Aula 3 de 11A Escatologia de John Wesley

Ele vem: a esperança da volta de Cristo

“Esse Jesus que foi levado do meio de vocês para o céu virá do modo como vocês o viram subir.”Atos 1.11 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: At 1.6-11; Ap 1.4-8; Hb 9.24-28; Tt 2.11-14; 1Ts 4.13-5.11; 2Pe 3.1-15

Como ler esta aula. As palavras de Wesley aparecem como links sublinhados em laranja, seguidos da referência convencional entre parênteses (sermão e parágrafo, ou livro e versículo das Notas); o link abre a obra neste site no trecho exato. Os blocos marcados Síntese do curso trazem a leitura e a avaliação do curso; os marcados Nota do editor, esclarecimentos e fontes.

Para começar

Cristo volta mesmo? Como? Quando?

A volta de Cristo é o artigo do Credo que mais gera perguntas: ela será visível ou espiritual? Súbita ou anunciada por sinais? Podemos saber a data? E por que demora tanto? Wesley respondeu a cada uma delas.

Nas Notas sobre o Novo Testamento, Wesley volta ao tema dezenas de vezes, porque o Novo Testamento volta a ele dezenas de vezes. A esperança da manifestação de Cristo atravessa todo o Novo Testamento. Wesley leu tudo isso como um homem do século 18, sem os esquemas que surgiriam depois, e por isso o testemunho dele é precioso: ele nos mostra como um leitor devoto e culto entendia a segunda vinda antes de a palavra arrebatamento virar bandeira.

Esta aula reúne o que ele ensina sobre quatro pontos: o fato da vinda, o modo da vinda, o tempo da vinda e o sentido da demora. Uma advertência de saída: em Wesley, a vinda de Cristo é uma só, visível a todos, e coincide com a ressurreição e o juízo. Não existe nas Notas uma vinda secreta seguida de outra pública. As aulas 5 e 9 vão mostrar por que isso importa.

O fato

A gramática da esperança: ele vem

A nota de Wesley sobre Apocalipse 1.7 é uma das mais bonitas de todo o comentário. Ela ensina a ler o livro inteiro a partir de um verbo no presente.

Apocalipse 1.7 diz que ele vem com as nuvens e que todo olho o verá. Wesley comenta que esse versículo é o sumário de todo o livro e observa que sempre que o livro diz ele vem, trata-se da sua vinda gloriosaNotas, Ap 1.7. A preparação para essa vinda começou na destruição de Jerusalém e prossegue sem interrupção até que o grande evento se cumpra; por isso nunca se diz neste livro ele virá, mas ele vemNotas, Ap 1.7. Ele nota ainda que o livro não diz que Cristo vem de novo, porque a primeira vinda foi em forma de servo: seu aparecimento em glória é propriamente a sua vinda, de maneira digna do Filho de DeusNotas, Ap 1.7.

A mesma esperança está nas cartas. Sobre Hebreus 9.28, Cristo aparecerá segunda vez, quando vier para o juízoNotas, Hb 9.28. Sobre Tito 2.13, o crente aguarda a manifestação da glória do grande Deus e Salvador com desejo ardente, e Wesley aproveita para lembrar que, se houvesse um Deus grande e um pequeno, Cristo não seria o pequeno, mas o grandeNotas, Tt 2.13. Sobre Colossenses 3.4, a frase que anuncia a manifestação de Cristo é abrupta de propósito: a abruptidade da sentença nos envolve em luz súbitaNotas, Cl 3.4.

No Sermão 15, pregado diante de um tribunal, Wesley descreve a cena: então será ouvida a voz do arcanjo, anunciando a chegada do Filho de Deus, e soará a trombeta de DeusSermão 15, I.1, chamando todos os que dormem no pó da terra. Depois, o próprio Senhor virá nas nuvens, em sua glória e na glória do PaiSermão 15, I.2, acompanhado de anjos, e se assentará no trono da sua glória. E, na aplicação final, deixa a doutrina virar apelo: Vejam! Ele vem nas nuvens. Faz das nuvens sua carruagem e cavalga sobre as asas do ventoSermão 15, IV.5. E conclui que não demorará até que o Senhor desça com a voz do arcanjo e a trombeta de DeusSermão 15, IV.5.

Sermão 15, O grande julgamento

Charles Wesley pôs tudo isso em música em 1758, e o hino ainda é cantado no mundo inteiro: Eis que ele vem, descendo com as nuvensHymns of Intercession, 1758, outrora imolado por pecadores. A segunda estrofe segue Apocalipse 1.7 ao pé da letra: todo olho agora o contemplaráHymns of Intercession, 1758, inclusive os que o traspassaram. Os dois irmãos criam na mesma vinda: visível, corporal, gloriosa.

O modo

Visível, súbito, glorioso e para julgar

Quando trata da parousia final, Wesley não conhece uma vinda espiritual, invisível ou secreta, embora use também a linguagem de vindas providenciais ou judiciais de Cristo na história. Nas Notas, a última vinda é como o relâmpago: rápida, pública e definitiva.

Sobre Mateus 24.27, o relâmpago que sai do oriente e brilha até o ocidente, ele escreve que a próxima vinda de Cristo será tão rápida como o relâmpago, de modo que não haverá tempo para nenhum aviso prévio desse tipoNotas, Mt 24.27. Sobre Lucas 17.24, tão rápida, tão ampla será a sua apariçãoNotas, Lc 17.24. Sobre Mateus 24.30, o sinal do Filho do Homem aparecerá um pouco antes de ele descer, e o sinal do Filho do Homem (talvez a cruz) aparecerá na glória do SenhorNotas, Mt 24.30. Sobre Atos 1.11, a promessa dos anjos garante a continuidade entre o Jesus que subiu e o que voltará.

A vinda é para julgar. Sobre Hebreus 9.28, a segunda aparição é quando vier para o juízo. Sobre Apocalipse 22.12, as recompensas que designo, tanto aos justos quanto aos ímpios, são dadas na minha vindaNotas, Ap 22.12. Sobre Mateus 25.31, a cena do Filho do Homem no seu trono de glória é tão sublime que Wesley confessa: mal podemos lê-la sem nos imaginarmos diante do tremendo tribunal que ela descreveNotas, Mt 25.31. E sobre 2Tessalonicenses 1.10, naquele dia Cristo será glorificado nos seus santos, pois a maravilhosa glória de Cristo resplandecerá nelesNotas, 2Ts 1.10.

2

Súbita

Como o relâmpago, sem tempo para aviso prévio (Mt 24.27). Sobre 2Pedro 3.10, o dia do Senhor virá como ladrão, súbita e inesperadamenteNotas, 2Pe 3.10.

3

Uma só

A aparição gloriosa é a vinda propriamente dita, e ela é para o juízo (Hb 9.28). Entre a ascensão e a vinda em glória, diz a nota sobre Atos 3.21, corre todo o curso dos tempos do Novo TestamentoNotas, At 3.21.

O tempo

Quando? A sobriedade de Wesley

Aqui Wesley recusa fazer o que muitos fizeram depois dele: transformar a esperança em calendário. Ele leu as advertências de Jesus e as levou a sério.

Sobre Mateus 24.36, daquele dia ninguém sabe, não enquanto o nosso Senhor estava na terraNotas, Mt 24.36. Sobre Marcos 13.32, ele explica o mistério de o Filho não saber: como homem, ele não era mais onisciente do que onipresenteNotas, Mc 13.32. Sobre Atos 1.7, os tempos e as épocas ficaram reservados ao Pai, para serem revelados quando e a quem lhe aprouver. Sobre 1Tessalonicenses 5.2, o dia vem como ladrão, e o comentário é seco: isto, em geral, vocês sabem; e não podem nem precisam saber maisNotas, 1Ts 5.2.

Wesley também explica por que os apóstolos falam da vinda como próxima sem terem errado. Sobre Atos 3.20, os apóstolos geralmente falam da segunda vinda do nosso Senhor como iminenteNotas, At 3.20. Sobre 1Tessalonicenses 4.15, os crentes de todas as eras formam um só corpo, e Paulo podia falar na pessoa dos que estarão vivos na vinda do Senhor; não que Paulo com isso afirmasse que o dia do Senhor estava próximoNotas, 1Ts 4.15. Sobre Mateus 24.29, Jesus fala da última vinda na linguagem de Deus, para quem mil anos são como um dia, e muitos dos cristãos primitivos, não observando isto, pensaram que ele viria imediatamenteNotas, Mt 24.29. Sobre Tiago 5.8, a vinda do Senhor para destruir Jerusalém estava próxima, e também a sua última vinda o está, aos olhos do crenteNotas, Tg 5.8. E sobre 1Pedro 1.5, a salvação a ser revelada no último dia está cada vez mais prestes a revelar-se, desde que Cristo veioNotas, 1Pe 1.5.

Há um ponto em que a sobriedade de Wesley falhou, e já o vimos na aula 1: nas Notas sobre o Apocalipse ele reproduziu, de um comentarista do seu tempo, cálculos que apontavam o ano de 1836. É preciso dizer as duas coisas. Ele nunca fez daquilo um artigo de fé, e as advertências que acabamos de ler são dele. Mas a lição fica: quem calcula, erra, e Wesley teria visto o erro se tivesse vivido até 1836.

O sentido

Por que ele demora: a paciência que salva

Zombadores perguntavam onde estava a promessa da vinda já no primeiro século. A resposta de Pedro, comentada por Wesley, continua sendo a nossa.

Sobre 2Pedro 3.4, os zombadores dizem que tudo permanece como desde o princípio da criação, sem sinal do fim; nem sequer se dignam nomear o Senhor, observa Wesley, e resumem: não vemos sinal algum dissoNotas, 2Pe 3.4. A resposta vem no versículo 8. Para o Senhor um dia é como mil anos: num dia, num momento, ele pode fazer a obra de mil anosNotas, 2Pe 3.8. E, ao contrário, mil anos são como um dia: nenhuma demora é longa para Deus, que nos dá espaço para o arrependimento, sem inconveniente algum para siNotas, 2Pe 3.8. Sobre o versículo 9, Deus não retarda a promessa; é longânimo, não querendo que pereça nenhuma alma que ele fezNotas, 2Pe 3.9.

A demora, portanto, é misericórdia. É o espaço em que o evangelho se espalha e os pecadores se arrependem. Mas Wesley não permite que a paciência de Deus vire desculpa para a nossa. Sobre 2Pedro 3.12, os crentes apressam a vinda do dia de Deus como que pelos seus desejos ardentes e orações fervorosasNotas, 2Pe 3.12; sobre o versículo 14, devemos esforçar-nos para encontrá-lo sem terror, aspergidos com o seu sangue e santificados pelo seu EspíritoNotas, 2Pe 3.14. E sobre 2Timóteo 4.8, amar a sua vinda é algo que somente um cristão real pode fazerNotas, 2Tm 4.8.

Nas Notas sobre Romanos 11, a demora ganha um rosto: a plenitude dos gentios e a conversão de Israel. Sobre Romanos 11.26, o Libertador já veio, mas não ainda o pleno fruto da sua vindaNotas, Rm 11.26. E sobre Apocalipse 22.20, o Senhor responde ao clamor da igreja prometendo vir sem demora, para destruir todos os seus inimigos e estabelecer a igreja em estado de felicidade perfeita e eternaNotas, Ap 22.20. A igreja responde com a última oração da Bíblia: Vem, Senhor Jesus!

Notas sobre Romanos 11.26 e Apocalipse 22.20

Onde ficamos

O que guardamos e como vivemos

Nesta aula não há divergência entre Wesley e a nossa leitura. A volta visível, única e gloriosa de Cristo é o coração da esperança cristã, e tudo o mais se organiza ao redor dela.

Guardamos com Wesley: Cristo voltará pessoalmente, de modo visível a todos, como subiu (At 1.11); a vinda será súbita e pública, sem uma etapa secreta anterior; ela coincide com a ressurreição e o julgamento; ninguém sabe o dia, e quem marca data desobedece a Jesus; a demora é paciência de Deus, e não esquecimento.

E aprendemos com ele a viver esperando. Em 1789, aos 85 anos, ele escreveu a uma sobrinha que acabara de se reerguer de uma queda espiritual: redimamos o tempo; a noite já vai longe; o dia da eternidade está próximoCartas dos últimos anos. No Diário ele registra a história de uma jovem que, ao receber a notícia da salvação, escreveu à amiga: Não temos tempo a perder! O Senhor está às portas! Agora, agora mesmo, estamos entrando na eternidadeDiário, cap. 16, e morreu com a carta na mão. A vida inteira de Wesley foi vivida nesse tom: sem ansiedade, sem cálculo, sem demora.

1

Pregue a vinda como Wesley a leu

Como esperança, não como ameaça; como fato certo, não como enigma a decifrar. O verbo é no presente: ele vem.

2

Recuse o calendário

Quando alguém trouxer uma data, um cálculo ou um sinal decisivo, responda com Mateus 24.36 e com a nota de Wesley sobre 1Tessalonicenses 5.2: não podemos nem precisamos saber mais.

3

Use a demora

Cada dia de paciência de Deus é um dia para alguém se arrepender. A resposta certa à demora não é a impaciência, e sim a evangelização e a santidade (2Pe 3.11-12).

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Seis questões, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Uma pergunta para dentro e outra para a conversa com quem pensa diferente. Cada uma traz uma resposta sugerida.

Você espera a volta de Cristo com desejo, como o crente de Tito 2.13, ou o assunto lhe causa mais medo do que alegria? O que explica isso?Ver resposta sugerida

A resposta sincera a essa pergunta diz muito sobre a nossa fé. Wesley observa, sobre 2Timóteo 4.8, que amar a vinda de Cristo é algo que só um cristão real pode fazer. Quem não tem paz com Deus teme o Juiz; quem foi justificado e perdoado o espera como Salvador.

Se o assunto causa medo, o caminho não é evitá-lo, e sim examinar de onde vem o medo. Às vezes vem de pregações que só falaram de terror. Às vezes vem de pecado não confessado. Às vezes vem de uma imagem errada de Deus, como se ele estivesse ansioso para condenar. A nota sobre 2Pedro 3.9 corrige essa imagem: ele não quer que pereça nenhuma alma que fez.

O desejo pela vinda cresce com a comunhão. Quem anda com Cristo hoje deseja vê-lo amanhã. Por isso a esperança escatológica é, em Wesley, uma consequência da santidade, e não um substituto dela.

Alguém da sua família diz que a demora de dois mil anos prova que Jesus não vai voltar. Como responder sem agressividade?Ver resposta sugerida

Comece reconhecendo que a objeção é antiga: já estava na boca dos zombadores de 2Pedro 3.4, que diziam que tudo permanecia como desde o princípio. Pedro a respondeu no primeiro século, e a resposta continua valendo.

Depois, apresente os dois argumentos de Pedro, como Wesley os comenta. Primeiro, o tempo de Deus não é o nosso: num dia ele pode fazer a obra de mil anos, e mil anos não são demora para ele. Segundo, a demora tem propósito: Deus é paciente porque não quer que ninguém pereça. Cada dia que passa é um dia a mais para o seu familiar se arrepender.

Por fim, evite prometer prazos. A força da esperança cristã não está em saber quando, e sim em saber quem vem. Ele vem como subiu, visível a todos, e a promessa foi confirmada pela ressurreição (At 17.31). Enquanto isso, a melhor resposta à objeção é uma vida que já vive na eternidade.

Ele vem: a esperança da volta de Cristo · Aula 3 de 11 do curso A Escatologia de John Wesley. Todas as citações desta aula levam ao trecho exato das obras de John Wesley publicadas neste site.