“Por essa razão, amados, esperando estas coisas, esforcem-se para que Deus os encontre sem mácula, sem culpa e em paz.”2Pedro 3.14 · NAA
Como ler esta aula. As palavras de Wesley aparecem como links sublinhados em laranja, seguidos da referência convencional entre parênteses (sermão e parágrafo, ou livro e versículo das Notas); o link abre a obra neste site no trecho exato. Os blocos marcados Síntese do curso trazem a leitura e a avaliação do curso; os marcados Nota do editor, esclarecimentos e fontes.
Para começar
Onze aulas depois, a pergunta de Wesley não é qual sistema você adota. É se você está pronto para encontrar o Senhor, e como a esperança do fim governa o seu tempo, o seu dinheiro, o seu trabalho e a sua morte.
Wesley nunca pregou sobre as últimas coisas para satisfazer curiosidade. Cada sermão termina em aplicação, e as aplicações são sempre as mesmas: preste contas, vigie, espere com desejo, prepare-se para morrer bem. Esta aula recolhe essas aplicações e as organiza em quatro movimentos, e termina com a síntese do curso inteiro em dez frases.
Se a escatologia de Wesley tivesse de ser resumida numa palavra, a palavra seria urgência. Não a urgência de quem marca datas, e sim a de quem sabe que poderá acontecer amanhã, talvez esta noiteSermão 121, §9, como ele escreve no Sermão 121, e que, quando isso acontecer, o dinheiro não nos acompanharáSermão 121, §9. A eternidade está a um passo, e o passo pode ser dado esta noite.
Sermão 51
O Sermão 51, sobre a parábola do administrador infiel, é a escatologia de Wesley aplicada aos bolsos, às horas e às faculdades da alma.
A relação da criatura com o Criador, diz Wesley, é a de um mordomo, alguém a quem tudo foi confiado e de quem tudo será cobrado. Nada do que temos é nosso: alma, corpo, fala, mãos, bens, tempo e, acima de tudo, a graça. A mordomia termina na morte, quando os dias da nossa administração terminaramSermão 51, II.12. A prestação de contas, porém, não acontece na morte, e sim no juízo geral, quando o Filho do Homem vier na sua glória. Então vem o exame: o Senhor pergunta como empregamos a alma, o corpo, os bens materiais, o tempo, e por fim: acima de tudo, foi você um bom administrador da minha graça?Sermão 51, III.6.
As aplicações são duras e libertadoras. Primeira: como é importante este dia curto e incerto da vida!Sermão 51, IV.1 Segunda: não há emprego do nosso tempo, nenhuma ação ou conversa, que seja puramente indiferenteSermão 51, IV.2, porque tudo o que temos não é nosso. Terceira: não há obras de supererrogaçãoSermão 51, IV.3, pois nunca podemos fazer mais que o nosso dever, visto que tudo é devido a Deus. E a conclusão: não é coisa pequena empregar por Deus tudo o que se recebeu de DeusSermão 51, IV.4. Na nota sobre Mateus 24.45, o servo prudente é o que vive conservando a cada momento a convicção de que tudo o que possui lhe está apenas confiado como mordomoNotas, Mt 24.45.
Cada porção deste dia curto e incerto é preciosa acima de toda concepção. Não há emprego do tempo que seja indiferente: ou serve a Deus, ou não.
Suprir as necessidades razoáveis da própria família e devolver o restante a Deus por meio dos pobres. Entesourar para deixar atrás de si é o mesmo que enterrar na terra.
O talento maior. Wesley pergunta se cultivamos cada influência do Espírito, cada bom desejo, cada repreensão. É a mordomia que decide todas as outras.
As Notas
Se ninguém sabe o dia, a resposta não é calcular, e sim vigiar. Wesley repete isso em cada texto sobre a vinda.
Sobre Mateus 25.13, quem vigia tem a lâmpada acesa e azeite na vasilha, e está tranquilo, mas não em falsa segurançaNotas, Mt 25.13. Sobre 1Tessalonicenses 5.4, estar em trevas é dormir seguro no pecadoNotas, 1Ts 5.4. Sobre 1Pedro 4.7, o fim de todas as coisas está próximo, e por isso: vigiai, para que possais orar; e orai, para que possais vigiarNotas, 1Pe 4.7. Sobre 1Pedro 1.13, cingir os lombos da mente é conservar a mente sempre desimpedida e preparada para correr a carreira que nos está propostaNotas, 1Pe 1.13. Sobre Apocalipse 16.15, feliz é quem vigia, esperando continuamente por aquele que vem sem demoraNotas, Ap 16.15.
A vigilância de Wesley não é ansiedade. É santidade com prazo. Sobre 2Pedro 3.11, a dissolução de todas as coisas leva à pergunta: que pessoas devemos ser em todo santo procedimentoNotas, 2Pe 3.11, para com os homens, e piedade, para com o Criador. Sobre 2Pedro 3.14, ser achado em paz é encontrá-lo sem terror, aspergidos com o seu sangue e santificados pelo seu EspíritoNotas, 2Pe 3.14. Sobre 1Tessalonicenses 5.23, Paulo deseja que espírito, alma e corpo sejam preservados irrepreensíveis até a vinda de CristoNotas, 1Ts 5.23. E sobre 2Pedro 3.18, Wesley deixa uma regra de crescimento: não tentemos inverter a ordem de Deus na sua nova criação; só enganaremos a nós mesmosNotas, 2Pe 3.18.
O Sermão 54 traduz tudo isso numa escolha. Diante da eternidade feliz ou infeliz, só uma coisa é necessáriaSermão 54, §19, e Wesley termina o sermão lembrando que, para Deus, nada é pequeno ou grande, de modo que o crente pode dizer que ele conta cada fio sagrado dos nossos cabelosSermão 54, §20, como se fosse o seu único cuidado. Vigiar é viver diante desse Deus.
Sermão 54, Sobre a eternidade
Desejo e missão
A escatologia de Wesley é otimista. Ele esperava a vinda de Cristo com desejo e esperava que o evangelho enchesse a terra antes dela. As duas esperanças alimentavam o mesmo trabalho.
Sobre 2Timóteo 4.8, amar a vinda de Cristo é o que somente um cristão real pode fazerNotas, 2Tm 4.8. Sobre Apocalipse 22.20, quando o Senhor diz que vem sem demora, o apóstolo exprime o seu ardente desejo e esperança respondendoNotas, Ap 22.20: Amém. Vem, Senhor Jesus! Charles cantou o mesmo desejo em 1758: com o exército dos portadores da cruz, eis que aguardamos, ansiamos por nos erguerHymns of Intercession, 1758. Esperar assim não é fugir do mundo; é trabalhar nele com o fim à vista.
E o trabalho tem esperança. No Sermão 63, Wesley diz que toda pessoa sem preconceito pode ver com os próprios olhos que ele já está renovando a face da terraSermão 63, §27, e que a obra começada seguirá até o dia do Senhor Jesus. Sobre Apocalipse 14.13, os que morrem no Senhor descansam, e quanto mais laboriosa foi a vida, tanto mais doce é o descansoNotas, Ap 14.13; as obras não vão adiante para lhes obter entrada nas mansões da alegria; mas seguem-nos, uma vez admitidosNotas, Ap 14.13. Nada do que se faz por amor se perde: nem o trabalho, nem a espera, nem a oração.
O fim de Wesley
Os metodistas ficaram conhecidos por morrer bem. Wesley morreu como pregou, e o relato dos seus últimos dias é a melhor aplicação de tudo o que este curso estudou.
Ele ensinou a morte como despertar de um sonho e como ida ao encontro dos que partiram: no Sermão 135, escrito ainda jovem, lembra que também estamos caminhando para a pessoa que partiuSermão 135, e que por isso é muito melhor, como observa Salomão, ir à casa onde existe luto do que à casa onde existe festaSermão 135. Nas cartas dos últimos anos, escreve a uma amiga de décadas: seja como for, enquanto vivermos, vivamos para aquele que morreu por nósCartas dos últimos anos. E à América, um mês antes de morrer: aqueles que desejam me escrever não têm tempo a perder, pois o tempo já lhe apertara a mãoCartas dos últimos anos.
Nos últimos dias, em março de 1791, a fraqueza cresceu depressa. Ao médico, sorriu: Doutor, eles estão mais assustados do que eu feridoDiário, cap. 21. Em voz baixa, disse: não há outro caminho para o Santo dos Santos senão pelo sangue de JesusDiário, cap. 21. Quando já não podia escrever, ditou uma frase: nada, senão que Deus está conosco. Cantou o hino de Watts que dera aos metodistas como lema, os meus dias de louvor jamais hão de passarDiário, cap. 21, e pediu aos que estavam à volta: orem e louvemDiário, cap. 21. Reuniu as forças que restavam e exclamou duas vezes que o melhor de tudo é que Deus está conosco. A última palavra foi uma bênção: adeus.
Repare no que não aparece nesse relato: nenhuma data, nenhum cálculo, nenhuma ansiedade sobre o milênio. Aparece a Presença. A escatologia de Wesley terminou onde começou, no Reino de Deus dentro da alma, e o velho pregador atravessou o rio como quem já vivia na eternidade e andava na eternidade.
Diário, capítulo 21, relato de Elizabeth Ritchie
Para levar
Cada frase remete a uma aula. Juntas, elas são o que este curso quis mostrar: um ensino firme no centro, humilde nas margens e inteiramente voltado para a santidade e a esperança.
A vida eterna já começou. O Reino de Deus é justiça, paz e alegria no Espírito Santo, e o céu se abre dentro da alma de quem crê (aula 1).
Quem morre no Senhor está com Cristo, consciente, no paraíso, à espera da ressurreição. Sem purgatório, sem sono da alma, sem juízo particular (aula 2).
Ele vem. Uma vinda visível, súbita, gloriosa, para o juízo; ninguém sabe o dia; a demora é misericórdia (aula 3).
Mateus 24 tem dois horizontes. A queda de Jerusalém, cumprida com exatidão, e a última vinda, que ela tipifica (aula 4).
A igreja atravessa a tribulação. O arrebatamento abre o juízo, a reunião com Cristo segue o homem da iniquidade, e não há vinda secreta (aula 5).
Uma ressurreição geral, do mesmo corpo, transformado. Justos e ímpios ao mesmo tempo, na vinda de Cristo (aula 6).
Um só julgamento, de toda a humanidade, segundo as obras, fruto e critério público da fé que atua pelo amor. Duas sentenças definitivas, um só tribunal (aula 7).
O Reino de Deus é espiritual e cresce até encher a terra. Cristo volta depois, para o juízo, e os santos reinam com ele no céu, não na terra (aula 8).
Nem pré-milenista, nem bandeira de ninguém. Uma única volta pública de Cristo, a ressurreição geral, o juízo universal, o Reino espiritual, a expansão do evangelho e a nova criação: essa é a estrutura; nenhum sistema atual o contém por inteiro (aula 9).
A nova criação é a redenção do cosmo, e tudo isso serve à santidade. Sem fuga da matéria, sem curiosidade ociosa (aulas 10 e 11).
Para continuar. Este curso foi construído sobre as obras de Wesley publicadas neste site: os 141 sermões, as Notas sobre a Bíblia, o Diário e as Cartas. Depois das onze aulas, o melhor passo é ler as fontes inteiras, começando pelos Sermões 15 e 64 e pelas Notas sobre Apocalipse 20. E o segundo melhor passo é ensinar a alguém o que você aprendeu.
Fixação
Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Seis questões, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe.
0 de 6
Para pensar e conversar
Uma pergunta para dentro e outra para a conversa com quem pensa diferente. Cada uma traz uma resposta sugerida.
Wesley não propõe esse exame para produzir culpa, e sim para produzir fidelidade. O mordomo que se examina antes do dia da prestação de contas chega a ele em paz. Faça o exame em oração, por escrito se puder, e sem pressa.
Alguns pontos costumam aparecer: tempo gasto sem propósito, dinheiro entesourado sem necessidade, dons não usados, repreensões do Espírito ignoradas. Escolha um, e apenas um, para mudar esta semana. Wesley dizia que a menor porção do tempo é um grão de ouro; comece por um grão.
E lembre a conclusão do sermão: a graça de Deus basta, e tudo é possível ao que crê. Não é coisa pequena empregar por Deus tudo o que se recebeu de Deus, mas não é preciso fazê-lo sozinho.
Comece pelas aulas que unem: a 1, a 3, a 6, a 11 e a 12 tratam do que toda a igreja crê, a vida eterna começada, a vinda de Cristo, a ressurreição, a nova criação e a vida à luz do fim. Elas preparam o terreno para as aulas em que há divergência entre sistemas.
Ao chegar às aulas 5, 8 e 9, adote o método do curso: leia os textos de Wesley juntos, com os links, antes de discutir qualquer sistema. Distinga sempre o que é estrutura, uma vinda pública, uma ressurreição geral, um juízo universal, do que é esquema especulativo. E trate quem pensa diferente como Wesley pediu: com misericórdia.
Termine cada encontro com aplicação, e não com debate. A pergunta de Wesley não é qual sistema você adota, e sim se você está pronto. Se o grupo sair de cada aula mais vigilante, mais grato e mais disposto a evangelizar, o curso cumpriu o seu propósito.
Ensina que o centro não é um acontecimento, e sim uma Presença. Toda a escatologia de Wesley, a vinda, a ressurreição, o juízo, a nova criação, converge para uma frase de Apocalipse 21.3: Deus habitará com eles. E o Sermão 64 termina no mesmo lugar: uma profunda, íntima e ininterrupta união com Deus.
Por isso ele pôde morrer sem medo e sem cálculo. Quem já tem Deus consigo não precisa saber a data de nada; sabe com quem vai estar. A eternidade feliz, para Wesley, é a continuação de uma comunhão que começou na conversão e cresceu na santificação.
A aplicação é simples e exigente ao mesmo tempo: cultive hoje a Presença que você espera para sempre. É a única preparação para a morte que não pode falhar, e é a que Wesley deixou como última palavra.
Viver à luz do fim: mordomia, vigilância e esperança · Aula 11 de 11 do curso A Escatologia de John Wesley. Esta é a última aula do curso. Todas as citações levam ao trecho exato das obras de John Wesley publicadas neste site.