“Depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares, e, assim, estaremos para sempre com o Senhor.”1Tessalonicenses 4.17 · NAA
Como ler esta aula. As palavras de Wesley aparecem como links sublinhados em laranja, seguidos da referência convencional entre parênteses (sermão e parágrafo, ou livro e versículo das Notas); o link abre a obra neste site no trecho exato. Os blocos marcados Síntese do curso trazem a leitura e a avaliação do curso; os marcados Nota do editor, esclarecimentos e fontes.
Para começar
Para muitos evangélicos brasileiros, a resposta parece óbvia: sim, há um arrebatamento secreto antes de sete anos de tribulação, e depois Cristo volta com a igreja. Essa resposta tem menos de duzentos anos. Wesley morreu antes de ela existir, e as Notas dele ensinam outra coisa.
Vamos definir os termos. Chama-se pré-tribulacionismo a doutrina de que Cristo virá duas vezes no futuro: uma vez em segredo, para arrebatar a igreja antes de um período de grande tribulação, e outra vez em glória, ao fim desse período. Chama-se pós-tribulacionismo a posição clássica: a igreja atravessa a tribulação, Cristo vem uma só vez, visível a todos, e o arrebatamento de 1Tessalonicenses 4.17 é o encontro dos crentes com o Senhor nessa única vinda.
O pré-tribulacionismo nasceu por volta de 1830, nos círculos de John Nelson Darby e dos Irmãos de Plymouth, na Grã-Bretanha, e se espalhou no século 20 pela Bíblia de Scofield, pelas missões e, mais tarde, por romances e filmes. Antes disso não há registro dessa doutrina em nenhum pai da igreja, reformador ou teólogo. Wesley morreu em 1791. Por isso, dizer que Wesley era pós-tribulacionista é, em primeiro lugar, uma constatação histórica: como todos os cristãos antes de 1830, ele só conhecia uma vinda de Cristo, e ela vinha depois da tribulação.
Mas o argumento desta aula é mais forte do que a cronologia. Wesley comentou versículo por versículo os textos em que a doutrina se decide, e a leitura dele é explicitamente pós-tribulacionista: o arrebatamento acontece na vinda pública, para o juízo; a reunião com Cristo não pode ocorrer antes da apostasia e do homem da iniquidade; e os santos estão dentro da grande tribulação, chamados a perseverar até o fim.
O texto do arrebatamento
1Tessalonicenses 4.16-17 é o texto de onde vem a palavra arrebatamento. Nas Notas de Wesley, ele descreve a vinda pública de Cristo para a ressurreição geral e o julgamento. Não há nada secreto nele.
Sobre o brado do versículo 16, Wesley explica que se trata, propriamente, de uma proclamação feita a grande multidãoNotas, 1Ts 4.16; acima do brado está a voz do arcanjo e, acima de ambos, a trombeta de Deus, a voz de Deus, de algum modo análoga ao som de uma trombetaNotas, 1Ts 4.16. Sobre 1Coríntios 15.52, a mesma trombeta soará para despertar todos os que dormem no pó da terraNotas, 1Co 15.52. Uma proclamação a grande multidão, uma trombeta que acorda todos os mortos: nada disso é discreto.
A nota sobre o versículo 17 é a mais importante da aula. Sobre os crentes arrebatados juntamente, Wesley diz: no mesmo momentoNotas, 1Ts 4.17. E sobre o encontro nos ares: os ímpios permanecerão embaixo, enquanto os justos, absolvidos, serão assessores do seu Senhor no juízoNotas, 1Ts 4.17. Leia de novo. No momento em que os crentes sobem, os ímpios estão embaixo, e os justos, já absolvidos, tornam-se assessores do Juiz. O arrebatamento é a abertura do julgamento, e não uma fuga sete anos antes dele.
O Sermão 15 confirma a leitura. Ao discutir onde a humanidade será julgada, Wesley diz que alguns imaginam que será na terra, mas que outros, considerando as palavras de Jesus sobre sua vinda nas nuvens e o ensino de Paulo, entendem que acontecerá acima da terraSermão 15, II.3, e cita exatamente 1Tessalonicenses 4.16-17, os mortos em Cristo ressuscitando primeiro e os vivos arrebatados para o encontro do Senhor nos ares. A conclusão dele: parece, portanto, provável que o grande trono branco seja levantado acima da terraSermão 15, II.3. Para Wesley, o texto do arrebatamento é o texto que diz onde ficará o trono do juízo.
Sermão 15, O grande julgamento, parte II
Duas notas vizinhas fecham o argumento. Sobre 1Tessalonicenses 5.10, quer vigiemos, quer durmamos significa estejamos vivos ou mortos na sua vindaNotas, 1Ts 5.10: uma só vinda para vivos e mortos. E sobre 5.9, Deus não nos destinou para a ira, como destinou os obstinadamente impenitentesNotas, 1Ts 5.9: a ira de que os crentes escapam é a condenação final, e não um período de sete anos.
A ordem dos acontecimentos
Paulo escreveu a segunda carta porque alguns diziam que o dia do Senhor já chegara. A resposta dele estabelece uma ordem, e Wesley a segue.
2Tessalonicenses 2.1 fala da vinda do Senhor e da nossa reunião com ele. Wesley anota: a nossa reunião com eleNotas, 2Ts 2.1, nas nuvens. É o mesmo encontro de 1Tessalonicenses 4.17. E o versículo 3 diz que isso não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia e seja revelado o homem da iniquidade. A ordem de Paulo é: apostasia, homem da iniquidade, reunião com Cristo. O pré-tribulacionismo inverte: reunião com Cristo, depois apostasia e anticristo. Wesley fica com Paulo.
Sobre a apostasia, Wesley diz que isto começou já na era apostólicaNotas, 2Ts 2.3. Sobre o homem do pecado, assim eminentemente chamado, ainda não veioNotas, 2Ts 2.3, embora, em muitos respeitos, o papado tem direito indisputável a esses títulosNotas, 2Ts 2.3. Aqui ele segue os reformadores, que viam no papado o cumprimento da profecia; e acrescenta, com honestidade, que este mistério da iniquidade não está inteiramente confinado à igreja romana, mas se estende também a outrasNotas, 2Ts 2.7. Você não precisa concordar com essa identificação histórica para ver o ponto: para Wesley, o poder que se opõe a Deus já opera dentro da história da igreja, e a igreja o enfrenta, em vez de ser retirada antes dele.
O versículo 8 fecha a sequência: o Senhor destruirá o iníquo pela manifestação da sua vinda, e Wesley comenta: com a primeira aparição da sua glóriaNotas, 2Ts 2.8. Uma só aparição da glória, e ela mata o homem da iniquidade. Não há uma aparição anterior, secreta, para tirar a igreja do caminho. E sobre o versículo 2 ele deixa uma advertência que os calculadores de todas as épocas deveriam ler: os que se aterrorizam com boatos sobre o dia do Senhor são os imoderadamente ávidos de conhecer as coisas futurasNotas, 2Ts 2.2.
1
Começou já na era apostólica e cresce dentro da igreja: invenções humanas acrescentadas à Palavra, práticas exteriores no lugar da fé e do amor, outros mediadores além de Cristo.
2
Revelado quando o que o detém for tirado; enfrentado pelos santos com paciência e fidelidade.
3
Com a primeira aparição da sua glória, Cristo destrói o iníquo, ressuscita os mortos, arrebata os vivos e julga a todos. Uma só vinda, no fim.
Os santos e a aflição
Se a igreja fosse retirada antes da tribulação, os textos que descrevem os santos sofrendo sob a besta não fariam sentido. Wesley os lê como descrição da história da igreja, e lê as promessas de proteção como preservação dentro dela.
Comece por Apocalipse 7.14, a multidão que vem da grande tribulação. Wesley diz que não são apenas mártires, pois estes não são multidão que ninguém pode contarNotas, Ap 7.14; são todas as almas dos justos que viveram desde o princípio do mundoNotas, Ap 7.14, e a grande aflição de que vêm é de várias espécies, sábia e graciosamente distribuída por Deus a todos os seus filhosNotas, Ap 7.14. Para ele, todo santo vem da tribulação, porque a tribulação, de várias espécies, é o caminho de todos os filhos de Deus (At 14.22).
Sobre Apocalipse 13.7, a besta faz guerra aos santos e os vence: Wesley aponta os valdenses e albigensesNotas, Ap 13.7, os cristãos massacrados na Idade Média. Sobre 13.10, o cativeiro e a espada exercitam a paciência, suportando cativeiro ou prisão; a fidelidade, resistindo até o sangueNotas, Ap 13.10. Sobre Apocalipse 3.10, a hora da provação que viria sobre toda a terra, um dos textos favoritos do pré-tribulacionismo, Wesley entende que já passou: foi o tempo da perseguição sob o imperador TrajanoNotas, Ap 3.10. A promessa de guardar a igreja de Filadélfia se cumpriu naquele tempo, e não em uma retirada futura.
O mesmo aparece em Mateus 24. Sobre o versículo 9, os discípulos serão odiados por todas as nações, e em nação alguma os filhos do diabo tolerarão os filhos de DeusNotas, Mt 24.9. Sobre o versículo 22, os dias da tribulação são abreviados por causa dos eleitos, isto é, dos cristãos, que estão dentro dela. Sobre o versículo 31, os anjos reúnem os escolhidos, todos os que perseveraram até o fim na fé que atua pelo amorNotas, Mt 24.31, e essa reunião acontece na vinda gloriosa, logo em seguida à tribulação daqueles dias. Sobre o versículo 10, quem conserva fé, amor e esperança até o fim será arrebatado do incêndioNotas, Mt 24.10: arrebatado do fogo, não antes dele.
Comparação
Vale pôr lado a lado o que cada esquema afirma e o que as Notas de Wesley dizem sobre cada ponto.
| Ponto | Pré-tribulacionismo | Pós-tribulacionismo | Wesley nas Notas |
|---|---|---|---|
| Vindas futuras de Cristo | Duas: uma secreta, outra pública | Uma, pública | Uma, gloriosa; ele vem (Ap 1.7); quando vier para o juízo (Hb 9.28) |
| 1Ts 4.17 | Retirada da igreja antes da tribulação | Encontro com Cristo na vinda final | Os ímpios ficam embaixo e os justos, absolvidos, assessoram o Juiz |
| 2Ts 2.1-8 | A reunião precede o anticristo | A reunião segue a apostasia e o homem da iniquidade | A reunião com ele é nas nuvens; o iníquo é destruído com a primeira aparição da glória |
| Mt 24.29-31 | Israel, não a igreja | A igreja, reunida logo após a tribulação | Os escolhidos são todos os que perseveraram até o fim na fé |
| Ap 3.10 | Promessa de retirada futura | Preservação em provação histórica | A perseguição sob Trajano |
| Ap 7.14 | Convertidos durante a tribulação, sem a igreja | Todos os santos, que vêm da aflição | Todas as almas dos justos desde o princípio do mundo |
| Origem | Por volta de 1830, Darby e os Irmãos de Plymouth | A leitura clássica, dos pais da igreja aos reformadores | Wesley (1703-1791) só conhecia esta |
Um esclarecimento faz justiça aos irmãos que pensam diferente. Nem todo pré-milenista é pré-tribulacionista. O chamado pré-milenismo histórico, representado no século 20 por George Eldon Ladd, espera um reinado terreno de mil anos, mas ensina que a igreja passa pela tribulação e que a vinda de Cristo é uma só. O pré-tribulacionismo é específico do dispensacionalismo. A aula 9 vai tratar da diferença entre esses sistemas e do lugar de Wesley diante de cada um.
Avaliação e aplicação
Aqui a concordância entre Wesley e a nossa leitura é total. E a consequência pastoral é grande: uma igreja que espera ser retirada da tribulação não se prepara para ela.
Guardamos com Wesley: Cristo virá uma só vez, de modo visível, e nesse dia ressuscitará os mortos, arrebatará os vivos, julgará a todos e destruirá o iníquo; a reunião com Cristo não pode acontecer antes da apostasia e do homem da iniquidade; a igreja atravessa a tribulação em todas as épocas, preservada por Deus dentro dela e chamada a perseverar até o fim; a ira de que os crentes são livrados é a condenação, não um período do calendário.
Não é preciso rotular de heresia quem crê no arrebatamento secreto. Muitos irmãos sinceros o aprenderam de boa fé, e a diferença não toca o centro do evangelho. Mas é preciso dizer, com clareza, que a doutrina não tem apoio nas Escrituras lidas como Wesley as lia, nem em nenhum mestre da igreja antes do século 19. E é preciso avaliar o que ela faz com uma igreja.
Jesus prometeu aflição no mundo (Jo 16.33) e Paulo ensinou que por muitas tribulações entramos no Reino (At 14.22). Uma pregação que promete retirada antes do sofrimento desarma o povo de Deus. Wesley preparou os metodistas para a perseguição, e eles a enfrentaram.
Não duas vindas, nem duas ressurreições separadas por anos, e sim o dia do Senhor: trombeta, ressurreição, encontro e juízo. É mais simples e é o que os textos dizem.
Quem foi criado com gráficos de sete anos não muda de ideia com uma discussão. Ofereça os textos, as Notas de Wesley e o testemunho da história. E lembre que a esperança comum, a volta de Cristo, é maior do que a divergência.
Fixação
Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Seis questões, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe.
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Para pensar e conversar
Uma pergunta para dentro e outra para a conversa com quem pensa diferente. Cada uma traz uma resposta sugerida.
Comece pela promessa, não pela ameaça. Jesus não disse apenas que teríamos aflição no mundo; disse que ele venceu o mundo (Jo 16.33). Wesley lê Mateus 24.22 como preservação sem arrebatamento celestial: os dias são abreviados por causa dos cristãos, que no ano 70 escaparam pela fuga para Pela, e não por uma retirada da terra. Deus não retira os seus do fogo; guarda-os nele, como fez com os três amigos de Daniel.
Depois, pratique em pequeno o que pode ser exigido em grande. A fidelidade nas pequenas perdas por causa de Cristo, no trabalho, na família, na reputação, é o treino para as grandes. Wesley chama isso, na nota sobre Apocalipse 13.10, de paciência e fidelidade dos santos.
E olhe para cima. A nota sobre Mateus 24.10 diz que quem conserva fé, amor e esperança até o fim será arrebatado do incêndio. A esperança não é escapar da tribulação; é encontrar o Senhor nos ares quando ela terminar, e estar para sempre com ele.
Leia o versículo inteiro com ele. 1Tessalonicenses 5.9 diz que Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo. A ira, ali, se opõe à salvação; é a condenação final, e não um período de anos. Wesley anota que Deus não nos destinou para a ira como destinou os obstinadamente impenitentes. O contraste é entre pessoas, não entre épocas.
Depois, mostre o versículo seguinte, que Wesley também comenta: Cristo morreu por nós para que, quer vigiemos, quer durmamos, vivamos com ele, isto é, estejamos vivos ou mortos na sua vinda. Uma só vinda, para vivos e mortos, e nela os crentes são livrados da ira porque já foram absolvidos.
Por fim, lembre que tribulação e ira não são a mesma coisa. Os santos de Apocalipse 7.14 vêm da grande tribulação, e os de Apocalipse 13.10 suportam o cativeiro e a espada; nenhum deles sofre a ira de Deus. Sofrer pela fé não é ser objeto da ira de Deus; é participar dos sofrimentos de Cristo.
Há razões históricas: o pré-tribulacionismo chegou junto com a Bíblia de Scofield, com missionários que o tinham como certo e, no século 20, com uma literatura popular muito eficiente. Muitos crentes nunca ouviram outra coisa e supõem que sempre foi assim.
Há também uma razão do coração. A promessa de escapar do sofrimento é atraente, e uma pregação que enfatiza o resgate antes da tribulação parece mais consoladora do que a que prepara para perseverar. Mas o consolo bíblico é outro: Cristo conosco na tribulação, e a esperança certa da sua vinda.
A lição para todos nós é a mesma que Wesley praticava: perguntar sempre onde uma doutrina está na Escritura e o que a igreja creu ao longo dos séculos. Uma doutrina que ninguém ensinou por mil e oitocentos anos merece, no mínimo, ser examinada com calma. Este curso oferece o exame; a decisão fica com cada leitor, diante dos textos.
Arrebatamento e tribulação: por que Wesley é pós-tribulacionista · Aula 5 de 11 do curso A Escatologia de John Wesley. Todas as citações desta aula levam ao trecho exato das obras de John Wesley publicadas neste site.