SERMÃO 75

Sobre o cisma

O que é o cisma em sentido bíblico — e por que a separação fere o amor.

1Co 12.25, NAA ⏱ 19 min de leituraIgreja, unidade e missão

“para que não haja divisão no corpo.”

(1Co 12.25, NAA)

Antes de ler

Neste sermão, Wesley examina o significado bíblico da palavra “cisma”. Ele argumenta que, no uso do Novo Testamento, cisma não significa primeiramente separar-se de uma instituição eclesiástica, mas produzir divisões, partidos, rivalidades e alienação de afeto dentro de uma comunidade cristã.

Wesley admite que uma separação institucional pode ser necessária quando a permanência em determinada Igreja exige a prática do pecado, a negação da consciência ou a desobediência a uma ordem clara de Deus. Fora desses casos, porém, considera a separação injustificada uma grave violação da lei do amor.

O sermão deve ser entendido no contexto da relação de Wesley com a Igreja da Inglaterra. Embora liderasse o movimento metodista, ele continuava considerando-se ministro anglicano e declarava não ter intenção de abandonar essa Igreja enquanto pudesse cumprir nela sua vocação de pregar o evangelho.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

Caso exista na língua inglesa alguma palavra tão ambígua e indefinida quanto a palavra “Igreja”, é outra intimamente relacionada a ela: a palavra “cisma”.

Ela tem sido objeto de incontáveis discussões durante várias centenas de anos, e um número quase incontável de livros foi escrito sobre ela em todas as partes do mundo cristão.

Uma enorme quantidade desses livros foi publicada em nosso país, especialmente durante o século passado e no início do presente.

Pessoas de entendimento extremamente vigoroso e da mais elevada erudição empregaram toda a sua capacidade nessa questão, tanto em conversas quanto por escrito.

Isso pareceu tornar-se mais necessário do que nunca desde a grande separação dos reformadores em relação à Igreja de Roma.

Essa é uma acusação que os membros daquela Igreja nunca deixam de apresentar contra todos os que se separam dela.

Consequentemente, a questão ocupou os pensamentos e as penas dos mais capazes debatedores dos dois lados.

Os participantes de ambos os lados geralmente entraram na disputa certos da vitória, imaginando que a força de seus argumentos era tão grande que seria impossível a pessoas sensatas resistir a eles.

Entretanto, pode-se observar que pouquíssimo benefício foi produzido por todas essas controvérsias.

Pouquíssimos dos debatedores mais fervorosos e habilidosos conseguiram convencer seus adversários.

Depois de tudo quanto foi dito, os católicos romanos continuam católicos romanos e os protestantes continuam protestantes.

O mesmo resultado acompanhou aqueles que discutiram tão intensamente a respeito da separação da Igreja da Inglaterra.

Os que se separaram dela foram energicamente acusados de cisma. Eles negaram a acusação com a mesma energia. Quase ninguém conseguiu convencer seus oponentes, de um lado ou de outro.

Uma grande razão pela qual essa controvérsia foi tão improdutiva e tão poucos de qualquer dos lados foram convencidos é esta: raramente concordaram sobre o significado da palavra a respeito da qual discutiam.

Caso não determinassem seu significado e não definissem o termo antes de iniciar a discussão, poderiam continuar debatendo até o fim da vida sem avançar um único passo e sem se aproximar minimamente uns dos outros.

Esse deve ser, porém, um assunto de considerável importância, pois, caso contrário, Paulo não teria falado sobre ele com tanta seriedade.

É, portanto, extremamente necessário considerarmos:

I. A natureza do cisma; e

O mal produzido por ele.

Isso é ainda mais necessário porque, entre os incontáveis livros escritos sobre o assunto, tanto por católicos romanos quanto por protestantes, é difícil encontrar algum que o defina de maneira bíblica.

Todo o conjunto dos católicos romanos define cisma como separação da Igreja de Roma, e quase todos os nossos escritores o definem como separação da Igreja da Inglaterra.

Assim, ambos começam de maneira equivocada e tropeçam logo na entrada.

Isso ficará facilmente evidente a qualquer pessoa que examine com serenidade as diferentes passagens nas quais aparece a palavra “cisma”.

Pelo sentido geral de todas elas, fica claro que cisma não é uma separação de uma Igreja — seja geral, seja particular; seja da Igreja católica, seja de alguma Igreja nacional —, mas uma separação dentro de uma Igreja.

Comecemos pela primeira passagem na qual Paulo emprega essa palavra. Ela se encontra no décimo versículo do primeiro capítulo da Primeira Carta aos Coríntios.

As palavras são: “Irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, peço que todos vocês estejam de acordo no que falam e que não haja divisões” — a palavra original é schísmata, cismas — “entre vocês. Pelo contrário, que vocês sejam unidos no mesmo modo de pensar e num mesmo propósito” (1 Coríntios 1.10).

Poderia existir algo mais claro do que o fato de que os cismas mencionados aqui não eram separações da Igreja de Corinto, mas divisões dentro dela?

O texto prossegue dizendo que deveriam estar perfeitamente unidos no mesmo modo de pensar e no mesmo julgamento.

Vemos aqui que a união de pensamento e julgamento era o oposto direto do cisma existente em Corinto.

Consequentemente, esse cisma não consistia em uma separação da Igreja ou comunidade cristã de Corinto, mas em uma divisão dentro da Igreja; uma desunião de pensamento e julgamento — e talvez também de afeto — entre pessoas que, apesar disso, continuavam exteriormente unidas como antes.

A natureza desse cisma em Corinto é determinada de maneira ainda mais clara — caso seja possível tornar mais claro aquilo que já está tão evidente — pelas palavras seguintes:

“Refiro-me ao fato de cada um de vocês dizer: ‘Eu sou de Paulo’, ‘Eu sou de Apolo’, ‘Eu sou de Cefas’, ‘Eu sou de Cristo’” (1 Coríntios 1.12).

Esse é o cisma sobre o qual ele fala. Eles estavam divididos em diferentes partidos, alguns favorecendo um pregador e outros favorecendo outro.

Quem não percebe, então, que o cisma pelo qual o apóstolo repreende os coríntios é simplesmente sua divisão em diferentes partidos, de acordo com a preferência por este ou aquele pregador?

Contra essa espécie de cisma será necessário precaver-se em toda comunidade religiosa.

A segunda passagem em que o apóstolo emprega a palavra está no versículo dezoito do capítulo onze da mesma carta:

“Quando vocês se reúnem na igreja, ouço que há divisões” — a palavra original também é schísmata, cismas — “entre vocês” (1 Coríntios 11.18).

Mas quais eram esses cismas? O apóstolo explica imediatamente:

“Quando vocês se reúnem no mesmo lugar, não é a ceia do Senhor que vocês comem. Porque, ao comer, cada um toma, antecipadamente, a sua própria ceia. E enquanto um passa fome, outro fica embriagado” (1 Coríntios 11.20-21).

Qual era, então, o cisma? Parece que, fazendo isso, dividiam-se em pequenos grupos que alimentavam ira e ressentimento uns contra os outros até mesmo naquela ocasião solene.

Pode-se observar — fazendo aqui uma pequena digressão em favor daqueles que são perturbados por escrúpulos desnecessários sobre esse assunto — que o pecado atribuído pelo apóstolo aos participantes da Ceia em Corinto é geralmente compreendido de maneira completamente equivocada.

O pecado era exatamente este, e nada mais: “cada um tomava antecipadamente a sua própria ceia”, de maneira tão vergonhosa que, enquanto um passava fome, outro se embriagava.

Fazendo isso, diz o apóstolo, eles comiam e bebiam — não “condenação”, que seria uma tradução inadequada da palavra, mas — juízo, um juízo temporal, contra si mesmos.

Esse juízo, em alguns casos, encurtava a vida deles.

“Por causa disso” — por pecarem dessa maneira vergonhosa — “há entre vocês muitos fracos e doentes” (1 Coríntios 11.30).

Observem aqui duas coisas.

Primeiro: qual era o pecado dos coríntios? Observem cuidadosamente e lembrem-se disso. Eles tomavam antecipadamente sua própria refeição, de modo que, enquanto um passava fome, outro se embriagava.

Segundo: qual era a punição? Fraqueza e enfermidade física, que, sem arrependimento, poderiam terminar em morte.

Mas o que isso tem a ver com vocês? Vocês não podem cometer exatamente o pecado deles; portanto, não podem receber exatamente a punição deles.

Merece séria consideração o fato de que, nesse capítulo, o apóstolo emprega a palavra “heresias” como equivalente à palavra “cismas”.

“Ouço”, diz ele, “que há divisões entre vocês, e em parte eu acredito.” Depois acrescenta: “Porque até mesmo importa que haja partidos entre vocês, para que também os aprovados se tornem conhecidos” (1 Coríntios 11.18-19).

É como se dissesse: “A sabedoria de Deus permite que isso aconteça com esta finalidade: para que sejam claramente manifestados aqueles cujo coração é correto diante dele.”

Portanto, a palavra “heresia”, que durante muitos séculos foi tão estranhamente distorcida, como se significasse opiniões erradas, contrárias à fé que uma vez por todas foi entregue aos santos, não possui aqui relação alguma com opiniões certas ou erradas.

Essa interpretação foi usada como pretexto para destruir cidades, devastar países e derramar enormes quantidades de sangue inocente.

Nas Escrituras, porém, a palavra significa simplesmente divisões ou partidos dentro de uma comunidade religiosa.

A terceira e última passagem desta carta em que o apóstolo emprega essa palavra é o versículo vinte e cinco do capítulo doze.

Falando sobre a Igreja — e parece referir-se à Igreja universal, todo o corpo de Cristo —, ele observa:

“Deus coordenou o corpo, concedendo muito mais honra àquilo que menos tinha, para que não haja divisão no corpo; pelo contrário, que os membros cooperem, com igual cuidado, em favor uns dos outros” (1 Coríntios 12.24-25).

Imediatamente, ele determina o significado das próprias palavras:

“Se um membro sofre, todos sofrem com ele; se um deles é honrado, todos se alegram com ele” (1 Coríntios 12.26).

Podemos observar facilmente que a palavra “cisma” aqui significa a ausência desse cuidado terno de uns pelos outros.

Significa, sem dúvida, uma alienação de afeto em alguns membros em relação aos seus irmãos; uma divisão de coração e a formação de partidos resultantes dela, embora todos continuassem exteriormente unidos e permanecessem membros da mesma comunidade visível.

Parece, porém, existir uma objeção importante contra a ideia de que heresia e cisma possuam o mesmo significado.

Diz-se que Pedro, no segundo capítulo de sua Segunda Carta, emprega a palavra “heresias” em sentido completamente diferente:

“Haverá entre vocês falsos mestres, os quais introduzirão heresias destruidoras, chegando a renegar o Soberano Senhor que os resgatou” (2 Pedro 2.1).

Não parece, porém, que Pedro empregue aqui a palavra “heresias” em sentido diferente daquele empregado por Paulo.

Mesmo nessa passagem, a palavra não parece possuir relação alguma com opiniões boas ou más.

Significa, antes, que eles introduziriam ou produziriam partidos ou seitas destruidoras — assim é traduzida na versão francesa comum — que negariam o Senhor que os comprou.

Seitas semelhantes abundam agora por todo o mundo cristão.

Ficarei agradecido a qualquer pessoa que me indique outra passagem dos escritos inspirados em que a palavra “cisma” seja encontrada. Recordo-me apenas dessas três.

Para todo leitor imparcial, fica evidente que, em nenhuma delas, a palavra significa separação de uma Igreja ou corpo de cristãos, seja essa separação justificada ou injustificada.

Portanto, o enorme esforço feito tanto por católicos romanos quanto por protestantes, escrevendo volumes inteiros contra o cisma entendido como separação da Igreja de Roma ou da Igreja da Inglaterra, empregando toda a sua capacidade e erudição, serviu para muito pouco.

Eles lutaram contra sombras criadas por eles mesmos, combatendo violentamente um pecado que só existia em sua própria imaginação e que não é proibido nem sequer mencionado uma única vez, nesse sentido, no Antigo ou no Novo Testamento.

“Mas não existe algum pecado semelhante àquilo que tantos escritores instruídos e piedosos chamaram de cisma, e contra o qual todos os membros das comunidades religiosas precisam ser cuidadosamente advertidos?”

Sem dúvida, existe. Não sei se esse pecado também poderia ser chamado de cisma em um sentido mais distante.

Refiro-me à “separação injustificada de um corpo de cristãos vivos”.

Não existe absurdo em empregar a palavra nesse sentido, embora ele não seja estritamente bíblico.

É certo que todos os membros das comunidades cristãs devem ser cuidadosamente advertidos contra isso.

Por menor que essa separação pareça e por mais inocente que seja considerada, o cisma, mesmo nesse sentido, é mau em si mesmo e produz consequências más.

Ele é mau em si mesmo.

Separar-nos de um corpo de cristãos vivos com os quais anteriormente estávamos unidos é uma grave violação da lei do amor.

A natureza do amor é unir-nos. Quanto maior o amor, mais estreita a união.

Enquanto o amor permanece forte, coisa alguma pode dividir aqueles que foram unidos por ele.

Somente quando nosso amor esfria conseguimos pensar em separar-nos de nossos irmãos.

Isso certamente acontece com todos os que se separam voluntariamente de seus irmãos cristãos.

Os pretextos para a separação podem ser incontáveis, mas a falta de amor é sempre a verdadeira causa. Caso contrário, continuariam preservando “a unidade do Espírito no vínculo da paz” (Efésios 4.3).

A separação é, portanto, contrária a todos os mandamentos de Deus que ordenam o amor fraternal.

É contrária à ordem de Paulo: “Seja constante o amor fraternal” (Hebreus 13.1).

É contrária à ordem de João: “Filhinhos, amemos uns aos outros.”

É especialmente contrária à ordem de nosso bendito Mestre: “O meu mandamento é este: que vocês amem uns aos outros, assim como eu os amei” (João 15.12).

E também: “Nisto todos conhecerão que vocês são meus discípulos: se tiverem amor uns aos outros” (João 13.35).

Assim como essa separação é má em si mesma, por ser uma violação do amor fraternal, também produz frutos maus. Por sua própria natureza, dá origem às consequências mais prejudiciais.

Abre a porta para toda espécie de disposições hostis, tanto em nós quanto nos outros.

Conduz diretamente a uma sequência de suspeitas malignas e julgamentos severos e destituídos de amor de uns contra os outros.

Dá ocasião à ofensa, à ira e ao ressentimento, talvez em nós e também em nossos irmãos.

Caso não sejam imediatamente interrompidos, esses sentimentos podem terminar em amargura, malícia e ódio permanente, criando um inferno presente onde quer que sejam encontrados, como antecipação do inferno eterno.

As consequências más dessa espécie de cisma, porém, não terminam no coração.

As disposições malignas não conseguem permanecer por muito tempo no interior sem produzir frutos exteriores.

“A boca fala do que está cheio o coração” (Mateus 12.34).

Assim como aquele cujo coração está cheio de amor abre a boca com sabedoria e possui em seus lábios a lei da bondade, aquele cujo coração está cheio de preconceito, ira, suspeita ou qualquer disposição hostil certamente abrirá a boca de maneira correspondente à condição de sua mente.

Disso surgirão, ainda que talvez não cheguem à mentira e à calúnia — embora dificilmente sejam evitadas —, palavras amargas, intrigas, difamações, murmurações e toda espécie de maledicência.

Quantas obras más surgirão naturalmente das palavras más, das intrigas, das murmurações e da maledicência!

A ira, o ciúme, a inveja e toda espécie de disposições perversas não se expressam apenas por palavras, mas impulsionam continuamente as pessoas a todo tipo de ações ímpias e injustas.

Pode-se esperar que dessa fonte surja uma colheita abundante de todas as obras das trevas.

Por meio delas, no final, milhares de almas — incluindo não poucas que anteriormente andavam à luz da presença de Deus — poderão afastar-se do caminho da paz e finalmente afundar-se na perdição eterna.

Com razão nosso bendito Senhor disse: “Ai do mundo por causa dos escândalos!” E acrescentou: “É inevitável que venham escândalos” (Mateus 18.7).

Sim, muitos deles surgirão necessariamente quando uma ruptura desse tipo acontecer em qualquer comunidade religiosa.

Os que a abandonam procurarão justificar-se censurando aqueles de quem se separaram. Estes, por sua vez, devolverão a acusação e procurarão colocar a culpa sobre os que saíram.

Quanto toda essa discussão entristece o Espírito Santo de Deus!

Quanto ela impede suas operações suaves e gentis na alma de ambos os lados!

Heresias e cismas — no sentido bíblico dessas palavras — serão, mais cedo ou mais tarde, a consequência. Partidos serão formados de ambos os lados, e o amor de muitos esfriará.

A fome e a sede de justiça — seja pelo favor de Deus, seja pela plena imagem de Deus —, juntamente com o intenso desejo que tantos possuíam de promover a obra de Deus na alma de seus irmãos, enfraquecerão.

À medida que os escândalos aumentarem, esses desejos morrerão gradualmente.

Quando o fruto do Espírito começar a secar, as obras da carne voltarão a prevalecer, destruindo primeiro o poder da religião e, depois, até mesmo sua forma exterior.

Essas consequências não são imaginárias nem foram construídas sobre simples conjecturas, mas sobre fatos evidentes.

Isso aconteceu repetidas vezes durante os últimos trinta ou quarenta anos. Esses foram os frutos que vimos surgir, vez após vez, de separações desse tipo.

Que grave pedra de tropeço essas coisas devem representar para os que estão de fora, para os que são estranhos à religião e não possuem nem a forma nem o poder da piedade!

Como triunfarão sobre aqueles que anteriormente eram cristãos destacados!

Com quanta confiança perguntarão: “Em que eles são melhores do que nós?”

Endurecerão cada vez mais o coração contra a verdade e considerarão correta sua própria perversidade.

Talvez o exemplo dos cristãos os tivesse afastado dela, caso esses cristãos tivessem continuado irrepreensíveis em sua conduta.

Esse é o dano complexo que as pessoas que se separam de uma Igreja ou comunidade cristã causam não apenas a si mesmas, mas a toda aquela comunidade e ao mundo em geral.

Talvez essas pessoas digam: “Não fizemos isso voluntariamente. Fomos obrigados a separar-nos daquela comunidade, porque não podíamos permanecer nela com a consciência limpa. Não podíamos continuar nela sem pecar.

Não nos permitiam permanecer sem violar um mandamento de Deus.”

Caso isso realmente acontecesse, vocês não poderiam ser culpados por separar-se daquela comunidade.

Suponhamos, por exemplo, que vocês fossem membros da Igreja de Roma e não pudessem permanecer nela sem cometer idolatria, sem prestar culto a ídolos, imagens, santos ou anjos.

Nesse caso, seria seu dever obrigatório abandonar completamente aquela comunidade.

Suponhamos que não fosse possível permanecer na Igreja da Inglaterra sem praticar alguma coisa proibida pela Palavra de Deus ou omitir alguma coisa que a Palavra de Deus ordena claramente.

Caso isso acontecesse — mas bendito seja Deus, não é assim —, vocês deveriam separar-se da Igreja da Inglaterra.

Aplicarei o caso a mim mesmo.

Sou agora, e tenho sido desde a juventude, membro e ministro da Igreja da Inglaterra. Não tenho desejo nem propósito de separar-me dela enquanto minha alma não se separar do corpo.

Entretanto, caso não me permitissem permanecer nela sem omitir aquilo que Deus exige que eu faça, seria correto e justo, e meu dever obrigatório, separar-me dela sem demora.

Para ser mais específico: sei que Deus me confiou a responsabilidade de anunciar o evangelho. Minha própria salvação depende de pregá-lo: “Ai de mim se não pregar o evangelho!” (1 Coríntios 9.16).

Portanto, caso eu não pudesse permanecer na Igreja sem omitir essa responsabilidade, sem deixar de pregar o evangelho, estaria debaixo da necessidade de separar-me dela ou perder minha própria alma.

Da mesma maneira, caso eu não pudesse continuar unido a alguma comunidade menor, Igreja ou grupo de cristãos, sem cometer pecado, mentir ou viver em hipocrisia, ou sem pregar aos outros doutrinas nas quais eu mesmo não acreditasse, estaria sob absoluta necessidade de separar-me daquela comunidade.

Em todos esses casos, o pecado da separação e os males consequentes não recairiam sobre mim, mas sobre aqueles que me obrigaram a separar-me, impondo condições de comunhão às quais eu não poderia submeter-me com a consciência limpa.

Deixando esse caso de lado, suponhamos que a Igreja ou comunidade à qual estou unido não exija que eu faça coisa alguma proibida pelas Escrituras nem que omita coisa alguma ordenada por elas.

Nesse caso, é meu dever indispensável permanecer nela.

Caso me separe sem que exista tal necessidade, sou justamente responsável — quer tenha previsto as consequências, quer não — por todos os males resultantes dessa separação.

Falei de maneira mais explícita sobre esse assunto porque ele é muito pouco compreendido.

Muitos dos que professam grande religiosidade e realmente desfrutam certa medida dela não possuem a menor compreensão desse assunto e nem imaginam que uma separação desse tipo seja pecado.

Abandonam uma comunidade cristã com a mesma indiferença com que saem de um cômodo para outro.

Dão ocasião a todo esse complexo mal e, depois, limpam a boca e dizem que não fizeram coisa alguma errada!

Na realidade, são justamente responsabilizados diante de Deus e dos seres humanos tanto por uma ação má em si mesma quanto por todas as consequências más que podem surgir para eles mesmos, para seus irmãos e para o mundo.

Portanto, suplico a vocês, meus irmãos, a todos os que temem a Deus e desejam agradá-lo, a todos os que desejam conservar uma consciência sem ofensa diante de Deus e das pessoas: não tratem esse assunto com leviandade, mas considerem-no serenamente.

Não rompam precipitadamente os laços sagrados que os unem a alguma comunidade cristã.

É verdade que isso não possui tanta importância para vocês que são apenas cristãos nominais, pois não estão vitalmente unidos a nenhum membro de Cristo.

Embora sejam chamados cristãos, não são realmente membros de nenhuma Igreja cristã.

Entretanto, caso sejam membros vivos, caso vivam a vida que está escondida com Cristo em Deus, tenham cuidado para não ferir o corpo de Cristo separando-se de seus irmãos.

Essa é uma coisa má em si mesma. É também um mal grave em suas consequências.

Tenham compaixão de vocês mesmos! Tenham compaixão de seus irmãos! Tenham compaixão até mesmo do mundo dos ímpios!

Não coloquem mais pedras de tropeço no caminho daqueles por quem Cristo morreu.

Caso vocês tenham receio — e não sem motivo — do cisma impropriamente chamado assim, quanto maior deverá ser seu receio, caso sua consciência seja sensível, do cisma em seu verdadeiro sentido bíblico!

Tenham cuidado, não direi apenas para não formar partidos, mas também para não apoiar ou favorecer qualquer partido dentro de uma comunidade cristã.

Jamais incentivem, muito menos provoquem, por palavras ou ações, qualquer divisão dentro dela.

Pela própria natureza das coisas, “é necessário que haja partidos entre vocês” (1 Coríntios 11.19), mas conservem-se puros.

Abandonem a discussão antes que se envolvam nela. Evitem o próprio início da contenda.

Não se associem àqueles que se entregam às discussões e amam as disputas.

Nunca vi falhar esta observação: “Aquele que ama discutir não ama a Deus.”

Procurem viver em paz com todos, pois, sem isso, não poderão buscar eficazmente a santidade.

Não apenas “busquem a paz”, mas persigam-na (Salmo 34.14). Caso pareça fugir de vocês, continuem seguindo-a.

“Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem” (Romanos 12.21).

Feliz é aquele que alcança o caráter de pacificador na Igreja de Deus.

Por que vocês não procurariam alcançar isso?

Não se contentem apenas em não provocar conflitos. Façam tudo o que estiver ao seu alcance para impedir ou apagar a primeira centelha.

É muito mais fácil impedir que a chama comece do que apagá-la depois que se espalhou.

Apesar disso, não tenham medo de tentar até mesmo apagar um conflito já iniciado. O Deus da paz está ao lado de vocês.

Ele lhes dará palavras agradáveis e as fará chegar ao coração dos que as ouvirem.

Noli diffidere; noli discedere, diz um homem piedoso. Fac quod in te est; et Deus aderit bonae tuae voluntati.

“Não desconfie daquele que possui todo o poder e mantém em suas mãos o coração de todas as pessoas. Faça o que estiver ao seu alcance, e Deus estará presente e conduzirá seus bons desejos a um bom resultado.”

Nunca se cansem de fazer o bem. No tempo devido, colherão, caso não desanimem.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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