A discussão deste grande ponto da doutrina cristã pode ser contida em limites muito mais estreitos do que os que reservei à divindade de Cristo, tanto porque muitos dos princípios em que ela se apoia já foram examinados de perto, como porque a deidade do Espírito, em vários casos, decorre inevitavelmente da do Filho. Como, porém, o objetivo desta obra é extrair a doutrina das Sagradas Escrituras sobre todos os principais artigos de fé, será necessário mostrar as provas que ali se dão das duas proposições do título do capítulo: que o Espírito Santo (em inglês Holy Ghost, da palavra saxônica gast, espírito) é uma pessoa, e que ele é Deus.
Quanto ao seu modo de ser, a doutrina ortodoxa é que, assim como Cristo é Deus por uma filiação eterna, assim o Espírito é Deus por procedência do Pai e do Filho. “E creio no Espírito Santo, Senhor e doador da vida, que procede do Pai e do Filho, e que, com o Pai e o Filho, juntamente é adorado e glorificado.” (Credo Niceno.) “O Espírito Santo é do Pai e do Filho, não feito, nem criado, nem gerado, mas procedente.” (Credo Atanasiano.) “O Espírito Santo, procedendo do Pai e do Filho, é de uma só substância, majestade e glória com o Pai e o Filho, verdadeiro e eterno Deus.” (Artigos da Igreja da Inglaterra.) A Igreja latina introduziu o termo spiratio (“espiração”), de spiro, respirar, para designar o modo dessa procedência; sobre o que observa o Dr. Owen: “Assim como o hálito vital do homem emana dele continuamente e, no entanto, nunca se separa de todo da sua pessoa nem o abandona, assim o Espírito do Pai e do Filho procede deles por uma contínua emanação divina, permanecendo sempre um com eles.” Sobre essa visão sutil pouco se pode dizer que tenha evidente autoridade bíblica. E, no entanto, o próprio termo com que se designa a terceira pessoa da Trindade, vento ou sopro, pode ter sido escolhido, no caso da terceira pessoa, como o termo Filho aplicado à segunda, para transmitir, ainda que imperfeitamente, alguma indicação daquele modo de ser pelo qual ambas se distinguem uma da outra e do Pai. E foi uma ação notável de nosso Senhor, e certamente uma ação que não desabona essa ideia, que, ao comunicar o Espírito Santo aos seus discípulos, ele “soprou sobre eles e disse-lhes: Recebam o Espírito Santo” (Jo 20.22).1
Mas, pense-se o que se quiser da doutrina da “espiração”, a procedência do Espírito Santo repousa sobre autoridade bíblica direta, e é assim exposta pelo bispo Pearson:
“Ora, essa procedência do Espírito, em relação ao Pai, é ensinada expressamente; em relação ao Filho, está contida virtualmente nas Escrituras. Primeiro, diz-se expressamente que o Espírito Santo procede do Pai, como testifica o nosso Salvador: ‘Quando, porém, vier o Consolador, que eu enviarei a vocês da parte do Pai, o Espírito da verdade, que dele procede, esse dará testemunho de mim’ (Jo 15.26). E isso é evidente também pelo que já foi afirmado: pois, sendo o Pai e o Espírito o mesmo Deus, e sendo assim o mesmo na unidade da natureza de Deus, mas distintos na personalidade, um deles deve ter do outro a mesma natureza; e, como já se mostrou que o Pai não a tem de ninguém, segue-se que o Espírito a tem dele.
“Segundo, embora não se diga expressamente na Escritura que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho, a substância dessa mesma verdade está ali contida virtualmente. Porque as mesmas expressões que se dizem do Espírito Santo em relação ao Pai, pela razão de ele proceder do Pai, dizem-se também do mesmo Espírito em relação ao Filho; e, portanto, deve-se pressupor em relação ao Filho a mesma razão que se expressa em relação ao Pai. Porque o Espírito procede do Pai, por isso é chamado Espírito de Deus e Espírito do Pai: ‘não são vocês que estão falando, mas o Espírito do Pai de vocês é quem fala por meio de vocês’ (Mt 10.20). Pois, na linguagem do apóstolo, o Espírito de Deus é o Espírito que vem de Deus, quando diz: ‘ninguém conhece as coisas de Deus, a não ser o Espírito de Deus. E nós não temos recebido o espírito do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus’ (1Co 2.11-12). Ora, o mesmo Espírito é chamado também Espírito do Filho, pois, ‘porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho ao nosso coração’ (Gl 4.6); Espírito de Cristo: ‘E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele’ (Rm 8.9); ‘o Espírito de Cristo, que neles estava’ (1Pe 1.11), isto é, nos profetas; Espírito de Jesus Cristo, como diz o apóstolo: ‘estou certo de que, pela súplica de vocês e com a ajuda do Espírito de Jesus Cristo, isso resultará em minha libertação’ (Fp 1.19). Se, pois, o Espírito Santo é chamado Espírito do Pai porque procede do Pai, segue-se que, sendo chamado também Espírito do Filho, ele procede também do Filho.
“Além disso, porque o Espírito Santo procede do Pai, é por isso enviado pelo Pai, como por aquele que, pela comunicação original, tem o direito de enviar, como ‘o Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará’ (Jo 14.26). Mas o mesmo Espírito que é enviado pelo Pai é enviado também pelo Filho, como ele diz: ‘Quando, porém, vier o Consolador, que eu enviarei a vocês’ (Jo 15.26). Portanto, o Filho tem o mesmo direito de enviar que o Pai, e, por conseguinte, deve-se reconhecer que comunicou a mesma essência. O Pai nunca é enviado pelo Filho, porque não recebeu dele a Divindade; mas o Pai envia o Filho, porque lhe comunicou a Divindade. Da mesma maneira, nem o Pai nem o Filho são jamais enviados pelo Espírito Santo, porque nenhum deles recebeu do Espírito a natureza divina; mas tanto o Pai como o Filho enviam o Espírito Santo, porque a natureza divina, comum ao Pai e ao Filho, foi comunicada por ambos ao Espírito Santo. Assim, pois, como as Escrituras declaram expressamente que o Espírito procede do Pai, também ensinam virtualmente que ele procede do Filho.” (Discourses on the Creed.)
Em oposição à doutrina da personalidade e da deidade do Espírito está a hipótese sociniana, que exponho antes de apresentar as provas da Escritura, para que se veja, ao examinar o testemunho inspirado, até que ponto ela é apoiada por essa autoridade. Ário considerava o Espírito não só uma criatura, mas uma criatura feita por Cristo, ktisma ktismatos, a criatura de uma criatura. Algum tempo depois, a sua personalidade foi inteiramente negada pelos arianos, e ele passou a ser considerado a energia exercida por Deus. Essa parece ter sido a noção de Socino, e, com modificações ocasionais, foi adotada pelos seus seguidores. Às vezes eles o consideram um atributo; outras vezes reduzem as passagens em que se fala dele a uma perífrase, ou circunlóquio, para designar o próprio Deus; ou, para exprimir as duas coisas numa só, a uma figura de linguagem.
Para estabelecer a verdadeira personalidade e deidade do Espírito Santo, o primeiro argumento se tira da frequente associação, na Escritura, de uma pessoa designada por esse nome com duas outras pessoas, uma das quais, “o Pai”, todos reconhecem como divina; e da atribuição a cada uma delas, ou às três em conjunto, dos mesmos atos, títulos e autoridade, com culto da mesma espécie e, pelo que se distingue, em grau igual. Esse argumento já foi aplicado para estabelecer a divindade do Filho, cuja personalidade não se questiona; e os termos da proposição podem ser estabelecidos de modo igualmente satisfatório quanto ao Espírito Santo, e provarão ao mesmo tempo a sua personalidade e a sua divindade.
Quanto ao Filho, vimos que, assim como era natural esperar que uma doutrina tão grande e fundamental como a sua deidade fosse anunciada na revelação do Antigo Testamento, embora a sua plena manifestação ficasse reservada para o Novo, assim de fato ela não foi apenas vagamente prefigurada, mas exibida com tanta clareza que se tornou artigo de fé na Igreja judaica. A manifestação da existência e da divindade do Espírito Santo também pode ser esperada na lei e nos profetas, e de fato se encontra ali com igual certeza. O Espírito é apresentado como agente na criação, pois ele “se movia sobre as águas” (Gn 1.2); e o fato de a criação ser atribuída ao Pai, e também ao Filho, não é objeção ao argumento, mas grande confirmação dele. Que a criação fosse realizada pelas três pessoas da Divindade, embora agindo sob aspectos diferentes, mas de modo que cada uma fosse Criador e, portanto, pessoa, e pessoa divina, só se pode explicar pela unidade delas numa só essência. Segundo qualquer outra hipótese, esse fato bíblico é negado, e, portanto, nenhuma outra hipótese pode ser verdadeira. Se o Espírito de Deus é mera influência, então ele não é Criador, distinto do Pai e do Filho, porque não é pessoa; mas isso é refutado tanto pela passagem que acabamos de citar quanto pelo Salmo 33.6: “Os céus por sua palavra se fizeram, e, pelo sopro (no hebraico, Espírito) de sua boca, o exército deles.” Isso é confirmado ainda por Jó 33.4: “O Espírito de Deus me fez, e o sopro do Todo-Poderoso me dá vida”, onde a segunda oração explica evidentemente a primeira, e o texto inteiro prova que, na era patriarcal, os seguidores da verdadeira religião atribuíam a criação ao Espírito tanto quanto ao Pai, e que um dos seus nomes era “o sopro do Todo-Poderoso”. Se tais passagens estivessem isoladas, haveria de fato alguma plausibilidade na crítica que as resolve por uma personificação; mas, ligadas como estão a todo aquele conjunto de provas, já apresentadas e ainda por apresentar, sobre a doutrina concorde dos dois Testamentos, elas são inexpugnáveis. Além disso, se se admite a personalidade do Filho e do Espírito, mas se sustenta que foram apenas instrumentos na criação, por meio dos quais operou o poder criador de outro, poder criador que eles mesmos não possuíam, então também segundo essa hipótese não se pode dizer que nem o Espírito nem o Filho criam, assim como não se pode dizer que Moisés criou a serpente em que se transformou a sua vara; e as Escrituras são outra vez contraditas. A essa associação das três pessoas nos atos de criação pode-se acrescentar uma associação semelhante nos atos de preservação, que bem se chamou criação continuada, e que por esse termo se expressa na passagem seguinte, Salmo 104.27-30: “Todos esperam de ti que lhes dês de comer a seu tempo. […] Se escondes o rosto, eles se perturbam; se lhes cortas a respiração, morrem e voltam ao pó. Envias o teu Espírito, eles são criados, e assim renovas a face da terra.” Por certo não se quer dizer aqui que o Espírito pelo qual se perpetuam as gerações dos animais seja vento; e, se o chamarem de atributo, sabedoria, poder ou ambos unidos, onde lemos que tais atributos sejam “enviados”, “enviados” da parte de Deus? A personalidade do Espírito está aqui tão claramente marcada quanto quando são Paulo fala de Deus que “enviou o Espírito de seu Filho” (Gl 4.6), e quando nosso Senhor promete “enviar” o Consolador (Jo 16.7). E, assim como a sustentação e a preservação das coisas criadas são atribuídas ao Pai e ao Filho, também aqui são atribuídas ao Espírito, “enviado” por Deus para que as criaturas sejam “criadas” e para “renovar a face da terra”.
A associação seguinte das três pessoas encontramo-la na inspiração dos profetas. “Deus falou […] aos pais, pelos profetas”, diz são Paulo (Hb 1.1). São Pedro declara que esses homens “falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2Pe 1.21), e também que era “o Espírito de Cristo, que neles estava” (1Pe 1.11). Podemos desafiar qualquer sociniano a interpretar essas três passagens fazendo do Espírito uma influência ou atributo e reduzindo assim o termo Espírito Santo a uma figura de linguagem. “Deus”, na primeira passagem, é indiscutivelmente Deus Pai; e os santos homens de Deus, os profetas, seriam então, segundo essa opinião, movidos pela influência do Pai. Mas a influência que, segundo a terceira passagem, era a fonte da sua inspiração era o Espírito, ou a influência, de “Cristo”. Assim as passagens se contradizem. Admita-se a trindade na unidade, e não há dificuldade em chamar o Espírito de Espírito do Pai e Espírito do Filho, ou Espírito de um ou de outro; mas, se o Espírito é uma influência, essa influência não pode ser a influência de duas pessoas, uma delas Deus e a outra criatura. Mesmo que admitissem, com os arianos, a preexistência de Cristo, as passagens seriam inexplicáveis para os socinianos; mas, negando a sua preexistência, não lhes resta outro subterfúgio senão interpretar “o Espírito de Cristo” como o Espírito que profetizou a respeito de Cristo (New Version, sobre a passagem), o que é uma paráfrase puramente gratuita; ou como “o espírito de um ungido, ou profeta”, isto é, o próprio espírito do profeta, o que é tão gratuito e tão desprovido de qualquer paralelo quanto a anterior. Se, porém, o Espírito Santo é o Espírito do Pai e do Filho, unido a eles numa só essência, as passagens se harmonizam facilmente. Juntamente com o Pai e o Filho, ele é a fonte daquela inspiração profética sob a qual os profetas falaram e agiram. Assim, são Pedro diz que o mesmo Espírito que ressuscitou Cristo dentre os mortos pregou por meio de Noé, enquanto se preparava a arca, em alusão à passagem: “O meu Espírito não contenderá para sempre (lutará, debaterá) com o homem” (Gn 6.3). [N. do T.: assim na KJV, que Watson segue; a NAA traz “O meu Espírito não agirá para sempre no ser humano”.] Isso, podemos observar, fornece uma prova eminente de que os escritores do Novo Testamento entendiam em sentido pessoal a expressão “o Espírito de Deus”, tal como ocorre no Antigo Testamento. Pois, seja qual for o sentido completo daquela difícil passagem de são Pedro, declara-se claramente que Cristo pregou pelo Espírito nos dias de Noé; isto é, ele, pelo Espírito, inspirou Noé a pregar. Se, pois, os apóstolos entendiam que o Espírito Santo era uma pessoa, ponto que logo será estabelecido, temos no texto que acabamos de citar do livro de Gênesis uma chave para o sentido daqueles textos do Antigo Testamento em que ocorrem as expressões “o meu Espírito”, “o Espírito de Deus” e “o Espírito do Senhor”; e assim nos é dada autoridade inspirada para interpretá-los como referentes a uma pessoa. E, se a uma pessoa, o próprio esforço dos socinianos para negar a sua personalidade indica, por si mesmo, que essa pessoa, pelos títulos e obras elevados que lhe são atribuídos, há de ser inevitavelmente divina. Tais expressões ocorrem em muitas passagens das Escrituras hebraicas; mas nas seguintes o Espírito é também distinguido de modo eminente de duas outras pessoas. “E agora o Senhor Deus e o seu Espírito me enviaram” (Is 48.16); ou, em melhor tradução, “enviou a mim e o seu Espírito“, estando ambos os termos no caso acusativo. [N. do T.: a primeira forma é a da KJV; a NAA traz justamente a tradução que Watson prefere: “o Senhor Deus enviou a mim e o seu Espírito”.] “Procurem no livro do Senhor e leiam: […] Porque a boca do Senhor o ordenou, e o seu Espírito mesmo as ajuntará” (Is 34.16). “Eu estou com vocês, diz o Senhor dos Exércitos. Segundo a aliança que fiz com vocês, quando saíram do Egito, o meu Espírito habita no meio de vocês. Não tenham medo. Pois assim diz o Senhor dos Exércitos: […] Farei tremer todas as nações, e virá o Desejado de todas as nações” (Ag 2.4-7). [N. do T.: “o Desejado de todas as nações” é a redação da KJV, da qual depende o argumento de Watson; a NAA traz “serão trazidas as coisas preciosas de todas as nações”.] Também aqui se vê o Espírito do Senhor posto ao lado do Senhor dos Exércitos e do Desejado de todas as nações, que é o Messias. Para outros exemplos da indicação de uma trindade de pessoas divinas no Antigo Testamento, veja o capítulo 9.
Três pessoas, e somente três, são associadas também, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, como objetos de culto supremo; como o único nome em que se realiza o ato religioso da bênção solene, e ao qual os homens se obrigam por solene aliança religiosa.
Na forma plural do nome de Deus, já considerada (capítulo 9), cada uma recebia igual adoração. Essa personalidade tríplice parece ter dado origem à forma consagrada da bênção tríplice usada pelo sumo sacerdote judeu, também mencionada antes (capítulo 9). O fato importantíssimo de que, na visão de Isaías, no capítulo 6, o Senhor dos Exércitos, que falou ao profeta, é apresentado em Atos 28.25 como o Espírito Santo que falou ao profeta, enquanto são João declara que a glória que Isaías viu era a glória de Cristo (Jo 12.41), prova indiscutivelmente (capítulo 9) que cada uma das três pessoas leva esse augusto nome. Dá também a razão da tríplice repetição “Santo, santo, santo” (Is 6.3), e mostra o profeta e os próprios serafins em profunda e reverente adoração diante do Senhor dos Exércitos trino. Tanto o profeta quanto os serafins eram, portanto, adoradores do Espírito Santo e do Filho, no mesmo momento e pelos mesmos atos com que adoravam o Pai. Isso prova que, assim como as três pessoas receberam igual homenagem num caso que não admite o subterfúgio de um suposto culto superior e inferior, elas são iguais em majestade, glória e essência.
Assim como na forma de bênção do tabernáculo o Jeová trino é reconhecido como a fonte de toda graça e paz para as suas criaturas, assim também na fórmula apostólica de bênção: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vocês. Amém.” (2Co 13.13).
Aqui a personalidade das três pessoas se mantém distinta, e a oração dirigida às três é que os cristãos tenham uma participação comum do Espírito Santo, isto é, sem dúvida, tal como ele foi prometido por nosso Senhor aos seus discípulos: como Consolador, como fonte de luz e de vida espiritual, como autor da regeneração. Assim, o Espírito é reconhecido, igualmente com o Pai e o Filho, como a fonte e o doador das mais altas bênçãos espirituais; e a solene bênção ministerial, pelo seu caráter específico, deve ser considerada um ato de oração a cada uma das três pessoas, e, portanto, ao mesmo tempo um reconhecimento da divindade e da personalidade de cada uma. A mesma observação se aplica a Apocalipse 1.4-5: “Que a graça e a paz estejam com vocês, da parte daquele que é, que era e que há de vir, da parte dos sete espíritos que estão diante do seu trono” (representação emblemática, que provavelmente se refere ao candelabro de ouro com as suas sete lâmpadas), “e da parte de Jesus Cristo”. O estilo do livro explica suficientemente que o Espírito Santo seja chamado “os sete espíritos”; mas nenhum espírito criado, nem grupo de espíritos criados, é jamais mencionado com esse nome; e o lugar dado aos sete espíritos, entre a menção do Pai e a do Filho, indica com certeza que se trata de um dos três sagrados, tão eminente, e de modo tão exclusivamente eminente, em ambas as dispensações.
A forma do batismo apresenta-se em seguida com prova demonstrativa quanto aos dois pontos que temos diante de nós, a personalidade e a divindade do Espírito Santo. É a forma da aliança pela qual os três sagrados se tornam o nosso único Deus, e nós nos tornamos o seu povo. “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28.19). Que se há de fazer com esse texto, se se nega a personalidade do Espírito Santo? Deve-se entender a forma do batismo de modo a implicar que ele é um batismo em nome de um Deus, uma criatura e um atributo? A grosseria desse absurdo o refuta, e prova que aqui, ao menos, não pode haver personificação. Se, portanto, as três são pessoas, faremos do batismo cristão um batismo em nome de um Deus e de duas criaturas? Isso seria aproximar-se demais da idolatria, ou antes, seria a própria idolatria. Pois, considerando o batismo como ato de consagração a Deus, como aceitação de Deus, da nossa parte, como nosso Deus, e como renúncia a todas as outras divindades e a todas as outras religiões, que poderia um pagão convertido pensar dessas duas criaturas, tão distinguidas de todas as outras criaturas no céu e na terra, e tão associadas ao próprio Deus a ponto de formarem juntamente com ele o único nome ao qual, por esse ato, ele era consagrado, e que dali em diante deveria professar e honrar, senão que eram igualmente divinas, a menos que se tivesse cuidado especial de ensinar-lhe que só uma das três era Deus, e as outras duas apenas criaturas? Mas desse cuidado, dessa instrução preventiva, embora tão evidentemente necessária segundo essa teoria, não se pode dar um único exemplo em todos os escritos dos apóstolos.
O batismo não era um rito novo. Era usado como ato religioso entre os pagãos, especialmente antes da iniciação nos seus mistérios. Os prosélitos da lei de Moisés eram, provavelmente, recebidos pelo batismo; se no nome ou para dentro do nome do Deus de Israel, não se sabe;2 mas necessariamente mediante a profissão da sua fé nele como o verdadeiro e único Deus. João, o precursor de nosso Senhor, batizava, mas não consta que batizasse no nome ou para dentro do nome de alguém. Esse batismo era, para todos menos para nosso Senhor, que não precisava dele, um batismo “para arrependimento” (Mt 3.11), isto é, mediante a profissão de arrependimento, a ser seguida de “fruto digno de arrependimento” (Mt 3.8), e para a expectativa da breve vinda do Messias. Mas o batismo cristão foi ordenado em nome de três pessoas, o que implica de modo particular: primeiro, a fórmula de palavras a ser usada na administração; segundo, a autoridade conferida para receber na Igreja, e, por conseguinte, na aliança com Deus, as pessoas que tivessem sido feitas discípulos; terceiro, a fé exigida da pessoa batizada, fé na existência do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e no caráter de cada um segundo a revelação feita a respeito de cada um, primeiro pelos mestres inspirados e, em tempos posteriores, pelos seus escritos; e, quarto, a consagração ao serviço das três pessoas, que têm um só nome, o qual não poderia ser outro senão o do único Deus. Que prova mais forte da divindade de cada uma se pode dar do que esta única passagem? A forma apresenta três pessoas, sem nenhuma marca de superioridade ou inferioridade, exceto a da simples ordem em que estão colocadas. Confere autoridade no nome conjunto, e a autoridade é, portanto, igual. Supõe fé, isto é, não apenas crença, mas, como objeto de profissão e adesão religiosa, confiança em cada uma, ou coletivamente no único nome que une as três em um; e, no entanto, só o que é divino pode ser propriamente objeto da verdade religiosa. [N. do T.: assim no original (religious truth); o contexto sugere religious trust, “confiança religiosa”.] Implica dedicação ao serviço de cada uma, a prestação de obediência, a consagração de todas as faculdades da mente e do corpo a cada uma; e, portanto, cada uma deve ter igual direito a essa entrega e à autoridade que ela implica.
Já se objetou que, no livro de Atos, o batismo é mencionado com frequência simplesmente como batismo “em nome do Senhor Jesus”, e daí os socinianos querem inferir que a fórmula do Evangelho de Mateus não estava em uso. Ainda que assim fosse, isso só concluiria contra o uso das palavras de nosso Senhor como forma permanente do batismo, mas nada provaria contra o significado do batismo, qualquer que fosse a forma em que fosse ministrado. Pois, como essa passagem de Mateus foi a comissão original, a única sob a qual os apóstolos tinham autoridade para batizar, nela se acha demarcado o sentido do rito; e, quaisquer que fossem as palavras que usassem no batismo, verifica-se que eles explicavam o sentido do rito, tal como o seu Mestre o estabelecera, a todos os discípulos assim recebidos. [N. do T.: assim no original (they were found to explain); o sentido talvez seja they were bound to explain, “estavam obrigados a explicar”.] Mas das passagens aduzidas de Atos não se segue a inferência de que a forma de batismo dada em Mateus não era seguida rigorosamente pelos apóstolos, “porque os mais antigos escritores cristãos nos informam que essa solene forma de expressão foi empregada uniformemente desde o princípio da igreja cristã. É verdade, de fato, que o apóstolo Pedro disse aos que se converteram no dia de Pentecostes: ‘Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo’ (At 2.38); e que, em diversos lugares do livro de Atos, se diz que algumas pessoas foram batizadas em nome do Senhor Jesus. Há, porém, prova interna, no próprio Novo Testamento, de que, quando o historiador diz que pessoas foram batizadas em nome do Senhor Jesus, quer dizer que foram batizadas segundo a forma prescrita por Jesus. Assim, a pergunta feita em At 19.3, ‘Então que batismo vocês receberam?’, mostra que ele não supunha possível que alguém que ministrasse o batismo cristão omitisse a menção do ‘Espírito Santo’; e, mesmo depois da pergunta, o historiador, ao nos informar que os discípulos foram batizados, não se preocupa em repetir a forma inteira, mas diz, à sua maneira habitual: ‘Eles, tendo ouvido isto, foram batizados no nome do Senhor Jesus’ (At 19.5). Há outra pergunta, feita pelo apóstolo Paulo, que nos mostra sob que luz ele via a forma do batismo: ‘ou será que vocês foram batizados em nome de Paulo?’ (1Co 1.13). Aqui a pergunta implica que ele considerava a forma do batismo tão sagrada que introduzir nela o nome de um mestre equivalia a introduzir um novo senhor no reino de Cristo.”
A antiguidade eclesiástica vem também confirmar o uso exato dessa forma no batismo, como prática desde os dias dos apóstolos. O método mais antigo era que a pessoa a ser batizada dissesse: “Creio em Deus Pai, no Filho e no Espírito Santo.” Essa era a sua profissão de fé; e, quanto à administração, Justino Mártir, que nasceu pouco depois da morte do apóstolo João, diz em sua primeira Apologia: “Todos os que se deixam persuadir e creem que são verdadeiras as coisas que ensinamos e afirmamos são levados por nós a um lugar onde há água e são regenerados segundo o rito de regeneração pelo qual nós mesmos nascemos de novo. Pois então são lavados na água, em nome de Deus, Pai e Senhor de todas as coisas, e de nosso Salvador Jesus Cristo, e do Espírito Santo.” Esta passagem, observo de passagem, mostra que, na igreja primitiva, os homens não eram batizados para serem ensinados, mas ensinados para serem batizados; e que, por conseguinte, o batismo não era mera expressão da disposição de ser instruído, mas uma profissão de fé e uma consagração à Trindade, depois de concluído o curso de instrução. Tertuliano também diz: “A lei do batismo é imposta e a forma prescrita: Ide, ensinai as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (De Baptismo).
Os testemunhos nesse sentido são abundantes3 e, juntamente com a forma dada por nosso Senhor, provam que todo cristão das primeiras eras, logo ao entrar na igreja de Cristo, professava a sua fé na divindade e na personalidade do Espírito Santo, assim como do Pai e do Filho.
Mas não faltam outros argumentos para provar tanto a personalidade como a divindade do Espírito Santo. Quanto à primeira:
1. O modo de sua subsistência na sagrada Trindade prova a sua personalidade. Ele procede do Pai e do Filho e, portanto, não pode ser nenhum dos dois. Dizer que um atributo procede e sai seria um absurdo grosseiro.
2. Ela se prova pelo fato de tantas passagens das Escrituras se tornarem inteiramente ininteligíveis e até absurdas, a menos que se admita que o Espírito Santo é uma pessoa. Pois, como aqueles que tomam a expressão como atribuindo apenas uma personalidade figurada a um atributo fazem desse atributo a energia ou o poder de Deus, reduzem passagens como as seguintes a uma completa falta de sentido:
“Deus ungiu a Jesus […] com o Espírito Santo e com poder” (At 10.38), isto é, com o poder de Deus e com poder. “Para que sejam ricos de esperança no poder do Espírito Santo” (Rm 15.13), isto é, no poder do poder. “Em demonstração do Espírito e de poder” (1Co 2.4), isto é, em demonstração de poder e de poder. E, se se alegar que esta última passagem é um hebraísmo por “poderosa demonstração do Espírito”, a interpretação fica ainda mais evidentemente absurda, pois então seria “a poderosa demonstração do poder”. “Pareceu bem ao Espírito Santo”, ao poder de Deus, “e a nós” (At 15.28). “O Espírito e a noiva dizem: Vem!” (Ap 22.17), o poder de Deus e a noiva dizem: Vem! Os unitaristas modernos, do dr. Priestley ao sr. Belsham, atrevem-se a censurar o estilo dos apóstolos em alguns casos; e esses escritores do Espírito Santo têm, de fato, uma maneira muito infeliz de se exprimir para quem queira fazer deles patronos do socinianismo. Mas mereceriam com mais justiça as censuras desses juízes das “palavras […] ensinadas pelo Espírito” (1Co 2.13), se fossem realmente escritores como os faria o sistema sociniano, e dos quais os exemplos acima são amostras.
3. Em algumas passagens em que se fala do Espírito Santo, qualquer espécie de personificação é impossível. A realidade que essa figura de linguagem supostamente nos apresenta é ou algum dos atributos de Deus, ou então a doutrina do evangelho. Que se ponha, pois, essa teoria à prova nas passagens seguintes: “Ele não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que ouvir” (Jo 16.13). Que atributo de Deus pode ser personificado aqui? E, se for a doutrina do evangelho que se reveste de atributos pessoais, onde há exemplo de prosopopeia tão monstruosa como a que esta passagem apresentaria: a doutrina do evangelho não falando “por si mesmo”, mas dizendo “tudo o que ouvir”? “O próprio Espírito intercede por nós” (Rm 8.26). Que atributo é capaz de interceder, ou como pode a doutrina do evangelho interceder? Além disso, a personificação é linguagem da poesia, e só ocorre naturalmente no discurso exaltado e elevado; mas, se o Espírito Santo é uma personificação, nós a encontramos no Novo Testamento no tom comum e sereno da simples narração e do discurso argumentativo, e nas conversas mais incidentais. “Vocês receberam o Espírito Santo quando creram? Ao que eles responderam: Pelo contrário, nem mesmo ouvimos que existe o Espírito Santo” (At 19.2). Como é impossível arrancar aqui, por qualquer processo que seja, nem sequer a sombra de uma personificação, quer de algum atributo de Deus, quer da doutrina do evangelho! E também: “Então o Espírito disse a Filipe: Aproxime-se dessa carruagem e acompanhe-a” (At 8.29). Poderia ter sido algum atributo de Deus que disse isso, ou poderia ter sido a doutrina do evangelho?
É vão, portanto, falar da personificação da sabedoria no livro de Provérbios e da caridade nos escritos de Paulo. E, mesmo que se pudessem encontrar, sob este mesmo termo, o Espírito Santo, exemplos da personificação de atributos divinos e da doutrina do evangelho, ainda assim os textos acima e numerosas outras passagens, sendo totalmente incapazes de se resolverem desse modo, continuariam a ensinar a doutrina de um Espírito Santo pessoal. A passagem em que tais intérpretes mais se apoiam como exemplo de personificação da doutrina do evangelho é 2Co 3.6: “o qual nos capacitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do Espírito; porque a letra mata, mas o Espírito vivifica”. A isso Witsius responde bem: “Ainda que concedêssemos que o Espírito, por metonímia, denota a doutrina do evangelho, o que ali se atribui impropriamente ao evangelho como causa exemplar deve atribuir-se propriamente à pessoa do Espírito Santo, como causa eficiente principal. Assim também o que em outro lugar se atribui à letra da lei deve, pela mesma analogia, atribuir-se à pessoa do legislador. Mas não parece necessário fazermos tal concessão. O apóstolo não chama a lei de ‘a letra’, nem o evangelho de ‘o Espírito’, mas ensina que a letra está na lei e o Espírito no evangelho, de modo que os que ministram a lei ministram a letra, e os que ministram o evangelho ministram o Espírito. Ele chama de letra aquilo que é incapaz, de início e por si mesmo, de converter um homem, ou de dar a um pecador a esperança da vida, e muito menos de vivificá-lo. Pelo Espírito, entende tanto a pessoa do Espírito como a sua graça vivificante, que é claramente revelada e tornada eficaz por meio do evangelho. Num versículo anterior, o apóstolo sem dúvida distingue o Espírito da doutrina, quando chama os coríntios de ‘carta de Cristo […] escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo’ (2Co 3.3)” (Exposition of Creed).
Por fim, que o Espírito Santo é uma pessoa, e não um atributo, prova-se pelo uso de pronomes e relativos masculinos no grego do Novo Testamento em conexão com o substantivo neutro pneuma, Espírito; e por tantos atos pessoais distintos que lhe são atribuídos, como vir, ir, ser enviado, ensinar, guiar, consolar, interceder, dar testemunho, conceder dons, “distribuindo-as a cada um, individualmente, conforme ele quer” (1Co 12.11), ser contristado, entristecido e apagado. Essas coisas não se podem aplicar à mera ficção de uma pessoa e, portanto, estabelecem a verdadeira personalidade do Espírito.
Alguns argumentos adicionais, além dos já dados para estabelecer a divindade do Espírito Santo, podem também ser aduzidos.
O primeiro é tirado do fato de ele ser objeto de blasfêmia: “a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada” (Mt 12.31). Essa blasfêmia consistia em atribuir a Satanás as suas obras miraculosas; e o fato de ele poder ser blasfemado prova que ele é tão pessoa quanto o Filho. E prova que ele é divino, porque mostra que se pode pecar contra ele, e pecar de tal maneira que o blasfemador não será perdoado. Pessoa ele tem de ser, ou não poderia ser blasfemado; pessoa divina ele tem de ser para que essa blasfêmia constitua um pecado contra ele no sentido próprio, e de espécie tão maligna que a coloque fora do alcance da misericórdia.
Ele é chamado Deus. “Por que você permitiu que Satanás enchesse o seu coração, para que você mentisse ao Espírito Santo […]? […] Por que você decidiu fazer uma coisa dessas? Você não mentiu para os homens, mas para Deus” (At 5.3-4). Diz-se que Ananias mentiu particularmente “ao Espírito Santo” porque os apóstolos estavam sob a sua direção especial ao estabelecerem, entre os cristãos, a norma temporária de que tivessem tudo em comum; e a descoberta do próprio crime foi uma demonstração da divindade do Espírito, porque revelou a sua onisciência, o seu conhecimento dos atos mais secretos. Além da prova de sua divindade assim fornecida por essa história, ele é também chamado Deus: “Você não mentiu para os homens, mas para Deus.” Ele é também chamado Senhor: “Ora, este Senhor é o Espírito” (2Co 3.17). Ele é eterno: “o Espírito eterno” (Hb 9.14). A onipresença lhe é atribuída: “o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo” (1Co 6.19); “todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8.14). Ora, como todos os verdadeiros cristãos são seus santuários e são guiados por ele, ele tem de estar presente a eles em todos os tempos e em todos os lugares. Diz-se que ele é onisciente: “o Espírito sonda todas as coisas, até mesmo as profundezas de Deus” (1Co 2.10). Aqui se diz que o Espírito sonda, ou conhece, “todas as coisas” de modo absoluto; e então, para tornar isso mais enfático, que ele conhece “as profundezas de Deus”, coisas ocultas a toda criatura, as profundezas de sua essência e os segredos de seus conselhos. Que é isso o que se pretende, vê-se no versículo seguinte, onde se diz que ele conhece “as coisas de Deus”, assim como o espírito do homem conhece as coisas do homem. Majestade suprema lhe é também atribuída, de modo que “mentir” a ele, “blasfemar” contra ele, “contristá-lo”, “insultá-lo” são pecados e tornam o ofensor passível de castigo divino.
Ele é a fonte da inspiração: “homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2Pe 1.21); “ele os guiará em toda a verdade” (Jo 16.13). Ele é a fonte e o manancial da vida: “O Espírito é o que vivifica” (Jo 6.63); “esse mesmo que ressuscitou Cristo dentre os mortos vivificará também o corpo mortal de vocês, por meio do seu Espírito, que habita em vocês” (Rm 8.11). Assim como o vimos agir na criação material, assim também ele é o autor da nova criação, que é tão evidentemente uma obra do poder divino quanto a primeira:
“Nascido do Espírito” (Jo 3.6); “o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo” (Tt 3.5). Ele é o autor da consolação religiosa: “o Consolador” (Jo 14.26). Os atributos morais de Deus também lhe são dados. A santidade, que inclui todos num só: o Espírito Santo é a sua designação eminente. A bondade e a graça são atributos seus: “o teu bom Espírito” (Sl 143.10); “o Espírito da graça” (Hb 10.29). Também a verdade, pois ele é “o Espírito da verdade” (Jo 14.17).
Quão impraticável é interpretar a expressão “o Espírito Santo” como perífrase para o próprio Deus, já ficou provado na consideração de algumas das passagens acima, e será evidente à mais ligeira consideração dos textos. Um Espírito que é o Espírito de Deus; que tantas vezes é distinguido do Pai; que “vê” e “ouve” “o Pai”; que sonda “as profundezas” de Deus; que é “enviado” pelo Pai; que “procede” dele; e a quem se dirige oração especial ao mesmo tempo que ao Pai, não pode, embora “um com ele”, ser o Pai; e que ele não é o Filho, reconhece-se de ambos os lados.
Como pessoa divina, portanto, nossa consideração lhe é justamente devida como objeto de adoração e de confiança, de oração e de bênção; deveres a que somos especialmente chamados, tanto pela consideração geral de sua divindade como por aquele caráter comovedoramente benevolente e atraente sob o qual ele nos é apresentado em todas as Escrituras. Na criação, nós o vemos movendo-se sobre a face do caos e reduzindo-o a uma bela ordem; na providência, “renovando a face da terra”, fazendo que “o céu se aclarasse” e “dando vida” ao homem. Na graça, nós o contemplamos descortinando a cena profética à visão dos videntes do Antigo Testamento e fazendo uma revelação perfeita da doutrina de Cristo aos apóstolos do Novo. Ele “convence o mundo do pecado” e opera no coração uma secreta convicção do mal e do perigo do pecado. Ele é “o espírito da graça e de súplicas”; o coração enternecido, a vontade que se rende, todos os desejos e inclinações celestiais vêm dele. Ele se apressa a ir aos espíritos perturbados dos homens penitentes, que por sua influência são conduzidos a Cristo, e em cujo coração ele operou a fé, com a notícia do perdão, e “confirma” ao espírito deles a sua filiação. Ele os ajuda em sua “fraqueza”; “intercede por eles”; inspira pensamentos de consolação e sentimentos de paz; planta e aperfeiçoa neles tudo o que é puro, amável, respeitável e de boa fama; deleita-se em sua própria obra no coração renovado; habita na alma como num templo; e, depois de ter apresentado o espírito a Deus sem mancha, nem ruga, nem coisa semelhante, santificado e apto para o céu, conclui a sua obra benevolente e gloriosa ressuscitando o corpo dos santos para a vida imortal, no último dia. Com quanta força “o Espírito da glória, que é o Espírito de Deus”, reivindica o nosso amor, o nosso louvor e a nossa obediência! Por isso, nas formas litúrgicas das igrejas de Cristo, em todas as eras, ele tem sido associado ao Pai e ao Filho em igual glória e bênção; e, onde tais formas não estão em uso, esse reconhecimento distinto do Espírito, que corre tanto perigo de ser negligenciado, deve ser feito pelos ministros com todo o cuidado e constância, em todo ato de louvor na devoção, para que assim, igualmente a cada pessoa da eterna Trindade, seja dada glória “na igreja […] por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!”
O caráter essencial e fundamental da doutrina da santa e indivisa Trindade já foi exposto; e quanto mais plenamente as provas da divindade do Filho e do Espírito forem extraídas dos escritos sagrados, tanto mais profundamente nos impressionaremos com essa visão, e tanto mais forte será a nossa obrigação de “lutar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3), no que toca a esta parte dela. Nem se pode jamais alegar com fundamento que esta é uma doutrina meramente especulativa; pois, como bem observou um escritor erudito: “A verdade é que a doutrina da Trindade está tão longe de ser mera questão de especulação, que é a própria essência da religião cristã, o fundamento de toda a revelação, e está ligada a cada parte dela. Tudo o que é peculiar nesta religião tem relação com a redenção de Cristo e a santificação do Espírito. E quem procura invalidar esses artigos está derrubando ou minando a autoridade desta dispensação, reduzindo-a apenas a um bom sistema moral, ou tratado de ética.
“Se o Verbo, ou Logos, que se encarnou, era apenas um ser criado, então o mistério de sua encarnação, tão enfatizado nas Escrituras, e o amor assim expresso para com a humanidade, tão engrandecido, reduzem-se a um serviço interesseiro; e uma breve vida de sofrimentos, encerrada, é verdade, com uma morte dolorosa, é recompensada com honras divinas, e uma criatura é por isso elevada à glória do Criador, pois o mandamento é claro e expresso: ‘E todos os anjos de Deus o adorem’ (Hb 1.6). E não suportaram muitos santos e mártires os mesmos sofrimentos sem semelhante recompensa gloriosa? E não é a vantagem para o próprio Cristo, por sua encarnação e paixão, maior nessa hipótese do que para os homens, por amor dos quais os escritores sagrados representam empreendido este plano de misericórdia?
“Além disso, se as moções do Espírito Santo, de que se fala com tanta frequência, são apenas expressões figuradas e não implicam necessariamente nenhuma pessoa real que seja o seu autor, ou se essa pessoa é apenas um ser criado, então ficamos privados de toda esperança de assistência divina em nossa batalha espiritual, e nada temos senão as nossas próprias capacidades naturais com que lutar contra o mundo, a carne e o diabo. E não é espantoso que este artigo possa algum dia ter sido apresentado como mera especulação abstrata, quando a nossa libertação tanto da pena como do poder do pecado depende dele de modo tão claro? Nos escritos sagrados, uma fé verdadeira é tornada tão necessária quanto uma prática correta, e esta em particular para esse fim. Pois o arianismo, o socinianismo e todas aquelas diversas heresias, de qualquer espécie ou título, que destroem a divindade do Filho e do Espírito Santo, nada mais são, de fato, do que diferentes sistemas de incredulidade; visto que a autoridade, o fim e a influência do evangelho são anulados tão eficazmente pela rejeição dos caracteres sob os quais o nosso Redentor e o nosso Santificador ali são representados, quanto pela contestação das provas de sua origem divina. Essas noções claramente despojam aquelas duas pessoas divinas de suas operações e atributos, e da honra que lhes é devida; diminuem a misericórdia e o mistério do plano de nossa salvação; degradam a noção que temos de nós mesmos e de nossos semelhantes; alteram a natureza de vários deveres; e enfraquecem aqueles grandes motivos à observância de tudo o que o verdadeiro cristianismo nos propõe” (Dodwell).
1. “O Pai tem relação com o Filho, como Pai do Filho; o Filho com o Pai, como Filho do Pai; e o Espírito Santo, sendo o espírito, ou sopro, do Pai e do Filho, com ambos” (Lawson’s Theo. Pol.). Mas, embora sopro ou vento seja o significado radical de pneuma, assim como de spiritus, raramente é usado nesse sentido no Novo Testamento, provavelmente por causa de seu caráter sagrado. ↩
2. O batismo dos prosélitos judeus é ponto controvertido. Foi defendido vigorosamente pelo dr. Lightfoot e combatido pelo dr. Benson. Wall, no entanto, tornou a prática altamente provável, e ela é mencionada nos Evangelhos como rito com que os judeus estavam familiarizados. Certamente era prática entre os judeus perto da era cristã. ↩
3. Veja-se a History of Infant Baptism de Wall e as Antiquities de Bingham. ↩