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Parte II · Capítulo III

Atributos de Deus: eternidade, onipotência, ubiquidade

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Pelas Escrituras aprendemos que há um só Deus, o Criador de todas as coisas, e, por consequência, vivo e inteligente. Também já se fez referência às demonstrações dessa verdade que nos cercam nas obras da natureza. Pelas mesmas revelações sagradas fomos ainda ensinados que, quanto à essência divina, Deus é Espírito; e, nas manifestações ulteriores que elas fazem dele, aprendemos que, assim como todas as coisas foram feitas por ele, ele existia antes de todas as coisas; que o ser delas é dependente, e o dele, independente; que ele é o Ser por excelência, segundo o nome que lhe é próprio, “Eu Sou” (Êx 3.14); que existe por si mesmo e é eterno. Na doutrina bíblica de Deus, porém, não encontramos apenas a afirmação de que Deus não teve princípio, mas também a de que não terá fim. Atribui-se a ele a eternidade ad partem post (isto é, quanto ao que está por vir), pois, no sentido mais absoluto, ele possui “imortalidade”, e é o “único” que a possui (1Tm 6.16), em virtude da perfeição inerente à sua natureza. É isso que completa aquelas visões sublimes e impressionantes da eternidade de Deus, das quais é repleta a revelação que lhe aprouve fazer de si mesmo. “De eternidade a eternidade, tu és Deus” (Sl 90.2). “Em tempos remotos, lançaste os fundamentos da terra; e os céus são obra das tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permaneces; todos eles envelhecerão como veste, como roupa os mudarás, e serão mudados. Tu, porém, és sempre o mesmo, e os teus anos jamais terão fim” (Sl 102.25-27). Ele “habita a eternidade” (Is 57.15), enche e ocupa todo o círculo da duração sem limites, e é “o primeiro e o último” (Is 44.6).

Nessas representações da existência eterna e da imortalidade absoluta do Ser divino, transmite-se algo mais do que a simples ideia de duração infinita. Nenhuma criatura pode, sem contradição, ser concebida como existente desde a eternidade; mas mesmo uma criatura pode ser concebida como continuando a existir para sempre, num sentido tão estrito quanto aquele em que o próprio Deus continuará a existir para sempre. A existência dela, contudo, sendo na origem dependente e derivada, há de continuar assim. Não está, por assim dizer, na sua natureza viver, do contrário jamais teria estado na inexistência; e o que ela não tem de si mesma, recebeu-o, e precisa recebê-lo do seu Criador a cada momento de sua existência real. Mas a própria expressão com que as Escrituras falam da eternidade de Deus sugere um sentido mais profundo do que o da mera duração. Elas contrastam a estabilidade da existência divina com a natureza passageira e mutável de todas as suas obras, e as representam repousando nele para seu sustento, enquanto ele não só não depende de nenhuma delas, mas repousa em si mesmo. Ele vive em virtude da sua natureza e é essencialmente imutável. Pois à natureza daquilo que existe sem causa a vida há de ser essencial. Naquele que é “a fonte da vida” (Sl 36.9) não pode haver princípio algum de decadência. Não pode haver desejo de deixar de ser naquele que é perfeitamente bem-aventurado, por causa da excelência ilimitada da sua natureza. Para ele, a existência há de ser fonte de gozo infinito, tanto pela contemplação dos seus próprios desígnios quanto pela manifestação da sua glória, pureza e benevolência às criaturas inteligentes que ele fez para conhecê-las e para serem beatificadas por tais revelações e benefícios. Nenhum poder externo pode controlar ou, de qualquer modo, afetar a sua felicidade, a sua perfeição ou o seu ser. Tais são as profundezas de glória e de singularidade a que a eternidade divina, tal como exposta nas Escrituras, conduz a mente maravilhada; e delas os mais sábios dos pagãos, que atribuíam imortalidade a um deus ou a muitos, não tinham nenhuma concepção. Estavam sempre imaginando algo fora de Deus como causa do seu ser imortal: o destino, ou uma necessidade externa, ou alguma noção semelhante e vaga, que obscurecia, para eles, uma das glórias peculiares daquele “eterno poder e divindade” (Rm 1.20) que, de sua própria natureza essencial e a partir dela, é, era e há de ser.

Alguma percepção dessa grande verdade aparece nos ditos de alguns poucos sábios gregos, embora muito obscurecida pelas suas outras noções. De fato, aquele nome próprio de Deus, tão venerado entre os judeus, o nomen tetragrammaton (o nome de quatro letras), que traduzimos por Jeová, era conhecido entre os pagãos como o nome sob o qual os judeus adoravam o Deus supremo; e “desse nome divino”, diz Parkhurst, no verbete correspondente, “os antigos gregos tiraram o seu ἰὴ ἰή na invocação dos deuses”.1 Ele exprime não os atributos, mas a essência de Deus, e esse era o motivo por que os judeus o consideravam inefável. Os tradutores da Septuaginta conservaram a mesma ideia na palavra Κύριος, com que o traduziram, derivada de κύρω, sum, eu sou. Dizem os críticos que essa palavra não é usada classicamente para significar Deus, o que marcaria ainda mais fortemente a singularidade dessa designação na versão da Septuaginta e transmitiria algo da grande ideia da existência própria, ou absoluta, atribuída à natureza divina nas Escrituras hebraicas, àqueles filósofos pagãos que deparassem com aquela tradução. Que ela não podia passar despercebida, podemos inferi-lo de santo Hilário, que diz que, antes de sua conversão ao cristianismo, ao encontrar essa designação de Deus no Pentateuco, ficou tomado de admiração, pois nada é tão próprio de Deus quanto ser. Entre os judeus, porém, o significado desse nome assombroso foi preservado intacto, sem que especulações metafísicas o danificassem. Estava registrado nos seus livros sagrados: da plenitude do seu sentido vemos brotar na mente dos profetas os pensamentos mais elevados, que ampliam com uma grandeza solene e misteriosa as suas descrições das glórias peculiares de Deus, em contraste com os deuses vãos dos pagãos e com toda existência real, por mais exaltada que seja, no céu e na terra.

Sobre esse assunto da duração eterna do Ser divino, muitos sustentaram uma sutileza metafísica. “A existência eterna de Deus”, diz-se, “não deve ser considerada sucessiva; as ideias que obtemos do tempo não devem ser admitidas nas nossas concepções da sua duração. Assim como ele enche todo o espaço com a sua imensidade, enche toda a duração com a sua eternidade; e, para ele, a eternidade é nunc stans, um agora permanente, incapaz das relações de passado, presente e futuro.” Tal não é, certamente, a visão que as Escrituras nos dão desse assunto misterioso; e, se alguém disser que elas falam de modo popular e se acomodam à fraqueza do pensamento da massa da humanidade, podemos responder que a filosofia, com toda a sua jactância de luz superior, não levou as nossas visões sobre esse atributo da natureza divina nem um pouco além da revelação; e, ao tentá-lo, apenas obscureceu as concepções dos seus discípulos. “Encher a duração com a sua eternidade” é uma expressão sem sentido algum: “Pois como pode alguém conceber um instante permanente que coexiste com uma duração em fluxo perpétuo? Seria o mesmo que apreender um ponto matemático coextenso com uma linha, uma superfície e todas as dimensões” (Abernethy, Sermons). Como, porém, essa noção serviu de base para algumas opiniões que serão comentadas no lugar próprio, convém examiná-la brevemente.

Se obtemos a nossa ideia de tempo do movimento dos corpos fora de nós, ou da consciência da sucessão das nossas próprias ideias, ou de ambas as coisas, não importa para esta investigação. O tempo, nas nossas concepções, é divisível. As divisões artificiais são anos, meses, dias, minutos, segundos etc. Podemos conceber porções de duração ainda menores e, quer lhes tenhamos dado nomes artificiais, quer não, não podemos conceber a duração de outro modo senão como continuidade do ser, avaliada quanto ao grau por essa medição artificial e, portanto, como correspondendo substancialmente a ela. Não se nega que a duração seja algo distinto dessas suas medidas artificiais; mas a consciência de cada um lhe assegurará que não podemos formar nenhuma ideia de duração senão dessa maneira sucessiva. Dizem-nos, porém, que a eternidade de Deus é um agora eterno e fixo, do qual devem ser excluídas todas as ideias de sucessão, de passado e de futuro; e somos chamados a conceber a duração eterna sem referência ao passado ou ao futuro, e com exclusão da ideia daquele fluxo sob o qual concebemos o tempo. A ideia abstrata própria de duração, no entanto, é a simples continuidade do ser, sem referência alguma ao grau ou à extensão exata dela, porque de nenhum outro modo poderia ela aplicar-se igualmente a todas as substâncias de que é atributo. Ela pode ser finita ou infinita, momentânea ou eterna, mas isso depende da substância de que ela é qualidade, e não da sua própria natureza. A nossa própria observação e experiência nos ensinam a aplicá-la a nós mesmos. Quanto a nós, a duração é dependente e finita; quanto a Deus, é infinita; mas, em ambos os casos, a originalidade ou dependência, a finitude ou infinitude dela, não procede da natureza da duração em si, mas de outras qualidades dos respectivos sujeitos.

A duração, portanto, aplicada a Deus, não é mais do que uma extensão da ideia tal como aplicada a nós mesmos; e exortar-nos a concebê-la como algo essencialmente diferente é exigir que concebamos o inconcebível. É exigir que pensemos sem ideias. Duração é continuidade de existência; a continuidade de existência pode ser mais longa ou mais curta; e daí nasce necessariamente a ideia da sucessão dos pontos mínimos de duração em que podemos concebê-la dividida. Além disso a mente não pode ir; ela não forma a ideia de duração de nenhum outro modo; e, se o que chamamos duração for em Deus algo diferente disso, não é duração propriamente dita, segundo as ideias humanas; é outra coisa, para a qual não há nome entre os homens, porque não há ideia, e, portanto, é impossível raciocinar sobre ela. Enquanto os metafísicos usarem o termo, terão de aceitar a ideia; se rejeitarem a ideia, não têm direito ao termo e deveriam confessar de uma vez que não podem ir adiante. O dr. Cudworth define a infinitude de duração como nada mais que perfeição, enquanto inclui em si existência necessária e imutabilidade. Isso, é verdade, é tanto uma definição da lua quanto da infinitude de duração; mas tem valor, porque mostra que, na opinião desse grande homem, embora defensor do nunc stans, o agora estável da eternidade, temos de abandonar o termo duração se renunciarmos à única ideia sob a qual ela pode ser concebida.

Segue-se disso, portanto, que ou aplicamos o termo duração ao Ser divino no mesmo sentido em que o aplicamos às criaturas, estendendo a ideia a uma duração sem fronteiras nem limites, ou o riscamos dos nossos credos, como palavra à qual a nossa mente, com toda a ajuda que possa tirar dos trabalhos dos metafísicos, não consegue atribuir sentido algum. A única noção que tem aparência de objeção a essa duração sucessiva, aplicada a ele, parece nascer inteiramente da confusão de duas coisas muito distintas: sucessão na duração e mudança na substância. O dr. Cudworth parece ter caído nesse erro. Ele fala da duração de uma natureza imperfeita como deslizando do presente para o futuro, esperando algo de si mesma que ainda não existe, e da natureza perfeita como essencialmente imutável, tendo uma duração permanente e invariável, nunca perdendo nada de si mesma uma vez presente, nem correndo depois ao encontro de algo de si mesma que ainda não existe. Ora, embora essa seja uma boa descrição de uma natureza perfeita e imutável, não é de modo algum descrição de uma natureza que dura eternamente. A duração não implica perda na substância de ser algum, nem acréscimo a ela. Uma natureza perfeita nunca perde nada de si mesma, nem espera de si mais do que possui; mas isso não procede do atributo da sua duração, como quer que esse atributo seja concebido, mas da sua perfeição e da imutabilidade que dela decorre. Esses atributos não fluem da duração; ao contrário, é a extensão da duração que flui deles. O argumento claramente não vale nada, a menos que se pudesse provar que a duração sucessiva implica necessariamente mudança na natureza; mas isso é contradito pela experiência dos seres finitos: as suas naturezas não são de modo algum determinadas pela sua duração, mas a sua duração, pelas suas naturezas; e eles existem por um momento ou por séculos, segundo a natureza que o seu Criador neles imprimiu. Se se disser que, ao menos, a duração sucessiva significa que um ser perde a duração passada e espera a chegada da existência futura, respondemos que isso não é imperfeição alguma. Nem mesmo as criaturas finitas sentem como imperfeição ter existido e aguardar um ser continuado e interminável. É verdade que, com o passado, perdemos conhecimento e prazer; e, esperando em todos os períodos futuros aumento de conhecimento e de felicidade, isso nos lembra a nossa imperfeição presente; mas essa imperfeição não procede da nossa duração sucessiva e fluente, e nunca a atribuímos a ela. Não é o passado que nos tira o conhecimento e o prazer, nem a duração futura, considerada em si mesma, que nos dará o aumento de ambos. As nossas imperfeições procedem da natureza essencial do nosso ser, e não da maneira como o nosso ser é continuado. Não é o fluxo da nossa duração, mas o fluxo das nossas naturezas, que produz esses efeitos. Ao contrário, pensamos que a ideia da nossa duração sucessiva, isto é, da continuidade, é uma excelência, e não um defeito. Sejam banidas da mente todas as ideias de continuidade, seja para nós um nunc semper stans (um agora sempre estável) durante todo o nosso ser, e não parece que ganhemos nada; os nossos prazeres certamente não diminuem pela ideia de uma longa continuidade acrescentada ao gozo presente; o fato de que existiram, ainda permanecem e continuarão, ao contrário, os aumenta grandemente. Sem a ideia de uma duração fluente, não teríamos tal medida da continuidade dos nossos prazeres, e isso consideraríamos uma diminuição da nossa felicidade. O que é uma excelência tão evidente no espírito do homem e nas naturezas angélicas nunca pode ser considerado imperfeição em Deus, quando unido a uma natureza essencialmente perfeita e imutável.

Mas pode-se dizer que a duração eterna, considerada como sucessiva, é apenas uma maneira artificial de medir e conceber a duração, e não é mais a própria duração eterna do que os minutos e os momentos, medidas artificiais do tempo, são o próprio tempo. Ainda que se concedesse isso, a questão continuaria sendo se há alguma coisa na duração, considerada em geral, ou no tempo, considerado em particular, que corresponda a esses métodos artificiais de medi-los e concebê-los. O oceano é medido por léguas; mas a extensão do oceano e a sua medida são coisas distintas. Elas, no entanto, correspondem uma à outra. As léguas são as divisões nominais de uma superfície extensa, mas há uma extensão real que corresponde à concepção e à medição artificiais que dela fazemos. Do mesmo modo, os dias, as horas e os momentos são as medidas do tempo; mas, ou há algo no tempo que corresponde a essas medidas, ou não só a medida, mas a própria coisa é artificial, uma criação imaginária. Se alguém sustentar que o período de duração a que chamamos tempo não é nada, não se pode prosseguir a discussão com ele, e pode-se deixá-lo negar também a existência da matéria e gozar a sua festa filosófica num mundo ideal. Aplicamos o mesmo argumento à duração em geral, seja finita, seja infinita. Os minutos e os momentos, ou porções menores, para as quais não temos nome, podem ser artificiais, adotados para auxiliar as nossas concepções; mas concepções de quê? Não de algo que está parado, mas de algo que segue adiante. Da duração não temos outra concepção; e, se não há nada na natureza que corresponda a essa concepção, então a própria duração é imaginária e discorremos sobre o nada. Se a duração do Ser divino não admite passado, presente e futuro, há de seguir-se uma destas duas consequências: ou nenhum atributo como o da eternidade lhe pertence, ou não há na mente humana poder algum para concebê-lo. Em qualquer dos casos, as Escrituras ficam gravemente comprometidas; pois “aquele que era, que é e que há de vir” (Ap 4.8) é uma revelação da eternidade de Deus que, nesse caso, não é verdadeira em sentido algum. Não é verdadeira se for usada literalmente; e tampouco o é se a linguagem for figurada, pois a figura não repousa em base alguma, nada ilustra, induz ao erro.

Deus é onipotente. Também desse atributo temos a revelação mais ampla, e na linguagem mais impressionante e sublime. A partir do anúncio, nas Escrituras, de um ser divino que existia “no princípio” (Gn 1.1), antes de todas as coisas, o primeiríssimo passo é a manifestação do seu poder todo-poderoso na criação a partir do nada, e na disposição imediata, em ordem e perfeição, dos “céus e a terra”; com o que se quer dizer não apenas este globo com a sua atmosfera, nem mesmo com o seu próprio sistema celeste, mas o próprio universo, pois “fez também as estrelas” (Gn 1.16). Somos assim colocados de imediato na presença de um agente de poder ilimitado, “sendo a conclusão estrita e correta a de que um poder capaz de criar um mundo como este há de ser, sem comparação alguma, maior do que qualquer poder que experimentamos em nós mesmos, maior do que qualquer um que observamos em outros agentes visíveis, maior também do que qualquer um de que possamos precisar, no Ser de quem dependemos, para a nossa proteção e preservação individual; um poder, além disso, ao qual a nossa observação ou o nosso conhecimento não nos autorizam a atribuir limite algum de espaço ou de duração” (Paley).

Que os escritores sagrados se detenham com tanta frequência na onipotência de Deus tem uma razão importante, que nasce do próprio propósito da revelação da qual eles foram os instrumentos de comunicação à humanidade. Os homens deviam ser lembrados das suas obrigações de obediência, e por isso Deus é constantemente apresentado como o Criador, o Preservador e o Senhor de todas as coisas. Devia-se ordenar-lhes o culto reverente e o temor dele, e pela manifestação das suas obras retirou-se o véu da sua glória e majestade. A idolatria devia ser contida e repreendida, e o Deus verdadeiro foi assim posto em contraste com os deuses limitados e impotentes dos pagãos. “Não há entre os deuses quem seja semelhante a ti, Senhor; e nada existe que se compare às tuas obras” (Sl 86.8). Por fim, ele devia ser apresentado como objeto de confiança para criaturas constantemente lembradas pela experiência da sua própria fraqueza e dependência, e para as quais era essencial saber que o seu poder era absoluto, ilimitado e irresistível.

Na revelação que assim se destinava a infundir temor e refrear os maus, e a dar força de ânimo e consolo aos bons em todas as circunstâncias, a onipotência de Deus é, por isso, apresentada sob uma grande variedade de aspectos impressionantes e ligada às ilustrações mais marcantes.

Ela se mostra no fato da criação, a criação de seres a partir do nada, que por si só, ainda que se tivesse limitado a um único objeto, por menor que fosse, excede a compreensão finita e esmaga as faculdades. Isso não exigiu de Deus esforço algum: “Ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e tudo passou a existir” (Sl 33.9). A vastidão e a variedade das suas obras ampliam a concepção. “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos” (Sl 19.1). “Sozinho ele estende os céus e anda sobre as costas do mar. Ele fez a Ursa Maior, o Órion, o Sete-estrelo e as constelações do Sul. Deus faz coisas grandes e insondáveis, e maravilhas que não se podem enumerar” (Jó 9.8-10). “Ele estende o norte sobre o vazio e faz a terra pairar sobre o nada. Prende as águas em densas nuvens, e as nuvens não se rasgam debaixo delas. […] Traçou um círculo sobre a superfície das águas, no limite entre a luz e as trevas” (Jó 26.7-8,10). A facilidade com que ele sustenta, ordena e controla os mais poderosos e indomáveis dos elementos apresenta a sua onipotência sob um aspecto de dignidade e majestade inefáveis. “Nele tudo subsiste” (Cl 1.17). Ele traçou para o mar “limites, e lhe pôs ferrolhos e portas, e disse: Até aqui você pode chegar, mas deste ponto não passará. Aqui se quebrará o orgulho das suas ondas” (Jó 38.10-11). “O seu olhar alcança as extremidades da terra; ele vê tudo o que há debaixo dos céus”, para regular “o peso do vento”, fixar “a medida das águas” e determinar “leis para a chuva e caminho para o relâmpago dos trovões” (Jó 28.24-26). “Quem na concha de sua mão mediu as águas e tomou a medida dos céus a palmos? Quem recolheu o pó da terra na terça parte de uma vasilha e pesou os montes e as colinas numa balança?” (Is 40.12). As descrições do poder divino são muitas vezes terríveis. “As colunas do céu tremem e se espantam diante da sua ameaça. Com a sua força dominou o mar” (Jó 26.11-12). “Ele é quem remove os montes, sem que saibam que na sua ira ele os transtorna. Deus remove a terra do seu lugar, e faz as suas colunas estremecerem. Ele dá uma ordem ao sol, e este não sai, e sela as estrelas” (Jó 9.5-7). A mesma sujeição absoluta das criaturas ao seu domínio se vê entre os habitantes inteligentes do universo material, e os anjos, os homens mais exaltados e os espíritos maus são governados com a mesma facilidade que os elementos menos resistentes. Ele é “aquele que a seus anjos faz ventos, e a seus ministros, labareda de fogo” (Hb 1.7). Eles cobrem o rosto diante do seu trono e se reconhecem seus servos. “Ele é o que está assentado sobre a cúpula da terra, cujos moradores são como gafanhotos” (Is 40.22); as nações são “como um grão de pó na balança” (Is 40.15), “menos do que nada, como um vácuo” (Is 40.17). “É ele quem reduz a nada os príncipes” (Is 40.23). “A um ele humilha, a outro ele exalta” (Sl 75.7), “pois do Senhor é o reino, é ele quem governa as nações” (Sl 22.28). Quanto aos anjos que pecaram, ele, “lançando-os no inferno, prendeu-os com correntes de escuridão, reservando-os para o juízo” (2Pe 2.4). As cenas finais deste mundo completam essas concepções transcendentes da majestade e do poder de Deus. Os mortos de todas as eras se levantarão dos seus túmulos à sua voz, e o mar entregará os mortos que nele há. Diante da sua face fogem o céu e a terra, as estrelas caem do céu e os poderes dos céus são abalados. Os mortos, pequenos e grandes, comparecem diante de Deus e são separados como o pastor separa as ovelhas dos cabritos; os ímpios irão para o castigo eterno, e os justos, para a vida eterna.

Dessas visões assombrosas da onipotência de Deus, espalhadas por quase todas as páginas da Escritura, a força está na sua verdade. Não são exageros orientais tomados por sublimidade. Tudo na natureza corresponde a elas e renova, de geração em geração, a energia da impressão que elas não podem deixar de causar na mente reflexiva. A ordem das revoluções dos astros indica a presença constante de um poder invisível, mas incompreensível; os mares lançam o peso das suas vagas sobre as praias que se erguem, mas em toda parte encontram um “limite perpétuo” (Jr 5.22); as marés chegam ao seu ponto mais alto; se continuassem a subir por algumas horas, a terra trocaria de lugar com o leito do mar; mas, sob um controle invisível, elas refluem. “Toca as montanhas, e elas fumegam” (Sl 104.32) não é mera imagem poética. Cada vulcão é um testemunho daquela verdade quanto à natureza que encontramos nas Escrituras; e os terremotos ensinam que, diante dele, “as colunas do mundo tremem” (cf. Jó 9.6). Homens reunidos em exércitos e nações populosas nos dão ideias grandiosas do poder humano; mas ponha-se um exército em meio às tempestades de areia e aos ventos abrasadores do deserto, como muitas vezes aconteceu no Oriente, ou diante “do seu frio” (Sl 147.17), como em nossos dias na Rússia, onde se viu um dos mais poderosos exércitos batendo em retirada diante de uma inesperada visitação de neve e tempestade, ou perecendo debaixo dela; ou reflita-se no estado de total impotência de um país populoso que foi visitado pela fome ou por uma doença pestilenta irresistível, e não será figura de linguagem dizer que, “diante dele, todas as nações são como coisa que não é nada; ele as considera menos do que nada, como um vácuo” (Is 40.17).

Ao examinar essa doutrina da Escritura, também não se devem deixar de lado os belos usos práticos que os escritores sagrados fazem da onipotência de Deus. Neles nada se diz para exibir conhecimento, como muitas vezes nos escritores pagãos; não há especulação sem uma lição moral a que ela sirva, e isso por desígnio evidente. Despertar e manter vivos no homem o temor e o culto de Deus, e levá-lo a uma feliz confiança naquele poder todo-poderoso que penetra e governa todas as coisas, são, como já observamos, as razões daquelas amplas manifestações da onipotência de Deus que percorrem o volume sagrado com uma sublimidade que só a inspiração poderia dar. “Anunciem entre as nações a sua glória, entre todos os povos, as suas maravilhas. Porque o Senhor é grande e digno de ser louvado. […] Glória e majestade estão diante dele, força e alegria, no seu santuário. Deem ao Senhor, ó famílias dos povos, deem ao Senhor glória e força. Deem ao Senhor a glória devida ao seu nome (1Cr 16.24-25,27-29). O Senhor é a minha luz e a minha salvação; de quem terei medo? O Senhor é a fortaleza da minha vida; a quem temerei? (Sl 27.1). Se Deus é por nós, quem será contra nós? (Rm 8.31). O nosso socorro está no nome do Senhor, que fez o céu e a terra (Sl 124.8). Quando eu ficar com medo, hei de confiar em ti” (Sl 56.3). Assim, como observa alguém, “os nossos temores naturais, dos quais havemos de ter muitos, remetem-nos a Deus e nos lembram, já que sabemos o que Deus é, de nos apegarmos ao seu poder todo-poderoso”.

Por mais amplas, contudo, que sejam as visões que a Escritura nos oferece do poder de Deus, não devemos considerar o assunto limitado por elas. Assim como, quando as Escrituras declaram a eternidade de Deus, o fazem de modo a nos desvendar algo daquela tremenda singularidade da natureza divina, a de que ele é para si mesmo a fonte do ser, e de que é eterno porque é o “Eu Sou”, assim também somos ensinados a não medir a sua onipotência pelas manifestações efetivas que dela se fizeram. Elas são manifestações do princípio, mas não a medida da sua capacidade. Se recorrermos às descobertas da filosofia moderna, que, com o auxílio de instrumentos, alargou tão grandemente os limites conhecidos do universo visível, e acrescentarmos às estrelas visíveis a olho nu novas exibições do poder divino naquelas aparências nebulosas dos céus que se resolvem em miríades de luminares celestes distintos, cujas distâncias imensas misturam a sua luz antes que ela chegue aos nossos olhos, expandimos assim quase infinitamente o círculo da existência criada e entramos numa esfera de operação divina antes desconhecida e esmagadora; mas ainda somos lembrados de que o seu poder é verdadeiramente todo-poderoso e sem medida: “Eis que isto são apenas as bordas dos seus caminhos! Dele temos ouvido apenas um leve sussurro! Mas o trovão do seu poder, quem o entenderá?” (Jó 26.14). É uma concepção grandiosa pensar num poder do qual deriva todo outro poder e ao qual todo outro poder está subordinado; ao qual nada pode opor-se; que pode abater e aniquilar quaisquer outros poderes; um poder que opera da maneira mais perfeita, de uma só vez, num instante, com a máxima facilidade. Mas as Escrituras nos conduzem à contemplação de profundezas maiores, e insondáveis. A onipotência de Deus é inconcebível e ilimitada. Decorre da perfeição infinita de Deus que o seu poder nunca possa esgotar-se de fato; e, em cada instante imaginável da eternidade, esse poder inesgotável de Deus pode, se lhe aprouver, estar acrescentando ou mais criaturas às que existem, ou maior perfeição a elas; pois “é próprio do ser que existe por si mesmo estar sempre pleno e comunicativo, e próprio do ser comunicado e contingente estar sempre vazio e carente” (Howe).

Só uma limitação podemos conceber, a qual, porém, nada tira dessa perfeição da natureza divina.

“Quando as coisas em si mesmas implicam contradição, como a de que um corpo seja extenso e não extenso, esteja num lugar e não esteja num lugar, ao mesmo tempo, tais coisas, digo, não podem ser feitas por Deus, porque as contradições são impossíveis por sua própria natureza; nem é desdouro algum para o poder divino dizer que elas não podem ser feitas. Pois, assim como o objeto do entendimento, do olho e do ouvido é aquilo que é inteligível, visível e audível, assim o objeto do poder há de ser aquilo que é possível; e, assim como não é prejuízo algum para o entendimento, a vista ou o ouvido mais perfeitos não entender o que não é inteligível, nem ver o que não é visível, nem ouvir o que não é audível, assim também não é diminuição alguma para o poder mais perfeito não fazer o que não é possível” (bispo Wilkins). “Do mesmo modo, Deus não pode fazer coisa alguma que repugne às suas outras perfeições: não pode mentir, nem enganar, nem negar a si mesmo, pois isso ofenderia a sua verdade. Não pode amar o pecado, nem punir a inocência, pois isso destruiria a sua santidade e bondade; e, portanto, atribuir-lhe um poder incompatível com a retidão da sua natureza não é engrandecê-lo, mas rebaixá-lo; pois toda injustiça é fraqueza, um desvio da reta razão, um afastamento da regra perfeita de ação, e procede de uma falta de bondade e de poder. Numa palavra, visto que todos os atributos de Deus são essencialmente o mesmo, um poder nele que tendesse a destruir qualquer outro atributo da natureza divina haveria de ser um poder destrutivo de si mesmo. Bem podemos, portanto, concluir que é absolutamente onipotente aquele que, sendo capaz de efetuar todas as coisas compatíveis com as suas perfeições, mostra uma capacidade infinita, e, não sendo capaz de fazer coisa alguma que repugne a essas mesmas perfeições, demonstra que não está sujeito a fraqueza alguma” (Pearson, On the Creed).

Certamente nada nos mais belos escritos da Antiguidade, ainda que se reunissem todos os seus melhores pensamentos sobre a majestade e o poder de Deus, pode comparar-se às visões que assim nos são apresentadas pela revelação divina. Ainda que esquecêssemos por um momento o fato de que as suas noções mais nobres estão ligadas a fantasias e especulações vãs que lhes tiram a força, o seu pensamento nunca se eleva tão alto, a sua corrente é interrompida, o círculo da concepção elevada não se completa; e, desligadas como estavam as suas visões do poder divino do destino eterno do homem e da própria razão da criação, nunca ouvimos neles, como nas Escrituras, “o trovão do seu poder” (Jó 26.14). Um dos melhores exemplos de devoção pagã é dado abaixo, no hino de Cleantes, o estoico; e, embora nobre e justo, fica infinitamente aquém na comparação.

“Salve, ó Júpiter, o mais glorioso dos imortais, invocado sob muitos nomes, sempre poderosíssimo, primeiro governante da natureza, cuja lei governa todas as coisas: salve! Pois dirigir-se a ti é permitido a todos os mortais. De ti temos a nossa raça, nós, mortais que rastejamos sobre o chão, recebendo apenas o eco da tua voz. Por isso eu te celebrarei e cantarei sempre o teu poder. Todo este universo, que gira ao redor da terra, obedece-te para onde quer que o guies, e de bom grado é governado por ti. Tão veemente, tão ígneo, tão imortal é o trovão que manténs a teu serviço nas tuas mãos inabaláveis; pois, pelo seu golpe, toda a natureza foi enraizada [N. do T.: assim no original; em outras leituras do grego de Cleantes, toda a natureza “estremece” sob o golpe do raio]; por ele diriges a razão comum que penetra todas as coisas, mesclada com os luminares maiores e menores; tão grande rei és tu, supremo sobre tudo; e nenhuma obra se realiza sem ti, nem na terra, nem no céu etéreo, nem no mar, exceto o que os maus praticam na sua própria loucura. Mas tu, ó Júpiter, doador de todos os bens, que habitas nas nuvens, senhor do trovão, defende os mortais do triste infortúnio; afasta-o, ó Pai, da alma, e concede-lhe alcançar aquele juízo confiado no qual governas todas as coisas com justiça; para que, honrados, te retribuamos com honra, cantando continuamente as tuas obras, como convém a um mortal; pois não há maior necessidade para os homens ou para os deuses do que celebrar sempre com justiça a lei universal.”

A onipresença, ou ubiquidade, de Deus é outra doutrina da Escritura; e é corroborada por fatos evidentes a todos os seres que refletem, embora para nós, e talvez para todas as mentes finitas, o modo seja incompreensível. A exposição dessa doutrina nos registros inspirados, como a de todos os outros atributos de Deus, é feita no seu próprio tom e na sua ênfase peculiar de majestade e sublimidade. “Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face? Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também; se tomo as asas da alvorada e me detenho nos confins dos mares, ainda ali a tua mão me guiará, e a tua mão direita me susterá (Sl 139.7-10). Pode alguém se ocultar em esconderijos, de modo que eu não o veja?, diz o Senhor. Não encho eu os céus e a terra?, diz o Senhor (Jr 23.24). Sou eu Deus apenas de perto, diz o Senhor, e não também Deus de longe? (Jr 23.23). Assim diz o Senhor: O céu é o meu trono, e a terra é o estrado dos meus pés (Is 66.1). Eis que os céus e até o céu dos céus não te podem conter (1Rs 8.27). Ainda que cavem para chegar ao mais profundo abismo, a minha mão os tirará de lá. Se subirem ao céu, de lá os farei descer. Se eles se esconderem no alto do Carmelo, irei atrás deles e de lá os tirarei (Am 9.2-3). Nele vivemos, nos movemos e existimos (At 17.28). [Ele é] aquele que a tudo enche em todas as coisas” (Ef 1.23).

Algumas passagens notáveis sobre a ubiquidade da presença divina podem ser encontradas nos escritos de alguns filósofos gregos, nascidas da noção de que Deus era a alma do mundo; mas a própria ligação delas com essa especulação, não obstante a linguagem imponente adotada de vez em quando, marca de modo notável a diferença entre as suas visões mais elevadas e as dos profetas hebreus sobre esse assunto. “Para grande parte dos que ocupam posição de destaque entre os antigos filósofos teístas, a ideia da personalidade da Divindade era em grande medida desconhecida. A Divindade era considerada por eles não tanto um ser inteligente, mas um poder animador difundido por todo o mundo, e era introduzida no seu sistema especulativo para explicar o movimento daquela massa passiva de matéria que se supunha coeva e, de fato, coexistente com ela” (Sumner, Records of the Creation). Essas noções defeituosas são confessadas por Gibbon, escritor nada disposto a subestimar as realizações deles.

“Os filósofos da Grécia deduziam a sua moral da natureza do homem, mais do que da de Deus. Meditavam, contudo, sobre a natureza divina como especulação muito curiosa e importante; e, nessa investigação profunda, exibiram a força e a fraqueza do entendimento humano. Das quatro seitas mais consideráveis, os estoicos e os platônicos procuraram conciliar os interesses conflitantes da razão e da piedade. Deixaram-nos as provas mais sublimes da existência e das perfeições da Causa Primeira; mas, como lhes era impossível conceber a criação da matéria, o artífice, na filosofia estoica, não se distinguia suficientemente da obra; ao passo que, ao contrário, o Deus espiritual de Platão e dos seus discípulos se assemelhava mais a uma ideia do que a uma substância” (Decline and Fall etc.).

Erros semelhantes foram revividos na filosofia incrédula dos tempos modernos, desde Spinoza até os rebentos mais recentes das escolas alemã e francesa. A mesma observação se aplica também à filosofia oriental, que, como já se observou, apresenta ainda hoje um quadro perfeito da tão alardeada sabedoria da Grécia antiga, a qual foi “reduzida a nada” pela “loucura” da pregação apostólica (cf. 1Co 1.19-21). Mas nas Escrituras não há nada confuso na doutrina da ubiquidade divina. Deus está em toda parte, mas não é todas as coisas. Todas as coisas têm o seu ser nele, mas ele é distinto de todas as coisas; ele enche o universo, mas não se mistura com ele. Ele é a inteligência que guia e o poder que sustenta, mas a sua personalidade é preservada, e ele é independente das obras das suas mãos, por mais vastas e nobres que sejam. Tão longe está a sua presença de ser limitada pelo próprio universo que, como na passagem dos Salmos citada acima, somos ensinados que, se nos fosse possível voar para as profundezas e larguras imensuráveis do espaço, Deus ali nos cercaria, num sentido tão absoluto quanto aquele em que se diz que ele está ao redor do nosso leito e do nosso caminho na parte do mundo em que a sua vontade nos colocou.

Nesse, como em todos os assuntos semelhantes, as Escrituras usam termos tomados na acepção comum que têm entre os homens; e, embora a vaidade da mente humana disponha muitos a buscar na doutrina assim anunciada uma filosofia mais profunda do que a que os seus termos populares transmitem, somos obrigados a concluir, se quisermos prestar um respeito ao menos comum a uma revelação admitida, que, onde não ocorre uma figura de linguagem manifesta, a verdade da doutrina está no teor dos termos com que ela é expressa. De outro modo não haveria revelação, não digo do modus (o modo), pois este é reconhecidamente incompreensível, mas do fato. No caso que temos diante de nós, os termos presença e lugar são usados segundo as noções comuns e assim devem ser tomados, se as Escrituras são inteligíveis. As sutilezas metafísicas não são doutrinas bíblicas quando dão aos termos escolhidos pelo Espírito Santo uma acepção fora do seu uso geral e próprio e os tornam sinais de uma classe de ideias inteiramente distinta, se é que toda distinção de ideias não se perde na tentativa. É, portanto, da maneira popular, e justamente por ser bíblica, que devemos conceber a onipresença de Deus.

“Se refletirmos sobre nós mesmos, podemos observar que ocupamos apenas um pequeno espaço e que o nosso conhecimento ou poder alcança apenas uma curta distância. Só podemos agir num lugar de cada vez, e a esfera da nossa influência é, no máximo, estreita. Se quisermos ser testemunhas do que se faz a alguma distância de nós, ou exercer ali os nossos poderes ativos, temos de nos transportar para lá. Por essa razão, somos necessariamente ignorantes de mil coisas que se passam ao nosso redor, e incapazes de atender a uma grande variedade de assuntos e administrá-los, ou de realizar ao mesmo tempo um número qualquer de ações, para o nosso próprio bem ou para o benefício dos outros.

“Embora sintamos que essa é a condição presente do nosso ser e o estado limitado dos nossos poderes inteligentes e ativos, podemos facilmente conceber que existam seres mais perfeitos, cuja presença se estenda longe e amplamente. Qualquer um deles, presente ao mesmo tempo no que para nós são lugares diversos, pode saber de uma vez o que se faz em todos eles e agir em todos eles; e assim ser capaz de atender e dirigir uma variedade de assuntos no mesmo instante. E esses seres, além disso, habilitados pela pureza e atividade da sua natureza a passar de um lugar a outro com grande facilidade e rapidez, podem assim ocupar uma grande esfera de ação, dirigir uma grande variedade de assuntos, conferir um grande número de benefícios e observar uma multidão de ações ao mesmo tempo, ou numa sucessão tão rápida que para nós pareceria um só instante. Tão perfeitos podemos facilmente crer que são os anjos de Deus.

“Podemos ainda conceber que essa extensão de presença, e de capacidade de conhecer e agir, admita graus de perfeição ascendente que se aproximem do infinito. E, quando assim elevamos os nossos pensamentos à ideia de um ser que está presente não apenas por todo um grande império, mas por todo o nosso mundo; e não apenas em cada parte do nosso mundo, mas em cada parte de todos os inumeráveis sóis e mundos que giram nos céus estrelados; que é capaz de vivificar e mover não apenas as plantas, os animais e os homens que vivem neste globo, mas incontáveis variedades de criaturas em toda parte de um universo imenso; sim, cuja presença não se restringe ao universo, imensurável como ele é para qualquer mente finita, mas que está presente em toda parte no espaço infinito; e que é, portanto, capaz de criar ainda novos mundos e enchê-los de habitantes adequados, atender, suprir e governar a todos eles; quando assim gradualmente elevamos e alargamos as nossas concepções, temos a melhor ideia que podemos formar da presença universal do grande Jeová, que enche o céu e a terra. Não há parte alguma do universo, nenhuma porção do espaço não habitada por Deus, nenhuma em que esse Ser de perfeito poder, sabedoria e benevolência não esteja essencialmente presente. Se pudéssemos, com a rapidez de um raio de sol, lançar-nos além dos limites da criação e prosseguir por séculos o nosso avanço no espaço infinito, ainda estaríamos cercados pela presença divina, e jamais conseguiríamos chegar àquele espaço onde Deus não está.

“A sua presença também penetra cada parte do nosso mundo; as partes mais sólidas da terra não podem excluí-la, pois ela atravessa tão facilmente o centro do globo quanto o ar vazio. Todas as criaturas vivem, se movem e têm o seu ser nele. E os recessos mais íntimos do coração humano não podem excluir a sua presença, nem ocultar um pensamento ao seu conhecimento, mais do que as cavernas mais profundas da terra” (Amory, Sermons).

As ilustrações e provas confirmatórias dessa doutrina que o mundo material fornece são numerosas e notáveis.

“É uma verdade evidentíssima e reconhecida que um ser não pode agir onde não está; se, portanto, ações e efeitos que manifestam a mais alta sabedoria, poder e bondade no seu autor são produzidos continuamente em toda parte, o autor dessas ações, ou seja, Deus, há de estar continuamente presente conosco e onde quer que assim aja. A matéria que compõe o mundo é evidentemente sem vida e sem pensamento; há de ser, portanto, incapaz de mover-se a si mesma, ou de planejar ou produzir quaisquer efeitos que exijam sabedoria ou poder. A matéria do nosso mundo, ou as pequenas partes que constituem o ar, a terra e as águas, é, no entanto, continuamente movida de modo a produzir efeitos dessa espécie; tais são as inumeráveis ervas, árvores e frutos que adornam a terra e sustentam os incontáveis milhões de criaturas que a habitam. Há de estar, portanto, constantemente presente por toda a terra um ser sapientíssimo, poderosíssimo e boníssimo, autor e diretor desses movimentos.

“Não podemos, é verdade, vê-lo com os olhos do corpo, porque ele é puro Espírito; mas isso não é prova alguma de que ele não esteja presente. Um discurso sensato, uma série de ações bondosas, convencem-nos da presença de um amigo, de uma pessoa prudente e benevolente. Não podemos ver a mente presente, a sede e o princípio dessas qualidades; contudo, o movimento constante e regular da língua, da mão e de todo o corpo (que são os instrumentos das nossas almas, assim como o universo material e todos os vários corpos nele são os instrumentos da Divindade) não nos permite duvidar de que há dentro do corpo um princípio inteligente e benevolente que produz todos esses movimentos hábeis e essas ações bondosas. O sol, o ar, a terra e as águas não são mais capazes de mover-se a si mesmos e produzir toda aquela bela e útil variedade de plantas, frutos e árvores de que a nossa terra está coberta do que o corpo de um homem, quando a alma o deixou, é capaz de mover-se a si mesmo, fabricar um instrumento, arar um campo ou construir uma casa. Se o traçar com discernimento e o cultivar bem uma pequena propriedade, semeá-la com o grão adequado na melhor época do ano, regá-la no tempo e na quantidade devidos, recolher os frutos quando maduros e guardá-los da melhor maneira, se todos esses efeitos provam que a propriedade tem um administrador, e que esse administrador possui habilidade e força, certamente o iluminar e aquecer toda a terra por meio do sol, e o dirigir o movimento dele e o movimento da terra de modo a produzir, numa sucessão constante e útil, dia e noite, verão e inverno, semeadura e colheita; o regar continuamente a terra por meio das nuvens, e assim fazer brotar quantidades imensas de pastagens, grãos e frutos, certamente todos esses efeitos, produzidos continuamente, hão de provar que um ser do maior poder, sabedoria e benevolência está continuamente presente por todo o nosso mundo, que ele assim sustenta, move, vivifica e torna fecundo.

“O fogo que nos aquece nada sabe da sua utilidade para esse fim, nem das leis sábias segundo as quais as suas partículas são movidas para produzir esse efeito. E que ele esteja colocado numa parte da casa em que possa ser grandemente benéfico e de modo algum nocivo, atribui-se sem hesitação ao engenho e ao trabalho de uma pessoa que conhecia o seu lugar e os seus usos próprios. E, se entrássemos diariamente numa casa em que víssemos isso feito com regularidade, ainda que nunca víssemos ali morador algum, não poderíamos duvidar de que a casa estava ocupada por um habitante racional. Aquele enorme globo de fogo nos céus a que chamamos sol, e de cuja luz e influências dependem a fertilidade do nosso mundo e a vida e o prazer de todos os animais, nada sabe da sua utilidade para esses fins, nem das leis sábias segundo as quais os seus raios são distribuídos, nem de que lugar ou movimentos eram necessários para esses fins benéficos. Contudo, os seus raios são lançados constantemente em números infinitos, cada um segundo aquelas leis bem escolhidas, e o seu lugar e movimento próprios são mantidos. Não há de ser, então, o seu lugar designado, o seu movimento regulado e os seus raios lançados por uma sabedoria e bondade todo-poderosas, que impedem que o sol jamais vagueie pelos espaços sem limites dos céus de modo a deixar-nos num frio e numa escuridão desconsoladores, ou que chegue tão perto, ou emita os seus raios de tal maneira, que nos queime? Não há de estar sempre presente no sol, por todo o ar e por toda a terra, que ele assim move e vivifica, o grande Ser que nos ilumina e aquece por meio do sol, seu instrumento, que faz subir e descer os vapores, faz brotar e amadurecer os grãos e os frutos, e que assim está sempre agindo ao nosso redor para o nosso benefício?

“Esta terra é, em si mesma, uma massa morta e imóvel, desprovida de todo conselho; contudo, partes apropriadas dela são continuamente elevadas pelos pequenos tubos que compõem os corpos das plantas e das árvores, e são levadas a contribuir para o seu crescimento, a abrir-se e brilhar em flores e folhas, e a inchar e endurecer em fruto. Poderiam partículas cegas e sem pensamento seguir assim continuamente o seu caminho, por inumeráveis voltas, sem errar uma só vez, se não fossem guiadas por uma mão infalível? Pode a mais perfeita habilidade humana formar, de terra e água, um só grão, quanto mais uma variedade de frutos belos e saborosos? Não há de ser sapientíssima, poderosíssima e benevolentíssima a mente diretora que faz tudo isso constantemente? Não se há de confessar que o Ser que assim exerce continuamente a sua habilidade e energia ao nosso redor, para o nosso benefício, está sempre presente e se interessa pelo nosso bem-estar?

“Podem esses efeitos ser atribuídos a alguma coisa inferior a uma Causa sapientíssima e todo-poderosa? E não há de estar presente essa causa onde quer que aja? Se Deus nos falasse do céu todos os meses e, com uma voz forte como o trovão, declarasse que nos observa, provê para nós e nos governa, isso não seria, no juízo da sã razão, uma prova nem de longe tão válida. Pois muito menos sabedoria e poder se exigem para formar tais sons no ar do que para produzir esses efeitos, e para dar não meras declarações verbais, mas provas substanciais da sua presença e do seu cuidado para conosco” (Amory, Sermons).

“Em cada parte e lugar do universo que conhecemos, percebemos o exercício de um poder que cremos proceder, mediata ou imediatamente, da Divindade. Por exemplo: em que parte ou ponto do espaço já explorado não descobrimos a atração? Em que regiões não encontramos a luz? Em que porção acessível do nosso globo não deparamos com a gravidade, o magnetismo, a eletricidade, e também com as propriedades e os poderes das substâncias organizadas, da natureza vegetal ou animal? Mais ainda, podemos perguntar: que reino da natureza há, que canto do espaço, em que exista algo que possamos examinar, onde não topemos com engenho e desígnio? A única reflexão que talvez surja em nossa mente diante dessa visão do mundo ao nosso redor é a de que as leis da natureza prevalecem em toda parte, de que são uniformes e universais. Mas o que queremos dizer com as leis da natureza, ou com qualquer lei? Os efeitos são produzidos pelo poder, não pelas leis. Uma lei não pode executar-se a si mesma. Uma lei nos remete a um agente” (Paley).

O argumento habitual a priori sobre esse atributo da natureza divina tem sido exposto da forma que segue; mas, em meio a tanta demonstração de espécie muito mais elevada, ele não pode ter grande valor.

“A Causa Primeira, a mente suprema e todo-perfeita, como não poderia derivar o seu ser de nenhuma outra causa, há de ser independente de todas as outras e, portanto, ilimitada. Ela existe por uma necessidade absoluta de natureza; e, como todas as partes do espaço infinito são exatamente uniformes e semelhantes, pela mesma razão por que ela existe numa parte qualquer, há de existir em todas. Não se pode apresentar razão alguma para excluí-la de uma parte que não a excluísse de todas. Mas que ela está presente em algumas partes do espaço, demonstram-no, acima de toda dúvida racional, os efeitos evidentes da sua sabedoria, poder e benevolência, produzidos continuamente. Ela há de estar, portanto, igualmente presente em toda parte e encher o espaço infinito com o seu ser infinito” (Amory).

Entre os metafísicos, tem sido objeto de disputa se Deus está presente em toda parte por uma extensão infinita da sua essência. Essa é a opinião de Newton, do dr. S. Clarke e dos seus seguidores; outros objetaram contra essa noção que, nesse caso, se poderia dizer que Deus não está nem no céu nem na terra, mas apenas uma parte de Deus em cada um. A primeira opinião, contudo, parece mais em harmonia com as Escrituras, embora o termo extensão, pela insuficiência da linguagem, transmita uma ideia material demais. A objeção que acabamos de expor funda-se inteiramente em noções tiradas de objetos materiais e, por isso, tem pouco peso, porque não se aplica a uma substância imaterial. O melhor é confessar, com alguém que pensou profundamente sobre o assunto, que “há algo de incompreensível no modo de toda coisa a respeito da qual nenhuma controvérsia pode ou deve ocupar-se”.2 Que não possamos compreender como Deus está presente em toda parte, plena, completa e indivisamente, não precisa surpreender-nos, quando refletimos que o modo pelo qual a nossa própria mente está presente no nosso corpo é tão incompreensível quanto o modo pelo qual a mente suprema está presente em todas as coisas do universo.

Notas de Richard Watson

1. Um exemplo curioso da transmissão desse nome, e de uma das peculiaridades da fé hebraica, até a China, é mencionado no seguinte extrato de “Memória sobre Lao-tseu, filósofo chinês que floresceu no século VI antes da nossa era e que professava as opiniões atribuídas a Platão e a Pitágoras” (por M. Abel Rémusat): “A metafísica de Lao-tseu tem muitos outros traços notáveis, que procurei desenvolver na minha memória e que, por várias razões, sou obrigado a passar em silêncio. Como, de fato, eu daria uma ideia daquelas abstrações elevadas, daquelas sutilezas inextricáveis em que a imaginação oriental se diverte e se extravia? Bastará dizer aqui que as opiniões do filósofo chinês sobre a origem e a constituição do universo não têm nem fábulas ridículas nem absurdos ofensivos; que trazem o selo de uma mente nobre e elevada; e que, nos devaneios sublimes que as distinguem, exibem uma conformidade notável e incontestável com a doutrina professada pouco depois pelas escolas de Pitágoras e de Platão. Como os pitagóricos e os estoicos, o nosso autor admite como Causa Primeira a Razão, um Ser inefável e incriado, que é o tipo do universo e não tem outro tipo senão a si mesmo. Como Pitágoras, considera as almas humanas emanações da substância etérea, que a ela se reúnem depois da morte; e, como Platão, recusa aos ímpios a faculdade de retornar ao seio da Alma Universal. Como Pitágoras, dá aos primeiros princípios das coisas os nomes de números, e a sua cosmogonia é, em certo grau, algébrica. Ele prende a cadeia dos seres àquilo que chama Um, depois ao Dois, depois ao Três, que fizeram todas as coisas. O divino Platão, que adotara esse dogma misterioso, parece ter receio de revelá-lo aos profanos. Envolve-o em nuvens na sua famosa carta aos três amigos; ensina-o a Dionísio de Siracusa, mas por enigmas, como ele mesmo diz, para que as suas tabuinhas, caindo nas mãos de algum estranho, não fossem lidas e entendidas. Talvez a lembrança da morte recente de Sócrates lhe tenha imposto essa reserva. Lao-tseu não faz uso desses caminhos indiretos; e o que há de mais claro no seu livro é que um Ser Trino formou o universo. Para completar a singularidade, ele dá ao seu ser um nome hebraico quase sem alteração, o mesmo nome que no nosso livro designa aquele que era, e é, e há de ser. Esta última circunstância confirma tudo o que a tradição indicava de uma viagem ao Ocidente e não deixa dúvida sobre a origem da sua doutrina. Provavelmente ele a recebeu ou dos judeus das dez tribos, que a conquista de Salmanasar acabara de dispersar por toda a Ásia, ou dos apóstolos de alguma seita fenícia, à qual pertenciam também aqueles filósofos que foram os mestres e precursores de Pitágoras e de Platão.” ↩

2. Jackson, Existence and Unity etc. Ver também Watts, Philosophical Essays, e Law, Inquiry into the Ideas of Space etc. ↩

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Richard Watson, Theological Institutes; or, A View of the Evidences, Doctrines, Morals, and Institutions of Christianity (Londres, 1823-1829), conferido com a edição de Nova York (Lane & Scott, 1850-1851). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).