(Continuação da última frase do capítulo 10: o ministro desejava que a Bíblia estivesse só em latim, para que ninguém do povo simples pudesse) lê-la. E, no entanto, são esses os homens que nos difamam como papistas!
Expus a passagem da mulher cananeia a uma casa cheia de almas sinceras, que tinham passado a noite inteira acordadas para ouvir a palavra de manhã. Falei com alguns que provaram a boa palavra da graça, embora vivam em Penzance, onde Satanás tem o seu trono.
Visitei uma segunda vez um pobre pecador moribundo, que agora troca seus próprios trapos imundos pela melhor túnica. A filha dele, a seu pedido, admiti na Sociedade.
Cavalguei até St. Just. Subi e desci o Cabo Cornwall com meu irmão Meriton, arriscando o pescoço sem necessidade. À tarde preguei a uma congregação maior do que nunca, e continuei o discurso até a noite, a partir de Lucas 21.34. O Espírito de amor foi derramado em abundância, e grande graça estava sobre todos. Caminhei até a Sociedade; fiquei de pé na colina, e cantei, e orei, e me alegrei com imensa alegria. Concluí o dia e o mês como eu gostaria de concluir a minha vida.
Preguei num lugar novo, a quase dois mil estranhos atentos: “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e eternamente” (Hb 13.8).
Voltei a St. Ives e encontrei nosso amado irmão Thompson, que viera nos ver, e aos filhos que Deus nos dera. Nossos inimigos ficaram alarmados com a vinda dele, e os irmãos, fortalecidos. À noite lhes apresentei o exemplo dos primeiros cristãos, que “perseveravam na doutrina dos apóstolos” (At 2.42). Por duas horas nos alegramos como homens que repartem o despojo.
Cavalguei com o Sr. Thompson e Meriton até a grande propriedade de um cavalheiro, perto de Penryn. Vimos o povo afluir de Falmouth e de todos os lados. O pátio, que comportava umas duas mil pessoas, encheu-se depressa. Fiquei numa galeria acima do povo e chamei: “Lavai-vos, purificai-vos” (Is 1.16). Escutaram avidamente a palavra da vida. Até os cavalheiros e as damas ouviam, enquanto eu pregava o arrependimento para com Deus e a fé em Jesus Cristo. Exortei-os, com muitas palavras, a frequentar todas as ordenanças da Igreja; a se submeter a toda instituição humana por amor do Senhor; a fechar a boca dos caluniadores, temendo a Deus e honrando o rei; e a evitar os juízos que pairam sobre nós por meio de uma reforma geral de vida.
Preguei em Gwennap, onde o despertamento é geral. Muitíssimos que não têm coragem de entrar na Sociedade, ainda assim, romperam com seus pecados pelo arrependimento e aguardam o perdão. Todo o condado percebe a mudança; pois na última sessão dos tribunais houve esvaziamento da cadeia: não se achou um único criminoso em suas prisões, coisa nunca vista na memória de ninguém. Na última festança, não tinham homens suficientes para uma luta de braço, pois todos os homens de Gwennap foram riscados da lista do diabo e agora lutam contra ele, não a favor dele.
Preguei meu sermão de despedida em Gwennap, a uma multidão incontável. Estavam quase todos na planície verde diante de mim, e na colina que a cercava. Muitos zombadores de Redruth se postaram na colina oposta, que parecia o monte Ebal. Ah, que nenhum deles seja achado entre os bodes naquele dia! Adverti e convidei a todos, com ameaças e promessas. O adversário foi maravilhosamente contido, e espero, perturbado em muitos dos seus filhos. Os filhos do meu Pai foram consolados por todos os lados. Estavam pendentes da palavra da vida; e hão de encontrá-la capaz de salvar suas almas. Falei por duas horas; e ainda assim não sabia como deixá-los ir. Tal tristeza e tal amor como então manifestaram, o mundo não acreditará, ainda que alguém lho conte. Meu irmão Thompson ficou pasmo e confessou que nunca vira coisa igual entre alemães, predestinacionistas ou quaisquer outros. Com grande dificuldade abrimos caminho por entre eles, por fim, e partimos em viagem. Vários homens e mulheres acompanharam nossos cavalos por dois ou três quilômetros; depois se separaram de nós, em corpo, não em espírito. Pernoitamos a cinco quilômetros de Mitchel.
Entre cinco e seis da tarde cheguei à casa do Sr. Bennet e preguei em sua igreja sobre: “Arrependei-vos, portanto, e convertei-vos” (At 3.19). Ao eu falar contra suas festanças de bebedeira, um deles me contradisse e blasfemou. Perguntei: “Quem é que advoga pelo diabo?”, e um respondeu com estas mesmas palavras: “Sou eu que advogo pelo diabo.” Aproveitei a ocasião para mostrar aos foliões o seu campeão, e a toda a congregação o seu estado por natureza. Muito bem vi logo se extrair do mal de Satanás. Então me voltei contra o seu declarado advogado e o expulsei da assembleia cristã. Concluí com fervorosa oração por ele.
À tarde o Sr. Meriton leu as orações na igreja de Trismere, e eu expus a parábola do bom samaritano a um auditório apinhado. Alguns fidalgos tinham vindo de quase trinta quilômetros para ouvir a palavra, e a receberam com alegria. Não tivemos tempo mais cheio de graça desde que chegamos a este condado.
Li as orações e preguei em St. Gennys. Um dos meus ouvintes era um clérigo vizinho, meu contemporâneo no Christ Church, que veio com muito amor convidar-me à sua casa.
Não se deve esquecer o testemunho concorde que meus irmãos deram comigo na última segunda-feira à noite, na igreja do Sr. Bennet, contra os passatempos supostamente inofensivos. Ao eu declarar que, por causa deles, fui mantido morto para Deus, adormecido nos braços do diabo, seguro num estado de perdição por dezoito anos, o Sr. Meriton acrescentou, em voz alta: “E eu, por vinte e cinco.” “E eu”, exclamou o Sr. Thompson, “por trinta e cinco.” “E eu”, disse o Sr. Bennet, “por mais de setenta.”
Cavalguei por Brinsworthy, casa do Sr. Thompson, perto de Barnstaple, até Minehead; onde roguei a quase mil pecadores que se arrependessem e cressem no evangelho. Descobri ser possível pregar a lei em todo o seu rigor, com tamanha aparente boa vontade que ela convença sem exasperar. Mas não a mim, ó Senhor, não a mim (Sl 115.1)!
Às seis embarquei num saveiro que nossa irmã Jones enviara para me buscar até Fonmon. Tivemos uma travessia deliciosa; desembarcamos ao meio-dia, perto de Aberthaw, e fomos recebidos por nossa querida amiga, com três de seus filhinhos e algumas irmãs de Cardiff. Fomos a caminho, cantando e nos alegrando, até o Castelo.
Aqui recebi a triste notícia do desvio de um a quem eu amava como à minha própria alma. Fiquei sensivelmente ferido por sua ingratidão. Ele confirmou todas as minhas advertências e temores. Mas que tentasse justificar-se enegrecendo a mim, foi além de tudo o que eu poderia imaginar. Senhor, humilha-o; mas faze-lhe o bem no seu fim.
À noite reuni-me com muitos filhos fiéis que o Senhor nos deu, e discorri sobre meu tema predileto: “São estes os que vêm da grande tribulação” (Ap 7.14). O Deus de toda consolação esteve poderosamente conosco, o Deus que nos consola em todas as nossas tribulações. Ah, com que doçura choramos por Aquele a quem a nossa alma ama! Não com a tristeza barulhenta e turbulenta das almas recém-despertas, que na maioria das vezes se dissipa como nuvem da manhã, mas com a profunda contrição do amor. Toda a congregação estava em lágrimas, em silenciosas lágrimas de desejo ou de alegria. É este o pranto com que peço ao Senhor que me abençoe, até que ele enxugue de meus olhos toda lágrima.
O Sr. Hodges leu as orações em Wenvo. Preguei palavras que convencem e, depois da Ceia, orei; e o Espírito selou a resposta em nossos corações.
Preguei, no pátio do Castelo em Cardiff: “Entra na rocha e nas fendas dos penhascos” (Is 2.21). Visitei dois irmãos doentes, um aguardando a salvação de Deus, o outro já bem de posse dela.
Visitei os irmãos de novo, reunidos em sua sala: “Não vos torneis indolentes, mas sede imitadores dos que, pela fé e pela paciência, herdam as promessas” (Hb 6.12). Fui muito reanimado pelo nosso irmão moribundo, que está agora pronto para ser oferecido. Perguntei-lhe se preferia morrer ou viver. Respondeu: “Partir e estar com Cristo é incomparavelmente melhor” (Fp 1.23). Ele tem sido, tanto antes como durante a doença, um modelo de todas as graças cristãs; foi o primeiro neste lugar a receber o evangelho da plena salvação. Agora só aguarda aquela palavra tão bem-vinda: “Sobe para aqui” (Ap 4.1).
Orei com ele de novo, algumas horas depois, e me alegrei sobre ele com fé forte e triunfante. Ele disse que havia algo perto dele que o faria duvidar, mas não conseguia, pois sabia que seu Salvador estava pronto a receber o seu espírito. Pedi as orações dele, beijei-o e me despedi pela última vez. Ele ergueu os olhos, como minha Hannah Richardson, e exclamou: “Senhor Jesus, dá-lhe uma porção dobrada do teu Espírito.” Estávamos todos em lágrimas. As minhas, receio, brotavam da inveja e da impaciência de continuar vivo, aqui onde só há espinhos e abrolhos comigo, e onde habito no meio de escorpiões (cf. Ez 2.6). Senti, por toda a minha alma, que preferiria estar na condição dele a possuir todo o bem criado.
Discorri, no Castelo, sobre a lamentação do nosso Senhor por Jerusalém; e muitos choraram, porque conheceram o tempo da sua visitação. Na Sociedade fui levado como sobre asas de águias. Todos participaram da minha fé e alegria. Lutamos em oração pelo meu filho Absalão (certamente todas as orações e lágrimas deles não serão perdidas), pelo rebanho em Londres e por toda a igreja.
Experimentei então a verdade de um dito estranho que certa vez ouvi de uma serva de Cristo: que ela sabia quando alguém falava mal dela, pelo Espírito de Deus, que nessas ocasiões especialmente repousava sobre ela. Não pude deixar de contar isso aos irmãos, ainda que com receio de que pensassem de mim mais do que deviam. É muito melhor ser mal pensado e mal falado. Continuamos nos alegrando diante de Deus, com reverência, e com um consolo tão profundo e sólido como raramente senti antes. Como, então, triunfaremos, quando formos feitos a escória e o refugo de todas as coisas!
Tínhamos orado na noite anterior, com alegria plena de glória, por nosso irmão que partia, justamente quando entregava o espírito, como peço a Deus que eu entregue o meu. Nesta manhã expus aquele último e supremo triunfo da fé: “Combati o bom combate” (2Tm 4.7). O Senhor ministrou forte consolação aos que amam a sua vinda. Cantamos um cântico de vitória por nosso amigo falecido; depois fomos à casa, e nos alegramos, e demos graças; e nos alegramos de novo, com cânticos, sobre ele. O espírito, ao partir, deixara na argila marcas da sua felicidade. Nenhum espetáculo sobre a terra é, aos meus olhos, metade tão belo.
Preguei perto de Cowbridge a muitos pecadores em processo de despertar; e de novo, no pátio do Castelo, sobre aquelas palavras solenes: “O Espírito e a noiva dizem: Vem!” (Ap 22.17).
Preguei aos prisioneiros, com a maior presença do meu Mestre que conheci no País de Gales; ainda assim, depois, na sala, confessou ele que guardara a maior bênção para o fim.
Montei a cavalo às três; atravessei o rio num quarto de hora; e às duas dei graças em Bristol, pelo nosso êxito em tudo.
Escrevi a T. B. o seguinte:
“As coisas que aconteceram, sei que serão para o progresso do evangelho. Mas pode uma mãe esquecer-se do filho que amamenta? Meu amor pelos que me odeiam supera o amor da natureza. Quem me dera ter morrido por ti, ó Absalão, meu filho, meu filho!
“Ah, Tommy! Poderias tu ser para mim o que ele é? De fato poderias; tal é a natureza do homem, ainda que no momento tu e eu digamos: ‘É teu servo um cão, para fazer tal coisa?’ Estou persuadido de que Deus nunca nos abandonará assim; mas somos capazes de tamanha ingratidão; de fato, meu irmão, somos; por isso não devemos nos irar com o pobre T. W. Ah, que o nome e o pecado dele sejam sepultados no esquecimento; ou que todos pensassem dele como eu penso!”
Ouvi um dos nossos filhos no evangelho, em Kingswood. Ele falou palavras sadias, que não se podiam reprovar.
Meu irmão Meriton me auxiliou a ministrar a Ceia a toda a nossa Sociedade. O Espírito socorreu a nossa fraqueza. Pedi, num tempo aceitável, vida para o meu pobre filho rebelde, se é que não pecou o pecado para a morte.
Relatei à Sociedade tudo o que ultimamente se passou em Londres. Receberam o relato dolorosíssimo como deviam, com a mais terna compaixão e a justa repulsa. Como poderiam deixar de lamentar por um que tantas vezes ministrou graça às suas almas? Tanto quanto não poderiam deixar de se apegar aos seus velhos pastores, que primeiro lhes trouxeram as boas-novas e desde então os acalentaram, como uma ama a seus filhos. “Ainda que tenhais muitos preceptores, contudo não tendes muitos pais” (cf. 1Co 4.15). Isto seus corações e suas lágrimas confessaram com abundância. Tive grande confiança neles: que, se não apenas algum, mas todos os nossos pregadores nos abandonassem, ainda assim não arrastariam discípulo algum atrás de si.
Preguei em Cirencester; e no dia seguinte encontrei meu irmão, com uma grande companhia dos nossos amigos, em Oxford.
Fui às orações do Christ Church, com vários dos irmãos, que acharam estranho ver homens de sobrepeliz conversando, rindo e apontando, como num teatro, durante todo o ofício.
Tive duas ou três horas de conversa com meu irmão; e reencontrei o espírito que outrora nos atraíra a este lugar. Preguei a uma multidão de irmãos, universitários e fidalgos vindos das corridas de cavalo, que lotaram nossa hospedaria e seu pátio. Os estranhos, que não tomavam parte na nossa alegria, pareciam impressionados e pasmos com ela, enquanto nos admoestávamos uns aos outros com salmos e hinos. Ah, quem dera todo o mundo tivesse gosto pela nossa diversão!
Uni-me a meu irmão em avivar a Sociedade. Eles corriam bem, até que os morávios os desviaram do caminho das ordenanças de Deus.
Às dez, caminhei com meu irmão, e os Srs. Piers e Meriton, até a igreja de St. Mary, onde meu irmão deu seu testemunho diante de um auditório apinhado, muito aumentado pelos que vieram das corridas. Nunca vi congregação mais atenta. Não deixaram escapar uma palavra sequer. Alguns dos reitores ficaram de pé o tempo todo, com os olhos fixos nele. Se conseguem suportar sã doutrina como a dele, certamente ele deixará uma bênção após si. [N. do T.: o sermão que o Rev. John Wesley pregou nesta ocasião intitula-se “Cristianismo Bíblico”, número IV em suas Obras reunidas.]
O vice-reitor mandou chamá-lo e pediu suas anotações, que ele selou e enviou de imediato.
Voltamos em formação, nosso pequeno grupo de quatro, pois nenhum dos demais ousou juntar-se a nós. Diverti-me um pouco com a esquivança de um velho amigo, o Sr. Wells, que estava sentado bem à minha frente, mas fez grande questão de me virar as costas o tempo todo, o que não me impediu de ver bem através dele. Ao meio-dia, meu irmão partiu para Londres, e eu, para Bristol.
Ministrei a Ceia em Kingswood. À tarde expus a passagem da mulher cananeia. Grande foi o clamor por Jesus. Muitas almas caíram a seus pés e disseram: “Senhor, socorre-me.”
Ministrei a Ceia à nossa irmã B., que triunfava sobre a morte. Todos participamos da sua alegria.
Fui consolado com três dos nossos irmãos de Wednesbury, que nos trouxeram a notícia de que Deus lhes deu descanso de todos os inimigos ao redor. Quando for mais para a glória dele e para o bem deles, serão provados de novo pela perseguição, e de novo louvarão a Deus no meio do fogo.
Passei uma hora abençoada em intercessão pela Igreja da Inglaterra. Certamente os que choram por ela se alegrarão com ela, quando o Senhor restaurar Sião.
Cavalguei até Bath e preguei Jesus Cristo à nossa própria Sociedade e a muitos estranhos. Por duas horas, depois, fui consolado com nossos filhos, e comprovei como é bom os irmãos viverem juntos em união (Sl 133.1).
Recebi a Ceia no colégio. Reuni-me com a Sociedade, e Jesus no meio dela. Quase não houve alma entre nós que não se comovesse, como testemunharam suas lágrimas ou suas alegrias. Muitos podiam dizer com verdade: “A nossa comunhão é com o Pai e com o Filho” (cf. 1Jo 1.3).
Esperei a maior parte do dia na Travessia por nossa irmã Jones e seus filhinhos. Por fim chegaram à nossa margem, através dos perigos das águas.
Cavalguei, sob chuva pesada, até Churchill, com o Sr. Sh. O juiz o ameaçara com coisas terríveis, caso eu pregasse. Muitos pobres se arriscaram a ouvir, enquanto eu clamava: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1.29). Da abundância do meu coração falava a minha boca. Quando terminei, o senhor juiz gritou e mandou que me derrubassem. Ele ficara a distância, tentando incitar uma turba; mas nenhum homem se mexeu à sua ordem. Só um, por trás, me acertou com uma pedra. Enquanto eu orava, ele gritou de novo: “Derrubem-no.” Disse-lhe que agora só me restava orar por ele. Ele respondeu: “Não tenho nada a ver com oração.” “Assim suponho, senhor”, disse eu; “mas nós temos.” Ele avançou e agarrou minha veste; mas desci, para lhe poupar o trabalho. Disse-me que era juiz de paz. “Então, senhor”, respondi, “reverencio-o pelo seu cargo; mas não devo negligenciar o meu, que é pregar o evangelho.” “Digo eu”, replicou o juiz e capitão, “que isto é uma assembleia ilícita.” “Tenha então a bondade”, respondi, “de nomear a lei ou a Ata do Parlamento que estamos violando.” Ele respondeu, infelizmente para si: “A Lei de Waltham.” “E como assim, senhor?”, perguntei. “Estou em meu traje próprio, e o senhor não vê aqui ninguém disfarçado.” Ele insistiu que eu não pregasse ali. Disse-lhe que tinha licença para pregar por toda a Inglaterra e a Irlanda, em virtude do meu grau de mestre. “Isso eu sei, senhor”, disse ele; “e lamento por isso. Creio que o senhor também é membro titular de um colégio.” “Sim, senhor”, respondi, “e cavalheiro, também; e, como tal, teria prazer em visitá-lo e conversar um pouco com o senhor a sós.” Ele respondeu que também teria prazer nisso, “pois o senhor se portou mais como cavalheiro do que qualquer um deles”. Eu tinha encarregado o povo de nada dizer, mas voltar quietamente para casa; e assim o senhor juiz e eu nos separamos como amigos toleráveis.
Cavalguei mais cinco quilômetros até a casa do Sr. Star, onde preguei na manhã seguinte a muitos pecadores atentos, que insistiram muito para que eu voltasse.
Alegrei-me ao ouvir da morte triunfante de nossa irmã Marsh, em Londres, cujo último suspiro foi gasto em oração por mim. Nenhum dos nossos filhos morre sem nos deixar um legado. Recebi o dela nesta noite, na resposta à sua oração. A palavra foi como fogo e como martelo. As rochas foram feitas em pedaços, em especial um pecador empedernido, que me resistiu por algum tempo antes de ser abatido. Muitos foram derretidos; alguns testemunharam receber, naquele momento, a reconciliação.
Apresentei, a partir de Isaías 35, aos nossos mineiros, os gloriosos privilégios do evangelho; e o deserto e o ermo se alegraram por causa deles. Meu irmão Thompson auxiliou na ministração da Ceia; e estava, como ele mesmo disse, no degrau mais alto da escada de Jacó.
Preguei de novo em Churchill, e chamei, a mais de duas mil almas: “Ó vós todos os que tendes sede, vinde às águas” (Is 55.1). Manifestaram muita satisfação com as alegres novas de um Salvador que livra do pecado.
Sendo o nosso dia de ação de graças, li o caso de John Nelson, um claro cumprimento da promessa: “Porque eu vos darei boca e sabedoria, a que não poderão resistir, nem contradizer todos quantos se vos opuserem” (Lc 21.15).
Li à Sociedade o relato do meu irmão sobre o pobre Sr. W.; e o Senhor esteve muito entre nós, humilhando e consolando nossos corações.
Preguei às cinco no Horse-fair; ministrei a Ceia em Kingswood; batizei um filho de Felix Farley; preguei de novo no bosque; cavalguei e preguei em Bristol; voltei ao nosso ágape entre os mineiros; e, perto da meia-noite, dormi com meu irmão Thompson, no Horse-fair.
Parti para Londres; tropecei, na noite escura, até uma pequena aldeia depois de Malmesbury. Não foi grande incômodo não encontrarmos cama nem comida.
Preguei em Wycombe; e no dia seguinte em nossa capela junto ao Seven Dials. A primeira Escritura que me veio foi Jeremias 20.7-10; e nunca senti mais o poder da palavra de Deus. Meus amigos oram por mim, eu sei e sinto; pois há anos não desfrutava de tamanha liberdade. Isto é para me preparar para mais trabalho e mais sofrimentos.
Conversei com um irmão sério, que desejava minha resposta aos muitos escândalos horríveis que T. W. levantou contra mim. Simplesmente neguei todos eles, o que foi toda a satisfação que pude lhe dar até aquele dia; e ele não desejou mais.
Preguei a um auditório apinhado sobre: “São estes os que vêm da grande tribulação” (Ap 7.14). O Senhor consolou grandemente nossos corações; e de novo na Sociedade, onde me abstive de mencionar o Sr. W., mas marquei para que todos os que tivessem sido perturbados por quaisquer boatos a meu respeito, ou do meu irmão, me procurassem no dia seguinte.
Expus o naufrágio de Paulo; e tive grande fé de que o Senhor nos dará todos os que navegam na nau conosco.
Ministrei a Ceia a vários doentes.
Na hora da conversa pastoral, entre outros, veio a mim uma pobre criança desviada, que se deixara levar pelas mentiras de T. W. Ela caiu a meus pés, pedindo perdão a Deus e a mim. Ah, como é fácil e agradável perdoar quem diz: “Arrependo-me”! Senhor, concede-me poder para perdoar com a mesma liberdade os que persistem em me ferir!
Ministrei a Ceia à nossa doente, mas feliz, irmã Burnet, com grande inveja da sua condição.
Auxiliei meu irmão a ministrá-la a toda a Sociedade. Recolhi mais uma ovelha desgarrada.
Montei a cavalo com N. Salthouse e cheguei, na noite seguinte, a Markfield, meio morto de dor e cansaço.
Preguei na igreja de modo convincente, como ouvi depois; e cavalguei em grande dor até D. Encontrei meu velho amigo Dr. Byrom e perdi uma hora em disputa sobre seus místicos sagrados. Deitei-me às onze, vestido, como de costume, mas não consegui descansar.
Conversei com um amigo a respeito da conspiração que se tramava contra mim em Londres; ele me aconselhou a guardar silêncio e deixar o assunto a Deus.
Proclamei liberdade aos cativos, e ofendi profundamente alguns que advogam a liberdade “alemã”, em vez da liberdade cristã. Mas, quer ouçam, quer deixem de ouvir, falei a verdade, paguei minha dívida e livrei a minha própria alma. Uma mulher confessou que então recebeu a certeza do seu perdão.
Mal aguentei chegar a Nottingham, e no dia seguinte a Sheffield. Deitei-me por uma hora e recobrei forças para pregar: “Para conhecê-lo, e o poder da sua ressurreição” (Fp 3.10). A palavra não estava presa nem fraca, como eu.
Tive uma viagem penosa até Epworth.
Reuni-me com a Sociedade duas vezes e preguei três, a despeito do meu corpo.
Preguei em Ferry, na sala de onde John Downes fora arrastado para ser soldado. Encontrei grande bênção no grupo dali. Dormi em Sikehouse; e no dia seguinte, terça-feira, 23 de outubro, alegrei-me entre meus irmãos em Birstal. Aqui foram peneirados como trigo pelo Sr. Viney. Receberam-no por recomendação do meu irmão (cuja infelicidade ainda é pôr o lobo a guardar as ovelhas), e ele lhes pregou uma peça: afastou-os do seu amor “animal” pelos pastores, das suas orações, jejuns, obras e santidade. Quase destruíra a obra de Deus, quando John Nelson voltou do cativeiro.
Preguei em Leeds, a partir de: “Quanto a ti também, pelo sangue da tua aliança, soltei os teus presos da cova” (Zc 9.11). Aqui está a grande bênção. Um, até onde ainda se pode discernir, recebeu o perdão; todos foram consolados ou convencidos.
Preguei em Bradford, sobre: “Este é aquele que veio por meio de água e sangue” (1Jo 5.6). Toda a congregação ardia em chamas. Certamente Deus tem uma grande obra a fazer entre este povo.
Reuni-me com a Sociedade de Birstal, que o Sr. Viney quase pervertera por completo; a ponto de rirem de todo jejum, e abnegação, e oração em família, e obras semelhantes “da lei”. Estavam tão alienados por aquele astuto usurpador que não deram atenção a John Nelson quando ele voltou; pois tudo o que Viney lhes ensinara era o “amor animal”.
Preguei na rua, em Leeds, sem ninguém me perturbar, sobre: “Aquele que perseverar até o fim, esse será salvo” (Mt 10.22).
Preguei na colina de Birstal a uma grande multidão: “Vigiai, estai firmes na fé, portai-vos varonilmente, fortalecei-vos” (1Co 16.13). Repreendi com dureza os que tinham andado em desacordo; e o espírito de contrição caiu sobre eles. Foi um pranto abençoado, que continuou na Sociedade. Então, pela primeira vez, meu coração se dilatou, e minha fé voltou por estas pobres ovelhas dispersas. Confessaram seu pecado, e Deus se mostrou fiel e justo. Nosso ágape começou com tristeza, mas terminou em alegria. O Senhor recebeu nossas petições e nos assegurou, em oração, que a praga fora estancada.
Despedi-me com aquelas palavras: “Finalmente, irmãos, alegrai-vos, aperfeiçoai-vos” (2Co 13.11).
Depois de muito vaguear, cheguei de noite, meio faminto, à nossa hospedaria; e no dia seguinte a Newcastle.
Expus Atos 3 em Biddicks, e encontrei muita vida entre este pobre povo. Muitos deles receberam o perdão, principalmente sob a oração de um dos irmãos, levantado para servi-los.
Repreendi a Sociedade de Newcastle por sua frouxidão e por ofensas de vários tipos. Avisei que começaria na manhã seguinte a examiná-los, e a expulsar todo o que andasse desordenadamente.
Despedi-me de Tanfield com Apocalipse 7: “São estes os que vêm da grande tribulação”; e o Senhor esteve grandemente conosco. Não consegui terminar meu discurso em menos de duas horas.
Prossegui com as classes. Era mais que hora de purgá-las. Por negligência própria, e a dos seus últimos preceptores, muitos estavam voltando para o Egito.
Passei a noite em vigília e oração; e vi o Senhor voltando ao seu povo.
Retirei-me para ler minhas cartas de Londres. Ofereci-me à disposição divina. Deparei com o Salmo 149; depois com o episódio de Balaque contratando Balaão para amaldiçoar Israel. Desci à congregação, onde o Senhor respondeu por si mesmo. Enviei um relato aos irmãos em Londres:
“Meus caríssimos irmãos, ontem à noite fui informado de que os filisteus gritaram contra mim, e o Espírito do Senhor veio poderosamente sobre nós. A ele seja dada toda a glória, por eu sentir o meu coração tão dilatado para convosco como nunca antes. Agora posso dizer com verdade: ‘Não estais estreitados em mim’ (cf. 2Co 6.12). Todos os meus desejos ansiosos de descanso desapareceram, e estou enfim contente em fazer o que é mais do que morrer por vós, isto é, viver por vós, e gastar todo o meu tempo em sofrimento. Aqui, pois, entrego-me a vós como vosso servo por amor de Cristo, para vos servir até que todos sejam recolhidos ao lar. Aonde fordes, irei; onde pousardes, pousarei; onde morrerdes, morrerei, e ali serei sepultado. Nem a própria morte vos separará de mim.
“Uma noite de consolação como a última, raras vezes conheci. Nossas almas se encheram de fé e oração, e se uniram às vossas num amor imutável. Erguei mãos santas, para que eu me mostre verdadeiro ministro de Jesus Cristo em todas as coisas.”
Nesta noite ouvi falar do zelo do pobre Sr. Broughton; mas não vou processar ninguém, seguindo o exemplo dele.
Preguei: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita” (Sl 110.1), e triunfei em seu poder real. Em Wickham falei da largura, comprimento, altura e profundidade do amor de Cristo, que excede todo entendimento (cf. Ef 3.18-19). Ele estendeu a paz sobre nós como um rio. A palavra teve igual poder em Newcastle.
Passei uma hora com meus queridos barqueiros de carvão no hospital, que são cruelmente tratados pelos patrões por causa do evangelho.
À noite preguei em Burnup-Field, entre Tanfield e Spen, sobre: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). Reuni-me com a florescente Sociedade e fui muito reanimado uma segunda vez. Voltei a Newcastle e insisti fortemente com eles pela oração constante. Vejo claramente que é: orar, ou perecer.
Agora, de fato, desce a chuva, vêm as torrentes, e sopram os ventos e batem contra a casa (cf. Mt 7.25). Recebi uma carta de C. G., de D., meio abalado pela ousadia dos meus acusadores. Deus reina sobre os gentios: esse é o meu consolo; e por baixo de mim estão os braços eternos (cf. Dt 33.27).
Ao meio-dia parti para Biddicks. A neve tornara as estradas quase intransitáveis para os cavalos. Segui N. Salthouse a pé. Detive-me no meu velho tema: “São estes os que vêm da grande tribulação.” Por mais de uma hora todos estavam em lágrimas. Outra hora abençoada passamos de igual modo com a Sociedade.
Discorri sobre aquela palavra: “Um soldado lhe traspassou o lado” (Jo 19.34). Olhamos para ele, e teríamos continuado olhando e chorando até que aparecesse nos ares.
Caminhei até Sunderland e voltei. A tempestade de granizo e neve era tão violenta que eu estava a ponto de me deitar na estrada, incapaz de andar ou de me manter em pé.
Trouxe de volta uma ovelha desgarrada, que perdera o perdão por não perdoar. Recebi consolo e chorei de alegria com a prosperidade dos nossos filhos de Bristol, de que soube por várias cartas. Atravessei os campos até Wickham: a neve estava, na maioria dos lugares, acima dos joelhos. Depois de pregar, parti para Horsley, no tempo mais rigoroso. Cavalguei e caminhei, até não poder fazer nem uma coisa nem outra; ainda assim, cheguei a Horsley à noite; mas minha mandíbula estava toda enrijecida e paralisada pela neve. Deitei-me e recobrei um pouco de força para pregar.
Voltei a duras penas a Newcastle por volta da uma; muitas vezes com neve até a cintura.
Cavalguei, ou melhor, caminhei, até Plessy, e preguei: “Está consumado!” (Jo 19.30).
Voltei a Newcastle, e de lá a Wickham, onde falei daquele grande e terrível dia do Senhor. Muitos tremeram, e alguns se alegraram na esperança da glória de Deus. De lá cavalguei a Spen, tão debilitado que não conseguia andar; ainda assim fui obrigado a fazê-lo no último quilômetro, quase morto de frio nos caminhos praticamente intransitáveis. Fui conduzido, não sei como, pelos irmãos, com neve até os joelhos, os cavalos afundando muitas vezes até os ombros.
Surpreendi-me com o grande número de pessoas reunidas numa estação como aquela. Não vieram em vão; pois o Senhor consolou abundantemente os corações delas, e o meu também. Foram todos reunidos por John Brown, um homem simples que o Senhor levantou maravilhosamente para a sua obra.
Os filhos do diabo causaram grande perturbação durante a pregação. Fiquei de pé na escada e acolhi a Sociedade um a um; enquanto a turba estava pronta a despedaçá-los. Satanás, dir-se-ia, previu a bênção que teríamos juntos.
Em Biddicks tivemos estreita comunhão com ele em seus sofrimentos, enquanto clamava: “Não vos comove isto, a todos vós que passais pelo caminho?” (Lm 1.12).
Voltei, orando, a Newcastle, mas quase perecendo de frio. Na palavra, o Espírito foi derramado sobre nós do alto, e derrubou tudo à frente como uma torrente impetuosa.
Toda a congregação foi de novo abatida pela oração. Expulsei da Sociedade todos os que andavam desordenadamente; os quais, por consequência, estão prontos a jurar o que quer que ao Sr. Broughton apraza. Orei sem cessar a maior parte deste dia.
O Sr. Erskine me visitou. Preguei: “No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo” (Jo 16.33). Tivemos paz nele, a despeito da perturbação dos filhos de Satanás.
Preguei junto a uma das nossas crianças que morria no Senhor, com lágrimas e fortes desejos de ir em seu lugar.
O Sr. Erskine me deixou, mas não antes de ter muito fortalecido as minhas mãos no Senhor. À noite, as ondas ergueram tanto a voz que só pudemos cantar por meia hora. Os mais violentos dos desordeiros tinham sido dois da nossa própria Sociedade.
Uma hora antes do horário da pregação, a turba estava tão violenta que pensamos não poder haver pregação naquela noite. Chegaram perto de arrombar a porta. Comecei a falar de improviso, sem texto; e Deus me deu palavras fortes, que aquietaram a fúria do povo. Nem houve o menor sopro de oposição durante a Sociedade.
Meu tema na vigília foi: “Cristo também sofreu, deixando-vos exemplo” (1Pe 2.21). Perto do fim, o poder do Senhor nos dissolveu a todos em lágrimas.
Preguei sobre: “Desperta, desperta, veste-te de força, ó braço do Senhor” (Is 51.9); e ele nos respondeu maravilhosamente naquela mesma hora. Fui obrigado a caminhar até Burnup-Field com a perna torcida, através do frio extremo. Expus Isaías 35. À noite, nossos inimigos em Newcastle foram contidos, enquanto eu lhes rogava que se arrependessem e cressem no evangelho.
Eu pedira que à meia-noite pudesse me levantar e louvá-lo, por causa dos seus justos juízos; e fui despertado exatamente à meia-noite: orei alguns minutos e voltei a dormir em paz. Levantei-me de novo às quatro; orei fervorosamente, e quase me alegrei: sem luz nem fogo, e ainda assim não senti frio. Às cinco preguei sobre: “Tudo quanto em oração pedirdes, crede que recebestes, e será assim convosco” (Mc 11.24). Fomos levados a fervorosa oração por nós mesmos e por toda a nação.
Visitei Walter Brass, num leito de doença. Ele fora outrora da Sociedade, mas ultimamente se tornara zombador e perturbador da palavra. O Senhor pôs agora diante dele os seus malfeitos, e ele clama veementemente por misericórdia. Outro desordeiro, J. Wilson, foi humilhado de igual modo; em resposta imediata à nossa oração da noite anterior.
Conversei com uma pessoa sincera, que fora desviada do caminho pela vã jactância de alguns cuja vida contradizia a profissão de fé.
À noite encontramos um poderoso espírito de oração entre as bandas, e clamamos fervorosamente pelo apagamento de todos os nossos pecados contra o amor.
Levantei-me de novo à meia-noite e orei com mais vida do que antes. John Nelson chegou.
Admiti vinte membros novos. Despedi-me com Atos 20. Foi um tempo solene de oração e amor.
Parti, com N. Salthouse, na geada rigorosa; e no domingo, 16 de dezembro, cheguei a salvo a Epworth.
Escrevi assim a um amigo:
“Minha maior aflição é ter, inocentemente, trazido tal fardo sobre meus amigos, em especial sobre um; nem consigo conceber que esta aflição possa ser inteiramente removida aqui. A junta talvez se recomponha, mas a claudicação continuará até que eu chegue à terra onde todas as coisas são esquecidas.
“Deus, que conheceu a minha alma na adversidade, faz que eu também a conheça. Que ele me ama, disso não posso duvidar mais do que da sua própria existência. Ele igualmente me deu amar os outros com amor puro; em especial certa pessoa, de quem nunca espero nem desejo qualquer outro bem além do que espero de minha mãe, ou de outros espíritos dos justos aperfeiçoados. E, como quer que a Providência disponha, tenciono nunca mais ver essa pessoa (se, sem pecado, eu puder abster-me) até que estejamos juntos diante do tribunal.”
[N. do T.: ao que parece, o hino a seguir foi escrito nesta ocasião. Tradução de sentido, em verso livre, sem preservar métrica ou rima; original e tradução em blocos alternados, conforme a norma do projeto.]
Ó meu Rei galileu,
posso eu gloriar-me nesta vergonha?
posso eu carregar esta desonra
como um sofrimento por teu Nome?
Senhor, tu sabes, e só tu,
todos os nossos corações te são conhecidos.
(Ó meu Rei galileu, / posso eu gloriar-me nesta vergonha? / Posso eu carregar esta desonra / como sofrimento por teu Nome? / Senhor, só tu conheces / tudo o que vai em nossos corações.)
Nu, e sem disfarce,
à tua vista está o meu espírito;
não lavei eu as minhas mãos,
em inocência, do vício exterior,
livre da grande transgressão?
Senhor, ouso apelar a ti.
(Nu e sem disfarce, / meu espírito se põe à tua vista; / não lavei eu as minhas mãos na inocência, / livre do vício exterior / e da grande transgressão? / Senhor, a ti ouso apelar.)
Por dentro, como os outros homens,
inteiramente nascido em pecado eu sou;
só tu me refreaste sempre,
pela honra do teu Nome;
guardado por tua graça onipotente,
a ti rendo todo o louvor.
(Por dentro, como todo homem, / nasci inteiramente no pecado; / só tu me contiveste sempre, / pela honra do teu Nome; / guardado pela tua graça onipotente, / a ti rendo todo o louvor.)
Nada tenho de que me gabar,
só o pecado me pertence:
escárnio da hoste filisteia,
assunto das canções do bêbado,
alvo do zelo fariseu,
de toda a fúria “virtuosa” do inferno.
(Nada tenho de que me orgulhar; / só o pecado é meu: / sou escárnio da hoste filisteia, / tema das canções do bêbado, / alvo do zelo fariseu / e de toda a fúria “virtuosa” do inferno.)
Mestre, não é por ti?
Se sofro por tua causa,
abençoa a sagrada infâmia,
torna-me o escândalo da tua cruz;
dá-me agora a resposta de paz,
deixa-me agora receber o teu amor.
(Mestre, não é por ti? / Se sofro por tua causa, / abençoa esta sagrada infâmia, / faze de mim o escândalo da tua cruz; / dá-me agora a resposta de paz, / deixa-me agora receber o teu amor.)
Se nunca me tivesses enviado
a derrubar as mais fortes fortalezas de Satanás,
desafogaria ele assim a sua malícia,
despertaria todos os seus poderes lá embaixo,
me faria negro como seus filhos?
Abalaria ele o seu próprio reino?
(Se nunca me tivesses enviado / a derrubar os redutos mais fortes de Satanás, / desafogaria ele assim a sua malícia, / despertaria todos os seus poderes do abismo, / me faria negro como seus filhos? / Abalaria ele o próprio reino?)
Senhor, o meu tempo está na tua mão:
julgado no dia injusto dos homens,
deixa-me estar de pé no teu juízo;
quando os ímpios se desfizerem,
vindica ali o teu servo,
absolve-me no último grande tribunal.
(Senhor, o meu tempo está na tua mão: / julgado no dia injusto dos homens, / deixa-me firme no teu juízo; / quando os ímpios se desfizerem, / vindica ali o teu servo / e me absolve no último grande tribunal.)
Expus Apocalipse 7. Todos estavam em lágrimas; todos foram consolados.
Cavalguei até Sikehouse; e de lá à casa do nosso irmão Pindar; na quinta-feira, 20 de dezembro, a Birstal.
Despedi-me dos nossos irmãos em Leeds, encomendando-os a Deus e à palavra da sua graça. Houve um pranto geral, como se eu me despedisse pela última vez. A bênção do Senhor ainda nos seguiu, tanto em Morley como em Birstal.
Preguei em Sheffield e Nottingham, no caminho; e nesta noite fui reanimado pelos nossos irmãos Hogg e Butts, que me encontraram em St. Albans.
Continuamos em oração das três às quatro; então montamos a cavalo, com alegre confiança e desejo de ver Londres. Às sete entramos no Foundery. Li as orações na capela e preguei a partir de Isaías 51, com grande desafogo. Recebi muita força e consolo espiritual na Ceia.
Meu irmão leu as orações; eu preguei sobre: “Ele salvará o seu povo dos pecados deles” (Mt 1.21). À noite, sobre: “Como são formosos, sobre os montes, os pés do que anuncia as boas-novas!” (Is 52.7). Deus deu testemunho à sua palavra e dotou a minha alma de mais força e ousadia do que nunca.
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## Parte IX. De 4 de janeiro de 1745 a 31 de dezembro de 1746
Todos se derreteram em lágrimas de graça na Ceia. Ouvi falar de um que recentemente recebera o selo do perdão sob a minha pregação, num momento em que eu estava mais insensível do que o habitual. Expus João 1 em Short’s Gardens, e o poder do Senhor esteve presente: nosso velho amigo Keen foi feito em pedaços por ele.
Visitei uma irmã que caminha pelo vale da sombra da morte e não teme mal algum. Provei o doce consolo e a bem-aventurança das lágrimas. Nestes últimos dias encontrei mais consolo, tanto na pregação como na oração, do que em muitos anos. Não é o nosso Deus um socorro bem presente na hora da angústia?
Em grande aflição junto ao altar, lancei os olhos sobre aquela palavra: “Foi-me bom ter passado pela aflição” (Sl 119.71). Meu coração se encheu de oração. Por fim irrompi em lágrimas e fortes clamores, e todos comigo. Foi, de fato, um tempo glorioso de visitação.
Orei com nosso irmão Grey, pronto para o Esposo, e regozijando-se na esperança de uma rápida partida. Preguei na capela sobre: “Desperta, desperta, veste-te de força, ó braço do Senhor” (Is 51.9), e encontrei, tanto na palavra como na oração e no altar, a dupla bênção que agora nos acompanha continuamente.
O Sr. Erskine veio a mim em Short’s Gardens com uma mensagem que o bispo de Londres enviara a Lady H. [N. do T.: provavelmente Lady Huntingdon]: “que, se eu fosse a ele e declarasse minha inocência quanto aos escândalos, tomando a Ceia sobre isso, ele não desejaria mais nenhuma satisfação, mas ele mesmo me inocentaria.” Consenti imediatamente e enviei ao meu irmão o aviso disso.
Fiz minha última visita ao nosso pobre e instável irmão Cowper; que agora está tão “santo em Cristo” a ponto de dizer: “Renuncio à doutrina que o seu irmão prega, e a piso sob os pés, como doutrina de demônios.”
Discorri sobre: “São estes os que vêm da grande tribulação” (Ap 7.14). Tanto pela palavra como na Ceia, o Senhor respondeu por si mesmo.
Sepultei uma irmã, que partiu no Senhor. Chamei a multidão no Foundery: “Vinde, porque tudo já está preparado” (Lc 14.17). Reuni-me com as bandas; e foi uma assembleia solene e cheia de pranto. Não conseguia falar, cantar nem orar por nada, senão pela morte. Misturamos nossas lágrimas e nossas almas naquele amor que a morte não pode violar.
Em nossa vigília descrevi a nova Jerusalém (Ap 21); e grande foi o nosso regozijo diante do Senhor.
Na Ceia e entre as bandas fui capacitado a derramar minha alma em oração, e levei a todos comigo ao trono da graça.
Recebi a bênção que nunca falha na Ceia. Nossa oração, depois dela, sempre abre o céu.
Fui fortalecido por um quacre zeloso, que me informou ter recebido o Espírito de adoção ao me ouvir um ano atrás, e ter andado na luz desde então até agora.
Ao perguntar, na capela: “Não há bálsamo em Gileade?” (Jr 8.22), descobri, com muitos outros, que havia; e um bom médico também, cujo poder estava então mesmo presente para curar.
Tivemos o espírito de oração na Ceia, como de costume. A palavra, à noite, teve grande efeito. Meu tema foi o filho pródigo que retorna.
Ministrei a Ceia a uma pessoa em Saffron Hill; e tive fé de que o Senhor estava operando. Ao descer, pediram-me que visse outra, moribunda na sala de baixo. Ao entrar, ouvi-a fazer confissão da fé que recebia naquele instante, como dissera aos que a cercavam que faria; e que não podia morrer em paz enquanto não me visse. Estava cheia de alegria triunfante e me disse: “Vou para o paraíso; não demorará muito até que me sigas.” Minha alma se encheu do consolo dela.
Na capela expus: “Assim diz o Alto e o Sublime, que habita a eternidade” (Is 57.15), e ele nos cobriu com a cobertura do seu Espírito.
Nossos corações se inclinaram diante do Senhor, tanto na palavra como na Ceia.
Almocei na casa do nosso irmão Arvin, logo depois que a esposa dele levantara voo para o paraíso.
Expus a passagem da mulher cananeia; e fui arrebatado, após a Ceia, em forte intercessão pelos meus amigos que partiram. Um deles estava ali, sem que eu soubesse, mas saiu antes da minha oração.
Deus me deu palavras fortes na capela, contra a ilusão antinomista.
Falei com uma da Sociedade, ex-papista, que é muito assediada pelos seus antigos amigos, especialmente seu confessor, que fulmina anátemas contra ela; e ameaça queimar-me, se me apanhasse em Roma. Enviei meus cumprimentos ao cavalheiro e me ofereci para conversar com ele na presença dela, em meu próprio alojamento ou onde quer que lhe agradasse; mas não recebi resposta.
Expus Isaías 35. Muitos dos nossos irmãos do Tabernáculo estavam presentes. Nosso Senhor não nos despediu vazios, mas aplicou a palavra da sua graça aos nossos corações.
Parti para Bristol com T. Butts. Pernoitamos na segunda-feira em Newbury; na terça-feira, 26 de março, chegamos à casa da Sra. Gotley, em Avon, e no dia seguinte a Bristol.
Meu tema foi: “O teu sol nunca mais se porá” (Is 60.20). O Senhor santificou nossa reunião; e fomos consolados por nossa fé mútua.
Às cinco preguei na sala; às oito em Kingswood, sobre a nova Jerusalém. Ministrei a Ceia a toda a Sociedade; e o Deus, consolação de Israel, nos visitou. Toda a congregação foi movida a clamar por ele, seja por tristeza, seja por alegria.
Cavalguei até Conham. O Sr. Graves leu as orações na capela do Sr. Wane. Eu lhes disse: “Levantai as mãos que pendem e os joelhos que vacilam” (cf. Hb 12.12). A palavra não voltou vazia. Caminhei de volta aos mineiros e exortei-os a adornar o evangelho; depois a Baptist Mills, onde os filhos do diabo fugiram diante da espada do Espírito, que é a palavra de Deus.
Em nosso ágape em Bristol, falei dos frutos da fé, com fortes palavras da Escritura. Sarah Goslin, a mãe dos nossos antinomistas, foi obrigada a fugir para salvar a vida. Foi uma abençoada oportunidade. O Senhor confirmou poderosamente a sua palavra; e assim ministrou as suas consolações.
Preguei em Wrexal, e encontrei o pão que lançara sobre as águas, depois de muitos dias. Vários dos meus antigos ouvintes de Bradford estavam presentes. Um agarrou-se a mim e exclamou: “Bendito seja o dia em que vi o seu rosto. Foi este o homem que, sob Deus, primeiro me abriu os olhos.” Outra (a Sra. Taylor) declarou então ter recebido o perdão ao me ouvir cinco anos atrás. Preguei Cristo crucificado; e nos alegramos como nos dias passados. Voltei, com alegria e consolo, a Bath, e os exortei: “Retende o que tendes, até que eu venha” (cf. Ap 2.25).
Cavalguei até Coleford, um povoado de mineiros, descoberto recentemente; e preguei no cemitério, sobre uma lápide. A igreja não teria comportado nem um quarto da congregação. Apontei-lhes “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). O pobre povo me seguiu até a casa do Sr. Flower, onde lutamos duas ou três horas em oração, e não o deixaríamos ir, sem que nos abençoasse.
Li as orações e preguei na igreja, lotada por dentro e por fora. Muitos me seguiram até Chilcompton. Ali chamei, a mais de mil almas ofegantes: “Ó vós todos os que tendes sede, vinde às águas” (Is 55.1). Recomecei repetidas vezes, depois de já ter, como pensava, concluído.
Voltei a Bristol; fui informado de que um, recentemente da nossa Sociedade, declarara que “juraria ter visto, com os próprios olhos, meu irmão administrar a extrema-unção a uma mulher, dar-lhe uma hóstia e dizer que era o seu passaporte para o céu”.
Encontrei a grande bênção depois da Ceia, ordenança que Deus sempre engrandece e honra com a sua presença especial. Orei junto à nossa irmã Rogers, já em voo para o paraíso. Foi um tempo solene na Sociedade, enquanto eu falava da morte e da glória que há de segui-la.
Cavalguei até a cidade e preguei no Foundery, com o coração dilatado: “Sol, detém-te sobre Gibeão” (Js 10.12).
Na capela, toda a congregação olhou para Aquele que traspassaram, e lamentou.
Com a palavra, o Espírito Daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos veio poderosamente sobre nós. Por mais de meia hora ele clamou em nossos corações. Na Ceia, também, da qual toda a Sociedade participou, todos sentimos, mais ou menos, o poder da sua ressurreição. Assim, de novo, em nosso ágape, nos alegramos juntos e sentimos que o Senhor havia ressuscitado de fato.
Batizei uma mulher entre os Líderes, que recebeu a graça batismal justificadora.
Guardamos a oitava, comungando todos os dias; e o Senhor nunca nos despediu sem uma bênção.
O poder do Altíssimo nos cobriu com a sua sombra, quando nos reunimos à noite para lamentar nossos pecados contra a luz e orar por um novo perdão. A maior parte desta semana passei confirmando os vacilantes; e Deus me abençoou no que fiz.
Enquanto eu anunciava: “Este é aquele que veio por meio de água e sangue” (1Jo 5.6), o Espírito deu forte testemunho a muitos corações. Uma pessoa testemunhou receber então a reconciliação. Na Ceia oramos com fé, para que os pecados dos filhos rebeldes fossem retidos, isto é, que, enquanto durasse a culpa e o poder do pecado, durasse também a miséria, e não lhes fosse permitido embalar-se numa felicidade imaginária. [N. do T.: o mesmo pensamento Charles Wesley exprimiu em versos, traduzidos abaixo em verso livre.]
Ah, quebrasses tu o laço fatal
da falsa segurança carnal,
e os fizesses sentir a ira que carregam,
e gemer por sua falta de ti,
despojados da sua falsa e perniciosa paz,
desnudados da sua justiça imaginária.
Enquanto durar a culpa do pecado,
detém-nos na sua miséria;
segura firme seus espíritos libertinos,
prende-os com a cadeia da sua própria natureza.
E jamais deixes os errantes descansarem,
até que estejam de novo abrigados no seio de Jesus.
O Senhor esteve conosco no grande poder do seu amor.
A nuvem permaneceu sobre nós quando reunidos em banda; e eles receberam a minha solene advertência dos juízos vindouros.
Ontem ministrei a Ceia a dois prisioneiros da esperança; e hoje duas vezes, a dois crentes moribundos, que jamais poderão morrer.
Recobrei um da garra do leão antinomista. A semana toda fui pisando-o sob os pés, pelo poder Daquele que esmaga a serpente.
Expus Mateus 25, aquele mangual do antinomismo.
Preguei a partir de 1 Pedro 2.12: “Mantendo exemplar o vosso procedimento entre os gentios, para que, naquilo em que falam contra vós outros como de malfeitores, observando-vos em vossas boas obras, glorifiquem a Deus no dia da visitação.” Adverti-os daquele dia, já começado, e daquela provação de fogo que se aproxima.
No Foundery expus Ezequiel 9. Seguiu-se um grande clamor. Certamente havia muitos presentes que têm o sinal na testa. O Senhor aumente o número deles!
O dia de jejum. Expus Sofonias 1.2, depois Joel 2, e por fim aquelas palavras terríveis de Deus a Ezequiel: “Ainda que estivessem no meio dela estes três homens, Noé, Daniel e Jó, tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, não livrariam nem filho nem filha; tão somente eles, pela sua justiça, livrariam a própria vida” (Ez 14.14,20).
Comecei a examinar as classes com meu irmão, e me alegrei com o êxito de nossos trabalhos passados. Em meio a toda a fúria e devastação de Satanás no Tabernáculo, a praga não chegou perto da nossa morada.
Visitei, a seu próprio pedido, uma senhora católica romana, em Islington, que recusara o padre e não queria receber senão meu irmão ou a mim. Ela prontamente abriu mão dos próprios méritos (que reconhecia serem inferno) e dos méritos de todos os santos, em troca dos de Jesus Cristo, sua única esperança, Mediador e Salvador. Orei com fé, e a deixei não longe do reino dos céus.
Guardamos uma vigília. Levei ao púlpito o querido Howel Harris; e cantamos juntos, e gritamos de alegria, até de manhã.
Batizei três adultos, que todos confessaram a ordenança como selo da aliança do perdão.
Fui muito reanimado pela visão da mãe de M. Davis, partindo em paz. Por setenta anos viveu, se é que se pode chamar aquilo de vida, estranha à aliança da promessa. Nestes dois últimos anos, desde que a fé veio pelo ouvir, nunca teve dúvida ou temor; mas andou com Cristo e adornou o evangelho. Agora anseia por ir vê-lo face a face.
Ao deitar-me na casa de M. Witham, não conseguia descansar, mas fui compelido a ir ao outro extremo da cidade, em Holborn. Ali descobri a razão: um pobre homem, do interior, veio ao meu encontro, que fora convertido ao nos ouvir ocasionalmente, mas, por negligenciar os meios da graça, caíra do seu primeiro amor e na pobreza. Exortei-o a voltar a Deus, dei-lhe algo e nos despedimos. No dia seguinte, ele passou o tempo me procurando por toda parte, para devolver um guinéu que eu lhe dera por engano.
Expus a fuga de Elias e seu ardente desejo de morrer; fomos fortalecidos pela fraqueza dele. Meu irmão Taylor leu as orações e auxiliou na verdadeiramente abençoada Ceia. À noite, também, tivemos o brado de um Rei no meio de nós, como no princípio.
Preguei em Brentford, a caminho de Bristol. No instante em que nossa Sociedade se reuniu, Jesus apareceu no meio; e ficamos deitados uma hora feliz, chorando e nos alegrando, a seus pés.
A cinco quilômetros de Salisbury, uma irmã “quietista” saiu ao meu encontro, para experimentar sua habilidade sobre mim. Mas, ai! foi trabalho perdido! Eu conhecia bem a pecadora feliz, e todos os seus truques.
Encontrei minha irmã como uma rocha no meio das ondas. A Sociedade do Sr. Hall havia toda deixado a Igreja, e a escarnecia e perseguia por ela não a ter deixado. Muitos insistiram para que eu pregasse; mas respondi: “Meu coração não estava livre para isso.” Às quatro parti com minha irmã; e cheguei a Bristol na tarde do dia seguinte.
Enviei a um amigo um relato dos nossos assuntos aqui: “A obra de Deus prossegue com êxito. Grande é a constância dos que creem. Nem o erro nem o pecado consegue abalá-los. Vários, desde que deixei este lugar, deram um bom testemunho na morte, em especial uma menina de treze anos e um velho pecador de sessenta. Nós o havíamos expulsado da Sociedade por embriaguez; e ele continuou pecando, arrependendo-se e pecando de novo, até que Deus pôs sobre ele a sua mão disciplinadora. Depois de grande agonia, encontrou a redenção no sangue de Jesus. Ficou algum tempo alegrando-se e testemunhando a graça de Cristo ao maior dos pecadores. Quando alguém disse: ‘Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor’, ele replicou, interrompendo-o: ‘Sim, diz o Espírito em mim.’ A outro: ‘Estou justamente entrando no porto sobre um pedaço quebrado do navio.’
“Acabo de voltar de ministrar a Ceia a uma jovem, que se alegra na morte, com alegria indizível. Na véspera da minha primeira visita, o Senhor se revelou nela. Sua alma parecia toda desejo e amor, ‘pronta a partir neste instante’, como muitas vezes testemunhou, ainda que disposta a aguardar o tempo do Senhor, ou mesmo a se recuperar, se fosse a vontade dele.
“Observei que todo o nosso povo, sem exceção, por mais obscuros ou fracos que fossem antes, quando chegam a morrer, recuperam a confiança. Quisera Deus que toda alma, de toda denominação cristã, pudesse dar o mesmo testemunho da vida eterna neles, quando voltam o rosto para a parede!”
foi um dia muito digno de ser lembrado. Preguei aos nossos mineiros sobre Jeremias 31.1; e recebi forte fé pela desolada Igreja da Inglaterra.
Na Ceia, o espírito de graça e de súplica desceu, e oramos a Deus para que alcançasse todos os nossos irmãos ausentes. Os desviados nunca esquecemos em ocasiões tão cheias de graça. Quase quatro horas gastamos nisso; e nem uma alma, estou persuadido, achou o tempo longo.
Tive tempo apenas de chegar à capela de Conham às duas. A partir daquelas palavras, “quero que contemplem a minha glória” (Jo 17.24), enquanto eu falava da vinda do nosso Senhor, fomos alarmados pelo mais forte trovão que já ouvi. Pensei que houvesse fendido a casa. A maior parte da congregação gritou, como se o dia do Senhor tivesse chegado. Um pensamento cravou-se no meu coração, veloz como o relâmpago: “E se for o dia do juízo?” Fiquei imediatamente cheio de fé, mais forte que a morte, e me alegrei na esperança da glória de Deus. O mesmo espírito repousou sobre todos os fiéis, enquanto eu irrompia em canto:
Assim virá o Senhor, o Salvador,
e relâmpagos brincarão em torno do seu carro;
ó relâmpagos, voai para lhe abrir espaço,
ó gloriosas tempestades, preparai o seu caminho!
Prossegui por meia hora descrevendo aquela cena final. O coração de cada pessoa presente, creio, ou se alegrava ou tremia. Ouviu-se um clamor misto de horror e de triunfo, até que os despedi com a bênção.
Depois soubemos que uma casa, de um lado da nossa capela, ficou quase demolida, teto e paredes, pelo estampido do trovão; o chumbo das janelas derreteu, e seis pessoas foram lançadas por terra. Do outro lado de nós, uma forca foi partida em mil pedaços.
Preguei o sermão fúnebre da nossa irmã Rogers, cuja vida e morte abençoadas foram de uma só peça.
Montei a cavalo para Londres. Na primeira noite preguei em Cirencester; nas duas seguintes em Evesham, onde encontrei a Sociedade aumentada tanto em graça como em número. Fui recebido em Londres, no sábado à noite, com a alegre notícia do livramento de T. Maxfield.
Preguei sobre Lucas 22.34 [N. do T.: no original, referência ao capítulo 21.34, tema recorrente de Wesley sobre a vigilância]; e muitos, espero, foram estimulados a vigiar e orar.
O Senhor selou a sua palavra, enquanto eu explicava: “Quem és tu, ó grande monte? Diante de Zorobabel serás uma planície” (Zc 4.7). Alegramo-nos na firme esperança das preciosas promessas santificadoras.
O Senhor consolou nossos corações pelas cartas, e confirmou nossa fé de que a obra que ele agora reaviva jamais será destruída.
Em nossa oração depois da Ceia, os céus destilaram do alto; sim, os firmamentos pareciam derramar justiça (cf. Is 45.8).
Ministrei a Ceia à nossa irmã H., que se aproxima da sepultura como um feixe maduro de trigo. Foi uma pobre alma trêmula e atribulada; mas, à aproximação da morte, todos os seus temores se desvaneceram; e ela jaz ofegante pela plenitude da vida eterna.
Exortei fortemente a Sociedade à constância na fé e ao fervor na oração. Seus corações se derreteram muito, se é que se pode julgar pelas lágrimas.
Despedi-me do Foundery com aquelas palavras, cujo cumprimento eu ardentemente desejava: “Os resgatados do Senhor voltarão e virão a Sião com júbilo” (Is 51.11).
Uni-me a meu irmão para examinar a Sociedade em Bristol. O Sr. Gwynne, de Garth, nos acompanhou, e se alegrou grandemente com a graça concedida a eles.
Começamos nossa Conferência com o Sr. Hodges, quatro dos nossos próprios Auxiliares, Herbert Jenkins e o Sr. Gwynne. Continuamo-la por cinco dias, e nos separamos em grande harmonia e amor.
Na vigília, nossas almas se saciaram como de tutano e gordura, enquanto nossa boca louvava a Deus com lábios jubilosos (cf. Sl 63.5).
Enquanto eu falava a partir daquelas palavras, “o fim de todas as coisas está próximo” (1Pe 4.7), o Senhor as aplicou aos nossos corações, e sentimos o peso solene das coisas eternas.
Ele passou de novo por nós entre as bandas, e nos mostrou a sua bondade. Por quase duas horas provamos os poderes do mundo vindouro, em sólida e séria alegria.
Preguei em Shepton Mallet, onde uma grande porta se abre, e há muitos adversários. Um dos campeões bêbados do diabo tentou nos perturbar; mas a minha voz prevaleceu.
Pediram-me que me reunisse com a pequena Sociedade num lugar inusitado, para frustrar a turba. Caminhei adiante em direção à cidade, depois voltei pelo campo, para despistar o povo, e, ao subir um terreno elevado, torci ou quebrei a perna, não sei ao certo qual; mas caí quando tentei firmar o pé no chão. Os irmãos me carregaram até uma cabana, que logo se encheu do pobre povo. Espalhou-se depressa pela cidade que eu quebrara a perna; alguns diziam o pescoço, e que era um juízo sobre mim. O principal homem do lugar, o Sr. P., enviou-me uma mensagem gentil e sua cadeira de banho para me levar à sua casa. Agradeci-lhe, mas recusei a oferta, por causa da minha dor, que me deixava impróprio para qualquer companhia, exceto a dos meus melhores amigos, os pobres. Com estes continuei orando, cantando e me alegrando por duas horas. O amor deles me encantou de todo. Os mais felizes eram os que conseguiam chegar perto para fazer algo por mim. Quando minhas forças se esgotaram, deitaram-me em sua cama, a melhor que tinham; mas não consegui dormir de dor.
Reuni-me com a Sociedade às seis e recebi vinte membros novos. Por volta das oito, o cirurgião de Oakhill chegou, e constatou, ao curar minha perna, que não estava quebrada, mas violentamente torcida. Como muitos tinham vindo de longe para ouvir a palavra, pedi aos irmãos que me carregassem para fora numa cadeira, que puseram sobre uma mesa, e preguei de joelhos. Lembrei-me do “melhor púlpito” de Halyburton, que só ele me parecia preferível a este. Por quase uma hora esqueci-me da minha lesão; e marquei para pregar de novo em Oakhill.
Os irmãos me levaram para lá ao meio-dia, na cadeira do Sr. P. Minha congregação era, em sua maioria, de dissidentes, não sábios nem ricos, mas pobres e simples, e desejosos de aprender os primeiros elementos da doutrina de Cristo. Ficaram ouvindo sob a chuva forte, enquanto eu lhes mostrava “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). A palavra não ficou presa, mas correu velozmente por seus corações. Por uma hora preguei de joelhos, como antes, e não senti dor ou cansaço até acabar; então minha carne se encolheu diante dos vinte e tantos quilômetros até Bristol. Puseram-me no cavalo, e à noite completei a viagem, mas em dor tão extrema como jamais conheci, com todos os meus ossos quebrados e enfermidades.
Preguei a partir de: “Os que esperam no Senhor renovam as suas forças” (Is 40.31); e então, confiando na promessa, fui na minha cadeira e me hospedei na casa do Sr. Wigginton, à beira d’água.
Entre quatro e cinco da manhã seguinte, fui levado à embarcação do capitão Philips, cheia principalmente do nosso próprio povo. Passamos o dia cantando e lendo; e às seis da manhã de quinta-feira, 15 de agosto, desembarcamos em Cardiff.
À noite, quase todos os fidalgos da cidade estavam na sala. Esforcei-me por perturbar os despreocupados, tanto quanto por consolar os corações atribulados.
Nosso maior perseguidor emprestou sua cadeira para me levar a Wenvo. De fato, o lugar inteiro no momento parece voltado para nós. Mas não contamos com essa paz como duradoura. Preguei em Wenvo, a partir de Hebreus 12.1, a um auditório em prantos. Meus irmãos Thomas e Hodges ministraram a Ceia.
A sala de Cardiff estava apinhada de gente de toda condição. Convidei-os a virem sedentos às águas. O mesmo espírito esteve conosco, como nos meses passados. Nosso ágape foi um banquete de verdade!
A pedido dos prisioneiros, eu prometera pregar na cadeia; mas o Sr. Michael Richards chegou primeiro, e ameaçou e proibiu o carcereiro. Se essas almas perecerem por falta de conhecimento, o Sr. Michael Richards, não eu, terá de responder por isso naquele dia.
Fui levado a Fonmon, com o Sr. Hodges e a Sra. Jones. Mais uma vez reuni-me com a igreja em sua casa. Fomos todos derretidos pelo fogo da palavra.
Nesta e em todas as noites desci à capela sobre minhas muletas, e preguei à família, com cinquenta ceifeiros e outros que vinham de longe.
Escrevi assim ao meu irmão:
“Mais uma vez ouve a nota do meu corvo, e despreza-a. Aguardo com toda certeza, a menos que um arrependimento geral o impeça, o dia da visitação. Se minhas apreensões têm algo de divino, nunca presumo dizê-lo; nem me preocupo com o crédito da minha profecia, ou conjectura; mas nenhum de vós se alegrará mais do que eu, se eu provar ser o que chamareis de falso profeta. Pois, se eu provar ser verdadeiro, espero o destino de Balaão. Em grande fadiga de carne e espírito, concluo.
“Teu mantis kakon [N. do T.: em grego, ‘profeta de males’, ‘agourento’].”
O criado do Sr. Gwynne veio me mostrar o caminho para Garth; mas voltou sem mim; minha claudicação persistindo, ou melhor, aumentando, pelo uso do “óleo britânico”, que me inflamou e inchou muito o pé. Provavelmente era da espécie falsificada.
Admiti vários na Sociedade. Continuei pregando duas vezes por dia o resto do mês.
Arrisquei-me a ir a cavalo à igreja, onde o ministro nos convidou a todos à Ceia no domingo seguinte; e depois fez proclamação no cemitério, de que nenhum estranho seria admitido. Bem poderia ter me excetuado pelo nome. Mas, embora eu não pudesse ser admitido, um bêbado notório o foi, como a Sra. Jones e outras testemunhas oculares me contaram no domingo seguinte. Ele causou muita perturbação durante o ofício, e estava de fato bêbado quando o ministro lhe deu a Ceia.
O Sr. Gwynne e o Sr. Philips, de Maesmynis, vieram nos fazer uma visita cristã. Tivemos doce comunhão até o dia 6; quando partiram sem mim, a quem tinham vindo buscar.
Na hora da intercessão, encontramos um poder extraordinário de Deus sobre nós, e estreita comunhão com nossos irmãos ausentes. Depois descobri, por cartas de Londres, que era o solene dia de jejum deles. Passamos a noite em oração. Li-lhes as minhas pesadas notícias do norte:
“O leão subiu da sua ramada, e o destruidor das nações está a caminho” (cf. Jr 4.7).
O espírito de súplica nos foi dado na Sociedade por Sua Majestade, o rei Jorge; e, em forte fé, pedimos o seu livramento de todos os inimigos e aflições.
Terminou meu delicioso confinamento de três semanas, e voltei a Cardiff.
Levantei-me, depois de uma noite sem descanso, com uma febre; mas fui forçado a voltar para a cama. Com que alegria eu teria sido tirado do mal que há de vir; mas, ai! meus sofrimentos mal começaram.
A febre me deixou, e minhas forças voltaram o bastante para que eu pudesse montar um cavalo com alguém atrás de mim. Quase assim que partimos, meu apoio e eu fomos lançados por cima da cabeça do cavalo; mas nenhum se feriu. Minha claudicação melhorou muito com três ou quatro dias de descanso.
Reuni-me com as pobres bandas dispersas; e descobri a causa da sua decadência. Um deles se embebera do espírito dos quacres e adotara toda a sua forma, que se esforçava por introduzir na Sociedade.
Preguei em Wenvo: “Para que sejais por ele achados em paz” (cf. 2Pe 3.14); depois em Fonmon, sobre aquele grande e terrível dia do Senhor. O temor dele esteve poderosamente sobre nós; mas na Sociedade o seu amor nos constrangeu e nos dominou por completo. Por duas horas choramos diante do Senhor, e lutamos por nossa Sodoma. Havemos de ouvir dessas orações noutro dia.
Tendo sido muitas vezes instado a pregar em Cowbridge, nesta manhã parti com a irmã Jones e outros. O cavalheiro que me convidara e prometera a igreja teve o cuidado de estar fora da cidade; mas deixou dito que as portas da igreja estavam abertas e que, se eu quisesse pregar ali, ninguém me proibiria. Não quis fazê-lo de modo clandestino; mas mandei chamar os presbíteros, que não ousaram negar nem conceder licença. Preguei, portanto, num grande salão, em frente ao lugar onde meu irmão fora apedrejado. Muitos compareceram, e, creio, foram tocados no coração.
Depois de uma travessia demorada e perigosa, cheguei à terra, e logo depois a Bristol. Ouvi confirmada a notícia de Edimburgo ter sido tomada pelos rebeldes. Vi tudo ao redor em profundo sono e segurança. Adverti nossos filhos com grande afeto. Nossos consolos, esperamos, aumentarão com o nosso perigo.
Chegaram notícias de que o general Cope fora aniquilado com todo o seu exército. A sala estava lotada à noite. Adverti-os, com toda a autoridade, a fugirem para os montes, a escaparem para a torre forte, que é o nome de Jesus. Parecíamos ter forte fé de que o Anticristo romano jamais prevalecerá definitivamente nestes reinos.
Meu tema em Kingswood foi: “Porque guardaste a palavra da minha perseverança, também eu te guardarei da hora da provação” (Ap 3.10); em Bristol: “Temei a Deus; honrai o rei” (1Pe 2.17).
Tendo deixado a Sociedade plenamente advertida, cavalguei até Bath, e os exortei também a irem ao encontro de Deus no caminho dos seus juízos. Ao meio-dia preguei arrependimento e fé, junto à Cruz, ao povo de Road. Bebiam cada palavra. Quando eu disse: “Tirai a maldade dos vossos atos” (Is 1.16), vários exclamaram: “Tiraremos, tiraremos!” Quando eu disse: “Não vos embriagueis mais, não jureis mais”, responderam: “Não jurarei; não me embriagarei de novo enquanto viver.” Os taverneiros e os jovens libertinos são os mais exemplares no seu arrependimento. Almocei na casa do fidalgo, que parecia pasmo, e meio convertido, com a mudança deles.
Às quatro preguei a um celeiro cheio de almas simples, famintas e que buscavam. Elas se abateram sob o martelo e se derreteram diante do fogo da palavra.
Reuni-me com eles de novo no celeiro, e chorei com os que choravam. Todos foram despertados e se apressaram a escapar para a arca, por causa do vento tempestuoso e da procela.
Preguei em Bearfield, depois de cinco anos de ausência, a muitos dos meus antigos ouvintes. Receberam a palavra com toda a disposição de espírito, e serão, não duvido, um povo que teme a Deus e pratica a justiça.
Depois de pregar em Bath, uma mulher pediu para falar comigo. Ela estivera na nossa Sociedade, e em Cristo; mas perdeu a graça pelo espírito de ofensa; deixou a comunhão e caiu, pouco a pouco, no abismo do vício e da miséria. Chamei M. Naylor para ouvir seu triste relato. Ela vivera algum tempo numa casa perversa na Avon Street; confessou que era um inferno para ela ver o nosso povo passar rumo à pregação; não sabia o que fazer, nem como escapar. Dissemos-lhe que fugisse para salvar a vida, e que não olhasse uma só vez para trás. M. Naylor a manteve consigo até de manhã; e então eu a levei conosco na carruagem para Londres, e a entreguei aos cuidados da nossa irmã Davey. Não é este um tição arrebatado… (a frase continua no capítulo seguinte)
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