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Parte II · Capítulo VI

Atributos de Deus: a bondade

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A bondade, quando considerada como atributo distinto de Deus, não é tomada no sentido de retidão universal, mas significa benevolência, isto é, a disposição de comunicar felicidade. A partir de um princípio interior de boa vontade, Deus emprega a sua onipotência em difundir felicidade por todo o universo, na devida proporção, segundo as diferentes capacidades com que dotou as suas criaturas e segundo a direção da mais perfeita sabedoria. “Tu és bom e fazes o bem” (Sl 119.68). “Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm lá do alto, descendo do Pai das luzes” (Tg 1.17). “Deem graças ao Senhor, porque ele é bom, porque a sua misericórdia dura para sempre” (Sl 106.1).

Essa visão do caráter divino nas Santas Escrituras traz em si algumas particularidades importantes, muitas vezes despercebidas, mas que conferem singular glória à revelação que elas fazem de Deus.

A bondade em Deus é apresentada como bondade de natureza, como uma de suas perfeições essenciais, e não como um afeto acidental ou ocasional. Com isso ele é posto infinitamente acima dos deuses dos pagãos, aquelas criações imaginárias das imaginações pervertidas de homens corruptos, cuja benevolência era ocasional, limitada e sujeita a ser perturbada por paixões contrárias.

Tais eram as melhores concepções dos pagãos; a nós, porém, é manifestado como nosso Criador e Senhor um ser de caráter muito diferente. Um de seus nomes próprios e distintivos, proclamado por ele mesmo, significa “o Gracioso” e denota a bondade em seu princípio; outro significa “o Todo-suficiente e todo-generoso, que derrama todo o bem”, e exprime a bondade em ação. Outro aspecto interessante desse atributo é que a bondade de Deus é eficaz e inesgotável: alcança todo caso apropriado, supre toda necessidade possível e “dura para sempre”. Por isso os talmudistas explicam שדי, Shaddai, em Gênesis 17.1, por in aeternum sufficiens sum, “eu sou o eternamente todo-suficiente”. Como o sol, que é o seu emblema e que derrama os seus raios sobre os mundos ao redor, iluminando e acalentando toda a criação sem que o seu esplendor diminua, ele concede sem se esgotar e, sempre dando, tem ainda infinitamente mais para dar.

Uma terceira representação, igualmente importante, é que ele tem prazer no exercício da benevolência, que ele “tem prazer na misericórdia” (Mq 7.18). Ela não lhe é arrancada com relutância; não é medida com mesquinhez nem concedida com frieza. Deus viu as obras que havia feito, viu “que isso era bom”, com evidente satisfação e deleite naquilo que havia comunicado a um mundo “cheio da bondade do Senhor” (Sl 33.5), no qual o pecado e a miséria ainda não haviam entrado. Ele é “rico para com todos os que o invocam” (Rm 10.12), “a todos dá com generosidade e sem reprovações” (Tg 1.5) e é “poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo o que pedimos ou pensamos” (Ef 3.20). É sob essas perspectivas que as Escrituras oferecem tanto encorajamento à oração e estabelecem um fundamento tão firme para a confiança absoluta em Deus, que elas ordenam como um de nossos mais altos deveres, assim como é a fonte de nosso maior consolo.

Outra ilustração da bondade divina, e que também é peculiar às Escrituras, é que nada que seja capaz de felicidade sai imediatamente de suas mãos formadoras sem ser posto em circunstâncias de felicidade positiva. Os pagãos, que conheciam apenas um estado de coisas em que se sofre muita miséria, não podiam ter essa visão da bondade divina. Não podiam deixar de supor ou muitos deuses, uns benevolentes e outros, em maior número, de caráter oposto, ou um só deus em cuja natureza uma proporção não pequena de malevolência estivesse misturada a sentimentos mais brandos. As Escrituras, ao contrário, apresentam a miséria como trazida ao mundo pela culpa das criaturas, e ensinam que, de outro modo, ela jamais teria entrado. Quando Deus fez o mundo, fê-lo bom; quando fez o homem, fê-lo feliz, com poder para permanecer assim. Ele semeia boa semente em seu campo, e, se o joio brota, “um inimigo fez isso” (Mt 13.28). Essa é a doutrina da inspiração. Por fim, as Escrituras, diante dessa queda do homem e da introdução do mal natural e moral, apresentam Deus estabelecendo uma ordem de meios perfeitamente suficientes para remediar a ambos. Por isso um de seus nomes é גואל, Goel, “o Redentor”, e outro, בונה, Bonah, “o Restaurador”. Os meios pelos quais ele justifica esses títulos exibem a sua bondade com eminência tão singular que são chamados “a riqueza da sua graça” (Ef 1.7) e, às vezes, “a riqueza da sua glória” (Ef 3.16). Pela encarnação e morte sacrificial do Filho de Deus, ele se tornou o “Goel“, o parente próximo e “Redentor” da humanidade; resgatou e “restaurou” à família humana a herança perdida de felicidade, presente e eterna, e a colocou de novo ao alcance de todo ser humano. Em antecipação dessa propiciação, o primeiro transgressor foi perdoado e elevado à vida eterna, e a mesma misericórdia foi prometida a todos os seus descendentes. Nenhum homem perece definitivamente senão por sua própria recusa da misericórdia do seu Deus. É verdade que a restauração dos indivíduos não é seguida de imediato pela remoção dos males naturais da dor, da morte etc., pois, ainda que toda a raça humana tivesse aceitado a graça oferecida, esses males não teriam sido removidos no estado presente. Contudo, eles não se estendem além de uma breve vida na terra e, mesmo nesta vida, são transformados em meios para fins morais, tendendo a uma perfeição moral mais elevada e a uma felicidade maior em outra vida.

Tais são as concepções da bondade divina tal como desdobradas nas Escrituras, concepções da maior importância numa investigação das provas desse atributo da natureza divina oferecidas pelas circunstâncias reais do mundo. Sem o auxílio delas, não se pode fazer avaliação adequada da soma de mal que de fato existe, nem de sua relação com o caráter divino. Sobre esses assuntos houve opiniões conflitantes, e a principal razão foi que muitas pessoas de ambos os lados, tanto as que impugnaram a bondade de Deus quanto as que a defenderam contra objeções tiradas da existência do mal, fizeram muitas vezes da questão um assunto de pura “teologia natural” e, por isso, necessariamente formaram suas conclusões a partir de uma visão parcial e muito deficiente do caso. Este não é, de fato, um assunto para a teologia natural. É absurdo fazê-lo tal. Os melhores escritores ou se viram acossados pelas dificuldades insuperáveis que surgiram de excluir a luz que a revelação lança sobre a condição do homem neste mundo e sobre a sua relação com outro, ou, como Paley, romperam as restrições que impuseram a si mesmos e confessaram “que, quando admitimos as considerações religiosas, admitimos luz sobre as dificuldades da natureza”.

Quanto às ilustrações da bondade divina apresentadas no mundo natural e moral, há opiniões extremas de ambos os lados. As concepções de alguns são sombrias demais e excluem grande parte das provas da benignidade divina; outros abraçam um sistema de otimismo e excluem, por outro lado, as manifestações da justiça divina e o caráter retributivo do Governador universal. As Escrituras nos capacitam a ajustar esses extremos e a dar a Deus a glória de uma bondade absoluta, sem limitar a sua ternura pela severidade nem diminuir a sua majestade pela fraqueza.

O lado sombrio do estado real do mundo e do homem, seu habitante, tem sido muitas vezes carregado de sombras muito escuras, com propósitos insidiosos. Os fatos alegados podem, de fato, ser admitidos em geral. O globo, como residência do homem, tem seus inconvenientes e males positivos: seus climas variáveis e muitas vezes nocivos; seus terremotos, vulcões, tempestades e inundações; sua esterilidade em alguns lugares, que esgota o homem com o trabalho; sua exuberância de vida vegetal e animal em outros, que gera doenças ou dá origem a animais incômodos e destrutivos. As doenças da raça humana, sua vida breve e dolorosa dissolução, sua pobreza generalizada, seus sofrimentos e cuidados universais, as perturbações da sociedade civil, as opressões, fraudes e injustiças, tudo isso precisa ser reconhecido. A isso se podem acrescentar os sofrimentos e a morte dos animais e a guerra universal travada entre as diferentes criaturas por toda a terra. Essa enumeração de males poderia, na verdade, ser grandemente ampliada sem exagero.

Mas essa não é a única visão a ser considerada. Ela precisa ser combinada com outras igualmente óbvias: há luzes, bem como sombras, no cenário, e as massas mais escuras que ele apresenta estão misturadas com cores brilhantes e alegres. Pois, como observou Paley, “numa vasta pluralidade dos casos em que se percebe um artifício, o desígnio do artifício é benéfico.

“Quando Deus criou a espécie humana, ou desejava a sua felicidade, ou desejava a sua miséria, ou era indiferente e despreocupado com ambas.

“Se tivesse desejado a nossa miséria, poderia ter assegurado o seu propósito formando os nossos sentidos para serem para nós outras tantas chagas e dores, assim como agora são instrumentos de satisfação e deleite; ou colocando-nos em meio a objetos tão mal ajustados às nossas percepções que nos ofendessem continuamente, em vez de servirem ao nosso refrigério e deleite. Poderia ter feito, por exemplo, que tudo o que provássemos fosse amargo; tudo o que víssemos, repugnante; tudo o que tocássemos, um ferrão; todo cheiro, um fedor; e todo som, uma dissonância.

“Se tivesse sido indiferente à nossa felicidade ou miséria, teríamos de atribuir à nossa boa sorte (já que, por essa suposição, todo desígnio fica excluído) tanto a capacidade de nossos sentidos de receber prazer quanto o suprimento de objetos externos apropriados para produzi-lo.

“Mas, sendo qualquer dessas coisas, e mais ainda ambas, demais para ser atribuída ao acaso, nada resta senão a primeira suposição: que Deus, quando criou a espécie humana, desejou a sua felicidade e fez para ela a provisão que fez com essa intenção e para esse propósito.

“O mesmo argumento pode ser proposto em outros termos, assim: o artifício prova desígnio, e a tendência predominante do artifício indica a disposição de quem o planejou. O mundo está repleto de artifícios, e todos os artifícios que conhecemos estão dirigidos a propósitos benéficos. O mal sem dúvida existe, mas nunca, até onde podemos perceber, é o objeto do artifício. Os dentes foram feitos para comer, não para doer; o fato de doerem de vez em quando é incidental ao artifício, talvez inseparável dele, ou mesmo, se quiserem, seja chamado um defeito do artifício; mas não é o seu objeto. Essa é uma distinção que merece bem a nossa atenção. Ao descrever implementos agrícolas, dificilmente se diria da foice que ela foi feita para cortar a mão do ceifeiro, embora, pela construção do instrumento e pela maneira de usá-lo, esse dano muitas vezes ocorra. Mas, se houvesse ocasião de descrever instrumentos de tortura ou de execução, diríamos: esta máquina serve para esticar os tendões; esta, para deslocar as articulações; esta, para quebrar os ossos; esta, para queimar as solas dos pés. Aqui a dor e a miséria são o próprio objeto do artifício. Ora, nada desse tipo se encontra nas obras da natureza. Nunca descobrimos uma série de artifícios destinada a produzir um propósito mau. Nenhum anatomista jamais descobriu um sistema de organização calculado para produzir dor e doença, nem, ao explicar as partes do corpo humano, jamais disse: isto serve para irritar; isto, para inflamar; este duto serve para levar os cálculos aos rins; esta glândula, para secretar o humor que forma a gota. Se por acaso ele chega a uma parte cujo uso desconhece, o máximo que pode dizer é que ela é inútil; ninguém jamais suspeita que ela foi posta ali para incomodar, importunar ou atormentar” (Natural Theology).

As principais exceções a isso são as dos animais venenosos e as dos animais que se devoram uns aos outros. Sobre o primeiro caso observou-se não só que o número de criaturas venenosas é pequeno, mas também que, “considerado o próprio animal, a faculdade de que nos queixamos é boa, pois contribui, em todos os casos, para a defesa do animal; em alguns, para dominar a presa; e em alguns, provavelmente, para matá-la, uma vez apanhada, por uma ferida mortal infligida na passagem para o estômago, o que pode ser não menos misericordioso para a vítima do que salutar para quem a devora. Na víbora, por exemplo, a presa venenosa pode fazer o que, em outros animais predadores, é feito pelo esmagamento dos dentes. Rãs e camundongos poderiam ser engolidos vivos sem ela.

“O segundo caso, a saber, o dos animais que se devoram uns aos outros, oferece uma consideração de alcance muito maior. Para julgar se, como disposição geral, isso pode ser considerado um mal, mesmo até onde entendemos as suas consequências (o que provavelmente é um entendimento parcial), convém atentar para as seguintes reflexões. 1. A imortalidade nesta terra está fora de questão. Sem a morte não poderia haver geração, nem relação paterna, isto é, tal como as coisas estão constituídas, não haveria felicidade animal. A duração particular da vida atribuída aos diferentes animais não pode fazer parte da objeção, porque, qualquer que seja essa duração, enquanto permanecer finita e limitada, sempre se poderá perguntar: por que não é mais longa? A idade natural dos diferentes animais varia de um único dia a um século. Disso não se pode dar razão alguma, nem se poderia dar, qualquer que fosse a outra proporção de vida que vigorasse entre eles.

“Sendo, então, o termo da vida dos diferentes animais tal como é, a questão é: qual o melhor modo de tirá-la, mesmo para o próprio animal?

“Ora, segundo a ordem estabelecida da natureza (que devemos supor vigente, ou não podemos raciocinar de modo algum sobre o assunto), os três meios pelos quais a vida costuma chegar ao fim são as doenças agudas, a decadência e a violência. A vida simples e natural dos brutos não é frequentemente visitada por enfermidades agudas, nem se poderia considerar uma melhoria da sua sorte se o fosse. Considere-se, portanto, em que condição de sofrimento e miséria fica um animal irracional que é deixado a perecer por decadência. Na doença ou enfermidade humana há a ajuda dos semelhantes racionais do homem, se não para aliviar as suas dores, ao menos para atender às suas necessidades e suprir o lugar da sua própria atividade. Um animal, em seu estado selvagem e natural, faz tudo por si mesmo. Quando, portanto, lhe faltam a força, a velocidade, os membros ou os sentidos, ele fica entregue ou à fome absoluta, ou à prolongada desgraça de uma vida lentamente consumida pela escassez de alimento. É, então, para ver o mundo cheio de animais abatidos, decrépitos, meio famintos, desamparados e sem socorro que vocês alterariam o sistema atual de perseguição e presa?

“2. Esse sistema é também, para eles, a fonte de movimento e atividade de ambos os lados. A perseguição da presa constitui a ocupação e parece constituir o prazer de uma parte considerável da criação animal. O uso dos meios de defesa, de fuga ou de precaução constitui também a ocupação de outra parte. E mesmo quanto a esta última classe, não temos razão para supor que a sua felicidade seja muito perturbada pelos seus medos. O perigo existe continuamente e, em alguns casos, eles parecem ter dele consciência suficiente para se precaverem do melhor modo possível; mas só quando o ataque é de fato feito contra eles é que parecem sofrer com isso. Contemplar a insegurança de sua condição com ansiedade e pavor exige um grau de reflexão que (felizmente para eles) não possuem. Uma lebre, apesar do número de seus perigos e inimigos, é um animal tão brincalhão quanto qualquer outro.”

Deve-se observar que, quanto aos animais, há ainda muita felicidade.

“O ar, a terra e a água fervilham de existência deleitada. Num meio-dia de primavera ou num entardecer de verão, para qualquer lado que eu volte os olhos, miríades de seres felizes se aglomeram diante da minha vista. ‘Os jovens insetos estão em voo.’ Enxames de moscas recém-nascidas experimentam as asas no ar. Seus movimentos brincalhões, seus volteios caprichosos, sua atividade gratuita, sua contínua mudança de lugar sem utilidade nem propósito, testemunham a sua alegria e a exultação que sentem com as faculdades que acabam de descobrir. Uma abelha entre as flores, na primavera, é um dos objetos mais alegres que se podem contemplar. Sua vida parece ser toda deleite, tão ocupada e tão contente; e, no entanto, é apenas uma amostra da vida dos insetos, com a qual, por ser esse animal meio domesticado, acontece de estarmos mais familiarizados do que com a de outros. Toda a tribo dos insetos alados, é provável, está igualmente empenhada em suas ocupações próprias e, sob toda variedade de constituição, satisfeita, e talvez igualmente satisfeita, com as funções que o autor da sua natureza lhes atribuiu. Mas a atmosfera não é o único cenário de deleite para a raça dos insetos. As plantas estão cobertas de pulgões, que sugam avidamente os seus sucos e, ao que parece, estão constantemente sugando. Não se pode duvidar de que esse é um estado de satisfação. Que mais os prenderia tão de perto e por tanto tempo à operação? Outras espécies correm de um lado para outro com uma vivacidade de movimentos que traz todos os sinais de prazer. Grandes trechos de terreno às vezes ficam meio cobertos dessas criaturas ágeis e animadas. Se olharmos para o que as águas produzem, cardumes de alevinos frequentam as margens dos rios, dos lagos e do próprio mar. Estão tão felizes que não sabem o que fazer de si mesmos. Suas posturas, sua vivacidade, seus saltos para fora da água, suas brincadeiras dentro dela (que observei mil vezes com igual atenção e divertimento), tudo concorre para mostrar o seu excesso de ânimo e é simplesmente efeito desse excesso.

“Neste momento, em cada momento dado do tempo, quantas miríades de animais estão comendo o seu alimento, satisfazendo os seus apetites, ruminando em suas tocas, realizando os seus desejos, buscando os seus prazeres, entregando-se aos seus passatempos! Em cada indivíduo, quantas coisas precisam correr bem para que ele esteja à vontade; e, no entanto, que grande proporção de cada espécie está assim em cada instante determinável! Em toda a extensão da vida, tal como está difundida na natureza e até onde a conhecemos, considerando a média das sensações, a pluralidade e a preponderância estão a favor da felicidade, por vasto excesso. Em nossa própria espécie, na qual talvez a afirmação seja mais discutível do que em qualquer outra, o predomínio do bem sobre o mal, da saúde, por exemplo, e do bem-estar sobre a dor e a aflição, fica evidente pela própria atenção que as calamidades despertam. Quantas indagações produz a doença de nossos amigos! Quanta conversa os seus infortúnios! Isso mostra que o curso comum das coisas é favorável à felicidade, que a felicidade é a regra e a miséria, a exceção. Se a ordem fosse invertida, nossa atenção seria chamada para exemplos de saúde e suficiência, em vez de doença e carência” (Paley, Natural Theology).

Devem também ser levados em conta os vários alívios dos males positivos e a sua ligação com fins benéficos. A dor ensina vigilância e cautela, e faz do seu alívio, no estado de saúde, uma fonte de deleite mais elevado. Para numerosas doenças, também, foram estabelecidos remédios, pela providência de Deus e pela sua bênção sobre as pesquisas do homem. O processo das doenças mortais tem o efeito de mitigar o horror natural que temos da morte. As tristezas e separações são suavizadas pelo tempo. A necessidade do trabalho nos obriga a ocupar o tempo com utilidade, o que é tanto fonte de deleite quanto meio de impedir muito mal num mundo de homens corruptos e mal-intencionados. E a familiaridade e o hábito tornam toleráveis muitas circunstâncias e inconveniências que, à primeira vista, julgamos serem necessariamente fontes de desgraça. Em tudo isso há, certamente, ampla prova e adorável manifestação da benevolência divina.

Ao considerar a existência real dos males no mundo, no que ela afeta a questão da bondade de Deus, devemos também distinguir entre os males que são infligidos por nós mesmos e os que são inevitáveis. A questão de como a permissão do mal se concilia com a bondade de Deus será considerada à parte; mas, deixando-a de lado por ora, nada pode ser mais óbvio do que isto: o próprio homem é responsável pela maior parte, de longe, das misérias da vida presente, e elas não lançam nuvem alguma sobre o esplendor da bondade universal. Considerem-se os homens coletivamente. O pecado, como hábito dominante, não é necessário. Os meios de reprimir os seus movimentos interiores e de conter os seus atos exteriores são ou foram fornecidos a toda a humanidade; e, no entanto, se fossem removidas todas aquelas misérias que são efeito do vício voluntário, quão pouco, comparativamente, restaria de que se queixar no mundo! Os governos opressivos, as injustiças particulares, as guerras e todos os males que as acompanham desapareceriam. A paz, a segurança e a diligência cobririam a terra de frutos, em abundância suficiente para todos; e, para as necessidades acidentais, os desamparados, os doentes e os idosos encontrariam pronto socorro na caridade dos outros. Paixões governadas e uma consciência aprovadora criariam disposições benevolentes, e estas substituiriam a inquietação interior pela paz interior. A doença permaneceria, acidentes à vida e aos membros ocorreriam, a morte viria; mas as doenças, em consequência da temperança, seriam menos frequentes e temíveis, os homens alcançariam normalmente uma velhice tranquila e desceriam ao túmulo por silenciosa decadência. Além da remoção de tantos males, quão grandemente aumentaria a soma da felicidade positiva! O aperfeiçoamento intelectual proporcionaria os prazeres do conhecimento; as artes multiplicariam os confortos e aliviariam muitas das lidas mais desgastantes da vida; a benevolência geral uniria os homens em calorosos afetos e amizades, produtores de inúmeros ofícios recíprocos de bondade; a piedade coroaria tudo com os prazeres da devoção, a remoção do medo da morte e a esperança de um estado de existência ainda melhor. Tudo isso é possível. Se não é real, a culpa é da raça humana, não de seu Criador e Redentor; e a bondade dele não deve, portanto, ser posta em dúvida porque os homens são perversos.

Mas deixemos o mundo como está, com todos os males que ele inflige a si mesmo, e consideremos apenas o caso de um indivíduo, tendo em vista o número de males existentes dos quais, pela misericordiosa provisão da graça de Deus, ele pode escapar inteiramente, e daqueles que está em seu poder mitigar e até converter em seu benefício. Não se pode duvidar, quanto a qualquer indivíduo à nossa volta, de que ele pode escapar da prática e das consequências de toda espécie de vício e experimentar os efeitos renovadores do cristianismo: pode ser justificado pela fé, adotado na família de Deus, receber as influências santificadoras do Espírito Santo e, daí em diante, andar não segundo a carne, mas segundo o Espírito. Por que homens que professam crer no cristianismo, quando se ocupam em escrever sistemas de “teologia natural”, que os obrigam a raciocinar sobre a bondade divina e a enfrentar as objeções contra ela, esquecem isso ou transferem para algum outro ramo da teologia aquilo que é tão vital para o seu próprio argumento? Aqui a benevolência de Deus para com o homem surge em todo o seu brilho e lança as suas ilustrações sobre o trato dele com o homem. Qual seria, nesse caso, a quantidade de mal que restaria a ser sofrida por esse indivíduo, assim restaurado e regenerado moralmente? Nenhum dos males que são consequência do vício pessoal, muitas vezes um séquito longo e terrível. Nenhuma inquietação interior, efeito de paixões culpadas ou insensatas, outra fonte fecunda de miséria. Nenhum anseio inquieto do espírito por um bem desconhecido, que gera desgosto pelos deleites inocentes do presente: ele encontrou esse bem no favor e na amizade de Deus. Nenhum descontentamento com as porções designadas pela Providência: ele aprendeu uma submissão pacífica. Nenhuma inquietação irritadiça sob os seus sofrimentos e tristezas: “pela perseverança” ele ganha “a sua alma” (cf. Lc 21.19). Nenhuma apreensão temerosa do futuro: ele sabe que há um olho que guia e uma mão que sustenta, lá do alto, ocupados em todos os seus assuntos. Nenhuma ansiedade atormentadora quanto à vida ou à morte: ele tem “uma viva esperança” (1Pe 1.3) de uma herança no céu. Que mal lhe resta, então, senão as aflições comuns da vida, que ele sente todas, mas sob as quais não sucumbe, e que, à medida que exercitam e aperfeiçoam as suas virtudes e as tornam mais exemplares e influentes para os outros, se convertem em benefícios finais? A esse estado qualquer indivíduo pode ser elevado; e aquilo que assim se torna possível para nós pela bondade divina é uma adorável manifestação desse atributo.

Essas concepções, porém, embora removam o peso de quaisquer objeções que se possam fazer à benevolência do caráter divino a partir da existência de males reais no mundo, estão o mais distante possível da teoria que, sobre esse assunto, recebeu o nome de otimismo. Essa opinião é, em resumo, não a de que o atual sistema dos seres seja o melhor que se poderia conceber, mas o melhor que a natureza das coisas admitiria. Entre não criar coisa alguma e criar seres materiais, sencientes e racionais, tais como os encontramos agora, em suas circunstâncias e com suas qualidades presentes, não haveria escolha. Assim, quanto aos males naturais, os otimistas parecem ter revivido a opinião das escolas orientais e gregas de que a matéria tem em si um defeito inerente e uma tendência à desordem que frustraram a habilidade do próprio grande Artífice em formá-la num mundo perfeito; e de que o mal moral decorre com a mesma necessidade das naturezas finitas e, portanto, imperfeitas. Daí inferem que nenhuma culpa pode ser lançada sobre o Criador, cuja bondade, sustentam, se manifesta abundantemente em corrigir muitos desses males por meio de hábeis artifícios e em torná-los, em numerosos casos, ocasião de bem. Assim, a tempestade, o terremoto e o vulcão, no mundo natural, embora sejam consequências necessárias da imperfeição da própria natureza da matéria, tornam-se benéficos por seus efeitos, das várias maneiras que a filosofia natural aponta; e assim até os males morais são necessários para dar origem e pôr em exercício as qualidades opostas da virtude, que sem eles não poderiam ser exercidas. Por exemplo, se nenhuma injúria fosse infligida, não haveria lugar para a virtude do perdão. A isso se acrescenta também a doutrina das leis gerais, segundo as quais, argumentam, o universo precisa ser conduzido; mas, por mais bem estabelecidas e constituídas que sejam as leis gerais, muitas vezes elas se contrariam e se cruzam umas com as outras, e daí surgem inconvenientes particulares. A constituição das coisas, contudo, é boa no conjunto, e isso é tudo o que se pode exigir.

A defesa da bondade divina oferecida por tal hipótese não será aceita por aqueles que mais anseiam por defender esse atributo das cavilações ateístas. E, embora ela tenha tido seus defensores entre alguns que professavam respeito pelas Escrituras, jamais poderia ter sido adotada por eles se não tivessem sido descuidados demais com a luz que elas lançam sobre esses assuntos e não tivessem sido desviados pelo vão projeto de construir sistemas perfeitos de religião natural e pela tentativa de desatar as dificuldades que deles surgem com o auxílio da razão desassistida. O próprio princípio dessa hipótese, de que a natureza das coisas não admitia um mundo melhor, implica uma noção muito indigna de Deus. Era perdoável que os antigos defensores da eternidade da matéria lhe atribuíssem uma imperfeição essencial e qualidades más inseparáveis; mas, se a doutrina da criação em sentido próprio for admitida, a onipotência que pôde tirar a matéria do nada era tão capaz de revesti-la de boas qualidades quanto de más. E aquele que a dispôs para produzir tanta beleza, harmonia, segurança e benefício quanto de fato encontramos no mundo não teria dificuldade alguma em tornar a sua obra perfeita em todos os aspectos, nem precisaria dos contrapesos e contra-ações de um mal contra outro para realizar os seus propósitos benevolentes. Assim, de fato, encontramos que, quando Deus terminou a sua obra, declarou-a não apenas boa comparativamente, mas “muito boa” (Gn 1.31), ou seja, boa de modo absoluto. Tampouco é verdade que, no mundo moral, o vício precise necessariamente existir para que haja virtude, e que, se valorizamos uma, devemos, pela natureza das coisas, contentar-nos em recebê-la juntamente com o outro. Dizem-nos, de fato, que nenhum perdão poderia ser exercido por um ser humano se a injúria não fosse infligida por outro; que nenhuma mansidão poderia ser mostrada se não houvesse ira, nenhuma longanimidade se não houvesse perversidade, e assim por diante. Mas a falácia está em separar os atos da virtude dos princípios da virtude. Todos os exemplos acima podem ser reduzidos a um único princípio de benevolência, que pode existir em grau igualmente elevado mesmo quando nunca é despertado por tais ocasiões, e exprimir-se em atos igualmente explícitos num estado de sociedade do qual o pecado esteja excluído. Há, por exemplo, segundo a Escritura, seres chamados anjos, que conservaram o seu estado original e nunca pecaram. Numa sociedade como a deles, composta provavelmente de diferentes ordens de inteligências, umas mais adiantadas em conhecimento do que outras, umas com graus mais altos de perfeição e outras com graus mais baixos, assim como “entre estrela e estrela há diferenças de glória” (1Co 15.41), quantos exercícios de humildade e condescendência; quanta comunicação bondosa de conhecimento por parte de uns e quanta recepção mansa e agradecida dele por parte de outros; quantas maneiras diferentes pelas quais uma pureza perfeita, um amor perfeito e uma perfeita isenção de egoísmo podem manifestar-se! Quando, portanto, se pode conceber que o princípio da benevolência universal se manifeste de modo tão notável num estado de sociedade sem pecado, precisará ele da injúria para ser despertado na forma visível do perdão, da ira para aparecer na forma da mansidão, da obstinação para aparecer na forma da tolerância? Certamente não; e não exige esforço algum da mente inferir que, se existissem tais ocasiões para despertá-lo, ele se desenvolveria não só nos modos particulares que acabamos de mencionar, mas em todos os outros.

Em oposição à visão adotada por esses teóricos, podemos negar que “tudo o que é, é o melhor”. Não só podemos conceber como possível um estado de coisas melhor, como também podemos mostrar que os males que de fato existem, sejam naturais, sejam morais, não existem necessariamente. É, sem dúvida, uma prova da bondade divina tirar o bem do mal; fazer que tempestades e terremotos, destrutivos para poucos, sejam benéficos para muitos; tornar os pecados dos homens ocasiões para provar, exercitar e aperfeiçoar várias virtudes nos bons. Mas, se o homem estivesse sob uma dispensação de misericórdia sem mistura, todos esses fins poderiam obviamente ter sido alcançados independentemente da existência de males, naturais ou morais, em qualquer grau. A verdadeira chave de todo o assunto é fornecida pela revelação divina. O pecado entrou no mundo. O homem está sob o desagrado do seu Criador. Por isso vemos males naturais e atos punitivos da administração divina, não porque Deus não seja bom, mas porque ele é justo, além de bom. O homem, porém, não foi deixado sob condenação; por meio da propiciação feita por seus pecados no sacrifício de Cristo, ele é objeto de misericórdia. Está sob correção, não sob ira sem mistura; daí as manifestações da benevolência divina que o mundo e os atos da Providência apresentam em toda parte e através de todas as eras. E, na proporção em que o bem predomina, a bondade triunfa sobre a severidade, e o caráter divino é exibido diante de nós como o de alguém que “tem prazer na misericórdia” (Mq 7.18).

A essa representação das relações reais em que a raça humana se encontra para com Deus, e a nenhuma outra hipótese, o estado do mundo corresponde exatamente, e assim oferece uma confirmação óbvia e poderosa da doutrina da revelação. Essa concepção foi desenvolvida extensamente por um engenhoso escritor recente (Gisborne, Testimony of Natural Philosophy to Christianity) e, em muitos casos, com grande felicidade de ilustração. Alguns excertos mostrarão o curso do argumento. O primeiro diz respeito às convulsões sofridas pelo próprio globo.

“Suponha-se que um viajante, penetrando em regiões situadas além da esfera de seu conhecimento anterior, se encontre de repente nos limites de uma cidade em ruínas. Suponha-se que a desolação, embora traga marcas de data antiga, manifeste provas inequívocas de que não foi efetuada pela mão desagregadora do tempo, mas foi resultado de desígnio e de violência. Arcos deslocados, ameias pendentes, aquedutos interrompidos, torres minadas e derrubadas, ao mesmo tempo que registram a força e a magnificência primitivas das construções, proclamam o propósito determinado e os esforços perseverantes com que a força impelira a obra de destruição. Suponha-se ainda que, ao examinar as relíquias que sobreviveram ao silencioso passar das eras, o estrangeiro descubra uma raça atual de habitantes que ergueram suas choupanas em meio aos destroços. Ele pergunta a história do cenário diante de si. É informado de que a cidade, outrora distinguida pelo esplendor, pela beleza, por toda disposição e provisão para a segurança, a comodidade e a felicidade de seus ocupantes, foi reduzida à sua situação atual pela resolução e pelo ato deliberados de seu próprio soberano legítimo, o mesmo soberano que a havia erguido, o imperador daquela parte do mundo. ‘Era ele um tirano feroz?’ ‘Não’, é a resposta universal. ‘Era um monarca eminente pela coerência, pela paciência e pela benignidade.’ ‘Estava o seu juízo cego, ou foi enganado por informações errôneas quanto aos planos e procedimentos de seus súditos?’ ‘Ele sabia tudo bem demais. Compreendia com exatidão infalível; decidia com sabedoria irrepreensível.’ ‘Então’, exclama o viajante, ‘o caso é claro; a conclusão é inevitável. Os antepassados de vocês certamente foram rebeldes ingratos e assim atraíram a devastação sobre a sua cidade, sobre si mesmos e sobre a sua posteridade.’

“A aparência real do globo em que habitamos está em estrita analogia com o quadro da nossa cidade hipotética.

“A terra, qualquer que seja a configuração, qualquer que tenha sido a perturbação ou o repouso de seus recessos profundos e ocultos, é, em seus estratos superiores, uma massa de ruínas. Não é de uma só terra, nem de um só clima, que se faz essa afirmação, mas de todas as terras, de todos os climas, da terra universalmente. Onde quer que a face íngreme das montanhas revele a sua construção interior; onde quer que cavernas e fendas naturais revelem a disposição dos materiais que as compõem; onde quer que as operações do mineiro tenham perfurado as camadas sucessivas sob as quais se depositam o carvão ou o metal, a convulsão, a ruptura e a desordem são visíveis. A lisura e a uniformidade que a mão do cultivo estende sobre algumas porções do globo e o manto hirsuto de matas e florestas com que a natureza cobre outras porções, até agora não povoadas nem dominadas pela humanidade, combinam-se para obscurecer os vestígios dos abalos que o nosso planeta sofreu, assim como uma pele bonita e vestes ornamentais escondem fraturas e desorganizações internas no corpo humano. Ainda assim, aos olhos do investigador contemplativo que explora a superfície da terra, aparecem muitas cicatrizes que testemunham antigos abalos, colisões e dilacerações, e muitas feridas ainda não curadas, que se abrem para profundezas desconhecidas e insondáveis.

“Desse cenário universal de confusão nos estratos superiores da terra, volte o estudante de teologia natural os seus pensamentos para as obras de Deus em geral. Quais são as características em que essas obras, por variadas que sejam em suas espécies, em suas grandezas e em seus propósitos, obviamente concordam? Quais são as características que, com manifesta intenção, estão impressas em todas elas? Ordem e harmonia. Em todo modo de vida animal, desde o corpo humano até as existências atômicas e insuspeitadas na água, que as lentes da ciência moderna tornaram visíveis; no mundo vegetal, desde o cedro do Líbano até o hissopo que brota no muro, e desde o hissopo do muro até a planta mais minúscula discernível ao microscópio; nas cristalizações do reino mineral, de seus metais, de seus sais, de seus espatos, de suas gemas; na revolução dos corpos celestes e na consequente alternância do dia, da noite e das estações: tudo é regularidade. Nas obras de Deus, ordem e harmonia são a regra; a irregularidade e a confusão constituem a rara exceção. Sob o governo divino, uma exceção tão portentosa quanto a que estivemos contemplando, uma transformação da ordem e da harmonia em irregularidade e confusão que envolve os invólucros de um mundo, não pode ser atribuída a nenhuma circunstância que, na linguagem comum, chamamos fortuita. Ela proclama ter-se devido a uma causa moral; a uma causa moral que exigiu um efeito tão vasto e extraordinário; a uma causa moral que não pode deixar de ser profundamente interessante para o homem, que não pode deixar de estar intimamente ligada ao homem, o único ser na face deste globo investido de agência moral; o único ser, portanto, neste globo sujeito à responsabilidade moral; o único ser neste globo cuja conduta moral pode ter tido sequer uma partícula de influência, ainda que indireta, sobre a condição geral do globo que ele habita.”

Outro exemplo é fornecido pelo dilúvio universal. Depois de provar, a partir de vários fatos geológicos, que tal fenômeno deve ter ocorrido, o autor observa:

“Assim, enquanto os estratos exteriores da terra, ao registrar em caracteres incontestáveis e indeléveis o fato de um dilúvio primitivo e penal, atestam de era em era a santidade e a justiça de Deus, a forma e o aspecto de sua superfície testemunham com igual clareza, de geração em geração, o seu atributo inerente, e não menos glorioso, da misericórdia. Pois provam que o próprio dilúvio, empregado em sua irrupção como instrumento da dispensação de vingança divina para destruir um mundo culpado, foi, em seu recuo, de tal modo regulado por ele quanto à rapidez variável de seu escoamento, e de tal modo dirigido por ele em todas as suas operações sucessivas, que preparou o globo desolado para receber uma sucessão restaurada de habitantes; e que dispôs a superfície de modo a adaptá-la, em cada clima, ao sustento dos animais, à produção das árvores e das plantas e ao crescimento e cômodo cultivo dos grãos e dos frutos de que o homem, naquela região particular, mais necessitaria.

“Durante a retirada das águas, quando uma barreira de estrato rochoso, suficientemente forte para resistir, atravessava a linha de descida, formava-se em consequência um lago. Esses memoriais do domínio daquele elemento que pouco antes fora tão destrutivo permanecem também como memoriais da misericórdia do Restaurador da natureza; e, por seus próprios esplendores vivos e pela beleza e grandiosidade de suas margens, são os ornamentos mais primorosos dos cenários em que habitamos.

“Quer você receber e guardar uma forte impressão da extensão da misericórdia manifestada na renovação da face da terra? Quer procurar fazer justiça ao assunto? Contemple o número dos efeitos diversificados na superfície do globo que foram operados, dispostos e harmonizados pela benignidade divina por meio do dilúvio em retirada; e combine, em seu exame deles, as duas características interligadas que estão impressas no aspecto geral da natureza, a utilidade e a beleza: utilidade para atender às necessidades e multiplicar os confortos do homem; beleza graciosamente acrescentada para alegrar os seus olhos e deleitar o seu coração. Observe as montanhas, de todas as formas e de todas as altitudes. Veja-as ora erguendo-se em encostas ousadas; ora acumuladas numa sucessão de subidas em curvas graciosas; ora elevando-se em precipícios escarpados; ora erguendo acima das nuvens seus pináculos pontiagudos, cintilantes de neve perpétua. Contemple suas encostas ora escurecidas por florestas sem limites; ora estendendo ao sol suas amplas ladeiras cobertas de relva, refúgio de verão dos rebanhos e manadas das regiões abaixo; ora escavadas em concavidades abrigadas; ora encerrando entre as suas cadeias vales estreitos verdes como a esmeralda e regados por riachos límpidos e cintilantes como o cristal. Acompanhe esses vales à medida que se unem e se alargam; observe os seus regatos unindo-se e alargando-se também, até que o vale estreito se torna um vale, e o vale se expande num rico vale aberto ou numa vasta planície, cada qual variado e delimitado por colinas, outeiros e suaves elevações, em algumas partes adequado sobretudo à pastagem, em outras ao arado; cada qual cortado e refrescado por rios que correm de país em país, com suas correntes continuamente aumentadas por afluentes, até que por fim se perdem no oceano. Ali novos modos de beleza aguardam o observador: litorais sinuosos, cabos ousados, promontórios escarpados, baías profundamente recortadas, portos que penetram muito terra adentro, protegidos de toda rajada. Mas nesses traços vastos e magníficos da natureza o gracioso Autor de todas as coisas não esgotou os atrativos com que se propôs decorar os objetos inanimados. Ele derrama belezas em pormenor, com pródiga munificência que nada poupa, e, quaisquer que sejam as outras razões, também para a satisfação humana, sobre as diversas porções, por insignificantes que sejam, de que se compõem as partes maiores do esplêndido conjunto: sobre a rocha, sobre a pedra partida, sobre a moita, sobre a árvore solitária, sobre o arbusto, sobre o barranco coberto de musgo, sobre a planta, sobre a flor, sobre a folha. De todas essas obras de sua mão maravilhosa ele está continuamente variando e realçando os atrativos, pelos modos diversificados e pelos acréscimos de beleza com que as reveste: pelas alterações das estações, pelas incontáveis e rápidas mudanças de luz e sombra, pelos efeitos característicos do sol nascente, do sol a pino e do sol poente, pelo brilho suave do crepúsculo, pelo doce resplendor da lua, e pelas cores, pelos movimentos e pela música das tribos animais de que elas estão povoadas.”

O corpo humano fornece outra ilustração: “Considere o corpo humano, nu diante dos elementos, instantaneamente suscetível a toda impressão externa; relativamente fraco, desarmado; totalmente indefeso durante a infância; indefeso de novo na velhice; ocupando um longo período em seu crescimento até o tamanho e a força a que se destina; desprovido de velocidade para escapar da fera da floresta; incapaz, quando alcançado, de resistir-lhe; precisando de suprimentos diários de alimento e de bebida, não apenas para que os sentidos não fiquem insatisfeitos, não apenas para que o vigor não decline, mas para que uma destruição muito próxima seja adiada. Para que estado esse corpo parece caracteristicamente adequado? Para que estado parece ter sido originalmente destinado? Para um estado de inocência e segurança; para um estado paradisíaco; para um estado em que todos os elementos fossem benignos e todas as impressões externas inofensivas; um estado em que a força relativa não tivesse importância e as armas fossem desnecessárias; em que ser indefeso não fosse estar inseguro; em que a fera da floresta não existisse, ou existisse sem hostilidade ao homem; um estado em que o alimento e a bebida ou não fossem precários, ou não fossem habitual e prontamente indispensáveis. Represente para si o homem como inocente e, em consequência, na posse do favor sem nuvens do seu Deus; e então considere se é provável que um corpo assim adaptado a um estado paradisíaco, assim designado por indicações características como originalmente formado para um estado paradisíaco, tivesse sido escolhido para o mundo em que vivemos. Passe à representação contrária, representação cuja exatidão já vimos o aluno da teologia natural obrigado a admitir por outros testemunhos irresistíveis que ela produziu: considere o homem como tendo perdido, pela transgressão, o favor divino, e como colocado por seu Deus, tendo em vista possibilidades finais de misericórdia e restauração, numa situação que, em meio a sinais e meios de graça, deve presentemente participar de um caráter penal. Para tal situação, para a residência na terra atual como cenário designado de uma disciplina ao mesmo tempo misericordiosa, moral e penal, que corpo poderia ser mais sabiamente calculado? Que corpo poderia ser mais felizmente ajustado para receber, transmitir, auxiliar e prolongar as impressões que, se a misericórdia e a restauração devem ser alcançadas, precisam antes ser gravadas na mente? Não é tal corpo, em tal mundo, uma testemunha viva e fiel, um lembrete constante e enérgico, para a razão natural, de que o homem foi criado santo; de que caiu da obediência; de que a sua existência foi prolongada para fins de misericórdia e restauração; de que ele está posto em sua morada terrena sob uma dispensação que traz as marcas combinadas de uma graça alcançável e de uma disciplina penal? Não é tal corpo, em tal mundo, uma preparação para receber o cristianismo e uma prova colateral da sua verdade?”

As ocupações do homem fornecem outros exemplos:

“Uma de suas ocupações mais gerais e mais destacadas será necessariamente o cultivo do solo. Como os produtos tirados da terra formam a base não só da subsistência humana, mas também da riqueza que se expande nos confortos e ornamentos exteriores da vida social, esperaríamos que, sob uma dispensação que compreende meios e propósitos de misericórdia, as recompensas da agricultura se encontrassem entre as menos incertas e as mais generosas das recompensas que a Providência oferece ao esforço. A experiência confirma essa expectativa e atesta que o homem não foi rejeitado por seu Criador. Contudo, quão grande, quão contínua é a lida ligada ao cultivo eficaz da terra! Quão constante a ansiedade de que a umidade excessiva apodreça a semente debaixo do torrão, ou de que larvas e vermes roam a raiz da planta que nasce, ou de que répteis e insetos devorem a folha, ou de que o míldio queime o caule, ou de que estações desfavoráveis destruam a colheita! Quantas vezes, por essas e outras causas, os trabalhos incessantes e as esperanças promissoras do lavrador terminam em amarga decepção! A agricultura não apresenta, neste nosso planeta, as características de uma ocupação disposta para uma raça inocente e plenamente favorecida. Ela mostra aos olhos da teologia natural os vestígios da sentença pronunciada sobre o primeiro cultivador, o representante de todos os que haviam de sucedê-lo: ‘Maldita é a terra por sua causa. Ela produzirá também espinhos e ervas daninhas. Em fadigas você obterá dela o sustento durante os dias de sua vida. No suor do seu rosto você comerá o seu pão’ (Gn 3.17-19). Ela traz, em suas lidas e em suas inquietações, indicações claras de que o homem é pecador.

“Observações correspondentes, em substância, às que foram feitas a respeito da lavoura poderiam ser apresentadas acerca do cuidado dos rebanhos e das manadas. O retorno do trabalho nesse ramo de atividade é, no curso ordinário dos acontecimentos, suficiente, como na agricultura, tanto para estimular e sustentar o esforço quanto para dar a entender a misericordiosa benignidade com que a Divindade olha para a humanidade. Mas a supervisão fatigante, a ansiedade vigilante, os riscos de perda por doença, por acidentes, por dano malicioso e por pilhagem e, em muitos países, pelas incursões de feras, concorrem, em seu conjunto, para reforçar a verdade que foi ensinada. Eles inscrevem na página da teologia natural a sentença da Escritura: que o trabalho e a dor impostos ao homem são consequências da transgressão.

“Outra das principais ocupações do homem consiste na extração dos conteúdos minerais da terra e na redução dos metais aos estados e às formas exigidos para o uso. Sobre a lida, o enfado e os perigos que acompanham esses modos de vida, é desnecessário estender-se. Eles já foram discutidos, e mostrou-se que trazem profundamente impresso um caráter penal apropriado a uma raça caída e culpada.

“Outro campo de atividade, e muito abrangente, consiste na fabricação de manufaturas. Estas, em correspondência com as necessidades, os desejos razoáveis, a autoindulgência, a engenhosidade, os caprichos e o luxo dos indivíduos, são diversificadas além de toda enumeração. Mas pode-se afirmar em geral, acerca das manufaturas de grande procura, que, em comum com as ocupações já examinadas, elas impõem uma pressão de trabalho, um volume de preocupação e um risco de decepção que não podemos imaginar como prováveis no caso de seres santos em sua natureza e inteiramente aprovados por seu Deus. A tendência dessas manufaturas é também reunir numerosos operários num espaço pequeno, amontoá-los em oficinas fechadas e habitações inadequadas, prejudicar a sua saúde com ar contaminado e a sua moral com companhias contagiosas.

“Outra linha de esforço é constituída pelo comércio, subdividido em seus dois ramos, o tráfico interno e o comércio exterior. Ambos, ao mesmo tempo que lhes é permitido, em comum com os modos de ocupação já mencionados, esperar no conjunto, por designação da Providência, uma recompensa que se mostra adequada ao estímulo ordinário da diligência e à aquisição dos confortos moderados da vida, estão marcados com o selo penal da lida, da ansiedade e da decepção. A teologia natural lê ainda a sentença: ‘No suor do seu rosto, em fadigas, você comerá o seu pão’ (cf. Gn 3.17,19). A vigilância é frustrada pelo descuido dos sócios, ou o lucro é interceptado pela iniquidade deles. A retidão do negociante torna-se presa da fraude do freguês. O navio naufraga numa costa distante ou afunda no oceano com a carga e com o mercador” (Testimony of Nature etc.).

O autor fornece numerosos outros exemplos, e estes poderiam ser facilmente ampliados, tão abundante é a prova; e o conjunto se liga diretamente ao assunto em consideração. A bondade voluntária de Deus não é impugnada pelos vários males que existem no mundo, pois os vemos explicados pelo estado corrupto real do homem e por uma administração justa, pela qual a bondade precisa ser regulada para ser um atributo digno de Deus. De outro modo ela seria fraqueza, uma paixão cega, e não um afeto sabiamente regulado. Por outro lado, claramente não há razão para recorrer a noções de necessidade e de defeitos na natureza essencial das coisas criadas para provar que Deus é bom, ou, em outras palavras, segundo a hipótese exposta acima, tão bom quanto o permitiriam a obstinação da matéria e a necessidade de que existam o vício e a miséria. A sua bondade é limitada por razões morais, não por razões físicas. Ainda assim, considerando o globo como residência de uma raça caída e perversa, esse glorioso atributo tem o seu brilho realçado por essa mesma circunstância: ele se apresenta diante de nós com todos os seus aspectos comoventes de misericórdia, compaixão, longanimidade, mitigação e remissão. É bondade derramada com a mais rica liberalidade onde a ordem moral permite o seu fluxo irrestrito, e nunca é retida senão onde o benefício geral o exige. Os atos penais nunca vão além da estrita necessidade do caso; os atos de misericórdia elevam-se infinitamente acima de todo merecimento.

Todas as observações acima pressupõem o mal moral realmente presente no mundo e infectando toda a raça humana; mas a origem do mal requer consideração à parte. Como surgiu o mal moral, e como essa circunstância é compatível com a bondade divina? Seja qual for a resposta a essas perguntas, deve-se lembrar que, ainda que ela deixasse algumas dificuldades em pleno vigor, estas não pesam exclusivamente sobre as Escrituras. Independentemente da Bíblia, o fato é que o mal existe; e o teísta que admite a existência de um Deus de bondade infinita tem uma parcela tão grande da dificuldade de conciliar os fatos e os princípios sobre esse assunto quanto o cristão, mas sem vantagem alguma da história da introdução do pecado no mundo contida nos escritos de Moisés, e sem nenhuma das perspectivas consoladoras oferecidas pela doutrina da redenção do homem por Jesus Cristo.

Quanto à fonte do mal, as principais opiniões sustentadas são as seguintes: a necessidade, decorrente da natureza das coisas; o princípio maniqueu da dualidade, ou seja, a existência de uma divindade boa e de uma má; a doutrina de que Deus é a causa eficiente ou o autor do pecado; e, por fim, a de que o mal é resultado do abuso da liberdade moral com que as criaturas racionais e responsáveis foram dotadas. Quanto à primeira, como a necessidade de que se fala é independente de Deus, ela refuta a si mesma. Pois, se todas as criaturas estão sob a influência dessa necessidade, e precisam estar sob ela se ela decorre da própria natureza das coisas, nenhuma virtude poderia existir agora: desde o momento da criação o princípio deteriorante teria de começar a sua operação e prosseguir até que todo o bem fosse extinto. Nem poderia haver retorno do vício à virtude, já que nessa suposição a natureza das coisas seria contrariada, o que é impossível.

A segunda mal merece atenção, já que ninguém hoje a defende. Essa heresia, que prevaleceu em várias partes do mundo cristão do século III ao século XVI, parece ter sido uma modificação da antiga doutrina dos magos acrescentada a alguns dos dogmas do cristianismo. Seu princípio dominante era que as nossas almas foram feitas pelo princípio bom, e os nossos corpos pelo princípio mau, sendo esses dois princípios, segundo Mani, o fundador da seita, coeternos e independentes um do outro. Supunha-se que essas noções ofereciam uma explicação fácil da origem do mal, e por isso foram zelosamente propagadas. Os defensores desse esquema, porém, não perceberam que ele deixava a dificuldade sem alívio algum, pois “é tão contrário à bondade infinita criar o que ela previu que seria estragado por outro quanto criar o que seria estragado pela constituição da sua própria natureza” (King, Origin of Evil).

O dogma que faz do próprio Deus a causa eficiente ou o autor do pecado é blasfêmia direta, e é um daqueles excessos culpáveis em que os homens às vezes caem por um apego cego a alguma teoria predileta. Essa noção se encontra nos escritos de alguns dos defensores mais incautos da hipótese calvinista, embora hoje esteja geralmente abandonada pelos escritores dessa escola. Um defensor moderno do calvinismo apresenta assim o seu repúdio: “Deus não é o autor do pecado. Um calvinista que diz isso eu considero um Judas, e não terei comunhão com ele.”1 O abandono geral dessa noção, tão ofensiva e censurável, torna desnecessário entrar em sua refutação. Se fosse necessária refutação, ela se encontraria no fato de que o primeiro casal que pecou foi submetido a castigo pelo pecado e por causa dele, o que, com justiça, não poderia ter acontecido se o seu crime não lhes fosse imputável.

A última opinião, que tem sido geralmente aceita pelos teólogos, é que o mal moral é resultado de um abuso voluntário da liberdade da vontade em agentes racionais e morais; e que, quanto à raça humana, o primeiro casal pecou por escolha, quando ainda tinha o poder de permanecer inocente. “Por que há pecado no mundo? Porque o homem foi criado à imagem de Deus; porque ele não é mera matéria, um torrão de terra, um bocado de barro, sem sentidos nem entendimento, mas um espírito semelhante ao seu Criador; um ser dotado não só de sentidos e entendimento, mas também de uma vontade que se exerce em vários afetos. Para coroar todo o resto, ele foi dotado de liberdade, um poder de dirigir os seus próprios afetos e ações, uma capacidade de determinar-se a si mesmo, ou de escolher o bem e o mal. De fato, se o homem não tivesse sido dotado disso, todo o resto não teria servido para nada. Se ele não fosse um ser livre, além de inteligente, o seu entendimento seria tão incapaz de santidade, ou de qualquer espécie de virtude, quanto uma árvore ou um bloco de mármore. E, tendo esse poder, o poder de escolher o bem e o mal, ele escolheu o último: escolheu o mal. Assim ‘entrou o pecado no mundo’ (Rm 5.12)” (Wesley, Sermons).

Esse relato concorda, sem dúvida, com a história do fato da queda e da corrupção do homem. Como todas as outras coisas em sua espécie, ele foi declarado “muito bom” (Gn 1.31); foi posto sob uma lei de obediência, que teria sido absurda se ele não tivesse o poder de observá-la; e que ele tinha também o poder de violá-la é igualmente claro pela proibição sob a qual foi posto e pela pena que a acompanhava. A conclusão, portanto, é que “Deus fez o ser humano reto” (Ec 7.29), com poder de permanecer assim e, ao contrário, de pecar e cair.

Tampouco essa liberdade de pecar era incompatível com a perfeita pureza e a perfeição moral com que ele foi dotado em sua criação. Alguns teólogos se permitiram muitas descrições extravagantes dos dotes intelectuais e morais da natureza do primeiro homem, as quais, se admitidas em toda a sua extensão, tornariam difícil conceber como ele poderia ter caído por quaisquer tentações que as suas circunstâncias permitissem, ou mesmo como, no caso dele, a tentação poderia existir. O seu estado era elevado e glorioso, mas era ainda um estado não de recompensa, e sim de prova, e por isso os seus dotes e perfeições eram adequados a ele. Talvez seja, de fato, ir longe demais afirmar que todos os seres racionais criados, sendo finitos e dotados também de liberdade de escolha, devem, em quaisquer circunstâncias, estar sujeitos ao pecado. O arcebispo King argumenta que “Deus, embora seja onipotente, não pode fazer nenhum ser criado absolutamente perfeito, pois tudo o que é absolutamente perfeito precisa necessariamente existir por si mesmo; mas está incluído na própria noção de criatura, como tal, não existir por si mesma, mas por Deus. Uma criatura absolutamente perfeita, portanto, implica contradição, pois seria por si mesma e não por si mesma ao mesmo tempo. A perfeição absoluta, portanto, é peculiar a Deus; e, se ele comunicasse a outro a sua própria perfeição peculiar, esse outro seria Deus. A imperfeição, portanto, precisa ser tolerada nas criaturas, não obstante a onipotência e a bondade divinas, pois as contradições não são objetos de poder. Deus, sem dúvida, poderia ter-se abstido de agir e ter permanecido só, suficiente a si mesmo e perfeito por toda a eternidade; mas a bondade infinita de modo algum permitiria isso. E, portanto, já que ela o obrigou a produzir coisas exteriores, coisas que não podiam de modo algum ser perfeitas, preferiu essas coisas imperfeitas a coisa nenhuma; donde se segue que a imperfeição surgiu da infinitude da bondade divina” (Origin of Evil).

Isso pode ser admitido em parte. A imperfeição, em comparação com Deus e com a própria capacidade de aperfeiçoamento da criatura, há de permanecer como característica de um ser finito; mas não é tão claro que essa imperfeição deva, em todos os tempos e ao longo de todo o curso da existência, implicar sujeição ao pecado. Deus é livre e, no entanto, “não pode ser tentado pelo mal” (Tg 1.13). “É impossível que Deus minta” (Hb 6.18), não por falta de liberdade natural, mas por causa de uma perfeição moral absoluta. Liberdade e impecabilidade, portanto, não implicam contradição; e não se pode concluir, nem mesmo com fundamentos racionais, que um agente moral livre e finito não possa, pelo favor especial de Deus, ser posto em circunstâncias em que pecar seja moralmente impossível. A revelação, sem dúvida, faz essa promessa aos fiéis em outro estado, consumação a ser efetuada não pela destruição da sua liberdade natural, mas pelo aperfeiçoamento da sua condição moral. Esse não era, porém, o caso do homem em sua primeira criação e durante a sua permanência no paraíso. O seu estado não era o dos glorificados, pois era de prova; e, no entanto, era inconcebivelmente mais elevado do que o estado presente do homem, já que, com uma natureza sem mancha e sem corrupção, era fácil para ele ter mantido a sua retidão moral e tê-la aperfeiçoado e confirmado. A obediência, para ele, não tinha os entraves, as oposições interiores e as forças contrárias exteriores que tem para nós. Era, porém, um estado que exigia vigilância, esforço, oração e negação dos apetites e das paixões, já que Eva caiu pelo seu apetite e Adão pela sua paixão. E, por leve que fosse a princípio, e fácil de resistir, toda influência exterior que tendesse a deprimir a energia da vida espiritual e a afastar o homem de Deus poderia tornar-se um passo para um desvio maior e o núcleo de um hábito fatal. Assim diz o bispo Butler, com a sua costumeira agudeza: “A humanidade, e talvez todas as criaturas finitas, pela própria constituição da sua natureza, antes dos hábitos de virtude, são deficientes e correm perigo de desviar-se do que é certo; e, portanto, precisam de hábitos virtuosos como segurança contra esse perigo. Pois, juntamente com o princípio geral do entendimento moral, temos em nossa constituição interior vários afetos dirigidos a objetos exteriores particulares. Esses afetos estão naturalmente, e por direito, sujeitos ao governo do princípio moral quanto às ocasiões em que podem ser satisfeitos e quanto aos tempos, graus e modos em que os seus objetos podem ser buscados. Mas o princípio da virtude não pode nem excitá-los, nem impedir que sejam excitados. Ao contrário, eles são naturalmente sentidos quando os seus objetos estão presentes à mente, não só antes de toda consideração sobre se podem ser obtidos por meios lícitos, mas também depois de se descobrir que não podem. Pois os objetos naturais do afeto continuam a sê-lo: as necessidades, as comodidades e os prazeres da vida permanecem naturalmente desejáveis, embora não possam ser obtidos inocentemente; mais ainda, embora não possam de modo algum ser obtidos. E, quando os objetos de um afeto qualquer não podem ser obtidos sem meios ilícitos, mas podem ser obtidos por eles, tal afeto, por ser excitado e por permanecer algum tempo na mente, por inocente que seja, tanto quanto é natural e necessário, não pode deixar de ser concebido como tendo uma tendência a inclinar as pessoas a arriscar-se nesses meios ilícitos; e, portanto, deve ser concebido como pondo-as em algum perigo disso. Ora, qual é a segurança geral contra esse perigo, contra o seu efetivo desvio do que é certo? Assim como o perigo, também a segurança deve vir de dentro: do princípio prático da virtude. E o fortalecimento ou aperfeiçoamento desse princípio, considerado como prático, ou como princípio de ação, diminuirá o perigo ou aumentará a segurança contra ele. E esse princípio moral é capaz de aperfeiçoamento por meio de disciplina e exercício adequados: recordando as impressões práticas que o exemplo e a experiência deixaram em nós; e, em vez de seguir o humor e a mera inclinação, atentando continuamente para a equidade e o direito do caso em tudo aquilo em que estivermos ocupados, seja em assuntos maiores, seja em menores, e acostumando-nos a agir sempre de acordo com isso, como sendo em si mesmo o motivo justo e natural da ação, e porque esse curso moral de conduta deve necessariamente, sob o governo divino, ser o nosso interesse final. Assim o princípio da virtude, aperfeiçoado em hábito, aperfeiçoamento de que somos capazes desse modo, será claramente, na proporção da sua força, uma segurança contra o perigo em que estão as criaturas finitas pela própria natureza da propensão, ou dos afetos particulares.

“Dessas coisas podemos observar, e isso mostrará ainda mais a nossa necessidade natural e original de ser aperfeiçoados pela disciplina, como acontece que criaturas feitas retas caiam, e que aquelas que preservam a sua retidão, ao fazê-lo, se elevem a um estado de virtude mais seguro. Dizer que o primeiro fato se explica pela natureza da liberdade não é dizer mais do que que a ocorrência efetiva de um evento se explica pela mera possibilidade de que ocorra. Mas ele parece distintamente concebível a partir da própria natureza dos afetos ou propensões particulares. Pois suponham-se criaturas destinadas a um estado particular de vida para o qual tais propensões fossem necessárias; suponha-se que sejam dotadas de tais propensões, juntamente com um entendimento moral que inclua tanto um senso prático da virtude quanto uma percepção especulativa dela; e que todos esses diversos princípios, tanto naturais quanto morais, formando uma constituição interior da mente, estejam na mais exata proporção possível, isto é, numa proporção ajustada com a máxima exatidão ao estado de vida a que se destinam. Tais criaturas seriam feitas retas, ou finitamente perfeitas. Ora, as propensões particulares, por sua própria natureza, precisam ser sentidas quando os seus objetos estão presentes, ainda que não possam ser satisfeitas de modo algum, ou não com a permissão do princípio moral. Mas, se podem ser satisfeitas sem a sua permissão, ou contrariando-o, então devem ser concebidas como tendo alguma tendência, por baixo que seja o grau, mas alguma tendência, a induzir as pessoas a tal satisfação proibida. Essa tendência, em alguma propensão particular, pode ser aumentada pela maior frequência das ocasiões que naturalmente a excitam do que das ocasiões que excitam as outras. A menor indulgência voluntária em circunstâncias proibidas, ainda que só em pensamento, aumentará essa tendência errada; e poderá aumentá-la ainda mais, até que, concorrendo talvez conjunturas peculiares, ela se torne efeito, e o perigo de desviar-se do que é certo termine no desvio efetivo; perigo que surge necessariamente da própria natureza da propensão e que, portanto, não poderia ter sido evitado, embora pudesse ter sido escapado ou atravessado inocentemente. O caso seria como se supuséssemos um caminho reto traçado para uma pessoa, no qual certo grau de atenção a manteria firme; mas, se ela não prestasse atenção nesse grau, qualquer um entre mil objetos que lhe chamasse a vista poderia desviá-la dele. Ora, é impossível dizer quanto até o primeiro ato manifesto e pleno de irregularidade poderia desordenar a constituição interior, desajustar as suas disposições e alterar as proporções que a formavam e nas quais consistia a retidão da sua feitura; mas a repetição das irregularidades produziria hábitos. E assim a constituição se estragaria, e criaturas feitas retas se tornariam corruptas e depravadas em seu caráter estabelecido, na proporção de suas repetidas irregularidades em atos ocasionais. Mas, ao contrário, essas criaturas poderiam ter-se aperfeiçoado e elevado a um estado de virtude mais alto e mais seguro pela conduta contrária: seguindo firmemente o princípio moral, que se supõe ser uma parte da sua natureza, e resistindo assim àquele perigo inevitável de defecção que surgia necessariamente da propensão, a outra parte dela. Pois, preservando assim a sua integridade por algum tempo, o seu perigo diminuiria, já que as propensões, acostumadas a submeter-se, o fariam com mais facilidade e naturalmente; e a sua segurança contra esse perigo decrescente aumentaria, já que o princípio moral ganharia força adicional pelo exercício; e ambas essas coisas estão implicadas na noção de hábitos virtuosos. Assim, pois, a indulgência viciosa não só é criminosa em si mesma, mas também deprava a constituição e o caráter interiores. E o autogoverno virtuoso não só é certo em si mesmo, mas também aperfeiçoa a constituição ou o caráter interior, e pode aperfeiçoá-lo a tal grau que, ainda que supuséssemos impossível que os afetos particulares coincidissem absolutamente com o princípio moral, e consequentemente admitíssemos que criaturas como as supostas acima permaneceriam para sempre sujeitas a defecção, o seu perigo de efetivamente desviar-se do que é certo poderia ser quase infinitamente diminuído, e elas ficariam plenamente fortificadas contra o que dele restasse, se é que se pode chamar perigo àquilo contra o qual há uma segurança adequada e eficaz. Mas, ainda assim, essa sua perfeição mais alta poderia continuar a consistir em hábitos de virtude formados num estado de disciplina, e essa sua segurança mais completa continuaria a proceder deles. E assim é claramente concebível que criaturas sem mancha, tais como saíram das mãos de Deus, possam estar em perigo de errar e, assim, precisar da segurança dos hábitos virtuosos, além do princípio moral que ele incorporou em sua natureza. Aquilo que é o fundamento do seu perigo, ou da sua falta de segurança, pode ser considerado uma deficiência nelas, para a qual os hábitos virtuosos são o suprimento natural. E, como são naturalmente capazes de ser elevadas e aperfeiçoadas pela disciplina, pode ser coisa conveniente e necessária que sejam postas em circunstâncias tendo isso em vista: em circunstâncias particularmente apropriadas para ser, para elas, um estado de disciplina para o seu aperfeiçoamento na virtude” (Analogy).

É fácil, portanto, conceber, sem supor que a liberdade moral em todos os casos necessariamente pressuponha sujeição a cometer pecado, como um ser perfeitamente puro e reto poderia ser capaz de desobediência, embora a submissão contínua a Deus e à sua lei fosse não apenas possível, mas praticável sem esforço doloroso e difícil. Para estar num estado de prova, a liberdade moral, bem como a natural, de escolher o mal era essencial; e, no que esse fato toca a questão da bondade divina, ele se resume nisto: “se era incompatível com esse atributo da natureza divina dotar o homem dessa liberdade, ou, em outras palavras, colocá-lo num estado de prova na terra antes da sua admissão naquele estado do qual a possibilidade do mal está para sempre excluída”. A isso a razão desassistida não poderia dar resposta alguma. Com o auxílio da revelação, temos a certeza de que a benevolência é tão absolutamente o motivo e o fim da providência divina que dispor assim do homem e, consequentemente, permitir a sua queda voluntária é compatível com ela; mas de que maneira o é, está envolto em obscuridade. E, estando estabelecido o fato, bem podemos contentar-nos em esperar o desenvolvimento daquele grande processo que há de “justificar os caminhos de Deus para com o homem”, sem nos entregarmos a especulações que, por não termos diante de nós todos os fatos do caso, serão sempre em grande parte sem fundamento e podem até nos desencaminhar seriamente. Isto sabemos: que a entrada do pecado no mundo deu ocasião às mais ternas manifestações da bondade divina no dom do grande Restaurador, e abriu, a todos os que quiserem valer-se da bênção, a porta para “glória, honra e incorruptibilidade” e para “a vida eterna” (Rm 2.7). As observações de Doddridge sobre esse assunto têm uma modéstia louvável.

“Ainda se perguntará: por que foi permitido o mal moral? A isso se responde geralmente que ele foi resultado da liberdade natural, e que era conveniente que, entre todas as outras classes e ordens de seres, alguns fossem formados possuindo-a, já que ela contribui para a harmonia do universo e para a bela variedade de seres que nele há. Ainda assim se replica: por que Deus não impediu esse abuso da liberdade? Ninguém quereria dizer de bom grado que ele não é capaz de fazê-lo sem violar a natureza das suas criaturas, nem é possível que alguém prove isso. Diz-se comumente que ele o permitiu para extrair daí um bem maior. Mas pode-se perguntar ainda: não poderia ele ter produzido esse bem maior sem tal meio? Não poderia ter assegurado entre todas as suas criaturas o bem universal e a felicidade universal, em plena coerência com a liberdade que lhes dera? Reconheço que não vejo maneira de responder a essa pergunta senão dizendo que ele tinha, sem dúvida, o poder natural de fazê-lo, mas que viu ser melhor não o fazer, embora as razões pelas quais isso lhe pareceu preferível nos sejam inteiramente desconhecidas” (Doddridge, Lectures).

A misericórdia de Deus não é um atributo distinto da sua natureza, mas um modo da sua bondade. É a disposição pela qual ele se inclina a socorrer os que estão na miséria e a perdoar os que o ofenderam. “Na linguagem da Escritura”, diz o arcebispo Tillotson, “ela costuma nos ser apresentada pelas expressões de piedade e compaixão; trata-se de uma afeição que produz em nós uma agitação e uma perturbação perceptíveis, diante da apreensão de algum grande mal que ameaça ou oprime outra pessoa; e, em conformidade com isso, diz-se que Deus se entristece e se aflige com as misérias dos homens. Mas, embora Deus se agrade de nos transmitir desse modo uma ideia da sua misericórdia e ternura, devemos tomar cuidado para não revestir a natureza divina das fraquezas das paixões humanas. Não devemos medir as perfeições de Deus pelas expressões da sua condescendência, nem, porque ele se inclina à nossa fraqueza, rebaixá-lo ao nível das nossas debilidades. Portanto, quando se diz que Deus tem piedade de nós, ou que se entristece com as nossas aflições, devemos ter o cuidado de remover a imperfeição da paixão, a agitação e a perturbação que ela provoca; e então poderemos conceber a misericórdia e a compaixão divinas com toda a força que quisermos, e entender que ela se exerce de maneira muito terna e afetuosa.

“Por isso, as Sagradas Escrituras não nos dizem apenas que ‘o Senhor, nosso Deus, é Deus misericordioso’ (Dt 4.31), mas que ele é ‘o Pai de misericórdias e Deus de toda consolação’ (2Co 1.3); que ele ‘tem prazer na misericórdia’ (Mq 7.18), ‘espera, para ter misericórdia’ (Is 30.18), tem ‘alegria em nos fazer o bem’ (Jr 32.41) e nos ‘coroa de graça e misericórdia’ (Sl 103.4). Para indicar a grandeza e a constância dessa afeição, não nos dizem apenas que ‘a sua misericórdia se eleva acima dos céus’ (Sl 108.4), que ela ‘permeia todas as suas obras’ (Sl 145.9), que está guardada ‘em mil gerações’ (Êx 34.7) e que há de durar para todo o sempre. Para exprimir a intensidade dela, não nos falam apenas da ‘multidão das suas misericórdias’ (Sl 51.1), da ‘ternura do seu coração’ (Is 63.15), do comover-se do seu coração e de ‘toda a sua compaixão’ que se manifesta (Os 11.8). Mais do que isso: para nos dar uma ideia tão perceptível quanto possível das compaixões de Deus, comparam-nas às afeições mais ternas que há entre os homens; à de um pai para com os filhos: ‘Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem’ (Sl 103.13); e até à compaixão de uma mãe para com o seu bebê: ‘Será que uma mulher pode se esquecer do filho que ainda mama, de maneira que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele’ (Is 49.15), o que é possível, embora muito improvável; porém, ainda que uma mãe possa tornar-se desnaturada, Deus não pode mostrar-se sem misericórdia.

“Em suma, as Escrituras engrandecem em toda parte a misericórdia de Deus e falam dela com toda a vantagem possível, como se a natureza divina, que em todas as perfeições supera todas as outras coisas, nesta perfeição superasse a si mesma. E disso temos uma convicção ainda maior se apenas erguermos os olhos para Deus e, voltando-os depois para nós mesmos, começarmos a considerar quantos males e misérias, a que todos os dias estamos expostos, são impedidos pela sua misericórdia preveniente, ou, quando já vinham sobre nós, foram detidos ou desviados para outro lado; quantas vezes ele adiou o nosso castigo pela sua misericórdia paciente, ou, quando este era necessário para a nossa correção, o abrandou e o tornou leve; quantas vezes fomos sustentados em nossas aflições pela sua misericórdia consoladora e visitados pela luz do seu rosto nas necessidades da nossa alma e na escuridão do desespero; quantas vezes fomos supridos em nossas carências pela sua misericórdia benfazeja, e, quando não havia mão que nos socorresse nem alma que se compadecesse de nós, o seu braço se estendeu para nos tirar do lamaçal e do barro e, por uma sequência providencial de acontecimentos, nos trouxe o sustento e o amparo. E, acima de tudo, quão diariamente, quão a cada hora, quão a cada minuto o ofendemos, e ainda assim, pelo poder da sua misericórdia perdoadora, continuamos vivos. Pois, considerando a multidão e a gravidade das nossas provocações, ‘as misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim’ (Lm 3.22). ‘Quem é sábio atente para essas coisas e considere as misericórdias do Senhor’ (Sl 107.43).” (Sermons.)

Notas de Richard Watson

1. Remarks on the Refutation of Calvinism, de Scott. Poucos foram tão ousados, exceto os antinomianos mais grosseiros dos tempos antigos e modernos. Os calvinistas mais antigos, embora muitas vezes se aproximassem assustadoramente dessa blasfêmia em seus escritos, não acusaram Deus, aberta e diretamente, de ser o autor do pecado. Armínio reconhece isso com grande imparcialidade; mas lhes faz uma admoestação amigável para que renunciem a uma doutrina da qual essa difamação do caráter divino pode ser deduzida por consequência legítima, advertência que não é desnecessária nos dias de hoje: “Entre todas as blasfêmias que se podem lançar contra Deus, a mais grave de todas é aquela pela qual Deus é declarado autor do pecado. E ela se agrava não pouco se se acrescentar que Deus é autor do pecado cometido pela criatura com o fim de condenar e conduzir a criatura à perdição eterna, à qual ele já antes a havia destinado sem levar em conta o pecado; pois assim ele teria sido a causa da injustiça do homem, para poder infligir-lhe a miséria eterna. Ninguém atribuirá essa blasfêmia ao Deus que concebe como bom; por isso também os maniqueus, os piores dos hereges, temendo atribuir a causa do mal ao Deus bom, estabeleceram outro deus e outro princípio, ao qual imputaram a causa do mal. Por esse motivo, não se pode com justiça acusar nenhum dos doutores das igrejas reformadas de declarar abertamente que Deus é o autor do pecado; pelo contrário, é inteiramente verdadeiro que eles o negam expressamente e que refutaram de modo notável essa calúnia contra os outros. Contudo, pode acontecer que alguém, por ignorância, ensine algo do qual se deduza, por consequência legítima, que por essa doutrina Deus é declarado autor do pecado. Se isso acontecer, não se deve acusar os que professam essa doutrina de fazerem de Deus o autor do pecado, mas apenas admoestá-los a que deixem e rejeitem a doutrina da qual isso se deduz por consequência legítima.” ↩

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Richard Watson, Theological Institutes; or, A View of the Evidences, Doctrines, Morals, and Institutions of Christianity (Londres, 1823-1829), conferido com a edição de Nova York (Lane & Scott, 1850-1851). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).