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Parte I · Capítulo VII

A necessidade da revelação: o estado da moral entre os pagãos

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Se a necessidade de uma revelação pode ser demonstrada a partir das noções confusas, contraditórias e falsas das nações pagãs quanto às principais doutrinas da religião, não com menos força o argumento pode ser desenvolvido a partir do estado da sua moral, tanto no conhecimento quanto na prática.

Esse argumento é simples e evidente. Se a natureza, a extensão e a obrigação das regras morais tinham ficado envoltas em grande equívoco e obscuridade; se o que eles sabiam do certo e do errado carecia de uma sanção e de uma autoridade que não podia receber de seus respectivos sistemas; e se, por falta de princípios religiosos eficazes que lhe fizessem contrapeso, a prática geral se tornara irremediavelmente viciosa; então era necessária uma intervenção direta do Ser Divino para a republicação das regras morais e para que fossem impostas com mais força.

As noções de todos os pagãos civilizados sobre assuntos morais, assim como o seu conhecimento dos primeiros princípios da religião, misturadas como estavam com as suas superstições, provam que ambos derivavam de uma fonte comum. Havia entre eles um acordo substancial em muitas questões de certo e errado; mas os limites que eles mesmos reconheciam não foram mantidos, e a regra foi gradualmente rebaixada ao nível da prática, embora nem sempre a ponto de apagar inteiramente a comunicação original.

Essa é uma consideração importante, porque indica a transmissão tanto da religião quanto da moral a partir do sistema patriarcal, e mostra que tanto as doutrinas primitivas quanto a moral que lhes correspondia receberam cedo sanções cuja força se fez sentir ao longo das eras seguintes. Mostra também que mesmo os pagãos sempre estiveram sob um governo moral. As leis de Deus nunca foram de todo apagadas, embora a prática deles sempre tenha ficado abaixo do seu conhecimento e embora a própria lei tenha sido grande e deliberadamente corrompida pela influência de suas inclinações viciosas.

Este assunto talvez possa ser mais bem ilustrado fazendo referência a alguns dos preceitos da Segunda Tábua, que incorporou, sob uma nova sanção, a moral das eras patriarcais. Todas as nações pagãs tiveram consciência da obrigação desses preceitos; e, no entanto, em todas elas a regra foi pervertida na teoria e violada na prática.

O homicídio foi, em todas as épocas e entre todas as nações pagãs civilizadas, e também na maioria das selvagens, considerado um crime atroz; e, no entanto, a regra foi de tal modo acomodada aos hábitos violentos e ferozes dos homens que encheu de culpa de sangue todas as terras pagãs. O pouco valor dado à vida humana em todos os países pagãos não pode ter escapado à atenção das mentes reflexivas. Eles conheciam a regra; mas pensava-se que apenas o ato em suas formas mais grosseiras e deliberadas a violava. Entre os romanos, homens eram mortos em seus próprios passatempos, obrigados a lutar contra feras e uns contra os outros; e, embora isso às vezes fosse condenado como spectaculum crudele et inhumanum (espetáculo cruel e desumano), a paixão pelo sangue aumentava, e nenhuma guerra jamais causou tão grande matança quanto os combates de gladiadores. De início, eles se limitavam aos funerais de pessoas importantes. O primeiro espetáculo desse gênero exibido em Roma pelos Brutos, por ocasião da morte do pai, consistiu de três pares, mas depois o número cresceu muito. Júlio César apresentou trezentos pares de gladiadores, e o imperador Trajano, dez mil deles, para divertimento do povo. Às vezes essas exibições horríveis, nas quais, como diz Sêneca, homo, sacra res, homo jam per lusum et jocum occiditur (o homem, coisa sagrada, o homem é agora morto por brincadeira e diversão), quando o costume chegou ao auge, privaram a Europa de vinte mil vidas num só mês.1

Isso é ilustrado ainda pelo tratamento dado aos escravos, que compunham parcela tão grande da população dos Estados antigos.2 Eles conheciam e reconheciam o mal do homicídio e tinham leis para puni-lo; mas a essa classe desprezada de seres humanos não estendiam a regra, nem matá-los era considerado homicídio, assim como não o era matar um animal. O senhor tinha poder absoluto de vida, de morte ou de tortura; e por isso as vidas deles eram sacrificadas da maneira mais caprichosa.3

Por meio de vários sofismas, sugeridos por seus vícios, seu egoísmo e sua crueldade, a destruição de crianças também deixou de ser considerada crime em certas circunstâncias. Em muitas nações pagãs era permitido destruir o feto no ventre; estrangular, afogar ou expor os recém-nascidos, especialmente se fossem doentios ou deformados; e aquilo que, nos Estados cristãos, é considerado o mais atroz dos crimes era tido, pela mais célebre das nações pagãs antigas, como um expediente sábio e político para livrar o Estado de membros inúteis ou incômodos, e era até ordenado por alguns de seus mais célebres sábios e legisladores. A mesma prática continua até hoje, numa extensão muito comovente, não só entre pagãos não civilizados, mas também entre os hindus e os chineses.

Essa prática de perverter e restringir o alcance da santa lei de Deus, que lhes fora transmitida, exemplificou-se também no fato de permitirem, ou antes, recomendarem o suicídio.

Sem dúvida, a lei primitiva contra o homicídio condenava também o ódio e a vingança. Nosso Senhor a restituiu ao seu verdadeiro sentido entre os judeus; e que ela era assim entendida até entre os antigos pagãos fica claro por ser às vezes louvado um espírito aplacável e perdoador, e censurado o contrário, por seus sábios, moralistas e poetas. Contudo, não só a regra era violada quase universalmente na prática, mas também era contestada e negada em muitas de suas aplicações pela autoridade de seus homens sábios e doutos; de modo que, até onde chegava a autoridade dos mestres de moral, dava-se pleno campo à satisfação do ódio, da malícia e da vingança insaciável. Uma das qualidades do homem bom descrito por Cícero é que ele não faz mal a ninguém, a não ser que ele mesmo seja ofendido: “Qui nemini nocet, nisi lacessitus injuria“; e ele declara quanto a si mesmo: “Sic ulciscar facinora singula quemadmodum a quibusque sum provocatus: vingarei todas as ofensas, conforme eu for provocado por cada um”; e Aristóteles fala da mansidão como um defeito, porque o homem manso não se vinga, e da vingança como ἀνθρωπικώτερον μᾶλλον, “coisa mais própria de homem”. (Moral. l. 4, c. 11.)

“Não cometa adultério” era outro grande ramo da lei patriarcal, que existia antes do Decálogo, como se vê pela história sagrada. Ele proíbe toda espécie de impureza, em pensamento e em ato, e protege especialmente a santidade do casamento; e não há preceito mais essencial à moral pública e a todo o conjunto das virtudes pessoais, sociais, domésticas e nacionais.

Não é necessário apresentar prova detalhada da violação quase universal, grosseira e habitual dessa lei sagrada em todas as nações pagãs, antigas e modernas, desde os seus primeiros estágios até os crimes παρὰ φύσιν (contra a natureza). Isso é bastante notório a todos os que conhecem a história do mundo pagão antigo e moderno, e ninguém o negará. Basta mostrar que eles tinham a lei e que ela foi enfraquecida e corrompida, de modo a tornar necessária uma republicação.

As leis públicas contra o adultério em quase todos os Estados pagãos, e as censuras dos moralistas e satíricos, provam suficientemente que tal lei era conhecida; e, quanto mais antigos os tempos, mais respeito vemos dado à castidade, e melhor era a prática. Nem só o ato era considerado pecaminoso por alguns de seus moralistas, mas também o pensamento e o desejo, como se pode observar em passagens de escritores gregos e romanos. Mas também quanto a esse vício, como quanto aos outros, a prática rebaixou a regra; e, como a autoridade de um legislador e moralista era neutralizada pela de outro, deu-se licença a uma transgressão sem limites.

O divórcio, antes permitido só em casos de adultério, tornou-se por fim mera questão de capricho, e isso tanto entre judeus quanto entre gentios; e, entre estes últimos, o adultério era interpretado principalmente como a violação da aliança matrimonial apenas pela mulher, ou pelo homem com uma mulher casada, deixando assim ao marido ampla licença para a satisfação viciosa. À prostituição e a vícios semelhantes, legisladores, estadistas, filósofos e moralistas deram a sanção de suas opiniões e de sua prática; e essa mancha imunda do paganismo antigo continua até hoje a marcar a moral dos países pagãos. 4

Na maioria dos Estados civilizados, a própria existência da sociedade e o egoísmo natural do homem levaram à preservação das antigas leis contra o furto e a rapina e à devida execução dos estatutos feitos contra eles; mas também nisso vemos a mesma disposição de corromper a proibição original. Ela não se estendia aos estrangeiros nem aos países estranhos; nem era geralmente interpretada como alcançando algo mais do que atos flagrantes de violência. A usura, a extorsão e a fraude eram vistas antes como atos louváveis do que como coisas que prejudicassem a reputação; e assim continuam a ser estimadas onde quer que o cristianismo não tenha promulgado suas leis autorizadas contra a injustiça em todos os seus graus. Diz-se que em toda a Índia mal existe algo como a honestidade comum.

Outro grande ramo da moral é a verdade; mas quanto à evidente obrigação de dizê-la, encontramos a mesma frouxidão tanto de opinião quanto de prática; e nisso o paganismo apresenta um contraste marcante com o cristianismo, que nos ordena que “cada um fale a verdade com o seu próximo” e anuncia a condenação contra “todo aquele que ama e pratica a mentira”.

Eles sabiam que “tollendum est ex rebus contrahendis omne mendacium (Cic., De Off. l. iii, n. 81), nenhuma mentira se devia usar nos contratos”, e que um homem honesto nada devia fazer nem dizer com falsidade e hipocrisia; mas com mais frequência se afastavam dessa regra do que a prescreviam. A regra de Menandro era: “uma mentira é melhor do que uma verdade prejudicial”. Platão diz que “pode mentir quem sabe fazê-lo no momento oportuno”; e Máximo de Tiro, “que não há nada de decoroso na verdade, a não ser quando ela é proveitosa”; e tanto Platão quanto os estoicos forjam uma distinção jesuítica entre mentir com os lábios e mentir na mente. O engano e a falsidade foram, portanto, o caráter de todas as nações pagãs, e continuam a sê-lo até hoje. Esse é o caráter dos chineses, segundo as melhores autoridades; e dos hindus afirmam os europeus mais respeitáveis, não apenas missionários, mas também os que por muito tempo ocuparam entre eles cargos oficiais, civis e judiciais, que o seu desprezo pela verdade é uniforme e sistemático. Quando descoberta, a mentira não causa surpresa em uma das partes nem humilhação na outra. Mesmo quando têm a verdade para contar, raramente deixam de escorá-la com algumas falsidades acrescentadas. 5

Nem se pode enfraquecer a força do argumento que esses fatos oferecem em favor da necessidade de uma revelação direta da vontade de Deus alegando, o que infelizmente é muito verdadeiro, que onde a revelação cristã é conhecida se observam comumente grandes violações de todas essas regras. Pois, para não insistir na superioridade moral do pior dos Estados cristãos, em todos eles a autoridade e a sanção da religião se voltam contra o vício; ao passo que, entre os pagãos, a sua própria religião, corrompida pela maldade do homem, tornou-se o grande instrumento de incentivo a toda espécie de maldade. Essa circunstância demonstra tão plenamente a necessidade de uma intervenção da parte de Deus para restaurar a verdade no mundo que merece uma consideração particular.

Notas de Richard Watson

1. Embora Cícero, Sêneca e outros tenham condenado essas barbaridades, fizeram-no de maneira tão incidental e indiferente que não produziram efeito algum. Elas foram abolidas pouco depois do estabelecimento do cristianismo, e isso ilustra a admissão do próprio Rousseau: “A filosofia não pode fazer bem algum que a religião não faça ainda melhor; e a religião faz muitos que a filosofia não saberia fazer.” ↩

2. Na 110ª Olimpíada havia em Atenas apenas 21.000 cidadãos e 40.000 escravos. Era comum um cidadão particular de Roma ter dez ou vinte mil. (Taylor, Civil Law.) ↩

3. Os jovens de Esparta tinham frequentemente por passatempo ficar de emboscada à noite à espera dos escravos, lançar-se de punhal na mão sobre todo hilota que se aproximasse e assassiná-lo a sangue-frio. Os éforos, logo que entravam no cargo, declaravam-lhes guerra formalmente, para que houvesse uma aparência de destruí-los legalmente. Védio Polião costumava, quando seus escravos cometiam uma falta, às vezes muito insignificante, mandar lançá-los em seus viveiros de peixes, para alimentar as suas moreias. Era costume constante, como sabemos por Tácito (Annal. xiv, 43), quando um senhor era assassinado em sua própria casa, matar todos os escravos indiscriminadamente. Para um relato justo e comovente da condição dos escravos nos Estados antigos, veja-se Porteus, Beneficial Effects of Christianity. ↩

4. Terêncio diz da simples fornicação: “Non est scelus, adolescentulum scortari flagitium est” (não é crime; um rapaz frequentar prostitutas é uma falta) [N. do T.: assim no original; o verso de Terêncio (Adelphoe, 101) diz “non est flagitium, mihi crede, adulescentulum scortari”, isto é, “não é vergonha, acredita, um rapaz frequentar prostitutas”]. Os espartanos, por um princípio das instituições de Licurgo que se sobrepôs às suas antigas opiniões sobre o assunto, permitiam o adultério da esposa em certos casos prescritos; e Plutarco, em sua Vida de Licurgo, ao mencionar essas leis, elogia-as como feitas φυσικῶς καὶ πολιτικῶς, “de acordo com a natureza e a ordem política”. Calicrátidas, o pitagórico, diz à esposa que ela deve suportar as irregularidades do marido, visto que a lei permite isso ao homem e não à mulher. Plutarco fala no mesmo sentido em vários lugares de seus escritos. Por outro lado, alguns dos filósofos condenavam o adultério; e em muitos lugares ele era punido na mulher com a morte, no homem com a infâmia. Ainda assim, porém, pode-se observar por toda parte a mesma vacilação de juízo e as mesmas restrições daquilo que eles às vezes confessam ser a regra e o costume antigos; mas, até onde chegava a autoridade dos filósofos, ela estava principalmente do lado da prática viciosa. ↩

5. “É ocupação de todos”, diz Sir John Shore, “desde o ryot até o dewan, ocultar e enganar. Os fatos mais simples são propositalmente cobertos com um véu que nenhum entendimento humano consegue penetrar.” A prevalência do perjúrio é tão universal que deixa os juízes em extrema perplexidade. “Os homens honestos”, diz o Sr. Strachey, “tanto quanto os patifes, cometem perjúrio. Mesmo quando os fatos reais bastam para condenar o réu, as testemunhas contra ele precisam acrescentar outros, muitas vezes notoriamente falsos ou totalmente incríveis, tais que na Europa invalidariam por completo o seu testemunho.” [N. do T.: ryot, camponês lavrador; dewan, alto funcionário da administração na Índia.] ↩

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Richard Watson, Theological Institutes; or, A View of the Evidences, Doctrines, Morals, and Institutions of Christianity (Londres, 1823-1829), conferido com a edição de Nova York (Lane & Scott, 1850-1851). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).