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Parte II · Capítulo I

A existência de Deus

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Estabelecida a autoridade divina dos escritos que os cristãos recebem como revelação de verdade infalível, o nosso passo seguinte é examinar o seu conteúdo com seriedade e simplicidade de espírito, e colher deles a ampla informação sobre assuntos religiosos e morais que eles professam conter e na qual se tornara necessário que o mundo fosse instruído sobrenaturalmente. De acordo com um princípio já estabelecido, procurarei, como no caso de qualquer outro documento, expor o seu sentido pela aplicação das regras simples de interpretação que foram estabelecidas para esse fim pelo consenso comum da parte sensata da humanidade. Recorrerei, porém, a todo o auxílio que estiver ao meu alcance de críticos, comentaristas e teólogos; pois, embora a água só possa ser tirada pura da própria fonte sagrada, devemos a muitos desses guias o fato de nos terem indicado com êxito as aberturas por onde ela brota e de nos terem conduzido à profundidade da corrente.

A doutrina que a primeira frase desta revelação divina apresenta é que existe um Deus, o Criador dos céus e da terra; e, como isso é fundamental para todo o sistema de dever, promessa e esperança que os livros da Escritura sucessivamente desdobram e explicam, merece a nossa primeira consideração.

De três modos distintos os escritores sagrados nos fornecem informação sobre este grande e essencial assunto, a existência e o caráter de Deus: pelos nomes com que ele é designado; pelas ações que lhe são atribuídas; e pelos atributos com que ele é revestido em suas invocações e louvores, e naquelas elevadas descrições de sua natureza que, sob a inspiração do Espírito Santo, eles registraram para a instrução do mundo. Esses atributos serão considerados em particular mais adiante; mas a impressão da visão geral do caráter divino, tal como assim revelado, é importante demais para ser omitida.

Os nomes de Deus registrados na Escritura transmitem de imediato ideias de grandeza e glória avassaladoras, misturadas com aquele mistério reverente de que, para todas as mentes finitas, e especialmente para as mentes dos mortais, a essência divina e o seu modo de existência devem estar sempre revestidos. Embora um, ele é אלהים, Elohim, Deuses, pessoas adoráveis. Ele é יהוה, Jeová, o que existe por si mesmo; אל, El, o forte, o poderoso; אהיה, Ehieh, Eu sou, Eu serei: existência por si mesmo, independência, toda-suficiência, imutabilidade, eternidade; שדי, Shaddai, o todo-poderoso, o todo-suficiente; אדן, Adon, sustentador, Senhor, Juiz. Esses estão entre os nomes adoráveis de Deus espalhados por toda a revelação que ele se agradou de fazer de si mesmo. Mas, numa ocasião, ele se agradou de declarar mais particularmente “o seu nome”, isto é, as qualidades e os atributos da natureza divina que mais interessa aos mortais conhecer, e de revelar não só os seus atributos naturais, mas também aqueles atributos morais pelos quais se regula a sua conduta para com as suas criaturas. “O Senhor passou diante de Moisés e proclamou: O Senhor! O Senhor Deus compassivo e bondoso, tardio em irar-se e grande em misericórdia e fidelidade; que guarda a misericórdia em mil gerações, que perdoa a maldade, a transgressão e o pecado, ainda que não inocente o culpado, e visita a iniquidade dos pais nos filhos e nos filhos dos filhos, até a terceira e quarta geração!” (Êx 34.6-7). Essa é a descrição mais ampla e particular do caráter de Deus dada por ele mesmo nos registros sagrados; e o significado dos vários títulos pelos quais ele, em sua infinita condescendência, assim se manifestou foi exposto deste modo. Ele não é apenas Jeová, o que existe por si mesmo, e El, o Deus forte ou poderoso; mas é “רחום, Rochum, o ser misericordioso, cheio de ternura e compaixão; חנון, Chanun, o gracioso, aquele cuja natureza é a própria bondade, o Deus amoroso; ארך אפים, Erec Apayim, longânimo, o ser que, por causa de sua ternura, não se irrita facilmente, mas é paciente e benigno; רב, Rab, o grande ou poderoso; חסד, Chesed, o ser generoso, aquele que é exuberante em sua beneficência; אמת, Emeth, a verdade, ou o verdadeiro, o único que não pode enganar nem ser enganado; נצר חסד, Notser Chesed, o que conserva a generosidade, aquele cuja beneficência nunca acaba, que guarda a misericórdia por milhares de gerações e mostra compaixão e misericórdia enquanto durar o mundo; נשא עון ופשע וחטאה, Nose avon vapesha vechataah, aquele que tira a iniquidade, a transgressão e o pecado; propriamente o Redentor, o Perdoador, aquele que perdoa, o ser cuja prerrogativa é perdoar o pecado e salvar a alma; נקה לא ינקה, Nakeh lo yinnakeh, o Juiz justo, que distribui a justiça com mão imparcial; e פקד עון, Paked avon etc., aquele que visita a iniquidade, que pune os transgressores e de cuja justiça nenhum pecador pode escapar: o Deus da justiça retributiva e vingadora” (Dr. A. Clarke, in loc.).

O segundo meio pelo qual as Escrituras nos transmitem o conhecimento de Deus são as ações que elas lhe atribuem. Elas contêm, de fato, o importante registro do trato de Deus com os homens em todas as épocas compreendidas no limite da história sagrada; e, por declaração profética, exibem também os princípios pelos quais ele governará o mundo até o fim dos tempos. Desse modo, todo o curso da administração divina pode ser considerado um comentário singularmente ilustrativo daqueles atributos de sua natureza que, em forma abstrata, estão contidos em declarações como as que acabamos de citar. O primeiro ato atribuído a Deus é o de criar os céus e a terra do nada, e de, só pela sua ordem, dispor as suas partes e povoá-las de criaturas vivas. Com isso se manifestaram: a sua eternidade e existência por si mesmo, pois aquele que cria deve existir antes de todas as criaturas, e aquele que dá o ser aos outros não pode recebê-lo de ninguém; o seu poder onipotente, mostrado tanto no ato da criação como no número e na vastidão dos objetos assim produzidos; a sua sabedoria, na disposição deles e na sua adequação aos respectivos fins; e a sua bondade, visto que o todo tendia à felicidade dos seres sensíveis. Os fundamentos do seu governo natural e moral também se manifestam pelos seus atos criadores. Sobre aquilo que fez do nada, ele tinha direito e prerrogativa absolutos de ordenar e dispor; de modo que alterar ou destruir a sua própria obra e prescrever as leis pelas quais a parte inteligente e racional de suas criaturas deveria ser governada são direitos que ninguém pode questionar. Assim se estabelece, por um lado, o seu caráter de Senhor ou Governante e, por outro, o nosso dever de humilde homenagem e absoluta obediência.

De acordo com isso, logo que o homem foi criado, foi colocado sob uma regra de conduta. A obediência seria seguida pela continuidade do favor divino; a transgressão, pela morte. O acontecimento suscitou novas manifestações do caráter de Deus: a sua terna misericórdia, na compaixão mostrada ao casal caído; a sua justiça, ao perdoá-los somente em vista de uma satisfação a ser oferecida mais tarde à sua justiça por um representante inocente da raça pecadora; o seu amor a essa raça, ao dar o seu próprio Filho para tornar-se esse Redentor e, na plenitude dos tempos, morrer pelos pecados do mundo inteiro; e a sua santidade, ao ligar a essa provisão para o perdão do homem os meios de restaurá-lo a um estado sem pecado e à imagem de Deus, apagada, na qual ele fora criado. Exemplos da misericórdia divina são traçados de época em época: no estabelecimento do seu próprio culto entre os homens e na remissão do castigo de ofensas individuais e nacionais em resposta à oração feita por corações arrependidos, na dependência do sacrifício universal, prefigurado ou efetivamente oferecido. Exemplos da sua condescendência: em descer aos casos dos indivíduos; em suas dispensações tanto da providência como da graça, mostrando consideração pelos pobres e humildes; e, principalmente, pela encarnação de Deus na forma de servo, admitindo os homens a uma convivência familiar e amigável consigo mesmo e entrando depois no céu para ser o seu patrono e advogado, até que eles sejam recebidos na mesma glória “e, assim, estejam para sempre com o Senhor” (1Ts 4.17). Exemplos do seu governo estritamente justo: na destruição do mundo antigo, das cidades da planície, das nações de Canaã e de todos os estados antigos, quando “encheram a medida de suas iniquidades”; e, para mostrar que ele “não inocenta o culpado”, nos numerosos e severos castigos infligidos até à descendência escolhida de Abraão por causa de suas transgressões. Exemplos da sua longanimidade: nas frequentes advertências, demoras e juízos corretivos infligidos a indivíduos e nações antes da sentença de extirpação e destruição completas. Exemplos da sua fidelidade e verdade: no cumprimento das promessas, muitas vezes muitas gerações depois de terem sido feitas, como nas promessas a Abraão sobre a posse da terra de Canaã pela sua descendência, e em todas as “promessas feitas aos pais” a respeito da vinda, da morte vicária e dos ilustres ofícios do Cristo, o Salvador do mundo. Exemplos da sua imutabilidade: nas leis e nos princípios constantes e invariáveis do seu governo, que permanecem até hoje exatamente os mesmos, em tudo o que é universal, como quando foram promulgados pela primeira vez, e que têm sido a regra de sua conduta em todos os lugares, assim como em todos os tempos. Exemplos da sua presciência dos acontecimentos futuros, manifestada pelas predições da Escritura; e da profundidade e estabilidade do seu conselho, ilustrado naquele plano e propósito de trazer de volta um mundo rebelado à obediência e à felicidade, que vemos constantemente mantido em vista na história bíblica dos atos de Deus nas épocas passadas; que ainda é o fim para o qual se inclinam todas as suas dispensações, por mais amplo e misterioso que seja o seu curso; e que elas finalmente realizarão, como aprendemos da história profética do futuro contida no Antigo e no Novo Testamento.

Assim, o curso da operação divina no mundo tem sido, de época em época, uma manifestação do caráter divino, recebendo continuamente ilustrações novas e mais fortes até a conclusão da revelação cristã pelo ministério de Cristo e de seus seguidores inspirados, e colocando-se ainda sob luz mais clara e em aspectos mais impressionantes à medida que o plano da redenção humana avança para a sua consumação. Por todos os atos de Deus registrados nas Escrituras, aprendemos que só ele é Deus; que está presente em toda parte para sustentar e governar todas as coisas; que a sua sabedoria é infinita, o seu conselho firme e o seu poder irresistível; que ele é santo, justo e bom; o Senhor e o Juiz, mas também o Pai e o Amigo do homem.

Aprendemos mais amplamente o que Deus é pelas declarações dos escritos inspirados.

Quanto à sua substância, que “Deus é Espírito” (Jo 4.24). Quanto à sua duração, que “de eternidade a eternidade” ele é Deus (Sl 90.2), “o Rei eterno, imortal, invisível” (1Tm 1.17). Que, depois de todas as manifestações que fez de si mesmo, ele é, pela infinita perfeição e glória de sua natureza, incompreensível: “Eis que isto são apenas as bordas dos seus caminhos! Dele temos ouvido apenas um leve sussurro!” (Jó 26.14); “Quanto ao Todo-Poderoso, não o podemos compreender” (Jó 37.23). Que ele é imutável, “o Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança” (Tg 1.17). Que nele está “a fonte da vida” (Sl 36.9), e que ele é o único ser independente do universo, “o único que possui imortalidade” (1Tm 6.16). Que todo outro ser, por mais elevado que seja, recebe dele a existência: “Pois nele foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis” (Cl 1.16). Que a existência de todas as coisas é sustentada por ele, e nenhuma criatura é por um momento sequer independente do seu amparo: “Nele tudo subsiste” (Cl 1.17), “sustentando todas as coisas pela sua palavra poderosa” (Hb 1.3). Que ele é onipresente: “Não encho eu os céus e a terra?, diz o Senhor” (Jr 23.24). Que ele é onisciente: “todas as coisas estão descobertas e expostas aos olhos daquele a quem temos de prestar contas” (Hb 4.13). Que ele é o Senhor absoluto e o dono de todas as coisas: “Os céus, e até os céus dos céus, são teus, com todas as suas partes” (cf. Dt 10.14); “Tua é a terra e a sua plenitude, o mundo e os que nele habitam” (cf. Sl 24.1; 89.11); “Ele faz o que quer com o exército do céu e com os moradores da terra” (Dn 4.35). Que a sua providência se estende aos objetos mais ínfimos: “até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados” (Mt 10.30); “Não se vendem dois pardais por uma moedinha? Entretanto, nenhum deles cairá no chão sem o consentimento do Pai de vocês” (Mt 10.29). Que ele é um ser de pureza imaculada e perfeita retidão: “Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos!” (Is 6.3); “Deus é fidelidade, e nele não há injustiça” (Dt 32.4); “tão puro de olhos, que não pode suportar o mal” (Hc 1.13). Que ele é justo na administração do seu governo: “Será que o Juiz de toda a terra não faria justiça?” (Gn 18.25); “Nuvens e escuridão o rodeiam, justiça e juízo são a base do seu trono” (Sl 97.2). Que a sua sabedoria é insondável:

“Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão inexplicáveis são os seus juízos, e quão insondáveis são os seus caminhos!” (Rm 11.33). E, finalmente, que ele é bom e misericordioso: “Tu és bom, e a tua misericórdia dura para sempre” (cf. Sl 119.68; 106.1); “as suas misericórdias permeiam todas as suas obras” (Sl 145.9); “Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossas transgressões, nos deu vida juntamente com Cristo” (Ef 2.4-5); “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não levando em conta os pecados dos seres humanos” (2Co 5.19); “Deus nos deu a vida eterna, e esta vida está no seu Filho” (1Jo 5.11).

É sob essas visões profundamente reverentes, mas consoladoras, que as Escrituras nos apresentam o objeto supremo do nosso culto e da nossa confiança, detendo-se em cada um dos pontos acima com inimitável sublimidade e beleza de linguagem e com inesgotável variedade de ilustrações. Nem podemos comparar essas visões da natureza divina com as concepções dos mais esclarecidos dentre os pagãos sem sentir quanta razão temos para eterna gratidão por nos ter sido feita uma revelação tão explícita e tão abrangente sobre um assunto que só uma revelação do próprio Deus poderia ter dado a conhecer. É assim que os filósofos cristãos, mesmo quando não usam a linguagem das Escrituras, são capazes de falar dessa grande e misteriosa doutrina com linguagem tão clara e concepções tão nobres; e, além disso, de maneira tão uniforme, tão diferente dos sábios da Antiguidade, que, se em algum momento se aproximam da verdade ao falar da natureza divina, nunca deixam de misturar-lhe alguma concepção essencialmente errônea ou rasteira. “Pela palavra Deus“, diz o dr. Barrow, “entendemos um ser de infinita sabedoria, bondade e poder, o criador e o governante de todas as coisas, a quem pertencem os grandes atributos da eternidade e da independência, da onisciência e da imensidade, da perfeita santidade e pureza, da perfeita justiça e veracidade, da completa felicidade, da gloriosa majestade e do supremo direito de domínio, e a quem são devidas a mais alta veneração e a mais profunda submissão e obediência” (Barrow, on the Creed). “A nossa noção da Divindade”, diz o bispo Pearson, “significa expressamente um ser ou natureza de infinita perfeição; e a infinita perfeição de um ser ou natureza consiste nisto: que seja absoluta e essencialmente necessário; um ser atual por si mesmo, e potencial ou causador de todos os seres além de si mesmo; independente de qualquer outro, do qual todas as demais coisas dependem e pelo qual todas as demais coisas são governadas” (Pearson, on the Creed). “Deus é um ser, e não um ser de qualquer tipo, mas uma substância, que é o fundamento dos outros seres. E não só uma substância, mas perfeita. Muitos seres, porém, são perfeitos em sua espécie, e ainda assim limitados e finitos. Mas Deus é absoluta, plena e infinitamente perfeito em todos os sentidos; e, portanto, está acima dos espíritos, acima dos anjos, que são perfeitos comparativamente. A infinita perfeição de Deus inclui todos os atributos, mesmo os mais excelentes. Exclui toda dependência, existência emprestada, composição, corrupção, mortalidade, contingência, ignorância, injustiça, fraqueza, miséria e quaisquer imperfeições. Inclui necessidade de ser, independência, perfeita unidade, simplicidade, imensidade, eternidade, imortalidade; a mais perfeita vida, conhecimento, sabedoria, integridade, poder, glória, bem-aventurança, e tudo isso no mais alto grau. Não podemos penetrar nos segredos desse ser eterno. A nossa razão compreende pouco dele; e, quando não consegue ir além, entra a fé, e cremos muito mais do que podemos entender. E essa nossa crença não é contrária à razão, mas a própria razão nos dita que devemos crer muito mais a respeito de Deus do que ela pode nos informar” (Lawson, Theo-Politica). A estes podemos acrescentar uma passagem admirável de Sir Isaac Newton: “A palavra Deus frequentemente significa Senhor; mas nem todo senhor é Deus. É o domínio de um ser espiritual, ou Senhor, que constitui Deus: verdadeiro domínio, verdadeiro Deus; domínio supremo, o Deus supremo; domínio fingido, o falso Deus. De tal verdadeiro domínio segue-se que o verdadeiro Deus é vivo, inteligente e poderoso; e, de suas outras perfeições, que é supremo, ou supremamente perfeito. Ele é eterno e infinito, onipotente e onisciente; isto é, dura de eternidade a eternidade e está presente de infinito a infinito. Governa todas as coisas que existem e conhece todas as coisas que podem ser conhecidas. Ele não é a eternidade ou a infinitude, mas é eterno e infinito; não é a duração ou o espaço, mas dura e está presente. Dura sempre e está presente em toda parte; é onipresente não só virtualmente, mas também substancialmente, pois o poder não pode subsistir sem substância. Todas as coisas estão contidas nele e nele se movem, mas sem nenhuma afetação mútua: ele nada sofre com os movimentos dos corpos, nem estes sofrem resistência alguma de sua onipresença. Reconhece-se que Deus existe necessariamente, e pela mesma necessidade existe sempre e em toda parte. Daí também que ele deve ser inteiramente semelhante a si mesmo, todo olho, todo ouvido, todo braço, todo o poder de perceber, entender e agir; mas de uma maneira de modo algum corpórea, de uma maneira diferente da dos homens, de uma maneira que nos é inteiramente desconhecida. Ele é destituído de todo corpo e de toda forma corporal; por isso não pode ser visto, ouvido ou tocado, nem deve ser adorado sob a representação de qualquer coisa corpórea. Temos ideias dos atributos de Deus, mas não conhecemos a substância de coisa alguma. Vemos apenas as figuras e as cores dos corpos, ouvimos apenas sons, tocamos apenas as superfícies exteriores, cheiramos apenas odores e provamos sabores; e não conhecemos, nem podemos conhecer, por nenhum sentido ou ato de reflexão, as suas substâncias interiores. Muito menos podemos ter alguma noção da substância de Deus. Nós o conhecemos pelas suas propriedades e atributos.”

É digno de nota que nem Moisés, o primeiro dos escritores inspirados, nem nenhum dos autores dos livros canônicos seguintes entra em qualquer prova deste primeiro princípio da religião, de que existe um Deus. Todos o pressupõem como verdade comumente conhecida e admitida. Não há, de fato, no volume sagrado nenhuma alusão à existência de opiniões ateístas senão alguns séculos depois de Moisés, e mesmo então não está muito claro se se fala de ateísmo especulativo ou prático. Desse fato aprendemos que, antes do tempo de Moisés, a ideia de um só Deus supremo e infinitamente perfeito era familiar aos homens; que ela lhes descera desde as épocas mais remotas; e também que era uma verdade de revelação original, e não uma verdade que os sábios dos tempos anteriores tivessem elaborado por investigação e dedução racionais. Se assim fosse, poderíamos esperar alguma indicação disso. Se as visões de Deus encontradas no Pentateuco tivessem sido descobertas pelas sucessivas investigações de homens sábios entre os antigos, Moisés teria assinalado o progresso dessa maravilhosa descoberta; ou, se um só homem tivesse demonstrado essa verdade por suas pesquisas pessoais, teria feito alguma menção agradecida de tão grande sábio, de tão célebre mestre moral. Além disso, uma verdade tão essencial a todo o sistema mosaico, e sobre a qual repousava a sua própria autoridade oficial, se tivesse se originado de uma investigação humana bem-sucedida, pareceria exigir naturalmente a exposição dos argumentos pelos quais fora demonstrada, como introdução adequada a um livro em que ele professava registrar revelações recebidas desse ser recém-descoberto e impor leis promulgadas por sua ordem. Nada disso é tentado; e o historiador e legislador sagrado passa imediatamente a narrar os atos de Deus e a declarar a sua vontade. A história que ele escreveu, porém, fornece a razão pela qual se julgou desnecessário introduzir uma prova formal da existência de um só Deus verdadeiro. O primeiro homem, somos informados, conhecia a Deus não só pelas suas obras, mas por manifestação sensível e conversação; as mesmas aparições divinas foram feitas a Noé, a Abraão, a Isaque, a Jacó; e, quando Moisés escreveu, ainda viviam pessoas que tinham conversado com aqueles que conversaram com Deus, ou que descendiam das mesmas famílias às quais Deus, “muitas vezes” (Hb 1.1), aparecera em glória visível ou em forma angélica. Essas manifestações divinas eram também de notoriedade pública entre as famílias primitivas da humanidade; delas a tradição foi transmitida aos seus descendentes; e a ideia, uma vez comunicada, era confirmada por todos os objetos naturais que eles viam ao seu redor. Ela persistiu mesmo depois da introdução da idolatria e nunca, exceto entre os mais ignorantes dos pagãos, foi apagada até hoje pelas superstições politeístas. Foi assim que o conhecimento de Deus foi comunicado ao mundo antigo. Nenhuma descoberta dessa verdade, nem no tempo de Moisés nem em qualquer época anterior, foi feita pela pesquisa humana; por isso nem a data nem o processo dela podiam ser indicados em seus escritos; e teria sido frívolo levantar uma questão que já estava tão plenamente resolvida e tentar provar uma doutrina universalmente aceita. A ideia de que a noção de uma Causa Primeira suprema foi obtida no princípio pelo exercício da razão é, assim, contrariada pelos fatos de que o primeiro homem recebeu o conhecimento de Deus por conversação sensível com ele, e de que essa doutrina foi transmitida, com a confirmação de sucessivas manifestações visíveis, aos primeiros antepassados de todas as nações. Se a descoberta da simples verdade da existência de uma Causa Primeira está ao alcance das faculdades humanas é, portanto, um ponto que não pode ser decidido pelos fatos, porque se pode provar que as nações que reconheceram essa doutrina tiveram origem num tronco comum, residente na parte do mundo em que as revelações primitivas foram dadas. Elas nunca estiveram, portanto, em circunstâncias em que se pudesse fazer tal experiência sobre o poder ou a fraqueza da mente humana. Entre algumas tribos não civilizadas, como os hotentotes da África e os aborígines da Nova Gales do Sul, a ideia de um Ser Supremo está provavelmente apagada por completo; restam, porém, algumas noções de existências espirituais, superiores em poder ao homem e dotadas de poderes criadores e destruidores, que tendem naturalmente àquela linha de reflexão que, em mentes mais bem instruídas, resulta na apreensão de uma Inteligência suprema e divina. Mas não se conhece nenhum caso em que o conhecimento de Deus tenha sido recuperado dessa maneira, ou por qualquer outro meio que se originasse neles mesmos. Se lhes foi restituído, foi pela instrução de outros, e não pela investigação racional de mentes superiores em suas próprias tribos. Onde quer que tenha havido cultivo mental suficiente para despertar o exercício da faculdade racional na busca da verdade espiritual e moral, a ideia de uma Causa Primeira já era conhecida antes; onde quer que essa ideia tenha sido totalmente apagada, as faculdades intelectuais do homem não estavam em exercício, e nenhuma curiosidade sobre tais especulações tinha sido despertada. Os fatos, portanto, não sustentam a noção de que a existência de Deus pode ser descoberta pelas faculdades do homem sem auxílio; e há, a meu ver, razão muito tênue para admitir a probabilidade abstrata disso.

Um número suficiente de fatos, evidentes à observação mais superficial, mostra que, sem algum grau de educação, o homem é inteiramente criatura do apetite. O trabalho, os banquetes e o sono dividem o seu tempo e ocupam por completo os seus pensamentos. Se, portanto, supusermos que uma Causa Primeira possa ser descoberta pela investigação humana, devemos procurar os exemplos entre um povo cuja civilização e cultura intelectual tenham despertado a mente de seu torpor e lhe dado interesse pela verdade abstrata e filosófica; pois, para um povo em tais circunstâncias que jamais tenha ouvido falar de Deus, a questão da existência de uma Causa Primeira só pode ser de pura filosofia. Os motivos religiosos, sejam de esperança, sejam de temor, não têm influência onde não existe religião, e aqui se supõe que o seu primeiríssimo princípio ainda não foi descoberto. Antes, portanto, de podermos conceber que a mente humana tenha chegado a um estado de atividade suficientemente enérgico e curioso para sequer começar tal investigação, temos de supor um progresso gradual do estado incivilizado para um estado de cultivo civil e científico, e isso sem religião de espécie alguma; sem controle moral; sem princípios de justiça, exceto os que porventura tenham sido lentamente elaborados a partir das relações que dizem respeito aos interesses mais grosseiros dos homens, se é que mesmo esses são possíveis; sem consciência; sem esperança ou temor de outra vida. Ninguém negará que nenhuma sociedade de homens civilizados jamais se constituiu em tais circunstâncias. E que seja possível elevar um conjunto de homens àquele grau de aperfeiçoamento civil que despertaria a paixão pela investigação filosófica sem o auxílio da religião (a qual, mesmo em suas formas mais baixas de superstição, admite, de modo defeituoso, o que está implicado na existência de Deus, isto é, um poder superior, criador, governante e destruidor), é algo que não pode ter prova alguma e é contradito por todos os fatos e analogias que conhecemos. Sob a influência e o controle da religião foram até hoje formados e mantidos todos os Estados, antigos e modernos. Ela entrou essencialmente em todas as suas instituições legislativas e de governo; e o ateísmo é tão obviamente dissolvente da vida social que até os ateus filósofos da Grécia e de Roma o restringiram à sua doutrina esotérica e foram tão zelosos quanto os demais em manter a religião pública como freio sobre a multidão. Sem ela, discerniam com bastante clareza, as leis humanas e os motivos meramente humanos seriam totalmente ineficazes para impedir aquela satisfação egoísta das paixões, das inimizades e da cobiça dos homens, que despedaçaria toda comunidade em seus fragmentos originais e armaria cada homem contra o seu semelhante.

Disso podemos concluir que o homem sem religião não pode existir naquele estado de civilidade e cultivo em que as suas faculdades intelectuais estão dispostas a uma investigação capaz de conduzi-lo ao conhecimento de Deus, ou são capazes dela; e que, como mero bárbaro, ele estaria inteiramente ocupado com a satisfação de seus apetites ou com a sua preguiça. Se, no entanto, supusermos possível que aqueles que não tinham nenhum conhecimento prévio de Deus, ou de poderes superiores invisíveis, pudessem ser levados aos hábitos da vida civil e ocupar-se na busca de conhecimentos diversos (o que, aliás, é em si mesmo muito inacreditável), ainda restaria a pergunta se, não lhes tendo sido sugerida pela tradição ou pela instrução nenhuma ideia da existência de seres espirituais superiores, ou de um Criador ou Governante supremo, tal verdade estaria ao alcance do homem, mesmo de forma imperfeita. Já vimos que uma verdade pode parecer extremamente simples, importante e evidente depois de conhecida, e por isso a sua demonstração pode ser considerada fácil, embora tenha sido o resultado de muita pesquisa prévia da parte de quem a descobriu. (Veja-se a parte I, cap. IV.) A abundante prova racional da existência de Deus, que agora pode ser reunida com tanta facilidade e que é tão convincente, não é, portanto, prova alguma de que, sem instrução vinda do céu, a mente humana jamais teria feito a descoberta. “Deus é o único caminho para si mesmo; ele não pode, de modo nenhum, ser alcançado, definido ou demonstrado pela razão humana; pois onde o investigador fixaria o seu ponto de partida? Ele tem de procurar algo que não sabe o que é; uma natureza sem propriedades conhecidas; um ser sem nome. É impossível a tal pessoa declarar ou imaginar o que é aquilo sobre o que discorreria ou que investigaria; uma natureza da qual não tem a menor noção; um assunto do qual não tem o menor vislumbre, no todo ou em parte; que ele deve separar de toda dúvida, incoerência e erro; ele deve demonstrar sem um único princípio conhecido ou seguro em que se fundar, e tirar certas conclusões necessárias sobre as quais apoiar o seu juízo, sem o menor conhecimento de um único termo ou proposição em que firmar o seu procedimento; e, portanto, nunca pode saber se a sua conclusão é consequente ou não consequente, verdade ou falsidade, o que, na ciência, é exatamente o mesmo que, na arquitetura, erguer um edifício sem alicerce.” (Ellis, Knowledge of Divine Things.)

“Suponha-se uma pessoa cujas faculdades de argumentação estejam aperfeiçoadas ao mais alto grau da capacidade humana, mas que não tenha recebido nenhuma ideia de Deus por meio de revelação alguma, seja pela tradição, pela Escritura ou pela inspiração: como há de convencer-se de que Deus existe, e de onde há de aprender o que Deus é? Aquilo de que ainda nada sabe não pode ser objeto de seu pensamento, de seus raciocínios ou de sua conversa. Ele não pode afirmar nem negar enquanto não souber o que deve ser afirmado ou negado.

De onde, pois, há de o nosso filósofo adivinhar, em primeiro lugar, a sua ideia do Ser infinito, sobre a realidade de cuja existência ele há de decidir, em segundo lugar?” (Hare, Preservative against Socinianism.)

“Será que um único indivíduo, ou mesmo um único casal da raça humana, ou ainda vários casais de seres como nós, se caídos das mãos de seu Criador no solo e no clima mais amenos deste globo, sem uma única ideia ou noção gravada em suas mentes, chegariam algum dia a pensar em empreender tal investigação? Ou, por mais curto e simples que seja o processo de investigação, seriam capazes de conduzi-lo, caso de algum modo lhes ocorresse? Nenhum homem que tenha dado a devida atenção aos meios pelos quais todas as nossas ideias dos objetos externos são introduzidas em nossa mente por intermédio dos sentidos, ou ao processo ainda mais refinado pelo qual, refletindo sobre o que se passa em nossa própria mente quando combinamos ou analisamos essas ideias, adquirimos os rudimentos de todo o nosso conhecimento dos objetos intelectuais, alegará que o fariam. Os esforços do intelecto necessários para descobrir uma verdade desconhecida são tão maiores do que os que podem bastar para compreender essa verdade e sentir a força da prova em que se apoia, quando exposta com justeza, que, para cada homem cujas faculdades intelectuais estejam à altura dos primeiros, dez mil estão à altura apenas dos segundos.” (Gleig, edição de Stackhouse, Introdução.)

“Entre a matéria e o espírito, as coisas visíveis e as invisíveis, o tempo e a eternidade, os seres finitos e os seres infinitos, os objetos dos sentidos e os objetos da fé, a conexão não é perceptível à observação humana. Ainda que levemos as nossas pesquisas até o ponto extremo a que a luz da natureza nos pode conduzir, elas no fim serão abruptamente interrompidas, e teremos de parar a uma distância imensurável entre a criatura e o Criador.” (Van Mildert, Discourses.)

Essas observações têm grande peso. Admitimos que o argumento que prova que os objetos de que estamos cercados devem ter sido causados, e assim nos conduz, por uma cadeia de causas subordinadas, até uma única Causa Primeira, tem uma simplicidade, uma evidência e uma força que, quando já estamos previamente munidos da ideia de Deus, tornam à primeira vista difícil conceber que os homens, em qualquer grau de cultura, sejam incapazes dele. Ainda assim, se a mente humana alguma vez começasse tal investigação, é altamente provável que ela se detivesse na noção de uma sucessão eterna de causas e efeitos, em vez de adquirir as ideias de criação, no sentido próprio, e de um Criador Supremo. Quase nenhum dos filósofos das épocas mais investigativas da Grécia, nem os seus seguidores em Roma, embora tivessem a vantagem de tradições que transmitiam o conhecimento de Deus, parecem ter sido capazes de conceber a criação a partir do nada (veja-se a parte I, cap. IV), e por isso admitiam a eternidade da matéria. Isso era o que comumente ocorria com os filósofos teístas, ateus e politeístas.1 Não era entre eles assunto de disputa, mas tomado como ponto assentado e que não se devia contradizer, que a matéria era eterna e, portanto, não podia ter sido criada. Contra essa noção, depois da revelação da verdade ao homem, a filosofia foi capaz de apresentar um argumento bem satisfatório; mas, embora não seja muito recôndito, ele jamais foi descoberto pela filosofia enquanto não contou com o auxílio das Escrituras. Do mesmo modo, a filosofia pode agora fornecer argumentos convincentes contra uma sucessão infinita de causas e efeitos; mas não parece provável que eles pudessem ter sido apreendidos por aqueles a quem a própria noção de uma Causa Primeira não tivesse sido insinuada. Se, porém, se concedesse que algum vislumbre dessa grande verdade pudesse ter sido descoberto, por indução, por mentes contemplativas em tais circunstâncias, por que meios poderiam elas ter demonstrado a si mesmas que aquele grande conjunto de corpos a que chamamos mundo teve um só Criador; que ele é Espírito incorpóreo; que é eterno, existente por si mesmo, imortal e independente? O certo é que o argumento a posteriori não confirma plenamente, por si só, todas essas conclusões; e o argumento a priori, quando dirigido a esses pontos misteriosos, não é, com todas as vantagens de que desfrutamos, tão satisfatório que não deixe nenhum fundamento racional de dúvida quanto ao seu caráter conclusivo. Nenhum homem sensato, cremos, se contentaria com ele como único fundamento de sua fé e esperança. Se de fato a ideia de Deus fosse inata, como alguns sustentaram, a questão estaria resolvida. Mas então todo ser humano a possuiria. Disso não só não há prova nenhuma, como a evidência dos fatos é contrária; e a doutrina das ideias inatas pode ser declarada com confiança uma simples teoria, assumida para sustentar noções prediletas, mas contradita por toda a experiência. Todos temos consciência de que obtemos o conhecimento de Deus pela instrução; e observamos que, na proporção da falta de instrução, os homens são ignorantes de Deus, como de outras coisas. Pedro, o menino selvagem, que no começo do século passado foi encontrado num bosque da Alemanha, longe de ter algum senso inato de Deus ou de religião, parecia incapaz de instrução; e os habitantes aborígenes da Nova Holanda encontram-se, até hoje, num estado de conhecimento pouco superior a esse e certamente não têm nenhuma ideia da existência de um único Criador supremo.

Deve-se concluir, portanto, que devemos o conhecimento da existência de Deus e de seus atributos somente à revelação; mas, uma vez descobertos, a prova racional de ambos é copiosa e irresistível;2 tanto que o ateísmo jamais conseguiu fazer grande progresso entre os homens onde essa revelação foi preservada. Ele é combatido por demonstrações numerosas, evidentes e convincentes demais; e prova-se com facilidade grande demais que ele mesmo envolve os absurdos mais repugnantes.

Nenhum assunto ocupou mais os pensamentos e as penas dos pensadores mais profundos do que a demonstração da existência e dos atributos de Deus; e as provas tiradas dos fatos, da razão e da natureza das coisas, que foram reunidas, são vastas e instrutivas. Essas pesquisas, porém, não trouxeram à luz nenhum novo atributo de Deus que não se encontre na Escritura. Isso é forte presunção de que a única fonte de nossas noções sobre esse assunto é a manifestação que Deus houve por bem fazer de si mesmo, e uma confirmação de que a razão humana, entregue a si mesma, jamais teria feito a menor descoberta a respeito da natureza divina. Mas, quanto ao que foi revelado, elas são de grande importância na controvérsia com o politeísmo e com aquela perversão ainda mais antinatural e monstruosa, a filosofia que nega a existência de Deus.

Têm-se tentado demonstrações tanto a priori quanto a posteriori (a primeira partindo da causa, a segunda do efeito), não só da existência, mas também de todos os atributos atribuídos a Deus nas Sagradas Escrituras. Sobre cada uma faremos algumas observações e ilustrações, tomando primeiro o argumento a posteriori, tanto porque, quanto à simples questão da existência de Deus, ele é a única prova satisfatória e convincente, como, sobretudo, porque é o único a que as próprias Escrituras nos remetem: “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos” (Sl 19.1). “Porque os atributos invisíveis de Deus, isto é, o seu eterno poder e a sua divindade, claramente se reconhecem, desde a criação do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que Deus fez” (Rm 1.20). “Pois pela grandeza e beleza das criaturas se contempla, por analogia, o seu Criador” (Sb 13.5) [N. do T.: Sabedoria de Salomão, livro apócrifo que não consta da NAA; tradução feita a partir do inglês citado por Watson].

A natureza, como alguém observa com acerto, procede das causas para os efeitos; mas as investigações mais seguras e bem-sucedidas do homem procedem dos efeitos para as causas, e esse é o caráter daquilo que os lógicos chamaram de argumento a posteriori.

Em filosofia, estabeleceu-se como axioma “que nenhum acontecimento ou mudança ocorre meramente por si mesmo, mas que toda mudança está relacionada com a existência e a influência de alguma outra coisa, e a implica, em consequência da qual essa mudança acontece, e que pode ser considerada o princípio, o começo ou a fonte da mudança a ela referida. Assim, o termo causa é comumente empregado para designar o suposto princípio da mudança; e o termo efeito aplica-se à mudança considerada em relação ao princípio de mudança de que procedeu. Esse axioma ou princípio costuma ser expresso assim: ‘Para todo efeito tem de haver uma causa.’ ‘Nada existe nem acontece sem uma causa.'” “Nada é mais vergonhoso para um filósofo do que dizer que algo acontece sem causa.”

Por mais enraizado que esteja esse princípio no senso comum e na observação e experiência comuns da humanidade, ele é atacado no ateísmo metafísico de Hume, que parece ter tomado o seu argumento do não menos cético Hobbes; e, em consequência, a relação de causa e efeito tem sido objeto de considerável controvérsia.

Os lógicos distribuíram as causas em eficientes, materiais, finais e formais. As causas eficientes são os agentes que produzem certos efeitos; as causas materiais são os objetos sobre os quais o agente realiza a sua operação, ou aquelas naturezas contingentes que estão ao alcance da influência do agente. As causas finais são os motivos ou propósitos que movem à ação, ou o fim para o qual algo é feito. As causas formais designam as mudanças que resultam da operação do agente, ou aquilo que determina uma coisa a ser o que é e a distingue de todas as demais.

É com as causas eficientes, conforme entendidas na distribuição acima, que nos ocupamos principalmente. O sr. Hume e os seus seguidores estabeleceram que não há nenhum caso em que sejamos capazes de perceber uma conexão necessária entre dois acontecimentos sucessivos, ou de compreender de que modo um procede do outro como sua causa. Pela experiência, observam eles, aprendemos de fato que há muitos acontecimentos constantemente unidos, de modo que um segue invariavelmente o outro; mas é possível, até onde sabemos, que essa conexão, embora constante até onde a nossa observação alcançou, não seja uma conexão necessária; mais ainda, é possível que não haja conexões necessárias entre nenhum dos fenômenos que vemos e, se houver alguma dessas conexões, podemos ter certeza de que jamais seremos capazes de descobri-las. Essa doutrina, no entanto, tem sido admitida por muitos que não só negam as conclusões céticas que Hobbes e Hume tiraram dela, mas sustentam que ela leva a uma conclusão diretamente contrária. “A falácia dessa parte do sistema do sr. Hume”, diz o professor Stewart, “não está em suas premissas, mas na conclusão que ele tira delas. A palavra causa é usada, tanto pelos filósofos quanto pelo vulgo, em dois sentidos muito diferentes. Quando se diz que toda mudança na natureza indica a operação de uma causa, a palavra causa exprime algo que se supõe necessariamente conectado com a mudança e sem o qual ela não poderia ter acontecido. Esse pode ser chamado o significado metafísico da palavra; e tais causas podem ser chamadas causas metafísicas ou eficientes. Na filosofia natural, porém, quando falamos de uma coisa como causa de outra, tudo o que queremos dizer é que as duas estão constantemente unidas, de modo que, quando vemos uma, podemos esperar a outra. Essas conjunções aprendemos somente pela experiência; e, sem conhecê-las, não poderíamos acomodar a nossa conduta ao curso estabelecido da natureza. As causas que são objeto de nossa investigação na filosofia natural podem, para fins de distinção, ser chamadas causas físicas.” (Elements of the Philosophy of the Human Mind.) Por essa distinção e concessão, tudo o que há de cético e ateu na doutrina de Hume fica de fato completamente refutado; pois, se se admitem causas metafísicas ou eficientes, e também que “poder, força, energia e causalidade devem ser considerados atributos da mente e só podem existir na mente” (Elements of the Philosophy of the Human Mind), pouco importa para o argumento da existência de uma Causa Primeira suprema que a sucessão constante de acontecimentos entre as causas físicas tenha ou não uma conexão necessária; ou, em outras palavras, que aquilo que é puramente material possa ou não ter o atributo da causalidade. O escritor que acabamos de citar pensa que essa doutrina é “mais favorável ao teísmo do que até as noções comuns sobre esse assunto”, “se ao mesmo tempo admitirmos a autoridade daquele princípio da mente que nos leva a referir toda mudança a uma causa eficiente”, “pois ela mantém a Divindade sempre à vista, não só como a primeira, mas como a causa eficiente que opera constantemente na natureza, e como o grande princípio de conexão entre todos os vários fenômenos que observamos” (Elements of the Philosophy of the Human Mind). Esse autor pensa ainda que o sr. Hume, sem o querer, forneceu com esse erro um antídoto ao próprio espinosismo. “A doutrina do sr. Hume, na forma irrestrita em que ele a expõe, pode levar a outras consequências não menos perigosas; mas, se ele não teve a boa sorte de conduzir os metafísicos à verdade, pode-se ao menos conceder-lhe o mérito de ter fechado para sempre um dos caminhos mais frequentados e fatais que os desviavam”, “sendo o princípio cardeal sobre o qual gira todo o sistema de Espinosa o de que todos os acontecimentos, físicos e morais, estão necessariamente encadeados como causas e efeitos” (Dissertation prefixada ao suplemento da Encyclopaedia Britannica.)

Quando a doutrina se restringe assim às causas físicas, a sua tendência perigosa fica muito enfraquecida, se não inteiramente neutralizada; contudo, apesar da autoridade com que tem sido sustentada, pode-se suspeitar que ela é radicalmente falsa e que conduz a consequências muito contrárias à experiência da humanidade, ou, na melhor das hipóteses, que é antes um paradoxo ou sutileza filosófica do que uma descoberta filosófica. O que acima se chamou de causas metafísicas ou eficientes é admitido com respeito à mente, da qual “poder, força, energia e causalidade são atributos”. “Uma espécie de causa, a saber, aquilo que um homem, ou qualquer outro ser vivo, é para as suas próprias ações voluntárias, ou para aquelas mudanças que ele produz diretamente em si mesmo, e indiretamente em si mesmo [N. do T.: assim no original; o sentido pede provavelmente “indiretamente em outras coisas”], pelo exercício ocasional de seu próprio poder”, diz o dr. Gregory (Literary and Philosophical Essays), “pode, para fins de distinção, ser chamada de agente. Que existem tais agentes, e que muitos acontecimentos devem ser referidos a eles como suas causas ou princípios de mudança, total ou parcialmente, não só é certo como até evidente por si mesmo.” Todos temos consciência do poder de produzir certos efeitos, e temos certeza de que entre essa causa e o efeito produzido há mais do que uma simples relação de antecedência e sequência; pois temos consciência não só de nos propormos a produzir o efeito, mas do exercício do poder, embora nem sempre conheçamos o meio pelo qual o poder age sobre o objeto (como quando movemos voluntariamente a mão ou o pé), nem o modo pelo qual a energia exercida se liga ao resultado. Ainda assim, o resultado segue a vontade e, por mais vezes que isso se repita, é sempre o mesmo. As relações entre as causas físicas e os efeitos devem ser diferentes dessa; mas, se, segundo a doutrina de Hume, fossem apenas uma relação de sucessão, seguir-se-iam inevitavelmente os seguintes absurdos, conforme expostos pelo dr. Reid (Reid’s Essays): “a noite seria a causa do dia, e o dia a causa da noite, pois não há duas coisas que se tenham seguido uma à outra com mais constância desde o princípio do mundo. Qualquer coisa, pelo que sabemos, pode ser a causa de qualquer coisa, visto que nada é essencial a uma causa senão ser seguida constantemente pelo efeito: o que é desprovido de inteligência pode ser a causa do que é inteligente; a loucura pode ser a causa da sabedoria, e o mal, do bem; e assim todo raciocínio que vai do efeito à natureza da causa, e todo raciocínio a partir das causas finais, tem de ser abandonado como falacioso.” As causas físicas, como, por exemplo, o que o impulso é para o movimento; o calor para a dilatação, a fusão e a evaporação; a terra para a queda de uma pedra em sua direção; o sol e a lua para as marés, exprimem uma relação diferente daquela que existe entre o homem e qualquer de suas ações voluntárias; mas ela não pode ser o mesmo que a relação de anterioridade e sucessão entre coisas ou acontecimentos. Os homens se enganaram, em alguns casos, ao tomar a circunstância de um acontecimento suceder a outro como prova de sua relação de causa e efeito; mas até isso mostra que, na opinião firme da humanidade, a sucessão constante, quando há aparência de dependência de uma coisa em relação a outra, implica mais do que a simples sucessão, e que aquilo que se considera a causa tem uma eficácia, seja própria, seja derivada, pela qual o efeito se realiza. O dr. Brown observa com verdade (Procedure, &c., of the Human Understanding): “Descobrimos pela observação e pela experiência que tais e tais efeitos são produzidos; mas, quando tentamos pensar na razão por que e no modo como as causas produzem esses efeitos, ficamos parados, e todo o nosso raciocínio é precário ou, na melhor das hipóteses, conjectura provável.” Daí, porém, seria uma conclusão ridícula que, por ignorarmos o modo como as causas físicas agem, elas não agem em absoluto; ou que nenhuma delas existe no sentido comumente aceito; isto é, que o efeito não depende daquilo que se chama a causa, e que a presença desta, segundo as leis estabelecidas da natureza, não é necessária ao efeito, de modo que sem ela o efeito não se seguiria. A causa eficiente pode estar oculta, mas a causa física é aquilo através do qual ela opera, e deve-se supor que tenha uma adaptação para transmitir o poder, por assim dizer, de algum modo preciso, por meios mecânicos ou outros, até o resultado; do contrário, não poderia haver engenho e invenção nas obras de arte, nem sabedoria na criação. Um relógio poderia indicar a hora sem rodas, e um torrão de terra poderia dar ao sistema planetário uma luz tão copiosa quanto a do sol. Se a doutrina de Hume nega as causas eficientes, contradiz toda a consciência e a experiência nela fundada; se se aplica somente às causas físicas, ou as confunde com as causas eficientes, ou diz, em linguagem paradoxal, apenas o que outros disseram melhor, e isso sem perigo algum de acarretar consequências absurdas ou perigosas. “Quando um acontecimento é produzido segundo uma lei conhecida da natureza, a lei da natureza é chamada a causa desse acontecimento. Mas uma lei da natureza não é a causa eficiente de acontecimento algum; é apenas a regra segundo a qual a causa eficiente age. Uma lei é algo concebido na mente de um ser racional, não algo que tenha existência real; e, portanto, como um motivo, não pode agir nem sofrer ação e, consequentemente, não pode ser causa eficiente. Se não houver nenhum ser que aja segundo essa lei, ela não produz efeito algum.” (Reid’s Essays.) “Todas as coisas que se fazem no mundo são feitas imediatamente pelo próprio Deus ou por seres inteligentes criados; sendo a matéria evidentemente de todo incapaz de quaisquer leis ou poderes, tanto quanto é incapaz de inteligência, com exceção apenas deste único poder negativo: que cada parte dela, por si mesma, continuará sempre e necessariamente no estado, seja de repouso, seja de movimento, em que se encontra no presente. De modo que todas aquelas coisas que comumente dizemos serem efeitos dos poderes naturais da matéria e das leis do movimento, da gravitação, da atração ou semelhantes, são na verdade (se quisermos falar estrita e propriamente) efeitos da ação de Deus sobre a matéria, continuamente e a cada momento, seja imediatamente por si mesmo, seja mediatamente por alguns seres inteligentes criados. Consequentemente, não existe aquilo que os homens comumente chamam de curso da natureza ou poderes da natureza. O curso da natureza, falando verdadeira e propriamente, não é outra coisa senão a vontade de Deus produzindo certos efeitos de maneira contínua, regular, constante e uniforme.” (Dr. Samuel Clarke.)

O verdadeiro estado da questão parece ser este: 1. Que existem causas eficientes, e que a relação entre elas e os seus efeitos é necessária, visto que, sem a operação da causa eficiente, o efeito não ocorreria. Isso encontramos em nós mesmos e, portanto, procedemos sobre o terreno mais seguro quando atribuímos os efeitos que estão acima do poder humano a uma causalidade mais que humana e, no caso dos fenômenos da natureza universal, a uma causa divina, ou, em outras palavras, a Deus. 2. Que existem causas físicas, entre as quais e os seus efeitos há uma relação ou conexão muito diferente de uma simples ordem de sucessão, a qual, de fato, é uma relação que exclui inteiramente a ideia de causalidade em qualquer sentido. Segundo a ordem da natureza presentemente estabelecida, também esta pode ser chamada de conexão necessária, embora não necessária no sentido de ser o único método pelo qual a causa eficiente primeira e infinita poderia produzir o efeito. Os seus recursos são, sem dúvida, ilimitados; mas, tendo estabelecido certa ordem na natureza, ou, em outras palavras, tendo dado certos poderes e propriedades à matéria com vistas à operação mútua dos diferentes corpos uns sobre os outros, a sua suprema eficiência, o seu poder causador, toma a sua direção e se manifesta nessa ordem, sendo modificado pelas propriedades preestabelecidas e constantemente sustentadas através das quais e pelas quais opera. Até esse ponto, e nesse sentido, a relação entre as causas físicas e os efeitos é necessária; e a doutrina das causas finais fica assim estabelecida por aqueles maravilhosos arranjos e adaptações nas diferentes partes da natureza, e nos corpos individuais, que levam adiante e conduzem a eficiência de Deus, sempre atuante, aos fins sábios e benévolos que ele se propôs. Assim, o sol, em virtude de uma adaptação previamente estabelecida entre as suas próprias qualidades, a atmosfera da terra e o olho humano, é a causa necessária da luz e da visão, embora a verdadeira causa eficiente seja o próprio Criador, sempre presente em seus próprios arranjos; assim como a mola de um relógio é a causa necessária do movimento das rodas e dos ponteiros, embora a causa eficiente, no sentido próprio, seja o próprio artífice que construiu o conjunto. Nesses casos, porém, deve-se observar esta diferença, embora ela não afete o argumento de uma causalidade física secundária: o fabricante de um relógio, encontrando certos corpos dotados de certas propriedades primárias, pode dispô-los uns contra os outros e assim deixar a sua obra funcionar sem o seu impulso e a sua intervenção constantes; mas, na natureza, as propriedades primárias da matéria, e a sua própria existência, são derivadas e dependentes, e precisam da sustentação constante daquele que as chamou à existência a partir do nada e em quem “tudo subsiste” (Cl 1.17).

Estabelecida assim a relação de causa e efeito segundo o senso comum e a observação da humanidade,3 passamos aos argumentos que nela se fundam.

A existência de Deus, uma vez comunicada a nós por sua própria revelação, direta ou transmitida pela tradição, é passível de ampla prova e recebe uma confirmação irresistível a posteriori.

Um argumento a priori é um argumento que vai de algo antecedente a algo consequente; do princípio ao corolário; da causa ao efeito. Um argumento a posteriori, ao contrário, é um argumento que vai do consequente ao antecedente, do efeito à causa. Ambos esses tipos de prova têm sido usados em apoio da doutrina da existência de Deus; mas é somente no segundo que se pode depositar alguma confiança, e a demonstração é forte demais para precisar de um auxiliar duvidoso.

O primeiro argumento a posteriori a favor da existência de Deus é tirado de nossa própria existência real e da de outros seres à nossa volta. Por um erro evidente, ele às vezes foi chamado de argumento a priori; mas, se a nossa existência é usada para provar a existência de um Criador supremo, trata-se inquestionavelmente de um argumento que procede do consequente para o antecedente, do efeito para a causa. Essa demonstração antiga e evidente tem sido apresentada sob diferentes ângulos por diferentes escritores. Locke a expôs, em substância, assim. Todo homem sabe com certeza absoluta que ele mesmo existe. Sabe também que nem sempre existiu, mas começou a existir. É claramente certo para ele que a sua existência foi causada, e não fortuita, e foi produzida por uma causa adequada a essa produção. Por causa adequada entende-se invariavelmente uma causa que possui e exerce eficácia suficiente para realizar qualquer efeito. No caso presente, causa adequada é aquela que possui e exerce todo o entendimento necessário para conceber, e o poder necessário para criar, um ser como o homem em questão. Essa causa é aquilo a que estamos acostumados a chamar Deus. O entendimento necessário para conceber, e o poder necessário para criar, um ser composto de alma e corpo humanos não admitem limites. Aquele que pode conceber e criar tal ser pode conceber e criar qualquer coisa. Aquele que de fato concebeu e criou o homem certamente concebeu e criou todas as coisas.

O mesmo argumento é apresentado de modo mais extenso, mas com grande clareza, pelo sr. Howe:

“Começamos, portanto, pela existência de Deus; para cuja demonstração podemos estar inteiramente seguros, em primeiro lugar, de que sempre houve alguma coisa desde toda a eternidade; ou de que, olhando para trás, deve-se confessar que algo de ser real é eterno. Que aqueles que não se acostumaram a pensar em coisa alguma além do que podiam ver com os próprios olhos, e para quem o raciocínio só parece difícil porque não experimentaram o que podem fazer nele, apenas usem um pouco os seus pensamentos; e, movendo-os alguns passos fáceis, logo se acharão tão seguros disso quanto de que veem, ou ouvem, ou entendem, ou são alguma coisa.

“Pois, estando certo de que algo existe agora (de que você vê, por exemplo, ou de que é alguma coisa), você tem de reconhecer que certamente algo sempre existiu, e existiu desde sempre, ou desde toda a eternidade; ou então tem de dizer que, em algum tempo, nada existia, ou que todo ser, uma vez, não existia. E assim, visto que você descobre que algo existe agora, houve um tempo em que todo ser começou a existir; isto é, que até aquele tempo não havia nada, mas que então, naquele tempo, algo começou a existir pela primeira vez. Pois o que pode ser mais claro do que isto: se todo ser em algum tempo não existia, e agora algum ser existe, tudo o que é ser teve um começo. E daí se seguiria que algum ser, isto é, o primeiro que jamais começou a existir, surgiu por si mesmo do nada, ou fez a si mesmo existir quando antes nada existia.

“Mas agora, você não vê claramente que é de todo impossível que alguma coisa o faça; isto é, que, quando ainda não era nada, e quando ainda não existia absolutamente nada, ela se fizesse a si mesma, ou viesse a existir por si mesma? Pois, certamente, fazer-se a si mesmo é fazer alguma coisa. Mas pode aquilo que é nada fazer alguma coisa? Para todo fazer tem de haver alguém que faça. Por isso, uma coisa tem de existir antes de poder fazer alguma coisa; e, portanto, seguir-se-ia que ela existia antes de existir; ou que existia e não existia, era algo e nada, ao mesmo tempo. Sim, e que era diferente de si mesma; pois uma causa tem de ser coisa distinta daquilo que é causado por ela. Por isso, é evidentíssimo que algum ser sempre existiu, ou nunca começou a existir.

“Daí é também evidente, além disso, em segundo lugar, que algum ser não foi causado, ou sempre existiu por si mesmo, sem causa alguma. Pois o que nunca procedeu de outro nunca teve causa alguma, visto que nada poderia ser a sua própria causa. E algo, como se vê pelo que foi dito, nunca procedeu de outro. Ou se pode argumentar claramente assim: ou algum ser não foi causado, ou todo ser foi causado. Mas, se todo ser foi causado, então ao menos um foi a causa de si mesmo, o que já se mostrou impossível. Portanto, a expressão comumente usada a respeito do primeiro ser, de que ele existiu por si mesmo, deve ser tomada apenas negativamente, isto é, de que não procedeu de outro; não positivamente, como se em algum tempo ele se tivesse feito a si mesmo. Ou, o que há de positivo significado por essa maneira de falar deve ser tomado apenas assim: que ele era um ser de tal natureza que era impossível que alguma vez não tivesse existido; não que ele, alguma vez, tenha passado por si mesmo do não ser ao ser.

“E agora, daí é evidente, além disso, em terceiro lugar, que algum ser é independente de qualquer outro. Isto é, visto que já se mostra que algum ser nunca dependeu de outro como causa produtora, e não deveu nada a nenhum outro para vir a existir, torna-se igualmente evidente que ele é simplesmente independente, ou não pode dever a ninguém a continuidade de seu ser. Pois o que nunca precisou de uma causa produtora tampouco precisa de uma causa sustentadora ou conservadora. E, para tornar isso mais claro: ou algum ser é independente, ou todo ser é dependente. Mas não há nada fora do âmbito de todo ser de que ele possa depender. Por isso, dizer que todo ser depende é dizer que ele depende de nada, isto é, que não depende. Pois depender de nada é não depender. É, portanto, uma contradição manifesta dizer que todo ser depende; contra o que não adianta alegar que todos os seres dependem circularmente uns dos outros.4 Pois assim, de qualquer modo, o círculo ou esfera inteira do ser dependeria de nada; ou um, por fim, dependeria de si mesmo, o que, tomado negativamente, como antes, é verdadeiro, e é a coisa pela qual lutamos: que um, o sustento comum de todos os demais, não depende de coisa alguma fora de si mesmo.

“Daí também se segue claramente, em quarto lugar, que tal Ser é necessário, ou existe necessariamente; isto é, que ele é de tal natureza que não poderia ou não pode deixar de existir. Pois o que existe sem ser por escolha própria nem de outro existe necessariamente. Mas o que não foi feito por si mesmo (o que se mostrou ser impossível) nem por outro (como se provou que algo não foi), é manifesto que o fato de existir não dependeu nem de sua escolha nem da de outro. E, portanto, a sua existência não se deve a escolha alguma, mas à necessidade de sua própria natureza. Por isso, ele existe sempre por uma necessidade simples, absoluta e natural, sendo de uma natureza à qual é de todo repugnante e impossível alguma vez não ter existido, ou alguma vez deixar de existir. E agora, tendo ido até aqui, e estando seguros de que até agora sentimos o chão firme debaixo de nós, isto é, tendo alcançado plena certeza de que há um Ser eterno, não causado, independente, necessário e, portanto, real e eternamente existente, podemos avançar um passo mais,

“E acrescentar, com igual segurança, em quinto lugar, que esse Ser eterno, independente, não causado e necessário é ativo por si mesmo; isto é (o que se quer dizer no presente), não tal que age sobre si mesmo, mas que tem o poder de agir sobre outras coisas, em si e por si mesmo, sem derivá-lo de nenhum outro. Ou, ao menos, que há um Ser assim, eterno, não causado etc., que tem o poder de ação em si e por si mesmo. Pois tal Ser, como já foi demonstrado, ou é por si mesmo ativo ou inativo, ou tem o poder de ação por si mesmo ou não. Se dissermos a segunda coisa, consideremos o que dizemos e com que propósito o dizemos.

“1. Devemos pesar o que afirmamos quando falamos de um Ser eterno, não causado, independente e necessário que é por si mesmo totalmente inativo, ou desprovido de qualquer poder ativo. Se dissermos que existe tal coisa, confessaremos que, depois de chamá-la de algo, ela é um algo muito tolo, desprezível e ocioso, e um algo (se o considerarmos sozinho) tão bom quanto nada. Pois há pouca diferença entre ser nada e não poder fazer nada. Confessaremos, por outro lado, que a eternidade, a origem em si mesmo, a independência e a necessidade de existência são atributos muito grandes e altamente dignificantes, e importam uma excelência das mais inconcebíveis. Pois que glória maior podemos atribuir a qualquer ser do que reconhecer que ele existiu desde a eternidade por si mesmo,5 sem dever nada a nenhum outro, e que é tal que pode existir, e não pode deixar de existir, no mesmo estado, subsistindo por si e bastando a si mesmo por toda a eternidade? Mas pode a nossa razão aconselhar ou suportar que coloquemos de modo tão incongruente atributos tão magníficos como esses no lugar errado, e atribuamos a glória principal do Ser mais excelente àquilo que está próximo do nada? Mas, se alguém, entretanto, for tão irrefletido a ponto de dizer isso, que se

“2. Considere com que propósito o diz. É para excluir um Ser necessário e ativo por si mesmo? Mas isso de nada pode servir para esse propósito. Pois tal Ser eles serão forçados a reconhecer, façam o que fizerem (a não ser arrancar os próprios olhos), apesar de tudo. Pois por que reconhecem eles algum ser necessário, que sempre existiu por si mesmo? Não é porque, de outro modo, não conseguem, por mais que se esforcem, dizer como teria sido possível que alguma coisa viesse a existir? Mas, descobrindo que algo existe, são obrigados a reconhecer que algo sempre existiu, necessariamente e por si mesmo. Nenhuma outra explicação se poderia dar de como as demais coisas vieram a existir. Mas de que serve, para explicar a origem de todas as demais coisas, supor apenas um Ser eterno, subsistente por si, mas inativo? Foi ele que fez as demais coisas existirem? Não os sufocará o próprio fôlego se tentarem pronunciar as palavras contraditórias “causa inativa”, que seja eficiente ou autora de alguma coisa? E não veem que estão tão longe do alvo, ou que nada mais fazem para atribuir uma origem a todas as demais coisas, supondo apenas um ser eterno e inativo, do que se não supusessem nenhum? Aquilo que nada pode fazer não pode mais ser a causa produtora de outro do que aquilo que é nada. Por isso, pela mesma razão que nos obrigou a reconhecer um Ser eterno, não causado, independente e necessário, somos também inevitavelmente levados a reconhecer que esse Ser é ativo por si mesmo, ou tal que tem o poder de ação em si e por si mesmo; ou que há certamente um Ser assim, que é a causa de todas as coisas que os nossos sentidos nos dizem existir no mundo.

“Pois que mais nos resta dizer ou pensar? Acharemos conveniente dizer que todas as coisas que contemplamos existiram necessariamente, tais como são agora, desde toda a eternidade? Isso seria falar contra os nossos próprios olhos, que continuamente contemplam o surgimento e o desaparecimento dos seres vivos, de qualquer espécie ou gênero que possa cair sob a sua observação. Pois todas as coisas que contemplamos estão, num ou noutro aspecto, interna ou externamente, mudando continuamente e, portanto, nunca poderiam ser contempladas por muito tempo tais como são. E dizer, então, que elas estiveram mudando continuamente desde a eternidade e, contudo, existiram necessariamente é ininteligível e puro disparate. Pois o que existe necessariamente é sempre o mesmo; e o que está nesta ou naquela condição necessariamente (isto é, por uma necessidade intrínseca, simples e absoluta, que é a que aqui se deve entender) tem de estar sempre assim. Por isso, supor o mundo neste ou naquele estado necessariamente, e ao mesmo tempo que tal estado é mutável, é uma suposição impossível e contraditória.

“Mas agora, visto que descobrimos que o estado presente das coisas é mutável, e está de fato mudando, e que o que é mutável não existe necessariamente e por si mesmo; e visto que é evidente que há algum Ser necessário, do contrário nada jamais poderia ter existido; e que sem ação nada poderia proceder dele; visto também que toda mudança importa algo de paixão, e toda paixão supõe ação; e toda ação, poder ativo; e o poder ativo, uma sede ou sujeito original que é ativo por si mesmo, ou tem o poder de ação em si e por si mesmo (pois não poderia haver derivação dele a partir daquilo que não o tem, nem primeira derivação senão daquilo que o tem originalmente por si mesmo; e tem de haver uma primeira derivação, visto que todas as coisas que são, ou já foram, dotadas dele, e não por si mesmas, têm de tê-lo derivado, imediata ou mediatamente, daquilo que o tinha por si mesmo), é, portanto, manifesto que há um Ser necessário e ativo por si mesmo, Causa e Autor deste estado e desta estrutura das coisas perpetuamente variáveis.

E daí, visto que não podemos formar nenhuma noção de vida que o poder ativo por si mesmo não compreenda, ao menos (como, experimentando, veremos que não podemos), segue-se, em sexto lugar, que esse Ser é também originalmente vivo, e a raiz de toda vitalidade, tal que tem a vida em si ou de si mesmo, e de quem ela se propaga a todos os demais seres vivos.” (Living Temple.)

O Ser existente por si mesmo, eterno, ativo por si mesmo e vivo, cuja existência necessária foi assim provada, é também inteligente, e a demonstração a posteriori disso é ampla e convincente. Pois estamos falando de um Ser que é ele mesmo independente, e de quem todas as coisas dependem; e, da dependência de tudo o que vemos à nossa volta, inferimos necessariamente uma causa dessas coisas, a quem não vemos, mas que tem de ser ela mesma independente, e da qual elas devem ter recebido a sua existência real. E o fato de existirem e de serem mantidas e sustentadas prova o seu poder, ao passo que a sua ordem e a sua disposição sábia e evidentemente intencional provam também a sua inteligência.

Na proposição de que a causa existente por si mesma e original de todas as coisas tem de ser um Ser inteligente, observa com acerto o dr. Samuel Clarke, está a questão principal entre nós e os ateus. Pois que algo tem de existir por si mesmo, e que aquilo que existe por si mesmo tem de ser eterno e infinito, e a causa original de todas as coisas, não admite muita discussão. Mas todos os ateus, quer sustentem que o mundo é eterno por si mesmo, tanto quanto à matéria como quanto à forma, quer sustentem que a matéria é eterna e a forma contingente, ou qualquer que seja a hipótese que formulem, sempre afirmaram, e têm de sustentar, direta ou indiretamente, que o Ser existente por si mesmo não é um Ser inteligente, mas ou pura matéria inativa, ou (o que, em outras palavras, é exatamente a mesma coisa) um simples agente necessário. Pois um simples agente necessário tem forçosamente de ser, ou pura e diretamente desprovido de inteligência no sentido mais grosseiro, que era a noção que os antigos ateus tinham do Ser existente por si mesmo; ou então a sua inteligência, segundo Espinosa e alguns modernos, tem de estar inteiramente separada de todo poder de vontade e escolha, o que, quanto à excelência e à perfeição, ou mesmo a qualquer senso comum, é exatamente o mesmo que nenhuma inteligência. Ora, que o Ser existente por si mesmo não é uma necessidade cega e desprovida de inteligência, mas, no sentido mais próprio, um Ser dotado de entendimento e realmente ativo, não se mostra a nós, é verdade, de modo tão evidente e direto por considerações a priori; mas, a posteriori, quase tudo no mundo nos demonstra essa grande verdade e fornece argumentos inegáveis para provar que o mundo e todas as coisas que nele há são efeitos de uma Causa inteligente e sapiente.

“E, em primeiro lugar, visto que há manifestamente nas coisas, em geral, diversas espécies de poderes e excelências e graus de perfeição muito diferentes, é forçoso que, na ordem das causas e dos efeitos, a causa seja sempre mais excelente que o efeito; e, consequentemente, o Ser existente por si mesmo, seja o que for que se suponha que ele seja, tem necessariamente (sendo a origem de todas as coisas) de conter em si a soma e o grau mais elevado de todas as perfeições de todas as coisas. Não porque aquilo que existe por si mesmo tenha, por isso, de ter todas as perfeições possíveis (pois isso, embora seja certíssimo em si mesmo, não pode ser tão facilmente demonstrado a priori), mas porque é impossível que algum efeito tenha alguma perfeição que não estivesse na causa. Pois, se a tivesse, essa perfeição seria causada por nada, o que é contradição evidente. Ora, é evidente que um ser desprovido de inteligência não pode estar dotado de todas as perfeições de todas as coisas do mundo, porque a inteligência é uma dessas perfeições. Todas as coisas, portanto, não podem proceder de uma origem desprovida de inteligência; e, consequentemente, o Ser existente por si mesmo tem necessariamente de ser inteligente.

“Não há possibilidade de um ateu escapar à força desse argumento de outro modo senão afirmando uma destas duas coisas: ou que não há absolutamente nenhum Ser inteligente no universo, ou que a inteligência não é uma perfeição distinta, mas simples composição de figura e movimento, como vulgarmente se supõe que sejam as cores e os sons. Da primeira dessas afirmações, a própria consciência de cada homem é refutação abundante. Pois os que sustentam que os animais são simples máquinas nunca se atreveram a conjecturar que os homens também o sejam. E que a segunda afirmação (na qual está a principal força do ateísmo) é absurdíssima e impossível, será mostrado.

“Pois, visto que nos homens, em particular, há inegavelmente aquele poder a que chamamos pensamento, inteligência, consciência, percepção ou conhecimento, é necessário que, ou tenha havido desde a eternidade, sem causa original alguma, uma sucessão infinita de homens, dos quais nenhum teve um ser necessário, mas cada um, um ser dependente e comunicado; ou então esses seres dotados de percepção e consciência tenham surgido, num tempo ou noutro, puramente daquilo que não tinha qualidade alguma como sensação, percepção ou consciência; ou então tenham sido produzidos por algum Ser superior inteligente. Nunca houve nem pode haver ateu algum que possa negar que uma dessas três suposições tem de ser a verdadeira. Se, portanto, se puder provar que as duas primeiras são falsas e impossíveis, deve-se reconhecer que a última é demonstravelmente verdadeira. Ora, que a primeira é impossível, fica evidente pelo que já foi dito. E que a segunda é igualmente impossível pode ser demonstrado assim: se a percepção ou inteligência é uma qualidade ou perfeição real e distinta, e não simples efeito ou composição de figura e movimento desprovidos de inteligência, então seres dotados de percepção ou consciência jamais podem ter surgido puramente daquilo que em si mesmo não tinha qualidade alguma como percepção ou consciência; porque nada pode jamais dar a outro qualquer perfeição que não tenha, seja realmente em si mesmo, seja ao menos em grau mais elevado. Isso é muito evidente; porque, se alguma coisa pudesse dar a outra qualquer perfeição que ela mesma não tem, essa perfeição seria causada absolutamente por nada, o que é contradição evidente. Se alguém aqui replicar (como fez o sr. Gildon numa carta ao sr. Blount) que as cores, os sons, os sabores e coisas semelhantes surgem da figura e do movimento, que não têm em si mesmos tais qualidades; ou que a figura, a divisibilidade, a mobilidade e outras qualidades da matéria são, como se reconhece, dadas por Deus, de quem, no entanto, não se pode dizer, sem extrema blasfêmia, que tenha ele mesmo tais qualidades; e que, portanto, do mesmo modo, a percepção ou inteligência pode surgir daquilo que em si mesmo não tem inteligência, a resposta é muito fácil. Em primeiro lugar, as cores, os sons, os sabores e coisas semelhantes de modo algum são efeitos que surgem da simples figura e movimento, pois não há nada nos próprios corpos, objetos dos sentidos, que tenha qualquer semelhança com alguma dessas qualidades; mas elas são claramente pensamentos ou modificações da própria mente, que é um ser inteligente, e não são propriamente causadas, mas apenas ocasionadas, pelas impressões da figura e do movimento. Nem ajudará em nada o ateu (quanto à presente questão) se fizermos aqui por ele (para lhe conceder a maior vantagem possível) até aquela suposição absurdíssima de que a própria mente não é senão simples matéria, e de modo algum uma substância imaterial. Pois, mesmo supondo que ela seja simples matéria, ele tem forçosamente de confessar que é uma matéria dotada não só de figura e movimento, mas também da qualidade de inteligência e percepção; e, consequentemente, quanto à presente questão, o resultado será ainda o mesmo: as cores, os sons e coisas semelhantes, que não são qualidades de corpos desprovidos de inteligência, mas percepções da mente, não podem ser causados por simples figura e movimento desprovidos de inteligência, nem surgir deles, mais do que a cor pode ser um triângulo, ou o som um quadrado, ou algo ser causado por nada. Em segundo lugar, quanto à outra parte da objeção, de que a figura, a divisibilidade, a mobilidade e outras qualidades da matéria lhe são dadas por Deus (como nós mesmos reconhecemos), de quem, no entanto, não se pode dizer, sem extrema blasfêmia, que tenha ele mesmo tais qualidades, e que, portanto, do mesmo modo, a percepção ou inteligência pode surgir daquilo que em si mesmo não tem inteligência, a resposta é ainda mais fácil: a figura, a divisibilidade, a mobilidade e outras qualidades semelhantes da matéria não são poderes reais, próprios, distintos e positivos, mas apenas qualidades negativas, deficiências ou imperfeições. E, embora nenhuma causa possa comunicar ao seu efeito qualquer perfeição real que ela mesma não tenha, o efeito pode facilmente ter muitas imperfeições, deficiências ou qualidades negativas que não estão na causa. Embora, portanto, a figura, a divisibilidade, a mobilidade e coisas semelhantes (que são simples negações, como o são todas as limitações e todos os defeitos de poder) possam estar no efeito e não na causa, a inteligência (que agora suponho, e provarei imediatamente, ser uma qualidade distinta, e da qual ninguém pode dizer que seja simples negação) não pode de modo algum estar nessa condição.

“Tendo, portanto, demonstrado assim que, se a percepção ou inteligência for suposta uma qualidade ou perfeição distinta (ainda que somente da matéria, se o ateu quiser), e não simples efeito ou composição de figura e movimento desprovidos de inteligência, então seres dotados de percepção ou consciência jamais podem ter surgido puramente daquilo que não tinha qualidade alguma como percepção ou consciência, porque nada pode jamais dar a outro qualquer perfeição que não tenha em si mesmo, ficará fácil ver, em segundo lugar, que a percepção ou inteligência é realmente tal qualidade ou perfeição distinta, e não pode ser simples efeito ou composição de figura e movimento desprovidos de inteligência; e isso por esta razão evidente: porque a inteligência não é figura, e a consciência não é movimento. Pois tudo o que pode surgir de quaisquer coisas, ou ser composto delas, continua a ser apenas aquelas mesmas coisas de que foi composto. E, se se fizessem eternamente infinitas composições ou divisões, as coisas seriam eternamente as mesmas. E todos os seus efeitos possíveis jamais podem ser outra coisa senão repetições do mesmo. Por exemplo: todas as mudanças, composições ou divisões possíveis da figura continuam a ser nada mais que figura; e todas as composições ou efeitos possíveis do movimento jamais podem ser, eternamente, outra coisa senão simples movimento. Se, portanto, houve algum dia um tempo em que não havia no universo senão matéria e movimento, nunca poderia ter havido nele outra coisa senão matéria e movimento. E teria sido tão impossível que jamais existisse algo como a inteligência ou a consciência, ou mesmo algo como a luz, o calor, o som, a cor, ou qualquer daquilo que chamamos qualidades secundárias da matéria, quanto é agora impossível que o movimento seja azul ou vermelho, ou que um triângulo se transforme num som. O que tem costumado enganar os homens nesse assunto é imaginarem que os compostos são algo realmente diferente daquilo de que são compostos, o que é um erro muito grande. Pois todas as coisas que os homens assim julgam, ou, se são realmente diferentes, não são compostos nem efeitos daquilo que os homens julgam que sejam, mas algo totalmente distinto (como quando o vulgo pensa que as cores e os sons são propriedades inerentes aos corpos, quando na verdade são puramente pensamentos da mente); ou então, se são realmente compostos e efeitos, não são diferentes, mas exatamente o mesmo que sempre foram. Assim, quando dois triângulos juntos formam um quadrado, esse quadrado continua a ser nada mais que dois triângulos; ou, quando um quadrado cortado ao meio forma dois triângulos, esses dois triângulos continuam a ser apenas as duas metades de um quadrado; ou, quando a mistura de pó azul e amarelo produz um verde, esse verde continua a ser nada mais que azul e amarelo misturados, como se vê claramente com o auxílio do microscópio. Em suma, tudo o que se dá por composição, divisão ou movimento não é outra coisa senão exatamente o mesmo que era antes, tomado no todo ou em partes, ou em lugar ou ordem diferentes. Quem, portanto, afirmar que a inteligência é efeito de um sistema de matéria desprovida de inteligência em movimento tem de afirmar ou que a inteligência é um simples nome ou denominação externa de certas figuras e movimentos, e que ela não difere das figuras e movimentos desprovidos de inteligência senão como um círculo ou um triângulo difere de um quadrado, o que é evidentemente absurdo; ou então tem de supor que ela é uma qualidade real e distinta que surge de certos movimentos de um sistema de matéria que em si mesmo não é inteligente, e então se seguiria esta consequência não menos evidentemente absurda: que uma qualidade seria inerente a outra. Pois, nesse caso, não a própria substância, as partículas de que o sistema se compõe, mas o simples modo, o modo particular de movimento e figura, seria inteligente.

“Que a causa existente por si mesma e original de todas as coisas é um Ser inteligente, vê-se abundantemente pela excelente variedade, ordem, beleza e maravilhoso engenho e adequação de todas as coisas do mundo aos seus fins próprios e respectivos. Sendo, pois, assim as coisas, tem de admitir-se inevitavelmente (até pelo ateu mais obstinado) ou que todas as plantas e animais são originalmente obra de um Ser inteligente e foram criados por ele no tempo; ou que, tendo existido desde a eternidade na mesma ordem e método em que estão agora, são efeito eterno de uma Causa inteligente eterna, que exerce continuamente o seu infinito poder e sabedoria; ou então que, sem origem alguma existente por si mesma, eles foram derivados uns dos outros numa sucessão eterna, por uma progressão infinita de causas dependentes. A primeira dessas três vias é a conclusão que afirmamos; a segunda (no que diz respeito à causa do ateísmo) vem a dar exatamente no mesmo; e a terceira já mostrei ser absolutamente impossível e uma contradição.

“Supondo que fosse possível que a forma do mundo e todas as coisas visíveis nele contidas, com a ordem, a beleza e a primorosa adequação de suas partes; mais ainda, supondo que até a própria inteligência, com a consciência e o pensamento, em todos os seres que conhecemos, pudesse ser o resultado ou efeito de simples matéria, figura e movimento desprovidos de inteligência (o que é a suposição mais irracional e impossível do mundo), ainda assim restaria uma demonstração inegável de que o Ser existente por si mesmo (seja o que for que se suponha que ele seja) tem de ser inteligente. Pois mesmo esses próprios princípios, a figura e o movimento desprovidos de inteligência, jamais poderiam ter existido sem que houvesse antes deles uma causa inteligente. Tomo como exemplo o movimento. É evidente que agora existe algo como o movimento no mundo, o qual ou começou num tempo ou noutro, ou foi eterno. Se começou em algum tempo, então se concede a questão, a saber, que a Causa Primeira é um ser inteligente; pois é manifesto que a simples matéria desprovida de inteligência, e ainda por cima em repouso, jamais poderia começar a mover-se por si mesma. Se, ao contrário, o movimento foi eterno, ou foi eternamente causado por algum Ser inteligente eterno, ou tem de ser por si mesmo necessário e existente por si mesmo; ou então, sem necessidade alguma em sua própria natureza e sem causa necessária externa alguma, tem de ter existido desde a eternidade por uma comunicação sucessiva sem fim. Se o movimento foi eternamente causado por algum Ser inteligente eterno, isso também é conceder a questão quanto à presente disputa. Se foi por si mesmo necessário e existente por si mesmo, segue-se que supor que alguma matéria esteja em repouso seria uma contradição nos termos; além disso (como não há fim para os absurdos), também implicaria contradição supor que poderia possivelmente ter havido originalmente mais ou menos movimento no universo do que de fato houve. Essa é uma consequência tão absurda que o próprio Espinosa, embora afirme expressamente que todas as coisas são necessárias, parece aqui envergonhado de declarar abertamente a sua opinião, ou antes se contradiz claramente na questão sobre a origem do movimento. Mas, se se disser, por fim, que o movimento, sem necessidade alguma em sua própria natureza e sem causa necessária externa alguma, existiu desde a eternidade simplesmente por uma comunicação sucessiva sem fim, como Espinosa parece afirmar, de modo bastante incoerente, já mostrei antes que isso é contradição evidente. Resta, portanto, que o movimento tem necessariamente de ser originalmente causado por algo inteligente; do contrário, jamais poderia ter havido no mundo algo como o movimento. E, consequentemente, o Ser existente por si mesmo, a Causa original de todas as coisas (seja o que for que se suponha que ele seja), tem necessariamente de ser um Ser inteligente.”

O argumento que vai da existência do movimento à existência de uma Causa Primeira inteligente é tão convincente que não será mal recebida uma ilustração mais ampla dele, na qual os absurdos do ateísmo são expostos sob outro ângulo.

“Considere-se que todo esse movimento e poder motor tem de ter alguma origem e fonte distinta da matéria inerte e preguiçosa que é por ele movida, à qual já se mostrou ser impossível que ele pertença original e essencialmente.

“Também que o Ser ativo e poderoso que se provou existir necessariamente, e ao qual ele tem de pertencer primeiro, se o supusermos desprovido do princípio moderador da sabedoria e do conselho, não pode deixar de estar sempre exercendo o seu poder motor, invariavelmente empregado no mesmo grau, isto é, ao máximo, e nunca pode cessar ou deixar de fazê-lo. Pois o seu ato não conhece outro limite senão o de seu poder (se este puder ter algum), e o seu poder lhe é essencial, e a sua essência é necessária.

“Além disso, que o movimento impresso na matéria do universo teria, em consequência, de ter recebido necessariamente um aumento contínuo desde que veio a existir.

“Que, supondo que esse poder motor tenha sido exercido desde a eternidade, ele teria de ter crescido há muito tempo até um excesso infinito.

“Que, daí, a coalizão das partículas da matéria para a formação de qualquer coisa teria sido de todo impossível; pois suponhamos que esse poder motor exercido tenha sido, em qualquer instante, apenas suficiente para tal formação: como ela não poderia ser concluída num instante, ele, por seu aumento contínuo, se tornaria tão mais que suficiente que, no instante seguinte, dispersaria as partículas que mal começavam a unir-se.

Ao menos, seria evidentíssimo que, se alguma vez se pudesse ter produzido uma estrutura das coisas como a que agora contemplamos, esse poder motor, aumentado até um excesso tão infinito, teria de ter despedaçado toda a estrutura há muitas eras, ou antes, nunca teria permitido que pudesse ter existido algo como aquilo a que chamamos uma era.

“A nossa experiência não nos dá a observar nenhuma dessas mudanças destrutivas ou notáveis no curso da natureza, e esse é, de fato (como foi predito há muito tempo), o grande argumento dos escarnecedores ateus destes últimos dias: que as coisas permanecem como eram desde o princípio da criação até hoje. Mas pese-se com sobriedade como é possível que a consistência geral que observamos nas coisas por todo o universo, e a sua disposição firme e ordenada, possa coexistir com esse aumento do movimento a cada momento.

“Pois vemos que, quando atiramos uma pedra com a mão, por mais que ela transmita da força impressa ao ar através do qual abre caminho, ou por mais que certo grau dessa força se desvaneça por si mesmo, ela ainda retém uma parte por um tempo considerável, que a leva por toda a extensão de seu percurso, e não se desvanece nem morre de repente. Assim, quando consideramos aqui, na renovação contínua, a cada momento, da mesma força, que procede sempre necessariamente do mesmo agente poderoso, sem moderação nem freio algum, que cada impulso seguinte alcança tão imediatamente o anterior que tudo o que podemos supor perdido é ainda abundantemente mais que reposto, no conjunto ele não pode deixar de estar sempre crescendo, e a esta altura já teria de ter crescido até aquele excesso destruidor de tudo, antes mencionado.

“É, portanto, evidente que, assim como sem a suposição de um Ser ativo por si mesmo não poderia haver algo como o movimento, assim também, sem a suposição de um Ser inteligente (isto é, de que o mesmo Ser seja ao mesmo tempo ativo por si mesmo e inteligente), não poderia haver movimento regular, tal como é absolutamente necessário para a formação e a permanência de qualquer das substâncias corpóreas compactas que os nossos olhos contemplam todos os dias; sim, ou de qualquer substância que seja, ainda que suponhamos as suas figuras e formas tão rudes, disformes e inúteis quanto possamos imaginar; muito menos ainda tais como as primorosas composições e a ordem exata das coisas no universo evidentemente exigem e revelam.” (Howe, Living Temple.)

A prova de que a causa original de todas as coisas é um Ser inteligente, a que o dr. S. Clarke aludiu acima, tal como se manifesta na excelente variedade, ordem, beleza e maravilhoso engenho e adequação de todas as coisas do mundo aos seus fins próprios e respectivos, tornou-se, pela ilustração copiosa e quase infinita de que é capaz, um ramo distinto da ciência teológica. É o argumento mais evidente e popular e, portanto, o mais útil a favor da inteligência daquele Ser de perfeições infinitas a que chamamos Deus; é aquele a que as Sagradas Escrituras nos remetem para a confirmação de sua própria doutrina sobre esse assunto, e tem sido constantemente empregado por todos os escritores que trataram desse primeiro princípio da religião, em todas as épocas. Quando foi considerado separadamente, e as provas tiradas da natureza foram apresentadas em grande extensão, recebeu o nome de “Teologia Natural” e deu origem a muitas obras importantes, igualmente agradáveis, instrutivas e convincentes.6 A base, e de fato o plano, da Natural Theology do dr. Paley encontram-se no terceiro capítulo e nos seguintes do Living Temple de Howe; mas o esboço foi preenchido, e o assunto ampliado, por aquele hábil escritor, com grande felicidade de ilustração e com argumentação aguda e vigorosa. Do esboço da obra de Paley, tal como se encontra no Living Temple, darei alguns extratos que, embora apareçam na Natural Theology de forma mais desenvolvida, reforçados por exemplos adicionais e revestidos, em alguns dos casos apresentados, de uma filosofia mais correta, não ficaram superados. Eles incidem sobre a conclusão com força irresistível e são expressos com nobre eloquência, embora numa linguagem de estrutura um tanto antiquada.

“Assim como nada pode ser produzido sem causa, assim nenhuma causa pode operar acima ou além de sua própria capacidade e aptidão natural. Tudo, portanto, o que se atribui a qualquer causa acima e além de sua capacidade, todo esse excedente é atribuído a causa nenhuma; e assim um efeito, ao menos nessa parte, seria suposto sem causa. E, se se segue, quando um efeito é produzido, que ele teve uma causa, por que não se segue igualmente, quando é produzido um efeito que traz em si marcas manifestas de sabedoria e propósito, que ele teve uma causa sábia e dotada de propósito? Se se disser que há algumas produções fortuitas ou casuais (ao menos não intencionais) que parecem efeitos de sabedoria e engenho, mas na verdade não o são, como as aves que fazem os seus ninhos com tanta ordem e no tempo certo, as abelhas o seu favo e a aranha a sua teia, as quais não são capazes de propósito algum, essa exceção precisa ser bem provada antes de ser admitida; e precisa ser claramente demonstrado tanto que essas criaturas não são capazes de propósito quanto que não existe uma causa universal dotada de propósito, de cuja influência diretiva, bem como operativa, nenhum efeito ou acontecimento imaginável pode estar isento. Nesse caso, não será mais necessário que toda criatura que se observa trabalhar constantemente rumo a um fim conheça esse fim e se proponha a ele por si mesma, do que é necessário que as ferramentas de um artífice saibam o que ele está fazendo com elas; mas, se elas não sabem, é evidente que ele tem de saber. E certamente cabe aos que assim objetam provar, neste caso, o que dizem, e não depender tanto de favor a ponto de mendigar, ou nos julgar tão fáceis a ponto de conceder, tanta coisa apenas porque acharam conveniente dizê-la ou gostariam que assim fosse, isto é, que este ou aquele acontecimento estranho tenha ocorrido sem nenhuma causa dotada de propósito.

“Contudo, eu perguntaria aos que fazem essa ressalva se pensam que existe algum efeito para o qual fosse necessária uma causa que planeja, ou que julgariam impossível ter sido produzido de outro modo senão pela direção e pelo engenho da sabedoria e do conselho. Pouco duvido de que haja milhares de coisas, trabalhadas e lavradas pela mão do homem, que eles logo, à primeira vista, declarariam ser efeitos da habilidade, e não do acaso; sim, ainda que considerassem apenas a sua estrutura e forma, sem entender o seu uso e fim, certamente pensariam que ao menos alguns efeitos bastam para nos indicar uma causa que planeja. E se eles apenas considerassem com sobriedade e decidissem que sinais ou vestígios de sabedoria e desígnio poderiam ser tidos como suficientes para nos tirar da dúvida, não seriam levados, pela comparação, a reconhecer que em parte alguma eles são mais conspícuos e manifestos do que nas coisas que temos diariamente diante dos olhos e que comumente passam entre nós pelo nome de obras da natureza? Disso se segue claramente que aquilo que os homens costumam chamar de natureza universal, se eles se contentassem em não mais se esconder na escuridão de uma palavra obscura e não interpretada, teriam de confessar que não é outra coisa senão a providência comum, isto é, o poder universal que está ativo em toda parte no mundo, unido à sabedoria infalível que guia e modera todos os seus esforços e operações, ou a sabedoria que dirige e governa esse poder. Devem, portanto, ver motivo para reconhecer que uma ordem exata e uma disposição das partes em composições muito apuradas e elegantes demonstram claramente sabedoria e habilidade na sua concepção; só que eles farão uma distinção e dirão: Assim é nos efeitos da arte, mas não nos da natureza. Que é isso, senão negar no particular o que concederam no geral? Fazer com que o que disseram não signifique mais do que se tivessem dito: tão primorosa ordem das partes é efeito da sabedoria onde é efeito da sabedoria, mas não é efeito da sabedoria onde não é efeito da sabedoria; e brincar com palavras, em vez de dar a razão por que as coisas são assim? E de onde tiram eles a vantagem para esse jogo de palavras, ou como esperam esconder nele a sua insensatez, senão porque pensam que, embora se saiba o que se entende por arte, não se pode saber o que se entende por natureza? Mas, se não se sabe, como podem afirmar que os membros da sua distinção não coincidem e não se fundem num só? Sim, e se permitissem que a própria coisa falasse, e que o efeito confessasse e ditasse o nome da sua própria causa, quão evidente é que eles se fundem num só; e que não há impropriedade alguma na expressão que encontramos em algum lugar de Cícero, a arte da natureza; ou antes, que a natureza não é outra coisa senão a arte divina, “pelo menos numa analogia tão próxima quanto a que existe entre quaisquer coisas divinas e humanas. Mas, para que este assunto (a própria coisa, deixando de lado por ora a consideração dos nomes) seja discutido e investigado um pouco mais de perto, ofereça-se à vista de um desses céticos alguma peça engenhosa de artesanato, cuja fabricação ele não viu, nem a de coisa alguma semelhante, e suponhamos que não lhe tenham dito que ela foi feita pela mão de algum homem, nem que ele tenha coisa alguma que oriente o seu juízo sobre o modo como ela veio a ser o que é, a não ser a sua própria observação da coisa em si; e, ainda assim, ele logo declarará, sem hesitar: Isto foi efeito de muita habilidade. Eu perguntaria aqui: Por que você declara isso? Ou: Qual é a razão desse seu juízo? Certamente ele não diria que não tem razão alguma para uma decisão tão confiante e inabalável; pois então não estaria decidido, mas falaria ao acaso, e tanto lhe faria dizer isso ou qualquer outra coisa. Alguma coisa há de haver que, quando lhe perguntam se isto é efeito de habilidade, o capture tão repentina e irresistivelmente para o assentimento de que é assim, que ele não consegue pensar de outro modo. Mais ainda, se mil homens fossem interrogados com a mesma pergunta, diriam a mesma coisa com igual certeza; e então, visto que há uma razão para esse juízo, que outra razão se pode imaginar senão que há na composição sinais e provas de habilidade tão manifestos que não podem ser atribuídos a nenhuma outra coisa? Ora, aqui eu perguntaria ainda: Há alguma coisa nessa razão, sim ou não? Ela significa alguma coisa, ou tem algum valor para o fim para o qual é alegada? Certamente tem um valor muito grande, visto que, quando é considerada, não deixa ao homem o poder de pensar outra coisa; e que se pode dizer de mais forte e mais eficaz para demonstrar? Mas, se essa razão significa alguma coisa, significa ao menos isto: que, onde quer que existam sinais e provas iguais de habilidade, deve-se reconhecer um agente hábil. E assim ela concluirá (a despeito de sofismas) de modo universal e abstrato, a partir do que podemos supor distintamente significado pelos termos arte e natureza, que todo efeito que traz em si tais sinais de habilidade, ou sinais iguais a esses, procedeu de uma causa hábil. Isto é, se deste efeito se diz que vem de uma causa hábil, por ter em si sinais manifestos de habilidade, então todo efeito semelhante, que tenha em si sinais de habilidade igualmente manifestos, deve, com igual razão, ser considerado proveniente de uma causa hábil.

“Reconheceremos que a habilidade de executar e o engenho de conceber são coisas bem distinguíveis e, em relação a algumas obras (como a fabricação de algum autômato engenhoso, ou máquina que se move por si), costumam residir em sujeitos diferentes; isto é, a concepção exercita o engenho e a invenção de um, e a fabricação, a habilidade manual e a destreza de outros; mas os sinais manifestos de ambas se verão no efeito. Isto é, o apuro esmerado de cada uma das partes mostra a segunda, e a ordem e dependência das partes, e a sua convergência para um fim comum, a primeira. Cada uma indica desígnio; ou, pelo menos, deve-se entender que o ferreiro ou o carpinteiro planejou a sua própria parte, isto é, fazer tudo o que lhe foi mandado; ambas juntas revelam claramente um agente que sabia o que fazia; e que a coisa não foi feita por acaso, nem foi o produto fortuito de alguém apenas ocupado a esmo, ou fazendo uma agitação descuidada, sem visar coisa alguma. E nenhum homem em seu juízo perfeito, à vista de toda a estrutura, hesitaria mais em assentir a isso do que a que dois e dois são quatro. E certamente seria tido por louco quem declarasse pensar que, apenas porque alguém fez uma confusão entre vários pequenos fragmentos de latão, ferro e madeira, essas partes acabaram sendo formadas com tanto esmero e se juntaram nessa estrutura por vontade própria.

“Ou, para que não se pense que isto insinua uma representação grosseira demais da opinião daqueles que pensam que este mundo caiu na estrutura e na ordem em que está pela agitação das partes móveis, ou partículas de matéria, sem a direção de um motor sábio; e para que também tornemos o caso tão claro quanto possível à capacidade mais comum, suponhamos (por exemplo) que alguém que nunca tivesse visto um relógio, nem coisa alguma desse tipo, tenha agora pela primeira vez essa pequena máquina diante dos olhos: podemos duvidar de que ele, à mera vista da sua forma, da sua estrutura e do trabalho muito engenhoso que supomos aparecer nela, logo reconheceria a mão do artífice? Mas, se também o fizessem entender o uso e o propósito a que ela serve, e lhe mostrassem distintamente como cada coisa contribui, e como todas as coisas nessa pequena fábrica concorrem para esse propósito, a exata medição e divisão do tempo em minutos, horas e meses, ele certamente confessaria e louvaria o grande engenho do primeiro inventor. Mas se agora um espectador, vendo-o nessa admiração, se propusesse a mostrar um alcance e um esforço de engenho mais profundos, e dissesse: Senhor, o senhor está enganado quanto à composição desta peça tão admirada; ela não foi feita nem planejada pela mão ou pela habilidade de ninguém; havia apenas uma multidão inumerável de pequenos átomos, ou corpos muito pequenos, pequenos demais para serem percebidos pelos seus sentidos, que estavam ocupados em saltitar e correr de um lado para outro em torno do lugar do seu nascimento; e, por um acaso estranho ou por um destino mais estranho ainda, e pelas leis necessárias daquele movimento em que foram inevitavelmente postos por certo motor violento e sem desígnio, eles se juntaram neste pequeno volume, de modo a compor exatamente esta forma e figura, e com este mesmo número e ordem de partes que o senhor agora contempla: um esquadrão dessas partículas atarefadas (mal pensando no que estavam fazendo) concordando em fazer uma roda, e outro uma segunda, na proporção que o senhor vê; outras delas também caindo e ficando fixas numa postura e situação tão felizes que desenham as várias figuras pelas quais os pequenos ponteiros móveis indicam as horas do dia e o dia do mês; e todas conspiraram para cair juntas, cada uma no seu lugar, numa conjunção tão afortunada que não deixou de se seguir o movimento regular que vemos agora observado nela; que homem é tão sábio ou tão tolo (pois é difícil determinar se o excesso ou a falta o qualificaria melhor para professar essa fé) a ponto de ser capaz de ser levado a crer nesse trecho de história natural? E se alguém desse esse relato da produção de tal ninharia, não pensariam que estava brincando? Mas, se persistisse, e declarasse solenemente que assim pensa que aconteceu, não pensariam que estava, muito a sério, louco? E que qualquer razão sóbria julgue se não temos uma loucura indizivelmente maior contra a qual lutar naqueles que supõem que este mundo, e os corpos das criaturas vivas, caíram na estrutura e na ordenada disposição de partes em que estão, sem a direção de uma causa sábia e que planeja; e se não há na ficção deles um número incomparavelmente maior de suposições extravagantes e arbitrárias do que nesta. Isso sem falar das inumeráveis repetições supostas dos mesmos estranhos acasos pelo mundo inteiro; tão inumeráveis quanto não só as produções, mas também as mudanças que acontecem continuamente a todas as coisas produzidas. E se o concurso de átomos pôde fazer este mundo, por que não (pois é pouco mencionar uma coisa como esta) um pórtico, ou um templo, ou uma casa, ou uma cidade, como diz Túlio, que seriam obras menos trabalhosas e muito mais fáceis de realizar?

“Não se deve supor que todos os que lerem estas linhas sejam astrônomos, anatomistas ou filósofos naturais; e, por isso, pretende-se não insistir em pormenores, e fazer o menor uso possível de termos que só conviriam a essa suposição. Mas certamente reflexões gerais e fáceis sobre a estrutura do universo, e sobre a ordem das partes nos corpos de todo tipo de criaturas vivas, das quais o entendimento comum mais humilde é capaz, logo descobririam provas incomparavelmente maiores de sabedoria e desígnio na concepção dessas coisas do que na de um relógio de bolso ou de parede. E se houvesse alguns cujo entendimento fosse de tal tamanho e medida que supusessem que toda a estrutura dos céus não serve a outro propósito senão ter para nós, mortais aqui na terra, alguma utilidade semelhante à daquele instrumento; se ao menos se permitissem tempo para pensar e considerar, poderiam discernir as descobertas mais convincentes e espantosas de sábia concepção e desígnio (bem como do mais vasto poder e força) no fato de as coisas estarem dispostas em tão apta subordinação a esse fim inferior; e de se ter por meio delas um conhecimento tão exato dos tempos e estações, dos dias e anos, que o mais simples ignorante do campo é capaz de lhe dizer, quando a luz do sol se retira dos seus olhos, a que hora ela voltará, e quando entrará por tal janela e quando pela outra; e em que graus os seus dias e noites aumentarão ou diminuirão; e que proporção de tempo ele terá para os seus trabalhos nesta estação do ano, e qual naquela; sem a menor suspeita ou receio de que algum dia aconteça de outro modo.

“Pois suponhamos (o que ninguém pode alegar ser mais impossível, e o que qualquer um deve confessar ser menos notável do que aquilo que os nossos olhos veem diariamente) que, em alguma parte do ar perto desta terra, e dentro de limites tais que toda a cena pudesse ser convenientemente contemplada de uma só vez, aparecesse de repente um pequeno globo de pura luz flamejante, semelhante à do sol, e suponhamos que ele estivesse fixo como centro de outro corpo, ou se movesse em torno desse outro como seu centro (conforme esta ou aquela hipótese mais nos agrade), o qual pudéssemos perceber claramente ser uma terra proporcionalmente pequena, embelezada com pequenas árvores e bosques, campos floridos e regatos correntes, com lagos maiores nos quais estes desembocam; e suponhamos que vemos outros planetas, todos de tamanho proporcional aos estreitos limites que lhes foram designados, colocados às devidas distâncias e girando em torno dessa suposta terra ou sol, de modo a medir os seus dias, meses e anos mais curtos e logo completados, ou dois, doze ou trinta anos, conforme os seus supostos circuitos; não confessariam eles logo, e com grande espanto, um idealizador e autor inteligente de toda essa estrutura, acima de um Posidônio ou de qualquer mortal? E não temos na presente estrutura das coisas uma demonstração de sabedoria e conselho que excede tanto aquela que agora se supõe quanto a fabricação de algum brinquedo ou bugiganga para agradar uma criança é menor prova de sabedoria do que a concepção de algo de utilidade evidente e universal? Ou, se pudéssemos supor que este presente estado de coisas tivesse começado há pouco, e que nós mesmos fôssemos preexistentes, de modo que pudéssemos observar a própria passagem das coisas de uma confusão horrível para a bela ordem em que estão agora, isso não poria a questão fora de dúvida? Mas aquilo que ontem teria sido efeito da sabedoria poderia ter sido mais bem produzido pelo acaso há cinco ou seis mil anos, ou há qualquer tempo mais longo? Não é falta de prova na coisa, mas falta de consideração e de exercício do nosso entendimento, se o que fosse novo não só convenceria como espantaria, e o que é antigo, de igual importância, nem sequer convence!

“E que os que entendem alguma coisa da composição de um corpo humano (ou, na verdade, de qualquer criatura viva) apenas pensem se não aparece, pelo menos, igual engenho na composição dessa admirável fábrica quanto em qualquer das máquinas ou engenhos mais admirados, concebidos e feitos pela habilidade e pelo engenho humanos. Se escolhermos qualquer coisa de uso conhecido e comum, como, suponhamos de novo, um relógio de parede ou de bolso, que mal é visto e já é reconhecido (como foi dito) como efeito de uma causa que planeja, não confessaremos o mesmo do corpo de um homem? Sim, que comparação há, quando na estrutura de um único membro, como uma mão, um pé, um olho ou um ouvido, aparece, numa busca diligente, um apuro indizivelmente maior, quer consideremos a variedade das partes, a sua primorosa configuração ou a sua apta disposição para os distintos usos e fins a que esses membros servem, do que se vê em qualquer relógio? Sobre esses usos das várias partes do corpo do homem, Galeno, que discorre tão amplamente em dezessete livros, insere ao tratar da perna esta exclamação, ao mencionar um caso particular do cuidado providente do nosso mui sábio Criador: ‘Para ele (diz ele) componho estes comentários’ (referindo-se à sua presente obra de expor a útil configuração do corpo humano) ‘como certos hinos ou cânticos de louvor, julgando que a verdadeira piedade consiste mais nisto, em que eu primeiro conheça e depois declare aos outros a sua sabedoria, poder, providência e bondade, do que em lhe sacrificar muitas hecatombes; e que na ignorância disso há a maior impiedade, mais do que em abster-se de sacrifícios.’ ‘Nem’ (como ele acrescenta no fim dessa excelente obra) ‘o mais perfeito artifício natural se vê apenas no homem; mas você pode encontrar o mesmo desígnio diligente e a mesma sabedoria do Autor em qualquer criatura viva que quiser dissecar; e quanto menor ela for, tanto maior admiração despertará em você; o que mostram aqueles artistas que representam alguma coisa grande (de forma reduzida) num espaço muito pequeno, como aquela pessoa que recentemente gravou Faetonte levado no seu carro com os seus quatro cavalos sobre um pequeno anel, uma visão inteiramente incrível! Mas não há, em matérias desta natureza, nada mais estranho do que a estrutura da perna de uma pulga.’ Quanto mais se poderia dizer de todas as suas partes internas! ‘Portanto (como ele acrescenta), o maior proveito de uma obra assim não cabe aos médicos, mas aos que se dedicam ao estudo da natureza, a saber, o conhecimento da perfeição do nosso Criador, e o fato de (como ele dissera um pouco acima) ela estabelecer o princípio da mais perfeita teologia; teologia essa que é muito mais excelente do que toda a medicina.’

“Seria uma empresa grande demais, e além dos limites planejados para este discurso (embora fosse de excelente proveito, se pudesse ser feito sem termos que confundem, e daquela maneira fácil e familiar que o tornasse capaz de uso comum), seguir e traçar distintamente as marcas e os vestígios da admirável sabedoria que aparece na estrutura e na construção deste templo exterior. Pois até os nossos próprios corpos são chamados templos do Espírito Santo (1Co 6.19). E demorar-se algum tempo na contemplação e na descoberta desses numerosos casos de sagacidade e providência evidentíssimas e incontestáveis que se oferecem à vista em cada parte e partícula desta fábrica: com quanta comodidade todas as coisas estão ordenadas nela! Com que circunspecção e previdência estranhamente cautelosas são evitadas e prevenidas incongruências não só destrutivas, mas até (perpetuamente) incômodas e aflitivas; e propor a nós mesmos as várias perguntas óbvias que se poderiam fazer para demonstrar essa previdência. Por exemplo: como acontece que as várias partes que achamos duplas no nosso corpo não sejam únicas? Isso é inteiramente por acaso? Que haja dois olhos, ouvidos, narinas, mãos, pés etc.: que criatura miserável e desamparada teria sido o homem, se lhe tivesse sido concedido apenas um pé! Uma estátua que vê, ouve e fala, mas não se move. Que a mão esteja dividida em dedos? Esses dedos tão convenientemente situados, um numa postura tão adequadamente oposta aos demais?

“E se um ou outro par dessas partes tivesse faltado universalmente? As mãos, os pés, os olhos, os ouvidos. Que grande miséria isso teria trazido à humanidade! E é apenas um acaso que não seja assim? Que a espinha dorsal seja composta de tantas articulações (vinte e quatro, além das daquele osso que é a base e o sustentáculo de tudo), e não seja toda de uma só peça, caso em que inclinar-se, ou qualquer movimento da cabeça ou do pescoço diferente do movimento do corpo inteiro, teria sido completamente impossível; que haja tanta variedade e apuro nos modos de unir os ossos uns aos outros nela e em outras partes do corpo, a ponto de que, em algumas partes, se unem por mera aderência de um ao outro, com ou sem um meio interposto, e ambos esses modos de maneiras tão diversas; que outros estejam presos uns aos outros por articulação propriamente dita, de modo a se ajustarem e se acompanharem de movimento, mais oculto ou mais manifesto, e isso por uma inserção mais profunda ou mais superficial de um osso no outro, ou por uma inserção mútua, e de modos diferentes; e que todas essas coisas estejam tão exatamente acomodadas às várias partes e usos a que pertencem e servem: foi tudo isso sem desígnio? Quem, ao ver a textura engenhosa e apta do olho, pode pensar que ele não foi feito de propósito para ver; e o ouvido, diante de semelhante exame, para ouvir, quando tantas coisas precisam concorrer para que essas ações sejam realizadas por esses órgãos, e se verifica que de fato concorrem? Ou quem pode pensar que as várias pequenas máquinas pertencentes ao olho não foram feitas com o desígnio de movê-lo para cima, para baixo, para este ou aquele lado, ou girá-lo conforme a ocasião pedisse; sem os quais instrumentos e seus apêndices nenhum desses movimentos teria sido possível? Quem, a não ser que seja estupidamente perverso, pode pensar que as várias partes internas (das quais seria preciso um volume para falar distintamente, e só mencioná-las com os seus usos incharia desproporcionalmente esta parte deste discurso) não foram feitas propositalmente por um agente que planeja, para os fins a que servem de modo tão apto e constante? A falta de uma só dentre várias delas, ou apenas uma pequena mudança de lugar, ou se as coisas tivessem sido só um pouco diferentes do que são, teria tornado impossível que uma criatura como o homem subsistisse ou se propagasse sobre a face da terra. Por exemplo: e se não tivesse sido preparado um receptáculo como o estômago, formado e situado como está, para receber e digerir o alimento necessário? Não teria sido em vão toda a restante estrutura do homem? Ou e se a passagem que sai dele para baixo não tivesse sido feita um pouco ascendente, de modo a reter por um tempo conveniente o que recebeu, mas o que fosse ingerido passasse adiante de repente? É evidente que toda a estrutura teria sido arruinada logo que feita. E (para dar como exemplo o que parece coisa tão pequena) se faltasse aquela pequena tampa na entrada do canal pelo qual respiramos (cujo abaixamento pelo peso do que comemos ou bebemos a fecha e impede que a comida e a bebida desçam por esse caminho), não se teria seguido uma sufocação inevitável? E quem pode contar os outros exemplos que se poderiam dar? Ora, quando há um concurso de tantas coisas absolutamente necessárias (a respeito das quais é igualmente aplicável o dito comum, que se costuma aplicar com mais frequência a questões de moral: ‘O bem vem do concurso de todas as causas; o mal, de qualquer defeito’), cada uma servindo de modo tão apto e oportuno ao seu próprio uso, e todas a um fim comum, certamente dizer que uma subordinação tão múltipla, tão regular e tão constante a esse fim, e o próprio fim, não foram planejados, e que as coisas aconteceram assim por acaso, é dizer não sabemos nem nos importa o quê.

“Antes de encerrar esta consideração sobre a simples estrutura de um corpo humano (que foi proposta de modo tão apressado e superficial), apresentaremos apenas uma suposição que não é mais estranha (excluindo a noção vulgar segundo a qual nada é estranho senão o que não é comum) do que a própria coisa tal como de fato é; a saber, que todo o revestimento mais exterior do corpo de um homem fosse feito, em vez de pele e carne, de alguma substância muito transparente, flexível, mas clara como o mais puro cristal; através da qual, e dos outros invólucros ou envoltórios mais internos (e igualmente transparentes), pudéssemos perceber claramente a situação e a ordem de todas as partes internas, e como cada uma delas desempenha o seu ofício distinto: se pudéssemos discernir o movimento contínuo do sangue, como ele é conduzido pelos seus canais próprios, desde a sua primeira origem e fonte, em parte para baixo, para as vísceras inferiores (se é que não sobe antes de lá, como pelo menos sobe aquilo que depois se torna sangue), em parte para cima, para o seu admirável laboratório, o coração, onde é refinado e provido de novos espíritos vitais, e assim transmitido dali pelos vasos distintos preparados para esse fim; se pudéssemos perceber o engenhoso mecanismo daquelas pequenas portas pelas quais ele entra e sai, deste lado e daquele, a ordem e o curso da sua circulação, a sua distribuição tão cômoda por dois canais companheiros, ou condutos, que por toda parte acompanham um ao outro ao longo de todo o corpo; se pudéssemos discernir o engenhoso artifício do cérebro, os seus meios de purgação; e se fosse possível espreitar as câmaras e receptáculos secretos dos espíritos menos ou mais puros que ali estão, e perceber os seus múltiplos condutos, em meio à rara textura daquela rede comumente chamada de maravilhosa; se pudéssemos contemplar as veias, artérias e nervos, todos eles nascendo das suas origens próprias e distintas, e a sua ordenada distribuição, na maior parte, aos pares e em conjugações, deste lado e daquele, a partir do meio das costas, com os ramos engenhosamente trabalhados que, supondo-se que aparecessem devidamente diversificados como outros tantos traços mais escuros nesta estrutura transparente, se veria que eles formam por toda ela; se cada fibra menor se tornasse assim discernível de uma vez, especialmente aqueles inumeráveis fios em que a medula espinhal se distribui na parte de baixo das costas; e se pudéssemos, através do mesmo meio, perceber aquelas numerosas pequenas máquinas feitas para servir aos movimentos voluntários (que em todo o corpo alguns calculam em cerca de quatrocentas e trinta, ou quantas delas, segundo a presente suposição, pudessem entrar no campo de visão), e discernir a sua composição, as suas formas variadas e elegantes, redondas, quadradas, longas, triangulares etc., e vê-las cumprir os seus ofícios, e observar como se movem de um lado para outro e trabalham nos seus respectivos lugares, conforme qualquer movimento tenha de ser realizado por elas; se todas essas coisas, digo, ficassem assim expostas a uma observação fácil e distinta, quem não exclamaria com admiração: De modo assombrosamente maravilhoso fui formado! E certamente não há homem sóbrio que, diante de tal visão, não declarasse louco aquele que supusesse que tal produção tivesse sido um mero acaso sem desígnio. Pelo menos, se há no mundo alguma coisa que se possa considerar portadora de provas suficientemente convincentes de ter sido feita com empenho e de propósito, e não por acaso, não se julgaria que esta composição, assim oferecida à vista, o faz muito mais? Sim, e ainda que trouxesse apenas sinais de sabedoria e desígnio tão probatórios quanto os daquilo que certamente os traz, mesmo no grau mais baixo, isso bastaria para demonstrar o nosso presente propósito. Pois se um caso como este não elevasse a questão senão a uma simples igualdade, isso ao menos indicaria um autor do corpo do homem tão sábio, e tão propriamente planejador, quanto o artífice de qualquer peça de artesanato mais simples, que mesmo assim certamente se conclui ser efeito de habilidade e desígnio. E então se poderia dizer o bastante, a partir de outros casos, para mostrar que ele é indizivelmente superior. E de que a questão seria elevada pelo menos a uma igualdade, na suposição agora feita, não pode haver dúvida, se for juiz alguém que não tenha renegado ao mesmo tempo o seu entendimento e os seus olhos. E então, se pusermos de lado essa suposição (que apenas agrada um pouco à fantasia e à imaginação), isso altera o caso? Ou há menos sabedoria e engenho expressos nesta obra de formar o corpo do homem só porque ela não se mostra à nossa vista de modo tão fácil e imediato? Então poderíamos, com a mesma razão, dizer, a respeito de alguma peça engenhosa de entalhe que se julga conveniente guardar trancada num armário, que, quando a vemos, houve nela admirável trabalho de execução; mas que, assim que é de novo fechada no seu depósito, não houve trabalho algum. Uma vez que falamos dos sinais objetivos de sabedoria e desígnio que estão na própria coisa (embora eles precisem, de um modo ou de outro, chegar ao nosso conhecimento, do contrário nada seríamos capazes de argumentar a partir deles), e visto que temos garantia suficiente de que há realmente na estrutura do corpo do homem os sinais que foram mencionados, e mil outros além dos que se julgou necessário mencionar aqui, é evidente que a maior ou menor facilidade de descobri-los, contanto que tenhamos certeza de que existem (seja pela busca mais lenta ou mais gradual dos nossos próprios olhos, seja confiando no testemunho dos que adquiriram para si essa certeza com o seu próprio trabalho e diligência), é meramente acidental em relação à coisa mesma de que estamos tratando, e nada acrescenta à prova racional do presente argumento nem dela nada tira. Ou, se fizer uma coisa ou outra, os caminhos mais ocultos da sabedoria divina, nisto como em outras coisas, antes a recomendam ainda mais à nossa adoração e reverência do que se tudo fosse óbvio e estivesse aberto ao primeiro relance de um olhar mais descuidado. As coisas que temos certeza (ou podemos ter, se não fecharmos os olhos) que o sábio Autor deste mundo fez bastam para nos assegurar de que ele poderia ter feito também isto, isto é, ter tornado visível cada coisa na estrutura e na forma do nosso corpo da maneira que há pouco supusemos, se o tivesse julgado conveniente. Ele fez coisas maiores. E, visto que não o julgou conveniente, podemos ousar dizer que fazê-lo significaria mais frivolidade e menos desígnio. Dá-nos uma representação mais amável e bela do Ser de que estamos tratando o fato de as suas obras serem menos para ostentação do que para uso, e de a sua sabedoria e os seus outros atributos aparecerem nelas mais para a instrução das mentes sóbrias do que para a satisfação das mentes vãs.

“Podemos, portanto, concluir com confiança que a configuração do corpo humano traz consigo provas de desígnio tão manifestas e incontestáveis quanto qualquer obra de artifício humano que, no juízo de qualquer pessoa, reconhecidamente as traga; e que, portanto, teve com igual certeza uma causa que planeja. Podemos desafiar o mundo a mostrar uma diferença, a não ser que a vantagem esteja, de modo inconcebivelmente grande, do nosso lado. Pois quem, não tendo abandonado ao mesmo tempo a razão e a modéstia, não se envergonharia de confessar e admirar a habilidade demonstrada na feitura de uma estátua, ou do retrato de um homem, que (como alguém diz engenhosamente) não passa da sombra da sua pele, e negar a sabedoria que aparece na composição do próprio corpo dele, que contém em si engenhos e instrumentos tão numerosos e tão variados para diversos fins, que se tornou uma arte, e uma arte muito louvável, apenas descobrir e encontrar a arte e a habilidade demonstradas na concepção e na formação deles?

“E agora, se alguém for tão incuravelmente cego que não perceba, ou tão perversamente obstinado que não reconheça, na estrutura e na configuração do corpo de um animal (em especial do homem) uma aparência de sabedoria mais do que igual à que aparece em qualquer das mais primorosas obras de artifício humano, e que nenhum engenho humano jamais poderá imitar plenamente; embora, como se disse, uma igualdade reconhecida bastasse para demonstrar um Autor sábio dela, ainda assim, porque é da existência de Deus que estamos falando agora, e porque, portanto, não basta demonstrar, mas é preciso engrandecer a sabedoria que queremos atribuir a ele, passaremos das partes e da estrutura à consideração das faculdades e funções mais importantes das criaturas terrestres, subindo das que convêm à ordem menos perfeita delas às da mais perfeita, a saber, do próprio homem. E certamente ter sido o autor de faculdades que capacitam para tais funções demonstrará uma sabedoria que desafia a nossa imitação e desanimará qualquer tentativa de imitá-la.

“Começamos pela do crescimento. Reconhecemos muitos tipos de máquinas raras concebidas pelo engenho do homem, mas quem já fez uma que pudesse crescer, ou que tivesse em si um poder de aperfeiçoar a si mesma? Uma árvore, uma erva, uma folha de capim podem, por esse motivo, desafiar o mundo inteiro a fazer coisa semelhante, isto é, implantar o poder de crescer em qualquer coisa à qual ele não pertença por natureza, ou fazer uma coisa à qual ele pertença.

“Com que arte eles fariam uma semente? E de que modo lhe infundiriam uma forma seminal? E os que pensam que todo este globo da terra foi compactado pela coalizão casual (ou fatal) de partículas de matéria, por que magia conjurariam um número delas suficiente para se juntarem e formarem um único torrão? Vãmente andamos, com o espírito ansioso, à caça de milagres; se por eles não entendêssemos, ainda mais vãmente, nada mais do que novidades, estamos cercados de milagres; e o maior milagre é que não os vemos. Vocês, para quem as produções diárias da natureza (como vocês a chamam) são tão baratas, vejam se conseguem fazer coisa semelhante. Experimentem a sua habilidade numa rosa. Sim, mas vocês precisam ter matéria preexistente. Mas podem vocês provar algum dia que o Criador do mundo a teve, ou mesmo defender a possibilidade de uma matéria incriada? E suponhamos que lhes fosse concedida livremente toda a matéria que há entre o alto da cabeça deles e a lua: saberiam o que fazer com ela, ou como manejá-la, de modo a fazê-la produzir para eles uma única flor de que pudessem gloriar-se como produção sua?

“E que homem mortal, que tenha razão suficiente para ser sério e pensar um pouco, não ficaria até espantado com o milagre da nutrição? Ou com o fato de haver no mundo coisas capazes de alimentar-se? Ou quem tentaria aqui uma imitação, ou não desesperaria de realizar coisa semelhante, isto é, fazer alguma coisa capaz de ser nutrida? Não somos aqui infinitamente superados? Não nos vemos cercados de maravilhas, e não somos nós mesmos maravilhas, visto que vemos e somos criaturas de cujas partes há um contínuo desgaste e que, mesmo assim, recebem uma constante e gradual reposição e renovação, pela qual se mantêm no mesmo estado, como a sarça que ardia mas não se consumia? É fácil dar uma estrutura artificial a uma coisa que vá gradualmente decaindo e se desgastando até acabar por completo e desaparecer. Vocês poderiam levantar uma construção de neve que logo faria isso. Mas pode a sua habilidade manual compor uma coisa que, como o nosso corpo, esteja continuamente se desfazendo e seja continuamente reparada, ao longo de um espaço de tempo tão longo? Mas não, vocês sabem dizer como isso se faz? Vocês sabem por que método e por que instrumentos o alimento é recebido, cozido, separado, e quanto dele deve servir para nutrição é transformado em quilo, e este em sangue, primeiro mais grosseiro e depois mais refinado, e este distribuído a todas as partes para esse fim. Sim, e daí? Por isso vocês são tão sábios quanto o seu Criador? Poderiam vocês ter feito uma coisa como o estômago, um fígado, um coração, uma veia, uma artéria? Ou estão vocês tão seguros do que é a qualidade digestiva? Ou, se estão, e sabem que coisas servem melhor para mantê-la, repará-la ou fortalecê-la, quem implantou essa qualidade, tanto onde ela é imediatamente útil quanto nas outras coisas que vocês usariam a serviço dela? Ou como, se tais coisas não lhes tivessem sido preparadas à mão, teriam vocês imaginado persuadir as partículas de matéria a uma conjunção tão útil e feliz que dela resultasse tal qualidade? Ou (para falar de modo mais adequado à maioria) como, se não lhes tivessem mostrado o caminho, teriam vocês pensado que isso se havia de fazer, ou por que caminho teriam começado a trabalhar para transformar comida e bebida em carne e sangue?

“E que diremos do movimento espontâneo, de que vemos também dotadas criaturas tão humildes e desprezíveis aos nossos olhos (bem como nós mesmos), isto é, que uma coisa tão insignificante como uma mosca, um mosquito etc. tenha em si o poder de mover-se, ou de interromper o próprio movimento, a seu bel-prazer? Quão aquém dessa perfeição ficaram todas as tentativas de imitação nesse gênero! E quanto mais excelente coisa é o menor e mais desprezível inseto do que a máquina mais admirada de que já ouvimos falar ou lemos (como a pomba de Árquitas de Tarento, tão celebrada na Antiguidade, ou, mais recentemente, a mosca de Regiomontano, ou a sua águia, ou qualquer coisa semelhante); não só por ter esse poder peculiar, acima de qualquer coisa desse tipo, mas por reunir em si vários outros poderes, dos quais essas máquinas são inteiramente desprovidas?

“E se continuássemos a dar exemplos dos vários poderes de sensação, tanto externos quanto internos, dos diversos instintos, apetites, paixões, simpatias, antipatias, dos poderes da memória (e poderíamos acrescentar o da fala), de que vemos as ordens inferiores de criaturas, ou em geral providas, ou, quanto a este último, algumas delas predispostas; como iríamos exagerar a presente tarefa, e insultar desnecessariamente o engenho humano (que devemos supor já ter entregado a causa), desafiando-o a produzir e oferecer à vista, como criatura sua, uma máquina que ouça, que veja, que possa imaginar, falar, seja capaz de fome, sede, desejo, ira, medo, tristeza etc., da qual ele possa gloriar-se e dizer: Eu fiz isto!

“É uma realização tão admirável, e uma prova tão incontestável de habilidade e sabedoria, depois de muito trabalho e longa fadiga da mente, de uma agitação atarefada e inquieta de pensamentos que trabalham, da frequente renovação de tentativas frustradas, da variação de experimentos malogrados, por este caminho e por aquele, conseguir afinal, com muito esforço e num progresso lento e gradual, pelo uso de quem sabe quantas espécies diferentes de instrumentos ou ferramentas, depois de muito desbastar, martelar, tornear e limar, compor uma única máquina de tal forma e estrutura que, pelo frequente reforço de uma mão hábil, seja capaz de algum movimento (e esse, de outro modo, de vida muito curta)? E não é prova, ou efeito, de sabedoria formar com tanta facilidade e certeza, sem trabalho, erro ou decepção, uma variedade tão infinita de espécies e um número tão incontável de indivíduos de cada espécie de criaturas vivas que não só podem, com a maior facilidade, mover-se com tantos tipos de movimento, para baixo, para cima, para lá e para cá, por este caminho ou por aquele, com um movimento progressivo ou circular, mais rápido ou mais lento, a seu bel-prazer, mas também podem crescer, propagar-se, ver, ouvir, desejar, alegrar-se etc.? Isso não é obra de sabedoria, mas apenas de um destino cego ou do acaso? De que compleição estranhamente perversa e bizarra é aquele entendimento (se é que se pode chamar entendimento) capaz de fazer tal juízo?

“Mas, porque tudo o que entra sob o nome de cogitação, tomada em sentido próprio, é atribuído a alguma causa mais alta do que o mecanismo, e porque há operações próprias do homem que reivindicam uma alma racional como seu princípio e autor imediato, temos ainda este passo a mais a dar, isto é, considerar a prova mais evidente que temos de um agente sábio e que planeja nas faculdades e na natureza desta que é a mais excelente das suas produções e, entre outras coisas, a mais acessível à nossa observação.

“E não fosse a negligência preguiçosa da maioria em estudar a si mesma, não precisaríamos enumerar aos homens as capacidades e excelências comuns e bem conhecidas que pertencem particularmente à sua própria natureza. Eles poderiam notar, sem que lhes dissessem, que, primeiro, quanto à sua faculdade intelectual, têm em si alguma coisa que pode pensar, entender, formar noções das coisas; que pode retificar ou suprir as representações falsas ou deficientes que lhes são feitas pelos sentidos externos e pela fantasia; que pode conceber coisas muito acima do alcance e da esfera dos sentidos, o bem ou o mal moral das ações ou inclinações, e o que há nelas de retidão ou de perversidade; pelo que podem refletir e voltar o olhar para dentro de si mesmos; observar os atos ou inclinações bons ou maus, o conhecimento, a ignorância, a lentidão, o vigor, a tranquilidade, a perturbação e, em geral, as perfeições ou imperfeições da própria mente; que pode apreender as naturezas gerais das coisas, a existência futura do que ainda não é, junto com a aparição futura daquilo que, para nós, ainda não aparece.

“Podem notar o seu poder de comparar as coisas, de discernir e julgar as suas concordâncias e discordâncias, as suas proporções e disposições umas em relação às outras; de afirmar ou negar isto ou aquilo a respeito de tais ou tais coisas; e de pronunciar-se, com maior ou menor confiança, sobre a verdade ou a falsidade de tais afirmações ou negações.

“E, além disso, o seu poder de argumentar e de inferir uma coisa de outra, de modo a extrair de um princípio claro e evidente uma longa cadeia de consequências que se pode discernir estarem ligadas a ele.

“Têm ainda de considerar a liberdade e a grande capacidade da vontade humana, que, quando é ela mesma, rejeita o domínio de qualquer outro que não seja o do Senhor supremo, e recusa satisfazer-se com qualquer outra coisa que não seja o bem supremo e mais abrangente.

“E mesmo diante de uma visão tão apressada e passageira de uma coisa dotada de tais poderes e faculdades, temos ocasião suficiente para refletir: Como veio a existir uma coisa assim? De onde brotou, ou a que origem deve a sua existência? Mais particularmente, temos aqui duas coisas a lembrar. Primeira: que, apesar de tão altas excelências, a alma do homem aparece, ainda assim, como um ser causado, que em algum tempo teve um começo. Segunda: que por essas excelências fica suficientemente evidente que ela deve a sua existência a uma causa sábia e inteligente.”

O exemplo do relógio, escolhido por Howe para ilustrar o seu argumento de que as provas de desígnio em qualquer produção são provas de uma causa que planeja, é assim ampliado de forma notável e aplicado por Paley para refutar as principais teorias ateístas: “Uma vez observado e compreendido o mecanismo do relógio, a inferência, pensamos, é inevitável: o relógio deve ter tido um autor; deve ter existido, em algum tempo e em algum lugar, um artífice ou artífices que o formaram para o propósito a que vemos que ele de fato atende; que compreenderam a sua construção e planejaram o seu uso.

“Nem enfraqueceria a conclusão, entendo eu, o fato de nunca termos visto fazer um relógio; de nunca termos conhecido um artesão capaz de fazê-lo; de sermos inteiramente incapazes de executar nós mesmos tal obra, ou de entender de que modo ela foi feita; pois tudo isso não é mais do que é verdade a respeito de alguns primorosos restos da arte antiga, de algumas artes perdidas e, para a generalidade da humanidade, das produções mais engenhosas da manufatura moderna. Um homem em um milhão sabe como se torneiam as molduras ovais? A ignorância desse tipo eleva a nossa opinião sobre a habilidade do artesão não visto e desconhecido, se ele for não visto e desconhecido, mas não levanta em nossa mente dúvida alguma sobre a existência e a ação de tal artesão, em algum tempo passado e em algum lugar. Nem posso perceber que a inferência mude em nada, quer a questão surja a respeito de um agente humano, quer a respeito de um agente de outra espécie, ou de um agente que possua, em certos aspectos, uma natureza diferente.

“Nem, em segundo lugar, invalidaria a nossa conclusão o fato de o relógio às vezes andar errado, ou de raramente andar exatamente certo. O propósito do mecanismo, o desígnio e o planejador poderiam ser evidentes, e no caso suposto seriam evidentes, qualquer que fosse o modo como explicássemos a irregularidade do movimento, ou quer pudéssemos explicá-la, quer não. Não é necessário que uma máquina seja perfeita para mostrar com que desígnio foi feita; menos necessário ainda, quando a única questão é se ela foi feita com algum desígnio.

“Nem, em terceiro lugar, traria incerteza alguma ao argumento o fato de haver algumas partes do relógio a respeito das quais não pudéssemos descobrir, ou ainda não tivéssemos descoberto, de que modo contribuíam para o efeito geral; ou mesmo algumas partes a respeito das quais não pudéssemos verificar se contribuíam para esse efeito de alguma maneira. Pois, quanto ao primeiro ramo do caso, se, pela perda, pelo desarranjo ou pelo desgaste das partes em questão, se verificasse de fato que o movimento do relógio parava, era perturbado ou retardado, não restaria dúvida em nossa mente quanto à utilidade ou à intenção dessas partes, embora fôssemos incapazes de investigar o modo pelo qual, ou a conexão pela qual, o efeito final dependia da ação ou da ajuda delas; e quanto mais complexa é a máquina, mais provável é que surja essa obscuridade. Depois, quanto à segunda coisa suposta, a saber, que houvesse partes que pudessem ser dispensadas sem prejuízo para o movimento do relógio, e que tivéssemos provado isso por experiência, essas partes supérfluas, mesmo que tivéssemos plena certeza de que o eram, não anulariam o raciocínio que havíamos construído a respeito das outras partes. O indício de engenho permaneceria, em relação a elas, praticamente como era antes.

“Nem, em quarto lugar, homem algum em seu juízo perfeito pensaria explicada a existência do relógio, com o seu variado mecanismo, por lhe dizerem que ele era uma dentre as combinações possíveis de formas materiais; que qualquer coisa que ele tivesse encontrado no lugar onde encontrou o relógio deveria ter tido alguma configuração interna; e que essa configuração poderia ser a estrutura agora exibida, a saber, a do mecanismo de um relógio, tanto quanto outra estrutura diferente.

“Nem, em quinto lugar, daria mais satisfação à sua investigação a resposta de que existe nas coisas um princípio de ordem que dispôs as partes do relógio na sua forma e situação atuais. Ele nunca soube de um relógio feito pelo princípio de ordem; nem consegue sequer formar para si uma ideia do que se entende por princípio de ordem, distinto da inteligência do relojoeiro.

“Em sexto lugar, ele ficaria surpreso ao ouvir que o mecanismo do relógio não é prova de engenho, mas apenas um motivo para induzir a mente a pensar assim.

“E não menos surpreso ficaria ao ser informado de que o relógio que tinha na mão não era nada mais do que o resultado das leis da natureza metálica. É uma perversão da linguagem atribuir a qualquer lei o papel de causa eficiente e operante de alguma coisa. Uma lei pressupõe um agente, pois é apenas o modo segundo o qual um agente procede; implica um poder, pois é a ordem segundo a qual esse poder age. Sem esse agente, sem esse poder, ambos distintos dela, a lei nada faz, nada é. A expressão “a lei da natureza metálica” pode soar estranha e áspera a um ouvido filosófico, mas parece tão justificável quanto outras que lhe são mais familiares, como “a lei da natureza vegetal”, “a lei da natureza animal”, ou mesmo “a lei da natureza” em geral, quando é apontada como causa dos fenômenos, com exclusão da ação e do poder, ou quando é posta no lugar destes.

“Nem, por fim, o nosso observador seria arrancado da sua conclusão, ou da sua confiança na verdade dela, por lhe dizerem que não sabia absolutamente nada sobre o assunto. Ele sabe o bastante para o seu argumento: conhece a utilidade do fim; conhece a subordinação e a adaptação dos meios ao fim. Conhecidos esses pontos, a sua ignorância de outros pontos, as suas dúvidas sobre outros pontos, não afetam a certeza do seu raciocínio. A consciência de saber pouco não precisa gerar desconfiança daquilo que ele de fato sabe.

“Suponhamos, em seguida, que a pessoa que encontrou o relógio descobrisse, depois de algum tempo, que, além de todas as propriedades que até então observara nele, ele possuía a propriedade inesperada de produzir, no curso do seu movimento, outro relógio semelhante a si mesmo (a coisa é concebível); que continha em si um mecanismo, um sistema de partes, um molde, por exemplo, ou um complexo ajuste de tornos, limas e outras ferramentas, evidente e separadamente calculados para esse fim; investiguemos que efeito tal descoberta deveria ter sobre a sua conclusão anterior.

“O primeiro efeito seria aumentar a sua admiração pelo engenho e a sua convicção da consumada habilidade de quem o concebeu. Quer ele considerasse o objetivo do engenho, quer o aparelho distinto, o mecanismo intrincado, mas em muitas partes inteligível, pelo qual ele era levado a efeito, perceberia nessa nova observação apenas uma razão a mais para fazer o que já tinha feito, isto é, atribuir a construção do relógio ao desígnio e a uma arte suprema. Se aquela construção sem essa propriedade ou, o que dá no mesmo, antes de essa propriedade ter sido notada, provava que intenção e arte tinham sido empregadas nela, ainda mais forte pareceria a prova quando ele viesse a conhecer essa propriedade adicional, coroa e perfeição de todas as demais.

“Ele refletiria que, embora o relógio diante dele fosse, em certo sentido, o autor do relógio fabricado no curso dos seus movimentos, o era num sentido muito diferente daquele em que um carpinteiro, por exemplo, é o autor de uma cadeira: o autor da sua concepção, a causa da relação das suas partes com o seu uso. Quanto a essas coisas, o primeiro relógio não era causa alguma do segundo; em nenhum sentido como esse era ele o autor da constituição e da ordem, quer das partes que o novo relógio continha, quer das partes por cujo auxílio e instrumentalidade ele foi produzido. Poderíamos talvez dizer, mas com grande liberdade de expressão, que uma corrente de água moeu o trigo; mas nenhuma liberdade de expressão nos permitiria dizer, nenhum esforço de conjectura poderia nos levar a pensar, que a corrente de água construiu o moinho, ainda que ele fosse antigo demais para sabermos quem foi o construtor. O que a corrente de água faz no caso não é nem mais nem menos do que isto: pela aplicação de um impulso não inteligente a um mecanismo previamente arranjado, arranjado independentemente dela e arranjado por inteligência, produz-se um efeito, a saber, o trigo é moído. Mas o efeito resulta do arranjo. Não se pode dizer que a força da corrente seja a causa ou a autora do efeito, menos ainda do arranjo. O entendimento e o plano na formação do moinho não eram menos necessários por causa de qualquer participação que a água tenha em moer o trigo; e, no entanto, essa participação é a mesma que o relógio teria dado à produção do novo relógio, na suposição admitida na última seção. Portanto,

“Embora agora já não seja provável que o relógio individual que o nosso observador encontrara tenha sido feito imediatamente pela mão de um artífice, essa alteração em nada afeta a inferência de que um artífice foi originalmente empregado e esteve envolvido na produção. O argumento do desígnio permanece como estava. As marcas de desígnio e de engenho não ficam agora mais explicadas do que antes. Numa mesma coisa podemos perguntar pela causa de propriedades diferentes. Podemos perguntar pela causa da cor de um corpo, da sua dureza, do seu calor; e essas causas podem ser todas diferentes. Estamos agora perguntando pela causa daquela subordinação a um uso, daquela relação com um fim, que notamos no relógio diante de nós. Não se responde a essa pergunta dizendo-nos que um relógio anterior o produziu. Não pode haver desígnio sem planejador; engenho sem engenheiro; ordem sem escolha; arranjo sem algo capaz de arranjar; subordinação e relação a um propósito sem aquilo que pudesse ter em vista um propósito; meios apropriados a um fim, e cumprindo o seu ofício na realização desse fim, sem que o fim jamais tenha sido contemplado, ou os meios acomodados a ele. Arranjo, disposição das partes, subordinação dos meios a um fim, relação dos instrumentos com um uso implicam a presença da inteligência e da mente. Ninguém, portanto, pode crer racionalmente que o relógio insensível e inanimado, do qual saiu o relógio diante de nós, foi a causa própria do mecanismo que tanto admiramos nele; que se possa dizer com verdade que ele construiu o instrumento, dispôs as suas partes, designou o seu ofício, determinou a sua ordem, ação e dependência mútua, combinou os seus vários movimentos num único resultado, e este, além disso, um resultado ligado às utilidades de outros seres. Todas essas propriedades, portanto, continuam tão sem explicação quanto antes.

“Nem se ganha coisa alguma empurrando a dificuldade mais para trás, isto é, supondo que o relógio diante de nós foi produzido por outro relógio, este por um anterior, e assim indefinidamente. Por mais longe que voltemos, não nos aproximamos do menor grau de satisfação sobre o assunto. O engenho continua sem explicação. Ainda nos falta um engenheiro. Essa suposição nem fornece uma mente que planeja nem a dispensa. Se a dificuldade diminuísse à medida que voltássemos mais para trás, voltando indefinidamente poderíamos esgotá-la. E esse é o único caso a que se aplica esse tipo de raciocínio. Onde há uma tendência ou, à medida que aumentamos o número de termos, uma aproximação contínua em direção a um limite, aí, supondo que o número de termos seja o que se chama infinito, podemos conceber que o limite é alcançado; mas, onde não há tal tendência ou aproximação, nada se consegue alongando a série. Não há diferença, quanto ao ponto em questão (seja qual for a diferença quanto a muitos outros pontos), entre uma série e outra, entre uma série finita e uma série infinita. Uma corrente composta de um número infinito de elos não pode sustentar a si mesma mais do que uma corrente composta de um número finito de elos. E disso temos certeza (embora nunca possamos ter feito a experiência), porque, aumentando o número de elos, de dez, por exemplo, para cem, de cem para mil etc., não fazemos a menor aproximação, não observamos a menor tendência para a autossustentação. Não há diferença neste aspecto (embora possa haver grande diferença em vários outros) entre uma corrente de maior ou menor comprimento, entre uma corrente e outra, entre uma finita e uma infinita. Isso se parece muito com o caso diante de nós. A máquina que estamos examinando demonstra, pela sua construção, engenho e desígnio. O engenho deve ter tido um engenheiro; o desígnio, um planejador, quer a máquina tenha procedido imediatamente de outra máquina, quer não. Essa circunstância não altera o caso. Aquela outra máquina pode, da mesma maneira, ter procedido de uma máquina anterior; nem isso altera o caso: o engenho deve ter tido um engenheiro. Aquela anterior, de outra que a precedeu: ainda nenhuma alteração; um engenheiro continua sendo necessário. Não se percebe tendência alguma, nenhuma aproximação para a diminuição dessa necessidade. É o mesmo com toda e qualquer sucessão dessas máquinas; uma sucessão de dez, de cem, de mil; com uma série como com outra; com uma série finita como com uma série infinita. Em quaisquer outros aspectos em que possam diferir, neste não diferem. Em todas igualmente, o engenho e o desígnio ficam sem explicação.

“A questão não é simplesmente: Como veio a existir o primeiro relógio? Pergunta essa que, pode-se alegar, fica eliminada supondo-se que a série de relógios assim produzidos uns dos outros foi infinita e, consequentemente, não teve tal primeiro, para o qual fosse necessário encontrar uma causa. Talvez fosse esse aproximadamente o estado da questão, se nada tivéssemos diante de nós senão uma substância não organizada, sem mecanismo, sem marca ou indício de engenho. Poderia ser difícil mostrar que tal substância não poderia ter existido desde a eternidade, quer em sucessão (se fosse possível, o que penso que não é, que corpos não organizados nascessem uns dos outros), quer por perpetuidade individual. Mas não é essa a questão agora. Supor que seja é supor que não faria diferença termos encontrado um relógio ou uma pedra. Do jeito que as coisas são, a metafísica daquela questão não tem lugar; pois no relógio que estamos examinando veem-se engenho, desígnio, um fim, um propósito, meios para o fim, adaptação ao propósito. E a pergunta que se impõe irresistivelmente aos nossos pensamentos é: De onde vêm esse engenho e esse desígnio? O que se requer é a mente que tem em vista, a mão que adapta, a inteligência pela qual essa mão foi dirigida. Essa pergunta, essa exigência, não é afastada aumentando-se o número ou a sucessão de substâncias destituídas dessas propriedades; nem tanto mais aumentando-se esse número até o infinito. Se se disser que, na suposição de um relógio ser produzido por outro no curso dos movimentos deste outro, e por meio do mecanismo que há nele, temos uma causa para o relógio que está na minha mão, a saber, o relógio do qual ele procedeu, eu nego que, para o desígnio, o engenho, a adequação dos meios a um fim, a adaptação dos instrumentos a um uso (tudo o que descobrimos no relógio), tenhamos qualquer causa que seja. É vão, portanto, apontar uma série de tais causas, ou alegar que uma série pode ser levada até o infinito; pois não admito que tenhamos ainda qualquer causa dos fenômenos, menos ainda qualquer série de causas, finita ou infinita. Aqui há engenho, mas nenhum engenheiro; provas de desígnio, mas nenhum planejador.

“O nosso observador refletiria ainda que o autor do relógio diante dele era, em verdade e realidade, o autor de todo relógio produzido a partir dele; não havendo diferença (exceto que o segundo manifesta uma habilidade mais primorosa) entre fazer outro relógio com as próprias mãos, por meio de limas, tornos, cinzéis etc., e dispor, fixar e inserir esses instrumentos, ou outros equivalentes a eles, no corpo do relógio já feito, de tal maneira que formem um novo relógio no curso dos movimentos que ele dera ao antigo. É apenas trabalhar com um conjunto de ferramentas em vez de outro.

“A conclusão sugerida pelo primeiro exame do relógio, do seu mecanismo, construção e movimento, foi que ele deve ter tido, como causa e autor dessa construção, um artífice que entendia o seu mecanismo e planejou o seu uso. Essa conclusão é invencível. Um segundo exame nos apresenta uma nova descoberta. Verifica-se que o relógio, no curso do seu movimento, produz outro relógio semelhante a si mesmo; e não só isso, mas percebemos nele um sistema de organização separadamente calculado para esse fim. Que efeito teria, ou deveria ter, essa descoberta sobre a nossa inferência anterior? Que outro, como já se disse, senão aumentar sem medida a nossa admiração pela habilidade empregada na formação de tal máquina? Ou deverá ela, em vez disso, nos fazer dar de repente meia-volta para a conclusão oposta, a saber, que nenhuma arte ou habilidade esteve envolvida no assunto, embora todas as outras provas de arte e habilidade permaneçam como estavam, e essa última e suprema obra de arte seja agora acrescentada às demais? Pode-se sustentar isso sem absurdo? E, no entanto, isso é o ateísmo.”

Se o argumento é tão poderoso quando se toma por base apenas uma obra de arte, torna-se muito mais convincente quando é transferido para as obras da natureza; porque ali, num número infinito de casos, se propõem fins mais singulares, e eles são alcançados por mecanismos muito mais engenhosos e difíceis. Na citação de Howe dada acima, o olho, as partes do corpo que são duplas e a construção da espinha são apresentados, entre outros, como exemplos notáveis de um engenho superior à arte do homem, e como evidentemente indicativos de previsão e plano, atributos não só de uma inteligência, mas de uma inteligência de ordem infinitamente superior. Esses exemplos foram admiravelmente desenvolvidos pela mão de mestre que forneceu a última citação.

Começamos pelo olho humano.

“Os mecanismos da natureza superam os mecanismos da arte na complexidade, na sutileza e no apuro do mecanismo; e ainda mais, se possível, vão além deles em número e variedade; contudo, numa multidão de casos, não são menos evidentemente mecânicos, não são menos evidentemente engenhos, não são menos evidentemente acomodados ao seu fim ou adequados ao seu ofício do que as mais perfeitas produções do engenho humano.

“Não conheço melhor método de introduzir um assunto tão vasto do que comparar uma única coisa com outra única coisa; um olho, por exemplo, com um telescópio. No que se refere ao exame do instrumento, há precisamente a mesma prova de que o olho foi feito para a visão que há de que o telescópio foi feito para auxiliá-la. Ambos são feitos sobre os mesmos princípios, estando os dois ajustados às leis que regulam a transmissão e a refração dos raios de luz. Não falo da origem das próprias leis; mas, estando fixadas tais leis, a construção, nos dois casos, está adaptada a elas. Por exemplo: essas leis exigem, para produzir o mesmo efeito, que os raios de luz, ao passarem da água para o olho, sejam refratados por uma superfície mais convexa do que quando passam do ar para o olho. De acordo com isso, vemos que o olho de um peixe, na parte dele chamada cristalino, é muito mais redondo do que o olho dos animais terrestres. Que manifestação de desígnio pode haver mais clara do que essa diferença? Que mais poderia ter feito um fabricante de instrumentos matemáticos para mostrar o seu conhecimento do seu princípio, a sua aplicação desse conhecimento, a sua adequação dos meios ao fim; não direi para exibir o alcance ou a excelência da sua habilidade e arte, pois nisso toda comparação é indecorosa, mas para testemunhar conselho, escolha, consideração, propósito?

“A alguns pode parecer uma diferença suficiente para destruir toda semelhança entre o olho e o telescópio o fato de um ser um órgão que percebe e o outro um instrumento que não percebe. O fato é que ambos são instrumentos. E, quanto ao mecanismo, pelo menos quanto a haver emprego de mecanismo, e até quanto ao tipo dele, essa circunstância não altera em nada a analogia; pois observe-se qual é a constituição do olho. É necessário, para a visão distinta, que se forme no fundo do olho uma imagem ou retrato do objeto. De onde surge essa necessidade, ou como o retrato está ligado à sensação ou contribui para ela, pode ser difícil, ou mesmo, confessaremos, se quiserem, impossível para nós investigar. Mas a presente questão não depende dessa investigação. Pode ser verdade que, neste e em outros casos, seguimos o engenho mecânico até certo ponto, e que então chegamos a algo que não é mecânico, ou que é inescrutável. Mas isso não afeta a certeza da nossa investigação até onde chegamos. A diferença entre um animal e uma estátua automática consiste nisto: no animal, seguimos o mecanismo até certo ponto e então somos detidos, seja porque o mecanismo se torna sutil demais para o nosso discernimento, seja porque intervém alguma outra coisa além das leis conhecidas da mecânica; ao passo que, no autômato, para os movimentos comparativamente poucos de que ele é capaz, seguimos o mecanismo do começo ao fim. Mas, até o limite, o raciocínio é tão claro e certo num caso quanto no outro. No exemplo diante de nós, é questão de certeza, porque é questão que a experiência e a observação demonstram, que a formação de uma imagem no fundo do olho é necessária para a visão perfeita. A própria imagem pode ser mostrada. Tudo o que afeta a nitidez da imagem afeta a nitidez da visão. Sendo, pois, necessária (não importa como) a formação de tal imagem para o sentido da vista e para o exercício desse sentido, o aparelho pelo qual ela é formada é construído e montado não só com uma arte infinitamente maior, mas sobre os mesmíssimos princípios de arte que o telescópio ou a câmara escura. A percepção que nasce da imagem pode ser deixada fora da questão; quanto à produção da imagem, esses são instrumentos do mesmo tipo. O fim é o mesmo; os meios são os mesmos. O propósito em ambos é igual; o engenho para alcançar esse propósito é igual em ambos. As lentes do telescópio e os humores do olho têm completa semelhança entre si na sua forma, na sua posição e no seu poder sobre os raios de luz, a saber, em levar cada feixe a um ponto à distância certa da lente; isto é, no olho, ao lugar exato onde a membrana está estendida para recebê-lo. Como é possível, em circunstâncias de tão estreita afinidade e sob a ação de uma prova igual, excluir o engenho de um e, no entanto, reconhecer no outro a prova de que houve engenho empregado como a mais clara e evidente de todas as proposições?

“A semelhança entre os dois casos é ainda mais exata, e se verifica em mais pontos do que até agora representamos, ou do que percebemos à primeira vista do assunto. Nos telescópios dióptricos há uma imperfeição desta natureza. Os feixes de luz, ao passarem por lentes de vidro, separam-se em cores diferentes, tingindo assim o objeto, especialmente as suas bordas, como se fosse visto através de um prisma. Corrigir esse inconveniente fora por muito tempo uma aspiração da arte. Por fim ocorreu a um óptico sagaz investigar como essa questão era resolvida no olho, no qual havia exatamente a mesma dificuldade a enfrentar que no telescópio. A sua observação lhe ensinou que, no olho, o mal era curado combinando-se lentes compostas de substâncias diferentes, isto é, de substâncias que possuíam diferentes poderes de refração. O nosso artesão tirou daí a sua ideia; e produziu uma correção do defeito imitando, em vidros feitos de materiais diferentes, os efeitos dos diferentes humores pelos quais os raios de luz passam antes de chegar ao fundo do olho. Poderia estar sem propósito no olho aquilo que sugeriu ao óptico o único meio eficaz de alcançar esse propósito?

Mas, além disso, há outros pontos, talvez não tanto de estrita semelhança entre os dois quanto de superioridade do olho sobre o telescópio; mas de uma superioridade que, estando fundada nas leis que regulam a ambos, pode fornecer temas de comparação justa e legítima. Duas coisas eram necessárias ao olho que não eram necessárias, pelo menos no mesmo grau, ao telescópio; e eram estas: a adaptação do órgão, primeiro, a diferentes graus de luz; e, segundo, à vasta diversidade de distâncias a que os objetos são vistos a olho nu, a saber, de algumas polegadas até outras tantas milhas. Essas dificuldades não se apresentam ao fabricante do telescópio. Ele quer toda a luz que puder obter, e nunca dirige o seu instrumento para objetos que estejam ao alcance da mão. No olho, era preciso providenciar para ambos os casos; e, com o fim de providenciar para eles, introduz-se um mecanismo sutil e apropriado.

“Para excluir o excesso de luz, quando ela é excessiva, e tornar os objetos visíveis em graus mais escuros dela, quando não se pode ter mais, o orifício ou abertura do olho pelo qual a luz entra é formado de modo a contrair-se ou dilatar-se a fim de admitir, ao mesmo tempo, um número maior ou menor de raios. A câmara do olho é uma câmara escura que, quando a luz é pouca demais, pode alargar a sua abertura, e, quando é forte demais, pode de novo contraí-la; e isso sem outro auxílio senão o da sua própria primorosa maquinaria. Deve-se também observar, no ser humano, que esse orifício do olho, que chamamos pupila, conserva, em todas as suas diferentes dimensões, a sua forma circular exata. Essa é uma estrutura extremamente engenhosa. Que um artesão apenas tente executar a mesma coisa. Verá que os seus fios e cordões precisam ser dispostos com grande cuidado e engenho para fazer um círculo que mude continuamente o seu diâmetro e, mesmo assim, preserve a sua forma. Isso se faz no olho pela aplicação de fibras, isto é, de cordões, semelhantes, na sua posição e ação, aos que um artesão empregaria, e teria de empregar, se tivesse de executar a mesma obra.

“A segunda dificuldade mencionada era a de adaptar o mesmo órgão à percepção de objetos que estão perto, a poucas polegadas do olho, suponhamos, e de objetos situados a uma distância considerável dele, por exemplo, a outros tantos estádios. (Falo, nos dois casos, da distância em que é possível a visão distinta.) Ora, segundo os princípios da óptica, isto é, segundo as leis que regulam a transmissão da luz (e essas leis são fixas), isso não poderia ser feito sem que o próprio órgão sofresse uma alteração e recebesse um ajuste que correspondesse à exigência do caso, ou seja, à diferente inclinação mútua com que os raios de luz o alcançam. Raios que partem de pontos situados a pequena distância do olho, e que por isso precisam entrar nele em ordem espalhada ou divergente, não podem, pelo mesmo instrumento óptico no mesmo estado, ser levados a um ponto, isto é, ser levados a formar uma imagem, no mesmo lugar que os raios que procedem de objetos situados a uma distância muito maior, os quais chegam ao olho em direções quase paralelas e, falando em termos físicos, paralelas. Para isso é preciso uma lente mais arredondada. O ponto de convergência atrás da lente tem de cair exatamente sobre a retina, ou a visão fica confusa; contudo, permanecendo iguais as demais condições, esse ponto, pelas propriedades imutáveis da luz, é levado mais para trás quando os raios procedem de um objeto próximo do que quando são enviados por um objeto distante. Quem estivesse usando um instrumento óptico resolveria a questão trocando, conforme a ocasião exigisse, a lente ou o telescópio, ou ajustando a distância entre as lentes com a mão ou com o parafuso. Mas como isso há de ser resolvido no olho? Qual era a alteração, em que parte do olho ela ocorria e por que meios era produzida (pois, se forem mantidas as leis conhecidas que regem a refração da luz, alguma alteração no estado do órgão tem de haver), foi por muito tempo objeto de investigação e conjetura. A mudança, embora suficiente para o fim, é tão diminuta que escapa à observação comum. Algumas descobertas muito recentes, extraídas de um exame trabalhoso e extremamente preciso da estrutura e do funcionamento do órgão, parecem ter enfim determinado a alteração mecânica pela qual passam as partes do olho. Descobriu-se que, pela ação de certos músculos, chamados músculos retos, ação essa que é a mais vantajosa que se poderia imaginar para o fim, descobriu-se, repito, que sempre que o olho se dirige a um objeto próximo produzem-se nele três mudanças ao mesmo tempo, cada uma das quais contribui para o ajuste necessário. A córnea, ou membrana mais externa do olho, torna-se mais redonda e saliente; o cristalino, que fica por baixo, é empurrado para a frente; e o eixo da visão, como se chama a profundidade do olho, é alongado. Essas mudanças no olho alteram o seu poder sobre os raios de luz de tal maneira e em tal grau que produzem exatamente o efeito desejado, a saber, a formação de uma imagem sobre a retina, quer os raios cheguem ao olho em estado de divergência, como ocorre quando o objeto está perto do olho, quer cheguem paralelos entre si, como ocorre quando o objeto está a distância. Pode haver algo que prove o artifício de modo mais decisivo do que isso? As leis mais secretas da óptica devem ter sido conhecidas pelo autor de uma estrutura dotada de tal capacidade de mudança. É como se um óptico, tendo de observar um objeto mais próximo, corrigisse o seu instrumento pondo nele outra lente e, ao mesmo tempo, puxasse também o tubo para um comprimento diferente.

“Ao considerar a visão como algo realizado por meio de uma imagem formada no fundo do olho, nunca podemos refletir sem admiração sobre a pequenez e, ao mesmo tempo, a exatidão do quadro, a delicadeza do toque, a finura das linhas. Uma paisagem de cinco ou seis léguas quadradas é trazida para um espaço de meia polegada de diâmetro; e, no entanto, a multidão de objetos que ela contém é toda preservada, e todos se distinguem em suas grandezas, posições, formas e cores. A vista que se tem da colina de Hampstead é comprimida no tamanho de uma moeda de seis pence, e mesmo assim representada em todos os pormenores. Uma diligência que viaja em sua velocidade normal durante meia hora percorre, no olho, apenas um doze avos de polegada; e, contudo, essa mudança de lugar na imagem é percebida distintamente em todo o seu trajeto, pois é só por meio dessa percepção que o movimento da própria diligência se torna perceptível ao olho. Se alguma coisa pode diminuir a nossa admiração diante da pequenez da tela visual em comparação com a extensão da visão, é uma reflexão que a contemplação da natureza nos leva a fazer a toda hora, a saber, que nas mãos do Criador grande e pequeno nada são.”

Sobre as partes do corpo que são duplas, apresentadas por Howe como provas de artifício, o nosso autor observa ainda:

“A estrutura humana, ou mesmo a estrutura animal, considerada como massa ou conjunto, apresenta em sua composição três propriedades que há muito me impressionam como provas indubitáveis não só de desígnio, mas de grande atenção e exatidão na execução desse desígnio.

“A primeira é a correspondência exata entre os dois lados do mesmo animal: a mão direita correspondendo à esquerda, perna a perna, olho a olho, um lado do rosto ao outro; e isso com uma precisão que, imitada em qualquer grau razoável, constitui uma das dificuldades da escultura e exige do artista uma atenção constante a essa propriedade de sua obra, distinta de todas as outras.

“Não há coisa mais difícil do que conseguir que uma peruca fique bem simétrica; e, no entanto, quão raramente o rosto é torto! E o cuidado que se tomou para que não o fosse, a anatomia dos seus ossos o demonstra. A parte superior do rosto compõe-se de treze ossos, seis de cada lado, correspondendo um a um, e o décimo terceiro, sem par, no meio; a parte inferior do rosto compõe-se, da mesma forma, de seis ossos, três de cada lado, correspondendo entre si, e a mandíbula no centro. Na construção de um arco, poder-se-ia fazer mais para que a curva fosse exata, isto é, para que as partes equidistantes do meio fossem iguais em forma e posição?

“A semelhança exata dos olhos, considerando quão composto é esse órgão em sua estrutura, quão variados e delicados são os matizes de cor que tingem a sua íris, quão diversamente, quanto ao efeito na aparência, o olho pode estar assentado em sua órbita, e quão diversamente os olhos de fato estão postos em cabeças diferentes, é uma propriedade dos corpos animais muito digna de admiração. Entre dez mil olhos, não sei se seria possível emparelhar um só, exceto com o seu próprio companheiro, ou distribuí-los em pares adequados por qualquer outra seleção que não a que de fato existe.

“A próxima circunstância a notar é que, embora as cavidades do corpo sejam configuradas de modo a apresentar externamente a mais exata correspondência entre os lados opostos, o conteúdo dessas cavidades não tem tal correspondência. Uma linha traçada pelo meio do peito divide o tórax em dois lados exatamente semelhantes; contudo, esses dois lados encerram conteúdos muito diferentes. O coração fica do lado esquerdo; um lobo dos pulmões do lado direito; e eles não se equilibram nem em tamanho nem em forma. O mesmo se dá com o abdome. O fígado fica do lado direito, sem nenhuma víscera semelhante que se lhe oponha do lado esquerdo. O baço, é verdade, está situado em frente ao fígado, mas não concorda com ele nem em volume nem em forma. Não há equivalência entre eles. O estômago é um órgão de forma irregular e posição oblíqua. As dobras e redobras dos intestinos não apresentam igualdade de lados. E, no entanto, aquela simetria que depende da correlação dos lados é preservada externamente em todo o tronco, e é ainda mais notável nas partes inferiores dele, porque ali os tegumentos são moles e, por conseguinte, a forma não é contida por escoras naturais, como o tórax o é por suas costelas. É evidente, portanto, que a proporção externa não nasce de nenhuma igualdade na forma ou na pressão do conteúdo interno. Que é isso, de fato, senão uma correção de desigualdades? Um ajuste, por compensação mútua, de formas anômalas num conjunto regular? O efeito, numa palavra, de uma disposição engenhosa e, se nos fosse permitido falar assim, estudada?

“Semelhante a esta é também a terceira observação: uma desigualdade interna nos vasos de alimentação é administrada de tal modo que não produz nenhuma desigualdade nas partes que deviam corresponder-se. O braço direito corresponde exatamente ao esquerdo, tanto em tamanho quanto em forma; mas os ramos arteriais que abastecem os dois braços não saem do seu tronco aos pares, da mesma maneira, no mesmo lugar ou no mesmo ângulo. Diante dessa falta de semelhança, é muito difícil conceber como a mesma quantidade de sangue seria impelida por cada artéria; e, no entanto, o resultado é correto: os dois membros nutridos por elas não percebem nenhuma diferença de abastecimento, nenhum efeito de excesso ou de falta.

“Quanto à diferença de maneira pela qual as artérias subclávias e carótidas, nos diferentes lados do corpo, se separam da aorta, Cheselden parece ter pensado que a vantagem que as da esquerda obtêm por sair num ângulo muito mais agudo do que as da direita é compensada às da direita por saírem juntas num só ramo. É muito possível que seja esse o artifício compensador; e, se for, quão curioso, quão hidrostático!”

A construção da coluna vertebral, outra das ilustrações de Howe, é assim exemplificada: “A coluna, ou espinha dorsal, é uma cadeia de articulações de construção maravilhosa. Funções variadas, difíceis e quase incompatíveis tinham de ser executadas pelo mesmo instrumento. Ela devia ser firme e, ao mesmo tempo, flexível. Ora, não conheço nenhuma corrente feita pela arte que seja ambas as coisas; pois por firmeza entendo não só força, mas estabilidade: firme, para sustentar a posição ereta do corpo; flexível, para permitir que o tronco se curve em todos os graus de curvatura. Devia, além disso, o que é um propósito diferente e inteiramente distinto dos demais, tornar-se um tubo ou conduto para levar com segurança, a partir do cérebro, o fluido mais importante da estrutura animal, a saber, aquele de que depende todo movimento voluntário, a medula espinhal: uma substância não só de primeira necessidade para a ação, se não para a vida, mas de natureza tão delicada e tenra, tão sensível e tão intolerante a lesões, que qualquer pressão incomum sobre ela, ou qualquer obstrução considerável do seu curso, é seguida de paralisia ou morte. Ora, a coluna não só devia fornecer o tronco principal para a passagem da substância medular desde o cérebro, mas também emitir dela, no decurso do seu trajeto, pequenos tubos que, subdivididos depois indefinidamente, pudessem, sob o nome de nervos, distribuir esse suprimento primoroso a todas as partes do corpo. A mesma coluna devia ainda servir a outro uso, não menos necessário que os anteriores, a saber, oferecer um ponto de apoio, uma escora ou base (ou, falando com mais propriedade, uma série deles) para a inserção dos músculos que se estendem sobre o tronco do corpo, tronco no qual não há, como nos membros, ossos cilíndricos aos quais eles possam prender-se; e também, o que é um uso semelhante, fornecer um apoio sobre o qual repousem as extremidades das costelas.

“Encomendem a um artesão um mecanismo que reúna todos esses propósitos, e deixem-no pôr-se a inventá-lo; deixem-no experimentar nele a sua habilidade; deixem-no sentir a dificuldade de realizar a tarefa, antes que lhe digam como a mesma coisa é realizada na estrutura animal. Nada o capacitará tão bem a julgar a sabedoria que ali foi empregada; nada o disporá a pensar nela com tanta justiça. Primeiro, quanto à firmeza e, ao mesmo tempo, à flexibilidade da coluna: ela se compõe de grande número de ossos (no ser humano, de vinte e quatro), unidos uns aos outros e compactados por bases largas. A largura das bases sobre as quais as partes repousam, cada uma por si, e a justeza da junção dão à cadeia a sua firmeza e estabilidade; o número de partes, e a consequente frequência de articulações, a sua flexibilidade. Essa flexibilidade, podemos notar também, varia em diferentes partes da cadeia: é menor nas costas, onde se requer mais força do que flexão; maior nos lombos, que precisavam ser mais flexíveis do que as costas; e a maior de todas no pescoço, para o livre movimento da cabeça. Depois, em segundo lugar, para dar passagem à descida da substância medular, cada um desses ossos é perfurado no meio de tal maneira que, quando colocados juntos, o orifício de um osso fica alinhado e corresponde aos orifícios dos dois ossos contíguos. Desse modo, as peças perfuradas, quando unidas, formam um canal inteiro, fechado e ininterrupto, ao menos enquanto a coluna está ereta e em repouso. Mas, como uma postura fixa é incompatível com o seu uso, restava ainda uma grande dificuldade: impedir que as vértebras se deslocassem umas sobre as outras, de modo a romper a linha do canal sempre que o corpo se move ou se torce, ou que as articulações se abrissem externamente sempre que o corpo se inclina para a frente e a coluna é, por isso, obrigada a tomar a forma de um arco. Esses perigos, que são mecânicos, são prevenidos mecanicamente. As vértebras, por meio de seus processos e saliências, e das articulações que alguns destes formam entre si nas extremidades, ficam de tal modo travadas e contidas que mantêm quase inalterada a posição relativa daquilo que se chama corpos, ou superfícies largas dos ossos, e lançam a mudança e a pressão produzidas pela flexão quase inteiramente sobre as cartilagens intermediárias, cuja substância elástica e maleável admite todo o movimento que nelas precisa ser realizado, sem que se produza nenhuma fenda pela separação das partes. Digo todo o movimento que é necessário; pois, embora curvemos as costas em quase todos os graus de inclinação, o movimento de cada vértebra é muito pequeno: tal é a vantagem que nos vem de a cadeia se compor de tantos elos, a coluna de tantos ossos. Se ela consistisse de apenas três ou quatro ossos, ao curvar o corpo a medula espinhal teria de ser esmagada em cada ângulo. Não é preciso dizer ao leitor que essas cartilagens intermediárias são os tecidos cartilaginosos que ele pode ver perfeitamente num lombo de vitela. A forma delas também favorece o mesmo intento. São mais grossas na frente do que atrás, de modo que, quando nos curvamos para a frente, a substância compressível da cartilagem, cedendo em sua parte mais grossa e anterior à força que a comprime, aproxima as superfícies das vértebras vizinhas de uma posição mais paralela entre si do que antes, em vez de aumentar a inclinação de seus planos, o que teria provocado uma fissura, ou abertura, entre elas. Em terceiro lugar, para que o canal medular emita, em seu trajeto e numa ordem conveniente, um suprimento de nervos para as diferentes partes do corpo, há entalhes nas bordas superior e inferior de cada vértebra, dois em cada borda, equidistantes de cada lado da linha média das costas. Quando as vértebras são postas juntas, esses entalhes, ajustando-se exatamente, formam pequenos orifícios pelos quais os nervos, em cada articulação, saem aos pares, a fim de enviar seus ramos a todas as partes do corpo, e com igual generosidade para os dois lados do corpo. O quarto propósito atribuído ao mesmo instrumento é a inserção das bases dos músculos e o apoio das extremidades das costelas; e, para esse quarto propósito, sobretudo para a primeira parte dele, dá-se aos ossos que o compõem uma forma especificamente adequada a esse desígnio e desnecessária para os outros propósitos. Enquanto são planos, redondos e lisos na frente, onde qualquer aspereza ou saliência poderia ferir as vísceras vizinhas, eles se prolongam, atrás e de cada lado, em longos processos, nos quais se fixam os músculos necessários aos movimentos do tronco; e fixam-se com tal arte que, ao mesmo tempo que as vértebras fornecem uma base para os músculos, os músculos ajudam a manter esses ossos em sua posição, ou, por meio de seus tendões, a amarrá-los uns aos outros.

“Aquela propriedade, porém, mais importante e geral, a saber, a solidez do conjunto e a segurança contra a luxação, devia ser atendida de modo ainda mais especial; pois, onde se tratava de tantas articulações, e onde em cada uma delas um desarranjo teria sido fatal, isso se tornou objeto de cuidadosa precaução. Para esse fim, as vértebras são articuladas, isto é, as juntas móveis entre elas são formadas por meio daquelas saliências de sua substância que mencionamos sob o nome de processos; e estes se travam e se sobrepõem uns aos outros de tal modo que protegem o corpo da vértebra não só de escorregar acidentalmente, mas até de ser empurrado para fora do seu lugar por qualquer violência que não chegue a quebrar o osso.”

Os exemplos de desígnio e de maravilhoso artifício são tão numerosos quanto os corpos organizados que há na natureza e quanto as relações entre corpos que não são organizados. O assunto é, portanto, inesgotável. Os casos expostos bastam para ilustrar essa espécie de argumento em favor da existência de uma Causa Primeira inteligente. Muitos outros são apresentados com grande força e interesse na Natural Theology de Paley, de onde foram tiradas as citações acima; mas o capítulo dele sobre a personalidade da Divindade contém aplicações do argumento do desígnio importantes demais para serem omitidas. O mesmo curso de raciocínio pode ser encontrado em muitos outros escritores, mas em nenhum foi expresso com tanta clareza e felicidade.

“O artifício, uma vez estabelecido, parece-me provar tudo o que desejamos provar. Entre outras coisas, prova a personalidade da Divindade, em distinção daquilo que às vezes se chama natureza, às vezes se chama princípio; termos que, na boca dos que os usam filosoficamente, parecem destinados a admitir e exprimir uma eficácia, mas a excluir e negar um agente pessoal. Ora, aquilo que pode inventar, que pode planejar, tem de ser uma pessoa. Essas capacidades constituem a personalidade, pois implicam consciência e pensamento. Elas exigem algo que possa perceber um fim ou propósito, bem como o poder de prover meios e de dirigi-los ao seu fim. Exigem um centro no qual as percepções se unam e do qual procedam as volições, isto é, uma mente. Os atos de uma mente provam a existência de uma mente; e aquilo em que uma mente reside é uma pessoa.

“Disto temos certeza: seja o que for a Divindade, nem o universo, nem qualquer parte dele que vemos, pode ser ela. O próprio universo é apenas um nome coletivo; as suas partes são tudo o que é real, ou tudo o que são coisas. Ora, a matéria inerte está fora de questão, e as substâncias organizadas trazem marcas de artifício. Mas tudo o que traz marcas de artifício, tudo o que em sua constituição testemunha um desígnio, leva-nos necessariamente a algo além de si mesmo, a algum outro ser, a um autor do desígnio anterior a ele e exterior a ele. Nenhum animal, por exemplo, pode ter inventado os seus próprios membros e sentidos, pode ter sido para si mesmo o autor do desígnio com que eles foram construídos. Essa suposição envolve todo o absurdo da autocriação, isto é, de agir sem existir. Nada pode ser Deus que seja ordenado por uma sabedoria e uma vontade de que ele próprio é desprovido, que deva qualquer de suas propriedades a um artifício vindo de fora. Não ter em sua natureza aquilo que requer a ação de outro ser anterior (propriedade que às vezes se chama autossuficiência e às vezes autocompreensão) pertence à Divindade como sua distinção essencial e separa a natureza dela da de todas as coisas que vemos. Essa consideração contém a resposta a uma pergunta que às vezes se tem feito: por que, uma vez que alguma coisa deve ter existido desde a eternidade, o universo atual não poderia ser essa coisa? O artifício que nele se percebe prova que isso é impossível. Nada que tenha sido objeto de artifício pode, em sentido estrito e próprio, ser eterno, visto que o autor do artifício tem de ter existido antes do artifício.

“Já assinalamos, e devemos assinalar aqui de novo, o mau emprego do termo ‘lei’ e o engano a respeito da ideia que esse termo exprime na física, sempre que se faz essa ideia tomar o lugar de um poder, e mais ainda de um poder inteligente, e, como tal, ser apontada como causa de qualquer coisa, ou de qualquer propriedade de qualquer coisa que existe. É o que secretamente tendemos a fazer quando dizemos que os corpos organizados (as plantas, por exemplo, ou os animais) devem a sua produção, a sua forma, o seu crescimento, as suas qualidades, a sua beleza e a sua utilidade a alguma lei ou a leis da natureza, e quando nos contentamos em parar nessa resposta às nossas indagações a respeito deles. Digo mais uma vez que é uma perversão da linguagem apontar qualquer lei como a causa eficiente e operante de alguma coisa. Uma lei pressupõe um agente, pois é apenas o modo segundo o qual um agente procede; implica um poder, pois é a ordem segundo a qual esse poder atua. Sem esse agente, sem esse poder, que são ambos distintos dela, a ‘lei’ nada faz; nada é.

“O que se disse a respeito da ‘lei’ vale também para o mecanismo. O mecanismo não é, em si mesmo, poder. O mecanismo sem poder nada pode fazer. Por mais engenhosamente que um relógio seja inventado e construído, por mais numerosas, complicadas e finamente trabalhadas que sejam as suas peças, ou por mais artificiosamente que estejam montadas, ele não pode andar sem um peso ou uma mola, isto é, sem uma força independente do seu mecanismo e que está além dele. A mola, agindo no centro, produzirá movimentos e resultados diferentes conforme a variedade do mecanismo intermediário. Uma e a mesma mola, agindo de uma e a mesma maneira, a saber, simplesmente distendendo-se, pode ser a causa de cem movimentos diferentes, e todos úteis, se cem conjuntos diferentes e bem concebidos de engrenagens forem colocados entre ela e o efeito final; por exemplo, pode indicar a hora do dia, o dia do mês, a idade da lua, a posição dos planetas, o ciclo dos anos e muitas outras informações úteis; e esses movimentos podem cumprir os seus propósitos com maior ou menor perfeição, conforme o mecanismo seja mais bem ou mais mal inventado, mais bem ou mais mal executado, ou esteja em melhor ou pior estado de conservação; mas, em todos os casos, é necessário que a mola atue no centro. O curso do nosso raciocínio sobre tal assunto seria este. Examinando o relógio, mesmo parado, obtemos uma prova de artifício e de que uma mente inventora se ocupou dele. Na forma e na relação evidente de suas peças, vemos o bastante para nos convencer disso. Se desmontarmos o maquinismo para um exame mais atento, ficamos ainda mais plenamente convencidos. Mas, quando vemos o relógio andando, vemos a prova de outro ponto, a saber, que há um poder aplicado a ele em algum lugar e de algum modo; um poder em ação; que há no objeto mais do que as simples engrenagens da máquina; que há uma mola secreta, ou um prumo que pesa; numa palavra, que há força e energia, além de mecanismo.

“Assim, pois, o relógio em movimento estabelece para o observador duas conclusões: uma, que pensamento, artifício e desígnio foram empregados na formação, na proporção e na disposição de suas peças, e que, seja quem for ou onde quer que esteja ou estivesse, tal autor do artifício existe ou existiu; a outra, que uma força ou poder, distinto do mecanismo, está atuando sobre ele neste momento presente. Se eu visse um moinho de mão, mesmo parado, veria artifício; mas, se o visse moendo, teria a certeza de que havia uma mão na manivela, ainda que em outro aposento. O mesmo se dá na natureza. Nas obras da natureza descobrimos mecanismo, e só isso já prova artifício; mas a natureza viva, ativa, móvel e produtiva prova também o exercício de um poder no centro, pois onde quer que o poder resida, esse lugar pode ser chamado de centro.

“A intervenção e a disposição do que se chama ‘causas segundas’ estão sujeitas à mesma observação. Essa disposição é ou não é mecanismo conforme possamos ou não descobri-la por nossos sentidos e meios de exame. Toda a diferença é essa; e é uma diferença que diz respeito às nossas faculdades, não às coisas em si. Ora, onde a ordem das causas segundas é mecânica, o que aqui se diz do mecanismo aplica-se a ela estritamente. Mas seria sempre mecanismo (a química natural, por exemplo, seria mecanismo) se os nossos sentidos fossem bastante agudos para percebê-lo. Portanto, nem o mecanismo nas obras da natureza, nem a intervenção do que se chama causas segundas (pois penso que são a mesma coisa), dispensam a necessidade de um agente distinto de ambos.

“Se se disser que, ao rastrear essas causas, encontramos certas propriedades gerais da matéria que nada têm em si que denote inteligência, respondo que, ainda assim, a administração dessas propriedades, o apontá-las e dirigi-las para os usos que delas vemos fazer, exige inteligência no mais alto grau. Por exemplo, suponhamos que as secreções animais sejam atrações eletivas e que tais e tais atrações pertençam universalmente a tais e tais substâncias, em tudo o que não intervém intelecto algum; ainda assim, a escolha e a disposição dessas substâncias, a determinação das substâncias certas e a sua colocação nos lugares certos, tem de ser um ato de inteligência. Que dano se seguiria se houvesse uma única transposição dos órgãos secretores, um único erro na disposição das glândulas que os compõem!

“Pode haver muitas causas segundas, e muitas séries de causas segundas, uma por trás da outra, entre o que observamos da natureza e a Divindade; mas tem de haver inteligência em algum lugar; tem de haver na natureza mais do que aquilo que vemos; e, entre as coisas não vistas, tem de haver um autor inteligente, que planeja. O filósofo contempla com espanto a produção das coisas à sua volta. Partículas inconscientes de matéria tomam os seus postos e se dispõem, cada uma por si, numa ordem tal que vêm a ser coletivamente plantas ou animais, isto é, corpos organizados, com partes que guardam relação estrita e evidente umas com as outras e com a utilidade do todo; e parece que essas partículas não poderiam mover-se de outro modo senão como se movem, pois não dão o menor sinal de escolha, de liberdade ou de discernimento. Pode haver seres inteligentes particulares guiando esses movimentos em cada caso; ou eles podem ser o resultado de séries de disposições mecânicas, fixadas de antemão por uma determinação inteligente e mantidas em ação por um poder no centro. Mas, em qualquer dos casos, tem de haver inteligência.”

Os argumentos acima, assim como confirmam de modo irresistível a doutrina bíblica da existência de uma Causa Primeira inteligente, expõem a extrema insensatez e o absurdo do ateísmo. A primeira das principais teorias que ele assumiu é a eternidade da matéria. Quando isso significa a eternidade do mundo em sua forma e constituição atuais, é contradito pelas mudanças que de fato ocorrem nele a cada momento e, como se argumentou acima, pelo artifício que ele apresenta em toda parte e que, conforme se provou, supõe necessariamente aquela inteligência planejadora a que chamamos Deus. Quando significa apenas a eternidade da matéria não organizada, o substrato que recebeu aquelas diversas formas e disposições ordenadas que implicam artifício e causas finais, deixa intacta a questão de uma causa inteligente, autora das formas que nela foram impressas. Uma causa criadora pode existir, e precisa existir, mesmo assim; e essa era a opinião de muitos dos antigos filósofos teístas, que atribuíam eternidade tanto a Deus quanto à matéria e consideravam a criação não como o trazer algo à existência a partir do nada, mas como o dar forma àquilo que já existia sem ordem e sem finalidade. Mas, embora essa doutrina tenha sido sustentada, juntamente com a crença na Divindade, por muitos que não tinham a luz da revelação bíblica, a sua tendência evidente é para o ateísmo, porque supõe a impossibilidade da criação em sentido absoluto e assim produz noções limitadas de Deus, das quais a passagem para a negação completa dele é um passo fácil. Nos tempos modernos, portanto, a opinião da eternidade da matéria tem sido sustentada por poucos, além dos ateus declarados.

O que parece ter levado à noção de uma matéria preexistente e eterna, da qual o mundo teria sido formado, foi a suposta impossibilidade de uma criação a partir do nada, segundo a máxima ex nihilo nihil fit (do nada, nada se faz). Essa filosofia, porém, era má, porque, não havendo contradição alguma em atribuir a Deus o poder de criar a partir do nada, a questão era de escolha: admitir aquilo que simplesmente não é compreensível ao homem, ou impor sem razão limites ao poder de Deus. Assim diz Cudworth:

“Porque é inegavelmente certo, a respeito de nós mesmos e de todos os seres imperfeitos, que nenhum deles pode criar uma substância nova, os homens tendem a medir todas as coisas pela sua própria bitola e a supor que é universalmente impossível a qualquer poder, seja qual for, criar desse modo. Mas, como é certo que os próprios seres imperfeitos podem produzir algumas coisas a partir de nada preexistente, como novos pensamentos, novo movimento local e novas modificações das coisas corpóreas, é sem dúvida razoável pensar que um ser absolutamente perfeito possa fazer algo mais, isto é, criar novas substâncias, ou dar-lhes o seu ser inteiro. E bem se pode pensar que é tão fácil para Deus, ou para um Ser onipotente, fazer um mundo inteiro, matéria e tudo, ἐξ οὐκ ὄντων [N. do T.: “a partir do que não existe”], quanto é para nós criar um pensamento ou mover um dedo, ou para o sol emitir raios, ou para uma vela emitir luz, ou, por fim, para um corpo opaco produzir uma imagem de si mesmo num espelho ou na água, ou projetar uma sombra: todas essas coisas imperfeitas não sendo mais do que as energias, os raios, as imagens ou as sombras da Divindade. Que uma substância seja feita do nada por Deus, ou por um Ser infinitamente perfeito, não é ser feita do nada no sentido impossível, porque procede daquele que é tudo. Nem se pode dizer que seja impossível que qualquer coisa seja feita por aquele que tem não só uma perfeição infinitamente maior, mas também um poder ativo infinito. É verdade, sem dúvida, que o próprio poder infinito não pode fazer coisas impossíveis por sua própria natureza; e, portanto, os que negam a criação deveriam provar que é absolutamente impossível que uma substância, embora não um acidente ou modificação, seja trazida da não existência ao ser. Mas nada é impossível em si mesmo, a não ser o que implica contradição; e, embora seja contraditório que uma coisa seja e não seja ao mesmo tempo, certamente não há contradição em conceber que um ser imperfeito, que antes não existia, venha depois a existir.”

Não é necessário recorrer aos argumentos metafísicos habituais para mostrar que a matéria não é eterna, provando que a sua existência teria de ser necessária se ela fosse eterna e que, se fosse necessária, teria de ser infinita etc. Eles não têm muito valor. Todo homem traz em si mesmo a prova de uma criação a partir do nada, de modo que a objeção tirada da impossibilidade da coisa fica imediatamente afastada.

“Que a sensação, a inteligência, a consciência e a volição não são o resultado de nenhuma modificação de forma e movimento é uma verdade tão evidente quanto a de que a consciência não é veloz nem a volição é quadrada. Se, então, esses são os poderes ou propriedades de um ser distinto da matéria, o que julgamos capaz da prova mais completa, todo homem que não crê que a sua mente tenha existido e estado consciente desde a eternidade tem de convencer-se de que o poder da criação foi exercido sobre ele mesmo. Se se negar que haja no homem alguma substância imaterial, ainda assim é preciso confessar que, como a matéria não é essencialmente consciente e não pode tornar-se consciente por nenhuma organização particular, há alguma coisa ou entidade real, chame-se como se quiser, que ou existiu e esteve consciente desde a eternidade, ou foi trazida no tempo da não entidade à existência por um exercício de poder infinito.”

A primeira hipótese, nenhuma pessoa sensata a defenderá; portanto, a segunda tem de ser admitida.

Com base nisso, o absurdo do ateísmo é manifesto. Se ele atribui as diversas disposições das coisas materiais ao acaso, isto é, ao nada, ele se detém no desígnio sem autor do desígnio, em efeitos sem causa. Se admite uma causa inteligente que atua para produzir esses efeitos, mas nega que ela seja todo-poderosa, atribuindo eternidade à matéria e pondo a criação desta fora do seu poder, reconhece conosco, é verdade, um Deus; mas faz dele um ser imperfeito, limitado em seu poder; e escolhe reconhecer esse ser limitado e imperfeito não só sem razão, pois acabamos de ver que a criação a partir do nada não implica contradição, mas até contra a razão, pois o reconhecimento de uma criação a partir do nada há de ser arrancado ao ateu pela sua própria experiência, a menos que ele queira sustentar que o próprio ser consciente que ele é possa ter existido desde a eternidade sem ter consciência de sua existência, a não ser pelo espaço de uns poucos anos passados.

Sobre alguns sistemas modernos de ateísmo, Paley observa com justiça: “Duvido muito que os novos sistemas tenham avançado alguma coisa em relação aos antigos, ou tenham feito mais do que mudar os termos da nomenclatura. Por exemplo, nunca consegui ver a diferença entre o antiquado sistema dos átomos e as moléculas orgânicas de Buffon. Esse filósofo, depois de fazer um planeta arrancando do sol um pedaço de vidro derretido em consequência do choque de um cometa, e de pô-lo em movimento pelo mesmo choque, tanto em torno do seu próprio eixo quanto em torno do sol, acha que a sua dificuldade seguinte é como trazer plantas e animais para ele. Para resolver essa dificuldade, devemos supor o universo repleto de partículas dotadas de vida, mas sem organização nem sentidos próprios, e dotadas também de uma tendência a ordenar-se em formas organizadas. O concurso dessas partículas, em virtude dessa tendência, mas sem inteligência, vontade ou direção (pois não encontro que nenhuma dessas qualidades lhes seja atribuída), produziu as formas vivas que agora vemos.

“Pouquíssimas das conjeturas que os filósofos arriscam sobre esses assuntos têm mais pretensão do que a de desafiar-nos a mostrar a impossibilidade direta da hipótese. No presente exemplo, parecia haver uma objeção positiva a todo o sistema logo à primeira vista: se o caso fosse como aqui se representa, novas combinações deveriam estar ocorrendo perpetuamente; novas plantas e animais, ou corpos organizados que não fossem nem uma coisa nem outra, deveriam estar surgindo diante dos nossos olhos todos os dias. Para isso, porém, o nosso filósofo tem uma resposta. Enquanto tantas formas de plantas e animais já existem e, por conseguinte, tantos ‘moldes internos’, como ele os chama, estão preparados e à mão, as partículas orgânicas correm para esses moldes e são empregadas em fornecer-lhes um acréscimo de substância, tanto para o seu crescimento quanto para a sua propagação, e por esse meio as coisas seguem o seu curso antigo. Mas, diz o mesmo filósofo, se ocorresse uma perda ou destruição geral da atual constituição dos corpos organizados, as partículas, por falta de ‘moldes’ em que pudessem entrar, correriam para combinações diferentes e supririam a perda com novas espécies de substâncias organizadas.

“Há alguma história que apoie essa noção? Sabe-se de alguma destruição que tenha sido assim reparada? De algum deserto assim repovoado?

“Mas esses instrumentos que fazem maravilhas, esses ‘moldes internos’, que são eles, afinal? Que são, quando examinados, senão um nome sem significação, ininteligível, se não contraditório em si mesmo; na melhor das hipóteses, em nada diferente das ‘formas essenciais’ da filosofia grega? Uma frase curta das obras de Buffon expõe o seu sistema assim: ‘Quando essa matéria nutritiva e prolífica, que está difundida por toda a natureza, passa pelo molde interno de um animal ou de um vegetal e encontra uma matriz ou receptáculo adequado, dá origem a um animal ou vegetal da mesma espécie.’ Algum leitor atribui um sentido à expressão ‘molde interno’ nessa frase? Deveria então dizer-se que, embora tenhamos pouca noção de um molde interno, não temos muito mais de uma mente que planeja? A verdade é exatamente o contrário dessa afirmação. Quando falamos de um artífice ou de um arquiteto, falamos de algo compreensível ao nosso entendimento e familiar à nossa experiência. Não usamos outros termos senão os que nos remetem, quanto ao seu significado, à nossa consciência e observação, os que exprimem os objetos constantes de ambas; ao passo que nomes como o que mencionamos não nos remetem a nada, não despertam nenhuma ideia; levam um som ao ouvido, mas creio que não fazem mais do que isso.

“Outro sistema, apresentado recentemente e com muito engenho, é o das apetências. O princípio, e o breve resumo da teoria, é este: pedaços de matéria mole e dúctil, dotados de propensões ou apetências para ações particulares, iriam, por esforços contínuos, prolongados ao longo de uma extensa série de gerações, moldar-se gradualmente em formas adequadas e adquirir por fim, ainda que talvez por aperfeiçoamentos obscuros e quase imperceptíveis, uma organização apropriada à ação que as suas respectivas propensões as levavam a exercer. Um pedaço de matéria animada, por exemplo, que fosse dotado de uma propensão a voar, por mais informe que fosse, ainda que, suponhamos, não passasse de uma bola redonda no começo, adquiriria asas no curso das eras, se não em um milhão de anos, talvez em cem milhões de anos (pois os nossos teóricos, tendo a eternidade à sua disposição, nunca economizam tempo). A mesma tendência à locomoção num animal aquático, ou antes num bocado animado que porventura estivesse cercado de água, terminaria na produção de barbatanas; numa substância viva confinada à terra firme, faria brotar pernas e pés; ou, se tomasse outro rumo, dividiria o corpo em anéis e acabaria rastejando pelo chão.

“O sistema em exame está sujeito à mesma objeção que outras conjeturas de tendência semelhante, a saber, uma falta total de provas. Nenhuma mudança como as que a teoria exige jamais foi observada. Todas as mudanças das Metamorfoses de Ovídio poderiam ter sido produzidas por essas apetências, se a teoria fosse verdadeira; e, no entanto, não se oferece um único exemplo, nem sequer a pretensão de um exemplo, de que se saiba ter ocorrido uma só mudança.

“A solução, quando aplicada às obras da natureza em geral, é contradita por muitos dos fenômenos e totalmente insuficiente para outros. Os ligamentos ou cintas pelos quais os tendões são presos nos ângulos das articulações não poderiam de modo algum ser formados pelo movimento ou exercício dos próprios tendões, por alguma apetência que excitasse essas partes à ação, ou por alguma tendência daí resultante. A tendência é toda no sentido oposto; o esforço está em constante oposição a eles. O longo tempo não ajuda em nada o caso; ao contrário. Também as válvulas dos vasos sanguíneos nunca poderiam ser formadas da maneira que o nosso teórico propõe. O sangue, em seu curso correto e natural, não tem nenhuma tendência a formá-las. Quando obstruído ou refluente, tem a tendência contrária. Essas partes não poderiam crescer a partir do seu uso, ainda que tivessem a eternidade para crescer.

“Os sentidos dos animais parecem-me inteiramente incapazes de receber a explicação de sua origem que essa teoria oferece. Incluindo na palavra ‘sentido’ o órgão e a percepção, não temos explicação de nenhum dos dois. Como o nosso filósofo chegará à visão, ou fará um olho? Como o animal cego aspiraria à vista, da qual os animais cegos, como sabemos, não têm nem concepção nem desejo? E, aspirando a ela, por que operação de sua vontade, por que esforço para ver, poderia ele determinar de tal modo os fluidos do seu corpo que desse início à formação de um olho? Ou, supondo formado o olho, seguir-se-ia a percepção? O mesmo vale para os outros sentidos. E essa objeção conserva a sua força, atribua-se o que se quiser à mão do tempo, ao poder do hábito, a mudanças lentas demais para serem observadas pelo homem ou postas sob qualquer comparação que ele seja capaz de fazer entre as coisas passadas e as presentes: conceda-se o que se quiser a essas suposições arbitrárias e sem testemunho, em que elas ajudarão? Aqui não há começo. Nenhuma lei, nenhum curso, nenhum poder da natureza que hoje prevaleça, nem nenhum análogo a eles, poderia dar início a um novo sentido. E é inútil indagar como prosseguiria aquilo que nunca poderia começar.

“Em último lugar: que significam essas apetências quando aplicadas às plantas? Não consigo dar ao termo uma significação que possa ser transferida dos animais para as plantas, ou que seja comum a ambos. E, no entanto, encontra-se nas plantas uma organização não menos bem-sucedida do que a que existe nos animais. Requer-se uma solução tanto para umas quanto para os outros.

“Em suma: depois de todos os sistemas e esforços de uma filosofia relutante, o recurso necessário é uma Divindade. As marcas de desígnio são fortes demais para serem superadas. O desígnio tem de ter tido um autor. Esse autor tem de ter sido uma pessoa. Essa pessoa é Deus.”

Bem se disse que o ateísmo é, em todas as suas teorias, uma credulidade da espécie mais grosseira, igualmente degradante para o entendimento e para o coração. Pois que mente reflexiva e honesta pode, por um momento sequer, pôr essas teorias em competição com a teoria revelada nas Escrituras, ao mesmo tempo tão sublime e tão convincente; a qual, em vez de fugir, como as que acabamos de mencionar, de um apelo aos fatos, nos manda olhar para os céus e para a terra, reunir o conjunto dos seres, grandes e pequenos, examinar a sua estrutura e notar as suas relações, como prova de que tem de existir um Criador todo-sábio e todo-poderoso?

Tal é a prova que a doutrina de uma Divindade recebe da experiência, da observação e da indução racional, a posteriori. O argumento assim exposto tem força esmagadora e certamente não precisa de nenhum outro, embora se tenha tentado obter uma prova a priori e, assim, enfrentar e derrotar as forças do inimigo nas duas direções. Não há registro, creio eu, de nenhuma conversão de ateu produzida por esse procedimento, e ele pode ser contado entre as tentativas excessivamente zelosas dos defensores da verdade. É bem-intencionado, mas insatisfatório; e, na medida em que, de um lado, levou ao descuido do curso de argumentação mais convincente e poderoso tirado “do visível” (cf. Hb 11.3) e, de outro, estimulou a confiança num modo de investigação para o qual a mente humana é insuficiente, que em muitos casos é uma completa ilusão mental e que dificilmente duas mentes conduzirão da mesma maneira, provavelmente teve efeitos nocivos, ao induzir um ceticismo que não nasce da natureza do caso, mas das investigações imperfeitas e insatisfatórias do entendimento humano, levado além do limite de suas forças. Na maioria dos casos, é uma espada de dois gumes; e as suposições meramente imaginárias dos que pensam ter descoberto um novo modo de demonstrar a verdade, em muitos casos, ou lhe prestaram um desserviço pelo absurdo, ou forneceram princípios que os incrédulos ligaram às conclusões mais danosas. Basta citar como exemplo a doutrina da existência necessária da Divindade, quando raciocinada a priori. Alguns incrédulos perspicazes agradeceram a descoberta aos que nada pretendiam menos do que favorecer o erro, e argumentaram, a partir dessa noção, que o Ser Supremo não pode ser um agente livre, pondo assim os primeiros princípios da religião em desacordo com as Escrituras. O fato parece ser que, embora, uma vez estabelecida a existência de uma causa primeira e inteligente, alguns dos seus atributos sejam passíveis de prova a priori (quanto vale essa prova é outra questão), a sua própria existência não admite tal demonstração, e que, pela natureza da coisa, isso é impossível.

A razão disso tira-se da própria natureza de um argumento a priori. Ele é um argumento do antecedente para o consequente, da causa para o efeito. Se, portanto, existe na natureza alguma coisa, ou poderia ter existido, da qual o ser e os atributos de Deus pudessem ser derivados, ou alguma coisa que possa com justiça ser considerada anterior, na ordem da natureza ou da concepção, à causa primeira de todas as coisas, então o argumento tirado dessa coisa ou princípio anterior pode ser bom e válido. Mas, se na realidade não há nada anterior ao ser de Deus, considerado como causa e causalidade primeira, nada na natureza, nada na razão, então é inútil a tentativa de argumentar a partir disso; e pretendemos indevidamente investigar os fundamentos ou razões da causa primeira, a respeito da qual, antecedentemente, nada sabemos nem podemos saber.

Como, porém, a força do argumento a priori tem sido muito debatida, talvez não seja inútil entrar um pouco mais a fundo no assunto.

Um dos primeiros e mais hábeis defensores desse modo de demonstrar a existência de Deus foi o dr. Samuel Clarke. Ele, contudo, procede primeiro a posteriori, provando, a partir da existência real de seres dependentes, a existência desde a eternidade de “um Ser imutável e independente”; e assim se torna devedor dessa demonstração evidente e simples antes de poder provar que esse Ser é, no sentido dele, de existência necessária. Reconhece-se, portanto, tacitamente que a necessidade de existência não é, num primeiro momento, uma ideia palpável; e confessa-se tacitamente que o peso da prova repousa sobre o argumento do efeito para a causa, o qual, se admitido, não precisa da ajuda de um modo de argumentar mais abstrato. Pois, se o primeiro argumento for aceito, tudo o mais se segue; e ele tem de ser aceito antes que se possa tomar o terreno mais elevado da demonstração. Vimos a maneira cautelosa com que Howe, na citação feita anteriormente, expôs a noção da existência necessária do Ser Divino. O dr. S. Clarke e os seus seguidores refinaram isso e deram ao assunto uma feição sujeita às mais fortes objeções. Estas são as palavras dele: “Ser autoexistente é existir por uma necessidade absoluta, originariamente na natureza da própria coisa”; e “essa necessidade não deve ser simplesmente consequente à nossa suposição da existência de tal ser, pois então não seria uma necessidade absoluta em si mesma, nem seria o fundamento ou a base da existência de coisa alguma, sendo, ao contrário, apenas uma consequência dela; mas deve impor-se a nós antecedentemente, queiramos ou não, mesmo quando nos esforçamos por supor que tal ser não existe” (Demonstration, 1).

Uma das razões dadas para essa opinião é que “tem de haver na natureza um fundamento ou razão permanente da existência da causa primeira; do contrário, o seu ser seria devido ao mero acaso”. Mas a isso se respondeu bem: “Por que temos de dizer que Deus tem a sua existência a partir de alguma causa ou razão anterior, ou que existe por ela? Por que não podemos dizer que Deus existe como a causa primeira de todas as coisas e, com isso, cessar todas as indagações ulteriores? O próprio Deus disse ‘Eu Sou’ (Êx 3.14), e nada mais acrescentou. Mas o argumento, se provasse alguma coisa, provaria demais. Para demonstrá-lo, aplique-se o mesmo modo de raciocinar àquilo que vocês chamam de fundamento ou razão da existência da causa primeira, e então, com pouquíssima variação, devolvo-lhes as suas próprias palavras. Se esse fundamento ou razão é ele mesmo alguma coisa, ou alguma propriedade de alguma coisa, de qualquer natureza, espécie ou grau que seja, tem de haver, segundo o modo de raciocinar de vocês, um fundamento ou razão na natureza para a existência dessa necessidade antecedente, ‘uma razão por que ela é, em vez de não ser; do contrário, a sua existência será devida ao mero acaso, ou dependerá dele’. Vocês observam em outro lugar que ‘nada pode ser mais absurdo do que supor que alguma coisa, ou alguma circunstância de alguma coisa, existe, e que, no entanto, não há absolutamente nenhuma razão por que ela é, em vez de não ser’. Essa consideração vocês a alegam para justificar o fato de atribuírem uma razão, a priori, à existência da causa primeira. Se, portanto, a suposta razão, fundamento ou necessidade de vocês é ‘alguma coisa, ou alguma circunstância supostamente atribuível a alguma coisa’, como certamente tem de ser, se não for um mero nada, então, pela mesma regra, tal ‘fundamento’, ‘necessidade’ etc. tem de ter uma razão, a priori, por que é, em vez de não ser; e depois dessa, outra; e depois uma terceira, e assim por diante, in infinitum (ao infinito). E assim, à maneira de vocês, poderíamos estar sempre procurando uma causa primeira sem jamais conseguir encontrar uma em que nos fixar, ou com que pôr fim às nossas indagações inquietas e inúteis. Enquanto, de fato, consideramos apenas as existências inferiores e as causas segundas, sempre haverá espaço para perguntar por que tais coisas existem e como vieram a ser como são, porque isso é apenas buscar e investigar a causa inicial, a eficiente ou a final da sua existência. Mas, quando avançamos para além de todas as causas procatárticas e finais [N. do T.: procatártica, termo antigo para a causa que dá início a um efeito], resta apenas dizer que tal é a nossa causa e causalidade primeira, que sabemos que ela existe, e sem causa anterior; e com isso vocês mesmos serão obrigados a concordar ao primeiro passo que derem adiante, pois, se lhes perguntarmos de onde vem a necessidade antecedente e que fundamento anterior houve para ela, vocês mesmos terão de contentar-se em dizer: assim é, não sabem por quê, não sabem como.” (Gretton, Review of the Argument a priori.)

A existência necessária da causa primeira, considerada como necessidade lógica, pode ser estabelecida sem dificuldade e de fato está demonstrada nos argumentos dados acima; mas a necessidade natural da sua existência é um assunto sutil demais para o alcance humano e, por sua obscuridade, presta-se a induzir ao erro. Tudo o que há de importante nessa ideia, na medida em que é irrepreensível, está bem e seguramente expresso por Baxter: “Aquilo que pôde existir eternamente sem causa e ser ele próprio a causa de todas as coisas é autossuficiente e independente” (Reasons of the Christian Religion). Essa parece ser a única noção verdadeira de existência necessária, e deve-se ter o cuidado de usar o termo num sentido definido e compreensível. A palavra necessidade, quando aplicada à existência, pode ser tomada em duas acepções: ou conforme nasce da relação que a existência daquilo de que se afirma tem com a existência de outras coisas, ou conforme nasce da relação que a existência real dessa coisa tem com o modo de sua própria existência. No primeiro sentido, significa que a suposição da não existência daquilo de que se afirma a necessidade implica a não existência de coisas que sabemos existir. Assim, algum ser independente existe necessariamente, porque supor que não há nenhum ser independente implica que não há seres dependentes, e sabemos que o contrário é verdadeiro. No segundo sentido, necessidade significa que o ser do qual ela se afirma existe de tal maneira que nunca poderia ter sido inexistente no passado, nem pode deixar de ser no tempo futuro. Assim, todo ser independente, visto que existe sem causa, existe necessariamente, porque a existência é essencial a tal ser, de modo que ele nunca poderia começar a existir e nunca pode deixar de ser. Pois supor que um ser comece a existir, ou perca a sua existência, é supor uma mudança da não entidade para a entidade, ou vice-versa; e supor tal mudança é supor uma causa da qual esse ser depende. Todo ser, portanto, que é independente, isto é, que não teve causa de sua existência, tem de existir necessariamente e não pode de modo algum ter começado a existir no tempo passado, nem deixar de ser no tempo futuro.

Ainda sobre a concepção do dr. S. Clarke a respeito da existência necessária do Ser Supremo, observou-se o seguinte:

“Mas que necessidade é essa que prova tanto? É o fundamento da existência (diz ele) daquilo que existe por si mesmo; e, se é assim, ela tem de ser, na ordem da natureza e em nossas concepções, anterior ao ser de cuja existência é o fundamento. A respeito de tal princípio, só se podem fazer três suposições, e todas elas podem ser mostradas absurdas e contraditórias. Podemos supor que esse fundamento antecedente da existência, anterior na ordem da natureza à causa primeira, seja ou a própria substância, ou alguma propriedade dessa substância, ou algo extrínseco a ambas.

“Pelo rumo do argumento, que aqui representa essa necessidade antecedente como eficiente e causal, poder-se-ia pensar que ela fosse considerada algo extrínseco à causa primeira. De fato, se as palavras têm algum sentido ou alguma força de argumento, têm de ser entendidas assim, exatamente como as entendemos de qualquer causa externa que produz o seu efeito. Mas, como um princípio extrínseco é absurdo em si mesmo e, além disso, é rejeitado pelo dr. S. Clarke, que diz expressamente que ‘na coisa que não deriva o seu ser de nenhuma outra coisa, essa necessidade ou fundamento da existência tem de estar na própria coisa’, não precisamos dizer mais nada sobre a última dessas suposições.

“Consideremos, então, a primeira; tomemos a própria substância e vejamos se ela pode ser concebida como anterior ou antecedente a si mesma em nossas concepções ou na ordem da natureza. Certamente não precisamos observar que nada pode ser mais absurdo ou contraditório do que tal suposição. O próprio dr. S. Clarke afirma repetidas vezes, e seria de fato estranho que não o afirmasse, que nenhum ser, nenhuma coisa, seja qual for, pode ser concebida como de algum modo anterior à causa primeira.

“A única suposição que resta é que algum atributo ou propriedade do ser autoexistente possa ser concebido como antecedente a esse ser na ordem da natureza. Mas isso é, se possível, mais absurdo do que qualquer das duas suposições anteriores. Um atributo é atribuído ao seu sujeito como ao seu fundamento ou suporte, e não o sujeito ao seu atributo. Uma propriedade, pela própria noção que dela se tem, é própria da substância a que pertence e posterior a ela, tanto em nossas concepções quanto na ordem da natureza. Um atributo antecedente, ou uma propriedade antecedente, é um solecismo tão grande e uma contradição tão flagrante quanto um antecedente posterior ou um posterior antecedente, entendidos no mesmo sentido e no mesmo silogismo. Toda propriedade ou atributo, como tal, pressupõe o seu sujeito, e não pode ser entendido de outro modo. Essa é uma verdade tão evidente e tão contundente que às vezes arranca o assentimento até daqueles que, em outras ocasiões, se esforçam por obscurecê-la. O dr. S. Clarke confessa que ‘o modo escolástico de provar a existência do ser autoexistente a partir da perfeição absoluta de sua natureza é ὕστερον πρότερον [N. do T.: “o posterior antes do anterior”, isto é, inversão da ordem lógica]. Pois todas ou quaisquer perfeições (diz ele) pressupõem a existência, o que é uma petitio principii (petição de princípio).’ Se, portanto, as propriedades, os modos ou os atributos em Deus são considerados perfeições (e é impossível considerá-los qualquer outra coisa), então, por essa confissão do próprio grande autor, todos ou qualquer deles têm de pressupor a existência. É verdade que logo em seguida, no mesmo lugar, se acrescenta ‘que a simples necessidade de existência não pressupõe, mas infere a existência’; o que só é verdadeiro se tal necessidade for suposta um princípio extrínseco, cujo absurdo já foi mostrado e é, de fato, universalmente reconhecido. Se for um modo ou propriedade, tem de pressupor a existência do seu sujeito, tão certa e tão evidentemente quanto é um modo ou uma propriedade. Talvez pudesse, a posteriori, inferir a existência do seu sujeito, como os efeitos podem inferir uma causa; mas que o inferisse no outro sentido, a priori, é tão inteiramente impossível quanto um triângulo ser um quadrado, ou uma esfera um paralelogramo.” (Law, Inquiry.)

A verdadeira ideia da existência necessária de Deus é que ele existe assim porque é da sua natureza, como ser independente e incausado, existir; o seu ser é necessário porque não é derivado, e não é não derivado porque é necessário. A primeira é a acepção sóbria da palavra entre os nossos antigos teólogos; a segunda é uma teoria de data moderna, que não leva a nenhum resultado prático, exceto enredar a mente em dificuldades e dar aparência de verdade a alguns erros muito danosos.

Igualmente insatisfatório, e portanto tão pouco apropriado para servir à causa da verdade, é o argumento tirado do espaço, que Newton, Clarke e outros apresentam como o modo infinito de uma substância infinita, sendo essa substância Deus, de sorte que da existência do próprio espaço se poderia deduzir a existência de um Ser supremo e infinito. Berkeley, Law e outros, porém, mostraram a falácia de considerar o espaço uma substância ou um modo, submeteram essas especulações ao domínio do bom senso e as resgataram da ilusão metafísica. Observaram com razão que o espaço é uma mera negação, e que supor que ele tem existência porque tem algumas propriedades, por exemplo, a penetrabilidade ou a capacidade de receber corpos, é o mesmo que afirmar que a escuridão tem de ser alguma coisa porque tem a capacidade de receber luz, e o silêncio alguma coisa porque tem a propriedade de admitir som, e a ausência porque tem a propriedade de ser suprida pela presença. Raciocinar dessa maneira é atribuir negações absolutas, que do mesmo modo podem ser aplicadas ao nada, e depois chamá-las propriedades positivas, e assim inferir que a quimera, revestida delas, tem forçosamente de ser alguma coisa. Os argumentos em favor da existência real do espaço como algo positivo fracassaram nas mãos dos seus primeiros grandes autores, e as tentativas feitas desde então para sustentá-los nada acrescentaram senão o que é extremamente fútil e, de fato, muitas vezes manifestamente absurdo. Toda essa controvérsia só nos deixou a lamentar o desperdício de trabalho empregado em erguer, em torno das muralhas inexpugnáveis dos grandes argumentos sobre os quais a causa repousa com tanta segurança, os estorvos inúteis de barro e palha.

A prova da existência de Deus repousa, então, inteiramente sobre argumentos a posteriori, e não precisa de nenhum outro; embora vejamos, à medida que avançarmos, que mesmo esses argumentos, fortes e irrefutáveis como são quando corretamente aplicados, têm sido usados para provar, quanto a alguns dos atributos de Deus, mais do que deles se pode extrair satisfatoriamente. Mesmo tendo à nossa disposição esse processo de raciocínio seguro e convincente, veremos, a cada passo de uma investigação sobre a natureza divina, a nossa inteira dependência da revelação divina como luz primária. É ela que deve tanto dar início às nossas investigações quanto conduzi-las a um resultado satisfatório.

Notas de Richard Watson

1. “Poucos, se é que algum, dos antigos filósofos pagãos reconheceram Deus como, no sentido mais próprio, o Criador do mundo. Ao chamá-lo Δημιουργός, ‘o Fazedor do mundo’, não queriam dizer que ele o tivesse trazido da não existência ao ser, mas apenas que o construiu a partir de materiais preexistentes e o dispôs numa forma e ordem regulares.” Vejam-se provas e ilustrações abundantes no cap. 13, parte I, da Necessity of Revelation de Leland. ↩

2. “Digam aos homens que há um Deus, e a mente deles o abraça como uma verdade necessária; exponham os seus atributos, e eles verão a explicação deles em suas obras. Quando o fundamento está posto, seguro e firme, de que há um Deus, de que a vontade dele é a causa de todas as coisas e de que nada foi feito senão por sua especial determinação e ordem, então a ordem dos seres encherá a mente deles de um devido senso da Majestade divina, e poderá servir-lhes de escada para elevar concepções mais justas daquilo que é imortal e invisível.” (Ellis, Knowledge of Divine Things.) ↩

3. A linguagem de todas as nações se forma sobre a conexão entre causa e efeito. Pois em todas as línguas não só há muitas palavras que exprimem diretamente ideias relativas a esse assunto, como causa, eficiência, efeito, produção, produzir, efetuar, criar, gerar etc., ou palavras equivalentes a essas, mas todo verbo em toda língua, exceto os verbos intransitivos impessoais e o verbo substantivo, envolve naturalmente causalidade ou eficiência e se refere sempre a um agente ou causa, de tal maneira que, sem a operação dessa causa ou agente, o verbo não teria sentido. Toda a humanidade, exceto uns poucos filósofos ateus e céticos, concordou assim em reconhecer essa conexão; e esses mesmos a reconheceram tão plenamente quanto os outros em sua linguagem habitual. Falaram exatamente como os outros homens falam, e a conexão entre causa e efeito é declarada em suas conversas e escritos tantas vezes, e com tanta confiança, quanto nos dos outros homens. (Dwight, Theology, vol. 1, p. 5.) ↩

4. A noção de uma série infinita de seres causados e sucessivos é absurda; pois, dessa série infinita, ou alguma parte não foi sucessiva a nenhuma outra, ou então todas as diversas partes dela foram sucessivas. Se alguma parte dela não foi sucessiva, então ela teve uma primeira parte, o que destrói a suposição de sua infinidade. Se todas as diversas partes dela foram sucessivas, então todas elas foram futuras em algum momento; mas, se todas foram futuras, pode-se conceber um tempo em que nenhuma delas tinha existência; e, se é assim, segue-se ou que todas as partes, e por conseguinte o todo dessa série infinita, tiveram de surgir do nada, o que é absurdo, ou então que tem de haver no todo alguma coisa além do que está contido em todas as partes, o que também é absurdo. Vejam-se a Demonstration de Clarke e a Religion of Nature de Woolaston. “Uma corrente”, diz o dr. Paley, “composta de um número infinito de elos, não pode sustentar-se a si mesma mais do que uma corrente composta de um número finito de elos. Se aumentarmos o número de elos de dez para cem, e de cem para mil etc., não fazemos a menor aproximação, não observamos a menor tendência para a autossustentação.” ↩

5. “Reconhecemos uma impropriedade nesta palavra e em sua cognata, autoriginado, por vezes usada daqui em diante; impropriedade que, no entanto, é compensada pela sua conveniência, como talvez descubram os que tentarem exprimir com outras palavras o sentido pretendido por elas. E são usadas sem receio de que se possa pensar que pretendem significar que Deus alguma vez tenha dado origem a si mesmo, mas no sentido negativo de que ele nunca a recebeu de nenhum outro; sim, e de que ele é aquilo que é mais do que equivalente a ser causado por si mesmo, a saber, um Ser em si mesmo tão excelente que não necessita nem é capaz de admitir causa alguma.” ↩

6. Vejam-se Boyle, On Final Causes; Ray, Wisdom of God in the Creation; Derham, Astro-Theology e Physico-Theology; Sturm, Reflections; Paley, Natural Theology etc. ↩

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Richard Watson, Theological Institutes; or, A View of the Evidences, Doctrines, Morals, and Institutions of Christianity (Londres, 1823-1829), conferido com a edição de Nova York (Lane & Scott, 1850-1851). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).