Servir
Os seus servos o servirão. Wesley chama isso de a mais alta honra do universoNotas, Ap 22.3 e de o mais nobre emprego.Notas, Ap 22.3
“Eis que faço novas todas as coisas.”Apocalipse 21.5 · NAA
Como ler esta aula. As palavras de Wesley aparecem como links sublinhados em laranja, seguidos da referência convencional entre parênteses (sermão e parágrafo, ou livro e versículo das Notas); o link abre a obra neste site no trecho exato. Os blocos marcados Síntese do curso trazem a leitura e a avaliação do curso; os marcados Nota do editor, esclarecimentos e fontes.
Para começar
Para onde vamos, afinal? Para um céu de espíritos, longe da matéria, ou para uma criação renovada? Wesley respondeu com um sermão sobre as palavras que, segundo ele, parecem ser as únicas que o livro atribui expressamente àquele que está assentado no trono.
O Sermão 64, A nova criação foi escrito em 1785, quando Wesley tinha 82 anos, e é um dos textos mais bonitos que ele deixou. Ele parte de Apocalipse 21.5 e observa que aquele que está assentado no trono diz ali, segundo Wesley, as únicas palavras que aquele que está no trono profere em todo o livroSermão 64, §3, eis que faço novas todas as coisas. Cristo fala em outros lugares do Apocalipse; a observação de Wesley é sobre as palavras atribuídas expressamente ao que está assentado no trono. O tema, ele reconhece, está além do alcance natural da mente: nem um vislumbre do que aqui se revela foi jamais visto no mundo pagãoSermão 64, §1. Mas a Escritura revelou o bastante para que se possa ir longe, interpretando a Escritura pela Escritura, segundo a analogia da fé.
Ao lado dele está o Sermão 60, A libertação geral, sobre Romanos 8.19-22, em que Wesley pergunta o que Deus fará com as criaturas que sofrem sem ter pecado. Juntos, os dois sermões dizem que a esperança cristã não é a fuga da matéria, e sim a redenção do cosmo inteiro, coroada pela união com o Deus Trino. A apresentação do Sermão 64 neste site nota que essa visão dialoga bem com a nossa leitura amilenistaSermão 64. É a aula em que mais concordamos com Wesley, e a que mais alarga a esperança.
O quadro
Wesley começa afastando duas leituras que empobrecem o texto e depois descreve o que a Escritura anuncia: o fim desta ordem e o começo de outra, muito mais nobre.
Muitos comentaristas, diz ele, aplicam o novo céu e a nova terra ao estado florescente da igreja depois das perseguições, ou ao tempo de Constantino. que modo miserável é este de tornar vão todo o conselho de DeusSermão 64, §4, escreve Wesley. A profecia não termina com o mundo presente, mas nos mostra as coisas que virão quando este mundo não mais existirSermão 64, §4. No Sermão 66 ele é ainda mais duro com o escritor que supõe ter descido do céu a Nova Jerusalém quando Constantino, o Grande, se chamou cristãoSermão 66, II.7: aquele foi o tempo em que subiu do abismo uma nuvem de fumaça infernal, e não o tempo da Nova Jerusalém.
Depois vem a destruição. Sobre 2Pedro 3.10, os céus passarão com grande estrondo, os elementos se derreterão, a terra e as obras que nela há serão queimadas. Sobre 2Pedro 3.11, Wesley insiste que a dissolução alcança todo o universo criado: enganam-se os que restringem à terra e aos céus inferiores a descrição da destruição do mundoNotas, 2Pe 3.11. O Sermão 15 diz que a bela estrutura do universo será transformadaSermão 15, III.3, e o Sermão 64 chama essa destruição de introdução a um estado de coisas muito mais nobreSermão 64, §7. Sobre 2Pedro 3.13, os novos céus e a nova terra são erguidos, por assim dizer, das cinzas dos antigosNotas, 2Pe 3.13.
Uma distinção importante aparece na nota sobre Romanos 8.21: Destruição não é libertação: portanto, o que quer que seja destruído, ou deixe de ser, não é libertado de modo algum.Notas, Rm 8.21 Wesley espera renovação, não aniquilação. No Sermão 15 ele registra a opinião de homens sábios de que nenhuma parte do universo será definitivamente aniquiladaSermão 15, III.4, e sim transformada, e conclui que não podemos afirmar nem negar. Sobre Hebreus 12.27, as coisas que não são abaladas e permanecem são os próprios novos céus e nova terraNotas, Hb 12.27.
Notas sobre Romanos 8.21 e Hebreus 12.27; Sermão 15, parte III
O passeio do sermão
Wesley percorre a criação como quem descreve um jardim que ainda não viu. Parte é Escritura, parte é conjectura, e ele mesmo avisa.
Os céus inferiores, o estrelado e o ar, serão renovados; o fogo não destruirá mais; não consumirá mais; esquecerá o seu poder de queimarSermão 64, §10, retendo talvez o poder de vivificar. O ar não terá tempestades nem meteoros. As águas serão límpidas, e Wesley conjectura, a partir de Apocalipse 21.1, que não haverá mar. A terra não mais será presa de frio intenso, nem ressecada por calor extremoSermão 64, §14; não terá terremotos, e não haverá mais rochas horríveis nem precipícios assustadoresSermão 64, §15; não produzirá espinhos nem plantas nocivas, de modo que toda a terra será então um paraíso mais belo do que Adão jamais viuSermão 64, §16.
A mudança maior será nos viventes. Na nova terra, nenhuma criatura matará, ferirá ou causará dor a outra.Sermão 64, §17 O lobo habitará com o cordeiro, e Wesley observa que as palavras podem entender-se tanto literal quanto figuradamenteSermão 64, §17. O Sermão 60 tira daí a sua tese: as criaturas que sofrem sem ter pecado terão reparação, pois algo melhor resta, depois da morte, também para estas pobres criaturasSermão 60, III.9. E o mesmo sermão extrai uma aplicação que poucos no século 18 tiraram: essas considerações podem abrandar o nosso coração para com as criaturas mais humildes, sabendo que o Senhor cuida delasSermão 60, III.10.
Como ler as conjecturas. O próprio Wesley trata como suposições a ausência de chuva, o recolhimento do mar e a temperatura da terra. O editor deste site lembra que ele entremeia versos de Milton e Watts e conjecturas científicas da época, e que o alicerce é a Escritura, interpretada pela Escritura. O que a Escritura garante é isto: a criação será libertada do cativeiro da corrupção (Rm 8.21), e não haverá mais maldição (Ap 22.3). O restante é a imaginação de um pastor apaixonado pela obra de Deus.
Glória das glórias
O ponto alto do sermão não é a paisagem. É o que Deus fará com os pobres, pecadores e miseráveis filhos dos homens, que caíram de mais alto e mais fundo que qualquer outra criatura.
Eles ouvirão a grande voz do céu: eis o tabernáculo de Deus com os homens. Sobre Apocalipse 21.3, Wesley diz que assim se executará, da maneira mais gloriosa, a aliança entre Deus e o seu povoNotas, Ap 21.3. Daí surgirá um estado sem mistura de santidade e felicidade, muito superior ao que Adão desfrutou no paraíso.Sermão 64, §18 Deus enxugará toda lágrima; não haverá morte, nem tristeza, nem pranto, nem dor. E Wesley acrescenta a libertação maior que todas: pois não haverá mais pecadoSermão 64, §18. Sobre Apocalipse 21.4, a ausência de morte é prova de que a descrição pertence à eternidade, e os santos têm vida e alegria eternasNotas, Ap 21.4.
O cume é a comunhão com Deus. Para coroar tudo, haverá uma profunda, íntima e ininterrupta união com DeusSermão 64, §18, uma constante comunhão com o Pai e com o Filho pelo Espírito, um contínuo gozo do Deus Três-e-Um e de todas as criaturas nele. Sobre Apocalipse 22.4, verão a sua face, o que não foi concedido a Moisés: terão o mais próximo acesso a ele e, daí, a mais alta semelhança com eleNotas, Ap 22.4. Sobre 1João 3.2, seremos semelhantes a ele, a glória de Deus penetrando a nossa substância mais íntimaNotas, 1Jo 3.2, porque o veremos como ele é.
Os seus servos o servirão. Wesley chama isso de a mais alta honra do universoNotas, Ap 22.3 e de o mais nobre emprego.Notas, Ap 22.3
E reinarão pelos séculos dos séculos. Assim termina a doutrina do Apocalipse: todas as coisas desembocam num sábado eterno, num estado perpétuo de paz e felicidade perfeitasNotas, Ap 22.5.
Sobre o trono, Wesley nota que esta é a primeira fala que expressamente se lhe atribuiNotas, Ap 21.5: eis que faço novas todas as coisas. E o apóstolo, tomado de êxtase, parece ter parado de escrever.
Duas notas
Duas ideias de Wesley completam o quadro e corrigem dois erros comuns: que o céu é igual para todos, e que o céu fica longe da criação.
Graus de glória. Sobre Apocalipse 7.9, há inconcebível variedade nos graus de recompensa no outro mundoNotas, Ap 7.9. E Wesley adverte: não diga o preguiçosoNotas, Ap 7.9: contento-me só de chegar ao céu; esse talvez perca o céu por inteiro. Sobre Apocalipse 22.4, os que reinam têm súditos, pois haverá necessariamente eterna diferença entre os que na terra se distinguiram na virtude e os servos indolentesNotas, Ap 22.4. Sobre 1Coríntios 3.14, a recompensa é um grau peculiar de glória. Não há inveja nisso, e sim justiça: cada um receberá segundo o que fez por amor.
Há um texto anterior às Notas que confirma essa leitura da herança. No Sermão 22, de 1748, explicando que os mansos herdarão a terra, Wesley diz que, num sentido mais profundo, eles terão parte mais eminente na nova terra em que habita a justiça (2Pe 3.13), naquela herança cuja descrição geral João deu no capítulo 20 do ApocalipseSermão 22, I.13. Já ali, antes das Notas, ele lia a herança dos santos como a nova terra, e não como um reino provisório.
A cidade que desce. O destino final não é uma permanência desencarnada no céu: a Nova Jerusalém desce do céu, da parte de Deus (Ap 21.2), e Deus habita com a humanidade na nova criação. Sobre Hebreus 11.10, Abraão aguardava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o único projetista, formador e consumadorNotas, Hb 11.10; sobre Hebreus 11.16, a pátria celestial é prova plena e convincente de que os patriarcas tiveram revelação e promessa da glória eterna no céuNotas, Hb 11.16. A pátria é celestial porque procede de Deus, e não porque fique longe da terra. Sobre Apocalipse 21.24, os reis trazem à cidade a glória a que convém à nova terra, e que recebe imenso acréscimo pela sua entrada na cidadeNotas, Ap 21.24. A nova terra é o lugar da cidade, e a cidade é o lugar de Deus com os homens.
Wesley leu, em 1770, a Teoria da Terra de Thomas Burnet e anotou no Diário que não objetava ao livro sobre a conflagração geral, e que, quanto ao quarto livro, sobre os novos céus e a nova terra, a sua substância é altamente provávelDiário, cap. 15. Charles cantou a mesma esperança em 1758: apressa, Senhor, o juízo universal, para herdarmos o novo céu e a nova terraHymns of Intercession, 1758. Os dois irmãos esperavam a terra renovada, não a fuga dela.
Diário, capítulo 15; Hinos de intercessão, 1758
Avaliação e aplicação
Aqui a concordância com Wesley é total, e a aplicação é ampla: a esperança da nova criação muda o modo como tratamos a terra, o corpo, o trabalho e a morte.
Guardamos com Wesley: a esperança final é a criação renovada, e não a alma desencarnada; a destruição desta ordem é a introdução de outra, e Deus não aniquila o que fez, transforma; a nova criação vem depois do juízo, e pertence à eternidade, não a este mundo nem ao milênio; o centro dela é Deus habitando com os homens, vistos face a face; e há graus de glória segundo a fidelidade. Deixamos como conjectura, com ele, o mar, a chuva e a temperatura.
A leitura amilenista lê Apocalipse 21 e 22 exatamente como Wesley: como a eternidade que sucede ao juízo, e não como um milênio terreno. É por isso que a aula 8 pôde dizer que, no desfecho, a estrutura fundamental da escatologia dele coincide com a nossa, ainda que ele leia Apocalipse 20 de outro modo. As promessas de paz na terra, do lobo com o cordeiro, se cumprem em definitivo na nova terra, e a igreja as antecipa agora, na medida em que a graça transforma corações ferozes em mansos, como Wesley diz sobre Isaías 11.6.
Se Deus vai renovar a terra e libertar as criaturas, elas não são descartáveis. Wesley tirou do Sermão 60 um chamado à compaixão com os animais. Nós podemos tirar dele um cuidado mais amplo com o mundo que Deus vai redimir.
Se o que fazemos por amor nos segue (Ap 14.13) e há graus de glória, nenhum serviço é pequeno. Não diga o preguiçoso: contento-me só de chegar ao céu.
A visão de Deus é o cume da nova criação, e Wesley liga a visão à semelhança: quem o verá como ele é purifica-se agora (1Jo 3.2-3). A esperança do céu é o maior motivo para a santidade na terra.
Fixação
Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Seis questões, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe.
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Para pensar e conversar
Uma pergunta para dentro e outra para a conversa com quem pensa diferente. Cada uma traz uma resposta sugerida.
Muitos crentes herdaram uma imagem do céu que é mais grega do que bíblica: almas sem corpo, longe da matéria, ocupadas em contemplar. Wesley não conhecia essa imagem. O céu dele tem terra nova, criaturas libertas, corpos ressuscitados, graus de glória conforme o serviço, e uma cidade que desce.
Isso muda a vida presente. O trabalho honesto, o cuidado com a criação, a arte, a hospitalidade, tudo o que é feito por amor nos segue (Ap 14.13) e antecipa a nova terra. E muda a morte: não é o fim do corpo, é a espera da sua redenção.
Um exercício: releia Apocalipse 21.1-5 e liste o que ali é concreto, cidade, lágrimas, morte, dor. Depois pergunte o que, na sua vida, já se parece com isso e o que ainda não. A esperança da nova criação é para ser vivida antes de ser vista.
Distinga o mundo no sentido de sistema oposto a Deus, que devemos não amar (1Jo 2.15), da criação de Deus, que ele declarou muito boa e vai renovar. Wesley despreza o primeiro e ama a segunda: o Sermão 60 pergunta o que Deus fará pelos animais, e o Sermão 64 descreve a terra renovada com a alegria de um poeta.
Depois, mostre que o desprezo da matéria não é bíblico: Deus se fez carne, ressuscitou com um corpo, e promete a redenção do nosso corpo (Rm 8.23) e a libertação da criação (Rm 8.21). Wesley escreve, sobre 2Coríntios 5.4, que a fé não conhece aquele desprezo filosófico pelo que o sábio Criador deu.
Por fim, lembre o centro: a nova criação não é materialismo porque o seu cume é Deus com os homens, visto face a face. Não amamos a terra nova por ela mesma; amamos porque ali Deus habitará conosco. É a diferença entre o materialismo e a esperança cristã.
A nova criação: eis que faço novas todas as coisas · Aula 10 de 11 do curso A Escatologia de John Wesley. Todas as citações desta aula levam ao trecho exato das obras de John Wesley publicadas neste site.