Diário de Charles Wesley › Capítulo 18
Diário · Na linguagem de hoje

Capítulo 18

1754–1756 · Norwich e as últimas viagens

Quarta-feira, 17 de julho de 1754

Ontem, uma senhora enviou ao meu irmão um convite para pregar em seu grande salão, à janela, de onde ele poderia ser ouvido pelos que ficassem do lado de fora. Mas hoje um vereador, ameaçando um processo judicial, fez com que ela voltasse atrás. Caminhei até Lakenham e detive o meu irmão. O resto do dia passamos transcrevendo.

Quinta-feira, 18 de julho

Trouxeram-nos a notícia de que os cavalheiros ficaram muito descontentes com a frustração da noite anterior. Às seis da tarde, saímos. O meu texto foi: “O reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). O povo estava admiravelmente atento. Todos se comportaram com a maior decência. É evidentemente obra do Senhor!

Alguns dos mais ferozes perseguidores são hoje os nossos amigos mais firmes, e assistem constantemente à palavra. Muitos parecem tocados por ela. Ninguém, por enquanto, ousa abrir a boca contra ela.

O meu irmão retomou e confirmou o que eu disse. Por boca de duas testemunhas, toda palavra ficou estabelecida.

Sexta-feira, 19 de julho

Às quatro, o meu irmão, por conselho de Charles Perronet, partiu com ele para Bristol. Por que estranha providência foi ele trazido até aqui, senão para daqui ser enviado às Hotwells, o único meio provável de restaurar a sua saúde!

Preguei às cinco a partir de Oseias 13.9: “Ó Israel, tu te destróis a ti mesmo; mas em mim está a tua ajuda.” A sua paciência com a verdade ainda continua, ou até aumenta. Temos perto de mil pessoas todas as manhãs. Um homem, depois que concluí, disse uma palavra grosseira, que atraiu sobre ele a indignação geral.

À noite, tive multidões, tanto da alta quanto da baixa gente, a me ouvir, com três juízes de paz e nove clérigos. O Senhor abriu a minha boca para convencê-los do pecado; e muitos, estou persuadido, sentiram na palavra a espada do Espírito.

Sábado, 20 de julho

Declarei, a um auditório ainda mais numeroso, por ser dia de mercado: “Por nada fostes vendidos; e sem dinheiro sereis resgatados” (Is 52.3). Os açougueiros passavam sem parar; ainda assim, tudo ficou tranquilo até que terminei.

Esqueci de mencionar que, na quinta-feira de manhã, James Wheatley alcançou a mim e a Charles Perronet no caminho para Lakenham. Eu esperava que ele pretendesse passar por nós, mas Charles, olhando para trás e avistando-o, obrigou-o a parar e a falar conosco. Perguntou-me como eu ia; ao que nada respondi. Charles bradou: “Siga em frente, James, siga em frente; não fale conosco. Rogo a Deus que lhe conceda arrependimento.” Ele perguntou como ia o meu irmão; mas eu continuei sem dizer nada. Então, recobrando-se, disse: “E que Deus lhe conceda arrependimento, sr. Perronet.” Mandei Charles dar meia-volta e deixá-lo; o que ele fez, entristecido pela dureza do coração daquele homem.

Passei o dia em Lakenham, como de costume.

Domingo, 21 de julho

O meu auditório das sete estava bem maior. Falei a partir dos três primeiros versículos de Isaías 61, mas me detive naquelas palavras: “Enviou-me a pregar boas-novas aos mansos” (ou “aos pobres”) (Is 61.1). Esforcei-me, como durante toda a semana passada, por levá-los à consciência das suas necessidades; e, para esse fim, tenho pregado a lei, da qual há aqui extrema falta. Foram fartados de palavras suaves e convites lisonjeiros. Tanto maior é o nosso motivo de espanto e ação de graças por poderem agora suportar doutrina sólida e severa.

Recebi de novo a santa ceia das mãos do Bispo, entre uns vinte comungantes. Se o Evangelho prevalecer neste lugar, eles hão de sentir a diferença com o tempo. Fui a St. John’s, e de lá à rua. Choveu o tempo todo em que eu declarava o ofício de Cristo com as suas próprias palavras, em Isaías 61; ainda assim, ninguém se retirou. A minha congregação diminuiu por causa do tempo; mas os que ficaram estavam atentos e pareciam receber a palavra como a terra sedenta recebe a chuva.

Segunda-feira, 22 de julho

A chuva impediu a minha pregação. Deus está nos providenciando um lugar, uma antiga e grande cervejaria, que o proprietário, um juiz de paz, reservou para nós. Ele recusou vários interessados, sempre declarando que só a alugaria ao sr. John Wesley. No último sábado, o sr. Edwards concordou em fazer um contrato de arrendamento por sete anos; e nesta manhã o sr. S. mandou os seus operários começarem a reformá-la. O povo está muito satisfeito por a tomarmos. Já não está satisfeito Satanás, nem os seus apóstolos antinomianos.

Cumpriu-se a profecia do meu irmão: que toda a nossa cautela e delicadeza para com eles não os impedirão de dizer todo tipo de mal contra nós. A única maldição que recebi em Norwich veio de uma boa mulher da Sociedade do sr. Wheatley, muitas das quais são, não duvido, almas piedosas, em cuja vergonha e tristeza sinceramente me solidarizo. Outros mostram de que espécie de espírito são, despedaçando os seus supostos inimigos. Já descobriram que fui eu e a nossa pequena Sociedade de dezoito membros que voltamos o povo contra o pobre sr. Wheatley; e que vim para cá com o meu irmão para executar o plano que nós e o sr. Keymar tramamos contra ele em Londres. Confio em que os nossos poucos filhos seguirão o meu conselho: não lhes responder uma palavra; não se envolver com as suas confusões; mas ficar quietos.

Terça-feira, 23 de julho

Às cinco, declarei o fim para o qual o nosso Senhor veio, isto é, para que tivessem vida, e a tivessem em abundância. A seriedade do povo se aprofunda a cada discurso. Algumas pessoas me procuraram para indagar sobre o caráter do sr. C., a respeito do qual nada pude dizer.

Encontrei o sr. S. na casa, que no momento é um mero monte de entulho, sem paredes, sem teto, sem piso, portas ou janelas. O que produzirá este caos? Não me parece mau presságio que originalmente tenha sido uma fundição.

Escrevi o dia todo na casa do sr. Edwards. Ouço a blasfêmia da multidão. As suas bocas estão cheias de expressões vis: “Ofensa e tormento ao ouvido decente.” Ai do homem que dá ocasião ao inimigo de falar com escárnio!

Às sete, expus a parábola da figueira estéril a um povo que, apesar de todos os seus tropeços, consegue suportar doutrina sólida.

Quarta-feira, 24 de julho

Preguei o Evangelho a partir de Isaías 43.22. Três pessoas vindas do tabernáculo apareceram com intenção maldosa e vã.

A minha congregação, à noite, aumentou consideravelmente com a gente do mercado vinda do campo. Preguei arrependimento a partir de Apocalipse 1.7: “Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá.” O Senhor abriu a minha boca para convencer. A sua palavra começa a penetrar nos corações deles. Muitos choravam por toda parte. Perto do fim, um homem enorme tentou avançar a cavalo até mim; mas o povo se interpôs, vez após vez, até que um homem sério e robusto pegou e conduziu o seu cavalo para longe, mantendo o pobre bêbado a distância devida. Alguns, na taberna atrás de mim, faziam barulho e importunavam; contra eles me voltei e os recomendei às orações da congregação. Satanás muitas vezes mostra a sua disposição e a sua incapacidade de nos ferir ou impedir. Apesar de tudo, o Evangelho tem livre curso e ganha diariamente os corações dos ouvintes.

Quinta-feira, 25 de julho

A chuva me obrigou a entrar na casa do irmão Edwards. Só os sinceros e sérios compareceram. Os pobres têm direito ao Evangelho. Por isso, preguei-lhes Cristo crucificado, a partir de Zacarias 12.10. Naquela hora, olharam para aquele a quem traspassaram, e prantearam; particularmente um rebelde endurecido (que fora), que esteve em lágrimas o tempo todo.

Ontem, uma mulher veio me pedir perdão por ter me insultado, ou melhor, por ter insultado o sr. Edwards, ao passar por ela. Ela pertencia ao tabernáculo. Elogiei a sua franqueza, desejei que toda a sua Sociedade fosse como ela, e lhe dei um livro. A partir disso, muitas histórias foram inventadas. Julgo melhor não ter comunicação alguma com o sr. Wheatley, nem com nenhum dos seus seguidores, nem mencioná-lo, nem pensar nele, como se não houvesse tal pecador sobre a terra.

Passei o dia em Lakenham. Às sete, preguei a uma multidão mista de bons e maus. Alguns da pior espécie falavam obscena e blasfemamente, até que me voltei e dispus contra eles os terrores do Senhor. Não é de admirar que os escravos não conseguissem me encarar. As palavras dirigidas a eles fizeram tremer muitos corações sinceros. Prossegui com mais poder do que nunca. Tão imediatamente Deus tirou o bem do mal. O número dos que se lamentam aumenta. Com o tempo, estarão maduros para o Evangelho.

Sexta-feira, 26 de julho

Impus, a muitas almas atentas, as importantíssimas palavras do nosso Senhor: “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis” (Mt 7.7).

Desfrutei o dia todo, em Lakenham, da solidão que há muito buscava.

Terça-feira, 30 de julho

Preguei às cinco a partir de Isaías 35, e encontrei a minha boca aberta, tanto quanto os corações dos ouvintes. Quanto mais Satanás se enfurece, tanto mais o nosso Senhor há de nos reconhecer e abençoar. Um pobre rebelde, ao final, ergueu a voz; por ele orei primeiro e, depois, voltando-me diretamente para ele, preguei arrependimento e Cristo ao seu coração. Pedi-lhe que voltasse o rosto para mim; mas ele não conseguiu. No entanto, sentiu a corrente invisível que o prendia ali, a ouvir uma oferta de graça e salvação. Tenho grandes esperanças de que Satanás perdeu o seu escravo. Alguns me asseguraram que o viram partir em lágrimas. Comecei mais uma vez a transcrever as Meditações Noturnas, do dr. Young. Nenhum escrito, exceto os inspirados, me é mais útil. Em St. Peter’s, ouvi um sermão bem inofensivo sobre o culto público. No momento, não há ataques em nenhuma das igrejas.

A carta do Bispo de Exeter foi apregoada pelas ruas o dia todo. Oramos e saímos às sete, à espera da aparição de Satanás. Uma multidão atendeu a Oseias 14.1: “Ó Israel, converte-te ao Senhor, teu Deus, pois pelos teus pecados tropeçaste. Tomai convosco palavras…” (Os 14.1-2). O meu coração foi grandemente dilatado. Bem poucos mostraram disposição para perturbar, mas logo foram contidos. Não os poupei; e o Senhor deu peso à sua palavra. Percebo claramente que não há força nem conselho contra o Senhor.

Sem dúvida, há muitas pessoas nesta grande cidade que de bom grado deteriam o curso do Evangelho e o expulsariam. Vários se queixam de que os seus companheiros não os deixam nos perseguir. Para nada dizer do clero: poderão os seguidores do sr. Taylor digerir a nossa doutrina do pecado original? Poderão os fariseus ou os saduceus, dos quais este lugar abunda, desejar-nos êxito? Aqui há enxames de papistas e antinomianos, que nos votam igual boa vontade. E todos os inimigos de Cristo receberam uma espada nas mãos por aquele homem miserável. É do interesse de Satanás e dele que o mundo nos veja como todos iguais. E com essa intenção, sem dúvida, o Reverendo sr. — publicou os seus escândalos a respeito do meu irmão. Mas ele pode se ver enganado. É grosseira demais para passar, mesmo em Norwich. O clero, ouço dizer, declara estar convencido do caráter irrepreensível do sr. John Wesley; e a generalidade do povo está muito descontente com a história absurda.

[Nota do editor (Jackson, 1849): “O sr. Taylor” é o dr. John Taylor, então residente em Norwich, cujo tratado sobre o Pecado Original foi refutado pelo Rev. John Wesley. “Aquele homem miserável” é James Wheatley. A referência final parece dizer respeito à história tola que o Bispo de Exeter publicou por essa época, e que algum reverendo reimprimiu em Norwich.]

Quarta-feira, 31 de julho

Expus Isaías 32.1-2 a uma congregação quieta e atenta, que comparece constantemente, cerca de duzentos dos quais parecem conhecer cada vez mais as suas necessidades.

À noite, pus o machado à raiz e lhes mostrei a sua corrupção atual e original, a partir de Apocalipse 3.17: “Dizes: Estou rico e abastado, e não preciso de nada; e nem sabes que és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu.” O homem forte foi perturbado no seu palácio e rugiu por todos os lados. As minhas forças aumentaram com a oposição. Um cavalheiro a cavalo rangeu os dentes contra mim; mas a minha voz prevaleceu, e eles se retiraram para o seu reduto, a taberna. Ali, com dificuldade, conseguiram que alguns açougueiros aparecessem em seu favor; ainda assim, estes não tinham autorização para se aproximar enquanto eu não terminasse. Então, no último hino, avançaram até a mesa com grande fúria. O da frente ergueu várias vezes o bastão para me golpear, estando eu ao seu alcance; mas não lhe foi permitido. Fiquei para orar por eles e caminhei tranquilamente até o meu alojamento. O pobre Rabsaqué resmungou algo sobre o Bispo de Exeter, mas não aceitou o meu convite para ir à casa do sr. Edwards.

Estou persuadido de que mais bem se fez esta noite do que em qualquer dos meus discursos anteriores. O interesse e o amor do povo por mim aumentaram muito com o meu suposto perigo.

Unimo-nos, como de costume, em oração e ação de graças, e dormi em paz.

Quinta-feira, 1º de agosto

A minha congregação da manhã me compensou plenamente do tumulto da noite anterior; estavam tão sérios e tão tocados pela palavra, de Mateus 11.5: “Os cegos veem” (Mt 11.5).

Quando anunciei que pregaria à noite, eu não sabia que dia tumultuado é este. Ainda assim, depois de orar, saí, para cumprir a minha palavra e ver se o Senhor tinha alguma obra para mim. A colina estava coberta de bêbados e desordeiros; mas vimos a mão de Deus os desviando e mantendo a distância. O meu tema foi: “Que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mc 8.36). A congregação parecia ovelhas no meio de lobos; mas os lobos tinham um freio na boca e não podiam ferir ou perturbar os que estavam sérios. Satanás há de enfurecer-se, pois o seu reino sofre perdas. Muitos me seguiram até em casa, com quem passei algum tempo em oração.

Sexta-feira, 2 de agosto

Falei com consolo aos sinceros, a partir de Mateus 5.3: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus.” Um cavalheiro me encarou enquanto eu voltava contra ele todas as ameaças da palavra de Deus. Ele mudava de cor com frequência, apesar de toda a sua resolução diabólica. O pobre povo não se envergonhou de mostrar a sua comoção. Sentiram a palavra, ainda que ele não a sentisse, e se abrandaram, mesmo diante da sua obstinação.

Estou sem uma igreja, pois o Fidalgo D. mandou o seu criado proibir que eu pregasse novamente junto ao seu muro. Pensei em mudar o meu púlpito para a porta do sr. Edwards; mas a Providência dispôs de outro modo, enviando hoje uma chuva tão violenta que inundou a rua ao nosso redor e a encheu de lama.

Sendo dia de feira, tivemos uma grande companhia de bêbados para nos rondar às sete horas. Fiquei sob uma janela do Bull. Satanás logo me enviou dois dos seus campeões embriagados, que fizeram tudo o que podiam para me interromper. As suas cabeças estavam à altura da minha, e um deles chegou a boca ao meu ouvido e falou quase o tempo todo. Fui forçado, em minha defesa, a falar tão alto e tão depressa quanto pude. E eles não tiveram poder para me perturbar, enquanto eu aplicava a bendita promessa de Isaías 35.10: “Os resgatados do Senhor voltarão e virão a Sião com júbilo.” Muitos experimentaram o poder do Evangelho, pregado em meio a muita contenda. As feras daquele povo ficaram mansas, enquanto eu passava pelo meio delas.

Sábado, 3 de agosto

Preguei Cristo, o caminho, a verdade e a vida (Jo 14.6), com grande liberdade, sendo o povo o meu auxílio. Parecem gente preparada pelo Senhor. Ele esteve conosco esta manhã, verdadeiramente.

Domingo, 4 de agosto

Reuni-me com a Sociedade às cinco, com alguns novos membros, ou melhor, candidatos, pois como tais os considero a todos. Exortei-os a andar de modo irrepreensível em todos os mandamentos e ordenanças. Tivemos doce comunhão no canto e na oração.

Às sete, expus o episódio do cego Bartimeu; e o Senhor curvou os corações dos que ouviram. Nunca tivemos congregação matinal tão grande, nem tão séria. As respostas às orações voltam sobre nós. Certamente Deus tem muito povo nesta cidade.

Tomei o desjejum na casa da sra. Overton, em cujo terreno foi construído o primeiro tabernáculo do sr. Wheatley. Ela se ofereceu como candidata à Sociedade, tendo permanecido na outra até que o pecado a expulsou. Estão descontentes com ela além da conta. Ela não se importa, mas prossegue em conhecer o Senhor.

Comunguei na catedral. Um clérigo idoso me indicou, à mesa, o lugar onde estavam os Ministros. O número de comungantes começa a aumentar: sinal de que não promovemos separação, como me acusou, a caminho de casa, um zeloso defensor da Igreja. Corrigi-o, e ele ficou em boa medida apaziguado.

O pobre James lhes deu motivo de suspeita. Ele também veio à catedral no início, como me contou o meu opositor, fingindo trazer outros, até que ganhou tal domínio sobre eles a ponto de afastá-los todos dela e torná-los dissidentes. Como aumentou as nossas dificuldades! Mas o poder e a bênção de Deus podem endireitar tudo.

Reuni-me de novo com a Sociedade depois do almoço e os exortei fortemente a produzir frutos dignos de arrependimento.

Estive em grande abatimento até as cinco, e então convidei uma enorme multidão à grande ceia, de Lucas 14.16, e fiz um relato histórico dos metodistas. Alguns acharam a nossa congregação maior do que qualquer outra anterior, e mais séria. Uns poucos bêbados esfarrapados ficaram a distância, mas não foram autorizados a fazer barulho enquanto eu não terminasse. Então ergueram a voz, o que me fez recomeçar. Exortei, cantei, orei e exortei de novo. Foi uma oportunidade gloriosa. Graças a Deus, que nos dá a vitória.

Depois disso, a nossa casa ficou lotada. Por uma hora, falei, cantei e orei em busca de Deus. Temos boa perspectiva de uma Sociedade florescente, tal que não se envergonhará de falar com os seus inimigos à porta. Toda alma presente, estou persuadido, sentiu a proximidade do nosso Senhor.

Segunda-feira, 5 de agosto

Cumpriu-se aquela Escritura: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo” (Ap 3.20). Não sabíamos como nos separar, embora agora nunca nos separemos sem uma bênção. Mais cinco deram os seus nomes como candidatos à Sociedade. Dois já haviam pertencido a ela antes, em Londres e Newcastle. Na noite anterior, um pobre desviado veio a mim, com lágrimas de sincero remorso. Havia corrido bem, fora Líder em Londres, mas abandonara a fonte de águas vivas. O Senhor foi atrás da única ovelha perdida. Tenho esperança de que ele se levante de novo, para não mais cair.

Hoje ouvi que, assim que anunciei o meu tema ontem de manhã, o cego Bartimeu, alguns foram embora, bradando que já haviam ouvido o suficiente sobre ele da boca de Wheatley. O pobre James tinha tentado aquela história e feito um trabalho manco, e muitas outras, o que me limita bastante. Ainda não posso pregar sobre os meus textos prediletos, porque ele já o fez. Ele, tanto quanto pôde, envenenou a fonte, degradou a linguagem de Deus, endureceu os corações do povo, saciou o seu apetite espiritual e os fez até odiar a religião e tudo o que a ela pertence. Os seus preconceitos naturais contra a verdade aumentaram. Que montanhas são estas no caminho para Cristo! Só podem desfazer-se diante da sua presença.

Almocei em Lakenham e voltei com a sra. Galatin a Norwich. A sra. Overton, sincera seguidora de Cristo, tomou chá conosco. Mal tivemos tempo para uma oração antes de sairmos. Um cavalheiro estivera comigo na véspera, pedindo que eu o inocentasse da acusação de me perturbar na pregação. Para satisfazê-lo, preguei, contra a minha intenção, na colina. Os desordeiros estavam lá em grande número. Chamei-os ao arrependimento; mas eles taparam os ouvidos e avançaram sobre mim, atirando terra e pedras. Resisti por três quartos de hora; mas era lutar com feras. Nenhum de nós foi ferido pela sua violência, mas vários se assustaram. Os rebeldes me seguiram na retirada. Voltei-me e os encarei. Fugiram sem que ninguém os perseguisse. As pobres mulheres levaram a pior. Os libertinos filhos de Belial estão bem munidos de armas do tabernáculo e falam como que inspirados pelo seu pai. O nosso povo ficou bastante desanimado, temendo que a situação piore cada vez mais. (Temos aqui também um tal Butler, líder dos desordeiros.) Esforcei-me por animá-los e os exortei a maior diligência na oração. A oração é o nosso único refúgio; e, se as nossas mãos estiverem firmes, Israel prevalecerá.

Terça-feira, 6 de agosto

Fui forçado a levantar às duas por causa de uma cãibra, e não consegui dormir depois. Às cinco, muitas almas sinceras foram consoladas pela voz do bom Pastor: “Não temas, ó pequeno rebanho, porque foi do agrado do vosso Pai dar-vos o reino” (Lc 12.32).

Quarta-feira, 7 de agosto

Preguei a partir de: “Com que me apresentarei ao Senhor e me prostrarei diante do Deus altíssimo?” (Mq 6.6).

Às sete, Deus, em resposta à nossa oração contínua, abriu a porta, apesar de todos os poderes das trevas. Pregar a este povo é de fato trilhar as montanhas; ainda assim, vários deles mostram grande fome da palavra.

Quinta-feira, 8 de agosto

A nossa hora matinal é sempre pacífica, e vem acompanhada da bênção do Evangelho. A casa se enche de sinceros, e os meio despertados ouvem do lado de fora.

A sra. Bridgham veio me advertir a respeito dos “queridos ouvintes” (como é chamada a Sociedade do sr. Wheatley), alguns dos quais, ela sabia, pretendiam vir, fingindo condená-lo, para me apanharem nas minhas palavras.

Preguei um pouco depois das seis desta noite, conforme o meu aviso pela manhã, e assim frustrei a maioria dos desordeiros. Um bêbado foi enviado para nos importunar; mas o freio estava tanto na sua boca quanto na do seu senhor. Muitos sentiram o significado daquelas terríveis palavras de Filipenses 2.9-10: “Pelo que também Deus o exaltou soberanamente e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra.”

Depois, voltamos a dar graças na casa e oramos fervorosamente pelo curso do Evangelho, como sempre fazemos, antes e depois da pregação.

Sexta-feira, 9 de agosto

Levantei-me logo após as quatro. Às cinco, o Senhor esteve poderosamente conosco, para confirmar a sua palavra, de Mateus 1.21: “Ele salvará o seu povo dos seus pecados.” A sra. Br., a sra. G., com o nosso irmão e a nossa irmã Edwards, uniram-se a mim em louvor e oração até quase as sete: um costume que esperamos, com a ajuda de Deus, manter.

Às seis, uma multidão tumultuada me cercou, enquanto eu clamava em alta voz: “Deixe o perverso o seu caminho, e o iníquo, os seus pensamentos; converta-se ao Senhor” (Is 55.7). Satanás visivelmente se esforçava, por meio dos seus filhos, para estorvar o Evangelho, o que, todavia, não conseguiram. Uma pobre prostituta gritou sem parar durante o primeiro quarto de hora. Eu não conseguia ouvir palavra alguma senão “Wheatley”. Voltei-me para ela e a instei a entrar no reino, com as suas irmãs de vida; mas ela não quis mostrar o rosto. Não ouvimos mais nada dela. Os seus aliados ficaram imóveis, até que os dispensei.

Um homem enorme, negro e assustador me seguiu para dentro da casa, e o tomei por um mineiro de carvão. Disse-me que era latoeiro, chamava-se T. Boult, tinha participado de todos os tumultos do sr. Wheatley e lutado por ele quarenta vezes; e que, sabendo que eu me estabeleceria ali, vinha me oferecer os seus serviços, e daí em diante lutaria por mim. Agradeci-lhe a bondade desnecessária, dei-lhe uma palavra de conselho e um livro; e ele foi embora muito satisfeito.

Ouço dizer que foi ele quem afugentou a prostituta barulhenta.

Alegramo-nos, como de costume, em dar glória a Deus pela sua providência soberana.

Não devo esquecer que, nesta manhã, o sr. — teve o desplante de nos fazer uma visita. A sra. Edwards abriu a porta e, ao vê-lo, sem dizer uma palavra, boa ou má, tornou a fechá-la.

Sábado, 10 de agosto

O Senhor prosperou a sua palavra, pregada a muitas almas atentas, a partir de Hebreus 4.14-16.

Domingo, 11 de agosto

Caminhei até Norwich às cinco e me reuni com a Sociedade, para nosso mútuo consolo. Às sete, a nossa rua encheu-se de ponta a ponta. Preguei fortemente sobre Deus em Cristo, reconciliando consigo o mundo. Ele esteve ao lado do seu embaixador e curvou os corações de todos os que ouviram. Nunca tivemos porta tão aberta. Duas ou três pessoas do tabernáculo zombaram no início; mas a corrente as arrastou também. Esta hora e meia nos compensou dos nossos transtornos e agressões. Reconhecemos que Deus ouve a oração. Os nossos irmãos em Londres certamente lutaram por nós e prevaleceram.

Tivemos o dobro de comungantes na catedral. Todos os que são curados pelo nosso ministério se apresentam ao Sacerdote e entram no templo conosco.

Admira-me que tenhamos perdido por tanto tempo um lugar tão conveniente para pregar quanto a nossa própria rua. A fundição nos fecha de um lado, e a casa do sr. Edwards e as dos seus vizinhos, do outro. Mais de três mil pessoas podem se acomodar confortavelmente em volta da porta, e o dobro no fim de Hog-hill. Todos os espaços estavam lotados à noite, enquanto eu impunha a palavra fiel e digna de aceitação, de que Jesus Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores. O seu poder derrubou toda oposição e abriu o próprio caminho para dentro dos corações. Todos pareciam derretidos, ou quebrados em pedaços, seja pelo fogo, seja pelo martelo. O Evangelho teve livre curso; a palavra foi glorificada e correu velozmente. Que todos os que oraram pelo seu êxito deem glória a Deus e continuem orando; assim ela há de prevalecer poderosamente sobre esta grande e ímpia cidade.

Alguns dos melhores da paróquia, bem como forasteiros, uniram-se a nós por mais uma hora em oração e ação de graças. Impus-lhes, por aplicação particular e incisiva, tanto o discurso da manhã quanto o da noite. Tal conversa, percebo, é mais útil do que a própria pregação. O Senhor esteve evidentemente conosco, no seu poder convincente.

Segunda-feira, 12 de agosto

A casa estava lotada, por dentro e por fora, enquanto eu expunha Marcos 2.1, e o Senhor confirmava a sua palavra.

Terça-feira, 13 de agosto

Caminhei até Norwich. Muitos parecem prontos a se unir a Cristo e a atender ao seu chamado, cansados e sobrecarregados. Quanto mais dispostos estão a receber o Evangelho, tanto mais ele abre a minha boca para dá-lo a conhecer.

Em Lakenham, visitei, com a sra. Galatin, uma pobre criatura que dera à luz há pouco um filho ilegítimo, e agora se aproximava rapidamente da eternidade. Nem ela, nem a mulher que a acolheu em sua casa, sabem ler. Falamos muito, com pouco resultado. Só que ela parecia grata pelo cuidado que tivemos com ela, e desejosa de que voltássemos a orar com ela.

Aproveitei uma hora proveitosa, à noite, para conversa e oração com os nossos vizinhos que despertam para a fé.

[Nota do editor (Jackson, 1849): É de lamentar que, de 13 de agosto de 1754 a setembro de 1756, não se tenha preservado nenhum registro dos trabalhos do sr. Charles Wesley.]

### PARTE XIII ### De 17 de setembro de 1756 a 5 de novembro de 1756

Sexta-feira, 17 de setembro de 1756

Às sete, deixei Bristol com John Downes e cheguei a Walbridge às duas. À noite, várias pessoas atenderam à palavra e pareceram estimuladas a vigiar e orar. Falei com cada membro da pequena e firme Sociedade. Quarenta e três se mantêm unidos há anos, sob o cuidado do nosso irmão Watts. Não há entre eles disputas nem desordens. Acrescentei algumas palavras, exortando-os a permanecer firmes na comunhão da Igreja da Inglaterra. Fomos muito revigorados e nos separamos com grande amor.

Sábado, 18 de setembro

Parti às seis e, em três horas, cheguei a Cheltenham. Os vinte quilômetros dali até Evesham nos custaram quase seis horas; mas fomos pelo caminho curto, isto é, pelo vale, e dele nos despedimos para sempre. Às quatro, chegamos, bem cansados, à casa do sr. Canning. A sala de pregação estava cheia. Exortei-os a vigiar e orar sempre, para que fossem considerados dignos de escapar de todas essas coisas que hão de acontecer, e de estar em pé diante do Filho do Homem (Lc 21.36). De novo, às sete da manhã seguinte, e às cinco da tarde, receberam a minha palavra, aplicando o Senhor a sua própria palavra, tanto para despertar quanto para confirmar.

Fui à igreja de manhã e à tarde e, entre os cultos, visitei três ou quatro membros da Sociedade, que, por idade e enfermidade, estavam impedidos de se reunir com os irmãos; e por isso eram negligenciados, como se não pertencessem a eles. Reinscrevi os seus nomes no livro da Sociedade, junto com a família do sr. Canning e a de J. Watson, que pareciam todos resolvidos a fazer as primeiras obras.

Não esqueci de confirmar os irmãos na sua vocação; isto é, viver e morrer na Igreja da Inglaterra.

Segunda-feira, 20 de setembro

Depois de encomendá-los a Deus e à palavra da sua graça, cavalgamos com o nosso amoroso guia, J. Watson, rumo a Birmingham. Em Studley, ele nos deixou, cheio do seu antigo zelo, e resolvido a levar fogo entre os seus vizinhos da aldeia para onde se mudou.

Por volta das duas, chegamos a Birmingham, e logo depois ouvimos, à porta, a voz do sr. Ianson. Ele trouxe vida consigo. Como sentinela de Israel, adverti um numeroso auditório da espada que se aproxima. A palavra pareceu penetrar nos seus corações.

Não tive tempo de me reunir com a Sociedade, mas, conversando com vários, concebi novas esperanças de que enfim se tornem um povo firme. Alguns que nos haviam abandonado, recebi de volta.

Terça-feira, 21 de setembro

O Senhor nos deu uma bênção de despedida. A carruagem do sr. Ianson acompanhou o nosso passo até Ashley, onde o nosso irmão Adams nos recebeu com alegria. As feras daqui estão ao menos amansadas, se não convertidas. Ninguém importunou enquanto eu os apontava para “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). Oramos fervorosamente pela conversão desses pecadores endurecidos. Fui consolado com a pequena companhia de vinte e um, que se reúnem para edificação mútua. Grande vida e amor havia no meio deles.

Quarta-feira, 22 de setembro

Adverti-os dos juízos iminentes e os deixei em pé na torre de vigia. Passamos uma hora proveitosa em Donington-Park, com o sr. H. O sr. Ianson nos acompanhou por uns oito ou dez quilômetros no caminho para Nottingham, aonde chegamos por volta das duas. Passei a tarde tomando os nomes da Sociedade e conversando com eles. Alegramo-nos por nos reunir mais uma vez, depois de tão longa separação. O meu tema, tanto à noite quanto pela manhã, foi: “A terça parte trarei através do fogo” (Zc 13.9). Foi um tempo de solene alegria. Havia ocorrido, doze meses atrás, um grande avivamento e crescimento da Sociedade; mas Satanás começava de novo a semear o seu joio. A minha vinda nesta ocasião será, confio, o meio de evitar uma divisão.

Quinta-feira, 23 de setembro

Choveu forte a noite toda. O cavalo manco de John Downes o reteve em Nottingham, com o que o pobre povo ganhou mais um sermão. Às sete, parti sob a chuva com um guia cego, que por fim, aos tropeços, achou o caminho para Sheffield. Aqui também entreguei a minha própria alma, e o povo pareceu despertado e alarmado. Falei com clareza e amor à Sociedade sobre permanecer na Igreja; e, embora muitos deles fossem dissidentes e predestinacianos, nenhum se ofendeu.

Sexta-feira, 24 de setembro

Eu havia deixado William Shent doente em Charles-street; mas, para grande surpresa minha, ao entrar na casa do irmão Green, em Rotherham, nesta manhã, a primeira pessoa que avistei foi o próprio William. No domingo depois que o deixei, ele teve outro acesso de sua febre intermitente; ainda assim, na segunda de manhã, fez questão de montar a cavalo e cavalgar de volta para casa. Teve apenas uma visita da sua febre no caminho, e foi ficando cada vez mais forte, mais pela virtude da oração do que pelo remédio.

Quando estive aqui pela última vez, a Sociedade estava à beira de uma separação, por causa de um grupo favorável ao sr. Wh. e ao sr. Edwards. Propuseram isso ao honrado sr. Cousins, cuja oposição sufocou o plano naquela ocasião. Aconselhei-os, então, a irem à igreja. Os fracos e vacilantes foram confirmados; três ou quatro dos outros se ofenderam e disseram que “eu fazia da igreja um Cristo”. Depois de pregar tão despertadoramente quanto pude, disse com clareza à Sociedade que “não há salvação fora da igreja”; isto é, fora do corpo místico de Cristo, ou da comunidade dos fiéis. Quando me expliquei plenamente sobre esse ponto, ficamos todos de um só coração e mente. Suportaram, então, a palavra de exortação, e até se alegraram quando lhes disse: “Vamos à casa do Senhor.”

Sábado, 25 de setembro

Encorajei-os com aquela preciosa promessa: “A terça parte trarei através do fogo” (Zc 13.9); e nos separamos com grande amor. Às oito, preguei sobre o mesmo tema em Barley-hall, e ali encontrei a bênção que nunca falta. Segui viagem com William Shent, que fora ameaçado, na noite anterior, pela volta da sua febre. Eu estava sem companhia para ir a York quando, ao passar por Hunslet, alguém me chamou. Voltei-me e vi o sr. Crook, que me disse que o dr. Cockburn estava em sua casa, e me esperava havia uma semana para me levar a York. Apeamos e passamos uma hora deliciosa com o Doutor (meu antigo colega de escola) e com ele, ambos no seu primeiro amor, ambos cheios de vida, zelo e simplicidade. O sr. Crook insistiu para que eu o auxiliasse na santa ceia da manhã.

Domingo, 26 de setembro

Às sete, preguei ao povo em Leeds, sobre: “Venha o teu reino” (Mt 6.10). Os discípulos ergueram as cabeças. Caminhei com o dr. C. até Hunslet. O sr. Crook fez questão de que eu pregasse, o que fiz de novo, a partir das mesmas palavras. A sua congregação não pareceu opor-se à verdade. Havia centenas de comungantes, a maioria despertada pelo sr. Crook.

Passamos uma hora e meia em sua casa, com voz de júbilo e ação de graças. Depois, ele insistiu de novo para que eu ministrasse. A sua igreja, que comporta quase tanta gente quanto a nossa sala de pregação, encheu-se de ponta a ponta. A seu pedido, preguei sobre aquelas palavras: “Caia sobre nós o seu sangue e sobre os nossos filhos” (Mt 27.25). O nosso Senhor transformou a maldição em bênção.

Duvidei das minhas forças, mas parti para Leeds. A sala estava excessivamente lotada, por dentro e por fora. Eu estava muito fraco quando mencionei o meu texto: “Quando essas coisas começarem a acontecer, então olhai para o alto” (Lc 21.28). A pouca força que eu tinha aumentou ao usá-la; e a palavra revigorou tanto a alma quanto o corpo. Os ouvintes foram diversamente afetados. Ah, que todos sejam achados vigiando!

Não consegui falar de outra coisa senão de amor na Sociedade, pois de nada mais eu estava cheio. Grande foi a nossa alegria uns pelos outros. Satanás, creio, fez o seu pior, e não tirará mais vantagem exasperando os seus ânimos contra os irmãos que partiram. Estavam unânimes em permanecer na Igreja, porque o Senhor permanece nela e multiplica ali as suas testemunhas, mais do que em qualquer outra Igreja da cristandade.

Segunda-feira, 27 de setembro

Surpreendi-me com a quantidade de gente que afluiu à pregação matinal e recebeu ansiosamente aquela palavra do nosso Senhor: “Eis que venho como ladrão; bem-aventurado aquele que vigia e guarda as suas vestes” (Ap 16.15).

Tomei o desjejum com a srta. Norton e não encontrei em meu coração para com ela senão amor. Ela não estava tão mal disposta contra os seus irmãos abandonados quanto eu esperava. Nada pode trazer de volta pessoas como ela, senão “o amor que tudo espera, tudo suporta, tudo sofre” (1Co 13.7).

Vários vieram conferenciar comigo, particularmente Benjamin S. Tive grande satisfação com ele. Enquanto tomávamos chá na casa de um irmão, o sr. Edwards me encontrou. Conversamos com franqueza e amor, até a hora da pregação. Caminhei com ele até a casa. O sr. Crook foi outro dos meus ouvintes. O meu texto foi: “Caia sobre nós o seu sangue e sobre os nossos filhos” (Mt 27.25). O poder do Senhor esteve presente mais do que no dia anterior. Fui às orações da Igreja, com vários que há muito eram pressionados a abandoná-las por completo. Ficarão mais firmes, espero, por causa dessa provação.

Terça-feira, 28 de setembro

Parti com o Doutor e William Shent para York. A chuva trouxe de volta a pobre febre de William. Preguei a partir de Habacuque 3.2: “Ó Senhor, aviva a tua obra.” A multidão deixou a nossa sala excessivamente quente; mas isso não estorvou a sua atenção.

Quarta-feira, 29 de setembro

O nosso Pregador aqui estabelecido havia deixado por completo de pregar de manhã. Muitos me disseram que eu não conseguiria congregação às cinco; mas verifiquei o contrário. A sala estava quase cheia enquanto eu explicava: “Libertados do pecado e feitos servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação, e o fim é a vida eterna” (Rm 6.22). Insisti largamente na libertação do pecado, como o mais baixo sinal da fé, e na necessidade de buscar a santidade. Os ouvintes pareceram muito estimulados.

Passei o dia conversando com todos que vinham. A casa do Doutor estava aberta a todos, e o seu coração também; sendo todo o seu desejo espalhar o Evangelho.

Quinta-feira, 30 de setembro

O meu tema foi João 5.14: “Depois, Jesus o encontrou no templo e lhe disse: Olha que já estás curado; não peques mais, para que não te suceda coisa pior.” Adverti-os contra aquela doutrina açucarada, “uma vez na graça, sempre na graça”, mas não de modo controverso; apontei alguns dos infinitos modos pelos quais poderiam perder o seu perdão. Exortei-os a ir à igreja, para que fossem achados por Jesus no templo; e, acima de tudo, a orar sempre, para que aquela palavra fosse escrita nos seus corações: “Vai e não peques mais.”

O dia foi bem empregado em resolver uma desavença que o semeador de joio havia provocado entre os principais membros da Sociedade.

Entre seis e sete horas, reuni a Sociedade, com muita gente vinda do campo, e por duas horas lhes mostrei como deviam andar. Receberam de bom grado a instrução.

Sexta-feira, 1º de outubro

Preguei de novo aos despertados e percebi a palavra fazer efeito. Tomei o desjejum com T. Brook, que mais uma vez deixou os irmãos. Fui com ele à catedral, que ele frequenta assiduamente. Encontrei, em sua casa, a srta. T., que buscava fervorosamente a salvação. O meio que a despertou foi o livro Theron e Aspasio.

Ouvi dizer que a jovem que clamou na noite anterior, sob convicção, foi naquela mesma hora introduzida na gloriosa liberdade dos filhos de Deus.

Passei uma hora na casa do sr. D. e respondi às suas objeções sinceras. Tive ocasião de defender o meu velho amigo Benjamin Ingham. É duro que um homem seja condenado pela sua aparência, pela suspeita de moravianismo. O espírito e as práticas deles, ele os renunciou tão completamente quanto nós; a sua maneira e o seu vocabulário não se abandonam tão depressa.

Encontrei Mercy Bell e tive doce comunhão com ela. Não me admira que os Amigos (os quacres, tão decaídos da sua primeira simplicidade) não consigam receber o seu testemunho.

Tivemos uma vigília noturna cheia de triunfo. Comecei entre sete e oito horas. O inimigo não gostou da nossa ocupação e incitou os seus servos, do lado de fora, a nos interromper; mas as nossas vozes prevaleceram. Cantamos os “Hinos em meio ao Tumulto”, com grande calma e consolo. A criada do sr. Williamson ficou profundamente tocada. O brado de um Rei estava no meio de nós; e o povo achou cedo demais separar-se às onze.

Sábado, 2 de outubro

O dia inteiro foi passado em canto, conferência e oração. Assisti ao ofício do coro. As pessoas ali foram maravilhosamente gentis e me atenderam com o anthem que pedi, o de Habacuque 3, “um banquete digno de um Rei”, como o chamou a Rainha Ana. O sr. Williamson caminhou comigo até sua casa, à luz do sol. Eu teria querido poupá-lo; mas ele estava totalmente acima do medo. Um dissidente piedoso e sensato juntou-se a nós o dia todo e nos acompanhou à pregação. Discursei sobre o meu tema predileto: “A terça parte trarei através do fogo” (Zc 13.9). Glorificamos a Deus no fogo e nos alegramos na esperança de sair dele como ouro.

Domingo, 3 de outubro

Das cinco até quase as oito, conversei de perto com cada membro da Sociedade; depois, a pedido do sr. W., preguei sobre as ordenanças, a partir de Isaías 64.5: “Naqueles caminhos há perpetuidade, e nós seremos salvos.” Detive-me mais longamente no que havia sido mais negligenciado: a oração em família, a oração pública e a santa ceia. O Senhor pôs o seu selo e confirmou a palavra com dupla bênção. Dispensei-os às nove. Os nossos Pregadores muitas vezes os retinham até quase as dez, impedindo-os assim de ir à igreja.

Recebi a santa ceia na catedral. Foi uma solene páscoa. Foram obrigados a consagrar duas vezes, tendo a congregação dobrado e triplicado por causa das minhas exortações e do meu exemplo. Glória seja a Deus somente! Encontrei grande fé para orar por aquele que consagrava; e soube depois que era o sr. B., alguém que conhecia os metodistas desde o seu surgimento em Oxford, e não lhes era inimigo. Espero (se eu mesmo perseverar) encontrar aquela alma no paraíso.

Fui à igreja do sr. W. Ele leu as orações como quem as sentia, e então me fez sinal. Conforme o nosso acordo particular, subi ao púlpito quando ninguém esperava, e bradei, a um auditório cheio: “O reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no Evangelho.” Todos ficaram atentos. A palavra não voltou vazia, mas realizou aquilo para que fora enviada. Nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega.

O dr. Cockburn me levou em sua cadeirinha até Acomb. Perdi a voz na chuva e não consegui, sem grande esforço, bradar: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). Um clérigo e a nobreza do lugar estavam presentes. A chuva nos dispersou em meia hora. Tentei me reunir com a Sociedade em York, mas não consegui falar de modo a ser ouvido. Ganhamos com isso um serão mais longo na casa do hospitaleiro Doutor. O sr. W. e a sua família, entre outros, foram auxiliares da nossa alegria.

Segunda-feira, 4 de outubro

Despedi-me com as palavras do Apóstolo: “A graça de Deus, trazendo salvação, se manifestou a todos os homens, ensinando-nos” (Tt 2.11). A partir daí, pressionei fortemente a obediência da fé. Separamo-nos apenas no corpo.

Pela bênção de Deus sobre a minha semana entre eles, espero: 1. que a paz e o amor tenham sido restaurados; 2. que voltem a se levantar às cinco; 3. que sejam reconduzidos à igreja, à santa ceia e à oração em família.

O dr. Cockburn e a sua esposa me acompanharam até Tadcaster, onde encontrei voz e força para apontar muitas almas fervorosas ao Cordeiro que tudo expia. A nobreza ouvia tão bem quanto os pobres. Ambos me dispensaram com bênçãos.

Choveu assim que montamos a cavalo. Logo ficamos encharcados até os ossos, com o vento forte lançando a tempestade em cheio no nosso rosto. Fiquei mais preocupado com o pobre William Shent e o obriguei a parar na primeira casa. Ali repreendi um camponês por blasfemar e lhe dei uma palavra de conselho, que foi recebida com boa vontade. Buscamos abrigo de novo em Seacroft; e desfrutamos da última hora de bom tempo, que nos trouxe a Leeds às duas.

Recobrei as forças para a hora da pregação; depois da qual me reuni com os Líderes e os exortei fervorosamente a dar exemplo ao rebanho.

Terça-feira, 5 de outubro

Às cinco, preguei na oficina de William Shent. Tomei o desjejum na casa da srta. Norton. Ali, o sr. Edwards me assegurou que “nunca desejara que nenhum dos nossos filhos nos deixasse”. Sem dúvida, eles o fizeram por sua própria e mera vontade: ninguém jamais tratou disso com eles nem se esforçou nesse sentido. Ninguém jamais falou contra a Igreja para desprendê-los. Caíram-lhe na boca (como os nossos primeiros filhos na do Conde) sem que ele sequer suspeitasse. Se ele nos roubou os filhos, bendigo a Deus por descobrir que não nos roubou a paz e o amor. Ele expressou várias vezes a sua disposição de pregar nas nossas Sociedades. Respondi apenas que o povo não podia confiar que ele não fizesse, em todo lugar, o que fez em Leeds.

Esforcei-me por tratá-lo com o devido respeito e amor, conforme a nossa regra: “Se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens” (Rm 12.18).

Passei o dia na casa do sr. Crook, que me contou a sua experiência. Não posso duvidar de que ele tenha conhecido as dores do novo nascimento. Os nossos irmãos o questionam, porque ele não usa todas as expressões deles e não consegue seguir todos os seus conselhos exaltados. Roguei-lhe que não fizesse nada precipitadamente; e, menos que tudo, que não abandonasse o seu posto para sair pregando em toda parte como nós.

Tomei chá na casa de uma irmã, que tem estado como o mar agitado desde a separação, e áspera com todos, especialmente com o marido, tanto quanto o sr. Edwards é suave. Trabalhei para acalmá-la; e ela percebeu a grande vantagem que Satanás obtivera sobre ela. Ai do homem por meio de quem vem a ofensa!

Caminhei até Hunslet com William Shent e ouvi o sr. Crook expor na igreja. Almocei com ele e me irritei com o seu zelo. Ao voltar, encontrei — no meu alojamento, e desperdicei algumas palavras com alguém mais sábio aos seus próprios olhos do que sete homens capazes de dar razão de si. Ele justificava inteiramente o sr. Edwards; por isso não posso ter confiança nele, de que não faça, se tivesse poder para tanto, como o sr. Edwards fez.

Henry Thornton veio passar uma hora ou duas conosco, e aguçamos o semblante um do outro.

Às seis, reuni-me com os Líderes e indaguei sobre a conduta de cada membro da Sociedade. Mais de quarenta o sr. Edwards levou consigo; mas não por pedir a alguém que nos deixasse. Levei-os comigo às orações e lhes pedi que seguissem o meu exemplo, conduzindo à igreja toda a Sociedade com eles.

Voltei à sala e expliquei o privilégio do crente, de 1 Pedro 1: “Guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação” (1Pe 1.5).

Quinta-feira, 7 de outubro

Depois de uma noite tempestuosíssima, preguei a uns poucos, que a ventania não conseguira afastar da palavra.

Conversei mais com —, que confessou francamente: “Se alguma das nossas Sociedades desejasse que ele assumisse a sua direção, como corpo separado, ele não recusaria.” Disse-lhe com clareza que o fundamento de todos esses planos era o orgulho; mas as minhas palavras foram lançadas ao ar.

Depois da igreja, parti sob tempestade rumo a Seacroft; e cavalguei até Aberford. O meu velho amigo, o sr. Ingham, trabalhava na vinha; mas tive a felicidade de encontrar em casa Lady Margaret e o filho deles, Ignatius. Ela me informou que a rota dele abrange mais de seiscentos quilômetros; que tem seis colaboradores e mil almas nas suas Sociedades, a maioria convertida. Alegrei-me sinceramente com o seu êxito. Ignatius quase não se conformou por eu não pregar. Passamos uma hora e meia muito proveitosa e partimos de novo. A chuva veio ao nosso encontro e nos empurrou para debaixo de uma árvore, em busca de abrigo. Escapamos por pouco de vários aguaceiros pesados e voltamos em segurança a Seacroft antes do anoitecer.

Logo depois, o nosso queridíssimo irmão Grimshaw nos encontrou e trouxe uma bênção consigo. Preguei a partir de Lucas 21: “Acautelai-vos” (Lc 21.34); e apliquei mais adiante à Sociedade a advertência do nosso Senhor. Exortei-os fortemente a permanecer firmes na comunhão uns com os outros e com toda a Igreja da Inglaterra. Os nossos corações foram consolados e unidos.

Sexta-feira, 8 de outubro

Tivemos outra hora abençoada com eles, antes de deixarmos este povo cheio de vida. Continuei até a uma hora em conversa com o meu digno amigo e companheiro de trabalho, um homem segundo o meu coração!, cujo amor pela Igreja flui do seu amor por Cristo. Que com tais seja lançada a minha sorte, nos dois mundos!

Passamos uma hora em intercessão pela Igreja e pela nação. Exortei as muitas pessoas presentes a perseverar nessa oração e a observar a resposta e o desfecho.

Cavalguei com o meu fiel irmão Grimshaw até Bramley. Preguei num grande celeiro (hoje uma capela conveniente) a uma multidão de almas sérias, que receberam avidamente a palavra do nosso Senhor: “Olhai para o alto e erguei a cabeça” (Lc 21.28). Todos pareceram bem despertos quando os chamei de novo pela manhã (sábado, 9 de outubro): “Vigiai, pois, e orai sempre” (Lc 21.36). O espírito deles avivou o meu. Tivemos doce comunhão. Não tenho dúvida de que serão considerados dignos de escapar e de estar em pé diante do Filho do Homem.

Voltando a Leeds, encontrei o meu irmão Whitefield, e fiquei muito revigorado com o relato dos seus abundantes trabalhos. Acompanhei-o até a nossa sala e, com alegria, sentei-me sob a sua palavra. Eu mesmo preguei em Rothwell. A sua grande casa estava cheia, ainda que fosse dia de colheita. Adverti-os da tempestade que se aproxima, com muita liberdade e fé em favor dos sinceros; concluindo com uma calorosa exortação a permanecerem no barco.

Domingo, 10 de outubro

A partir de Isaías 64.5, “Naqueles caminhos há perpetuidade, e nós seremos salvos”, pressionei fervorosamente os deveres de comungar constantemente, de ouvir, ler e praticar a palavra, de jejuar, e da oração privada, familiar e pública. À Sociedade aconselhei a permanecer em comunhão e a nunca mais dar lugar ao semeador de joio, o divisor dos irmãos. Falei com brandura da fratura; disse-lhes como se portar para com o sr. Skelton e os demais que se levantaram para arrastar discípulos atrás de si; e insisti naquele preceito apostólico: “Todas as vossas coisas sejam feitas com amor” (1Co 16.14). Não mencionei o autor da recente divisão, por estar convencido de que ele nos deixou por causa do pão.

[Nota do editor (Jackson, 1849): Charles Skelton foi outro dos pregadores metodistas que, por esse tempo, formou uma igreja independente a partir das Sociedades metodistas, tornando-se seu pastor. Estabeleceu-se em Southwark.]

O Espírito de amor e união estava no meio de nós. Cheguei a Birstal antes do meio-dia. A minha congregação era menor em um ou dois mil, por causa da pregação de George Whitefield naquele dia, em Haworth. Entre quatro e cinco mil pessoas ficaram para receber a minha advertência, de Lucas 21. Depois da igreja, reunimo-nos de novo. Toda alma parecia pender da palavra. Duas oportunidades tão preciosas eu não desfrutava havia muitos dias. Foi o tempo antigo revivido. Um espírito solene percorreu a congregação; e eles ficaram em pé como homens preparados para encontrar o Senhor.

Segunda-feira, 11 de outubro

Depois de pregar às cinco a este povo firme, voltei a Leeds e passei uma hora com os Líderes. Informaram-me que as minhas recentes exortações detiveram alguns que estavam a ponto de passar para a Sociedade do sr. Edwards, e reconduziram outros às ordenanças da Igreja. Uma mulher, em particular, depois de me ouvir no domingo de manhã, foi à igreja, que havia muito abandonara, e recebeu uma manifestação de Jesus Cristo durante as orações. Insisti fervorosamente para que recomendassem aos irmãos, por conselho e exemplo, os deveres negligenciados da oração familiar e pública; e para que velassem sobre o rebanho com toda a diligência.

Sabendo que o sr. Whitefield e o sr. Grimshaw voltariam para a nossa vigília noturna, esperei por eles no seu alojamento, com o zeloso, humilde e amoroso sr. Crook. Choveu tão forte que o sr. Whitefield ficou agradavelmente surpreso, às oito, ao encontrar a nossa casa tão lotada quanto podia comportar. Obrigaram-me a pregar primeiro, o que fiz a partir de Zacarias 13: “A terça parte trarei através do fogo.” O meu irmão George me secundou com as palavras do nosso Senhor: “O que vos digo, digo a todos: vigiai” (Mc 13.37). As orações e os hinos foram todos acompanhados de um poder solene. Poucos, se é que algum, espero, foram embora sem serem despertados.

Terça-feira, 12 de outubro

Despedi-me de Leeds em oração, na casa de William Shent. Como alguns atribuíam a divisão a ele, examinei o assunto a fundo, tendo conversado longamente com todas as partes, especialmente a srta. Norton e o próprio sr. Edwards. No conjunto, estou convencido de que o fundamento de tudo foi o ódio da srta. Norton por William Shent. Isso a levou a afastar de nós o sr. Edwards. Ele não resistiu à tentação de um sustento garantido para a sua família. O interesse lhe cegou os olhos, de modo que os meios para o seu fim lhe pareceram justos e honestos, ainda que vis e traiçoeiros para conosco. Quanto a William Shent, não vejo que tenha feito mais do que todo homem íntegro faria em tal ocasião. Ele vigiou para frustrar os que diariamente seduziam os nossos filhos. Avisou cedo o meu irmão do plano deles, e assim atraiu todo o ressentimento sobre si mesmo; como fará todo pregador honesto qui cum ingeniis conflictatur ejusmodi [que tem de lidar com temperamentos desse tipo]. Desde a separação (informou-me um amigo do sr. Edwards), ele se comportou com tal brandura e discrição que manteve unido o resto do rebanho, quando a violência ou o tratamento áspero poderiam tê-los dispersado a todos.

Preguei em Wakefield às dez, a um auditório mais tranquilo do que qualquer outro que já encontrei ali.

Despedi-me amistosamente da srta. Norton, que me assegurou que alguns dos nossos mais capazes Pregadores estavam inteiramente no interesse do sr. Edwards. Nec nihil, nec omnia [Nem tudo, nem nada].

Cavalguei até a casa de Joseph Bennet, perto de Dewsbury, e preguei muito despertadoramente a uma congregação mista e atenta. A minha veemente exortação à Sociedade foi sobre o tema de sempre: “Permanência na palavra” e nas orações, familiar e pública. Passei a noite com Jonas E. De bom grado eu me separaria de quinhentos metodistas para ser ordenado e útil como ele.

Quarta-feira, 13 de outubro

A palavra, em Birstal, veio revestida de poder, tanto para despertar quanto para confirmar. A minha principal preocupação é com os discípulos, para que as suas casas sejam edificadas sobre a rocha, antes que caiam as chuvas. Ouço, na maioria dos lugares, sobre o efeito da palavra; mas presto menos atenção a isso do que antes, e pouco caso faço dos que dizem receber consolo, fé ou perdão. Que os seus frutos o mostrem.

Preguei à noite e me alegrei na esperança firme de ser trazido através do fogo.

Quinta-feira, 14 de outubro

Batizei o filho de um dissidente e parti com o fiel Titus Knight para Halifax. Uma multidão mista ouviu a palavra: “Quando os teus juízos estão na terra, os moradores do mundo aprendem justiça” (Is 26.9). Não encontrei em lugar algum tanta liberdade quanto neste, onde menos a esperava.

Parti sob chuva forte para Bradford. O meu tema ali foi Habacuque 3.2: “Ó Senhor, aviva a tua obra.” Muitos dissidentes estavam presentes; alguns deles, creio, foram alcançados, pois falei com amor irresistível e os adverti a fugir da ira vindoura.

Sexta-feira, 15 de outubro

Depois da pregação, recolhi ao aprisco uma ovelha desgarrada, que o orgulho e a insensatez de J. Wh. haviam dispersado. Tendo perdido o seu primeiro amor, ela se casou com um homem não convertido; pelo que a Sociedade a dera por perdida. Alegrei-me em encontrá-la infeliz na prosperidade e inquieta para recuperar a sua única felicidade.

Encontrei consolo na primeira lição da igreja (Sabedoria 5). De bom grado eu frequentaria constantemente a oração pública, para o meu próprio bem, tanto quanto pelo exemplo.

A sala de pregação encheu-se com os que vieram de longe. O nosso Senhor não os mandou embora vazios. Uma menina de quatorze anos (que viera a pé de Birstal) me disse que se sentira, sob a palavra, como que arrebatada para fora do corpo. Que nome dar à manifestação do Espírito então concedida a ela, o tempo e a provação hão de dizer.

Por quase duas horas mais, nos alegramos numa ágape ao modo primitivo.

Sábado, 16 de outubro

Tomei o desjejum de novo com a minha ovelha perdida que foi achada, por amor de quem, principalmente, creio ter sido enviado a Bradford. Na noite anterior, na ágape, ela recuperou o seu escudo. Despedi-me dos irmãos com aquela promessa: “Aquele que perseverar até o fim, esse será salvo” (Mt 10.22). Cavalguei com o fiel Thomas Colbeck até Keighley.

Às quatro, encontrei uma sala grande e agradável bem cheia. Cumpri o meu ofício de sentinela e entreguei a minha própria alma. O sr. Grimshaw auxiliou na Sociedade. Recomendei a religião familiar com todas as minhas forças. Por quase uma hora e meia, a nuvem repousou sobre a assembleia.

Domingo, 17 de outubro

Não tínhamos espaço sobrando às seis da manhã, enquanto eu os encomendava a Deus e à palavra da sua graça. Preguei uma segunda vez em Haworth (lendo o sr. Grimshaw as orações), a partir do Salmo 46.8: “Vinde, contemplai as obras do Senhor, as maravilhas que ele tem feito na terra. Ele faz cessar as guerras em toda a terra.” A minha boca se abriu para anunciar os juízos que se aproximam e a glória que há de seguir-se, quando o Senhor for exaltado em toda a terra. A igreja, que fora ampliada recentemente, mal pôde conter a congregação, que parecia toda tremer diante das ameaças, ou alegrar-se nas promessas, de Deus.

Tivemos um número abençoado de comungantes, e o Anfitrião do banquete no meio. Orei e exortei depois. Os nossos corações se ergueram para encontrá-lo no seu reino glorioso.

Depois de uma hora de intervalo, reunimo-nos de novo, tantos quantos as paredes da igreja podiam conter; mas o dobro desse número ficou do lado de fora, até que terminaram as orações. Então subi a um estrado e, erguendo os olhos, vi os campos brancos para a colheita. Havíamos orado por um dia bom, e recebemos o que pedimos. O cemitério, que comporta milhares, ficou totalmente coberto. Deus me deu voz para alcançar a todos. Adverti-os das coisas que hão de acontecer e os pressionei calorosamente à oração privada, familiar e pública; estendi-me sobre as gloriosas consequências disso, isto é, o livramento das últimas pragas e o estar em pé diante do Filho do Homem. Concluí e recomecei, pois era tempo aceitável. Não me lembro de quando a minha boca esteve mais aberta, ou o meu coração mais dilatado.

Um jovem Pregador do sr. Ingham veio passar a noite comigo, na casa do sr. Grimshaw. Concebi grande amor por ele, e desejei que todos os nossos filhos no Evangelho fossem igualmente modestos e discretos.

Segunda-feira, 18 de outubro

Ele nos acompanhou até Heptonstall, onde preguei às dez sobre Isaías 64.5: “Naqueles caminhos há perpetuidade, e nós seremos salvos.” Eu estava muito fraco quando comecei; tanto mais claramente se viu que o poder não era de homem, mas de Deus. Adverti-os das astúcias do diabo, com as quais ele os arrastaria para longe da Igreja e dos demais meios de graça. Falei como os oráculos de Deus, e Deus deu testemunho, curvando os corações de todos os presentes, exceto uns poucos batistas obstinados. Seguimos o nosso caminho, alegres, rumo a Ewood.

Ali, a chuva forte interrompeu o meu discurso, de Ezequiel 9. O sr. Allen ainda não pôde nos deixar; cavalgou conosco na manhã seguinte (terça-feira, 19 de outubro) até Gawksholm. Fiquei em pé sobre um estrado, ao pé de uma montanha galesa, com todo o povo à minha frente, e bradei: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). A palavra foi como espada de dois gumes. Eu não sabia, então, que vários batistas estavam presentes, uma seita carnal, contenciosa e cheia de objeções, sempre à espreita para furtar os nossos filhos e torná-los tão mortos quanto eles. O sr. Allen me informou que já levaram nada menos que cinquenta de uma só Sociedade, e que várias congregações batistas são inteiramente formadas de antigos metodistas. Conversei largamente com o sr. Grimshaw sobre como remediar o mal. Concordamos: 1. que nada pode salvar os metodistas de cair como presa de todo sedutor, senão um andar íntimo com Deus, em todos os mandamentos e ordenanças, especialmente a palavra e a oração, privada, familiar e pública; 2. que se deve conceder aos Pregadores mais tempo em cada lugar, para visitar de casa em casa, ao modo do sr. Baxter; 3. que se escreva um pequeno tratado, para firmá-los e preservá-los contra os sedutores, e que se deixe um exemplar em cada família.

Chegamos a Bolton ao anoitecer. Mais de quarenta pessoas deste povo abalado ainda se mantêm unidas. Muitos dos de fora afluíram à palavra. Em grande fraqueza física, adverti-os a fugir para a cidade de refúgio; procurei acalmar os ânimos dos nossos filhos; e fomos consolados juntos pela esperança da vinda do nosso Senhor.

Quarta-feira, 20 de outubro

Falei com bondade ao pobre J. Whitford, que parecia bem enfastiado da sua congregação separada, tão obstinada e indócil; tão parecida com o seu humilde escravo e mestre! Os seus princípios, tanto quanto o seu espírito, lhe cortaram a retirada:

Vestigia nulla retrorsum [Nenhuma pegada de volta].

Isso acontece quando um Pregador metodista abusa da confiança nossa e dos nossos filhos, estabelecendo-se por conta própria. Ele nunca poderia ter pensado nisso, se o sal não tivesse perdido o sabor.

A chuva acelerou o nosso passo até Manchester. Hospedei-me na casa do sr. Philips. O meu tema, à noite, foi: “Quando essas coisas começarem a acontecer, então olhai para o alto” (Lc 21.28). Muitos dissidentes arianos e socinianos estavam presentes e rangeram os dentes contra mim, enquanto eu pregava a vinda de Jesus Cristo, o único Deus eterno e autoexistente, para tomar vingança sobre eles e sobre todos os seus inimigos, que não o quiseram como rei sobre si.

Quinta-feira, 21 de outubro

Terminei o meu discurso aos discípulos do nosso Senhor. Separei-me da minha mão direita, o meu irmão e amigo do peito, Grimshaw. Tomei o desjejum na casa da sra. F., e me alegrei em constatar que, embora nos tivesse deixado, ela não havia abandonado por completo a Deus. A sua alma sofreu perda; ainda assim, os seus bons desejos permanecem. Aqui, o meu velho amigo J. Bolton me encontrou e confirmou o seu amor por mim.

Da igreja, fui almoçar com a nossa irmã Rider, que ainda espera a Consolação de Israel. Tomei chá com o dr. Byrom e me vi em apuros para defender o livro do meu irmão contra o sr. Law. Chegamos por fim a um tema melhor e nos separamos, não sem uma bênção.

À noite, discursei sobre Tito 2.11. Falei de perto e com franqueza sobre a fé prática e os deveres relativos; mas ainda mais de perto à Sociedade.

Parece que o famoso sr. Roger Ball está agora entre eles, recolhendo os seus tostões e as suas pessoas. Ficaram encantados de admiração por homem tão fino (o próprio Thomas Williams não era nada perto dele) e o convidaram a se estabelecer com eles. Outro novo Pregador eles também arranjaram, um jovem batista, que está formando para si uma congregação a partir deles, como os mestres batistas que tomaram tantos dos filhos do sr. Grimshaw. A nossa Sociedade em Manchester passava de duzentos membros; mas os seus ouvidos ansiosos por novidades a reduziram à metade.

A esses, mostrei o estado melancólico dos membros da Igreja estabelecida, que são os mais desprovidos de princípios e ignorantes de todos os que se chamam protestantes; e por isso expostos a todo sedutor que julgue valer a pena torná-los dissidentes, morávios ou papistas. Disse-lhes: “De todos os membros da Igreja da Inglaterra, os pobres metodistas são os mais expostos, porque são sérios, e por isso vale a pena roubá-los; e de todos os metodistas, os de Manchester correm o maior perigo, por serem os mais instáveis e menos dóceis a conselhos.” Desafiei-os a me mostrar um só metodista que jamais tenha prosperado por se tornar dissidente. Perguntei o que seria deles quando o meu irmão morresse; se não seriam então dispersos e fragmentados em vinte seitas, velhas e novas. Para evitar isso, aconselhei-os: 1. a obter graça, isto é, o amor e o poder de Deus, o único que pode guardar e firmar os seus corações; 2. a permanecer em todos os meios de obtê-la, especialmente a palavra e a oração de todo tipo; a ler as Escrituras diariamente; a ir constantemente à igreja e à santa ceia.

Faço mais concessões a esta pobre Sociedade abalada, porque foram tristemente negligenciados, se não maltratados, pelos nossos Pregadores. Os Líderes me pediram que não deixasse — voltar a frequentá-los, pois lhes fazia mais mal do que bem, falando à sua maneira espirituosa contra a Igreja e o clero. Quanto ao pobre —, ele não podia aconselhá-los a ir à igreja, pois ele mesmo nunca ia; mas alguns me informaram que ele os aconselhava a não ir. Quando pomos o lobo para guardar as ovelhas, não é de admirar que as ovelhas se dispersem.

O nosso irmão Johnson me conta que, desde que reconduziu o povo à igreja, dois receberam o perdão durante as orações ali; e mais dois no sermão de um Ministro da Igreja. Há agora nestas partes três Pregadores sólidos. Se permanecerem firmes, poderão desfazer o grande mal que os Pregadores infiéis causaram, e confirmar os nossos filhos na sua vocação.

Não posso deixá-los em condição tão instável; e, por isso, pretendo, com a permissão de Deus, passar mais uma semana entre eles. Conversei com os Líderes e os pressionei fervorosamente a dar exemplo ao rebanho, andando em todos os mandamentos e ordenanças.

Escrevi ao meu irmão os meus pensamentos, como segue:

“A carta do sr. Walker merece ser seriamente considerada. Só uma coisa me ocorre agora, que poderia em grande medida evitar os males que provavelmente se seguirão depois da nossa morte; e é esta: muito maior deliberação e cuidado na admissão de Pregadores. Considera seriamente se não temos sido fáceis e apressados demais nessa questão. Peçamos a Deus que nos mostre se não terá sido essa a principal causa de tantos dos nossos Pregadores terem lamentavelmente fracassado. Deve algum novo Pregador ser recebido antes de sabermos que está firmado, não só nas doutrinas que ensinamos, mas também na disciplina, e particularmente na comunhão da Igreja da Inglaterra? Não deveríamos testar o que ele é capaz de responder a um batista, a um quacre, a um papista, tanto quanto a um predestinaciano ou a um morávio? Se não exigimos aquela storgé [afeição natural] pela nossa desolada mãe como pré-requisito, não deveríamos ao menos ter certeza de que o candidato não é inimigo da Igreja?

“Não é nosso dever impedir J. C., e outros como ele, de escarnecer e rir da Igreja? Não deveríamos agora, ao menos, fechar a porta da estrebaria? O pouco que me resta de vida está dedicado a esta única coisa: seguir os nossos filhos (como C. P. me disse que deveríamos seguir a ti) com baldes de água, para apagar a chama de contenda e divisão que eles acenderam ou possam acender.”

Sexta-feira, 22 de outubro

Depois da pregação, conversei com vários da Sociedade, particularmente com uma jovem que parecia inteiramente tomada pelo amor de Cristo, que recebera na véspera, em oração privada. Fui às orações de St. Anne’s e de lá à sala. Iniciamos a nossa primeira hora de intercessão. Muito mais gente do que eu esperava estava presente. Fiz uma exortação, mostrando a finalidade de nos reunirmos toda sexta-feira, como ingleses e membros da Igreja da Inglaterra, para deprecar os juízos nacionais e orar pela paz de Jerusalém. Raramente conheci assembleia tão solene. Ficaram contentes de saber que pretendemos continuar a nos reunir toda semana.

Dali fui buscar o que estava perdido, o pobre H. O. Ele me deixou muito feliz com a sua miséria e a sua inquietação por voltar. Mais uma vez, confio, haverá alegria no céu por causa dele.

Comecei, à noite, a expor toda a armadura de Deus, de Efésios 6. Depois que terminei, o famoso sr. Ball ergueu a voz; e magnífica voz era a dele. Mandei o nosso povo partir em paz, o que fizeram. O inimigo bramiu por algum tempo no meio da sala (não da congregação), ameaçando-me por difamá-lo e privar a sua família do pão. Creio que ele foi frustrado da sua presa por eu ter chegado in ipso temporis articulo [no exato momento], quando ele se prometia bom sustento à custa da nossa Sociedade. Não é de admirar que Satanás se enfureça com o seu fracasso.

Reuni-me com a Sociedade em calmo amor. Já não havia mais necessidade de eu mencionar o apóstolo de Satanás, pois ele se revelou o suficiente. A armadilha, com isso, foi rompida, e as almas simples, libertadas. Com amor, exortei-os a permanecer firmes num só espírito e num só sentimento, nos antigos caminhos determinados por Deus. De agora em diante, não crerão em todo espírito. O Senhor firme os seus corações na graça!

A experiência me convence cada vez mais de que os metodistas nunca poderão prosperar, nem sequer se manter, a menos que permaneçam firmes nas ordenanças. A Sociedade daqui costumava se dispersar no dia do Senhor pelos campos, ou dormir em casa. Isso convidava todas as feras do bosque a devorá-los. Baste o tempo que já passou. Já não ignoramos as maquinações de Satanás.

Sábado, 23 de outubro

Prossegui na exposição de toda a armadura de Deus. Chegamos um pouco cedo demais para o sr. Ball e os seus amigos, dois dos quais, na noite anterior, haviam posto as mãos violentas sobre mim. Uma era uma irmã nossa, até que a curiosidade a entregou nas mãos do sr. Ball.

Tomei o desjejum na casa do irmão Barlow e me alegrei na lembrança da sua abençoada irmã, agora na glória. Por sete anos, ela adornou o Evangelho em todas as coisas.

Montei a cavalo com o irmão Philips rumo a Hatfield, aonde chegamos por volta da uma. O sol brilhou o dia todo, sem uma nuvem, para grande consolo dos pobres lavradores. Encontrei em Hatfield exatamente o tipo de família que outrora havia no castelo de Fonmon. O senhor da casa estava ausente, mas deixara recado de que a sua igreja e a sua casa me esperavam.

Preguei às sete a uma casa cheia de paroquianos, sobre: “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para serem cancelados os vossos pecados” (At 3.19). Não os poupei. Suportaram a minha fala franca. Os despertados foram muito consolados.

A voz de júbilo e ação de graças está nas moradas dos justos. Julguei ter voltado ao castelo do sr. Jones. Continuamos o nosso triunfo por mais duas horas, e mal conseguimos nos separar por fim, e não sem lamentar conceder aos nossos corpos o descanso de que precisavam.

Domingo, 24 de outubro

Passei das sete às oito aconselhando e orando com os sinceros, que o sr. B. dividiu em classes como as nossas. Li as orações às dez e preguei a única coisa necessária. O Senhor encheu a minha boca de palavras despertadoras. Nunca falei de modo mais convincente. Todos pareceram sentir a afiada espada de dois gumes.

A igreja estava mais cheia do que jamais se vira numa manhã; mas, à tarde, estava lotada em cada canto. Saboreei a boa palavra enquanto a lia. De fato, a Escritura me chega com dobrado peso numa igreja. Se alguém me tem pena pela minha “intolerância”, eu tenho pena dele pelo seu preconceito cego, que o priva de tantas bênçãos.

O meu texto foi Lamentações 1.12: “Não vos comove isto, a todos vós que passais pelo caminho? Considerai…” O amor de Cristo crucificado derreteu muitos corações. Dirigi-me, alternadamente, aos não despertados, aos sinceros e aos desviados. Por uma hora, Deus me capacitou a falar com poder convincente e consolador. Depois do Salmo, recomecei e recapitulei tudo. Por que Deus sempre acompanha a palavra com dupla bênção quando é pregada na igreja? Será sinal de que ele a está deixando, ou de que está retornando a ela? Nunca fui mais auxiliado, desde que deixei Bristol, do que nesta igreja, e na do sr. Crook, e na do sr. Williamson. Aqueles Pregadores metodistas que tiverem fé e paciência poderão, com o tempo, ter abertas para si todas as igrejas da Inglaterra. Passei mais uma hora abençoada e cheia de vida com a Sociedade. Então, todo o meu estoque de forças se esgotou.

Segunda-feira, 25 de outubro

Das seis às sete, adverti-os e exortei-os com muitas lágrimas, provando a amargura da vida e os vários males pelos quais ainda temos de passar. Por volta das onze, voltei a Manchester.

Aqui, alegrei-me em ouvir do grande bem que o sr. Whitefield fez nas nossas Sociedades. Ele pregou tão universalmente quanto o meu irmão. Advertiu-os em toda parte contra a apostasia; e insistiu fortemente na necessidade da santidade após a justificação, ilustrando-a com esta comparação: “De que serviria o perdão do Rei a um pobre malfeitor que morre de febre? Assim, apesar de terdes recebido o perdão, a menos que a doença da vossa natureza seja curada pela santidade, jamais podereis ser salvos.” Ele abateu o espírito de separação, recomendou muito as orações e os cultos da nossa Igreja, ordenou ao nosso povo que se reunisse constantemente com os seus grupos e classes, e que nunca deixasse os metodistas, ou Deus os deixaria. Numa palavra: ele fez o máximo para fortalecer as nossas mãos, e merece o agradecimento de todas as igrejas, pelo seu abundante trabalho de amor.

Consultei os Líderes sobre o que se poderia fazer por este povo instável. Richard Barlow e os demais atribuíram a sua inconstância à negligência dos meios, particularmente do ir à igreja; “e, quando os aconselhávamos a isso, respondiam-nos: ‘Os Pregadores não nos aconselham a ir, nem eles mesmos vão.'” Aliás, alguns falavam contra isso, mesmo aqueles em quem mais confiávamos. O meu irmão e eu teríamos de fechar bem os olhos para não ver o coração de tais homens.

Terça-feira, 26 de outubro

O meu antigo amigo, o sr. Clayton, leu as orações na igreja velha, com grande solenidade.

Passei o dia escrevendo cartas na casa da irmã Fanshaw, a quem recebi de novo no aprisco. Ela nunca nos deixara de coração; mas os cuidados do mundo interromperam a sua comunhão exterior. Parece agora resolvida a viver e morrer com o pobre e afligido povo de Deus.

Resolvi uma briga de muitos meses entre duas irmãs. O motivo dela foi absolutamente nada. Tal é a astúcia do nosso adversário!

Depois da pregação, examinei três das classes mais vacilantes e persuadi todos, exceto os dissidentes, a voltar à igreja e à santa ceia. Os traidores agiram muito traiçoeiramente. Mesmo antes da nossa partida, os lobos cruéis entraram, sem poupar o rebanho. Quanto mais, depois da nossa partida, se levantarão dentre nós homens a falar coisas perversas, para arrastar os discípulos atrás de si!

Quarta-feira, 27 de outubro

Preguei a partir de Romanos 6.22: “Mas, agora, libertados do pecado e feitos servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação, e o fim é a vida eterna.” O Senhor confirmou a sua palavra com dupla bênção.

Fui, com J. Haughton, à igreja velha, como de costume. Preguei às seis; depois me reuni com a Sociedade e a repreendi com amor. Conversei com mais das classes, e só encontrei duas que não aceitavam conselho. Amaleque havia ferido os retardatários; assim, deixei que Amaleque os tomasse, ao menos enquanto preferirem o sr. Ball a todos os metodistas. Os demais, exceto uns poucos dissidentes, determinaram viver e morrer conosco na comunhão da Igreja da Inglaterra.

Quinta-feira, 28 de outubro

O sr. Fanshaw arrastou o seu corpo débil à pregação matinal. Depois de todas as suas andanças e recaídas, nós o recebemos de novo, confiamos, para sempre.

Preguei ao meio-dia perto de Davy-Hulme, com grande liberdade, a um povo de coração simples, que me compensou um pouco do meu longo esforço em Manchester.

Passei o restante do dia com alguns amigos de Manchester que não são da Sociedade. A instabilidade dos nossos filhos afastou muitos de se aventurar entre nós.

Comecei a nossa vigília noturna exatamente às sete e a concluí um quarto antes das onze. Com isso, tivemos mais tempo, com menos incômodo; e toda a congregação permaneceu do início ao fim. Expus a parábola das dez virgens. O poder solene de Deus repousou sobre nós. Foi uma das noites mais felizes que já conheci.

Fui constrangido a escrever as seguintes cartas:

AO SR. GRIMSHAW

Manchester, 29 de outubro.

“Não pude deixar esta pobre Sociedade abalada tão cedo quanto pretendia. Não tiveram tratamento justo dos nossos traiçoeiros filhos no Evangelho; foram, ao contrário, dispersos por eles como ovelhas pelos montes. Mais uma vez os persuadi a ir à igreja e à santa ceia, e fico para conduzi-los até lá no próximo dia do Senhor.

“Nada senão a graça pode guardar os nossos filhos, depois da nossa partida, de se lançarem em mil seitas, mil erros. A graça, exercida, mantida e aumentada no uso de todos os meios, especialmente a oração familiar e pública, e a santa ceia, os manterá firmes. Trabalhemos, enquanto aqui permanecermos, por firmá-los e edificá-los nas Escrituras e em todas as ordenanças. Ensina-os a manejar bem a espada do Espírito e o escudo da fé. Se eu viver para tornar a ver-te, confio que me assegurarás que não há um só membro de todas as tuas Sociedades que não leia a Escritura diariamente, use a oração privada, participe da oração familiar e…”

(A carta e o capítulo continuam adiante; o manuscrito prossegue no próximo capítulo.)

Tradução em linguagem de hoje, com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: The Journal of the Rev. Charles Wesley (ed. Thomas Jackson, Londres, 1849).