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Vem a hora, comenta Wesley, em que não dois ou três, mas todos ressuscitarãoNotas, Jo 5.28. O versículo 29 distingue os destinos, ressurreição da vida e ressurreição do juízo, e não os tempos.
“Porque é necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade.”1Coríntios 15.53 · NAA
Como ler esta aula. As palavras de Wesley aparecem como links sublinhados em laranja, seguidos da referência convencional entre parênteses (sermão e parágrafo, ou livro e versículo das Notas); o link abre a obra neste site no trecho exato. Os blocos marcados Síntese do curso trazem a leitura e a avaliação do curso; os marcados Nota do editor, esclarecimentos e fontes.
Para começar
A esperança cristã não se reduz à sobrevivência da alma; culmina na ressurreição do corpo. Como Wesley entende isso? Ressuscitaremos com o mesmo corpo? Todos ao mesmo tempo, ou os justos primeiro e os ímpios mil anos depois? E o que muda no corpo ressuscitado?
A ressurreição é o artigo de fé que os pagãos de Atenas riram ao ouvir (At 17.32) e que os saduceus negavam (Lc 20.27). Wesley a defendeu em duas frentes. Na frente filosófica, publicou em 1732 uma versão abreviada de um sermão de Benjamin Calamy, o Sermão 137, Sobre a Ressurreição dos Mortos, para responder à pergunta de 1Coríntios 15.35: como ressuscitam os mortos? Na frente exegética, comentou versículo por versículo 1Coríntios 15, João 5, Lucas 20 e Apocalipse 20, e é aí que a sua doutrina fica mais clara.
Esta aula tem um ponto central que atravessa todo o curso: para Wesley, há uma única ressurreição geral, de justos e ímpios, na vinda de Cristo, imediatamente antes do julgamento. É o ensino central e constante de Wesley. O que não há nas Notas é a sequência pré-milenista: volta de Cristo, ressurreição de todos os justos, reino terreno e, mil anos depois, ressurreição dos ímpios. Os elementos especulativos da sua leitura de Apocalipse 20 ficam registrados na nota histórica da aula 8. Vamos ver isso nos textos, e depois o que ele ensina sobre o corpo que ressuscita.
O ponto decisivo
A nota de Wesley sobre 1Coríntios 15.23 tem uma linha que resolve, sozinha, uma das maiores discussões da escatologia moderna.
Paulo diz que cada um ressuscita na sua ordem: Cristo, as primícias; depois, os que são de Cristo, na sua vinda. Wesley comenta a palavra depois: a colheita inteira. E acrescenta: Ao mesmo tempo ressuscitarão também os ímpios.Notas, 1Co 15.23 Ele explica por que o apóstolo não os menciona: a nota sobre o versículo 20 diz que é da ressurreição dos justos, e somente destes, que o apóstolo fala em todo o capítuloNotas, 1Co 15.20. Os ímpios não estão fora da ressurreição; estão fora do assunto de Paulo naquele capítulo. E ressuscitam ao mesmo tempo.
A nota sobre o versículo 24 confirma a sequência. Então virá o fim significa depois da ressurreição e do juízo geralNotas, 1Co 15.24; o fim do mundo é o grande desfecho de todas aquelas cenas maravilhosas que apareceram por tantas gerações sucessivasNotas, 1Co 15.24. A ordem de Wesley é: vinda de Cristo, ressurreição de todos, juízo geral, fim do mundo. Na vinda, não há intervalo de mil anos entre a ressurreição dos justos e a dos ímpios.
Vem a hora, comenta Wesley, em que não dois ou três, mas todos ressuscitarãoNotas, Jo 5.28. O versículo 29 distingue os destinos, ressurreição da vida e ressurreição do juízo, e não os tempos.
Paulo confessa diante de Félix a esperança de que haverá ressurreição tanto de justos como de injustos. Wesley observa: num tribunal público, era peculiarmente apropriado observar istoNotas, At 24.15.
No dia do grande trono branco, a morte entrega os corpos e o Hades entrega as almas, para se reunirem aos seus corposNotas, Ap 20.13. Depois disso, nem os justos nem os ímpios haveriam de morrer de novoNotas, Ap 20.14.
O Sermão 15 diz o mesmo em forma de pregação. Entre as coisas que precedem o julgamento, Wesley descreve a trombeta que chama todos os que dormem no pó da terra; o mar entregará os mortos que nele estiveremSermão 15, I.1; e conclui: todos os que viveram e morreram desde a criação da humanidade ressuscitarão incorruptíveis e imortaisSermão 15, I.1. Sobre Romanos 8.23, ele situa o reconhecimento público dos filhos de Deus na ressurreição geral, quando o próprio corpo for redimido da morteNotas, Rm 8.23. A ressurreição geral é o cenário do juízo, e o juízo é um só.
Sermão 15 e Notas sobre Romanos 8.23
Identidade
Ressurreição não é a criação de um corpo novo para uma alma velha. É este corpo, o que morreu, que volta a viver, e volta diferente.
O Sermão 137 começa por aí: somente poderá ser considerado ressuscitado aquilo que realmente morreuSermão 137, §1. Se Deus desse à alma um corpo inteiramente novo, isso não seria ressurreição do nosso corpo. Os textos confirmam: este corpo corruptível se revestirá da incorruptibilidade (1Co 15.53); os que estão nos túmulos ouvirão a voz e sairão (Jo 5.28); o Senhor transformará o nosso corpo de humilhação (Fp 3.21). No Sermão 15, Wesley resume: cada pessoa ressuscitará com seu próprio corpo, o mesmo quanto à sua identidade, embora tão transformado em suas qualidades que agora não conseguimos compreendê-loSermão 15, I.1.
O sermão de Calamy gasta muitas páginas provando que Deus pode reunir as partículas dispersas de cada corpo, com a imagem do relojoeiro: o artesão conhece todas as peças do relógio produzido por eleSermão 137, §4. O editor deste site adverte, com razão, que essa teoria pertence à física do século 18 e que a doutrina bíblica da ressurreição não depende de demonstrarmos a recuperação de cada partícula, mas da fidelidade e do poder criador de DeusSermão 137. O que fica de Wesley é a conclusão, e não a mecânica: é suficiente que aquele para quem todas as coisas são possíveis tenha dado sua palavra de que nos ressuscitaráSermão 137, §3.
Uma palavra sobre a linguagem. Calamy fala do corpo como inimigo da alma, e o editor lembra que biblicamente o corpo não é mau em si mesmo: foi criado por Deus, pertence ao Senhor e será redimido. O próprio Wesley corrige o excesso na nota sobre 2Coríntios 5.4: não queremos ser despidos do corpo, e a fé não conhece aquele desprezo filosófico pelo que o sábio Criador deuNotas, 2Co 5.4. A esperança cristã não é fugir do corpo, e sim recebê-lo de volta, glorificado.
1Coríntios 15.42-44
Semeia-se na corrupção, ressuscita na incorrupção; em desonra, em glória; em fraqueza, em poder; corpo natural, corpo espiritual. Wesley expõe as quatro mudanças.
A primeira é a incorruptibilidade. As palavras imortal e incorruptível não significam apenas que não morreremos de novo, pois nesse sentido, diz o sermão, também os condenados seriam imortais e incorruptíveisSermão 137, §5; significam a libertação de todos os males físicos que o pecado trouxe ao mundo. É o que a Escritura chama de redenção do nosso corpo, sua libertação de todas as enfermidadesSermão 137, §5. Um corpo devolvido com as mesmas fraquezas não seria ressurreição para a vida: pareceria mais retorno à morte do que ressurreição para a vidaSermão 137, §5.
A segunda é a glória: os justos resplandecerão como o sol no Reino do Pai (Mt 13.43), e Wesley lembra o rosto de Moisés e o de Estêvão como antecipações. Sobre Filipenses 3.21, o corpo transformado será mais puro do que o firmamento sem mancha, mais brilhante do que o lustre das estrelasNotas, Fp 3.21, e, o que excede toda comparação, semelhante ao corpo glorioso de Cristo. A terceira é o poder. A quarta é a natureza espiritual: sobre 1Coríntios 15.51, este corpo animal se tornará espiritualNotas, 1Co 15.51; sobre o versículo 50, carne e sangue tais como os que agora nos vestem não podem entrar naquele reino que é inteiramente espiritualNotas, 1Co 15.50. Espiritual não quer dizer imaterial; quer dizer um corpo inteiramente governado pelo Espírito e apto para a glória.
Como os anjos
Sobre Mateus 22.30, os ressuscitados são como os anjos, incorruptíveis e imortais: assim se mostra neles o poder de Deus!Notas, Mt 22.30 Sobre Lucas 20.36, são filhos de Deus num sentido mais eminente, quando ressuscitaremNotas, Lc 20.36.
Num momento
Sobre 1Coríntios 15.52, a transformação num abrir e fechar de olhos é obra espantosa da onipotência!Notas, 1Co 15.52 E Wesley pergunta, com o olho no presente: e não pode o mesmo poder transformar-nos agora em santos num momento?Notas, 1Co 15.52
O último inimigo
A ressurreição não é apenas o nosso consolo. É a derrota final do último inimigo, na ordem em que os inimigos prevaleceram.
Sobre 1Coríntios 15.26, Wesley observa a ordem: Satanás introduziu o pecado, e o pecado gerou a morte; Cristo venceu primeiro Satanás, depois o pecado, na sua morte, e por último a morte, na sua ressurreição. E na mesma ordem livra os fiéis: a morte, ele a destrói de tal modo que não existirá maisNotas, 1Co 15.26. Sobre o versículo 54, a morte é totalmente vencida, abolida para sempreNotas, 1Co 15.54. Sobre o versículo 55, a pergunta ao Hades, receptáculo das almas separadas, tem resposta: todos os teus cativos estão em liberdadeNotas, 1Co 15.55.
Sobre Hebreus 2.15, todo homem que teme a morte está sujeito à escravidãoNotas, Hb 2.15, e todo homem que não conhece Cristo teme a morte, mais ou menos; mas ele livra todos os verdadeiros crentes desta escravidãoNotas, Hb 2.15. É a experiência que Wesley viu nos leitos dos metodistas e que registrou no Diário: gente comum morrendo sem medo, porque a ressurreição já estava assegurada pela ressurreição de Cristo.
A esperança é antiga. Sobre Jó 19.25, o Redentor se levantará no dia da ressurreição e juízo gerais, no fim do mundoNotas, Jó 19.25. Sobre Jó 19.27, Jó verá a Deus por estes mesmíssimos olhos, neste mesmo corpo que agora tenhoNotas, Jó 19.27. Sobre Daniel 12.13, o profeta descansará na sepultura e se levantará na ressurreição, para receber a sua herança entre os santosNotas, Dn 12.13. E sobre Isaías 26.19, os que habitam no pó despertarão até mesmo do sono da morteNotas, Is 26.19. Wesley lê a ressurreição como esperança dos dois Testamentos.
Notas sobre Jó 19, Daniel 12 e Isaías 26
A conclusão da nota sobre 1Coríntios 15.58 é uma das mais belas das Notas. Cultivando a santidade em todos os seus ramos, devemos manter esta esperança em toda a sua energia, ansiando pelo dia em que a morte será tragada para sempre e milhões de vozes, depois do longo silêncio da sepultura, irromperão de uma só vez naquele cântico triunfanteNotas, 1Co 15.58: Onde está, ó morte, o teu aguilhão?
Avaliação e aplicação
Nesta aula não há divergência entre Wesley e a nossa leitura. E a doutrina tem consequências muito práticas para como cuidamos do corpo, dos doentes e dos mortos.
Guardamos com Wesley: a ressurreição é do corpo, o mesmo corpo, transformado; é geral, de justos e ímpios, no mesmo momento, na vinda de Cristo; é o cenário do juízo, e não um evento separado dele por mil anos; e é a vitória final sobre a morte, garantida pela ressurreição de Cristo. Deixamos de lado, como o próprio editor do site sugere, a física das partículas do sermão de Calamy.
O ponto sobre a ressurreição geral merece ser guardado para as aulas 8 e 9. O pré-milenismo, em todas as suas formas, precisa de duas ressurreições separadas por um reino terreno de mil anos: todos os justos na vinda de Cristo, os ímpios depois do milênio. Wesley escreve que os ímpios ressuscitam ao mesmo tempo que os que são de Cristo, na sua vinda. Quando alguém lhe disser que Wesley era pré-milenista, comece por essa nota.
Se Deus vai ressuscitar este corpo, ele não é uma casca descartável. Cuidar da saúde, honrar o corpo dos doentes e sepultar os mortos com dignidade são atos de fé na ressurreição.
Não pregue apenas que a alma foi para o céu. Pregue que este corpo, semeado em fraqueza, ressuscitará em poder. É o consolo de 1Tessalonicenses 4 e a esperança de Jó.
Wesley termina a nota sobre 1Coríntios 15.58 ligando a esperança da ressurreição ao cultivo da santidade. Quem espera um corpo glorioso não entrega o atual ao pecado (Rm 6.12-13).
Fixação
Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Seis questões, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe.
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Para pensar e conversar
Uma pergunta para dentro e outra para a conversa com quem pensa diferente. Cada uma traz uma resposta sugerida.
Muitos crentes vivem com uma esperança pela metade: a alma vai para o céu e pronto. Wesley sabia que a alma vai para o paraíso, mas a esperança dele não parava ali. O corpo que ora, trabalha, adoece e cansa será devolvido, glorificado. Paulo diz que gememos aguardando a redenção do nosso corpo (Rm 8.23).
Isso muda três coisas. Muda como olhamos o corpo agora: ele pertence ao Senhor e será redimido, e não é um estorvo. Muda como olhamos a doença e a velhice: são o corpo semeado em fraqueza, à espera do poder. E muda como olhamos a morte de quem amamos: não vemos um fim, vemos uma semeadura (1Co 15.42-44).
Uma prática simples: ao repetir o Credo, pare na frase sobre a ressurreição do corpo e a diga pensando no seu próprio corpo. Wesley diria que é assim que a fé faz o crente viver na eternidade.
Reconheça que a pergunta é antiga: era a dos coríntios (1Co 15.35) e a dos pagãos, e o Sermão 137 a enfrentou com a ciência da época, imaginando Deus a reunir as partículas. Não é preciso repetir esse caminho. O editor deste site lembra que a doutrina não depende de demonstrarmos a recuperação de cada partícula.
Responda com o que Wesley mesmo considera suficiente: aquele para quem todas as coisas são possíveis deu a sua palavra de que nos ressuscitará. O mesmo poder que formou o corpo no ventre, sem que ninguém explique como, pode reconstituí-lo do pó. A identidade da pessoa está guardada em Deus, e não numa contagem de átomos.
E mostre o modelo: Cristo ressuscitou com o mesmo corpo, reconhecível pelas marcas dos cravos, e ao mesmo tempo transformado. A ressurreição dele é a garantia e o padrão da nossa (1Co 15.20; Fp 3.21). Quem crê nisso não precisa resolver a química da sepultura.
A ressurreição do corpo: geral, de justos e ímpios · Aula 6 de 11 do curso A Escatologia de John Wesley. Todas as citações desta aula levam ao trecho exato das obras de John Wesley publicadas neste site.