Como ler esta aula. As palavras de Wesley aparecem como links sublinhados em laranja, seguidos da referência convencional entre parênteses (sermão e parágrafo, ou livro e versículo das Notas); o link abre a obra neste site no trecho exato. Os blocos marcados Síntese do curso trazem a leitura e a avaliação do curso; os marcados Nota do editor, esclarecimentos e fontes.
Para começar
O que acontece quando morremos?
Nossos mortos estão conscientes ou dormem? Já estão no céu? Existe um lugar de purificação antes da glória? Vamos reconhecer os que amamos? Wesley respondeu a todas essas perguntas, e respondeu a partir dos textos.
Toda igreja enfrenta essas perguntas ao lado de um caixão. Wesley as enfrentou muitas vezes: enterrou a mãe, o irmão, amigos como George Whitefield e John Fletcher, e milhares de metodistas comuns. O que ele ensinou sobre o intervalo entre a morte e a ressurreição não nasceu em gabinete, e sim em funerais, cartas de consolo e sermões pregados diante de gente enlutada.
A resposta dele tem três partes, e vale anunciá-las de saída. Primeira: na morte, a alma se separa do corpo e continua consciente. Segunda: as almas dos justos vão para o paraíso, que não é ainda o céu em sua plenitude, e as dos ímpios para uma região de sofrimento, à espera do juízo. Terceira: não existe purgatório, e a felicidade dos que morreram no Senhor não fica adiada até a ressurreição. Tudo isso, para ele, está na Escritura. O que a Escritura não diz, ele trata como conjectura, e é preciso saber separar as duas coisas.
Uma palavra sobre as fontes desta aula. Os dois sermões centrais são o Sermão 112, O Rico e Lázaro, sobre o rico e Lázaro, e o Sermão 122, Sobre a Fé, sobre Hebreus 11.1, em que Wesley usa repetidamente expressões como talvez e não seria possível supor. A eles se somam as Notas sobre Lucas 16 e 23, 2Coríntios 5, Filipenses 1, Hebreus 9 e Apocalipse 1, 6 e 14, além de uma carta de 1783 e do relato da morte de Susana Wesley.
O mapa
Paraíso, Hades e o mundo invisível
Para entender Wesley é preciso aprender o vocabulário dele, que é o vocabulário do Novo Testamento grego: Hades não é o inferno final, e paraíso não é ainda o céu.
Comece pela nota sobre Apocalipse 1.18, onde Cristo diz ter as chaves da morte e do Hades. Wesley explica: no estado intermediário, o corpo permanece na morte; a alma, no HadesNotas, Ap 1.18. O corpo fica na sepultura; a alma vai para o mundo invisível. E esse mundo invisível tem duas regiões. No Sermão 112 ele observa que a palavra traduzida por inferno em Lucas 16.23 nem sempre indica o castigo final: literalmente, significa o mundo invisível e possui sentido muito amploSermão 112, §7. Ali, no caso do rico, trata-se da região do Hades onde estão as almas dos ímpios, em tormento.
No Sermão 73, tratando do que os ímpios perdem, Wesley diz que as almas no paraíso estão sendo preparadas para uma felicidade maior: o paraíso é apenas a entrada do céuSermão 73. E no Sermão 84 chama o paraíso de antessala do céuSermão 84, II.4, onde os justos convivem com os santos de todas as eras e, acima de tudo, estão com Cristo.
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A outra região
As almas dos ímpios vão para o lado do Hades onde há tormento, à espera do juízo. Sobre o rico, Wesley insiste: atormentado, não purificadoSermão 112, §11. E, sobre o grande abismo de Lucas 16.26, faz a pergunta que faria a qualquer ouvinte: leitor, para qual dos lados dele você irá?Notas, Lc 16.26
Notas sobre Hebreus 9.27 e Sermão 51, O bom mordomo
O que se sabe e o que se supõe
Conscientes, reconhecidos e em crescimento
Aqui Wesley avança do que a Escritura afirma para o que ele considera provável. É a parte mais fascinante do seu ensino e a que mais exige o cuidado de distinguir doutrina de conjectura.
Alma consciente depois da morte; os justos com Cristo, descansando; os ímpios em tormento; reconhecimento mútuo; sem purgatório; sem juízo particular; tudo à espera da ressurreição.
Conjectura
Onde fica o Hades; se os espíritos crescem em conhecimento e santidade no paraíso; se visitam e servem os vivos; o que os ímpios fazem enquanto esperam. Wesley diz talvez, e nós devemos dizer o mesmo.
Um detalhe pastoral merece atenção. Wesley recusa que a lembrança dos nossos se apague no paraíso. A gratidão a quem nos fez bem é uma disposição santa, e toda disposição santa permanece; logo, o conhecimento de quem nos fez bem também permanece. Ele conclui, sobre um moribundo que se alegrava em rever pais e irmãos: não reconhecer os seus seria uma ideia que tudo em nós rejeita. É também o que ele diz, em uma linha, no Sermão 112: algum de vocês duvida de que conheceremos uns aos outros no outro mundo?Sermão 112, §10
A doutrina que consola
Chorar como quem tem esperança
O ensino sobre o estado intermediário existe, em Wesley, para uma coisa: consolar sem mentir. O luto é permitido; o desespero, não.
Nas cartas de consolo o mesmo tom aparece. À amiga Hester Ann Roe, que perdera um primo jovem e útil, ele escreve que a retirada de alguém assim no começo da sua utilidade é um daqueles atos da economia divina que deixam para trás a nossa razãoCartas de consolo. Não explica o inexplicável. Diz que só nos resta admirar e adorar, e conclui: vivamos o dia de hoje.
Carta a Hester Ann Roe, 1º de outubro de 1782
Avaliação e aplicação
O que guardamos e como aplicamos
Nem tudo o que Wesley escreveu sobre o intervalo entre a morte e a ressurreição tem o mesmo peso. Aqui está o que a Escritura sustenta com firmeza e o que fica em aberto.
Guardamos com ele o essencial: quem morre no Senhor está com Cristo e descansa das suas fadigas (Fp 1.23; 2Co 5.8; Ap 14.13); a esperança cristã não é a alma desencarnada, e sim a ressurreição do corpo (1Ts 4.14-17); não há purgatório nem segunda chance depois da morte (Hb 9.27).
Deixamos em aberto o que ele mesmo deixou: a geografia do Hades e a atividade dos espíritos. O que ele ensina sobre a condição da alma entre a morte e a ressurreição fica registrado como ensino dele, com os textos em que se apoia, para que cada leitor o confira na Escritura. O centro não está em discussão: os mortos em Cristo estão com Cristo, e a nossa esperança é a manhã da ressurreição.
1
Para o luto
Diga a verdade com ternura: o irmão que partiu está com o Senhor e descansa; nós ainda caminhamos. Não diga que ele virou anjo, nem que está olhando por nós desde o céu como se fosse doutrina. Diga o que a Escritura diz.
2
Para a pregação
Pregue o paraíso como Wesley: como consolo dos justos e como advertência aos que adiam a decisão. O rico não pôde voltar, e ninguém atravessa o grande abismo.
Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Teste o que você aprendeu
Seis questões, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe.
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Para pensar e conversar
Perguntas para reflexão
Uma pergunta para dentro e outra para a conversa com quem pensa diferente. Cada uma traz uma resposta sugerida.
Você já consolou alguém dizendo que a pessoa que morreu virou anjo, ou está olhando por nós do céu? O que esta aula corrige, e como corrigir sem ferir?Ver resposta sugerida
Comece reconhecendo a intenção: quem diz essas coisas quer aliviar a dor, e isso é bom. O problema é que as frases não são bíblicas, e um consolo que não é verdadeiro acaba não sustentando ninguém quando a dor aperta.
O que a Escritura oferece é melhor: quem morre no Senhor está com Cristo (Fp 1.23), descansa das suas fadigas (Ap 14.13) e aguarda a ressurreição do corpo (1Ts 4.16). Não virou anjo; continua sendo a pessoa que amamos, agora na presença de quem a salvou.
Na hora de corrigir, não corrija a pessoa enlutada. Ofereça a verdade como acréscimo, não como reprimenda: em vez de dizer que ela não virou anjo, diga que ela está com Jesus e que vamos vê-la de novo. O que Wesley ensina sobre reconhecimento mútuo é, aqui, o consolo mais forte.
Na sua igreja, costuma-se dizer que quem morreu em Cristo foi para o céu. Como apresentar, sem confundir nem corrigir com aspereza, o ensino de Wesley de que o paraíso ainda não é o céu em plenitude?Ver resposta sugerida
Comece pelo que a linguagem comum acerta: quem morre no Senhor está com Cristo (Fp 1.23), e isso é o essencial. Dizer que o irmão foi para o céu, nesse sentido, não é erro; é abreviação.
Depois, mostre o que o Novo Testamento acrescenta e Wesley preserva: a esperança tem etapas. Agora, descanso com Cristo (Ap 14.13); depois, a ressurreição do corpo e a glória plena, quando Cristo voltar (1Ts 4.16-17; 1Co 15.52). O vocabulário de Wesley, paraíso e céu, serve para não deixar a ressurreição sumir da esperança da igreja.
Na prática, ensine isso na classe, não no velório. Diante do enlutado, diga que a pessoa está com Jesus e que a esperança de todos nós é a manhã da ressurreição. A distinção fica para o ensino sereno, sem repreender quem consola com as palavras que tem.
Wesley distingue o que a Escritura afirma sobre o estado intermediário do que ele mesmo supõe. Por que essa distinção importa para quem ensina na igreja?Ver resposta sugerida
Porque a igreja sofre quando conjecturas viram doutrinas. Se um professor ensina como certo que os mortos nos visitam ou que crescem em santidade no paraíso, cria expectativas que a Bíblia não sustenta e abre portas para práticas estranhas, como buscar contato com os que partiram.
Wesley dá o exemplo: sobre a consciência dos mortos e a ausência de purgatório ele fala com toda a firmeza, porque tem texto; sobre a atividade dos espíritos, escreve em forma de pergunta.
A regra prática é simples: pregue com força o que está claro, apresente com cautela o que é provável e cale o que a Escritura cala. Foi assim que Wesley conseguiu consolar sem enganar.
A morte e o paraíso: o estado intermediário · Aula 2 de 11 do curso A Escatologia de John Wesley. Todas as citações desta aula levam ao trecho exato das obras de John Wesley publicadas neste site.