Aula 4 de 11A Escatologia de John Wesley

Mateus 24 nas Notas: Jerusalém, a tribulação e o fim

“Diga-nos quando essas coisas vão acontecer e que sinal haverá da sua vinda e do fim dos tempos.”Mateus 24.3 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Mt 24.1-51; Mc 13.1-37; Lc 21.5-36; Dn 9.24-27

Como ler esta aula. As palavras de Wesley aparecem como links sublinhados em laranja, seguidos da referência convencional entre parênteses (sermão e parágrafo, ou livro e versículo das Notas); o link abre a obra neste site no trecho exato. Os blocos marcados Síntese do curso trazem a leitura e a avaliação do curso; os marcados Nota do editor, esclarecimentos e fontes.

Para começar

Mateus 24 fala de Jerusalém ou do fim do mundo?

O discurso do monte das Oliveiras é o texto mais usado em profecias sobre o fim, e o mais mal usado. Wesley o lê com uma chave simples que resolve a maior parte das confusões: os discípulos fizeram duas perguntas, e Jesus deu duas respostas.

Os discípulos mostraram a Jesus as construções do templo e ouviram que não ficaria pedra sobre pedra (Mt 24.1-2). Depois, no monte das Oliveiras, perguntaram quando isso aconteceria e que sinal haveria da vinda dele e do fim dos tempos (Mt 24.3). Wesley observa, na nota sobre o versículo 3, que os discípulos perguntam confusamenteNotas, Mt 24.3, como se a destruição do templo e o fim do mundo fossem a mesma coisa. Jesus não corrige a pergunta; separa as respostas.

Essa chave é decisiva para o restante do curso. Quem lê todo o capítulo como profecia do fim precisa explicar por que Jesus mandou fugir para os montes e orar para que a fuga não fosse no inverno. Quem lê tudo como profecia do ano 70 precisa explicar o sol escurecido e o Filho do Homem vindo sobre as nuvens. Wesley não faz nem uma coisa nem outra. Ele distingue, e a distinção vem da própria estrutura do texto.

Uma nota sobre o método. Os leitores desta escola costumam chamar de preterismo parcial a leitura que vê no ano 70 o cumprimento de boa parte de Mateus 24, reservando para o futuro a vinda de Cristo, a ressurreição e o juízo. Wesley não usava o rótulo, mas a sua leitura é essa. A apresentação das Notas sobre o Apocalipse neste site avisa que o editor, quando necessário, indicará em notas próprias as leituras amilenista e preterista parcialNotas, apresentação do Apocalipse; nesta aula você verá que, em Mateus 24, isso quase não é necessário, porque o próprio Wesley já lê o texto assim.

A estrutura

Duas perguntas, duas respostas

A nota sobre Mateus 24.3 é um pequeno mapa do capítulo inteiro. Vale decorar.

Segundo Wesley, o nosso Senhor responde distintamente sobre quatro coisasNotas, Mt 24.3: primeiro, a destruição do templo e da cidade, com os sinais que a precedem, nos versículos 4 em diante e 15 em diante; segundo, a sua própria vinda e o fim do mundo, com os seus sinais, nos versículos 29 a 31; terceiro, o tempo da destruição do templo, nos versículos 32 em diante; quarto, o tempo do fim do mundo, no versículo 36. Na nota sobre o versículo 32 ele repete o esquema: à pergunta sobre o tempo da destruição de Jerusalém ele responde no versículo 34; sobre o tempo do fim do mundo, responde no versículo 36Notas, Mt 24.32. Sobre Marcos 13.4, a mesma coisa: duas perguntas, uma sobre a destruição de Jerusalém; a outra sobre o fim do mundoNotas, Mc 13.4.

Mt 24.4-28

A queda de Jerusalém e os seus sinais

Falsos cristos, guerras, perseguição, o evangelho pregado pelas partes do mundo, a abominação no lugar santo, a fuga para os montes, a grande tribulação, o cadáver e as águias.

Mt 24.29-31

A última vinda de Cristo

O sol escurecido, o sinal do Filho do Homem, a vinda sobre as nuvens, a trombeta e a reunião dos escolhidos dos quatro ventos.

Mt 24.32-35

O tempo de Jerusalém

Esta geração não passará: cumprido, diz Wesley, trinta e nove ou quarenta anos depois.

Mt 24.36-51

O tempo do fim

Daquele dia ninguém sabe. Por isso: vigiem, como o servo fiel e prudente.

Há um detalhe de honestidade que precisa ser dito. Wesley admite que a separação não é rígida. Sobre o versículo 4, ele diz que a advertência contra os enganadores vale para os cristãos de todas as épocas e que é altamente provável que muitas destas coisas se refiram a eventos mais importantes, ainda por virNotas, Mt 24.4. Os dois horizontes se tocam, porque Jerusalém é figura do fim. Mas o eixo do capítulo é o que a nota sobre o versículo 3 descreve, e é com ele que vamos ler.

O ano 70

A queda de Jerusalém, versículo por versículo

Nesta parte, Wesley lê Mateus 24 com o historiador Josefo ao lado. A profecia se cumpriu, diz ele, com a máxima exatidão.

Sobre o versículo 2, a pedra que não ficaria sobre pedra: isto se cumpriu com a máxima exatidãoNotas, Mt 24.2, porque Tito mandou escavar os fundamentos do templo e o terreno foi arado. Sobre o versículo 5, os falsos cristos: nunca apareceram no mundo tantos impostores como nos poucos anos anteriores à destruição de JerusalémNotas, Mt 24.5. Sobre o versículo 14, o evangelho pregado em todo o mundo antes do fim não significa universalmente, mas, em geral, pelas várias partes do mundoNotas, Mt 24.14; e Wesley acrescenta que isso foi feito por Paulo e pelos outros apóstolos antes que Jerusalém fosse destruídaNotas, Mt 24.14. Ali o fim é o da cidade e do templo, e ele recomenda a leitura: a História da Guerra Judaica, de Josefo, é o melhor comentário deste capítuloNotas, Mt 24.14.

Sobre o versículo 15, a abominação da desolação são os estandartes das legiões desoladoras, nos quais levavam as imagens abomináveis dos seus ídolosNotas, Mt 24.15, plantadas depois no próprio monte das Oliveiras. Sobre o versículo 16, a ordem de fugir para os montes: assim fizeram os cristãos, e foram preservadosNotas, Mt 24.16, quando o exército de Céstio Galo recuou de modo inesperado; os cristãos se retiraram, uns para Pela, outros para o monte LíbanoNotas, Mt 24.16. Sobre o versículo 20, a oração para que a fuga não fosse no inverno: assim oraram, e a sua fuga se deu na primaveraNotas, Mt 24.20. Sobre o versículo 28, o cadáver e as águias: a nação judaica já é, diante de Deus, um cadáver, que as águias romanas em breve devorarãoNotas, Mt 24.28. E sobre o versículo 34: a cidade e o templo foram destruídos trinta e nove ou quarenta anos depoisNotas, Mt 24.34.

As Notas sobre Lucas 21 completam o quadro. Sobre 21.24, mais de um milhão pereceram no cerco de JerusalémNotas, Lc 21.24, e mais de noventa mil foram vendidos como escravos; os tempos dos gentios são os tempos em que a cidade é pisada por eles, e terminarão na plena conversão dos gentiosNotas, Lc 21.24. Sobre 21.28, a redenção que se aproxima é a libertação dos cristãos, de muitas tribulaçõesNotas, Lc 21.28. E sobre 21.31, o Reino de Deus próximo é a remoção do sistema judaico para abrir caminho ao avanço do meu reinoNotas, Lc 21.31.

Notas sobre Lucas 21.24, 28 e 31

O ponto sensível

A grande tribulação: cumprida e ainda por cumprir

Aqui está o versículo que decide muita coisa. Wesley diz que a grande tribulação de Mateus 24.21 aconteceu no ano 70 e pergunta se não terá um sentido mais amplo. Note quem está dentro dela nas duas leituras.

Sobre o versículo 21, a grande tribulação como nunca houve, Wesley escreve uma pergunta: não terão muitas coisas ditas neste capítulo, como em Marcos 13 e Lucas 21, um sentido ulterior e muito mais amplo do que o já cumprido?Notas, Mt 24.21 Sobre Marcos 13.19 repete: não estará ainda por vir muito desta aflição?Notas, Mc 13.19 Ele não fecha a porta a um cumprimento futuro maior. Mas veja o que ele diz sobre quem está no meio dela.

Sobre o versículo 22, os dias abreviados: abreviados pela tomada de Jerusalém mais cedo do que se poderia esperarNotas, Mt 24.22; e ninguém se salvaria significa que a nação inteira seria destruída; mas por causa dos eleitos, isto é, por causa dos cristãosNotas, Mt 24.22. Sobre Marcos 13.20, os eleitos são os cristãos, que tirou do mundo, ou separou dele, mediante a santificação do Espírito e a fé na verdadeNotas, Mc 13.20. Sobre o versículo 24, os enganadores tentariam enganar até os eleitos, mas não é possível que Deus permita que o corpo dos cristãos seja assim enganadoNotas, Mt 24.24. E sobre o versículo 10, os que conservam a fé, o amor e a esperança até o fim, serão arrebatados do incêndioNotas, Mt 24.10.

No ano 70

Os cristãos estavam na Judeia quando a tribulação chegou. Foram avisados, fugiram para Pela e foram preservados dentro dela, não retirados dela. Os dias foram abreviados por causa deles.

No sentido mais amplo

Se muito da aflição ainda está por vir, os eleitos continuam sendo os cristãos, presentes, tentados, guardados por Deus e chamados a perseverar até o fim. Não há na nota nenhuma retirada prévia.

Guarde este ponto para a próxima aula. Quando o pré-tribulacionismo surgiu, quarenta anos depois da morte de Wesley, ele precisou ler Mateus 24 como um texto sobre Israel, sem a igreja. Wesley lê o capítulo inteiro como uma palavra aos discípulos, que representavam os cristãos posteriores. Sobre o versículo 4, ele diz que a advertência destina-se mais particularmente aos cristãos posteriores, que os apóstolos então representavamNotas, Mt 24.4.

Versículos 29 a 36

Logo depois da tribulação: a última vinda

No versículo 29 Wesley marca a virada. Jesus passa a falar da sua última vinda, e fala na linguagem de Deus, para quem mil anos são como um dia.

Sobre o versículo 29, aqui o nosso Senhor começa a falar da sua última vindaNotas, Mt 24.29. Mas fala não tanto na linguagem dos homens quanto na de Deus, e por isso muitos dos cristãos primitivos, não observando isto, pensaram que ele viria imediatamenteNotas, Mt 24.29, engano que Paulo se esforça por remover na segunda carta aos Tessalonicenses. Sobre Marcos 13.24, aqueles dias são os que precedem imediatamente o fim do mundoNotas, Mc 13.24. Sobre o versículo 30, o sinal do Filho do Homem, talvez a cruz, aparece na glória do Senhor pouco antes de ele descer. Sobre o versículo 31, os anjos ajuntam os escolhidos, isto é, todos os que perseveraram até o fim na fé que atua pelo amorNotas, Mt 24.31.

Sobre o versículo 36, o dia do juízo ninguém sabe, não enquanto o Senhor estava na terraNotas, Mt 24.36. Aqui aparece uma frase curiosa: Wesley acrescenta que isso não impede que depois tenha sido revelado a João de modo compatível com istoNotas, Mt 24.36, uma alusão aos cálculos de datas que ele reproduziu nas Notas sobre o Apocalipse. É um dos poucos lugares em que a sobriedade dele vacila, e vale registrar.

A relação entre os dois horizontes é de tipo e cumprimento. Sobre Lucas 21.25, os sinais vêm antes do grande dia, que foi tipificado pela destruição de JerusalémNotas, Lc 21.25. Sobre Malaquias 4.5, o grande e terrível dia do Senhor se refere literalmente ao tempo de vingança sobre os judeus, até a desolação final da cidade e do templo e, por extensão, ao fim do mundoNotas, Ml 4.5. Sobre Joel 2.31, o dia da destruição de Jerusalém é o dia que prefigura o dia do juízoNotas, Jl 2.31. E sobre Hebreus 12.26, o abalo da terra e do céu começou na primeira vinda de Cristo e será consumado na segundaNotas, Hb 12.26. Jerusalém foi o ensaio; a vinda de Cristo é a peça.

Notas sobre Lucas 21.25, Malaquias 4.5, Joel 2.31 e Hebreus 12.26

Onde ficamos

Um é tomado, o outro é deixado: vigilância, não arrebatamento

O versículo 40 virou, no século 20, o texto do arrebatamento secreto. Nas Notas de Wesley ele é outra coisa, e a diferença resume esta aula.

Sobre o versículo 40, dois estarão no campo, um será tomado e o outro deixado, Wesley escreve: um é tomado para a proteção imediata de DeusNotas, Mt 24.40; e o outro é deixado para partilhar as calamidades comunsNotas, Mt 24.40. O contexto é a calamidade de Jerusalém, e o Senhor fala como quem tem a cena diante dos olhos. Ser tomado, aqui, é ser preservado por Deus sem arrebatamento celestial, como os cristãos que escaparam do cerco fugindo para Pela. Não é ser retirado da terra antes de uma tribulação futura.

Daí a conclusão prática do capítulo, que Wesley aplica à morte de cada um e ao juízo da nação. Sobre o versículo 42, você não sabe a que hora vem o seu Senhor, seja para requerer de você a sua alma, seja para vingar-se desta naçãoNotas, Mt 24.42. Sobre o versículo 45, o servo prudente é o que vive conservando a cada momento a mais clara convicção de que tudo o que agora possui lhe está apenas confiado como mordomoNotas, Mt 24.45. Sobre Mateus 25.5, as virgens adormecem todas, as prudentes desfrutando uma paz verdadeira; as néscias, uma paz falsaNotas, Mt 25.5. E sobre Mateus 25.13, quem vigia tem azeite na vasilha: está tranquilo, mas não em falsa segurançaNotas, Mt 25.13.

1

Leia o capítulo inteiro

Versículo isolado vira profecia de jornal. A estrutura de Wesley protege o texto: duas perguntas, duas respostas.

2

Deixe Jerusalém ser Jerusalém

O cumprimento no ano 70 é uma das maiores evidências de que Jesus falou a verdade. Não a desperdice transferindo tudo para o futuro.

3

Vigie

A aplicação de Jesus, e de Wesley, não é calcular; é vigiar, como quem sabe que a alma pode ser requerida esta noite.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Seis questões, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Uma pergunta para dentro e outra para a conversa com quem pensa diferente. Cada uma traz uma resposta sugerida.

Se boa parte de Mateus 24 se cumpriu no ano 70, o capítulo perde força para a nossa vida hoje? O que Wesley diria?Ver resposta sugerida

Wesley diria que ganha força. Primeiro, porque uma profecia cumprida com a máxima exatidão, como ele escreve sobre o versículo 2, é uma prova viva de que Jesus falou a verdade; e quem cumpriu a primeira parte cumprirá a segunda. Segundo, porque a advertência contra os enganadores, segundo a nota sobre o versículo 4, se destina aos cristãos de todas as épocas.

Além disso, o próprio Wesley admite que muito do capítulo tem um sentido ulterior e mais amplo. A queda de Jerusalém é tipo do fim: o que aconteceu com a cidade aponta para o que acontecerá com o mundo. Ler o capítulo assim não o esvazia; dá-lhe profundidade.

E a aplicação de Jesus continua intacta: vigiem, porque não sabem a hora. Wesley a aplica à morte de cada um de nós, que pode chegar esta noite. Nenhum cumprimento passado tira a urgência disso.

Alguém usa Mateus 24.40, um será levado e o outro deixado, para provar o arrebatamento secreto. Como conversar sobre isso a partir das Notas de Wesley?Ver resposta sugerida

Comece pelo contexto, que é o que Wesley faz. O versículo 40 vem depois da comparação com os dias de Noé, em que o dilúvio levou os ímpios, e dentro de um trecho que fala da calamidade de Jerusalém. Wesley entende que ser tomado é ser levado para a proteção imediata de Deus, e ser deixado é partilhar as calamidades comuns. É a experiência dos cristãos que fugiram para Pela.

Depois, pergunte com mansidão onde está, no texto, a ideia de uma retirada secreta antes de uma tribulação futura. Não está. A vinda de que Jesus fala nos versículos 27 e 30 é como o relâmpago e visível a todos os povos da terra. Wesley comenta que não haverá tempo para aviso prévio, e que todo olho o verá.

Por fim, ofereça o que o texto pede: vigilância. Quem discute o versículo 40 e não vigia perdeu o ponto. A próxima aula aprofunda a questão do arrebatamento com 1Tessalonicenses 4 e 2Tessalonicenses 2.

Mateus 24 nas Notas: Jerusalém, a tribulação e o fim · Aula 4 de 11 do curso A Escatologia de John Wesley. Todas as citações desta aula levam ao trecho exato das obras de John Wesley publicadas neste site.