“Não o deixarei ir se você não me abençoar.”Gênesis 32.26 · NAA
O regresso
Vinte anos depois, Jacó volta para casa. Manda mensageiros à frente e recebe a notícia que temia: “Também ele está vindo para se encontrar com o senhor, e quatrocentos homens estão com ele” (Gn 32.6).
O texto é direto: “Então Jacó teve medo e ficou angustiado” (Gn 32.7). O passado não caducou. Ele fugiu de Esaú, prosperou longe, constituiu família, e mesmo assim a conta continuou aberta esse tempo todo. Distância não resolve conflito; apenas o adia.
E ele faz o que sempre soube fazer: planeja. Divide o povo em dois grupos, para que se um for atacado o outro escape. Depois prepara presentes generosos, enviados em ondas sucessivas para amaciar o irmão (Gn 32.13-21). É a velha estratégia do homem que tenta administrar o resultado.
Não há nada de errado em ser prudente. O problema não é o plano; é o plano no lugar de Deus. Jacó ainda vai orar, e essa é a novidade desta noite. Mas note a ordem: primeiro o medo, depois a estratégia, e só então a oração.
A primeira oração
Esta é a primeira oração de Jacó registrada em Gênesis. Vale ler devagar (Gn 32.9-12).
“Ó SENHOR, que me disseste: Volte para a sua terra…” Ele não ora a partir da própria necessidade, e sim a partir do que Deus prometeu. É o modo mais seguro de orar.
“Sou indigno de todas as misericórdias e de toda a fidelidade que tens usado para com o teu servo.” O negociador que barganhou com o irmão e com o pai já não apresenta méritos.
“Com apenas o meu cajado atravessei este Jordão; já agora sou dois grupos.” A memória da graça é combustível de oração.
“Livra-me das mãos de meu irmão Esaú.” Sem rodeios, sem linguagem religiosa, e apoiado outra vez na promessa: “Pois tu disseste…”.
Vinte anos antes, em Betel, Jacó tinha respondido a Deus com um voto condicional. Agora ele ora reconhecendo dívida e dependência. É possível medir a distância percorrida por um homem pela maneira como ele fala com Deus.
A noite
“Jacó ficou sozinho, e um homem lutava com ele, até o romper do dia” (Gn 32.24).
Antes disso ele fez passar o ribeiro tudo o que tinha: mulheres, filhos, servas, rebanhos. Ficou do outro lado, sem nada. Não sobrou nenhum recurso entre ele e Deus. Nem os presentes, nem a família, nem o dom da negociação. Foi assim que a luta começou.
O texto é sóbrio e misterioso. Não diz de imediato quem é o adversário, e o próprio Jacó só entenderá ao amanhecer: “Vi Deus face a face, e a minha vida foi salva” (Gn 32.30). Oseias, séculos depois, acrescenta um detalhe que Gênesis não conta: “Lutou com o anjo e venceu; chorou e pediu que o abençoasse” (Os 12.4).
Como se vence esta luta
Jacó não prevalece pela força. Ele prevalece porque não solta: “Não o deixarei ir se você não me abençoar” (Gn 32.26). E prevalece chorando. Nesta luta, ganhar é agarrar-se a Deus e reconhecer que não se sobrevive sem a bênção dele.
Repare no eco de Betel. Lá Deus dissera: “Não o abandonarei até que eu cumpra aquilo que lhe prometi” (Gn 28.15). Aqui é Jacó quem diz: “Não o deixarei ir.” Vinte anos depois, o homem finalmente aprendeu a se agarrar Àquele que nunca o soltou.
A pergunta
No meio da luta vem uma pergunta simples, e é a pergunta mais séria de toda a vida de Jacó (Gn 32.27).
Ele já tinha sido perguntado assim antes. Diante do pai cego, Isaque quis saber: “Quem é você, meu filho?” E ele mentiu: “Sou Esaú, seu filho primogênito” (Gn 27.18-19). A bênção que recebeu naquele dia veio com um nome falso.
Agora, no escuro, a mesma pergunta. E desta vez ele responde a verdade: “Jacó.” Um nome que significa “o que segura o calcanhar”, isto é, o que passa a perna, o suplantador. Dizer aquele nome era confessar a vida inteira.
A ordem das coisas
Só depois de Jacó dizer quem era é que veio a palavra: “Seu nome não será mais Jacó, e sim Israel, pois você lutou com Deus e com os homens e prevaleceu” (Gn 32.28). Deus não dá nome novo a quem ainda se apresenta com nome falso. “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar” (1Jo 1.9).
Israel. O homem que vivia de agarrar calcanhares passa a ser o que luta com Deus e prevalece. O nome antigo não some da Bíblia, e o texto continuará chamando-o de Jacó em muitas passagens: a mudança é real, e ainda assim há caminho pela frente.
“Tocou-lhe na articulação da coxa, de modo que a junta da coxa de Jacó se deslocou” (Gn 32.25). Ele sai abençoado e mancando. A bênção veio com uma marca permanente, e o resto da vida ele andaria lembrando daquela noite.
E então: “Nasceu-lhe o sol, quando ele atravessava Peniel. E mancava por causa da coxa” (Gn 32.31). Vinte anos antes, a história começara com um pôr do sol em Betel, quando ele fugia. Agora nasce o sol sobre um homem que volta, com nome novo e passo diferente.
Para a nossa vida
Jacó fugiu por vinte anos, e o medo o esperava intacto do outro lado. Conflitos com pais, irmãos e antigos amigos raramente evaporam sozinhos.
A luta começa quando Jacó fica sozinho, sem nada para oferecer e ninguém para intermediar. Muitas vezes é isso que a noite difícil produz em nós: o fim dos atalhos.
“Não o deixarei ir se você não me abençoar.” Jesus ensinou a mesma coisa na parábola do amigo importuno e da viúva persistente (Lc 11.5-10; Lc 18.1-8).
Enquanto nos apresentarmos com nome emprestado, continuamos vivendo de bênçãos roubadas. Dizer o próprio nome, com tudo o que ele carrega, é o começo da cura.
Uma palavra sobre mancar. Nem toda marca deixada por uma luta é castigo. Há cicatrizes que são credencial. Paulo pediu três vezes que o espinho fosse removido e ouviu: “A minha graça é o que basta para você, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2Co 12.9). Israel nasceu mancando, e assim atravessou o rio ao encontro do irmão.
Fixação
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Avaliação
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Para pensar e conversar
Adiar não é resolver. O passo pode ser pequeno: uma ligação, uma carta, um pedido de perdão sem justificativas. Jacó atravessou o rio mancando, mas atravessou.
Vale usar esses quatro passos como roteiro numa oração desta semana. Orar apoiado no que Deus prometeu é diferente de orar apoiado no que sentimos.
Não se trata de desejar noites difíceis. Trata-se de reconhecer que, sem recursos e sem atalhos, muita gente finalmente se agarra a Deus, e não solta.
Enquanto nos apresentamos com nome emprestado, vivemos de bênçãos roubadas. A confissão vem antes do nome novo, tanto em Gênesis 32 quanto em 1João 1.9.
Nem toda cicatriz é castigo. Paulo aprendeu isso com o espinho na carne (2Co 12.7-10). Israel nasceu mancando e assim foi ao encontro do irmão.
Peniel: a luta e o novo nome · Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil