“Então Esaú correu ao encontro dele e o abraçou; pôs os braços em volta do pescoço dele e o beijou; e choraram.”Gênesis 33.4 · NAA
O encontro
Jacó atravessa mancando, coloca a família atrás de si e se adianta, prostrando-se sete vezes até chegar perto do irmão. E acontece o que ele não esperava (Gn 33.3-4).
O versículo que desfaz vinte anos de medo
Não houve cobrança, nem acerto de contas, nem discurso. Houve corrida, abraço e choro dos dois. O irmão que vinha com quatrocentos homens simplesmente perdoou.
Gênesis 33.4
Vale observar quem se moveu primeiro. Jacó se prostrou; Esaú correu. A mesma imagem voltará na parábola de Jesus, quando o pai avista o filho ainda longe e, “compadecido dele, correndo, o abraçou e beijou” (Lc 15.20). Gênesis já conhecia esse gesto.
E Jacó diz uma frase impressionante: “Ver o seu rosto é como contemplar o semblante de Deus” (Gn 33.10). Na noite anterior ele havia dito: “Vi Deus face a face” (Gn 32.30). Ele reconhece que o perdão do irmão tem a mesma qualidade daquele encontro. Quem foi perdoado por Deus reconhece o rosto de Deus na graça humana.
Restituição. Jacó insiste que Esaú aceite os presentes: “aceite o meu presente… porque Deus tem sido generoso para comigo, e tenho fartura” (Gn 33.11). No hebraico, a palavra que ele emprega aqui não é a de “presente”, usada antes, e sim berakah, “bênção”. Ele está devolvendo ao irmão, com todas as letras, a bênção que lhe tomou. O arrependimento verdadeiro não fica só em palavras: devolve o que tomou, na medida do possível.
Um eco no Novo Testamento
Séculos depois, outro homem pequeno e hábil em tomar o que não era seu encontrou a graça e reagiu do mesmo jeito.
“Senhor, vou dar a metade dos meus bens aos pobres. E, se roubei alguma coisa de alguém, vou restituir quatro vezes mais” (Lc 19.8). Ninguém exigiu isso dele. A restituição foi a forma que a alegria encontrou de se expressar. E Jesus concluiu: “Hoje houve salvação nesta casa… Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido” (Lc 19.9-10).
Ambos tomaram o que não lhes pertencia. Ambos foram alcançados por uma graça que não pediram. E ambos devolveram bens concretos, e não apenas sentimentos.
Conversão que não toca no dinheiro, nas relações e nas dívidas ainda não chegou ao chão. Wesley insistia nisso: a fé que salva produz frutos dignos de arrependimento.
O caminho mais longo
Depois do abraço, Esaú convida: “Vamos partir e seguir viagem.” Jacó responde que irá devagar, no passo das crianças e dos rebanhos, “até chegar a meu senhor, em Seir” (Gn 33.12-14).
Mas ele não vai a Seir. Vai para Sucote, onde edifica uma casa, e depois para Siquém, onde compra um terreno e arma a tenda (Gn 33.17-19). A reconciliação foi verdadeira e, ao mesmo tempo, Jacó continuou guardando distância. O texto não julga, apenas registra. E o leitor atento percebe que o voto de Betel ainda estava por cumprir.
Em Siquém a família vive o episódio doloroso de Diná e a vingança sangrenta de Simeão e Levi (Gn 34), que deixa Jacó temendo pela própria vida. É desse ponto baixo que Deus o chama de volta.
O retorno
Antes de subir, Jacó dá uma ordem à casa: “Joguem fora os deuses estranhos que há no meio de vocês, purifiquem-se e troquem de roupa” (Gn 35.2).
É a primeira vez em toda a narrativa que Jacó age como sacerdote da própria família. Ele enterra os ídolos debaixo do carvalho de Siquém (Gn 35.4) e sobe. Não se volta a Betel carregando os deuses de Harã.
Chegou fugindo, sozinho, de noite, sem saber onde estava. Dormiu numa pedra. Acordou assustado e fez um voto condicional.
Chega obedecendo, com a família inteira, depois de mandar enterrar os ídolos. E faz o que prometera: “edificou ali um altar” (Gn 35.7).
Ele chama o lugar de El-Betel, que quer dizer o Deus de Betel. Antes o nome celebrava a casa; agora celebra o Dono da casa. A maturidade espiritual desloca o centro do lugar para a Pessoa.
E Deus repete ali o que dissera no Jaboque: “O seu nome não será mais Jacó; o seu nome será Israel” (Gn 35.10), acrescentando as promessas de Abraão e Isaque (Gn 35.11-12). Jacó levanta outra coluna de pedra, derrama libação e azeite, e confirma o nome Betel (Gn 35.14-15). O voto feito vinte anos antes finalmente foi pago.
Honestidade do texto
Seria bonito encerrar a história no altar de Betel. A Bíblia não faz isso.
Logo adiante Raquel morre no parto de Benjamim e é sepultada à beira do caminho (Gn 35.19). E, poucos capítulos depois, aparece a frase que prepara toda a tragédia seguinte: Israel amava José mais do que a todos os outros filhos, e por isso os irmãos o odiavam (Gn 37.3-4). O favoritismo que destruiu a casa de Isaque reaparece na casa de Jacó.
Por que isso importa para nós? Porque o encontro com Deus é real e, ainda assim, o trabalho continua. Jacó teve Betel, teve Peniel, teve o abraço de Esaú e mesmo assim repetiu com os filhos o erro do próprio pai. A santificação é obra de uma vida inteira, e ninguém “chega” definitivamente por causa de uma experiência, por mais verdadeira que ela tenha sido.
Vale lembrar, porém, o outro lado. Deus levou aquela família bagunçada até o Egito, preservou-a na fome pelas mãos do filho vendido e fez dela um povo. A promessa de Betel não dependia da perfeição de Jacó, e é por isso que ela se cumpriu.
Para a nossa vida
Vinte anos de medo desfeitos num abraço. Muitas famílias vivem separadas por conflitos que talvez já não existam do outro lado. Alguém precisa atravessar o rio primeiro.
Jacó insistiu que Esaú aceitasse a “bênção” de volta; Zaqueu restituiu quatro vezes mais. Onde há o que devolver, devolve-se.
Jacó demorou vinte anos e um desvio doloroso para voltar a Betel. Aquilo que prometemos a Deus num momento de aperto continua valendo depois que o aperto passa.
Não se sobe a Betel com os deuses de Harã na bagagem. Há coisas que precisam ficar debaixo do carvalho antes de subirmos.
O fio de todo o curso
Começamos com dois irmãos brigando dentro do ventre e terminamos com um altar em Betel. Entre um ponto e outro houve engano, fuga, exílio, trabalho duro, casa dividida, uma noite de luta e um abraço. Deus esteve em cada trecho, cumprindo exatamente o que prometera na primeira noite: “Eu estou com você e o guardarei por onde quer que você for.” Essa é a graça que também nos alcança, e ela não desiste no meio do caminho.
Fixação
Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Cinco questões, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, e errar aqui também ensina.
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Para pensar e conversar
Boa parte dos nossos medos relacionais é feita de suposições. O texto não diz o que se passou com Esaú nesses vinte anos, mas mostra o resultado: ele correu. Vale escrever o nome da pessoa e pensar num primeiro passo concreto.
Dinheiro, objetos, oportunidades, reputação. Nem tudo é restituível, e às vezes só resta o pedido de perdão. Mas onde é possível devolver, devolve-se.
O texto não condena Jacó explicitamente, apenas mostra as consequências. Vale identificar promessas feitas a Deus que ficaram pendentes desde algum aperto já superado.
Nem sempre são imagens. Podem ser hábitos, contas, relações, seguranças materiais. A ordem de Jacó foi coletiva: valeu para a casa inteira.
Que a experiência não substitui o processo. A santificação é obra de uma vida inteira, e a graça continua trabalhando em nós depois dos grandes momentos, e não apenas neles.
O abraço e o retorno a Betel · Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil