SERMÃO 61

O mistério da iniquidade

Um panorama do mal na história — e a esperança de uma reforma geral.

2Ts 2.7, NAA ⏱ 26 min de leituraPecado e arrependimento

“Porque o mistério da iniquidade já opera.”

(2Ts 2.7, NAA)

Antes de ler

Este é o sermão mais histórico do conjunto — e o mais desconcertante. Wesley faz um levantamento do modo como o "mistério da iniquidade" operou ao longo dos séculos: desde a queda, passando pelo dilúvio e por Israel, até a igreja apostólica — que ele, longe de idealizar, mostra já corroída pelas primeiras "pragas": o amor ao dinheiro (Ananias e Safira), o favoritismo, a murmuração, o zelo desmedido, a falta de tolerância. Depois traça o declínio pós-apostólico e localiza o golpe mais duro num lugar inesperado: não na perseguição, mas na prosperidade — quando Constantino, no século IV, encheu a igreja de riquezas, honras e poder. Para Wesley, foi aí que começou a "idade de ferro" da igreja. É um diagnóstico severo, quase sombrio, e um dos fios que o atravessam é caro à nossa tradição: a riqueza, em toda era, foi o veneno do cristianismo genuíno.

Duas observações pastorais. Sobre o tom: Wesley não escreve por desânimo, mas para sacudir — o remédio que ele propõe é uma "reforma geral", uma mudança de vida e de coração, não apenas de opiniões e ritos. Sobre o fecho: ao anunciar o tempo em que "a justiça será tão universal quanto hoje é a injustiça", Wesley expressa a esperança wesleyana da difusão geral do evangelho antes do fim — não um universalismo que prometa a salvação de todos independentemente da fé. A salvação permanece condicionada à fé em Cristo; o que se anuncia é o triunfo do reino de Deus na história, quando o evangelho encher a terra. Leia o panorama negro sem perder de vista essa âncora: Deus se levantará e sustentará a sua causa.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1. Sem indagar até que ponto estas palavras se referem a algum acontecimento particular da Igreja cristã, tomarei ocasião delas para considerar aquela importante questão: de que maneira o mistério da iniquidade operou entre nós, até quase cobrir toda a terra.

2. É certo que “Deus fez o homem reto”, perfeitamente santo e perfeitamente feliz; mas, rebelando-se contra Deus, o homem destruiu a si mesmo, perdeu o favor e a imagem de Deus, e legou o pecado, com o seu companheiro, a dor, a si e a toda a sua posteridade. Contudo, o seu misericordioso Criador não o deixou nesse estado desamparado: logo designou o seu Filho amado, “que é o resplendor da sua glória e a expressão exata do seu ser”, para ser o Salvador dos homens, “a propiciação pelos pecados do mundo inteiro”, o grande Médico que, pelo seu Espírito todo-poderoso, haveria de curar a enfermidade das suas almas e restaurá-los não só ao favor, mas “à imagem de Deus em que foram criados”.

3. Este grande mistério da piedade começou a operar desde o tempo da promessa original. Assim, estando o Cordeiro, no propósito de Deus, “morto desde a fundação do mundo”, desde o mesmo período o seu Espírito santificador começou a renovar as almas dos homens. Temos disto um exemplo inegável em Abel, que “alcançou testemunho” de Deus “de que era justo” (Hb 11.4). E desde então todos os que participavam da mesma fé participavam da mesma salvação, sendo não só reconduzidos ao favor, mas também restaurados à imagem de Deus.

4. Mas quão excedentemente pequeno era o número destes, mesmo nas eras mais antigas! Mal os “filhos dos homens começaram a multiplicar-se sobre a face da terra”, Deus, olhando do céu, “viu que era grande a maldade do homem na terra” — tão grande que “toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era só má, e isso continuamente” (Gn 6.1–5). E assim permaneceu, sem intermissão, até que Deus executou aquela terrível sentença: “Farei desaparecer da face da terra o homem que criei” (Gn 6.7).

5. Somente “Noé achou graça aos olhos do Senhor”, sendo “homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos”. A ele, pois, com a esposa, os filhos e as noras, Deus preservou da destruição geral. E seria de imaginar que este pequeno remanescente fosse também “íntegro nas suas gerações”. Mas quão longe disto! Logo após esse assinalado livramento, achamos um deles, Cam, envolvido em pecado e sob a maldição do pai. E como operou depois “o mistério da iniquidade”, não só na posteridade de Cam, mas na de Jafé; sim, e na de Sem — excetuados apenas Abraão e a sua família!

6. Sim, como operou até na posteridade de Abraão, no povo escolhido de Deus! Não foram também estes, de Moisés a Davi, a Malaquias, a Herodes, uma geração infiel e obstinada, uma “nação pecadora, povo carregado de iniquidade”, continuamente abandonando o Senhor e “provocando o Santo de Israel”? E, contudo, não temos razão para crer que fossem piores que as nações ao redor, universalmente afundadas em toda espécie de maldade e em idolatrias abomináveis, não tendo o Deus do céu “em todos os seus pensamentos”.

7. Na plenitude dos tempos, quando a iniquidade de toda espécie se espalhara por todas as nações e cobria a terra como uma cheia, aprouve a Deus levantar um estandarte contra ela, “trazendo o seu Primogênito ao mundo”. Ora, seria de esperar que “o mistério da piedade” prevalecesse totalmente sobre “o mistério da iniquidade”; que o Filho de Deus fosse “luz para iluminar os gentios” e “salvação para o seu povo, Israel”. Todo Israel, pensaríamos, sim, e toda a terra, logo se encheriam da glória do Senhor. Mas não: “o mistério da iniquidade” ainda prevalecia por quase toda a face da terra. Quão excedentemente pequeno era o número daqueles cujas almas foram curadas pelo próprio Filho de Deus! “Levantando-se Pedro no meio deles, era o número de nomes junto de cento e vinte” (At 1.15). E mesmo estes só imperfeitamente curados; pois, pouco antes, os principais estavam tão fracos na fé que, embora não renegassem o Mestre como Pedro, “todos o abandonaram e fugiram” — prova clara de que o Espírito santificador “não fora” ainda “dado, porque Jesus não fora ainda glorificado”.

8. Foi então, quando ele “subiu às alturas e levou cativo o cativeiro”, que “a promessa do Pai” se cumpriu, a qual dele haviam ouvido. Foi então que ele começou a operar como quem é, mostrando que “todo o poder lhe foi dado no céu e na terra”. “Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, de repente veio do céu um som, como de um vento impetuoso, e apareceram línguas como de fogo; e todos ficaram cheios do Espírito Santo” (At 2.1). Em consequência, três mil almas receberam remédio para a sua enfermidade, foram restauradas ao favor e à imagem de Deus sob um só sermão de Pedro (At 2.41). “E o Senhor lhes acrescentava” — não “os que haviam de ser salvos”, uma manifesta perversão do texto, mas “os que iam sendo salvos”. Primeiro, eram “salvos” do poder do pecado; depois, eram “acrescentados” à assembleia dos fiéis.

9. Para ver claramente como já estavam salvos, basta observar o breve relato deles no fim do segundo e no quarto capítulos. “Perseveravam na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações” (At 2.42). “Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens e repartiam com todos, segundo a necessidade de cada um” (At 2.44–45). E ainda: “A multidão dos que creram”, agora muito crescida, “era de um só coração e de uma só alma. Ninguém considerava exclusivamente sua nem uma das coisas que possuía; tudo, porém, lhes era comum” (At 4.32). “E grande graça havia sobre todos eles. Não havia entre eles necessitado algum; pois os que possuíam terras ou casas, vendendo-os, traziam o preço do que era vendido e o depositavam aos pés dos apóstolos; e se distribuía a qualquer um à medida que alguém tinha necessidade” (At 4.33–35).

10. Mas aqui surge naturalmente uma questão: “Como vieram a agir assim, a ter tudo em comum, se não lemos nenhum mandamento expresso a respeito?” Respondo: não era preciso mandamento externo; o mandamento estava escrito no coração deles. Resultava natural e necessariamente do grau de amor que desfrutavam. Note: “Eram de um só coração e de uma só alma”; e nem sequer um (assim dizem as palavras) — não podiam, enquanto o coração lhes transbordava de amor — dizia “que coisa alguma que possuía era exclusivamente sua”. E, onde quer que a mesma causa prevaleça, o mesmo efeito naturalmente se seguirá.

11. Aqui estava a alvorada do próprio dia do evangelho. Aqui estava uma verdadeira Igreja cristã. Nascia então “o Sol da Justiça” sobre a terra, “trazendo cura nas suas asas”. Ele agora “salvava o seu povo dos seus pecados”, “curava toda a sua enfermidade”. Não só ensinava aquela religião que é a verdadeira “cura da alma”, mas eficazmente a plantava na terra, enchendo a alma de todos os que nele criam de justiça — gratidão a Deus e boa vontade para com o homem —, acompanhada de uma paz que excede todo o entendimento e de uma alegria indizível e cheia de glória.

As primeiras pragas na igreja

12. Mas quão cedo tornou a operar “o mistério da iniquidade”, obscurecendo o glorioso panorama! Começou a operar (não abertamente, mas de modo encoberto) em dois dos cristãos, Ananias e Safira. Eles “venderam a sua propriedade”, como os demais, e provavelmente pelo mesmo motivo; mas depois, dando lugar ao diabo e raciocinando com a carne e o sangue, “retiveram parte do preço”. Eis os primeiros cristãos que “fizeram naufrágio da fé e da boa consciência”; os primeiros que “recuaram para a perdição”, em vez de continuar a “crer para a” final “salvação da alma”! Marque a primeira praga que infectou a Igreja cristã: o amor ao dinheiro! E não será ela a grande praga em todas as gerações, sempre que Deus reavivar a mesma obra? Ó crentes em Cristo, atentem para o aviso! Vejam o laço, o seu laço em particular — aquele a que estarão peculiarmente expostos depois de escaparem das grosseiras impurezas. “Não ameis o mundo, nem as coisas do mundo! Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele!”

13. Contudo, esta praga foi estancada na primeira Igreja cristã, cortando-se de imediato as pessoas infectadas. Por aquele assinalado juízo de Deus sobre os primeiros ofensores, “sobreveio grande temor a todos” (At 5.11), de modo que, ao menos por então, ninguém ousou seguir-lhes o exemplo. Entretanto, os crentes, homens cheios de fé e amor, que se alegravam em ter tudo em comum, “eram mais e mais agregados ao Senhor, multidões tanto de homens como de mulheres” (At 5.14).

14. Se indagarmos de que modo “o mistério da iniquidade” começou a operar de novo na Igreja, acharemos que operou de maneira bem diferente, assumindo outra forma: a parcialidade insinuou-se entre os crentes. Aqueles por quem se fazia a distribuição a cada um faziam acepção de pessoas, suprindo largamente os da sua própria nação, ao passo que as outras viúvas, que não eram hebreias, “eram esquecidas na distribuição diária” (At 6.1). Aqui houve manifesta quebra do amor fraterno da parte dos hebreus, pecado contra a justiça e a misericórdia, visto que os gregos, tanto quanto os hebreus, haviam “vendido tudo o que tinham e depositado o preço aos pés dos apóstolos”. Eis a segunda praga que irrompeu na Igreja: a parcialidade, a acepção de pessoas, o excessivo apreço pelos do nosso lado e o descaso pelos outros, ainda que igualmente dignos.

15. A infecção não parou aí, mas um mal produziu muitos outros. Da parcialidade dos hebreus “surgiu nos gregos uma murmuração contra” eles; não só pensamentos de descontentamento e ressentimento, mas palavras condizentes: expressões duras, maledicência e detração naturalmente se seguiram. E, brotando assim a “raiz de amargura”, sem dúvida “muitos foram contaminados”. Os apóstolos logo acharam meio de remover a ocasião dessa murmuração; contudo, restou tanto da má raiz que Deus viu ser necessário usar remédio mais severo. Soltou o mundo sobre todos eles, para que, pelo sofrimento, pela perda dos bens, pela dor, pela prisão e pela própria morte, ao mesmo tempo os castigasse e os corrigisse. E a perseguição, o último remédio de Deus para um povo desviado, teve o feliz efeito para que ele a destinou. Cessaram tanto a parcialidade dos hebreus quanto a murmuração dos gregos; e “então as igrejas tinham paz e eram edificadas; e, andando no temor do Senhor e na consolação do Espírito Santo, cresciam em número” (At 9.31).

16. Parece ter sido algum tempo depois disto que “o mistério da iniquidade” começou a operar sob a forma de zelo. Grandes perturbações surgiram por meio de alguns que zelosamente contendiam pela circuncisão e pelo resto da lei cerimonial, até que os apóstolos e presbíteros puseram fim ao mal com aquela decisão final: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor maior encargo além destas coisas essenciais: que vos abstenhais das carnes sacrificadas aos ídolos, do sangue, das carnes sufocadas e da impureza” (At 15.28–29). Contudo, este mal não foi tão inteiramente suprimido que não irrompesse muitas vezes de novo, como se aprende de várias partes das cartas de Paulo, particularmente a de Gálatas.

17. Aparentado a este foi outro grave mal que ao mesmo tempo surgiu na Igreja: a falta de tolerância mútua e, por consequência, a ira, a contenda, a discórdia. Um exemplo muito notável disto achamos neste mesmo capítulo. Quando “Paulo disse a Barnabé: Visitemos os irmãos onde pregamos a palavra, Barnabé resolveu levar consigo João”, por ser “filho de sua irmã”. “Mas Paulo não achava justo levar aquele que os havia abandonado antes.” E certamente tinha razão do seu lado. Mas Barnabé resolveu fazer a sua vontade. E houve “irritação” — não, note-se, da parte de Paulo; só Barnabé teve paixão, para suprir a falta de razão. Assim, ele se apartou da obra e voltou para casa, enquanto Paulo seguiu adiante “pela Síria e pela Cilícia, confirmando as igrejas” (At 15.41).

18. A própria primeira comunidade de cristãos em Roma não estava de todo livre deste fermento maligno: havia “divisões e escândalos” também entre eles (Rm 16.17), embora, em geral, parecessem “andar em amor”. Mas quão cedo, e quão poderosamente, operou o “mistério da iniquidade” na Igreja de Corinto! Não só cismas e heresias, animosidades e amargas contendas havia entre eles, mas pecados abertos; sim, “tal impureza como nem entre os gentios se nomeia” (1Co 5.1). Aliás, houve necessidade de lembrar-lhes que “nem adúlteros, nem ladrões, nem bêbados herdarão o reino de Deus” (1Co 6.9–10). E em todas as cartas de Paulo achamos abundante prova de que o joio cresceu com o trigo em todas as igrejas, e de que “o mistério da iniquidade” por toda parte, em mil formas, contrariava “o mistério da piedade”.

19. Quando Tiago escreveu a sua carta, dirigida mais diretamente “às doze tribos que estão na dispersão”, aos judeus convertidos, o joio semeado no seu trigo já produzira farta colheita. Aquela grande peste do cristianismo, uma fé sem obras, espalhara-se por toda parte, enchendo a Igreja de uma “sabedoria que vem de baixo”, que era “terrena, animal e demoníaca”, e que deu origem não só ao juízo temerário e à maledicência, mas à “inveja, à contenda, à confusão e a toda obra perversa”. De fato, quem ler com séria atenção os capítulos quarto e quinto desta carta se inclinará a crer que, mesmo nesta época tão inicial, o joio já quase sufocara o trigo.

20. Pedro escreveu, mais ou menos na mesma época, “aos estrangeiros”, os cristãos “dispersos” por aquelas vastas províncias do “Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia”. Estes eram, provavelmente, alguns dos mais eminentes cristãos que então havia no mundo. E, contudo, quão longe estavam até estes de serem “sem mancha e sem defeito”! E que grave joio também aqui crescia com o trigo! Alguns “introduziam heresias destruidoras, negando até o Senhor que os resgatou” (2Pe 2.1); e “muitos seguiam as suas dissoluções”, dos quais o apóstolo dá aquela terrível descrição: “Andam segundo a carne, na imunda concupiscência, como brutos animais destinados a serem apanhados e destruídos. São nódoas e máculas, enquanto se banqueteiam convosco; têm os olhos cheios de adultério e não cessam de pecar. São fontes sem água, névoas impelidas pela tempestade, para os quais está reservada a escuridão das trevas.” E, no entanto, estes mesmos homens eram chamados cristãos, e estavam então no seio da Igreja!

21. Tal é o autêntico relato do “mistério da iniquidade” operando até nas igrejas apostólicas — relato dado não pelos judeus ou pagãos, mas pelos próprios apóstolos. A isto podemos acrescentar o relato dado pelo Cabeça e Fundador da Igreja, aquele “que tem as estrelas na sua destra”, que é “a Testemunha fiel e verdadeira”. Podemos facilmente inferir qual era o estado geral da Igreja pelo estado das sete igrejas da Ásia. Uma delas, a de Filadélfia, “guardara a sua palavra e não negara o seu nome” (Ap 3.8); a de Esmirna estava igualmente em estado florescente; mas todas as demais estavam corrompidas, mais ou menos, a ponto de muitas não serem em nada melhores que a atual geração de cristãos; e o nosso Senhor ameaçou então “remover o candelabro” delas — o que há muito cumpriu.

Do declínio à esperança da reforma geral

22. Tal era o estado real da Igreja cristã, já durante o primeiro século, enquanto não só João, mas a maioria dos apóstolos estava presente e presidia sobre ela. Mas que mistério é este: que o Sapientíssimo, o Clementíssimo, o Todo-Poderoso, o permitisse assim, não só numa, mas, até onde podemos saber, em toda sociedade cristã, exceto as de Esmirna e Filadélfia! E como vieram estas a ser exceção? Por que eram menos corrompidas que as outras igrejas da Ásia? Ao que parece, porque eram menos ricas. Os cristãos de Filadélfia não estavam literalmente “enriquecidos de bens”, como os de Éfeso ou Laodiceia; e, se os de Esmirna haviam adquirido mais riqueza, esta fora varrida pela perseguição. De modo que estes, tendo menos dos bens deste mundo, retiveram mais da simplicidade e da pureza do evangelho.

23. Mas quão contrário é este relato bíblico dos antigos cristãos às ideias comuns dos homens! Costumamos imaginar que a Igreja primitiva era toda excelência e perfeição, condizente com aquela forte descrição que Pedro cita de Moisés: “Vós sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus.” E tal, sem dúvida, foi a primeira Igreja cristã, que começou no dia de Pentecostes. Mas quão depressa o ouro fino se embaciou! Quão depressa o vinho se misturou com água! Quão pouco tempo passou antes que o “deus deste século” de tal modo reconquistasse o seu império, que os cristãos em geral mal se distinguiam dos pagãos, a não ser pelas opiniões e pelos modos de culto!

24. E, se o estado da Igreja já no primeiro século era tão mau, não podemos supor que fosse melhor no segundo. Sem dúvida foi piorando. Tertuliano, um dos mais eminentes cristãos daquela era, deu-nos disto um relato em várias partes dos seus escritos, donde aprendemos que a religião real e interior mal se achava; aliás, que não só os temperamentos dos cristãos eram exatamente os mesmos dos seus vizinhos pagãos (o orgulho, a paixão, o amor ao mundo reinando igualmente em ambos), mas também a sua vida e os seus costumes. Dar fiel testemunho contra a corrupção geral dos cristãos parece ter levantado o clamor contra Montano — e contra o próprio Tertuliano, quando se convenceu de que o testemunho de Montano era verdadeiro. Quanto às heresias atribuídas a Montano, não é fácil achar quais fossem. Creio que a sua grande heresia foi sustentar que “sem santidade”, interior e exterior, “ninguém verá o Senhor”.

25. Cipriano, bispo de Cartago, em todos os aspectos testemunha irrepreensível, que floresceu por volta de meados do terceiro século, deixou-nos abundância de cartas, nas quais dá um amplo e particular relato do estado da religião no seu tempo. Ao lê-lo, seríamos levados a imaginar que estávamos lendo um relato do século presente: tão totalmente destituídos de verdadeira religião eram, em geral, tanto os leigos quanto o clero, tão imersos em ambição, inveja, cobiça, luxúria e todos os demais vícios, que os cristãos da África eram então exatamente o que os cristãos da Inglaterra são hoje.

26. É verdade que, durante todo este período, durante os três primeiros séculos, houve, de permeio, estações mais longas ou mais curtas em que o verdadeiro cristianismo reviveu. Nessas estações, a justiça e a misericórdia de Deus soltavam os pagãos sobre os cristãos. Muitos destes eram então chamados a “resistir até ao sangue”. E “o sangue dos mártires foi a semente da Igreja”. O espírito apostólico voltava; e muitos “não tinham a própria vida por preciosa, contanto que terminassem a carreira com alegria”. Muitos outros eram reduzidos a uma feliz pobreza; e, despojados do que amavam em excesso, “lembravam-se de onde tinham caído, arrependiam-se e voltavam às primeiras obras”.

27. A perseguição nunca deu, nunca poderia dar, ferida duradoura ao cristianismo genuíno. Mas a maior que ele já recebeu, o grande golpe desferido na própria raiz daquele amor humilde, brando e paciente que é o cumprimento da lei cristã, foi desferido no quarto século por Constantino, o Grande, quando se chamou cristão e derramou uma torrente de riquezas, honras e poder sobre os cristãos, mais especialmente sobre o clero. Cumpriu-se então na Igreja o que um historiador romano diz do povo de Roma: removido o temor do rival, “não a passo, mas em curso precipitado, desviaram-se da virtude e correram para os vícios”. Assim mesmo, quando o temor da perseguição foi removido e a riqueza e a honra passaram a acompanhar a profissão cristã, os cristãos “não afundaram aos poucos, mas se precipitaram de cabeça em toda espécie de vícios”. Então “o mistério da iniquidade” já não se escondia, mas caminhava à luz do sol. Começava então não a idade de ouro, mas a idade de ferro da Igreja; então se poderia dizer com verdade:

De uma só vez, naquela era infeliz, irrompeu

toda a maldade e todo pecado mortal;

a verdade, o pudor e a fé fugiram para longe,

e a força e a sede de ouro tomaram o lugar delas.

28. E este é o acontecimento que a maioria dos expositores cristãos menciona com tanto triunfo! Sim, que alguns supõem estar figurado no Apocalipse pela “Nova Jerusalém descendo do céu”! Diga-se antes que foi a vinda de Satanás e de todas as suas legiões do abismo — visto que, desde então, ele estabeleceu o seu trono sobre a face de toda a terra e reinou sobre o mundo cristão, tanto quanto sobre o pagão, quase sem oposição. Os historiadores, de fato, nos falam gravemente de nações, em cada século, convertidas ao cristianismo por este ou aquele (santos, sem dúvida!); mas estes convertidos praticavam todo tipo de abominações, exatamente como antes, em nada diferindo, nem no temperamento nem na vida, das nações ainda chamadas pagãs. Tal foi o deplorável estado da Igreja cristã, do tempo de Constantino até a Reforma. Uma nação cristã, uma cidade cristã (segundo o modelo bíblico) não se via em parte alguma; mas toda cidade e todo país, exceto uns poucos indivíduos, estavam afundados em toda espécie de maldade.

29. Terá o caso mudado desde a Reforma? Já não opera “o mistério da iniquidade” na Igreja? Não. A própria Reforma não se estendeu a mais de um terço da Igreja ocidental, de modo que dois terços permanecem como estavam; e assim as igrejas oriental, meridional e setentrional. E qual é a condição das igrejas reformadas? É certo que foram reformadas nas suas opiniões e nos seus modos de culto. Mas será isto tudo? Foram reformados os seus temperamentos ou as suas vidas? De modo nenhum. Aliás, muitos dos próprios reformadores se queixavam de que “a Reforma não fora levada longe o bastante”. Mas o que queriam dizer? Que não reformaram suficientemente os ritos e as cerimônias. Ó tolos e cegos! Fixar toda a atenção nas circunstâncias da religião! A vossa queixa deveria ter sido: os pontos essenciais da religião não foram levados longe o bastante! Deveríeis ter insistido veementemente numa mudança inteira do temperamento e da vida dos homens, em que mostrassem ter “o sentir que houve em Cristo”, andando “como ele andou”. Sem isto, quão irrisória foi a reforma das opiniões, dos ritos e das cerimônias! Ora, examine alguém o estado do cristianismo nas partes reformadas da Suíça, da Alemanha, da França, da Suécia, da Dinamarca, da Holanda, da Grã-Bretanha e da Irlanda. Quão pouco são estes cristãos reformados melhores que as nações pagãs! Ah, não — devemos reconhecer, com tristeza e vergonha, que estamos muito abaixo delas!

30. Não é isto a apostasia, o afastamento de Deus, predito por Paulo na sua segunda carta aos Tessalonicenses (2Ts 2.3)? De fato, eu não ousaria dizer, com George Fox, que essa apostasia foi universal, que nunca houve cristãos reais no mundo desde os apóstolos até o seu tempo. Mas podemos ousar dizer que, onde quer que o cristianismo se espalhou, a apostasia também se espalhou; de tal modo que, embora haja agora, e sempre tenha havido, indivíduos que eram cristãos reais, o mundo inteiro nunca pôde, nem pode hoje, mostrar um país ou uma cidade cristã.

31. Eu agora submeteria a todo homem de reflexão que crê serem as Escrituras de Deus: não implica esta apostasia geral a necessidade de uma reforma geral? Sem admiti-lo, como podemos justificar a sabedoria ou a bondade de Deus? Segundo a Escritura, a religião cristã foi destinada à “cura das nações”, à salvação do pecado, por meio do segundo Adão, de todos os que foram “constituídos pecadores” pelo primeiro. Mas ela não corresponde a este fim; nunca correspondeu, exceto por breve tempo em Jerusalém. Que podemos dizer, senão que, se ainda não correspondeu, por certo há de corresponder? Vem chegando o tempo em que não só “todo o Israel será salvo”, mas “a plenitude dos gentios entrará”. Vem o tempo em que “não se ouvirá mais violência na terra, nem desolação dentro dos nossos limites”, mas toda cidade chamará “aos seus muros Salvação, e às suas portas Louvor”; quando o povo, diz o Senhor, “será todo justo, herdará a terra para sempre; será o renovo por mim plantado, obra das minhas mãos, para que eu seja glorificado” (Is 60.18,21).

O que aprendemos

32. Das considerações precedentes podemos aprender a resposta cabal a uma das grandes objeções dos incrédulos contra o cristianismo: a vida dos cristãos. Dos cristãos, você diz? Duvido que você jamais tenha conhecido um cristão na vida. Quando Tomo Chachi, o chefe indígena, respondeu com agudeza aos que lhe falavam de ser cristão — “Ora, estes são os cristãos de Savannah! Estes são os cristãos de Frederica!” —, a resposta certa teria sido: “Não, não são; não são mais cristãos do que você.” “Mas não são cristãos aqueles em Cantuária, em Londres, em Westminster?” Não; não mais do que são anjos. Ninguém é cristão senão os que têm o sentir que houve em Cristo e andam como ele andou. “Ora, se só estes são cristãos”, disse um homem de espírito, “nunca vi um cristão.” Creio: nunca viu; e talvez nunca veja, pois nunca os achará no mundo pomposo ou frívolo. Os poucos cristãos que há na terra só se acham onde você nunca os procura. Nunca mais, portanto, apresente esta objeção; nunca mais oponha ao cristianismo a vida dos pagãos. Embora se chamem cristãos, o nome não implica a coisa: estão tão longe disto quanto o inferno do céu!

33. Podemos aprender daqui, segundo, a extensão da queda, a assombrosa difusão da corrupção original. Como, entre tantos milhares, tantos milhões, “não há justo, nem um sequer”? Não por natureza. Mas, incluindo a graça de Deus, não direi, com o poeta pagão, que os bons são tão raros que mal chegam ao número das portas de Tebas. Aliás, por certo houve sete mil! Houve tantos, muito tempo atrás, numa pequena nação, onde Elias supunha não haver nenhum. Mas, admitidas umas poucas exceções, estamos autorizados a dizer: “O mundo inteiro jaz no maligno.” Sim, o mundo pagão inteiro. Sim, e também o cristão (assim chamado); pois onde está a diferença, senão em uns poucos aspectos externos? Veja com os seus próprios olhos! Olhe para aquele grande país, a Índia. Há ali cristãos e também pagãos. Quais têm mais justiça, misericórdia e verdade — os cristãos ou os pagãos? Quais são mais corruptos e cruéis no temperamento e na prática? Quais desolaram países inteiros e entulharam os rios de cadáveres? Ó sagrado nome de cristão, como és profanado! Ó terra, terra, terra! Como gemes sob as vilanias dos teus habitantes cristãos!

34. De muitas das circunstâncias precedentes podemos aprender, terceiro, qual é a tendência genuína das riquezas — que influência funesta tiveram, em todas as eras, sobre a religião pura e sem mácula. Não que o dinheiro seja um mal em si: presta-se a bons e a maus fins. Mas, não obstante, é verdade indubitável que “o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males”; e também que a posse de riquezas naturalmente gera o amor a elas. Assim, é antiga a observação: “Cresce o amor ao dinheiro à medida que cresce o próprio dinheiro”; e sempre crescerá, sem um milagre da graça. Embora, portanto, outras causas possam concorrer, esta foi, em todas as eras, a causa principal da decadência da verdadeira religião em toda comunidade cristã. Enquanto os cristãos, em qualquer lugar, eram pobres, eram dedicados a Deus. Enquanto tinham pouco do mundo, não amavam o mundo; mas, quanto mais dele tinham, mais o amavam. Isto constrangeu o Amigo das suas almas, em várias ocasiões, a desacorrentar os seus perseguidores, os quais, reduzindo-os à sua antiga pobreza, os reduziam à sua antiga pureza. Mas lembre-se sempre: a riqueza foi, em todas as eras, a ruína do cristianismo genuíno!

35. Podemos aprender daqui, quarto, de quanta vigilância precisam os que desejam ser cristãos reais, considerando em que estado o mundo se acha! Não pode cada um deles bem dizer:

Enviado a um mundo de facínoras,

caminho em solo hostil;

ursos humanos selvagens, ávidos de matança,

e lobos vorazes me rodeiam.

São tanto mais perigosos por comumente se apresentarem em pele de ovelha. Até os que não fazem profissão de religião fazem, contudo, belas promessas de boa vontade, de prontidão para nos servir. Mas cuidado com fiar-se na palavra deles! Não confie em homem algum, até que ele tema a Deus! É grande verdade: “Quem não teme a Deus não pode amar amigo algum.” Portanto, fique de guarda contra todo aquele que não busca fervorosamente salvar a sua alma. Temos necessidade de guardar o coração e a boca “como que com um freio, enquanto o ímpio está diante de nós”. A conversa deles, o espírito deles, é infeccioso e se infiltra em nós sem que percebamos. “Feliz o homem que teme continuamente”, também neste sentido, para não participar dos pecados alheios. Ó “conserva-te puro!” “Vigia e ora, para que não entres em tentação!”

36. Podemos aprender daqui, por fim, que gratidão convém aos que escaparam da corrupção que há no mundo, aos que Deus escolheu do mundo para serem santos e irrepreensíveis. “Quem é que te faz diferente?” “E que tens que não tenhas recebido?” Não é “Deus” somente “quem opera em ti tanto o querer quanto o realizar, segundo a sua boa vontade”? “Digam-no, pois, os remidos do Senhor, os que ele resgatou da mão do inimigo.” Louvemo-lo por nos ter dado a ver o deplorável estado de todos os que nos rodeiam, a maldade que transborda na terra, e ainda assim não sermos arrastados pela torrente! Vemos o contágio geral, quase universal, e ele não pode chegar a ferir-nos! Graças àquele “que nos livrou de tão grande morte, e ainda nos livra!” E não temos ainda maior motivo de gratidão, sim, e forte consolação, na bendita esperança que Deus nos deu, de que está próximo o tempo em que a justiça será tão universal quanto hoje é a injustiça? Ainda que “toda a criação agora gema a um só tempo” sob o pecado do homem, o nosso consolo é que ela não gemerá para sempre: Deus se levantará e sustentará a sua própria causa; e toda a criação será então libertada da corrupção moral e da natural. O pecado, e a sua consequência, a dor, não mais existirão; a santidade e a felicidade cobrirão a terra. Então todos os confins do mundo verão a salvação do nosso Deus.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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