Como ler esta aula. As palavras de Wesley aparecem como links sublinhados em laranja, seguidos da referência convencional entre parênteses (sermão e parágrafo, ou livro e versículo das Notas); o link abre a obra neste site no trecho exato. Os blocos marcados Síntese do curso trazem a leitura e a avaliação do curso; os marcados Nota do editor, esclarecimentos e fontes.
Para começar
De que lado Wesley estava?
Pré-milenistas, pós-milenistas e amilenistas já reivindicaram Wesley. Esta aula põe os quatro sistemas lado a lado, resume o que as aulas anteriores mostraram nos textos e responde com a honestidade que ele merece.
Os sistemas escatológicos são modos de organizar os mesmos textos. Todos os que os defendem creem na volta de Cristo, na ressurreição e no juízo; a diferença está na ordem dos acontecimentos, no sentido do milênio de Apocalipse 20 e no lugar de Israel. Por isso a pergunta desta aula não é qual sistema é verdadeiro, e sim o que os textos de Wesley afirmam e negam. Os sistemas vieram depois; ele veio antes, e é a partir dele que vamos julgar as reivindicações.
O método é o mesmo de todo o curso: cada afirmação sobre Wesley leva ao trecho exato. Nesta aula, a maior parte dos trechos já foi lida nas aulas 3 a 8; aqui eles são reunidos num só quadro. Se você chegou direto a esta aula, os links permitem conferir tudo.
Definições
Os quatro sistemas em poucas palavras
Definições justas, sem caricatura. Cada sistema tem defensores sérios e leitores sinceros da Bíblia.
1
Pré-milenismo histórico
Cristo volta antes do milênio, ressuscita os justos e reina com eles na terra por mil anos; depois, a ressurreição dos ímpios e o juízo final. A igreja passa pela tribulação e a vinda é uma só. Foi a posição de alguns pais da igreja e, no século 20, de George Eldon Ladd.
2
Dispensacionalismo
Uma forma de pré-milenismo surgida por volta de 1830 com John Nelson Darby. Distingue Israel da igreja como dois povos com programas próprios, ensina o arrebatamento secreto da igreja antes de sete anos de tribulação, separa vários julgamentos e espera um reino terreno com Israel restaurado.
3
Pós-milenismo
O evangelho vencerá gradualmente no mundo, produzindo uma era de paz e justiça, o milênio, ao fim da qual Cristo volta para a ressurreição e o juízo gerais. Uma vinda, uma ressurreição, um juízo.
4
Amilenismo
Os mil anos de Apocalipse 20 simbolizam a era da igreja, entre as duas vindas: Satanás foi amarrado na primeira vinda, os santos reinam com Cristo no céu, e no fim Cristo volta para a ressurreição e o juízo gerais, seguidos da nova criação. Uma vinda, uma ressurreição, um juízo.
Repare que os sistemas 3 e 4 compartilham a estrutura do fim: uma vinda, uma ressurreição de todos, um juízo de todos, e a nova criação. Os sistemas 1 e 2 exigem duas ressurreições separadas por mil anos e um reino terreno entre a vinda e o juízo. O sistema 2 acrescenta duas vindas e vários julgamentos. É contra essas exigências que os textos de Wesley precisam ser lidos.
O balanço das aulas
Oito afirmações de Wesley, com os textos
Este é o resumo do curso até aqui, em forma de lista. Cada item tem o trecho exato.
Uma ressurreição geral, de justos e ímpios, na vinda de Cristo
Sobre 1Coríntios 15.23, ao mesmo tempo ressuscitarão também os ímpiosNotas, 1Co 15.23; sobre João 5.28, não dois ou três, mas todos ressuscitarãoNotas, Jo 5.28. A sequência pré-milenista, com um reino terreno entre as ressurreições, não está nas Notas; o que a leitura de Apocalipse 20 tem de especulativo, tomado de Bengel, o curso registra sem adotar (nota histórica da aula 8).
Por que Wesley não é pré-milenista nem dispensacionalista
Os oito pontos anteriores bastam para o veredicto, mas vale organizá-lo diante de cada sistema, porque os argumentos não são os mesmos.
Diante do dispensacionalismo, a distância é grande e explícita. Wesley não conhece arrebatamento secreto: o arrebatamento de 1Tessalonicenses 4.17 é a abertura do juízo, com os ímpios embaixo. Não conhece vários julgamentos: o tribunal de Cristo de Romanos 14.10, as ovelhas e os cabritos e o grande trono branco são uma só cena. Não conhece dois povos com programas separados: a igreja sem mancha consistirá de todos os judeus e gentios unidos, e Mateus 24 é dirigido aos cristãos posteriores, que os apóstolos representavam. E não conhece uma vinda antes da apostasia e do homem da iniquidade.
Diante do pré-milenismo histórico, o argumento precisa ser mais fino, porque esse sistema também espera uma só vinda e põe a igreja na tribulação. George Eldon Ladd, seu representante mais conhecido, também rejeita a leitura de Mateus 25 como seleção para o milênio e trata como intercambiáveis o tribunal de Deus e o tribunal de Cristo. Dizer apenas que Wesley identifica os julgamentos, portanto, não basta para distingui-lo de todo pré-milenista. O que distingue é a combinação de três coisas: a ressurreição geral de justos e ímpios na vinda de Cristo (Ladd precisa de duas ressurreições separadas por um reino terreno; Wesley não conhece reino terreno entre a vinda e o juízo), o reinado dos santos no céu e não na terra, e a vinda em glória situada no grande dia do trono branco, depois do reinado. Contra o dispensacionalismo, as Notas oferecem identificações expressas; contra o pré-milenismo histórico, oferecem uma sequência que reúne os acontecimentos sem inserir o intervalo milenar entre as ressurreições.
Exigência do sistema
Pré-milenismo histórico
Dispensacionalismo
Wesley
Duas ressurreições separadas por mil anos
Sim
Sim
Não no sentido pré-milenista (todos os justos na vinda, reino terreno, ímpios depois): na vinda, ao mesmo tempo ressuscitarão também os ímpios (1Co 15.23)
Reino terreno de Cristo com os santos depois da vinda
Sim
Sim
Não: os santos reinam no céu (Ap 20.4)
Vinda em glória antes do milênio
Sim
Sim
Não: o grande dia do Senhor é o trono branco, depois do reinado (Ap 20.11)
Arrebatamento secreto antes da tribulação
Não
Sim
Não: o arrebatamento abre o juízo (1Ts 4.17)
Vários julgamentos por eras
Não
Sim
Não: uma assembleia universal (Sermão 15)
Israel com programa separado da igreja
Varia
Sim
Não: judeus e gentios unidos numa só igreja (At 3.21)
Uma ressalva de honestidade. O Sermão 15 e as Notas não resolvem sozinhos todas as particularidades da escatologia de Wesley, e as aulas 8 e 10 tratam de outros pontos do seu ensino. Mas a exposição é clara o suficiente para mostrar que a sequência ensinada por ele contraria a estrutura pré-milenista: a humanidade inteira comparece diante de Cristo para o julgamento que determina os destinos eternos, sem um reino terreno no meio.
A pergunta que resta
Wesley entre o pós-milenismo e o amilenismo
Se Wesley não é pré-milenista, o que ele é? A resposta honesta é que ele não cabe inteiro em nenhum rótulo moderno, e vale mostrar por quê.
O que o aproxima do pós-milenismo. A prisão de Satanás é futura, e os mil anos trazem à igreja um tempo que ela ainda não viu; o evangelho crescerá silenciosamente até a santidade e a felicidade universais (Sermão 63); Israel será convertido; e só depois vem o fim, com a vinda de Cristo para a ressurreição e o juízo. Essa esperança de uma era de paz antes da vinda é o coração do pós-milenismo, e é a de Wesley. O que o distingue dos pós-milenistas mais confiantes é o realismo: nunca viu um país cristão, sabia que o joio cresce na igreja e que Satanás ainda será solto, e por isso pedia sabedoria, paciência, fidelidade e vigilância.
Os elementos especulativos. O que a leitura de Apocalipse 20 tem de especulativo, herdado de Bengel, fica registrado na nota histórica da aula 8 e não entra no veredito. Os estudiosos reconhecem a dificuldade de classificá-lo; veja a bibliografia na página do curso.
O que o aproxima do amilenismo. O reinado dos santos com Cristo no céu; o Reino espiritual, cujo cetro é a Palavra; uma vinda pública, uma ressurreição geral, um juízo universal; a Nova Jerusalém como eternidade; a recusa de um milênio carnal; a leitura de Mateus 24 com Jerusalém como tipo do fim. Mas Wesley não é amilenista: ele não amarra Satanás na cruz, e espera um período futuro definido de paz na terra.
Veredito. Wesley não se enquadra perfeitamente em nenhum dos sistemas escatológicos atuais. Sua esperança na ampla difusão do evangelho aproxima-se do pós-milenismo. Entretanto, sua afirmação de uma única volta pública de Cristo, seguida pela ressurreição geral e pelo juízo universal, bem como sua rejeição de um reino terreno estabelecido depois da volta de Cristo, aproxima sua estrutura final do amilenismo. O que se pode afirmar com segurança é que Wesley não era pré-milenista, muito menos dispensacionalista.
O que não se pode dizer. Que ele cria numa vinda secreta, num reino terreno de Cristo depois da volta, na ressurreição de todos os justos na volta de Cristo seguida, mil anos depois, da ressurreição dos ímpios, ou em vários julgamentos. Quem afirma isso de Wesley precisa mostrar o texto, e o texto diz o contrário.
Avaliação e aplicação
Como usar o nome de Wesley com honestidade
O curso adota a leitura amilenista, e eu a defendo. Mas defendo também que ninguém, eu incluído, use Wesley como bandeira de um sistema que ele não conheceu.
Guardamos com Wesley a estrutura: uma vinda visível, uma ressurreição geral de todos na vinda, um juízo de todos, um Reino espiritual que cresce pela Palavra, o reinado dos santos no céu e a nova criação depois de tudo. Nisso, a escatologia da nossa igreja é a dele. Diferimos sobre o começo dos mil anos, e essa diferença é menor do que parece: dois leitores que esperam a mesma vinda, a mesma ressurreição e o mesmo juízo, e que trabalham pela mesma difusão do evangelho.
O que este curso pede é uma disciplina simples. Quando alguém disser que Wesley era pré-milenista, peça o texto. Quando alguém disser que ele era amilenista, peça o texto também. E leia as Notas sobre Apocalipse 20, 1Coríntios 15 e as cartas aos tessalonicenses, e o Sermão 15, antes de dar qualquer rótulo. Os links estão nas aulas.
1
Ensine a estrutura, não o esquema
Na igreja, o que salva e consola é a estrutura: Cristo vem, os mortos ressuscitam, todos são julgados, Deus faz novas todas as coisas. Os esquemas detalhados de datas e etapas dividiram mais do que edificaram.
2
Trate os sistemas com justiça
Descreva o pré-milenismo como um pré-milenista o descreveria, e depois discorde com os textos. Wesley pediu misericórdia para os que divergiam dele; podemos pedir o mesmo.
3
Mantenha o centro
Qualquer sistema que enfraqueça a vinda visível, a ressurreição do corpo, o juízo universal ou a salvação pela fé em Cristo saiu do trilho. Qualquer sistema que os mantenha é um irmão com quem se pode conversar.
Fixação
Cartões de memorização
Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Teste o que você aprendeu
Seis questões, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe.
0 de 6
Para pensar e conversar
Perguntas para reflexão
Uma pergunta para dentro e outra para a conversa com quem pensa diferente. Cada uma traz uma resposta sugerida.
Você já usou o nome de um autor para vencer uma discussão sem ter lido o que ele escreveu? O que esta aula corrige nesse hábito?Ver resposta sugerida
Quase todos já fizemos isso, e a escatologia é o campo em que mais acontece. Citar Wesley, Lutero ou um pai da igreja dá peso ao argumento e dispensa a leitura. Esta aula mostra o preço: gente sincera afirmando de Wesley o contrário do que ele escreveu, em ambos os lados.
A correção é uma disciplina de honestidade: só afirmar de um autor o que se pode mostrar no texto dele, e mostrar o texto. É o que o próprio Wesley fazia com a Escritura e com os comentaristas que lia, e é o que este curso tenta fazer com Wesley.
Há um ganho espiritual nisso. Quem lê antes de citar aprende a discordar com respeito e a concordar com fundamento. E descobre, muitas vezes, que o autor era mais interessante do que o rótulo.
Um irmão pré-milenista sincero se sente atacado por esta aula. Como conduzir a conversa para que ele se sinta respeitado e, ao mesmo tempo, examine os textos?Ver resposta sugerida
Comece pelo que é comum, e é muito: a volta visível de Cristo, a ressurreição do corpo, o juízo, a nova criação, a salvação pela fé. Diga isso primeiro e com sinceridade. A divergência sobre o milênio é real, mas é uma divergência entre irmãos que esperam o mesmo Senhor.
Depois, descreva a posição dele com justiça, sem caricatura, e distinga o pré-milenismo histórico do dispensacionalismo, porque muitos irmãos são pré-milenistas sem serem dispensacionalistas e se ofendem quando são confundidos. A aula faz essa distinção de propósito.
Por fim, convide-o a ler Wesley junto, e não a concordar com você. A pergunta não é quem tem razão sobre o milênio, e sim o que Wesley escreveu. Se ele sair da conversa sabendo o que as Notas dizem sobre Apocalipse 20.4 e 1Coríntios 15.23, a conversa valeu, mesmo que ele continue pré-milenista.
Se Wesley não cabe em nenhum rótulo moderno, o que isso ensina sobre a nossa própria escatologia?Ver resposta sugerida
Ensina, primeiro, que os sistemas são ferramentas, e não credos. Nenhum concílio ecumênico definiu o milênio; o Credo Apostólico e o Niceno afirmam a vinda, o juízo, a ressurreição e a vida eterna, e param aí. Wesley viveu e pregou dentro desses limites, com opiniões próprias sobre o resto.
Ensina, segundo, que é possível ter convicções firmes e humildade ao mesmo tempo. Wesley não hesitava sobre a vinda visível e a ressurreição de todos, e hesitava, com todas as letras, sobre a cronologia. Nós podemos fazer o mesmo: firmeza no centro, abertura nas margens.
E ensina, terceiro, que a escatologia se prova na vida. A pergunta final de Wesley nunca foi qual sistema você adota, e sim se você está pronto para encontrar o Senhor. É com essa pergunta que as três últimas aulas do curso vão trabalhar.
Wesley diante dos sistemas escatológicos · Aula 9 de 11 do curso A Escatologia de John Wesley. Todas as citações desta aula levam ao trecho exato das obras de John Wesley publicadas neste site.