DIÁRIO DE WESLEY · CAPÍTULO 15

Uma nova igreja; Rousseau; geologia; Swedenborg; Gwennap e vinte mil pessoas; a morte de Whitefield

Uma igreja inaugurada na Irlanda, os dois primeiros pregadores enviados à América com cinquenta libras, as críticas a Rousseau e a Swedenborg, vinte mil ouvintes no anfiteatro de Gwennap — e o sermão fúnebre de George Whitefield, pregado pelo amigo de toda a vida.

1769–1770 ⏱ 27 min de leituraMorte de Whitefield

“Oh, que todos ouçam a voz daquele que, por este golpe inesperado, chama tão alto os seus filhos a amarem uns aos outros!”

(Diário, novembro de 1770, após a morte de Whitefield)

Antes de ler

Este capítulo abre e fecha com George Whitefield. No início de 1769, os dois velhos amigos relembram juntos “os tempos antigos e o modo como Deus nos preparou para uma obra que então não entrara em nossos corações conceber”. Em novembro de 1770 chega a notícia: Whitefield morrera na América, e os executores do seu testamento pedem que Wesley — justamente ele, o amigo de quem Whitefield divergira publicamente sobre a predestinação — pregue o sermão fúnebre. A reconciliação dos capítulos anteriores dá aqui o seu fruto final: “Nisto todos conhecerão que vocês são meus discípulos: se tiverem amor uns aos outros” (Jo 13.35).

Guarde-se a carta em que Wesley define a perfeição cristã em cinco pontos: amar a Deus de todo o coração; um coração e uma vida inteiramente consagrados a Deus; recobrar a inteira imagem de Deus; ter toda a mente que houve em Cristo; andar uniformemente como Cristo andou (Mt 22.37; Fp 2.5; 1Jo 2.6). “Se alguém entende por perfeição algo mais ou algo diferente disso, nada tenho com isso.” Poucas páginas resumem tão bem o coração da doutrina wesleyana da santidade.

Um detalhe deste capítulo mudou a história: na Conferência de Leeds (1769), Wesley apresentou o caso dos irmãos de Nova York, que haviam construído a primeira casa de pregação metodista da América e precisavam de pregadores. Richard Boardman e Joseph Pilmoor se ofereceram, e a Conferência lhes enviou cinquenta libras “como sinal do nosso amor fraternal”. Dessa semente minúscula nasceria o metodismo americano. “Quem despreza o dia dos pequenos começos?” (Zc 4.10).

E há o Wesley leitor, sempre criterioso: aprecia a Teoria da Terra de Burnet sem engolir tudo; demole a pedagogia de Rousseau (“descobertas assim espero sempre dos que são sábios demais para crer na sua Bíblia”); classifica Swedenborg como “um dos loucos mais engenhosos e divertidos que já pegaram numa pena”. Ao completar sessenta e oito anos, revisa a própria saúde de ferro e conclui com o salmista: “Isto vem do SENHOR” (cf. Sl 118.23). O segredo, diz ele, inclui até a rédea solta com que leu história e poesia por cem mil milhas a cavalo.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1769. Segunda-feira, 9 de janeiro. Passei uma hora confortável e proveitosa com o senhor Whitefield, relembrando os tempos antigos e o modo como Deus nos preparou para uma obra que então não entrara em nossos corações conceber.

Sexta-feira, 17 de fevereiro (Yarmouth). Resumi o belo Tratado sobre as paixões, do doutor Watts. As suas cento e setenta e sete páginas renderão um opúsculo útil de vinte e quatro. Por que pessoas que tratam dos mesmos assuntos que eu escrevem livros tão maiores? Entre muitas razões, não será esta a principal: não escrevemos com o mesmo fim? O fim principal deles é ganhar dinheiro; o meu único fim, fazer o bem.

Segunda-feira, 27 (Londres). Tive mais uma conversa agradável com o meu velho amigo e companheiro de trabalho, George Whitefield. A sua alma parecia vigorosa ainda, mas o corpo afundava depressa; a menos que Deus interponha a sua mão, ele em breve terá de concluir os seus trabalhos.

O “tubarão de terra”

Quinta-feira, 30 de março (Dublin). Fui intimado ao Tribunal de Consciência por uma pobre criatura que deu de comer aos meus cavalos três ou quatro vezes enquanto eu estava a bordo. Por esse serviço exigia dez xelins. Dei-lhe meia coroa. Quando informei o tribunal, ele foi asperamente repreendido. Guardem-se todos desses tubarões de terra dos nossos litorais! Os retalhos de tempo desta semana empreguei lendo o relato do comodoro Byron. Nunca antes li de alguém que suportasse tais provações e lhes sobrevivesse. Certamente nenhum romance no mundo pode ser mais comovente, nem mais surpreendente, que esta história.

Quarta-feira, 19 de abril (Armagh). Montamos por volta das dez, atendendo ao pedido de passar por Kinnard (dez ou onze milhas fora do caminho), onde recentemente se formara uma pequena sociedade muito viva para Deus. À entrada da cidade, encontrou-me um mensageiro do arquidiácono C., que desejava que eu me hospedasse com ele; e logo depois outro, dizendo que o arquidiácono pedia que eu apeasse à sua porta. Assim fiz, e encontrei um velho amigo que eu não via havia trinta e quatro ou trinta e cinco anos.

Wesley inaugura uma nova igreja

Recebeu-me com a mais cordial afeição e, passado um tempo, disse: “Estivemos construindo uma igreja nova, que os meus vizinhos esperavam que eu inaugurasse; mas, se o senhor quiser fazê-lo, será igualmente bem.” Ouvindo o sino, o povo afluiu de todas as partes da cidade e “recebeu a palavra com toda a prontidão de espírito” (cf. At 17.11). Vi que a mão de Deus estava nisso, para o fortalecimento daquele povo amoroso.

Dali cavalgamos por uma região aprazível até Charlemount, onde preguei a uma congregação muito grande e séria, perto do forte — que tem um fosso ao redor e certa aparência de fortificação; e que provavelmente (segundo o costume) custa ao governo mil libras por ano, por um serviço que não vale três centavos!

Quinta-feira, 20. Segui para Castle Caulfield e preguei no gramado contíguo ao castelo, a um povo simples e sério, que ainda retém todo o seu fervor e simplicidade. Dali cavalguei a Cookstown, cidade que consiste numa única rua de cerca de uma milha, correndo diretamente através de um brejo. Preguei à maior parte dos habitantes; e assim também no dia seguinte, de manhã e à noite. Muitos “receberam a palavra com alegria”. Talvez nem todos sejam ouvintes de solo pedregoso (cf. Mt 13.20-21).

Tomamos a estrada nova para Dungiven. Mas foi trabalho duro: quase atolados, avançávamos pisando a massa crua. Levamos quase cinco horas para vencer catorze milhas, parte a cavalo, parte a pé. Tivemos, como de costume, casa cheia em Londonderry à noite, e de novo às oito da manhã de domingo. À tarde tivemos uma congregação brilhante. Mas tal vista não me dá grande prazer, pois tenho pouquíssima esperança de fazer-lhes bem; só que para Deus todas as coisas são possíveis (Mt 19.26). Nesta noite e na seguinte falei com extrema franqueza aos membros da sociedade. Em nenhum outro lugar da Irlanda os mais capazes dos nossos pregadores se esforçaram tanto. E com que pouco resultado! Grupos de comunhão, nenhum; quarenta e quatro pessoas na sociedade, a maior parte sem ânimo e fria; o auditório em geral, morto como pedras. Contudo, cabe-nos entregar a nossa mensagem — e faça o nosso Senhor o que bem lhe parecer.

Uma beleza abandonada

Quinta-feira, 25 de maio. Cavalguei a Bandon. À noite fomos obrigados a ficar dentro de casa; mas na seguinte, sexta, 26, fiquei na rua principal e clamei a uma numerosa congregação: “Tema a Deus e guarde os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem” (Ec 12.13). Depois visitei alguém que, um ou dois anos atrás, vivia na alta sociedade: uma beleza eminente, adorada pelo marido, admirada e festejada por alguns dos primeiros homens da nação. Estava agora sem marido, sem amigo, sem fortuna, presa ao leito, em dor constante e em negro desespero, crendo-se abandonada por Deus e possuída por uma legião de demônios! Contudo, achei grande liberdade em orar por ela, e forte esperança de que morrerá em paz.

Terça-feira, 27 de junho. De uma carta a uma mulher piedosa e sensata: “Por perfeição cristã, entendo: 1) amar a Deus de todo o coração. Objeta a isso? Entendo: 2) um coração e uma vida inteiramente consagrados a Deus. Deseja menos? Entendo: 3) recobrar a inteira imagem de Deus. Que objeção a isso? Entendo: 4) ter toda a mente que houve em Cristo. É ir longe demais? Entendo: 5) andar uniformemente como Cristo andou. E a isso certamente nenhum cristão objetará. Se alguém entende por perfeição algo mais ou algo diferente, nada tenho com isso. Mas, ainda que isso estivesse errado: que necessidade deste calor a respeito, desta violência — ia quase dizendo, desta fúria de oposição, levada ao ponto de não se comprar sequer deste homem ou daquela mulher que a professa?”

Segunda-feira, 3 de julho. Cavalguei a Coolylough (onde era a reunião trimestral) e preguei às onze e à noite. Enquanto cantávamos, surpreendi-me ao ver os cavalos, de todas as partes do terreno, ajuntando-se ao nosso redor. Será verdade, então, que os cavalos, como os leões e os tigres, têm ouvido para a música?

Domingo, 30. Às cinco preguei em Leeds; e na segunda, 31, preparei todas as coisas para a Conferência que se seguia. Terça, 1º de agosto: ela começou; e jamais tivemos uma mais amorosa. Na quinta, mencionei o caso dos nossos irmãos de Nova York, que haviam construído a primeira casa de pregação metodista da América e estavam em grande necessidade de dinheiro — e muito mais de pregadores. Dois dos nossos pregadores, Richard Boardman e Joseph Pilmoor, ofereceram-se de boa vontade para o serviço; e por eles decidimos enviar cinquenta libras, como sinal do nosso amor fraternal.

Na casa da condessa de Huntingdon

Quarta-feira, 23 de agosto. Segui para Trevecca. Encontramos ali um concurso de gente de todas as partes, vinda para celebrar o aniversário da condessa de Huntingdon e o primeiro ano da sua escola, aberta em vinte e quatro de agosto do ano passado. Preguei à noite a quantos a sua capela podia conter — capela extremamente asseada, ou antes, elegante, como o são a sala de jantar, a escola e toda a casa. Por volta das nove, Howell Harris pediu-me uma breve exortação à sua família. Assim fiz; e depois voltei à casa de milady e me deitei em paz.

Quinta-feira, 24. Administrei a ceia do Senhor à casa. Às dez começou o culto público. O senhor Fletcher pregou um sermão extraordinariamente vivo no pátio, sendo a capela pequena demais. Depois dele, o senhor William Williams pregou em galês, até entre uma e duas horas. Às duas jantamos. Nesse meio-tempo, cestos de pão e carne foram levados à multidão no pátio. Às três tomei ali a minha vez; depois o senhor Fletcher; e por volta das cinco a congregação foi despedida. Entre sete e oito começou a festa de amor, na qual creio que muitos foram consolados. À noite, vários de nós nos recolhemos ao bosque vizinho, belissimamente traçado em alamedas. Uma delas leva a um pequeno monte, erguido no meio de um prado, com vista deliciosa. É obra de Howell Harris, que também ampliou e embelezou muito a sua casa; com os jardins, pomares, alamedas e espelhos d’água que a cercam, é uma espécie de pequeno paraíso.

Sexta-feira, 25. Cavalgamos por uma região encantadora até Chepstow. Eu planejara seguir direto, mas cedi à importunação dos amigos para ficar e pregar à noite. Nesse ínterim, passeei pelos bosques do senhor Morris. Não há quase nada igual no reino: erguem-se no alto e pela encosta de uma montanha íngreme, pendendo em semicírculo sobre o rio. Por eles se cortam abundantes alamedas serpenteantes, com muitos assentos e caramanchões, quase todos dominando uma vista surpreendente de rochas e campos do outro lado do rio. E tudo isto terá de ser queimado (cf. 2Pe 3.10)? Que será de nós, então, se pusermos nisso o coração?

O cavalheiro dos ovos podres

Sexta-feira, 8 de setembro. Preguei por volta das nove em Taunton e segui a cavalo para Bridgwater. À tarde subi ao alto do monte Brent. Não sei se já vi vista igual. Para o oeste, enxerga-se até a foz do canal de Bristol; e para os três outros lados, até onde o olho alcança. E quase toda a terra que se vê é bem cultivada, bem arborizada e bem regada; o globo terrestre, na sua condição presente, dificilmente pode oferecer cena mais aprazível.

Terça-feira, 19. Entre meio-dia e uma preguei em Freshford; à noite, em White’s Hill, perto de Bradford. Assim, muitos tiveram oportunidade de ouvir que não teriam vindo ao salão. Eu planejara pregar ali de novo na tarde seguinte, mas um cavalheiro da cidade pediu que eu pregasse à sua porta. As feras do povo estiveram razoavelmente quietas até eu quase terminar o sermão. Então levantaram a voz — especialmente um, chamado cavalheiro, que enchera o bolso de ovos podres. Mas um jovem, chegando por trás sem que ele percebesse, bateu com as mãos dos dois lados e esmagou-os todos de uma vez. Num instante ele ficou perfumado da cabeça aos pés — embora o perfume não fosse tão doce quanto bálsamo.

Terça-feira, 24 de outubro. Preguei em Alston, num grande salão de maltagem, onde um lado da minha cabeça ficou bem quente, pela multidão de gente, e o outro bem frio, por uma janela aberta junto ao meu ouvido. Entre seis e sete preguei em Northampton; e foi uma hora solene.

Nesta noite houve uma aurora boreal como eu nunca vira: as cores — o branco, o cor de fogo e o escarlate — eram fortes e belíssimas. Mas eram tremendas também; e abundância de gente, assustada, tomou muitas boas resoluções.

Wesley sobre a geologia e Rousseau

Terça-feira, 26 de dezembro. Li as cartas dos nossos pregadores na América, informando que Deus começou ali uma obra gloriosa; que, tanto em Nova York quanto na Filadélfia, multidões afluem para ouvir e se portam com a mais profunda seriedade; e que a sociedade de cada lugar já conta mais de cem membros.

Sexta-feira, 29. Observamos o dia em jejum e oração, em parte por causa do estado confuso dos negócios públicos, em parte como preparação para o solene compromisso que estávamos prestes a renovar.

1770. Segunda-feira, 1º de janeiro. Cerca de mil e oitocentos de nós nos reunimos: foi uma hora soleníssima. Assim como declaramos abertamente que o SENHOR é o nosso Deus, assim ele declarou que somos o seu povo (cf. Dt 26.17-18).

Quarta-feira, 17. Numa pequena viagem a Bedfordshire, terminei a Teoria da Terra do doutor Burnet. É sem dúvida um escritor de primeira ordem, quanto ao senso e ao estilo: a sua linguagem é notavelmente clara, natural, vigorosa e elegante. E, quanto à sua teoria, ninguém pode negar que é engenhosa e coerente consigo mesma. E é altamente provável: 1) que a terra surgiu do caos de maneira semelhante à que ele descreve; 2) que a terra antediluviana não tinha montanhas altas nem abruptas, e não tinha mar, sendo uma crosta uniforme que encerrava o grande abismo; 3) que o dilúvio foi causado pelo rompimento dessa crosta e pelo seu afundamento no abismo das águas; e 4) que o estado presente da terra, interno e externo, mostra que ela é a ruína da terra anterior. Esta é a substância dos seus dois primeiros livros, e até aqui posso acompanhá-lo. Não objeto à substância do terceiro livro, sobre a conflagração geral; antes o julgo um dos mais nobres tratados existentes na nossa língua. E não objeto muito ao quarto, sobre os novos céus e a nova terra: a sua substância é altamente provável.

Sábado, 3 de fevereiro. Neste dia, e nos momentos vagos de vários dos seguintes, li com muita expectativa um livro celebrado — o Emílio de Rousseau, sobre a educação. Mas que decepção! Certamente presunçoso mais consumado nunca viu o sol! Quão espantosamente cheio de si mesmo! O que quer que diga, pronuncia como um oráculo. Mas muitos dos seus oráculos são tão palpavelmente falsos como este: que “as crianças pequenas nunca amam os velhos”. Não? Nunca amam avôs e avós? Frequentemente mais do que aos próprios pais. Na verdade, amam a todos os que as amam, e com mais calor e sinceridade do que quando chegam a anos mais maduros.

Mas objeto ao seu temperamento mais que ao seu juízo: é um puro misantropo, um cínico da cabeça aos pés. Como o é, de resto, o seu irmão na incredulidade, Voltaire, e quase tão grande presunçoso. Este, porém, esconde um pouco melhor a obstinação e a vaidade; naquele, elas nos encaram continuamente. Quanto ao livro, é extravagante ao último grau, fundado nem na razão nem na experiência. Citar passagens seria interminável; mas qualquer um pode observar, do conjunto, que os conselhos bons são banais e comuns, apenas disfarçados em expressões novas; e os novos, os realmente dele, são mais leves que a própria vaidade. Descobertas assim espero sempre dos que são sábios demais para crer na sua Bíblia.

Swedenborg, um louco divertido

Quarta-feira, 28. Sentei-me para ler e considerar seriamente alguns escritos do barão Swedenborg. Comecei com enorme prejuízo a seu favor, sabendo-o homem piedoso, de forte entendimento, de muita erudição, e que cria completamente em si mesmo. Mas não pude resistir por muito tempo. Qualquer uma das suas visões põe fora de dúvida o seu verdadeiro caráter. É um dos loucos mais engenhosos, vivos e divertidos que já pegaram numa pena. Mas os seus sonhos acordados são tão desvairados, tão remotos da Escritura e do bom senso, que seria igualmente fácil engolir as histórias do Pequeno Polegar ou de João, o Mata-Gigantes.

Segunda-feira, 5 de março. Cheguei a Newbury, onde muito me haviam instado a pregar. Mas onde? Os dissidentes não permitiram que eu pregasse na sua casa de reunião. Alguns quiseram então alugar o velho teatro; mas o bom prefeito não consentiu que fosse assim profanado! Servi-me, pois, de uma oficina — lugar amplo e cômodo, mas que de modo algum conteve a congregação. Todos os que puderam ouvir portaram-se bem, e fiquei na esperança de que Deus terá um povo também neste lugar. Na noite seguinte preguei em Bristol, e ali passei o resto da semana.

Wesley e os seus cavalos

Quarta-feira, 21. Nos dias seguintes fui avançando devagar, por Staffordshire e Cheshire, até Manchester. Nesta jornada, como em muitas outras, observei um erro que prevalece quase universalmente; e desejo que todos os viajantes tomem boa nota disto, pois pode poupar-lhes transtorno e perigo. Há quase trinta anos eu pensava: “Como é que nenhum cavalo tropeça enquanto estou lendo?” (História, poesia e filosofia leio comumente a cavalo, tendo outra ocupação nas demais horas.) Não há explicação possível senão esta: porque então lanço as rédeas sobre o pescoço dele. Pus-me a observar; e afirmo que, cavalgando mais de cem mil milhas, mal me lembro de algum cavalo (exceto dois, que caíam de qualquer jeito) que tenha caído ou tropeçado seriamente enquanto cavalguei de rédea frouxa. Imaginar, portanto, que a rédea esticada evita tropeços é um erro capital. Repeti a experiência mais vezes do que a maioria dos homens do reino pode fazê-lo. A rédea frouxa evitará o tropeço, se algo o evitar. Mas em alguns cavalos, nada pode.

Quarta-feira, 25 de abril. Montando às cinco, cavalgamos a Dunkeld, a primeira cidade considerável das Terras Altas. Fomos agradavelmente surpreendidos: situação mais aprazível não se imagina facilmente. Depois seguimos algumas milhas por uma estrada lisa e deliciosa, suspensa sobre o rio Tay; e então fomos, serpenteando pelas montanhas, ao castelo de Blair. As montanhas, pelas vinte milhas seguintes, eram bem mais altas e cobertas de neve. À noite chegamos a Dalwhinnie, a estalagem mais cara que encontrei no norte da Grã-Bretanha. De manhã nos informaram que caíra tanta neve durante a noite que não poderíamos prosseguir. E, de fato, três moças, tentando atravessar a montanha para Blair, foram tragadas pela neve. Resolvemos, contudo, com a ajuda de Deus, ir até onde pudéssemos. Mas, por volta do meio-dia, paramos de todo: a neve, acumulada no alto da montanha, bloqueara completamente a estrada. Apeamos e, saindo da estrada com cautela, ora à esquerda, ora à direita, com muitos tropeções mas nenhum dano, chegamos a Dalmagarry e, antes do pôr do sol, a Inverness.

Sexta-feira, 27. Tomei o desjejum com o ministro decano, o senhor McKenzie, homem piedoso e amigável. Às seis da tarde comecei a pregar na igreja, com liberdade de espírito muito incomum. Às sete da manhã preguei na biblioteca, sala ampla e cômoda, mas que não conteve a congregação: muitos tiveram de ir embora. Depois cavalguei ao forte George, fortificação muito regular, capaz de conter quatro mil homens. Quando eu já montava, o oficial comandante mandou dizer que eu era bem-vindo a pregar. Mas era um pouco tarde: eu tinha apenas o tempo exato de voltar a Inverness.

Wesley em Nairn, Elgin e Aberdeen

Segunda-feira, 30. Partimos numa bela manhã. Pouco antes de chegarmos a Nairn, encontrou-nos um mensageiro do ministro, o senhor Dunbar: desejava que eu tomasse o desjejum com ele e desse um sermão na sua igreja. Depois nos apressamos para Elgin, por uma região aprazível e bem cultivada. Quando de lá partimos, começou a chuva, e despejou até chegarmos ao Spey, o rio mais impetuoso que já vi. Vendo que o barco grande não tinha pressa de mover-se, entrei num pequeno, que já partia. Ele nos rodopiou sobre a corrente quase num minuto. Esperei na estalagem de Fochabers (escura e suja em toda a acepção), até que os amigos me alcançaram com os cavalos. O exterior da estalagem de Keith era do mesmo matiz, e não nos prometia grandes coisas. Mas fomos agradavelmente desenganados: achamos fartura de tudo, e nos enxugamos com vagar.

Domingo, 6 de maio. Preguei na igreja do Colégio, na velha Aberdeen, a uma congregação muito séria (embora na maior parte fidalga). À noite preguei no nosso próprio salão e, de manhã cedo, despedi-me daquele povo amoroso. Chegamos a Montrose por volta do meio-dia. Eu planejara pregar ali, mas nenhum aviso fora dado. Desci, contudo, ao gramado e cantei um hino. O povo logo afluiu de todas as partes, e Deus me deu grande liberdade de palavra; espero que não nos tenhamos reunido em vão.

Às sete da noite preguei em Arbroath (propriamente Aberbrothwick). A cidade inteira parece movida: a congregação foi a maior que vi desde que deixamos Inverness. E a sociedade, embora de apenas nove meses, é a maior do reino, depois da de Aberdeen.

Terça-feira, 8. Contemplei os pequenos restos da abadia. Não conheço nada igual em todo o norte da Grã-Bretanha. Medi-a a passos: cem jardas de comprimento, com largura proporcional. Parte da fachada oeste, ainda de pé, mostra que era plenamente tão alta quanto a abadia de Westminster. O topo sul do cruzeiro também está de pé, e perto do seu alto há uma grande janela circular. Os zelosos reformadores, disseram-nos, foi que a queimaram. Deus nos livre das turbas reformadoras!

Não vi na Escócia cidade que cresça tão depressa, nem construída com tanto bom senso, como esta. Duas ruas inteiramente novas, e parte de uma terceira, foram construídas nestes dois anos. Correm paralelas, com uma fileira de jardins entre elas — de modo que cada casa tem o seu jardim, consultando-se assim a saúde e a conveniência.

Onde ficam as Terras Altas?

Segunda-feira, 14. Depois de dez anos de indagação, aprendi enfim o que são as Terras Altas da Escócia. Uns me diziam: “As Terras Altas começam quando se cruza o Tay”; outros, “quando se cruza o Esk do Norte”; outros, “quando se cruza o rio Spey”. Mas todos erraram o alvo. A verdade é que as Terras Altas não são limitadas por rio nenhum, mas por cairns — montes de pedras dispostos em fila, de sudoeste a nordeste, de mar a mar. Estes outrora dividiam o reino dos pictos do dos caledônios, que incluía todo o país ao norte dos cairns, vários dos quais ainda restam. Abrange Argyleshire, a maior parte de Perthshire, Morayshire e todos os condados do noroeste. Chama-se Terras Altas porque parte considerável (embora não o todo) é montanhosa. Mas não é mais montanhosa que o norte do País de Gales, nem que muitas partes da Inglaterra e da Irlanda; nem creio que tenha montanha mais alta que o Snowdon, ou o Skiddaw de Cumberland. Falar gaélico, portanto, não é o que as distingue das Terras Baixas; nem este ou aquele rio, pois o Tay, o Esk e o Spey correm através das Terras Altas, não ao sul delas.

Sexta-feira, 18. Cavalgamos à residência do conde de Haddington, finamente situada entre dois bosques. A casa é enorme e aprazível, dominando ampla vista para ambos os lados; e o conde está abrindo alamedas pelos bosques, aplainando o terreno e muito ampliando e embelezando o seu jardim. E, contudo, ele terá de morrer! À noite, confio que Deus quebrantou alguns dos corações de pedra de Dunbar. Há também aqui um pequeno crescimento na sociedade, e todos os membros andam irrepreensivelmente.

Wesley e os pedágios

Sexta-feira, 15 de junho. Fui agradavelmente surpreendido ao achar toda a estrada de Thirsk a Stokesley, que costumava ser péssima, melhor que a maioria das estradas de pedágio. Os cavalheiros da região se empenharam e levantaram dinheiro bastante para consertá-la eficazmente. Assim se fez por várias centenas de milhas na Escócia, e por todo o Connaught na Irlanda; e assim, sem dúvida, se poderia fazer por toda a Inglaterra, sem sobrecarregar o povo pobre com a vil imposição dos pedágios para sempre.

À tarde chegamos a Whitby. Tendo pregado três vezes ao dia por cinco dias, eu estava disposto a pregar dentro de casa; mas o aviso fora dado para a praça do mercado; comecei, pois, às seis, a uma grande congregação, na maior parte profundamente atenta.

Domingo, 17. Tivemos um pobre sermão na igreja. Fui, contudo, de novo à tarde, lembrando as palavras do senhor Philip Henry: “Se o pregador não sabe o seu dever, bendigo a Deus que eu sei o meu.”

Quinta-feira, 28. Mal posso crer que entro hoje no sexagésimo oitavo ano da minha idade. Quão maravilhosos são os caminhos de Deus! Como me guardou desde criança! Dos dez aos treze ou catorze anos, pouco tive além de pão para comer, e não em grande fartura. Creio que isso, longe de prejudicar-me, lançou o fundamento de uma saúde duradoura. Quando cresci, por ter lido o doutor Cheyne, escolhi comer com parcimônia e beber água. Foi outro grande meio de conservar a saúde até os vinte e sete anos. Comecei então a cuspir sangue, o que durou vários anos. Um clima quente o curou. Fui depois levado à beira da morte por uma febre; mas ela me deixou mais são do que antes. Onze anos depois, estava no terceiro estágio de uma tuberculose; em três meses, aprouve a Deus remover também isto. Desde aquele tempo não conheço dor nem doença, e estou hoje mais são do que há quarenta anos. Isto vem do SENHOR (cf. Sl 118.23)!

Wesley na abadia de St. Albans

Segunda-feira, 30 de julho. Preguei em Bingham, a dez milhas de Nottingham. Admirei realmente a primorosa estupidez do povo: bocejavam e arregalavam os olhos, enquanto eu falava de morte e juízo, como se nunca tivessem ouvido falar de tais coisas. E não foram ajudados por dois clérigos grosseiros e mal-educados, que pareciam exatamente tão sábios quanto eles. A congregação de Houghton, à noite, foi mais nobre, portando-se com o máximo decoro.

Terça-feira, 31. Às nove preguei na praça do mercado de Loughborough, a uma congregação quase tão grande quanto a de Nottingham, e igualmente atenta. Dali cavalguei a Markfield. Apesar da colheita, a igreja depressa se encheu. E grande foi o nosso regozijo no nosso grande Sumo Sacerdote, por quem “nos aproximamos com confiança do trono da graça” (Hb 4.16). À noite preguei no pátio do castelo de Leicester, a uma multidão de despertados e não despertados. Fez-se uma débil tentativa de perturbá-los: mandaram um homem apregoar salmão fresco a pequena distância; mas podia ter poupado o trabalho, pois ninguém lhe deu a menor atenção.

Quarta-feira, 1º de agosto. Cavalguei a Northampton. Fazendo ainda calor extremo, resolvi não ficar engaiolado, mas tomei posição à beira do campo comum e clamei em alta voz, a uma grande multidão de ricos e pobres: “Reconcilie-se, pois, com Deus e tenha paz” (Jó 22.21).

Quinta-feira, 2. Alguns amigos de Londres nos encontraram em St. Albans. Antes do jantar, passeamos pela abadia, um dos edifícios mais antigos do reino, com quase mil anos; e um dos maiores, com quinhentos e sessenta pés de comprimento (consideravelmente mais que a abadia de Westminster), e largura e altura proporcionais. Perto da extremidade leste está o túmulo, com a cripta, do bom duque Humphrey. Pessoas ainda vivas se lembram de quando o seu corpo estava inteiro. Mas, aberto o caixão, tantos foram os curiosos de provar o licor em que estava conservado que em pouco tempo o corpo ficou exposto, e logo se desfez em pó. Uns poucos ossos são hoje tudo o que resta. Quão pouco se importa o espírito com isso!

Wesley e os monumentos druidas

Terça-feira, 21. Cavalguei a Tiverton e dali, por Launceston, Camelford, Port Isaac, Cubert, St. Agnes e Redruth, a St. Ives. Aqui Deus fez que todos os nossos inimigos estivessem em paz conosco, de modo que eu poderia ter pregado em qualquer parte da cidade. Preferi, porém, um prado, onde quem quisesse podia sentar-se, na relva ou nas “sebes” — assim chamam os da Cornualha os seus largos muros de pedra, geralmente cobertos de relva. Ali apliquei: “Tema a Deus e guarde os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem” (Ec 12.13).

Sábado, 1º de setembro. Subi a pé ao alto daquele celebrado monte, Carn Brea. Há ali muitos monumentos de remota antiguidade, que dificilmente se acham em qualquer outra parte da Europa: altares druidas de tamanho enorme — não passando de rochas imensas, estranhamente suspensas umas sobre as outras — e bacias cavadas na superfície da rocha, supõe-se que para conter a água sagrada. É provável que sejam ao menos coetâneos do teatro de Pompeu, se não das pirâmides do Egito. E de que lhes vale isso? Que importa, aos mortos ou aos vivos, que tenham resistido aos estragos do tempo por três mil ou por trezentos anos?

Uma congregação de vinte mil

Domingo, 2. Às cinco da tarde preguei no anfiteatro natural de Gwennap. O povo cobria um círculo de quase oitenta jardas de diâmetro, e não podia ser menos de vinte mil. Contudo, indagando, verifiquei que todos podiam ouvir distintamente, sendo uma tarde calma e quieta.

Depois de visitar Medros, Plymouth e Cullompton, cheguei na sexta, 7, a Taunton. Logo depois de pregar, montei. A chuva nos obrigava à pressa; mas dali a pouco a sela veio sobre o pescoço do cavalo, e depois virou sob o seu ventre. Só me restou atirar-me para fora, ou teria caído debaixo dele. Fiquei um pouco contundido, mas logo montei de novo e cavalguei a Lympsham e, no dia seguinte, a Bristol.

Domingo, 9. A minha voz estava fraca quando preguei na Princes Street pela manhã. Estava mais forte às duas da tarde, pregando eu sob o sicômoro de Kingswood; e mais forte que tudo às cinco, quando nos reunimos perto de King’s Square, em Bristol.

Quinta-feira, 11 de outubro. Por volta das onze preguei em Winchester, a uma congregação fidalga e, ainda assim, séria. Cheguei um pouco cansado a Portsmouth, mas a congregação logo me fez esquecer o cansaço. De fato, o povo daqui é, em geral, mais nobre que a maior parte do sul da Inglaterra: recebem a Palavra de Deus “com toda a avidez” (At 17.11), e mostram civilidade, ao menos, a todos os que a pregam.

Incêndio na doca de Portsmouth

Sexta-feira, 12. Dei a volta a pé pela doca, que é bem maior que qualquer outra da Inglaterra. O recente incêndio começou num lugar aonde ninguém vai, exatamente na maré baixa, e numa hora em que todos dormiam profundamente. Ninguém pode duvidar de que foi proposital. Espalhou-se com tão espantosa violência, entre estopa, cordame e madeira seca, que ninguém podia aproximar-se sem extremo perigo. Nem se esperava outra coisa senão que a doca inteira fosse consumida, se não também a cidade. Mas isso Deus não permitiu. O fogo parou, de um lado, rente à casa do comissário; e, exatamente quando tomava a cidade do outro lado, o vento virou e o empurrou de volta. Depois, a sua fúria foi contida com água, com areia e com a demolição de alguns edifícios. E, ainda assim, foram precisas cinco semanas inteiras para apagá-lo de todo.

Wesley prega o sermão fúnebre de Whitefield

Sábado, 10 de novembro. Voltei a Londres e tive confirmada, pelos seus testamenteiros, a melancólica notícia da morte do senhor Whitefield; e eles desejavam que eu pregasse o seu sermão fúnebre no domingo, dia dezoito. Para escrevê-lo, retirei-me a Lewisham na segunda; e no domingo seguinte fui à capela da Tottenham Court Road. Uma multidão imensa se reuniu de todos os cantos da cidade. A princípio temi que grande parte da congregação não pudesse ouvir; mas aprouve a Deus fortalecer de tal modo a minha voz que até os que estavam à porta ouviram distintamente. Foi uma hora solene: todos quietos como a noite; a maior parte parecia profundamente tocada; e em muitos se fez uma impressão que, espera-se, não se apagará depressa.

A hora marcada para eu começar no Tabernáculo era cinco e meia; mas às três ele já estava cheio, e comecei às quatro. No início o barulho era enorme; mas cessou quando comecei a falar; e a minha voz foi de novo tão fortalecida que todos os que estavam dentro puderam ouvir. Oh, que todos ouçam a voz daquele em cujas mãos estão a vida e a morte — e que, por este golpe inesperado, chama tão alto os seus filhos a amarem uns aos outros!

Sexta-feira, 23. Pedindo-me os curadores do tabernáculo de Greenwich que pregasse ali o sermão fúnebre do senhor Whitefield, fui hoje para esse fim; mas tampouco esta casa conteve a congregação. Os que não puderam entrar fizeram algum barulho no começo, mas em pouco tempo todos silenciaram. Também aqui, confio, Deus deu um golpe naquele sectarismo que prevalecera por muitos anos.

Segunda-feira, 3 de dezembro. Fiz uma pequena viagem por Kent. À noite preguei em Chatham, na casa nova, suficientemente cheia de ouvintes atentos.

Terça-feira, 4. Preguei em Cantuária.

Quarta-feira, 5. Fomos a Dover, onde, com alguma dificuldade, subimos ao alto do penhasco de Shakespeare. É extremamente alto e domina vasta vista de mar e de terra; mas nada tem, em si, do terrível que há na descrição do poeta. Preguei a uma congregação muito séria, à noite e de manhã. O mesmo observamos em Cantuária; de modo que espero ver bons dias também aqui.

Sexta-feira, 7. Preguei em Feversham às nove e, à noite, em Chatham. Assim vamos, por água e por fogo! E tudo está bem, contanto que estejamos fazendo ou sofrendo a vontade do nosso Senhor.

Quarta-feira, 19. Por volta do meio-dia preguei em Dorking. Os ouvintes eram muitos, e pareciam todo atenção. Cerca de cem compareceram em Reigate à noite, e entre vinte e trinta pela manhã — embotados, na verdade, como pedras.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (edição condensada de Percy Livingstone Parker, 1903). Citações bíblicas conforme a NAA. Edição: Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil.

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