História da IgrejaAula 8

A Reforma Protestante: Lutero, Calvino e a Reforma na Inglaterra

“Porque no evangelho é revelada a justiça de Deus, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé.”Romanos 1.17 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Rm 1.16-17; Rm 3.21-28; Gl 2.15-21; Ef 2.1-10

Para começar

O maior terremoto da história da igreja

Como uma discussão acadêmica sobre indulgências, proposta por um monge alemão em 1517, virou o maior terremoto da história do cristianismo? O que Lutero descobriu na carta aos Romanos que mudou tudo? E o que exatamente nós, herdeiros wesleyanos, recebemos da Reforma, e onde dela discordamos?

O que esta aula cobre. O século 16, de 1500 a 1600: Lutero e a justificação pela fé, os ramos da Reforma (Zuínglio, Calvino, anabatistas), a Reforma na Inglaterra (berço do metodismo) e a resposta de Roma em Trento. É a última aula da série Dos Apóstolos à Reforma.

Situando-se na história

Linha do tempo (1500-1600)

1516

O Novo Testamento grego

Erasmo publica o texto grego: os eruditos comparam com a Vulgata, e certezas seculares balançam. Ad fontes.

31/10/1517

As 95 teses

Lutero envia ao arcebispo de Mainz (e, segundo a tradição, afixa em Wittenberg) suas teses contra a venda de indulgências. A imprensa faz o resto: em meses, a Europa inteira discute.

1521

Dieta de Worms

Diante do imperador: “minha consciência está cativa à Palavra de Deus”. Escondido em Wartburgo, Lutero traduz o Novo Testamento em onze semanas.

1525

Nascem os anabatistas

Em Zurique, discípulos de Zuínglio batizam-se mutuamente: batismo após a conversão, igreja separada do Estado. Serão perseguidos por todos os lados.

1536

Calvino em Genebra

O francês publica as Institutas e faz de Genebra uma escola de pastores para a Europa.

1534-1549

Reforma inglesa

Henrique VIII rompe com Roma (1534); Tyndale morre mártir (1536); Cranmer publica o Livro de Oração Comum (1549).

1545-1563

Concílio de Trento

Roma corrige abusos morais, mas anatematiza a justificação somente pela fé. As posições que separam até hoje ficam definidas.

1553-1559

Sangue e consolidação

Maria Tudor queima cerca de 300 protestantes, Cranmer entre eles; Elizabeth I consolida a Igreja da Inglaterra, berço futuro do metodismo.

Parte 1

Lutero: a redescoberta do evangelho

Martinho Lutero (1483-1546) era um monge agostiniano exemplar e atormentado. Jejuava, confessava-se por horas, castigava o corpo, e quanto mais se esforçava, mais sentia que a justiça de Deus era um tribunal diante do qual jamais estaria pronto.

A libertação veio do estudo da Escritura, como professor de Bíblia em Wittenberg, ao meditar em Rm 1.17: “a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé”. Lutero entendeu, enfim, que a justiça do evangelho não é a que Deus exige de nós, é a que Deus dá a nós; não é a régua que nos condena, é o presente que nos veste (Fp 3.9). Ao compreender isso, sentiu-se “renascido, entrando pelos próprios portões do paraíso”.

O choque com o sistema veio pela via pastoral. Em 1517, o frade Tetzel vendia indulgências perto de Wittenberg com marketing de feira (“tão logo a moeda no cofre soa, a alma do purgatório voa”). Lutero, indignado como pastor de almas, propôs um debate acadêmico: em 31 de outubro de 1517, enviou 95 teses ao arcebispo Alberto de Mainz e, segundo a tradição, afixou-as na porta da igreja do castelo de Wittenberg. A primeira tese já continha o programa inteiro: quando Jesus disse “arrependei-vos” (Mt 4.17), quis que toda a vida do crente fosse arrependimento, não um ato tarifado no balcão da igreja.

Pressionado a retratar-se, Lutero foi radicalizando com coerência: se a Escritura está acima do papa (a tese de Wycliffe e Hus; ele mesmo reconheceu em debate: “somos todos hussitas sem saber”), então cai o edifício das indulgências e do tesouro de méritos. Excomungado, foi convocado em 1521 à dieta de Worms e, diante do imperador Carlos V, recusou retratar-se (o texto está nas fontes abaixo). Sequestrado por amigos para sua proteção, traduziu no castelo de Wartburgo o Novo Testamento para o alemão do povo em onze semanas.

Parte 2

As colunas da Reforma: os solas

A tradição protestante posterior resumiu as grandes ênfases da Reforma em cinco lemas latinos, e vale fixá-los: são a gramática comum de todas as igrejas evangélicas, a nossa incluída.

Sola Scriptura

Somente a Escritura é a autoridade final e infalível; tradições e concílios valem enquanto conformes a ela.

Sola gratia

A salvação nasce somente da graça, favor imerecido de Deus, jamais do mérito humano (Ef 2.8-9).

Sola fide

O pecador é justificado somente pela fé em Cristo, não pelas obras, que são fruto e não raiz da salvação (Rm 3.28; Gl 2.16).

Solus Christus

Só Cristo é mediador entre Deus e os homens (1Tm 2.5), dispensando a mediação de sacerdotes, santos e méritos.

Soli Deo gloria

Toda a glória, somente a Deus.

Parte 3

A Reforma se ramifica

Zuínglio em Zurique

Ulrico Zuínglio (1484-1531) chegou a convicções semelhantes às de Lutero pelo estudo do Novo Testamento grego, e reformou a cidade a partir da pregação expositiva. Lutero e Zuínglio romperam em Marburgo (1529) por causa da Ceia: Lutero mantinha a presença corporal de Cristo no pão e no vinho; Zuínglio via memorial e sinal. A Reforma nascia já dividida: libertou a Escritura, mas não aboliu o orgulho dos intérpretes.

Calvino em Genebra

O francês João Calvino (1509-1564) deu à Reforma sua mente mais sistemática. As Institutas são a obra teológica mais influente do protestantismo, e a Genebra de Calvino formou pastores para a França, a Holanda, a Escócia e a Inglaterra. Devemos a Calvino a ênfase na soberania de Deus, na pregação expositiva e na disciplina eclesiástica. Ao mesmo tempo, seu nome ficou ligado à dupla predestinação, contra a qual a tradição armínio-wesleyana levanta objeções bíblicas sérias, e ao episódio sombrio da execução de Serveto (1553), que lembra que os reformadores permaneceram homens do seu século, dispostos a usar o braço do Estado contra hereges. Calvino foi um gigante da Escritura, e nem os gigantes são infalíveis.

Os anabatistas

O ramo mais perseguido. Em Zurique, 1525, jovens discípulos de Zuínglio concluíram que a lógica da Reforma pedia mais: se a fé é pessoal, o batismo deve seguir a conversão, e a igreja deve ser comunidade voluntária de crentes, separada do Estado. Foram afogados, queimados e degolados por católicos e protestantes igualmente. Os ramos que sobreviveram, sobretudo os que desembocaram na tradição menonita, defendiam liberdade de consciência e não violência (houve exceções trágicas, como o episódio de Münster, em 1534-1535), e a história lhes deu mais razão do que seus verdugos admitiriam: igreja livre do Estado e liberdade religiosa são hoje convicções da maior parte do mundo evangélico.

Parte 4

A Reforma na Inglaterra: o berço do metodismo

A ruptura institucional com Roma foi precipitada pelo pior dos motivos: Henrique VIII queria anular seu casamento, o papa negou, e o Ato de Supremacia (1534) fez do rei o cabeça da Igreja da Inglaterra. Mas correntes reformadoras e humanistas já circulavam na Inglaterra, e Deus escreve certo por linhas tortas: por baixo da política real trabalhava gente de convicção evangélica.

William Tyndale

Proibido na Inglaterra, traduziu no exílio o Novo Testamento do grego para o inglês (1526) e foi estrangulado e queimado por isso em 1536, orando: “Senhor, abre os olhos do rei da Inglaterra”. Três anos depois, a Bíblia em inglês, construída sobre o trabalho dele, estava por ordem real em cada paróquia do país.

Thomas Cranmer

O arcebispo moldou a alma da nova igreja com o Livro de Oração Comum (1549), que colocou a oração pública inteira na língua do povo, e com artigos de fé de doutrina claramente protestante. Sob Maria Tudor, pressionado, assinou retratações; na hora final, renegou-as publicamente e estendeu primeiro ao fogo a mão direita que as havia assinado.

De Elizabeth a Wesley

O sangue dos cerca de 300 mártires de Maria Tudor selou a alma protestante da Inglaterra. Com Elizabeth I (1559), consolidou-se a Igreja da Inglaterra: protestante na doutrina, episcopal no governo, litúrgica no culto. Duzentos anos depois, dois presbíteros dessa igreja, John e Charles Wesley, acenderiam dentro dela o avivamento metodista. A Igreja Metodista Livre do Brasil é, por essa linhagem, bisneta da Reforma inglesa.

Roma respondeu no Concílio de Trento (1545-1563): corrigiu abusos morais e disciplinares reais, mas anatematizou formalmente a justificação somente pela fé, definindo as posições que separam católicos e protestantes até hoje.

Fontes primárias

Vozes da Reforma

A ponte wesleyana

O que Wesley recebeu da Reforma, e onde discordou

Fechamos a série onde a segunda série começará. John Wesley é filho da Reforma por linhagem direta: presbítero da igreja de Cranmer, nutrido pelo Livro de Oração Comum e pelos artigos de fé ingleses.

E a própria experiência que definiu sua vida é um laço com Lutero: na noite de 24 de maio de 1738, na rua Aldersgate, ouvindo a leitura do prefácio de Lutero à carta aos Romanos, Wesley registrou no Diário: “senti meu coração estranhamente aquecido. Senti que confiava em Cristo, somente em Cristo, para a salvação; e me foi dada a certeza de que ele havia tirado os meus pecados, os meus mesmos”. A justificação pela fé somente, coração da Reforma, é o coração do metodismo; Wesley a chamou de doutrina fundamental e pregou-a até morrer.

A segunda série, “Da Reforma aos nossos dias”, contará essa continuação: puritanos e Armínio, o pietismo, Wesley e o avivamento, os grandes despertamentos, o movimento de santidade e B. T. Roberts, até a igreja global e brasileira de hoje.

Da história para a vida

Aplicação pastoral

1

A justificação não é assunto de museu

Cada geração reinventa a salvação por obras: moralismo religioso, barganha de prosperidade, autoajuda espiritual. O alívio que inundou Lutero é a boa notícia que nosso vizinho exausto precisa ouvir: “nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1).

2

Igreja reformada, sempre em reforma

O lema não autoriza novidades doutrinárias; exige o contrário: o retorno permanente à Escritura como juiz de nossas práticas e estruturas, inclusive as evangélicas, inclusive as nossas. A Reforma não é um evento a comemorar, é um critério a aplicar.

3

Aprender também com os erros

Os reformadores perseguiram anabatistas, atrelaram igrejas a príncipes, dividiram-se por orgulho tanto quanto por doutrina. Herdar a Reforma criticamente é guardar suas doutrinas e rejeitar seus métodos carnais: firmeza na verdade e mansidão com as pessoas (Ef 4.15).

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o conteúdo. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Dez questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe: errar aqui também ensina.

0 de 10 respondidas

Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

“Cada geração reinventa a salvação por obras.” Em que versões o evangelho de mérito aparece hoje (no moralismo, na prosperidade, na autoajuda), e como a justificação pela fé responde a cada uma?Ver resposta sugerida
As três versões têm a mesma gramática de Tetzel: faça, pague, mereça. O moralismo diz: Deus me aceita porque me comporto (a resposta é Rm 3.28: somos justificados pela fé, sem as obras; o comportamento é fruto, não moeda). A teologia da barganha diz: Deus me abençoa porque semeei, dei, declarei (a resposta é a tese 62 de Lutero: o verdadeiro tesouro da igreja é o evangelho da graça, não um balcão de trocas; e Ef 2.8-9 exclui qualquer vanglória). A autoajuda espiritualizada diz: Deus me aceita porque sou bom no fundo e me esforço para evoluir (a resposta é o próprio Lutero monge: o esforço sincero sem graça só produz exaustão e medo; o alívio veio de fora, de Cristo). O teste prático para qualquer pregação: se a boa notícia depende do que eu faço, é Tetzel de roupa nova; se depende do que Cristo fez, é evangelho (Rm 8.1).
Um amigo católico sincero pergunta: “então vocês acham que nós não somos salvos?”. À luz desta série inteira, como responder com verdade e caridade?Ver resposta sugerida
Comece pelo chão comum, que é enorme e esta série mostrou: confessamos juntos o Credo Niceno, a Trindade, Calcedônia; honramos os mesmos pais, Agostinho, Crisóstomo, Bernardo. Ninguém é salvo ou perdido pelo rótulo da denominação: a salvação é pessoal, pela graça, mediante a fé em Cristo (Ef 2.8-9), e há pessoas nascidas de novo, e pessoas não convertidas, dos dois lados do muro. Dito isso, a divergência definida em Trento é real e séria, e a caridade não a esconde: cremos que a justificação é pela fé somente, dom recebido e não mérito construído, e que nenhuma mediação além de Cristo é necessária (1Tm 2.5). Por isso a pergunta que devolvo com amor não é “qual é a sua igreja?”, e sim a de sempre: “em que você confia para estar diante de Deus?”. Se a resposta for “em Cristo somente”, alegre-se; se for “nos meus esforços e práticas”, apresente o alívio que Lutero encontrou. Verdade sem caridade endurece; caridade sem verdade abandona. O evangelho exige as duas (Ef 4.15).

Fim da série, e um convite

Para aprofundar. Leia Romanos 1-5 e Gálatas com as Notas de John Wesley sobre o Novo Testamento. Sobre o debate entre calvinismo e arminianismo, este site mantém dois estudos detalhados: Os textos de prova do calvinismo e Os textos do debate. E o Diário de John Wesley conta, na primeira pessoa, a noite de Aldersgate.

Você concluiu a série “Dos Apóstolos à Reforma”, e a história continua: a segunda série, “Da Reforma aos nossos dias”, já está no ar: puritanos e Armínio, o pietismo, Wesley e o avivamento, os despertamentos, B. T. Roberts, o século 20, o Brasil e a igreja global. Comece pela Aula 1 da Série 2.

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. Trechos de fontes históricas traduzidos dos originais em domínio público com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.