Todos os protestantes sustentam que o número dos sacramentos é apenas dois, o batismo e a ceia do Senhor, porque não encontram nenhum outro instituído no Novo Testamento nem praticado na igreja primitiva. A superstição da Igreja de Roma acrescentou nada menos que cinco a esse número: a confirmação, a penitência, a ordem, o matrimônio e a extrema-unção.
A palavra usada pelos Pais gregos para sacramento era μυστήριον. No Novo Testamento, como Campbell demonstrou, essa palavra significa sempre ou um segredo (algo desconhecido até ser revelado) ou o sentido espiritual de algum emblema ou tipo. Em ambos os sentidos, ela é vertida por sacramentum na tradução da Vulgata, o que mostra que esta última palavra era usada antigamente numa acepção ampla. Como o termo grego era empregado no Novo Testamento para exprimir o sentido oculto de um símbolo externo, como em Apocalipse 1.20, “o mistério das sete estrelas”, foi naturalmente aplicado pelos primeiros cristãos ao rito simbólico da ceia do Senhor; e, como algumas das partes mais sagradas e reservadas do antigo culto pagão se chamavam mistérios, dos quais eram excluídos todos menos os iniciados, o uso do mesmo termo para designar o ato mais sagrado do culto cristão, estritamente restrito aos membros aprovados da igreja, provavelmente foi julgado particularmente apropriado. A palavra latina sacramentum, em seu sentido mais amplo, pode significar uma cerimônia sagrada; e é também o nome do juramento militar de fidelidade prestado pelos soldados romanos. Provavelmente por essas duas razões o termo sacramento foi adotado pelos cristãos latinos: pela primeira, por causa da sacralidade peculiar da ceia do Senhor; pela segunda, por causa do compromisso de ser fiel aos mandamentos de Cristo, seu Comandante celestial, que estava implícito nessa ordenança e lhes era gravado por uma solenidade tão sagrada. Foi talvez pelo fato de os cristãos que Plínio interrogou sobre sua fé e suas formas de culto designarem essa ordenança pelo termo sacramentum que ele se exprime assim em sua carta ao imperador Trajano: “Pelas declarações deles, soube que toda a sua ofensa, chame-se falta ou erro, consistia em que, num dia fixo, costumavam reunir-se antes do nascer do sol e cantar juntos, em respostas alternadas, hinos a Cristo como a um Deus, obrigando-se pelos compromissos solenes de um juramento a não cometer nenhuma espécie de maldade.” O termo sacramento foi dado também, desde cedo, ao batismo, assim como à ceia do Senhor, e hoje está restrito, entre os protestantes, apenas a essas duas ordenanças. A distinção entre os sacramentos e outros ritos religiosos é bem exposta por Burnet (On the Articles):
“Esta é a diferença que se deve estabelecer entre os sacramentos e as outras ações rituais: enquanto os outros ritos são insígnias e distinções pelas quais os cristãos são reconhecidos, o sacramento é mais do que mera questão de forma, como no Antigo Testamento o eram a circuncisão e os sacrifícios propiciatórios, coisas de natureza e ordem diferentes de todos os outros preceitos rituais sobre suas purificações e as distinções de dias, lugares e alimentos. Estes eram, de fato, preceitos que Deus lhes dera; mas não eram atos federais de renovação da aliança ou de reconciliação com Deus. Pela circuncisão eles recebiam o selo da aliança e eram postos sob a obrigação de toda a lei; tornavam-se, por ela, devedores da lei; e, quando por seus pecados haviam provocado a ira de Deus, eram reconciliados com ele por seus sacrifícios, com os quais se fazia expiação, e assim seus pecados lhes eram perdoados. A natureza e o fim destes era serem atos federais, em cuja oferta os judeus cumpriam a sua parte na aliança e em cuja aceitação Deus mantinha a sua. Assim vemos uma diferença clara entre estes e um mero rito, que, embora ordenado, deve passar apenas por insígnia de uma profissão, visto que praticá-lo é um ato de obediência a uma lei divina. Ora, na nova dispensação, embora nosso Salvador nos tenha aliviado daquela lei das ordenanças, daquele jugo pesado e daqueles rudimentos fracos e pobres que foram impostos aos judeus, contudo, visto que ainda estamos no corpo, sujeitos aos nossos sentidos e às coisas sensíveis, ele estabeleceu algumas ações federais que fossem tanto as estipulações e profissões visíveis do nosso cristianismo quanto os veículos que nos transmitem as bênçãos do evangelho.” [N. do T.: “federal” vem do latim foedus, “aliança”: atos federais são atos de aliança.]
É essa visão dos dois sacramentos como atos federais que varre as cinco adições supersticiosas que a temeridade da Igreja de Roma ousou elevar à mesma categoria de sacralidade e importância.
Assim como é costume entre os homens confirmar as alianças por meio de formas visíveis e solenes, e assim tem sido desde os tempos mais antigos, quando o Deus todo-poderoso houve por bem entrar em compromissos de aliança com os homens, condescendeu aos mesmos métodos, oferecendo, de sua parte, garantias perceptíveis de sua fidelidade e exigindo deles o mesmo. Assim, a circuncisão foi o sinal e o selo da aliança com Abraão; e, quando a grande aliança da graça foi feita no Filho de Deus com todas as nações, era conforme a essa analogia esperar que ele instituísse algum sinal visível que se repetisse constantemente, em confirmação de sua misericórdia para conosco, que encorajasse a nossa confiança em suas promessas e tivesse a força de uma renovação perpétua da aliança entre as partes. Esse é manifestamente o caráter e esses são os fins da instituição tanto do batismo quanto da ceia do Senhor. Mas, quanto aos cinco sacramentos adicionais da Igreja de Roma, “eles não têm nenhum sinal visível ou cerimônia ordenada por Deus” (Artigo 25 da Igreja da Inglaterra), e não têm nenhuma ligação direta com qualquer compromisso de aliança assumido por ele com suas criaturas. A confirmação não se apoia em nenhuma autoridade bíblica. A penitência, se significa algo mais que o arrependimento, igualmente não é sancionada pela Escritura; e, se significa “o arrependimento para com Deus” (At 20.21), não é mais sacramento do que a fé. A ordem, ou a ordenação de ministros, é um mandamento apostólico, mas não traz em si maior indício de ato sacramental do que qualquer outro mandamento desse tipo, digamos, o da exclusão de pecadores obstinados da igreja, que, com igual razão, poderia ser elevado a sacramento. O casamento parece ter sido feito sacramento pelos papistas por esta curiosa razão: o apóstolo Paulo, falando do amor e da união entre marido e mulher, e aproveitando a ocasião para aludir ao amor de Cristo por sua igreja, diz: “Grande é este mistério”, o que a versão Vulgata traduz por Sacramentum hoc magnum est (“este sacramento é grande”). Assim eles confundem o sentido amplo e o sentido restrito da palavra sacramento e esquecem que o verdadeiro “mistério” de que fala o apóstolo não está no casamento, mas na união de Cristo com o seu povo: “Grande é este mistério, mas eu me refiro a Cristo e à igreja” (Ef 5.32). Se, porém, o uso da palavra “mistério” nessa passagem por são Paulo bastasse para provar que o casamento é sacramento, então o chamado dos gentios, como observa Beza, poderia ser o oitavo sacramento, visto que são Paulo o chama de “mistério” (Ef 1.9), o que a Vulgata, do mesmo modo, traduz por sacramentum. O último dos sacramentos deles é a extrema-unção, da qual basta dizer que não é prescrita em parte alguma da Escritura; e, ainda que fosse, claramente nada tem de caráter sacramental. A passagem da Epístola de são Tiago a que eles se referem não lhes pode servir de nada; pois os romanistas usam a extrema-unção somente quando se perdeu toda esperança de recuperação, ao passo que as orações e a unção mencionadas por são Tiago eram empregadas em vista de uma cura miraculosa, para a vida e não para a morte. Entre eles, portanto, a extrema-unção é chamada “o sacramento dos moribundos”.
Sobre a natureza dos sacramentos há três concepções principais. A primeira é a adotada pela Igreja de Roma.
Segundo a doutrina dessa igreja, os sacramentos contêm a graça que significam e conferem a graça ex opere operato, pela própria obra, a todos os que não lhe põem obstáculo por pecado mortal. “Pois essas coisas sensíveis e naturais”, declara-se, “operam nos sacramentos, pelo poder todo-poderoso de Deus, aquilo que não poderiam fazer por seu próprio poder.” E não é necessário mais nada para esse efeito senão que os sacerdotes, “que fazem e consagram os sacramentos, tenham a intenção de fazer o que a igreja faz e pretende fazer” (Conc. Trid., Cân. 11). Segundo essa doutrina, portanto, a matéria do sacramento recebe da ação do sacerdote, ao pronunciar certas palavras, uma virtude divina, contanto que seja intenção do sacerdote dar a essa matéria tal virtude divina; e essa graça é transmitida à alma de toda pessoa que a recebe. Tampouco se exige de quem recebe um sacramento que exerça alguma boa disposição ou que tenha fé; pois se concebe que a virtude física de um sacramento é tal que, exceto quando se lhe opõe o obstáculo de um pecado mortal, o ato de recebê-lo basta por si só para que se experimente a sua eficácia. Esse é um artigo de fé tão capital para a Igreja romana que o concílio de Trento anatematiza todos os que negam que a graça seja conferida pelos sacramentos em virtude do próprio ato de recebê-los e afirmam que somente a fé nas promessas divinas basta para obter a graça: Si quis dixerit, per ipsa novae legis sacramenta ex opere operato non conferri gratiam, sed solam fidem divinae promissionis ad gratiam consequendam sufficere, anathema sit (“Se alguém disser que pelos próprios sacramentos da nova lei não se confere a graça ex opere operato, mas que somente a fé na promessa divina basta para obter a graça, seja anátema”) (Conc. Trid., Sess. VII, Cân. 8). É também com esse fundamento que os membros dessa igreja sustentam a superioridade dos sacramentos do Novo Testamento sobre os do Antigo: estes teriam sido eficazes apenas ex opere operantis, pela piedade e pela fé das pessoas que os recebiam, ao passo que aqueles conferem a graça ex opere operato, por sua própria virtude intrínseca e por uma influência física imediata sobre a mente de quem os recebe.
A primeira grande objeção a essa exposição é que ela não tem nem sequer pretensão de autoridade bíblica e se fundamenta inteiramente nas supostas tradições da Igreja de Roma, que, de fato, são exatamente aquilo que os sucessivos inventores de práticas supersticiosas acharam conveniente fazer delas. A segunda é que ela é decididamente antibíblica; pois, como a única noção verdadeira de sacramento é a de que ele é sinal e selo de uma aliança, e como os benefícios salvadores da aliança da graça são expressamente postos na dependência de uma fé verdadeira, a Igreja de Roma, ao fazer do ato de receber um sacramento, independentemente da fé verdadeira, a condição da graça, rejeita com impudência a grande condição da salvação estabelecida na palavra de Deus e põe em seu lugar outra de tipo oposto, por mera autoridade humana. A terceira é que ela rebaixa uma ordenança de Deus de culto racional a mero amuleto, desligado de todo exercício da mente e que produz seu efeito física, e não moralmente. A quarta é a sua tendência licenciosa; pois, como a Igreja romana admite como veniais uma classe muito ampla de pecados, e nada senão um pecado mortal pode impedir quem recebe o sacramento de receber a graça de Deus, os homens podem viver na prática de todas essas ofensas veniais e, consequentemente, num hábito de alma não renovado, e ainda assim ter certeza do favor divino e da salvação eterna; com o que, mais uma vez, contradiz ousadamente todo o teor do Novo Testamento. Finalmente, sejam quais forem os privilégios que os sacramentos se destinam a conferir, todos eles são postos por essa doutrina na dependência, não do estado da mente de quem recebe, mas da “intenção” de quem ministra; e este, se não tiver a intenção de comunicar a virtude física aos elementos, torna o sacramento sem valor para quem o recebe, embora realize todos os atos externos da cerimônia.
A opinião oposta a essa doutrina grosseira e profana é a sustentada por Socino e adotada em geral por seus seguidores, e para a qual também as ideias de alguns protestantes ortodoxos se inclinaram com demasiado descuido. A concepção que essas pessoas têm dos sacramentos é a de que eles não diferem essencialmente de outros ritos e cerimônias da religião, mas que sua peculiaridade consiste em seu caráter emblemático, pelo qual representam o que é espiritual e invisível e são memoriais de acontecimentos passados. Seu único uso, portanto, é nutrir sentimentos piedosos, levando a mente a meditações apropriadas para despertá-los. Alguns acrescentam também que eles são as insígnias de uma profissão cristã e os meios instituídos pelos quais os cristãos testemunham sua fé em Cristo.
O defeito da opinião papista é o excesso supersticioso; o defeito deste último esquema é a falta. Os sacramentos são emblemáticos; são apropriados para despertar sentimentos piedosos; são memoriais (pelo menos a ceia do Senhor tem esse caráter); são insígnias de profissão; são os meios designados para declarar a nossa fé em Cristo. E nisso essa concepção é superior à doutrina papista: eleva os sacramentos do caráter baixo e degradante de amuleto e encantamento ao de culto espiritual e racional e, em vez de fazer deles substitutos da fé e das boas obras, coloca-os a serviço de ambas.
Mas, se os sacramentos são ritos federais, isto é, se são transações de aliança, devem ter um alcance mais amplo e um significado mais profundo do que essa concepção do assunto transmite. Se a circuncisão foi “sinal” e “selo” da aliança pela qual Deus se comprometeu a justificar os homens pela fé (Gn 17.11; Rm 4.11), então, como mostraremos mais adiante, visto que o batismo cristão veio tomar o seu lugar, ele tem exatamente o mesmo ofício. Se a Páscoa foi sinal, penhor ou selo e, depois, memorial, então essas características pertencerão à ceia do Senhor, cuja relação com o “novo testamento”, ou aliança, “no sangue” de nosso Salvador é expressamente declarada por ele mesmo [N. do T.: a versão inglesa diz “new testament”; a NAA traz “nova aliança no meu sangue” (Lc 22.20)]. Qual é o significado dos termos sinal e selo será considerado depois; mas basta mencioná-los aqui para mostrar que a segunda opinião exposta acima perde de vista essas peculiaridades e é, portanto, defeituosa.
A terceira opinião pode ser exposta com as palavras dos formulários de várias igrejas protestantes.
O Catecismo de Heidelberg traz a seguinte pergunta e resposta: “Que são os sacramentos?”
“São sinais e selos santos e visíveis, ordenados por Deus para este fim: que por meio deles ele nos declare e sele mais plenamente a promessa do seu evangelho, a saber, que não só a todos os crentes em geral, mas a cada um deles em particular, ele concede gratuitamente a remissão dos pecados e a vida eterna, por causa daquele único sacrifício de Cristo que ele consumou na cruz.”
A Igreja da Inglaterra, em seu Artigo 25, exprime-se assim: “Os sacramentos ordenados por Cristo não são apenas insígnias ou sinais da profissão dos cristãos, mas antes são testemunhos seguros e sinais eficazes da graça e da vontade de Deus para conosco, pelos quais ele opera invisivelmente em nós e não só vivifica, mas também fortalece e confirma a nossa fé nele.”
A Igreja da Escócia, na pergunta 162 de seu Catecismo Maior, pergunta:
“Que é um sacramento?” E responde:
“Um sacramento é uma ordenança santa, instituída por Cristo em sua igreja, para significar, selar e exibir aos que estão dentro da aliança da graça os benefícios da sua mediação; para fortalecer e aumentar a fé deles e todas as demais graças; para obrigá-los à obediência; para testemunhar e nutrir o amor e a comunhão de uns com os outros; e para distingui-los dos que estão de fora.”
Em todas essas descrições de um sacramento empregam-se termos de significado justo e importante, que depois exigirão atenção. Em geral, porém, pode-se observar aqui que todas elas pressupõem: que há nessa ordenança uma instituição expressa de Deus; que há esta diferença essencial entre os sacramentos e toda outra cerimônia simbólica, a saber, que são selos além de sinais, isto é, que oferecem penhores, da parte de Deus, de graça e salvação; que, como uma aliança tem duas partes, os nossos atos externos ao receber os sacramentos são indicações de certos estados e disposições da nossa mente em relação à aliança de Deus, sem os quais ninguém pode ter participação pessoal em seus benefícios, de modo que o sacramento é inútil onde eles não se encontram; que há palavras de instituição; e também uma promessa pela qual o sinal e a coisa significada estão ligados entre si.
A aliança da qual eles são os selos é aquela que o Catecismo de Heidelberg chama de “a promessa do evangelho”, cujo significado é que Deus concede gratuitamente a todo aquele que crê a remissão dos pecados, com todas as bênçãos espirituais, e “a vida eterna, por causa daquele único sacrifício de Cristo que ele consumou na cruz”.
Como sinais, eles são exposições visíveis e simbólicas daquilo que o Artigo da Igreja da Inglaterra, citado acima, chama de “a graça de Deus” e sua “vontade”, isto é, sua “boa vontade para conosco”; ou, segundo a Igreja da Escócia, “significações dos benefícios da sua mediação”. Quer dizer, eles exibem aos sentidos, sob emblemas apropriados, os mesmos benefícios que são exibidos sob outra forma nas doutrinas e promessas da palavra de Deus, de modo que “o olho possa comover e instruir o coração”, e isso para o forte estímulo da nossa fé, do nosso desejo e da nossa gratidão. Deve-se lembrar, contudo, que eles não são apenas sinais da graça de Deus para conosco, mas também das nossas obrigações para com ele; obrigações, porém, que ainda fluem da mesma graça.
São também selos. Um selo é um sinal confirmador; ou, segundo a linguagem teológica, há no sacramento um signum significans (“sinal que significa”) e um signum confirmans (“sinal que confirma”); do primeiro se diz significare, notificar ou declarar; do segundo, obsignare, apor o selo, testemunhar. Assim, pois, como os sacramentos, considerados como sinais, contêm uma declaração das mesmas doutrinas e promessas que a palavra escrita de Deus apresenta, mas dirigida aos sentidos por um emblema significativo, também, como selos ou penhores, confirmam as mesmas promessas que nos são asseguradas pela própria verdade e fidelidade de Deus em sua palavra (que é o fundamento principal de toda confiança em sua misericórdia) e por seu Espírito que habita em nós, pelo qual somos “selados” e temos no coração “o penhor” da nossa herança celestial. Isso se faz por uma instituição externa e visível; de modo que Deus acrescentou essas ordenanças às promessas de sua palavra não só para trazer à lembrança o seu propósito misericordioso para conosco em Cristo, mas para nos assegurar constantemente que os que creem nele serão e são feitos participantes de sua graça. Essas ordenanças são para eles um penhor de que Cristo e os seus benefícios lhes pertencem, ao mesmo tempo que se exige deles que, pela fé e também pelo sinal visível, expressem a sua adesão à aliança dele, o que se pode chamar de “apor o seu selo”. “Os sacramentos são selos de Deus, enquanto ordenanças dadas por ele para a confirmação da nossa fé de que ele seria o nosso Deus da aliança; e são selos nossos, ou nós lhes apomos o nosso selo, quando professamos visivelmente que nos entregamos a ele para ser o seu povo e, no exercício de uma fé verdadeira, esperamos ser participantes dos benefícios que Cristo adquiriu, segundo os termos da aliança.” (Dr. Ridgley.)
A passagem citada do Catecismo de Heidelberg tem uma cláusula de grande importância para explicar o propósito dos sacramentos. Eles são “sinais e selos visíveis ordenados por Deus para este fim: que por meio deles ele nos declare e sele mais plenamente a promessa do seu evangelho, a saber, que não só a todos os crentes em geral, mas a cada um deles em particular, ele concede gratuitamente a remissão dos pecados e a vida eterna, por causa daquele único sacrifício de Cristo que ele consumou na cruz”. Pois deve-se notar que a ministração se faz a indivíduos particulares, separadamente, tanto no batismo quanto na ceia do Senhor: “Tomem, comam”, “Bebam todos dele” (Mt 26.26-27); de modo que a instituição do sinal e selo da aliança, e a aceitação desse sinal e selo, é uma transação solene entre Deus e cada indivíduo. Daí se segue que a todo aquele a quem o sinal é exibido é dado também um selo e penhor da graça invisível; e todo indivíduo que se aproxima com coração sincero e em plena certeza de fé entra, em sua própria pessoa, na aliança de Deus, e para ele em particular essa aliança permanece firme. Ele a renova também em cada ato sacramental, cuja repetição está determinada; e, sendo autorizado por uma instituição divina e permanente a apresentar assim o seu direito à plena graça da aliança, recebe por meio dela contínuas garantias do amor e da fidelidade de um Deus que não muda, mas exibe os mesmos sinais e penhores da mesma aliança da graça para a constante aceitação de cada crente individual ao longo de todas as eras desta igreja, que está encarregada da ministração desses símbolos sagrados de sua misericórdia para com a humanidade. Essa é uma circunstância importante e muito encorajadora.