas as suas obras.” E o deleite do Senhor está nos que o temem e confiam na sua misericórdia; nos que confiam nele por meio do Filho do seu amor, sabendo que são “aceitos no Amado”. Mas, “se Deus assim nos amou, também nós devemos amar uns aos outros”; sim, a toda a humanidade — visto que “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito”, para morrer, a fim de que “não perecessem, mas tivessem a vida eterna”.

6. “Que estás nos céus”: alto e sublime; Deus sobre todos, bendito para sempre; que, assentado sobre o globo dos céus, contempla todas as coisas, tanto no céu quanto na terra; cujo olhar penetra toda a esfera do ser criado; a quem “são conhecidas todas as suas obras”, e todas as obras de cada criatura, não só “desde o princípio do mundo” (tradução pobre e fraca), mas desde a eternidade, de eternidade a eternidade; que constrange as hostes do céu, tanto quanto os filhos dos homens, a exclamar com admiração e espanto: “Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria quanto do conhecimento de Deus!” “Que estás nos céus”: o Senhor e Governador de tudo, superintendendo e dispondo todas as coisas; que és o Rei dos reis e Senhor dos senhores, o bendito e único Soberano; que és forte e cingido de poder, fazendo tudo o que te apraz; o Todo-Poderoso, pois, sempre que queres, o fazer está contigo. “Nos céus”: eminentemente ali. O céu é o teu trono, “o lugar onde particularmente habita a tua honra”. Mas não só ali; pois enches o céu e a terra, toda a extensão do espaço. “O céu e a terra estão cheios da tua glória. Glória a ti, ó Senhor Altíssimo!” Por isso devemos “servir ao Senhor com temor e alegrar-nos nele com reverência”. Por isso devemos pensar, falar e agir como continuamente sob o olhar, na presença imediata, do Senhor, o Rei.

7. “Santificado seja o teu nome.” Esta é a primeira das seis petições de que se compõe a oração. O nome de Deus é o próprio Deus; a natureza de Deus, tanto quanto pode ser revelada ao homem. Significa, portanto, junto com a sua existência, todos os seus atributos ou perfeições: a sua eternidade, particularmente significada pelo seu grande e incomunicável nome, JEOVÁ, como o apóstolo João o traduz — “o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim; aquele que é, que era e que há de vir”; a sua plenitude de ser, denotada pelo seu outro grande nome, EU SOU O QUE SOU; a sua onipresença; a sua onipotência — ele que é, de fato, o único Agente no mundo material, sendo toda matéria essencialmente inerte e inativa, movendo-se apenas quando movida pelo dedo de Deus, e ele a mola de toda ação em cada criatura, visível e invisível, que não poderia nem agir nem existir sem o contínuo influxo e ação do seu poder todo-poderoso; a sua sabedoria, claramente deduzida das coisas que se veem, da bela ordem do universo; a sua Trindade na Unidade, e Unidade na Trindade, revelada a nós na própria primeira linha da sua palavra escrita — bará elohim, literalmente, “os Deuses criaram”, um substantivo plural unido a um verbo no singular —, bem como em cada parte das suas revelações posteriores, dadas pela boca de todos os seus santos profetas e apóstolos; a sua essencial pureza e santidade; e, acima de tudo, o seu amor, que é o próprio resplendor da sua glória. Ao orarmos para que Deus, ou o seu nome, seja “santificado” ou glorificado, oramos para que ele seja conhecido, tal como é, por todos os que disso são capazes, por todos os seres inteligentes, e com afetos adequados a esse conhecimento; para que seja devidamente honrado, temido e amado por todos no céu acima e na terra abaixo, por todos os anjos e homens, que, para esse fim, ele fez capazes de conhecê-lo e amá-lo por toda a eternidade.

8. “Venha o teu reino.” Isto tem estreita conexão com a petição anterior. Para que o nome de Deus seja santificado, oramos para que o seu reino, o reino de Cristo, venha. Esse reino vem a uma pessoa particular quando ela “se arrepende e crê no evangelho”; quando é ensinada por Deus, não só a conhecer a si mesma, mas a conhecer Jesus Cristo, e este crucificado. Como “a vida eterna é conhecer o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem ele enviou”, assim é o reino de Deus começado aqui embaixo, instaurado no coração do crente; “o Senhor Deus Todo-Poderoso então reina”, quando é conhecido por meio de Cristo Jesus. Ele toma para si o seu grande poder, para sujeitar todas as coisas a si mesmo. Prossegue na alma, vencendo e para vencer, até que ponha todas as coisas debaixo dos seus pés, até que “todo pensamento seja levado cativo à obediência de Cristo”. Quando, portanto, Deus “der ao seu Filho as nações por herança, e os confins da terra por possessão”; quando “todos os reinos se prostrarem diante dele, e todas as nações o servirem”; quando “o monte da Casa do Senhor”, a Igreja de Cristo, “for estabelecido no cume dos montes”; quando “a plenitude dos gentios houver entrado, e todo o Israel for salvo” — então se verá que “o Senhor reina e se revestiu de vestes gloriosas”, aparecendo a toda alma humana como Rei dos reis e Senhor dos senhores. E convém a todos os que amam a sua vinda orar para que ele apresse o tempo; para que este seu reino, o reino da graça, venha depressa e engula todos os reinos da terra; para que toda a humanidade, recebendo-o por seu Rei, crendo verdadeiramente no seu nome, seja cheia de justiça, paz e alegria, de santidade e felicidade — até serem transportados daqui para o seu reino celestial, ali para reinar com ele para todo o sempre. Por isto também oramos naquelas palavras “venha o teu reino”: oramos pela vinda do seu reino eterno, o reino de glória no céu, que é a continuação e o aperfeiçoamento do reino da graça na terra. Por consequência, esta petição, tanto quanto a anterior, é oferecida por toda a criação inteligente, que está toda interessada nesse grande acontecimento: a renovação final de todas as coisas, quando Deus puser fim à miséria e ao pecado, à fraqueza e à morte, tomando todas as coisas nas suas próprias mãos e instaurando o reino que dura por todas as eras.

9. “Faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu.” Esta é a consequência necessária e imediata onde quer que o reino de Deus tenha chegado; onde quer que Deus habite na alma pela fé, e Cristo reine no coração pelo amor. É provável que muitos, à primeira vista destas palavras, sejam levados a imaginar que elas são apenas uma expressão de resignação, ou um pedido dela: da prontidão para sofrer a vontade de Deus, seja ela qual for a nosso respeito. E esta é, sem dúvida, uma disposição divina e excelente, um preciosíssimo dom de Deus. Mas não é isto o que pedimos nesta petição, ao menos não no seu sentido principal e primário. Pedimos, não tanto uma conformidade passiva, quanto uma conformidade ativa com a vontade de Deus, ao dizer: “Faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu.” Como é ela feita pelos anjos de Deus no céu — os que agora circundam o seu trono, exultantes? Fazem-na de bom grado; amam os seus mandamentos e de bom grado escutam as suas palavras. É a sua comida e bebida fazer a sua vontade; é a sua mais alta glória e alegria. Fazem-na continuamente; não há interrupção no seu serviço voluntário. Não descansam de dia nem de noite, mas empregam cada hora (falando à maneira dos homens; do contrário, as nossas medidas de duração — dias, noites e horas — não têm lugar na eternidade) em cumprir os seus mandamentos, em executar os seus desígnios. E fazem-na perfeitamente. Nenhum pecado, nenhum defeito pertence às mentes angélicas. Vistos por outro ângulo, podemos observar: os anjos de Deus no céu fazem toda a vontade de Deus. E nada mais fazem, nada senão o que têm absoluta certeza de ser a sua vontade. Fazem toda a vontade de Deus como ele a quer, do modo que lhe agrada, e de nenhum outro. Sim, e fazem-na somente porque é a sua vontade — para este fim, e por nenhuma outra razão.

10. Quando, portanto, oramos para que a vontade de Deus se faça “na terra como no céu”, o sentido é que todos os habitantes da terra, sim, toda a raça humana, façam a vontade do seu Pai que está no céu tão de bom grado quanto os santos anjos; que a façam continuamente, assim como eles, sem interrupção alguma do seu serviço voluntário; sim, e que a façam perfeitamente — que “o Deus da paz, pelo sangue da eterna aliança, os aperfeiçoe em todo bem, para fazerem a sua vontade, operando neles tudo o que é agradável diante dele”. Em outras palavras, oramos para que nós e toda a humanidade façamos toda a vontade de Deus em todas as coisas; e nada mais, nem a menor coisa senão o que é a santa e aceitável vontade de Deus. Oramos para que façamos toda a vontade de Deus como ele a quer, do modo que lhe agrada; e, por fim, para que a façamos porque é a sua vontade — para que esta seja a única razão e o único fundamento, todo e o único motivo, de tudo o que pensarmos, dissermos ou fizermos.

11. “O pão nosso de cada dia dá-nos hoje.” Nas três petições anteriores, estivemos orando por toda a humanidade. Chegamos agora, mais particularmente, a desejar um suprimento para as nossas próprias carências. Não que sejamos orientados, mesmo aqui, a confinar a nossa oração inteiramente a nós mesmos; mas esta, e cada uma das petições seguintes, pode ser usada por toda a Igreja de Cristo sobre a terra. Por “pão” podemos entender tudo o que é necessário, seja para a alma, seja para o corpo — as coisas pertencentes à vida e à piedade: entendemos não apenas o pão exterior, o que o nosso Senhor chama “a comida que perece”, mas muito mais o pão espiritual, a graça de Deus, o alimento “que permanece para a vida eterna”. Era o juízo de muitos dos antigos Pais que devemos entender aqui também o pão sacramental, recebido diariamente, no princípio, por toda a Igreja de Cristo, e altamente estimado — até que o amor de muitos esfriou — como o grande canal pelo qual a graça do seu Espírito era transmitida às almas de todos os filhos de Deus. “O pão nosso de cada dia.” A palavra que traduzimos por “de cada dia” foi explicada de modos diferentes por diferentes comentaristas. Mas o sentido mais claro e natural parece ser este, mantido em quase todas as traduções, antigas e modernas: o que é suficiente para este dia, e assim para cada dia, à medida que vem.

12. “Dá-nos”: pois nada reclamamos por direito, mas somente por livre misericórdia. Não merecemos o ar que respiramos, a terra que nos sustenta, ou o sol que sobre nós brilha. Todo o nosso merecimento, reconhecemos, é o inferno. Mas Deus nos ama gratuitamente; por isso lhe pedimos que dê o que não podemos mais obter por nós mesmos do que merecê-lo das suas mãos. Não que a bondade ou o poder de Deus seja razão para ficarmos ociosos. É a sua vontade que usemos toda a diligência em todas as coisas, que empreguemos os nossos maiores esforços, como se o nosso êxito fosse o efeito natural da nossa própria sabedoria e força; e então, como se nada tivéssemos feito, dependamos dele, o dador de todo bom dom e de toda dádiva perfeita. “Hoje”: pois não devemos ter cuidado com o dia de amanhã. Foi exatamente para este fim que o nosso sábio Criador dividiu a vida nessas pequenas porções de tempo, tão claramente separadas umas das outras, para que possamos olhar cada dia como um novo dom de Deus, outra vida, que podemos dedicar à sua glória; e para que cada noite possa ser como o fim da vida, além do qual nada devemos ver senão a eternidade.

13. “E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores.” Assim como nada senão o pecado pode impedir a bondade de Deus de fluir sobre cada criatura, assim esta petição naturalmente segue a anterior: para que, removidos todos os empecilhos, possamos confiar mais claramente no Deus de amor para toda espécie de bem. “As nossas dívidas”: a palavra significa propriamente as nossas dívidas. Assim são os nossos pecados frequentemente representados na Escritura; cada pecado nos pondo sob uma nova dívida para com Deus, a quem já devemos, por assim dizer, dez mil talentos. Que poderemos, então, responder quando ele disser: “Paga o que me deves”? Estamos totalmente insolventes; nada temos para pagar; desperdiçamos toda a nossa substância. Portanto, se ele nos tratar segundo o rigor da sua lei, se exigir o que justamente pode, terá de mandar que sejamos “atados de pés e mãos e entregues aos verdugos”. De fato, já estamos atados de pés e mãos pelas cadeias dos nossos próprios pecados. Estes, considerados quanto a nós mesmos, são cadeias de ferro e grilhões de bronze. São feridas com que o mundo, a carne e o diabo nos golpearam e dilaceraram por inteiro. São doenças que sugam o nosso sangue e as nossas forças, que nos levam às câmaras da sepultura. Mas, considerados como aqui estão, quanto a Deus, são dívidas, imensas e incontáveis. Bem podemos, portanto, visto que nada temos para pagar, clamar a ele que nos “perdoe de bom grado” tudo! A palavra traduzida por “perdoar” significa ou perdoar uma dívida, ou desatar uma cadeia. E, se alcançamos o primeiro, o segundo se segue naturalmente: se as nossas dívidas são perdoadas, as cadeias caem das nossas mãos. Assim que, pela livre graça de Deus em Cristo, “recebemos o perdão dos pecados”, recebemos também “herança entre os que são santificados, pela fé que há nele”. O pecado perdeu o seu poder; não tem domínio sobre os que “estão debaixo da graça”, isto é, no favor de Deus. Como “nenhuma condenação há agora para os que estão em Cristo Jesus”, assim eles estão livres do pecado, tanto quanto da culpa. “A justiça da lei se cumpre neles”, e eles “não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito”.

14. “Assim como nós perdoamos aos nossos devedores.” Nestas palavras o nosso Senhor declara claramente tanto sob que condição quanto em que grau, ou maneira, podemos esperar ser perdoados por Deus. Todas as nossas dívidas e pecados nos são perdoados se perdoamos, e como perdoamos, aos outros. Primeiro, Deus nos perdoa se perdoamos aos outros. Este é um ponto da máxima importância. E o nosso bendito Senhor é tão zeloso, para que em tempo algum nos escape do pensamento, que não só o insere no corpo da sua oração, mas logo em seguida o repete duas vezes: “Se”, diz ele, “perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas” (Mt 6.14–15). Segundo, Deus nos perdoa como perdoamos aos outros. De modo que, se resta alguma malícia ou amargura, algum vestígio de desafeição ou ira, se não perdoamos clara, plena e de coração a todos as suas ofensas, cortamos em muito o perdão das nossas próprias: Deus não pode clara e plenamente perdoar-nos; pode mostrar-nos algum grau de misericórdia, mas nós não o deixaremos apagar todos os nossos pecados e perdoar todas as nossas iniquidades. Entretanto, enquanto não perdoamos de coração ao nosso próximo as suas ofensas, que espécie de oração estamos oferecendo a Deus sempre que proferimos estas palavras? Estamos, de fato, desafiando a Deus abertamente; estamos ousando que ele faça o seu pior. “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores!” Isto é, em termos claros: “Não nos perdoes de modo algum; não desejamos favor algum das tuas mãos. Pedimos que guardes os nossos pecados na memória e que a tua ira permaneça sobre nós.” Mas você pode seriamente oferecer tal oração a Deus? E não o lançou ele ainda vivo no inferno? Ó, não o tente mais! Agora, agora mesmo, pela sua graça, perdoe como quer ser perdoado! Agora tenha compaixão do seu conservo, assim como Deus teve e terá piedade de você!

15. “E não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal.” A palavra traduzida por “tentação” significa prova de qualquer tipo. Tiago usa a palavra em ambos os sentidos: primeiro no geral, depois no restrito. Toma-a no primeiro sentido quando diz: “Bem-aventurado o homem que suporta a provação; porque, depois de aprovado” por Deus, “receberá a coroa da vida” (Tg 1.12). Acrescenta imediatamente, tomando a palavra no segundo sentido: “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. Cada um, porém, é tentado quando atraído e engodado pela sua própria cobiça” (Tg 1.13–14) — arrancado de Deus, em quem somente está seguro, e apanhado como um peixe pela isca. É então, quando assim atraído e engodado, que ele propriamente “entra em tentação”. Então a tentação o cobre como uma nuvem; espalha-se por toda a sua alma. Então, quão dificilmente escapará da cilada! Por isso rogamos a Deus que “não nos deixe cair em tentação”, isto é (visto que Deus a ninguém tenta), que não permita que sejamos levados a ela. “Mas livra-nos do mal”; antes, “do Maligno”. O Maligno é, sem dúvida, o Perverso, assim chamado com ênfase, o príncipe e deus deste mundo, que opera com grande poder nos filhos da desobediência. Mas todos os que são filhos de Deus pela fé são livrados das suas mãos. Ele pode lutar contra eles, e assim fará. Mas não pode vencer, a menos que eles traiam a própria alma. Pode atormentar por um tempo, mas não pode destruir; pois Deus está do lado deles, e não deixará, no fim, de “fazer justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele dia e noite”. Senhor, quando formos tentados, não permitas que entremos em tentação! Abre-nos um caminho para escaparmos, para que o Maligno não nos toque!

16. A conclusão desta divina oração, comumente chamada de doxologia, é uma solene ação de graças, um compêndio de reconhecimento dos atributos e das obras de Deus. “Porque teu é o reino”: o soberano direito sobre todas as coisas que são ou já foram criadas; sim, o teu reino é reino eterno, e o teu domínio dura por todas as eras. “E o poder”: o poder executivo pelo qual governas todas as coisas no teu reino eterno, pelo qual fazes tudo o que te apraz, em todos os lugares do teu domínio. “E a glória”: o louvor devido por cada criatura, pelo teu poder, pela grandeza do teu reino e por todas as tuas obras maravilhosas, que operas desde a eternidade e farás, para todo o sempre, “pelos séculos dos séculos! Amém!” Assim seja!

Não será desagradável ao leitor sério acrescentar aqui uma paráfrase do Pai-Nosso (em verso, de Charles Wesley):

1. Pai de todos, cuja voz poderosa

chamou à existência este universo;

cujas misericórdias sobre tudo se alegram,

por eras sem fim sempre as mesmas:

tu, pela tua palavra, sustentas tudo;

o teu generoso amor a todos se mostra;

ouves o clamor de cada criatura tua

e enches de bem toda boca.

2. Nos céus reinas, entronizado em luz,

a vastidão da natureza aos teus pés estendida;

a terra, o ar e o mar diante da tua vista,

e a treva profunda do inferno se abrem descobertos.

Sabedoria, poder e amor são teus;

prostrados diante da tua face caímos,

confessamos os teus atributos divinos

e saudamos o Soberano Senhor de tudo.

3. A ti, Senhor soberano, confesse tudo

o que se move na terra, no ar ou no céu;

reverencie o teu poder, bendiga a tua bondade,

treme diante do teu olhar penetrante.

Todos vós que a ele deveis o vosso nascimento,

em louvor empregai cada hora vossa:

Jeová reina! Alegra-te, ó terra!

E exultai de alegria, estrelas da manhã!

4. Filho do amor eterno do teu Pai,

toma para ti o teu grande poder;

provem todos os filhos da terra a tua misericórdia,

adorem todos a tua graça sangrenta.

Manifesta os triunfos do teu amor;

em cada coração reina tu somente,

até que todos os teus inimigos confessem o teu domínio,

e a glória conclua o que a graça começou.

5. Espírito de graça, de saúde e poder,

fonte de luz e amor aqui embaixo,

derrama a tua influência curadora,

sobre todas as nações a faze correr.

Inflama os nossos corações com amor perfeito;

em nós a obra da fé cumpre;

para que nem as hostes do céu se movam mais depressa

do que nós, na terra, a fazer a tua vontade.

6. Pai, é teu, a cada dia, suprir

as carências dos teus filhos com nova provisão:

tu vestes os lírios do campo

e ouves o clamor dos corvos novos.

Sobre ti lançamos o nosso cuidado; vivemos

por ti, que conheces cada necessidade nossa:

ó alimenta-nos com a tua graça, e dá

às nossas almas, hoje, o pão vivo!

7. Eterno, imaculado Cordeiro de Deus,

morto antes da fundação do mundo,

asperge-nos sempre com o teu sangue;

ó purifica-nos e conserva-nos sempre limpos.

Para com cada alma (todo louvor a ti!)

aumenta em nós a compaixão;

e por isto toda a humanidade veja

que Deus está em nós, pois Deus é amor.

8. Dador e Senhor da vida, cujo poder

e cuidado protetor a todos são gratuitos;

a ti, Senhor, na hora da fera tentação,

do pecado e de Satanás deixa-nos fugir.

Teus, Senhor, somos, e nosso tu és;

em nós toda a tua bondade se mostre;

renova, alarga e enche o nosso coração

de paz, de alegria, de céu e de Deus.

9. Bênção e honra, louvor e amor,

ó Três coiguais e coeternos,

na terra abaixo, no céu acima,

por todas as tuas obras te sejam dados.

Três vezes Santo! teu é o reino,

o poder onipotente é teu;

e, quando a natureza criada perecer,

as tuas glórias, que nunca cessam, resplandecerão.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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