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Parte II · Capítulo VII

Atributos de Deus: a santidade

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Nas criaturas, a santidade é a conformidade com a vontade de Deus, tal como expressa em suas leis, e consiste na abstenção de tudo o que se compreende sob o termo geral de pecado, e no hábito e na prática da justiça. Entende-se com propriedade que esses dois termos incluem diversos princípios, afeições e atos, que, considerados separadamente, são tidos como vícios ou virtudes; e, em conjunto, como constituintes de um caráter santo ou corrompido. A nossa concepção da santidade nas criaturas, tanto no seu sentido negativo quanto no positivo, é, portanto, explícita: ela é determinada pela vontade de Deus. Mas, quando falamos de Deus, falamos de um Ser que é lei para si mesmo e cuja conduta não pode ser referida a nenhuma autoridade mais alta que a sua. Essa circunstância deu origem a várias opiniões sobre a santidade do Ser divino e a diferentes modos de expor esse glorioso atributo da sua natureza moral. Mas, sem conduzir o leitor à questão infrutífera de saber se, de um lado, existe uma natureza e uma conveniência fixas e inalteráveis das coisas, independentes da vontade divina, ou se, de outro, o bem e o mal têm o seu fundamento não na natureza das coisas, mas apenas na vontade divina, que os torna tais, há um método, talvez menos direto, porém mais satisfatório, de auxiliar os nossos pensamentos sobre esse assunto.

É certo que diversas afeições e ações foram ordenadas a todas as criaturas racionais sob o nome geral de justiça, e que as suas contrárias foram proibidas. É também matéria de experiência e observação constantes que o bem da sociedade só é promovido pelas primeiras e é prejudicado pelas segundas; e também que todo indivíduo, pela própria constituição da sua natureza, extrai da retidão benefício e felicidade, e do vício, dano e miséria. Essa constituição da natureza humana é, portanto, um indício de que o Criador e Governante dos homens os formou com a intenção de que evitassem o vício e praticassem a virtude; e de que o primeiro é objeto da sua aversão, e a segunda, da sua estima. Sobre esse princípio foram construídas todas as leis que o Deus todo-poderoso, em seu caráter de legislador, promulgou para o governo da humanidade. “A lei é santa e o mandamento é santo, justo e bom” (Rm 7.12). Na administração do mundo, em que Deus tantas vezes se mostra em sua função de juiz, os castigos infligidos aos homens, indireta ou imediatamente, tendem claramente a desestimular e impedir a prática do mal. “Acima de tudo, o evangelho, aquela última e mais perfeita revelação da vontade divina, longe de dar aos que o professam qualquer licença para pecar porque a graça abundou (imputação injuriosa que lhe lançam mentes ignorantes e ímpias), tem como seu principal propósito estabelecer aquele grande princípio, a pureza moral de Deus, e manifestar a sua aversão ao pecado e o seu inviolável apreço pela pureza e pela virtude em suas criaturas racionais. Foi para isso que ele enviou o seu Filho ao mundo, para desviar os homens das suas iniquidades e trazê-los de volta às veredas da justiça. Para isso o bendito Jesus se submeteu às mais profundas humilhações e aos mais dolorosos sofrimentos. Ele se entregou (como diz são Paulo) pela sua igreja, para a santificar e purificar, para a apresentar a si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha nem ruga, mas santa e sem defeito; ou, como se diz em outro lugar, deu a si mesmo por nós, a fim de nos remir das nossas iniquidades e purificar para si mesmo um povo exclusivamente seu, dedicado à prática de boas obras. Em tudo isso se diz que ele fez a vontade de seu Pai e o glorificou, isto é, restaurou e promoveu no mundo a causa da virtude e da justiça, que é a glória de Deus. E a sua vida foi a imagem visível da santidade divina, proposta como exemplo familiar à humanidade, pois ele era santo, inculpável, sem mácula e separado dos pecadores. Ele não cometeu pecado, nem foi encontrado engano em sua boca. E assim como o cristianismo, pelo caráter do seu autor e pelas suas ações e sofrimentos, se mostra uma prova intencional da santidade de Deus, ou da sua aversão ao pecado e do seu desejo gracioso de desviar dele os homens, assim também a própria instituição é perfeitamente pura: contém as mais claras e vivas descrições da virtude moral e os mais fortes motivos para praticá-la. Promete, como da parte de Deus, o mais bondoso auxílio aos homens, para tornar o evangelho eficaz em renová-los no espírito do seu entendimento e reformar a sua vida, por meio do seu Espírito enviado do céu precisamente para convencer o mundo do pecado, da justiça e do juízo; para iluminar os que estavam em trevas e converter os desobedientes à prudência dos justos; para fortalecer os seus convertidos à verdadeira religião em toda obediência, perseverança e paciência; para capacitá-los a resistir à tentação, a abundar nos frutos de justiça e a aperfeiçoar a santidade no temor de Deus.” (Sermons de Abernethy.)

Uma vez que é tão manifesto, então, que “o Senhor ama a justiça e odeia a iniquidade” (cf. Sl 11.7; 45.7), é preciso concluir necessariamente que essa preferência por uma e esse ódio à outra procedem de algum princípio da sua própria natureza. “Que ele é o Senhor justo” (cf. Sl 11.7), “tão puro de olhos” que não pode “suportar o mal” (Hc 1.13), alguém que não pode olhar para a iniquidade. Esse princípio é a santidade, um atributo que ele assume para si da maneira mais enfática e que lhe é atribuído tanto pelos anjos que o adoram em seus coros como pelos santos inspirados em seu culto. Ele é, pela sua própria designação, “o Santo de Israel”; os serafins, na visão do profeta, clamam continuamente: “Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória” (Is 6.3), resumindo assim todas as suas glórias nesta única perfeição moral. A linguagem do santuário na terra é tomada da linguagem do céu: “Quem não temerá e não glorificará o teu nome, ó Senhor? Pois só tu és santo” (Ap 15.4).

Se, pois, existe na mente divina esse princípio que o leva a prescrever, amar e recompensar nas suas criaturas a verdade, a justiça, a benevolência e toda outra afeição e hábito virtuosos, que resumimos no termo santidade, e a proibir, refrear e punir os seus opostos, esse princípio, sendo essencial nele, parte da sua própria natureza e Divindade, deve ser a fonte e a guia da sua própria conduta. E assim concebemos sem dificuldade a retidão essencial, ou santidade, da natureza divina e o caráter absolutamente puro e justo da sua administração: “Nele não pode haver malícia, nem inveja, nem ódio, nem vingança, nem orgulho, nem crueldade, nem tirania, nem injustiça, nem falsidade, nem infidelidade; e, se houver alguma outra coisa que implique pecado, vício e imperfeição moral, a santidade significa que a natureza divina está a uma distância infinita dela.” (Tillotson.) Nem devemos conceber essa qualidade apenas de modo negativo, mas também de modo positivo, como “a retidão efetiva e perpétua de todas as suas volições e de todas as obras e ações que delas decorrem; e uma eterna propensão a ela e amor por ela, pelo qual é absolutamente impossível a essa vontade que ela jamais varie.” (Howe.)

Esse atributo da santidade se manifesta em dois grandes ramos, a justiça e a verdade, que às vezes também são tratados como atributos separados.

A justiça, em seu princípio, é santidade, e muitas vezes é expressa pelo termo retidão; mas, quando diz respeito a questões de governo, a retidão universal da natureza divina se mostra num apreço inflexível pelo que é certo e numa oposição ao que é errado, que não pode ser torcida nem alterada em grau algum. “É justo e reto” (Dt 32.4). A justiça em Deus, quando não é considerada universal, mas particular, é ou legislativa ou judicial.

A justiça legislativa determina o dever do homem e o obriga a cumpri-lo, e também define as recompensas e os castigos que serão devidos à obediência ou à desobediência da criatura. Esse ramo da justiça divina tem muitas ilustrações na Escritura. O seu princípio é o direito absoluto que Deus tem à obediência inteira e perpétua das criaturas que ele fez. Esse direito é incontestável, e, em conformidade com ele, todos os agentes morais estão colocados sob uma lei e sujeitos a recompensas ou castigos. Ninguém é excetuado. Os que não têm a lei revelada de Deus têm uma lei “gravada no seu coração” e “se tornam lei para si mesmos” (Rm 2.14-15). A lei original de obediência dada ao homem não foi uma lei para o primeiro homem apenas, mas para toda a raça humana; pois, se, como o apóstolo estabeleceu, “todo o mundo”, que abrange tanto judeus como gentios, é “culpável diante de Deus” (Rm 3.19), então todo o mundo está sob uma lei de obediência. Nesse aspecto, Deus é justo ao afirmar o seu próprio direito de ser obedecido e ao reclamar da criatura que ele fez e preservou a obediência que ela, em estrita justiça, lhe deve; mas essa reivindicação é estritamente limitada e nunca vai além da justiça até o rigor. Ele não é um “homem severo, que colhe onde não plantou e ajunta onde não espalhou” (Mt 25.24). A sua lei, contudo, é imutável na sua exigência de obediência universal por parte do homem, porque nela o homem é considerado como criatura capaz de prestar essa obediência. Mas, quando a raça humana se corrompeu, foram introduzidos meios de perdão compatíveis com um governo justo, pela expiação do pecado realizada na morte de Jesus Cristo e recebida pela fé; e foi posto ao seu alcance um auxílio sobrenatural, pelo qual o mal da sua natureza pudesse ser removido e lhes fossem comunicadas a disposição e a capacidade de obedecer à lei de Deus. O caso das nações pagãs às quais o evangelho ainda não foi pregado poderá ser considerado mais adiante. Ele envolve algumas dificuldades, mas basta-nos saber que “o Juiz de toda a terra” fará justiça (Gn 18.25), e que isso se tornará evidente a todas as criaturas quando os fatos de todo o caso forem revelados, no dia da “revelação de Jesus Cristo” (1Pe 1.13).

A justiça judicial, mais comumente chamada justiça distributiva, é a que diz respeito às recompensas e aos castigos. Deus retribui aos homens segundo as suas obras. Diz-se que esse ramo da justiça é remuneratório, ou premiativo, quando ele recompensa os obedientes, e vindicativo, quando pune os culpados. Quanto ao primeiro, trata-se de fato de uma recompensa que, propriamente falando, não é de dívida, mas de graça; pois, de antemão, Deus não pode ser devedor das suas criaturas. Mas, uma vez que ele se obriga por compromissos em sua lei, expressos ou tácitos (“Faça isto e você viverá”, Lc 10.28), ou associa a algum dever particular uma promessa particular de recompensa, cumprir o compromisso torna-se parte da justiça. Também com base nesse princípio, são Paulo diz (Hb 6.10): “Deus não é injusto para se esquecer do trabalho que vocês fizeram e do amor”. E: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados” (1Jo 1.9). “Até isso tem justiça. Sob um aspecto, é o mais alto ato de misericórdia que se possa imaginar, considerando a liberdade e a franqueza com que foram estabelecidos o curso e o método pelos quais os pecados vêm a ser perdoados; mas é também um ato de justiça, na medida em que é a observância de um método ao qual ele se havia obrigado e do qual, por isso, depois não pode afastar-se nem variar.” (Posthumous Works de Howe.)

A justiça vindicativa ou punitiva consiste na aplicação do castigo. Ela torna certo o castigo do pecado não perdoado, de modo que nenhum criminoso escape; e garante a proporção exata do castigo à natureza e às circunstâncias da ofensa. Essas duas circunstâncias estão assinaladas em numerosas passagens da Escritura, cujo testemunho sobre esse assunto pode ser resumido nas palavras de Eliú: “Pois Deus retribui ao homem segundo as suas obras e paga a cada um conforme o seu caminho. Na verdade, Deus não pratica o mal; o Todo-Poderoso não perverte o direito” (Jó 34.11-12).

O que se chama justiça comutativa diz respeito à troca de uma coisa por outra de igual valor e é exigida pelos contratos, negócios e transações semelhantes entre os homens; mas esse ramo da justiça não pertence a Deus, por causa da sua dignidade. “Ele não tem igual; não há ninguém da mesma ordem que ele para fazer trocas com ele, ou para lhe transferir direitos em troca de direitos transferidos por ele.” “A nossa justiça não chega até ele, nem pode o homem ser de proveito para o seu Criador” (cf. Sl 16.2; Jó 22.2). Todo o mundo das criaturas é desafiado e humilhado pela pergunta: “Quem primeiro deu alguma coisa a Deus para que isso lhe seja restituído?” (Rm 11.35).

A estrita imparcialidade é, contudo, uma característica proeminente da justiça de Deus. “Deus não trata as pessoas com parcialidade” (Rm 2.11). Assim como, de um lado, ele não odeia nada do que fez e não pode ser influenciado por preconceitos e predisposições, assim também, de outro, não pode temer ninguém, por mais poderoso que seja. Nenhum ser lhe é necessário, nem mesmo como agente para cumprir os seus planos, a ponto de ele fazer vista grossa às suas ofensas; nenhuma coalizão de seres pode resistir à marcha firme e equânime da sua administração. A majestade da sua Divindade o coloca infinitamente acima de todas essas considerações. “Pois o Senhor, o Deus de vocês, é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e temível, que não trata as pessoas com parcialidade, nem aceita suborno” (Dt 10.17). Ele “não privilegia os príncipes, e não favorece o rico em prejuízo do pobre; porque todos são obra de suas mãos” (Jó 34.19).

Há, no entanto, muitas circunstâncias na administração dos negócios do mundo que parecem irreconciliáveis com o exercício estrito e exato da justiça que atribuímos a Deus como Governante supremo. Elas têm sido às vezes apresentadas como objeções, e os autores de sistemas de “religião natural” muitas vezes tiveram dificuldade em respondê-las. Isso se deve ao fato de excluírem de tais sistemas, tanto quanto possível, a luz da revelação; e é por esse motivo, muito mais do que pelas dificuldades reais dos casos apresentados, que os seus raciocínios muitas vezes são insatisfatórios. Ora, se o homem está, de fato, sob uma dispensação de graça e misericórdia, e se essa dispensação está agora em perfeito acordo com a mais estrita justiça do governo moral de Deus, nem as circunstâncias do homem nem a conduta de Deus para com ele podem jamais ser julgadas por sistemas construídos expressamente sobre o princípio de excluir todas as perspectivas que são próprias das Escrituras. Ao tentar fazê-lo, a causa da verdade foi mais prejudicada do que servida, porque muitas vezes se manejou um argumento fraco quando havia à mão um argumento poderoso; e a resposta aos objetores incrédulos foi parcial, para que não se dissesse que a réplica plena e suficiente fora fornecida não pela razão humana, mas pela razão, pela sabedoria do próprio Deus, tal como incorporada na sua palavra. Isso, porém, é pouco melhor do que uma maneira solene de brincar com verdades que dizem respeito tão profundamente aos homens.

Mas levem-se em conta os dois fatos que dizem respeito às relações do homem com Deus como Governador do mundo e que imprimem o seu caráter na sua administração: que Deus é um Governante justo; e que, ainda assim, o homem ofensor está sob uma dispensação de misericórdia, a qual provê o seu perdão e a cura da sua natureza corrompida, meritoriamente por meio do sacrifício de Cristo e instrumentalmente por meio do seu próprio arrependimento e fé. Feito isso, lança-se uma luz forte, e em geral muitíssimo satisfatória, sobre os casos que se supunham mais irreconciliáveis com um governo exato e justo.

A doutrina de um juízo futuro e geral, a única que explica tantas dificuldades da administração divina, fundamenta-se unicamente na doutrina da redenção. Sob uma administração de justiça estrita, o castigo teria de seguir a ofensa sem demora. Isso está indicado na sanção da primeira lei: “no dia em que dela comer, você certamente morrerá” (Gn 2.17), ameaça que, como podemos aprender da Escritura, teria sido executada plenamente, não fosse a introdução imediata do plano redentor. Se supusermos que o primeiro casal tivesse preservado a sua inocência e que algum dos seus descendentes, em qualquer época, se tornasse desobediente, este teria de levar a sua própria iniquidade, e o castigo, até a morte e a exclusão, teria de seguir-se imediatamente; pois, no caso de um governo divino, em que as partes são Deus e uma criatura, todo pecado deve ser considerado capital, uma vez que a pena de morte é, em todos os casos, a sentença da lei divina contra a transgressão. Sob tal administração, não pareceria existir razão alguma para um juízo geral no fim da duração do mundo. Esse juízo tem a sua razão nas circunstâncias de prova em que os homens são colocados pela introdução de um método de restauração. A justiça, unida a uma expiação suficiente, admite a suspensão do castigo pela ofensa, a longanimidade, a aplicação de meios de arrependimento e conversão, e isso durante todo o tempo da vida natural. O julgamento, o exame e a exposição pública do uso ou do abuso dessa paciência e desses meios são adiados para um dia determinado, no qual aquele que agora oferece a graça administrará a justiça, estrita e implacável. Este mundo não é o lugar designado para o juízo final, sob a nova dispensação; o espaço da vida humana na terra não é o tempo designado para ele. E, por mais difícil que seja, sem levar essas coisas em consideração, rastrear as manifestações da justiça no governo moral de Deus, ou reconciliar certas circunstâncias com o caráter de um governante justo, com o auxílio delas a dificuldade é removida. A justiça, como princípio da sua administração, tem uma manifestação suficientemente terrível nas misérias que, nesta vida, estão ligadas ao vício; nas tristezas e sofrimentos a que está sujeita uma raça corrompida; e, acima de tudo, na satisfação exigida do próprio Filho de Deus como preço do perdão humano. Mas, uma vez que o castigo final dos ofensores perseverantes e obstinados está, por proclamação do próprio Deus, adiado para “um dia em que julgará o mundo com justiça, por meio de um homem que escolheu” (At 17.31), e uma vez que também as recompensas finais da parte reconciliada e restaurada da humanidade estão igualmente adiadas, é tolice procurar um exercício perfeito da justiça no estado presente.

Podemos aprender disso, portanto:

1. Que não é acusação contra um governo justo que a prosperidade exterior seja a sorte de grandes ofensores. Pode fazer parte de uma administração graciosa levá-los ao arrependimento pelo favor; ou pode destinar-se a tornar mais notáveis a sua queda e o seu castigo final; ou pode ter o propósito de ensinar a importante lição do pequeno valor das vantagens exteriores separadas de hábitos santos e de uma mente agradecida.

2. Que não é incompatível com a retidão que mesmo os que foram perdoados e reconciliados, os que se tornaram queridos de Deus, sejam afligidos e oprimidos, uma vez que os seus defeitos e omissões podem exigir correção, e uma vez que também essas coisas se tornam meios de se destacarem na virtude, de favorecerem a sua disposição celestial e de os habilitarem para um estado melhor.

3. Que, sendo a administração sob a qual o homem está colocado uma administração de graça em harmonia com a justiça, a dispensação do que é matéria de puro favor pode ter grande variedade e ser até muito desigual sem nenhuma ofensa à justiça. A parábola dos trabalhadores da vinha parece destinada a ilustrar isso. A todos Deus poderá dizer, no acerto de contas no fim do dia: “não estou sendo injusto com você” (Mt 20.13); nenhum princípio de justiça será violado; ficará evidente, então, que ele não colhe onde não plantou. Mas o outro princípio terá sido igualmente manifestado de modo notável: “Será que não me é lícito fazer o que quero com o que é meu?” (Mt 20.15).

Com as nações o caso é diferente. Sendo as suas recompensas e os seus castigos de natureza civil, podem ser plenamente administrados nesta vida, e, como corpos políticos, elas não têm existência póstuma. A recompensa e a retribuição, no caso delas, foram por isso visíveis e notáveis em todas as épocas; e, na conduta do grande Governante para com elas, diz-se que os seus “juízos reinam na terra” (Is 26.9). Uma após outra, toda nação viciosa pereceu, e sempre por meios tão assinalados, e muitas vezes tão singulares, que trazem sobre si um caráter punitivo amplo e legível. Com os corpos coletivos de homens, na verdade, o governo de Deus neste mundo se ocupa grandemente, e isso tanto no seu caráter civil quanto no religioso; com as igrejas, por assim dizer, bem como com os Estados. Em consequência, os casos dos indivíduos, como nem todos podem ser de igual culpa ou inocência, muitas vezes ficam misturados e confundidos. Essas irregularidades aparentes, e às vezes talvez reais, decorrentes da operação de um sistema geral, podem ser compensadas aos bons, ou alcançar os maus, no seu caráter pessoal, em outro estado, para o qual somos constantemente orientados a olhar como o grande e amplo comentário de tudo o que é obscuro neste.

Pelas descobertas da palavra de Deus quanto a esse atributo da natureza divina, devemos ao seu Autor o mais grato reconhecimento. Sem essa revelação, de fato, as concepções que os pagãos formam da justiça com que o mundo é administrado são extremamente imperfeitas e instáveis. O curso do mundo é para eles uma correnteza sem direção, um movimento sem controle; e o resultado muitas vezes há de ser o abatimento e a impaciência:1 ensinados como somos, não vemos nada solto ou desconjuntado no sistema. Uma mão firme segura, controla e dirige o todo. Esse poder governante também se manifesta a nós como nosso amigo, nosso pai e nosso Deus, que tem prazer na misericórdia e só recorre à severidade quando nós mesmos o obrigamos a essa medida relutante. Sobre esses princípios firmes de justiça e misericórdia, verdade e bondade, tudo é conduzido, tanto no âmbito privado como no público; e desses fundamentos estáveis nenhuma mudança, nenhuma convulsão, pode desprender a vasta estrutura dos interesses e negócios humanos.

Aliada à justiça, assim como a justiça é aliada à santidade, está a verdade de Deus, manifestação do caráter moral de Deus que também ocupa um lugar eminente no volume inspirado. Diz-se que as suas veredas são “misericórdia e verdade” (Sl 25.10), e que as suas palavras, caminhos e juízos são verdadeiros e justos. “A tua misericórdia se eleva até os céus, e a tua fidelidade, até as nuvens” (Sl 57.10). Ele “mantém para sempre a sua fidelidade” (Sl 146.6). “A Glória de Israel não mente” (1Sm 15.29). “É impossível que Deus minta” (Hb 6.18). Ele “é o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia” (Dt 7.9); “ele permanece fiel” (2Tm 2.13). Por essas e outras passagens, fica claro que a verdade é contemplada pelos escritores sagrados em seus dois grandes ramos, a veracidade e a fidelidade, ambas atribuídas por eles a Deus com uma ênfase e um vigor de expressão que mostram ao mesmo tempo a sua crença nesses fatos, a sua confiança neles e o lugar importante que consideravam caber à existência de tal ser num sistema de religião revelada. Isso forma, de fato, a base de toda religião: conhecer o Deus verdadeiro e saber que esse Deus é verdadeiro. Na Bíblia isso tem necessariamente de ser declarado de maneira plena e satisfatória, por causa das outras descobertas que ela faz da natureza divina. Se ela nos revela como o único Deus vivo e verdadeiro um ser de conhecimento infinitamente perfeito, então ele mesmo não pode ser enganado, e o seu conhecimento é verdadeiro, porque conforme à realidade exata e perfeita das coisas. Se ele é santo, sem mancha nem defeito, então a sua palavra tem de ser conforme ao seu conhecimento, à sua vontade e à sua intenção. Por isso, ele não pode enganar os outros. Em todo o seu trato conosco, ele usa de perfeita sinceridade e representa as coisas como elas são, sejam leis a obedecer, sejam doutrinas a crer. Tudo é perfeita e absoluta veracidade nas suas comunicações. “Deus é luz, e não há nele treva nenhuma” (1Jo 1.5).

A sua fidelidade diz respeito aos seus compromissos e nos é confirmada com a mesma certeza que a sua veracidade. Se ele assume compromissos, promessas e alianças, age com perfeita liberdade. São atos de graça aos quais ele não está sujeito a nenhuma coação, e por isso jamais podem ser compromissos relutantes que ele desejaria violar, porque procedem de uma inclinação incessante e imutável para conceder benefícios e de um prazer no exercício da bondade. Jamais podem ser feitos às pressas ou sem reflexão, pois toda a situação das suas criaturas até o fim dos tempos está diante dele, e não pode surgir nenhuma circunstância que para ele seja nova ou imprevista. Não lhe pode faltar o poder para cumprir as suas promessas, porque ele é onipotente; não pode prometer além da sua capacidade de cumprir, porque a sua plenitude é infinita; finalmente, ele “não pode negar a si mesmo” (2Tm 2.13), porque “Deus não é homem, para que minta; nem filho de homem, para que mude de ideia” (Nm 23.19). E assim toda promessa que ele fez está garantida, tanto pelos seus atributos naturais de sabedoria, poder e suficiência quanto pela sua perfeita retidão moral. Desse modo, o Deus verdadeiro se põe em contraste com os “ídolos vãos” (Jn 2.8) das divindades pagãs; e nesse seu caráter de verdade estão lançados os fundamentos eternos da sua religião. Ela não muda, porque as doutrinas nela ensinadas são em si mesmas verdadeiras, sem erro, e jamais podem ser substituídas por descobertas novas e melhores; ela não falha, porque toda promessa graciosa tem de ser cumprida por ele; e assim a religião da Bíblia continua de geração em geração, e de dia em dia, tanto uma questão de experiência pessoal quanto sempre foi. Em suas doutrinas, ela jamais pode tornar-se uma teoria antiquada, pois a verdade é eterna. Em sua aplicação prática, jamais pode tornar-se estranha ao homem, pois entra agora, e há de entrar sempre, nos seus interesses, deveres, esperanças e consolações, até o fim dos tempos. Sabemos o que é verdadeiro como objeto de crença, porque o Deus da verdade o declarou; e sabemos o que é fiel e, portanto, objeto de confiança ilimitada, porque “quem fez a promessa é fiel” (Hb 10.23). Portanto, quer consideremos a palavra de Deus, na linguagem dos antigos teólogos, como “declaratória ou promissória”, declarando “como as coisas são ou como serão”, ou prometendo-nos certos benefícios, a sua verdade absoluta nos é confirmada pela verdade da própria natureza divina. Ela reclama o assentimento indiviso do nosso juízo e a confiança sem suspeita do nosso coração, e apresenta ao mesmo tempo um lugar seguro de repouso para as nossas opiniões e um objeto fiel para a nossa confiança.

Tais são os adoráveis atributos do Deus eternamente bendito que nos são revelados distintamente em sua própria palavra. Além deles, há outras atribuições de excelência, mais gerais, que, embora sejam vagas e indeterminadas, pela própria grandeza do assunto e pela imperfeição da concepção e da linguagem humanas, servem, por isso mesmo, para elevar as nossas concepções a respeito dele e para pôr diante do espírito humilhado e reverente do homem uma altura e uma profundidade avassaladoras de majestade e glória.

Deus é perfeito. Somos assim ensinados a atribuir-lhe toda excelência natural e moral que possamos conceber; e, quando o tivermos feito, devemos concluir que, se alguma glória sem nome e não concebida for necessária para completar uma perfeição que exclui toda deficiência, que não admite nenhum excesso e que é inalteravelmente plena e completa, essa glória existe nele. Todo atributo nele é perfeito em sua espécie e é o mais elevado da sua espécie. É perfeito em seu grau, não ficando nem um pouco abaixo do padrão da mais alta excelência, seja nas nossas concepções, seja nas dos anjos, seja na própria natureza possível das coisas. Essas diversas perfeições são distribuídas sistematicamente em incomunicáveis, como a existência por si mesmo, a imensidade, a eternidade, a onisciência, a onipotência e outras semelhantes, porque não há nada nas criaturas que pudesse ser designado por esses nomes, nenhuma propriedade comum da qual esses pudessem ser os termos comuns, e por isso permanecem própria e exclusivamente pertencentes ao próprio Deus; e comunicáveis, como a sabedoria, a bondade, a santidade, a justiça e a verdade, porque, sob os mesmos nomes, podem ser ditas dele e de nós, embora num sentido infinitamente inferior. Mas todas essas perfeições formam a única e gloriosa perfeição e plenitude de excelência que constitui a natureza divina. Não são acidentes separáveis dessa natureza ou acrescentados a ela, mas são a sua própria natureza, que é e tem de ser perfeitamente sábia e boa, santa e justa, todo-poderosa e todo-suficiente. Essa ideia de perfeição positiva, que percorre toda a Escritura, autoriza-nos também a concluir que, onde se atribuem a Deus atributos negativos, eles implicam sempre uma excelência positiva. A imortalidade implica “uma plenitude de vida que não se deteriora”; e, quando se diz que Deus é invisível, o sentido é que ele é um ser de excelência alta demais, de natureza gloriosa e transcendente demais, para estar sujeito à observação dos sentidos.

Deus é todo-suficiente. Esta é outra daquelas declarações da Escritura que elevam as nossas concepções de Deus a uma amplitude de grandeza misteriosa, ilimitada e indefinida. É suficiência, plenitude e abundância absolutas que procedem dele mesmo e brotam eternamente das suas próprias perfeições; suficiência para si mesmo, de modo que ele é tudo para si mesmo e não depende de nenhum outro ser; e suficiência para toda aquela comunicação, por maior e mais duradoura que seja, da qual depende todo o universo das criaturas existentes, e somente da qual podem ser supridas as criações futuras, se alguma vier a ocorrer. O mesmo vasto pensamento é expresso por são Paulo na expressão “tudo em todos” (1Co 15.28), que, como observa com razão Howe (Posthumous Works), “é uma expressão muitíssimo digna de Deus, na qual Deus fala de si mesmo com grandeza divina e sentido majestoso. Eis aqui um tudo em todos: um tudo compreendido e um tudo que compreende; um criado e o outro incriado; o primeiro contido no segundo e perdido como uma gota no oceano, na plenitude incriada que tudo compreende, tudo penetra e tudo sustenta.” “Pois nele vivemos, nos movemos e existimos” (At 17.28).

Deus é insondável. Tudo o que vemos ou ouvimos dele é manifestação tênue e sombria. Além da mais alta glória, há ainda uma luz impenetrada e inacessível, uma região de esplendor intelectual e moral jamais percorrida pelos pensamentos dos espíritos que contemplam e adoram e que estão mais próximos do seu trono. A manifestação dessa natureza de Deus, que nunca há de ser plenamente revelada, por ser infinita, é apresentada como aquilo que constitui a recompensa e a felicidade do céu. Isto é “ver a Deus” (Mt 5.8). Isto é estar “para sempre com o Senhor” (1Ts 4.17). Isto é contemplar a sua glória como num espelho, com o rosto descoberto, e ser transformado na sua imagem, de glória em glória, numa progressão sem limites e numa aproximação infinita. Contudo, depois de tudo, será tão verdadeiro, após incontáveis eras passadas no próprio céu, como no estado presente, que ninguém pode “desvendar os mistérios de Deus” nem “descobrir a perfeição do Todo-Poderoso” (Jó 11.7). Ele será então “um Deus que se esconde” (Is 45.15); e, por mais que a iluminação se estenda, “nuvens e escuridão” ainda “o rodeiam” (Sl 97.2). “Bendito seja o teu nome glorioso, que ultrapassa todo bendizer e louvor” (Ne 9.5). “Teu, Senhor, é o poder, a grandeza, a honra, a vitória e a majestade, porque teu é tudo o que há nos céus e na terra. Teu, Senhor, é o reino, e tu te exaltaste como chefe sobre todos” (1Cr 29.11). “Bendito seja o Senhor Deus, o Deus de Israel, o único que faz maravilhas! Bendito para sempre o seu glorioso nome, e da sua glória se encha toda a terra. Amém e amém!” (Sl 72.18-19).

Notas de Richard Watson

1. O talentoso Quintiliano pode ser dado como exemplo disso e também daquilo que o apóstolo chama de entristecer-se “como os demais, que não têm esperança” (1Ts 4.13). Ao lamentar de modo comovente a morte da esposa e dos filhos, ele nos diz que havia perdido todo o gosto pelo estudo e que todo bom pai o condenaria se ele empregasse a língua para qualquer outro fim que não fosse acusar os deuses e testemunhar contra uma Providência: “Pois que bom pai me perdoaria, e não detestaria esta firmeza do meu ânimo, se eu tiver outro uso para a voz que não seja acusar os deuses, sobrevivente de todos os meus, e testemunhar que nenhuma providência olha para a terra?” (Institutio, livro 6.) ↩

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Richard Watson, Theological Institutes; or, A View of the Evidences, Doctrines, Morals, and Institutions of Christianity (Londres, 1823-1829), conferido com a edição de Nova York (Lane & Scott, 1850-1851). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).