Como uma discussão acadêmica sobre indulgências, proposta por um monge alemão em 1517, virou o maior terremoto da história do cristianismo? O que Lutero descobriu na carta aos Romanos que mudou tudo? E o que exatamente nós, herdeiros wesleyanos, recebemos da Reforma, e onde dela discordamos?
O que esta aula cobre. O século 16, de 1500 a 1600: Lutero e a justificação pela fé, os ramos da Reforma (Zuínglio, Calvino, anabatistas), a Reforma na Inglaterra (berço do metodismo) e a resposta de Roma em Trento. É a última aula da série Dos Apóstolos à Reforma.
Situando-se na história
Linha do tempo (1500-1600)
1516
O Novo Testamento grego
Erasmo publica o texto grego: os eruditos comparam com a Vulgata, e certezas seculares balançam. Ad fontes.
31/10/1517
As 95 teses
Lutero envia ao arcebispo de Mainz (e, segundo a tradição, afixa em Wittenberg) suas teses contra a venda de indulgências. A imprensa faz o resto: em meses, a Europa inteira discute.
1521
Dieta de Worms
Diante do imperador: “minha consciência está cativa à Palavra de Deus”. Escondido em Wartburgo, Lutero traduz o Novo Testamento em onze semanas.
1525
Nascem os anabatistas
Em Zurique, discípulos de Zuínglio batizam-se mutuamente: batismo após a conversão, igreja separada do Estado. Serão perseguidos por todos os lados.
1536
Calvino em Genebra
O francês publica as Institutas e faz de Genebra uma escola de pastores para a Europa.
1534-1549
Reforma inglesa
Henrique VIII rompe com Roma (1534); Tyndale morre mártir (1536); Cranmer publica o Livro de Oração Comum (1549).
1545-1563
Concílio de Trento
Roma corrige abusos morais, mas anatematiza a justificação somente pela fé. As posições que separam até hoje ficam definidas.
1553-1559
Sangue e consolidação
Maria Tudor queima cerca de 300 protestantes, Cranmer entre eles; Elizabeth I consolida a Igreja da Inglaterra, berço futuro do metodismo.
Parte 1
Lutero: a redescoberta do evangelho
Martinho Lutero (1483-1546) era um monge agostiniano exemplar e atormentado. Jejuava, confessava-se por horas, castigava o corpo, e quanto mais se esforçava, mais sentia que a justiça de Deus era um tribunal diante do qual jamais estaria pronto.
A libertação veio do estudo da Escritura, como professor de Bíblia em Wittenberg, ao meditar em Rm 1.17: “a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé”. Lutero entendeu, enfim, que a justiça do evangelho não é a que Deus exige de nós, é a que Deus dá a nós; não é a régua que nos condena, é o presente que nos veste (Fp 3.9). Ao compreender isso, sentiu-se “renascido, entrando pelos próprios portões do paraíso”.
O choque com o sistema veio pela via pastoral. Em 1517, o frade Tetzel vendia indulgências perto de Wittenberg com marketing de feira (“tão logo a moeda no cofre soa, a alma do purgatório voa”). Lutero, indignado como pastor de almas, propôs um debate acadêmico: em 31 de outubro de 1517, enviou 95 teses ao arcebispo Alberto de Mainz e, segundo a tradição, afixou-as na porta da igreja do castelo de Wittenberg. A primeira tese já continha o programa inteiro: quando Jesus disse “arrependei-vos” (Mt 4.17), quis que toda a vida do crente fosse arrependimento, não um ato tarifado no balcão da igreja.
Pressionado a retratar-se, Lutero foi radicalizando com coerência: se a Escritura está acima do papa (a tese de Wycliffe e Hus; ele mesmo reconheceu em debate: “somos todos hussitas sem saber”), então cai o edifício das indulgências e do tesouro de méritos. Excomungado, foi convocado em 1521 à dieta de Worms e, diante do imperador Carlos V, recusou retratar-se (o texto está nas fontes abaixo). Sequestrado por amigos para sua proteção, traduziu no castelo de Wartburgo o Novo Testamento para o alemão do povo em onze semanas.
Parte 2
As colunas da Reforma: os solas
A tradição protestante posterior resumiu as grandes ênfases da Reforma em cinco lemas latinos, e vale fixá-los: são a gramática comum de todas as igrejas evangélicas, a nossa incluída.
Sola Scriptura
Somente a Escritura é a autoridade final e infalível; tradições e concílios valem enquanto conformes a ela.
Sola gratia
A salvação nasce somente da graça, favor imerecido de Deus, jamais do mérito humano (Ef 2.8-9).
Sola fide
O pecador é justificado somente pela fé em Cristo, não pelas obras, que são fruto e não raiz da salvação (Rm 3.28; Gl 2.16).
Solus Christus
Só Cristo é mediador entre Deus e os homens (1Tm 2.5), dispensando a mediação de sacerdotes, santos e méritos.
Soli Deo gloria
Toda a glória, somente a Deus.
Parte 3
A Reforma se ramifica
Zuínglio em Zurique
Ulrico Zuínglio (1484-1531) chegou a convicções semelhantes às de Lutero pelo estudo do Novo Testamento grego, e reformou a cidade a partir da pregação expositiva. Lutero e Zuínglio romperam em Marburgo (1529) por causa da Ceia: Lutero mantinha a presença corporal de Cristo no pão e no vinho; Zuínglio via memorial e sinal. A Reforma nascia já dividida: libertou a Escritura, mas não aboliu o orgulho dos intérpretes.
Calvino em Genebra
O francês João Calvino (1509-1564) deu à Reforma sua mente mais sistemática. As Institutas são a obra teológica mais influente do protestantismo, e a Genebra de Calvino formou pastores para a França, a Holanda, a Escócia e a Inglaterra. Devemos a Calvino a ênfase na soberania de Deus, na pregação expositiva e na disciplina eclesiástica. Ao mesmo tempo, seu nome ficou ligado à dupla predestinação, contra a qual a tradição armínio-wesleyana levanta objeções bíblicas sérias, e ao episódio sombrio da execução de Serveto (1553), que lembra que os reformadores permaneceram homens do seu século, dispostos a usar o braço do Estado contra hereges. Calvino foi um gigante da Escritura, e nem os gigantes são infalíveis.
Os anabatistas
O ramo mais perseguido. Em Zurique, 1525, jovens discípulos de Zuínglio concluíram que a lógica da Reforma pedia mais: se a fé é pessoal, o batismo deve seguir a conversão, e a igreja deve ser comunidade voluntária de crentes, separada do Estado. Foram afogados, queimados e degolados por católicos e protestantes igualmente. Os ramos que sobreviveram, sobretudo os que desembocaram na tradição menonita, defendiam liberdade de consciência e não violência (houve exceções trágicas, como o episódio de Münster, em 1534-1535), e a história lhes deu mais razão do que seus verdugos admitiriam: igreja livre do Estado e liberdade religiosa são hoje convicções da maior parte do mundo evangélico.
Parte 4
A Reforma na Inglaterra: o berço do metodismo
A ruptura institucional com Roma foi precipitada pelo pior dos motivos: Henrique VIII queria anular seu casamento, o papa negou, e o Ato de Supremacia (1534) fez do rei o cabeça da Igreja da Inglaterra. Mas correntes reformadoras e humanistas já circulavam na Inglaterra, e Deus escreve certo por linhas tortas: por baixo da política real trabalhava gente de convicção evangélica.
William Tyndale
Proibido na Inglaterra, traduziu no exílio o Novo Testamento do grego para o inglês (1526) e foi estrangulado e queimado por isso em 1536, orando: “Senhor, abre os olhos do rei da Inglaterra”. Três anos depois, a Bíblia em inglês, construída sobre o trabalho dele, estava por ordem real em cada paróquia do país.
Thomas Cranmer
O arcebispo moldou a alma da nova igreja com o Livro de Oração Comum (1549), que colocou a oração pública inteira na língua do povo, e com artigos de fé de doutrina claramente protestante. Sob Maria Tudor, pressionado, assinou retratações; na hora final, renegou-as publicamente e estendeu primeiro ao fogo a mão direita que as havia assinado.
De Elizabeth a Wesley
O sangue dos cerca de 300 mártires de Maria Tudor selou a alma protestante da Inglaterra. Com Elizabeth I (1559), consolidou-se a Igreja da Inglaterra: protestante na doutrina, episcopal no governo, litúrgica no culto. Duzentos anos depois, dois presbíteros dessa igreja, John e Charles Wesley, acenderiam dentro dela o avivamento metodista. A Igreja Metodista Livre do Brasil é, por essa linhagem, bisneta da Reforma inglesa.
Roma respondeu no Concílio de Trento (1545-1563): corrigiu abusos morais e disciplinares reais, mas anatematizou formalmente a justificação somente pela fé, definindo as posições que separam católicos e protestantes até hoje.
Fontes primárias
Vozes da Reforma
Dieta de Worms · 1521
Lutero diante do imperador
“A menos que eu seja convencido pelo testemunho das Escrituras ou por razões evidentes (pois não confio nem no papa nem nos concílios sozinhos, visto que está claro que muitas vezes erraram e contradisseram a si mesmos), estou vencido pelas Escrituras que citei, e minha consciência está cativa à Palavra de Deus. Não posso nem quero retratar-me de coisa alguma, pois agir contra a consciência não é seguro nem honesto. Que Deus me ajude. Amém.”
[N. do T.: a famosa frase “Aqui estou; não posso fazer de outro modo” aparece nas primeiras edições impressas do discurso, mas não consta das atas; por honestidade histórica, citamos o texto seguro.]
95 teses · 1517
A primeira e a sexagésima segunda
“1. Ao dizer ‘arrependei-vos’, o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse arrependimento. […] 62. O verdadeiro tesouro da igreja é o sacrossanto evangelho da glória e da graça de Deus.”
Relato de Foxe
Tyndale, a um clérigo
“Se Deus poupar a minha vida, antes de muitos anos farei que o rapaz que conduz o arado saiba mais da Escritura do que tu.”
A ponte wesleyana
O que Wesley recebeu da Reforma, e onde discordou
Fechamos a série onde a segunda série começará. John Wesley é filho da Reforma por linhagem direta: presbítero da igreja de Cranmer, nutrido pelo Livro de Oração Comum e pelos artigos de fé ingleses.
E a própria experiência que definiu sua vida é um laço com Lutero: na noite de 24 de maio de 1738, na rua Aldersgate, ouvindo a leitura do prefácio de Lutero à carta aos Romanos, Wesley registrou no Diário: “senti meu coração estranhamente aquecido. Senti que confiava em Cristo, somente em Cristo, para a salvação; e me foi dada a certeza de que ele havia tirado os meus pecados, os meus mesmos”. A justificação pela fé somente, coração da Reforma, é o coração do metodismo; Wesley a chamou de doutrina fundamental e pregou-a até morrer.
Onde Wesley discordou foi dentro da família reformada, não contra ela. Contra a dupla predestinação, sustentou com Armínio que a expiação de Cristo é para todos (1Jo 2.2; Hb 2.9), que a graça de Deus alcança a todos e pode ser resistida (At 7.51), e que Deus “quer que todos sejam salvos” (1Tm 2.4), elegendo em Cristo os que creem. E à ênfase reformada na fé, Wesley soldou a ênfase que recebeu dos pais antigos: a santificação, a fé que opera pelo amor (Gl 5.6) até o amor perfeito. Justificados pela fé somente, como ensinou a Reforma; santificados até o amor pleno, como buscou Wesley: eis a herança completa que esta série quis mapear, dos apóstolos até a porta do avivamento.
A segunda série, “Da Reforma aos nossos dias”, contará essa continuação: puritanos e Armínio, o pietismo, Wesley e o avivamento, os grandes despertamentos, o movimento de santidade e B. T. Roberts, até a igreja global e brasileira de hoje.
Da história para a vida
Aplicação pastoral
1
A justificação não é assunto de museu
Cada geração reinventa a salvação por obras: moralismo religioso, barganha de prosperidade, autoajuda espiritual. O alívio que inundou Lutero é a boa notícia que nosso vizinho exausto precisa ouvir: “nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1).
2
Igreja reformada, sempre em reforma
O lema não autoriza novidades doutrinárias; exige o contrário: o retorno permanente à Escritura como juiz de nossas práticas e estruturas, inclusive as evangélicas, inclusive as nossas. A Reforma não é um evento a comemorar, é um critério a aplicar.
3
Aprender também com os erros
Os reformadores perseguiram anabatistas, atrelaram igrejas a príncipes, dividiram-se por orgulho tanto quanto por doutrina. Herdar a Reforma criticamente é guardar suas doutrinas e rejeitar seus métodos carnais: firmeza na verdade e mansidão com as pessoas (Ef 4.15).
Fixação
Cartões de memorização
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Avaliação
Teste o que você aprendeu
Dez questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe: errar aqui também ensina.
0 de 10 respondidas
Para pensar e conversar
Perguntas para reflexão
“Cada geração reinventa a salvação por obras.” Em que versões o evangelho de mérito aparece hoje (no moralismo, na prosperidade, na autoajuda), e como a justificação pela fé responde a cada uma?Ver resposta sugerida
As três versões têm a mesma gramática de Tetzel: faça, pague, mereça. O moralismo diz: Deus me aceita porque me comporto (a resposta é Rm 3.28: somos justificados pela fé, sem as obras; o comportamento é fruto, não moeda). A teologia da barganha diz: Deus me abençoa porque semeei, dei, declarei (a resposta é a tese 62 de Lutero: o verdadeiro tesouro da igreja é o evangelho da graça, não um balcão de trocas; e Ef 2.8-9 exclui qualquer vanglória). A autoajuda espiritualizada diz: Deus me aceita porque sou bom no fundo e me esforço para evoluir (a resposta é o próprio Lutero monge: o esforço sincero sem graça só produz exaustão e medo; o alívio veio de fora, de Cristo). O teste prático para qualquer pregação: se a boa notícia depende do que eu faço, é Tetzel de roupa nova; se depende do que Cristo fez, é evangelho (Rm 8.1).
Um amigo católico sincero pergunta: “então vocês acham que nós não somos salvos?”. À luz desta série inteira, como responder com verdade e caridade?Ver resposta sugerida
Comece pelo chão comum, que é enorme e esta série mostrou: confessamos juntos o Credo Niceno, a Trindade, Calcedônia; honramos os mesmos pais, Agostinho, Crisóstomo, Bernardo. Ninguém é salvo ou perdido pelo rótulo da denominação: a salvação é pessoal, pela graça, mediante a fé em Cristo (Ef 2.8-9), e há pessoas nascidas de novo, e pessoas não convertidas, dos dois lados do muro. Dito isso, a divergência definida em Trento é real e séria, e a caridade não a esconde: cremos que a justificação é pela fé somente, dom recebido e não mérito construído, e que nenhuma mediação além de Cristo é necessária (1Tm 2.5). Por isso a pergunta que devolvo com amor não é “qual é a sua igreja?”, e sim a de sempre: “em que você confia para estar diante de Deus?”. Se a resposta for “em Cristo somente”, alegre-se; se for “nos meus esforços e práticas”, apresente o alívio que Lutero encontrou. Verdade sem caridade endurece; caridade sem verdade abandona. O evangelho exige as duas (Ef 4.15).
Você concluiu a série “Dos Apóstolos à Reforma”, e a história continua: a segunda série, “Da Reforma aos nossos dias”, já está no ar: puritanos e Armínio, o pietismo, Wesley e o avivamento, os despertamentos, B. T. Roberts, o século 20, o Brasil e a igreja global. Comece pela Aula 1 da Série 2.
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. Trechos de fontes históricas traduzidos dos originais em domínio público com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.