DIÁRIO DE WESLEY · CAPÍTULO 8

Wesley e os soldados; de novo na Irlanda; queimado em efígie; Wesley, editor

O casamento de Charles em Garth; a classe dos soldados de Limerick; Bolton transformada em poucas horas; o prefeito de Cork soltando a turba que queimou Wesley em efígie — e o Wesley editor, preparando gramáticas e compêndios para as crianças de Kingswood.

1749–1750 ⏱ 38 min de leituraCork e Kingswood

“Meu coração se encheu de amor, meus olhos de lágrimas e minha boca de argumentos.”

(Diário, 18 de outubro de 1749 (Bolton))

Antes de ler

O capítulo abre com cenas de família e de pastoreio: Wesley celebra o casamento do irmão Charles com Sarah Gwynne (“um dia solene, como convém à dignidade de um casamento cristão”), reúne em Limerick uma classe formada só de soldados e registra, mais adiante, a morte de John Jane — o pregador itinerante cujos bens não bastaram para o próprio funeral: “o bastante”, comenta Wesley sem ironia amarga, “para qualquer pregador solteiro do evangelho deixar aos seus testamenteiros” (2Co 6.10).

Em Cork, a perseguição ganha o seu rosto mais institucional: o próprio prefeito manda os tambores abafarem a pregação, a turba destrói a casa de reuniões, e Wesley é queimado em efígie em procissão pública. E, no entanto, a maré vira: em Kinsale são os soldados que protegem a pregação, e o coronel adverte a turba. “Eis uma virada digna de Deus! Não reina ele no céu e na terra?” Note também a observação sobre o “lamento irlandês” — as carpideiras contratadas que uivavam sem derramar uma lágrima: o olhar atento de Wesley para a cultura dos lugares por onde passava.

A cena de Bolton é das mais belas do Diário. Diante de uma turba pior que a de Rochdale, Wesley desce ao meio deles com as únicas armas que conhecia: “meu coração se encheu de amor, meus olhos de lágrimas e minha boca de argumentos”. Em poucas horas, a cidade que rugia pedia mais pregação. É o evangelho fazendo o que a força nunca fez (Pv 15.1).

E há o Wesley editor: semanas inteiras em Kingswood revisando gramáticas, antologias e compêndios de história para as crianças da escola — sem poupar juízo crítico nem mesmo de Lutero, de quem lamenta que não tivesse “um amigo fiel que o repreendesse com franqueza”. O ministério também se exerce na mesa de trabalho: quem discipulará as crianças, senão quem prepara para elas o melhor alimento? (2Tm 3.15)

— Bispo Ildo Mello

Texto:

Wesley no País de Gales

1749. Segunda-feira, 3 de abril. Parti para a Irlanda. Esperamos mais de quatro horas na travessia; com a demora, fui forçado a desapontar uma grande congregação em Newport. Por volta das três cheguei a Pedras, perto de Carphilly. A congregação havia esperado algumas horas; comecei imediatamente, molhado e cansado como estava; e alegramo-nos por todo o nosso trabalho.

À tarde e na manhã seguinte (terça, 4) preguei em Cardiff. Oh, que belo panorama havia aqui alguns anos atrás! Certamente esta cidade inteira teria conhecido a Deus, do menor até o maior, não fosse por homens que se apoiaram no próprio entendimento, em vez de na “lei e no testemunho” (Is 8.20).

Ao meio-dia preguei em Lanmais, a um povo amoroso e fervoroso, que não deseja ser mais sábio do que Deus. À tarde preguei em Fonmon; na manhã seguinte, em Cowbridge. Como mudou a cena desde a última vez que estive aqui, em meio à loucura do povo e às pedras voando de todos os lados! Agora tudo é calma; a cidade inteira está de bom humor, e acorrem para ouvir as boas-novas da salvação. À tarde preguei em Lantrissent.

Quinta-feira, 6. Cavalgamos a um lugar de nome difícil, no alto de uma montanha. Quase não vi casa alguma por perto; contudo, um grande número de gente honesta e simples logo se reuniu. Poucos, porém, podiam entender-me; assim, Henry Lloyd, quando terminei, repetiu em galês a substância do meu sermão. O comportamento do povo nos recompensou pelo trabalho de subir até eles.

O casamento do irmão

Por volta do meio-dia chegamos a Aberdare, justamente quando o sino dobrava para um enterro. Isso havia reunido muita gente, à qual, depois do sepultamento, preguei na igreja. Tivemos chuva quase contínua de Aberdare até a grande montanha áspera que domina o vale de Brecknock; mas, assim que ganhamos o seu topo, deixamos as nuvens para trás e tivemos uma tarde amena, clara e ensolarada pelo resto da viagem.

Sexta-feira, 7. Chegamos a Garth. Sábado, 8: casei o meu irmão com Sarah Gwynne. Foi um dia solene, como convém à dignidade de um casamento cristão.

Quarta-feira, 12. Chegamos a Holyhead entre uma e duas. Mas todos os navios estavam do lado irlandês. Um entrou no dia seguinte, mas não pôde sair, sendo o vento inteiramente contrário. Nesta viagem li a Tebaida de Estácio. Admira-me que um mesmo homem escreva tão bem e tão mal: às vezes mal fica abaixo de Virgílio; às vezes desce ao nível das partes mais insossas de Ovídio.

À tarde preguei sobre “Estejam vocês também preparados” (Mt 24.44). O pobre povo pareceu profundamente tocado, e igualmente na noite seguinte; de modo que não lamentei o vento contrário.

Sábado, 15. Embarcamos às seis, com o vento em pleno leste. Mas, mal saímos do porto, ele virou sudoeste e soprou tempestade. Avançamos mesmo assim e, por volta de uma hora, chegamos a duas ou três léguas da terra. O vento então faltou por completo; e uma calmaria súbita, depois de uma tempestade, produziu um balanço como eu nunca sentira. Não tardou que o vento se levantasse do oeste, obrigando-nos a rumar para as Skerries. Quando faltava uma légua para a costa, fez-se calmaria de novo, e ali ficamos jogando até depois do pôr do sol.

Mas, durante a noite, voltamos à baía de Dublin e desembarcamos pouco depois das três em Dunleary, a umas sete milhas inglesas da cidade. Deixando William Tucker para me seguir numa carruagem, caminhei direto e cheguei a Skinner’s Alley pouco antes da hora da pregação. Preguei sobre “Amados, se Deus nos amou assim, devemos também amar uns aos outros” (1Jo 4.11). À tarde e de novo ao anoitecer (no nosso próprio jardim), preguei sobre “Acheguemo-nos com confiança ao trono da graça, para recebermos misericórdia e acharmos graça que nos ajude em tempo oportuno” (Hb 4.16).

Na quinta e na sexta-feira examinei as classes e fui muito consolado entre eles. Eu havia deixado cerca de quatrocentos na sociedade; e, depois de todas as pedras de tropeço postas no caminho, achei quatrocentos e quarenta e nove.

Segunda-feira, 24. O resfriado que eu vinha tendo piorava cada vez mais, e o inchaço que começara na minha face crescia muito e me doía bastante; mandei chamar o doutor Rutty. Enquanto isso, apliquei urtigas fervidas, que tiraram a dor num momento. Depois usei melaço morno, que abateu de tal modo o inchaço que, antes de o doutor chegar, eu estava quase bom. Ele me aconselhou, contudo, a não sair naquele dia. Mas eu havia marcado a leitura das cartas para a tarde; voltei para casa o mais cedo que pude e não senti inconveniente algum.

Os metodistas alugam uma abadia

Sexta-feira, 12 de maio. Antes das nove chegamos a Nenagh. Eu não tinha intenção de pregar; mas um dos dragões ali aquartelados não aceitou recusa; mandei, pois, levar uma cadeira para fora e fui à praça do mercado. Logo se juntou ao meu redor uma congregação como eu não via desde que deixei Athlone. A estes falei, como pude, todo o conselho de Deus, e então cavalguei animado para Limerick.

Entre seis e sete preguei em Mardyke (um lugar aberto fora das muralhas) a cerca de duas mil pessoas — das quais não vi uma só rir, olhar ao redor ou atentar para outra coisa que não o sermão.

Alguns anos atrás, uma velha abadia daqui foi reconstruída com o propósito de nela haver culto público. Frustrado o plano, só a casca do edifício ficou pronta. Deste prédio (que jazia sem uso) a sociedade tomou um arrendamento. Ali preguei na manhã de sábado, 13, a seiscentas ou setecentas pessoas.

Fomos depois às orações na catedral, um edifício antigo e venerável. À tarde dei a volta às muralhas da cidade, que mal chega ao tamanho de Newcastle-upon-Tyne. E as fortificações estão no mesmo estado de conservação: muito suficientes para deter os irlandeses bravios.

Domingo, 14 (Pentecostes). Nossa igreja ficou mais que cheia pela manhã, tendo muitos de ficar do lado de fora. Mal percebi o passar do tempo, e continuei falando até perto das sete. Às onze fui à catedral. Haviam-me informado ser costume ali, especialmente da alta sociedade, rir e conversar durante todo o culto divino; mas nada disso vi. A congregação inteira, ricos e pobres, portou-se como convinha à ocasião.

À tarde preguei a uma congregação numerosa sobre “Se alguém tem sede, venha a mim e beba” (Jo 7.37). Reunimos depois a sociedade. Seis ou sete prisioneiros da esperança foram postos em liberdade neste dia.

Segunda-feira, 15. Uma companhia de foliões e dançarinos havia tomado posse, à tarde, do lugar onde eu costumava pregar. Alguns me aconselharam a ir para outro; mas eu sabia que não era preciso. Assim que apareci à vista, a turba festiva desvaneceu-se.

Wesley e a classe dos soldados

Quarta-feira, 17. Reuni a classe dos soldados, oito dos quais eram highlanders escoceses. A maior parte fora bem-criada; mas as más companhias corromperam os bons costumes (1Co 15.33). Todos disseram que, desde que entraram no exército, foram piorando cada vez mais. Mas Deus lhes dera agora outro chamado, e eles conheciam o dia da sua visitação.

Segunda-feira, 22. Quanto mais converso com este povo, mais me espanto. Que Deus operou entre eles uma grande obra é manifesto; e, contudo, a maior parte, crentes e descrentes, não sabe dar conta racional dos princípios mais claros da religião. É evidente: Deus começa a sua obra pelo coração; depois, “o sopro do Todo-Poderoso lhes dá entendimento” (Jó 32.8).

Quarta-feira, 24. Por volta das oito, vários de nós tomamos um barco para Newtown, a seis milhas de Limerick. Depois do almoço, embarcamos para voltar. O vento estava extremamente forte. Tentamos cruzar para o lado abrigado do rio, mas não foi possível. O barco, pequeno e sobrecarregado, logo ficou fundo na água — tanto mais que fazia muita água, e as ondas nos varriam com frequência; e não havia como parar para esvaziá-lo, pois todos os homens tinham de remar com todas as forças. Depois de uma hora de faina, o barco bateu numa rocha cuja ponta ficava logo abaixo da água. Sofreu quatro ou cinco choques, empurrado pelo vento, antes que nos livrássemos. Mas os nossos homens trabalharam pela vida, e por volta das seis Deus nos levou a salvo a Limerick.

Uma pergunta ridícula

Segunda-feira, 5 de junho. Cavalguei a Blarney, a três milhas de Cork, onde muitos da sociedade me esperavam. Passei com eles algum tempo em exortação e oração, e segui para Rathcormuck.

Surpreendeu-me um pouco a perspicácia de um cavalheiro daqui que, conversando com o coronel Barry sobre os últimos acontecimentos, disse ter ouvido que se levantara um povo que punha toda a religião em usar longas suíças; e perguntou, com toda a seriedade, se não eram esses os chamados metodistas.

Terça-feira, 13. Cavalgamos a Gloster, bela propriedade construída por um inglês que mal havia terminado a casa e traçado os jardins quando foi chamado ao seu lar eterno. Sir L— P— e a sua senhora almoçaram conosco — se por acaso ou de propósito, não sei. Por volta das cinco preguei no imponente salão a uma pequena companhia de gente simples e séria, com os finos olhando — e alguns deles parecendo um pouco tocados. Expus em Birr, por volta das sete, da maneira mais forte que pude, a história do rico e Lázaro.

Quarta-feira, 14. Planejávamos almoçar em Ferbane, a umas doze milhas de Birr. Paramos na primeira hospedaria da cidade; mas não quiseram hospedar hereges; nem o povo da segunda. Na terceira apeei e entrei, sem fazer pergunta alguma.

Por volta das sete preguei em Athlone. Sendo o tempo da revista geral, abundância de soldados e muitos oficiais estavam presentes. Todos se portaram com a maior decência. Mas um cavalheiro da cidade não — o que por pouco não lhe custou caro: muitas espadas foram desembainhadas, mas os oficiais interpuseram-se, e não passou disso.

Quarta-feira, 19 de julho. Terminei a tradução da Vida de Martinho Lutero. Sem dúvida foi um homem altamente favorecido de Deus e um instrumento abençoado nas suas mãos. Mas oh! que pena que não tenha tido um amigo fiel! Nenhum que, a todo risco, o repreendesse com clareza e firmeza pelo seu espírito áspero e intratável, e pelo seu zelo amargo por opiniões, tão grandemente obstrutivo da obra de Deus!

Uma travessia difícil

Quinta-feira, 20. Por volta das dez da noite embarcamos [de Dublin] para Bristol, num pequeno sloop. Logo adormeci. Quando acordei de manhã, estávamos a muitas léguas da terra, num mar áspero e encapelado. Ao anoitecer o vento virou mais contra nós, de modo que pouco avançamos. Por volta das dez estávamos entre o Bispo e os seus Clérigos (assim se chamam as rochas) e a costa galesa; o vento soprava fresco do sul, e o capitão, temendo que fôssemos lançados à costa rochosa, virou de volta para o mar. No sábado de manhã avistamos de novo o Bispo e os seus Clérigos, e bordejamos o dia inteiro. Às oito da noite soprou forte, com mar de balanço; apesar do que, às quatro da manhã de domingo estávamos à vista de Minehead. A maior parte do dia tivemos calmaria completa; mas à tarde o vento se levantou e nos levou a Kingroad. Na segunda de manhã desembarcamos no cais de Bristol.

Terça-feira, 25. Cavalguei a Kingswood e averiguei em particular o estado da nossa escola. Preocupou-me achar que várias das regras vinham sendo habitualmente negligenciadas. Julguei necessário, portanto, reduzir a casa, não permitindo que nela permanecesse quem não estivesse claramente satisfeito com as regras e decidido a observá-las todas.

Quarta-feira, 6 de setembro. Cheguei a Newcastle; e, depois de descansar um dia e pregar duas tardes e duas manhãs, com uma bênção como não achamos com frequência, parti na sexta para visitar as sociedades do norte. Comecei pela de Morpeth, onde preguei ao meio-dia, num dos lados da praça do mercado. Temia-se que o mercado tirasse o povo do sermão; mas foi justo o contrário: deixaram as bancas, e não houve compra nem venda até o sermão terminar.

Em Alnwick, igualmente, fiquei na praça do mercado à tarde e exortei uma congregação numerosa a estar sempre pronta para a morte, para o juízo, para o céu. Senti o que falei — como creio que sentiu a maioria dos presentes, tanto então quanto pela manhã, quando lhes roguei que se apresentassem “como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Rm 12.1).

Sábado, 9. Cavalguei devagar até Berwick. Eu mesmo estava bastante indisposto; mas não quis perder a oportunidade de chamar, à tarde, todos os “cansados e sobrecarregados” àquele que disse: “eu lhes darei descanso” (Mt 11.28).

Terça-feira, 26. Tive uma cavalgada solene e deliciosa até Keswick, com a mente firmada em Deus.

Quarta-feira, 27. Montei às três e meia. Não havia lua nem estrelas, mas uma névoa espessa, de modo que eu não via a estrada nem coisa alguma; mas fui tão certeiro como se fosse meio-dia. Quando me aproximei do descampado de Penruddock, a névoa sumiu, as estrelas apareceram e a manhã raiou; imaginei, pois, que todo o perigo havia passado. Mas, no meio do descampado, a névoa caiu de novo por todos os lados, e logo perdi o caminho. Levantei o coração ao alto. Imediatamente clareou, e logo recobrei a estrada. No descampado de Alstone errei o caminho de novo e — o que creio que nenhum forasteiro fez ultimamente — atravessei a cavalo todos os charcos, sem parar, até chegar ao vale, e dali a Hinely Hill.

Uma grande congregação se reuniu à tarde. Expus parte do capítulo vinte do Apocalipse. Oh, que hora foi aquela! Era como se já estivéssemos diante do “grande trono branco”. E Deus não esteve menos presente conosco na oração, quando alguém bem junto a mim clamou com grande e amargo clamor. Roguei a Deus que nos desse um sinal de que todas as coisas cooperariam para o bem. E ele o deu: escreveu perdão no coração dela, e todos nos alegramos nele com reverência.

Quarta-feira, 18 de outubro. Cavalguei, a pedido de John Bennet, a Rochdale, no Lancashire. Mal entramos na cidade, achamos as ruas ladeadas, dos dois lados, de multidões gritando, praguejando, blasfemando e rangendo os dentes contra nós. Vendo que não seria praticável pregar ao ar livre, entrei numa sala grande, aberta para a rua, e clamei em alta voz: “Deixe o perverso o seu caminho, e o homem iníquo, os seus pensamentos” (Is 55.7). A Palavra de Deus prevaleceu sobre a ferocidade dos homens. Ninguém se opôs nem interrompeu; e houve mudança bem notável no comportamento do povo quando depois atravessamos a cidade.

Cenas notáveis em Bolton

Chegamos a Bolton por volta das cinco da tarde. Mal entramos na rua principal, percebemos que os leões de Rochdale eram cordeiros em comparação com os de Bolton. Tal raiva e amargura eu quase nunca vira em criaturas com forma de gente. Seguiram-nos em algazarra até a casa aonde íamos e, assim que entramos, tomaram posse de todos os acessos e encheram a rua de ponta a ponta.

Depois de algum tempo, as ondas já não rugiam tão alto. O senhor P— achou que podia arriscar-se a sair. Fecharam-se imediatamente sobre ele, derrubaram-no e rolaram-no na lama; de modo que, quando escapou deles e entrou de novo na casa, mal se podia dizer o que ou quem ele era. Quando a primeira pedra veio por entre nós pela janela, esperei que se seguisse uma chuva delas — tanto mais que haviam arranjado um sino para convocar todas as suas forças. Mas não planejavam atacar à distância: logo alguém subiu correndo e disse que a turba havia invadido a casa, e que tinham J— B— no meio deles. Tinham; e ele aproveitou a oportunidade para falar-lhes dos “terrores do Senhor”.

Enquanto isso, D— T— ocupava outra parte deles com palavras mais macias e brandas. Crendo que a hora havia chegado, desci ao mais denso deles. Já enchiam todos os cômodos de baixo. Pedi uma cadeira. Os ventos se aquietaram, e tudo ficou calmo e sereno. Meu coração se encheu de amor, meus olhos de lágrimas e minha boca de argumentos. Ficaram atônitos; ficaram envergonhados; derreteram-se; devoravam cada palavra. Que virada! Oh, como Deus tornou em loucura o conselho do velho Aitofel e trouxe todos os bêbados, blasfemadores e profanadores do domingo do lugar para ouvir da sua copiosa redenção!

Quinta-feira, 19. Muito mais do que a casa podia conter estavam presentes às cinco da manhã, aos quais fui constrangido a falar bem mais tempo do que costumo. Percebendo que ainda queriam ouvir, prometi pregar de novo às nove, num prado perto da cidade. Para lá acorreram de todos os lados; e clamei em alta voz: “Tudo está pronto; venham para a festa de casamento” (Mt 22.4). Oh, como poucas horas mudaram a cena! Podíamos agora andar por todas as ruas da cidade, e ninguém nos molestava nem abria a boca — a não ser para nos agradecer ou abençoar.

Wesley em Dudley e Birmingham

Terça-feira, 24. Por volta do meio-dia chegamos a Dudley. À uma fui à praça do mercado e proclamei o nome do Senhor a uma multidão enorme, desajeitada e barulhenta; a maior parte parecia de modo algum saber “para que se haviam reunido”. Continuei falando por cerca de meia hora, e muitos iam ficando sérios e atentos — até que alguns servos de Satanás irromperam, enfurecidos e blasfemando, atirando o que lhes vinha à mão. Retirei-me então para a casa de onde viera. A multidão despejou-se atrás e cobriu de lama muitos que estavam perto de mim; eu fiquei só com uns poucos respingos. Preguei em Wednesbury às quatro, a um povo mais nobre, e fui grandemente consolado entre eles — como também pela manhã, quarta-feira, 25. Como uma congregação que ora fortalece o pregador!

Depois de pregar de novo à uma, cavalguei a Birmingham. Fora este, por muito tempo, um lugar seco e desconfortável, e eu esperava pouco fruto aqui. Mas fui felizmente desapontado. Congregação assim eu nunca vira ali: nem um zombador, nem um leviano, nem uma pessoa desatenta (até onde pude discernir); e raras vezes conheci senso tão profundo e solene do poder, da presença e do amor de Deus. A mesma bênção tivemos na reunião da sociedade, e de novo na pregação da manhã. Fará Deus, enfim, que até este deserto estéril floresça e brote como a rosa? (Is 35.1)

De novo no País de Gales

1750. Domingo, 28 de janeiro. Li as orações (em Londres), e o senhor Whitefield pregou. Como é sábio Deus em dar talentos diferentes a pregadores diferentes! Até as pequenas impropriedades da sua linguagem e do seu modo foram meio de proveito para muitos que não teriam sido tocados por um discurso mais correto ou por uma maneira de falar mais calma e regular.

Terça-feira, 6 de março. (Bristol.) Comecei a escrever uma pequena gramática francesa. Observamos a quarta-feira, 7, como dia de jejum e oração.

Domingo, 11. De bom grado eu teria passado mais tempo em Bristol, achando mais e mais provas de que Deus estava reavivando a sua obra; mas as notícias que recebi da Irlanda me fizeram entender que era meu dever estar lá o quanto antes. Assim, na segunda, 19, parti com Christopher Hopper para a Nova Passagem. Quando lá chegamos, o vento estava alto e quase todo contra nós; cruzamos, contudo, em menos de duas horas e alcançamos Cardiff antes da noite, onde preguei às sete e achei muito refrigério.

Terça-feira, 20. Esperando pregar em Aberdare, a dezesseis milhas galesas de Cardiff, cavalguei até lá pelas montanhas. Mas vimos que nenhum aviso fora dado; assim, depois de descansar uma hora, partimos para Brecknock. A chuva não deu trégua até que a avistamos. Duas vezes o meu cavalo caiu e me atirou por cima da sua cabeça, mas sem dano algum para homem ou animal.

Quarta-feira, 21. Cavalgamos a Builth, onde achamos anunciado que Howell Harris pregaria ao meio-dia. Com isso, uma grande congregação estava reunida; mas Howell não veio; assim, a pedido deles, preguei eu. Entre quatro e cinco o senhor Phillips partiu conosco para Royader. Eu estava bastante indisposto pela manhã; aguentei, contudo, até Llanidoes, e então me deitei. Depois de uma hora de sono, estava muito melhor e cavalguei até Machynlleth.

Cerca de hora e meia antes de chegarmos a Dolgelly, começou a chuva pesada. Estávamos no alto da encosta, de modo que recebemos tudo o que veio, podendo os nossos cavalos andar só a meio passo. Mas tivemos compensação na hospedaria: John Lewis e toda a sua casa uniram-se conosco de bom grado na oração; e todos a quem falamos se mostraram dispostos a ouvir e receber a verdade em amor.

Sexta-feira, 23. Antes de olharmos para fora, ouvimos o rugir do vento e o bater da chuva. Montamos às cinco. Choveu sem cessar por todo o caminho. E, quando chegamos à grande montanha, a quatro milhas da cidade (quando eu já estava molhado do pescoço à cintura), foi com grande dificuldade que evitei ser levado por sobre a cabeça da minha égua, pois o vento estava pronto a carregar-nos a todos. Contudo, por volta das dez chegamos a salvo a Dannabull, louvando aquele que salva tanto o homem quanto o animal.

Estando os cavalos bem cansados e nós completamente molhados, descansamos o resto do dia — tanto mais que várias pessoas da casa entendiam inglês, coisa incomum naquelas partes. Falamos de perto com elas, e pareceram muito tocadas, particularmente quando todos nos unimos em oração.

À espera do barco para a Irlanda

Sábado, 24. Partimos às cinco e às seis chegamos aos bancos de areia. Mas a maré estava cheia, e não pudemos passar; sentei-me, pois, numa pequena cabana por três ou quatro horas e traduzi a Lógica de Aldrich. Por volta das dez passamos e, antes das cinco, chegamos à balsa de Baldon, achando o barco pronto; mas os barqueiros pediram que esperássemos um pouco, dizendo que o vento estava alto demais e a maré forte demais. O segredo era que esperavam mais passageiros; e foi bom que esperassem: pois, enquanto andávamos de um lado para outro, chegou o senhor Jenkin Morgan, em cuja casa, quase a meio caminho entre a balsa e Holyhead, eu me hospedara três anos antes. A noite logo caiu; mas o nosso guia, conhecendo todo o país, levou-nos em segurança até a sua porta.

Domingo, 25. Preguei na casa de Howell Thomas, na paróquia de Trefollwin, a uma congregação pequena e fervorosa. Estando o vento contrário, aceitei o convite de um honesto coletor de impostos (o senhor Holloway) para ficar na sua casa até que mudasse. Ali estive num lugarzinho quieto e solitário, onde não se ouvia voz humana senão as da família. Na terça pedi ao senhor Hopper que fosse a Holyhead informar-se da nossa travessia. Trouxe notícia de que provavelmente passaríamos em um ou dois dias; assim, na quarta, fomos ambos para lá. Ali alcançamos John Jane, que havia partido a pé de Bristol com três xelins no bolso. Em seis das sete noites desde a partida, fora hospedado por completos desconhecidos. Passou por nós não sabemos como e chegou a Holyhead no domingo, com um único pêni restante.

Por ele mandamos os cavalos de volta à casa do senhor Morgan. Tive uma grande congregação à tarde. Quase me doeu poder dar-lhes um só sermão, agora que estavam, enfim, dispostos a ouvir. Por volta das onze fomos chamados a bordo, estando o vento perfeitamente favorável; e assim continuou até estarmos justamente fora do porto. Virou então oeste e soprou tempestade. Não havia lua nem estrelas, mas chuva e vento de sobra; de modo que logo me cansei de ficar no convés. Mas embaixo nos esperava outra tempestade: pois quem estava lá senão o famoso senhor Gr—, de Carnarvonshire — homem desajeitado, corpulento, de rosto duro, cujo semblante eu só poderia comparar ao (que vi em Drury Lane, trinta anos atrás) de um dos rufiões de Macbeth. Eu ia deitar-me quando ele entrou aos tropeções e despejou tal enxurrada de baixeza, obscenidade e blasfêmia, sendo juramento cada segunda ou terceira palavra, como quase nunca se ouviu nem em Billingsgate. Vendo que não havia espaço para eu falar, retirei-me para o meu camarote e o deixei com o senhor Hopper. Logo depois, um ou dois da sua própria companhia interpuseram-se e o levaram de volta ao seu camarote.

Quinta-feira, 29. Avançamos quatro ou cinco léguas rumo à Irlanda, mas fomos empurrados de volta, à tarde, até a própria boca do porto. Contudo, mudando o vento um ou dois pontos, aventuramo-nos de novo; e à meia-noite tínhamos vencido cerca de metade da travessia. Mas então o vento virou em cheio contra nós e soprou forte, e fomos empurrados de volta outra vez, contentes de entrar de novo na baía por volta das nove.

À tarde surpreendeu-me ver, em vez de gente pobre e simples, uma sala cheia de homens recobertos de ouro e prata. Para não os deixar fora do alcance, comecei a expor a história do rico e Lázaro. Era mais aplicável do que eu imaginava: vários deles (como depois soube) eram homens eminentemente maus. Entreguei a minha própria alma; mas eles de modo algum puderam suportá-lo. Um e outro se retiraram, murmurando amargamente. Quatro ficaram até eu me aproximar do fim; puseram então o chapéu e começaram a conversar entre si. Repreendi-os com brandura, ao que se levantaram e foram embora, insultando e blasfemando. Tive então uma hora confortadora com uma companhia de galeses simples e honestos.

“Onde está o pastor?”

De noite houve uma tempestade veemente. Bendito seja Deus por estarmos a salvo em terra! Sábado, 31: decidi esperar mais uma semana e, se não pudéssemos navegar, ir esperar um navio em Bristol. Às sete da tarde, quando eu descia para pregar, ouvi um barulho enorme e reconheci a ralé dos “cavalheiros”. Haviam-se fortalecido com bebida e com números, e puseram à sua frente o capitão Gr— (como o chamavam). Ele logo arrombou a porta externa e a interna, golpeou várias vezes o velho Robert Griffith, nosso hospedeiro, deu pontapés na sua mulher e, com vinte juramentos e maldições de boca cheia, exigiu: “Onde está o pastor?” Robert Griffith subiu e pediu que eu passasse a outro quarto, onde me trancou. O capitão o seguiu depressa, arrombou uma ou duas portas e subiu numa cadeira para olhar em cima de uma cama; mas, escorregando-lhe o pé (pois não era homem feito para escaladas), caiu de costas ao comprido. Levantou-se sem pressa, deu meia volta e, com a sua tropa, foi embora.

Desci então a uma pequena companhia do povo simples e passei meia hora com eles em oração. Por volta das nove, quando nos preparávamos para deitar, a casa foi cercada de novo. O capitão irrompeu primeiro. A filha de Robert Griffith estava no corredor com um balde de água, com o qual (se de propósito ou de susto, não sei) o cobriu da cabeça aos pés. Ele gritou, como pôde: “Assassinato! Assassinato!” — e ficou muito quieto por alguns momentos. Nesse meio-tempo, Robert Griffith passou por ele e trancou a porta. Vendo-se sozinho, mudou de voz e passou a gritar: “Deixem-me sair! Deixem-me sair!” Dando ele a sua palavra de honra de que nenhum dos outros entraria, abriram a porta, e todos se foram juntos.

Wesley e a senhora Pilkington

Quinta-feira, 12 de abril. (Dublin.) Tomei o desjejum com uma pessoa da sociedade e descobri que ela tinha uma hóspede em quem eu mal pensaria: era a famosa senhora Pilkington, que logo achou pretexto para subir atrás de mim. Falei com ela seriamente por cerca de uma hora; cantamos então “Feliz Madalena”. Ela pareceu profundamente tocada; quanto tempo durará a impressão, Deus o sabe.

Domingo, 20 de maio. (Cork.) Sabendo que o lugar habitual de pregação de modo algum conteria os que desejavam ouvir, fui por volta das oito ao Hammond’s Marsh. A congregação era grande e profundamente atenta. Uns poucos da ralé juntaram-se à distância; mas pouco a pouco se aproximaram e se misturaram à congregação; e raramente vi assembleia mais quieta e ordeira em qualquer igreja da Inglaterra ou da Irlanda.

À tarde, espalhando-se o boato de que o prefeito pretendia impedir a pregação no Marsh ao anoitecer, pedi ao senhor Skelton e ao senhor Jones que o procurassem e indagassem. O senhor Skelton perguntou se a minha pregação ali lhe seria desagradável, acrescentando: “Senhor, se for, o senhor Wesley não pregará.” Ele respondeu com veemência: “Senhor, não admitirei ajuntamentos.” O senhor Skelton replicou: “Senhor, não houve nenhum esta manhã.” Ele respondeu: “Houve. Não há igrejas e casas de reunião que bastem? Não admitirei mais turbas nem motins.” O senhor Skelton replicou: “Senhor, nem o senhor Wesley nem os que o ouviram fizeram turba ou motim algum.” Ele respondeu às claras: “Não admitirei mais pregação; e, se o senhor Wesley tentar pregar, estou preparado para ele.”

Comecei a pregar na nossa própria casa pouco depois das cinco. O senhor prefeito, enquanto isso, passeava pela Bolsa, dando ordens aos tambores da cidade e aos seus sargentos — sem dúvida para descerem e manterem a paz! Vieram, de fato, à casa, com uma turba inumerável atrás. Eles continuaram tocando os tambores, e eu continuei pregando, até terminar o meu discurso. Quando saí, a turba fechou-se imediatamente sobre mim. Vendo um dos sargentos parado ali, pedi-lhe que guardasse a paz do Rei; mas ele respondeu: “Senhor, não tenho ordens para isso.” Assim que entrei na rua, a ralé atirou o que veio à mão; mas tudo passou ao largo ou voou por cima da minha cabeça, e não me lembro de que uma só coisa me tocasse. Caminhei em frente, pelo meio da ralé, olhando cada homem no rosto; e eles se abriram à direita e à esquerda, até que cheguei perto da ponte de Dant. Um grande grupo havia tomado posse dela, e um deles berrava: “Agora, viva os romanos!” Quando cheguei, também eles recuaram, e passei por entre eles até a casa do senhor Jenkins. Mas uma papista postou-se bem à porta e tentou impedir a minha entrada — até que alguém da turba (mirando em mim, suponho, mas errando) a derrubou estatelada. Entrei então, e Deus refreou as feras bravias, de modo que nenhuma tentou seguir-me.

Mas muitos da congregação foram tratados com mais aspereza — particularmente o senhor Jones, que ficou coberto de lama e escapou com vida quase por milagre. O grosso da turba foi então à casa, trouxe para fora todos os assentos e bancos, arrancou o assoalho, a porta, os caixilhos das janelas e quanta madeira restava; parte levaram para uso próprio, e o resto queimaram em plena rua.

Vendo que não havia probabilidade de se dispersarem, mandei recado ao vereador Pembrock, que imediatamente pediu ao vereador Windthrop, seu sobrinho, que descesse comigo à casa do senhor Jenkins; com ele subi a rua, sem que ninguém me dissesse uma palavra descortês ou desrespeitosa.

Wesley queimado em efígie

Segunda-feira, 21. Segui a cavalo para Bandon. Das três da tarde até depois das sete, a turba de Cork marchou em grande procissão — e então me queimou em efígie, perto da ponte de Dant.

Quarta-feira, 23. A turba ainda patrulhava as ruas, maltratando todos os que se chamavam metodistas e ameaçando matá-los e derrubar as suas casas, se não abandonassem este caminho.

Quinta-feira, 24. Assaltaram de novo a casa do senhor Stockdale, arrancaram as tábuas que ele havia pregado nas janelas, destruíram o pouco que restava de caixilhos e venezianas e danificaram parte considerável dos seus bens.

Sexta-feira, 25. Um certo Roger O’Ferrall afixou anúncio na Bolsa pública: estava pronto a encabeçar qualquer turba para derrubar qualquer casa que ousasse abrigar um swaddler. (Nome dado primeiro ao senhor Cennick por um padre que o ouviu falar de um menino envolto em faixas — e que provavelmente não sabia que a expressão está na Bíblia, livro com o qual não tinha muita familiaridade.)

Neste tempo, Deus nos deu grande paz em Bandon, apesar dos trabalhos incansáveis, públicos e privados, do bom doutor B— para agitar o povo. Mas no sábado, 26, muitos estavam apreensivos com o que se faria à tarde. Comecei a pregar na rua principal, à hora de costume, mas a mais do dobro da congregação habitual. Falava eu havia uns quinze minutos quando um clérigo, que se havia plantado perto de mim com um bastão bem grande na mão, conforme o combinado abriu a cena. (Os seus amigos me garantiram que estava embriagado; de outro modo, não o teria feito.) Mas, antes que proferisse muitas palavras, duas ou três mulheres decididas puxaram-no à força para dentro de uma casa; e, depois de argumentar um pouco, despacharam-no pelo jardim.

O campeão seguinte foi um certo senhor M—, jovem cavalheiro da cidade, acompanhado de dois outros com pistolas na mão. Mas o seu triunfo também foi breve: algumas pessoas logo o levaram embora, ainda que com muita gentileza e civilidade.

O terceiro veio com fúria maior; mas foi enfrentado por um açougueiro da cidade (que não era metodista), que o tratou como trataria um boi, aplicando-lhe um ou dois golpes vigorosos na cabeça. Isso lhe esfriou a coragem, tanto mais que ninguém tomou o seu partido. E assim terminei o meu discurso em paz.

Visitas a Kinsale e Cork

Segunda-feira, 28. Cavalguei a Kinsale, uma das cidades mais aprazíveis que vi na Irlanda. Às sete preguei na Bolsa a uns poucos da alta sociedade, muita gente pobre e abundância de soldados. Todos se portaram como homens que temem a Deus. Depois do sermão chegou alguém de Cork e nos informou que o senhor W— havia pregado, manhã e tarde, junto ao muro do quartel; que os tambores da cidade vieram, mas os soldados lhes garantiram que, se tocassem ali, seriam todos feitos em pedaços; que então o próprio prefeito veio à frente da sua turba, mas não pôde fazer perturbação considerável; que foi falar com o oficial comandante, com tão pouco sucesso que o coronel saiu e declarou à turba que ali não fariam motim algum. Eis uma virada de situação digna de Deus! Não reina ele no céu e na terra?

Quarta-feira, 30. Cavalguei a Cork. Conversando com o capitão —, vi que não havia que contar com os bons ofícios do coronel. Ele dissera ao capitão, com toda a franqueza: “Se o senhor Wesley pregar no quartel e a turba vier quebrar as janelas, posso receber uma conta comprida do administrador.” Quebrar as janelas! Sorte se não quebrassem os ossos de todos os soldados.

Pouco antes das cinco caminhei em direção ao quartel. Os meninos logo se juntaram, cada vez mais turbulentos. Mas num momento tudo ficou quieto. Isso, descobri depois, deveu-se ao senhor W—, que arrancou um bastão da mão de um homem e o brandiu sobre a cabeça — diante do que a tropa inteira valentemente fugiu.

Quando passamos a ponte sul, uma grande turba se juntou; mas, antes que se formasse bem, alcançamos o portão do quartel, a pequena distância do qual me pus e clamei: “Deixe o perverso o seu caminho.” A congregação de gente séria era grande; a turba ficou a uns cem metros. Surpreendeu-me um pouco observar que quase todos os soldados se mantinham juntos, em corpo, perto do portão; e eu não sabia se seria verdadeiro o boato de que, a um sinal dado, todos se recolheriam ao quartel; mas não se moveram até que terminei. Quando nos retirávamos, um ou dois nos seguiram. O número foi crescendo até termos sete ou oito à frente e uma tropa inteira atrás; entre os quais caminhei, através de uma turba imensa, até a porta do vereador Pembrock.

Num funeral irlandês

Quinta-feira, 31. Cavalguei a Rathcormuck. Havendo à tarde um grande enterro, ao qual o povo veio de todas as partes, o senhor Lloyd leu parte do ofício fúnebre na igreja; depois do que preguei sobre “O fim de todas as coisas está próximo” (1Pe 4.7). Fiquei profundamente chocado com (aquilo de que até então eu só ouvira falar) o lamento irlandês que se seguiu. Não era um canto, como eu supunha, mas um uivo lúgubre e inarticulado, erguido junto à sepultura por quatro mulheres de voz aguda, contratadas (soubemos) para esse fim. Mas não vi uma só derramar uma lágrima; pois isso, ao que parece, não estava no contrato.

Quarta-feira, 13 de junho. Cavalguei de novo a Shronill; e na manhã de quinta, 14, a Clonmell. Depois de uma hora de descanso seguimos, mas fomos obrigados a parar à tarde mais cedo do que planejáramos, por estar frouxa uma ferradura do meu cavalo. O pobre homem a cuja casa batemos não só recebeu com paciência a exortação, como ficou extremamente agradecido por ela. Erramos depois o caminho, de modo que já era quase oito quando passamos a balsa, a uma milha de Waterford.

Na balsa havia um rapaz que perguntou o meu nome. Quando o ouviu, exclamou: “Ó senhor, o senhor não tem nada que fazer aqui; nada tem que fazer em Waterford. Butler anda juntando turbas lá a semana inteira; e caem sobre nós de tal modo que não podemos andar pelas ruas. Mas, se o senhor ficar naquela casinha, irei buscar B. McCullock.” Esperamos algum tempo e então achamos melhor avançar um pouco no caminho de Portarlington. Mas o balseiro não quis atravessar; de modo que, depois de esperar até nos cansarmos, abrimos caminho por alguns terrenos e por sobre a montanha até a estrada de Carrick, e seguimos umas cinco milhas até uma aldeia onde achamos uma casa tranquila. Bastou ao dia o seu trabalho: estivemos a cavalo, com uma ou duas horas de intervalo apenas, das cinco da manhã até quinze para as onze da noite.

Sexta-feira, 15. Por volta das duas da madrugada, ouvi gente fazendo grande barulho e chamando-me pelo nome. Eram alguns dos nossos amigos de Waterford, que nos informaram que, à chegada do rapaz, dezesseis ou dezoito deles saíram para me conduzir à cidade. Não me achando, voltaram; mas a turba os encontrou pelo caminho e os apedrejou com lama e pedras até as suas próprias portas.

Partimos às quatro e alcançamos Kilkenny, cerca de vinte e cinco velhas milhas irlandesas, por volta do meio-dia. É de longe a região mais aprazível, e também a mais fértil, que vi em toda a Irlanda. Nosso caminho, depois do almoço, passava por Dunmore, a propriedade do falecido duque de Ormond. Cavalgamos pelo parque por cerca de duas milhas, ao lado do qual corre o rio. Nunca vi, nem na Inglaterra, nem na Holanda, nem na Alemanha, lugar tão encantador. As alamedas, cada uma de quatro fileiras de freixos, os tufos de árvores salpicados aqui e ali, entremeados dos gramados mais lisos e verdes, são belos além de toda descrição. E que tem de tudo isso o seu dono, o conde de Arran? Nem sequer o contemplá-lo com os próprios olhos.

Wesley cavalga noventa milhas

Meu cavalo cansou à tarde; deixei-o, pois, para trás e tomei emprestado o do meu companheiro. Cheguei a Aymo por volta das onze e de muito bom grado teria passado ali o resto da noite; mas a boa mulher da hospedaria não estava disposta a isso. Por algum tempo não respondeu; por fim, abriu a porta apenas o bastante para soltar quatro cães sobre mim. Cavalguei, então, até Ballybrittas, esperando também ali rude saudação de um grande cão que costumava ficar no pátio. Mas ele não se mexeu até que o cavalariço acordou e saiu. Por volta da meia-noite deitei-me. Creio ter sido esta a mais longa jornada de um dia que já cavalguei: cinquenta velhas milhas irlandesas, isto é, cerca de noventa milhas inglesas.

Quinta-feira, 21. Voltei a Closeland e preguei à tarde a uma companhia pequena e fervorosa. Oh, quem me arrastaria para uma grande cidade, se eu não soubesse que há outro mundo! Com que alegria eu passaria o restante de uma vida atarefada em solidão e retiro!

Quinta-feira, 6 de setembro. Cavalguei a Salisbury e preguei em Winterburn à tarde; no dia seguinte, em Reading; e no sábado, 8, cheguei a Londres. Aqui recebi de um dos nossos pregadores o seguinte relato:

“John Jane nunca mais esteve bem depois de caminhar de Epworth a Hainton num dia extremamente quente, esforço que o lançou numa febre. Mas esteve em grande paz e amor, até para com os que muito careciam de amor para com ele. Passou algum tempo na casa de Alice Shadforth, com quem falava diariamente das coisas de Deus. Nunca esteve sem o amor de Deus; passava muito tempo em oração particular e unia-se com ela em oração várias vezes ao dia. Na sexta-feira, 24 de agosto, parecendo à dona da casa mais forte de corpo, sentou-se à tarde junto à lareira; por volta das seis, soltou um profundo suspiro e não falou mais. Ficou vivo até a mesma hora do sábado, quando, sem luta alguma, sem sinal de dor, com um sorriso no rosto, partiu. Suas últimas palavras foram: ‘Acho o amor de Deus em Cristo Jesus.'”

Deixou um xelim e quatro pence

“Todas as suas roupas, de linho e de lã, meias, chapéu e peruca, calcula-se que não bastem para pagar as despesas do funeral, que somam uma libra, dezessete xelins e quatro pence.” O bastante para qualquer pregador solteiro do evangelho deixar aos seus testamenteiros.

Segunda-feira, 17. Meu irmão partiu para o norte, mas voltou no dia seguinte, muito indisposto. Como pouco conhecemos os conselhos de Deus! Mas sabemos que são todos sábios e cheios de graça.

Quarta-feira, 19. Quando cheguei a casa à tarde, achei meu irmão muitíssimo pior. Não dormia havia várias noites, e não esperava dormir senão à força de opiáceos. Desci aos nossos irmãos e fizemos o nosso pedido conhecido de Deus. Quando subi de novo, ele estava em sono profundo, que continuou até a manhã.

Sexta-feira, 21. Tivemos uma vigília em Spitalfields. Muitas vezes me admiro da providência peculiar de Deus nessas ocasiões. Não sei de uma só pessoa, em tantos anos, que se tenha ferido, em Londres, Bristol ou Dublin, indo ou voltando tão tarde da noite por todas as partes da cidade.

Domingo, 23. Não podendo meu irmão ainda ajudar, tive hoje mais trabalho do que esperava. Pela manhã li as orações, preguei e ministrei o sacramento a uma grande congregação em Spitalfields. O culto na rua West durou das nove à uma. Às cinco chamei ao arrependimento os pecadores de Moorfields. E, terminado o trabalho, achei-me com mais vivacidade e força do que às seis da manhã.

Wesley como editor

Segunda-feira, 24. Deixei Londres e, na manhã seguinte, parei na chamada Casa do Meio Caminho. Logo depois, passando um jovem a cavalo diante da porta, cavalo e cavaleiro rolaram um por cima do outro. Assim que se levantou, ele começou a maldizer o cavalo. Falei-lhe poucas palavras, e ele se acalmou. Contou-me que já havia temido a Deus, mas que de algum tempo para cá não se importava com nada. Foi-se embora cheio de boas resoluções. Deus as leve a bom efeito!

Cheguei a Kingswood à tarde; e no dia seguinte selecionei passagens de Milton para as crianças mais velhas transcreverem e recitarem semanalmente.

Quinta-feira, 27. Fui à escola e tomei a lição de metade das crianças; depois selecionei passagens dos Poemas Morais e Sacros. Sexta, 28: tomei a lição da outra metade. Sábado, 29: estive com elas das quatro às cinco da manhã. Passei a maior parte do dia revisando as Antiguidades de Kennet e marcando o que valia a pena ler na escola.

Quarta-feira, 3 de outubro. Revisei, para uso das crianças, as Antiguidades Gregas do arcebispo Potter — livro seco, maçante e pesado. Quinta, 4: revisei as Antiguidades Hebraicas do senhor Lewis, algo mais interessante que o outro e muitíssimo mais instrutivo.

Sábado, 6. Quase terminei o resumo do Cristianismo Primitivo do doutor Cave — livro escrito com tanta erudição e tão pouco juízo quanto qualquer outro que eu me lembre de ter lido na vida inteira; tratando os cristãos antigos exatamente como Xenofonte tratou Sócrates: relatando toda fraqueza que algum dia disseram ou fizeram.

Quinta-feira, 11. Preparei uma breve História da Inglaterra para uso das crianças; e na sexta e no sábado, uma breve História Romana, como introdução aos historiadores latinos.

Segunda-feira, 15. Li a Gramática Latina do senhor Holmes e extraí dela o que era preciso para aperfeiçoar a nossa.

Na catedral da Cantuária

Segunda-feira, 3 de dezembro. Cavalguei à Cantuária e preguei sobre Apocalipse 20. Umas poucas pessoas turbulentas fizeram um pequeno barulho, como soube ser o seu costume. Percebendo que mais deles se haviam juntado na noite seguinte, voltei-me e lhes falei longamente. Mostraram-se não pouco confundidos e foram embora mansos como cordeiros.

Quarta-feira, 5. Percorri a catedral e contemplei os monumentos dos antigos homens de renome. Dir-se-ia que tal vista deveria lançar um balde de água fria sobre toda a vaidade humana. Que são agora os grandes, os belos, os valentes? O guerreiro sem igual, o monarca poderoso?

“Um monte de pó é tudo o que resta de ti; é tudo o que és — e tudo o que os soberbos hão de ser.”

Segunda-feira, 10. Cavalguei a Leigh, no Essex, onde achei uma pequena companhia que buscava a Deus, e procurei encorajá-los a “estimular uns aos outros ao amor e às boas obras” (Hb 10.24).

Segunda-feira, 17. Meti mãos à limpeza do estábulo de Augias: à purgação daquela obra imensa, os Atos e Monumentos do senhor Fox, de todo o entulho que aquele escritor honesto, mas sem critério, amontoou e misturou com aqueles veneráveis registros, dignos de memória eterna.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (edição condensada de Percy Livingstone Parker, 1903). Citações bíblicas conforme a NAA. Edição: Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil.

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