Jacó Armínio · Declaração de Sentimentos · parte 4 de 5

Os quatro decretos e os artigos II a VI

2. Uma segunda espécie de predestinação

Mas alguns outros dos nossos doutores expõem o assunto da predestinação de Deus de maneira um tanto diferente. Tocaremos de passagem nos dois modos que eles empregam. Entre alguns deles prevalece a seguinte opinião:

1. Deus determinou em si mesmo, por um decreto eterno e imutável, tornar (segundo o seu próprio beneplácito) a menor porção da massa geral da humanidade participante da sua graça e da sua glória, para louvor da sua própria graça gloriosa. Mas, segundo o seu beneplácito, também deixou de lado a maior porção dos homens e os abandonou na sua própria natureza, que é incapaz de tudo o que é sobrenatural [ou que está além dela], e não lhes comunicou aquela graça salvadora e sobrenatural pela qual a natureza deles (se ainda conservasse a sua integridade) pudesse ser fortalecida, ou pela qual, se estivesse corrompida, pudesse ser restaurada; e isso para demonstração da sua própria liberdade. Contudo, depois que Deus tornou esses homens pecadores e culpados de morte, puniu-os com a morte eterna, para demonstração da sua própria justiça.

2. A predestinação deve ser considerada com respeito ao seu fim e aos meios que tendem a ele. Mas essas pessoas empregam a palavra “predestinação” na sua acepção especial de eleição, e a opõem à reprovação. (1.) Com respeito ao seu fim (que é a salvação e a manifestação da gloriosa graça de Deus), o homem é considerado de modo comum e absoluto, tal como é na sua própria natureza. (2.) Mas, com respeito aos meios, o homem é considerado como perecendo por si mesmo e em si mesmo, e como culpado em Adão.

3. No decreto a respeito do fim, devem-se observar as seguintes gradações. (1.) A presciência de Deus, pela qual ele conheceu de antemão aqueles a quem havia predestinado. Depois, (2.) a prefinição divina [ou predeterminação], pela qual ele preordenou a salvação daquelas pessoas que havia conhecido de antemão. Primeiro, elegendo-as desde toda a eternidade; e, em segundo lugar, preparando para elas a graça nesta vida e a glória no mundo vindouro.

4. Os meios que pertencem à execução desta predestinação são: (1.) o próprio Cristo; (2.) um chamado eficaz à fé em Cristo, do qual a justificação tem a sua origem; (3.) o dom da perseverança até o fim.

5. Até onde somos capazes de compreender o esquema de reprovação deles, ele consiste em dois atos: o da preterição e o da predamnação. Ele é anterior [N. do T.: o inglês diz apenas “it”; pelo que o item 7 diz da predamnação, o sujeito parece ser o primeiro ato, a preterição.] a todas as coisas e a todas as causas que estão nas próprias coisas ou que delas surgem; isto é, não leva em conta pecado algum, seja ele qual for, e só vê o homem sob um aspecto absoluto e geral.

6. Para a execução do ato de preterição são preordenados dois meios: (1.) o desamparo [ou abandono] no estado de natureza, que por si só é incapaz de tudo o que é sobrenatural; e (2.) a não comunicação [ou a negação] da graça sobrenatural, pela qual a natureza deles (se em estado de integridade) pudesse ser fortalecida e (se em estado de corrupção) pudesse ser restaurada.

7. A predamnação é anterior a todas as coisas; contudo, de modo algum existe sem uma presciência das causas da condenação. Ela vê o homem como pecador, sujeito à condenação em Adão e, por essa razão, perecendo pela necessidade da justiça divina.

8. Os meios ordenados para a execução desta predamnação são: (1.) o justo abandono, que é ou o de prova [ou exame], no qual Deus não confere a sua graça, ou o de punição, quando Deus tira de um homem todos os seus dons salvadores e o entrega ao poder de Satanás. (2.) O segundo meio é a induração, ou endurecimento, com as consequências que costumam segui-la, até a condenação real da pessoa reprovada.

3. Uma terceira espécie de predestinação

Mas outros dentre os nossos doutores expõem as suas convicções sobre este assunto da seguinte maneira:

1. Porque Deus quis em si mesmo, desde toda a eternidade, fazer um decreto pelo qual elegesse certos homens e reprovasse os demais, ele viu e considerou o gênero humano não só como criado, mas também como caído ou corrompido e, por isso, sujeito à maldição e à execração. Desse estado decaído e amaldiçoado, Deus determinou libertar certos indivíduos e salvá-los gratuitamente pela sua graça, para declaração da sua misericórdia; mas resolveu, no seu justo juízo, deixar os demais sob a maldição [ou execração], para declaração da sua justiça. Em ambos os casos, Deus age sem a menor consideração do arrependimento e da fé naqueles que elege, nem da impenitência e da incredulidade naqueles que reprova.

2. Os meios especiais que dizem respeito particularmente à execução tanto da eleição como da reprovação são exatamente os mesmos que já expusemos na primeira destas espécies de predestinação, com exceção dos meios que são comuns tanto à eleição quanto à reprovação; porque esta [terceira] opinião coloca a queda do homem não como um meio preordenado para a execução do decreto anterior de predestinação, mas como algo que poderia fornecer um propósito fixo, ou uma ocasião, para fazer esse decreto de predestinação.

4. Meu juízo a respeito dos dois esquemas de predestinação descritos por último

Ambas essas opiniões, conforme alegam exteriormente, diferem da primeira neste ponto: nenhuma delas apresenta a criação ou a queda como uma causa mediata preordenada por Deus para a execução do decreto anterior de predestinação. Contudo, com respeito à queda, pode-se perceber alguma diversidade nas duas últimas opiniões. Pois a segunda espécie de predestinação coloca a eleição, com respeito ao fim, antes da queda; e coloca também antes desse acontecimento a preterição [ou o deixar de lado], que é a primeira parte da reprovação. Já a terceira espécie não permite que parte alguma da eleição e da reprovação comece senão depois da queda do homem. Mas, entre as causas que parecem ter induzido os inventores dos dois últimos esquemas a ensinar a doutrina da predestinação desta maneira, e a não subir a uma altura tão grande como a que alcançaram os inventores do primeiro esquema, não é a menor esta: desejaram usar da maior precaução, para que não se concluísse da doutrina deles que Deus é o autor do pecado, com tanta aparência de probabilidade quanto aquela com que (segundo a insinuação de alguns dos que dão o seu assentimento a ambas as últimas espécies) isso se deduz da primeira descrição da predestinação.

Contudo, se quisermos observar um pouco mais de perto essas duas últimas opiniões e, em particular, se examinarmos com exatidão a segunda e a terceira espécie e as compararmos com outras convicções do mesmo autor sobre alguns assuntos da nossa religião, descobriremos que, segundo os pontos de vista deles, a queda de Adão não pode de modo algum ser considerada de outra maneira senão como um meio necessário para a execução do decreto anterior de predestinação.

1. Com referência à segunda das três, isso é evidente por duas razões nela compreendidas:

A primeira dessas razões é a que afirma que Deus determinou, pelo decreto de reprovação, negar ao homem aquela graça que era necessária para a confirmação e o fortalecimento da sua natureza, para que ela não fosse corrompida pelo pecado; o que equivale a dizer que Deus decretou não conceder a graça que era necessária para evitar o pecado. E disso tem de seguir-se necessariamente a transgressão do homem, como procedente de uma lei que lhe foi imposta. Portanto, a queda do homem é um meio ordenado para a execução do decreto de reprovação.

A segunda dessas razões é a que afirma que as duas partes da reprovação são a preterição e a predamnação. Essas duas partes, segundo aquele decreto, estão ligadas entre si por um vínculo necessário e mútuo, e têm igual extensão. Pois todos aqueles que Deus deixou de lado ao conferir a graça divina são também condenados. De fato, ninguém mais é condenado, exceto os que são objeto desse ato de preterição. Disso, portanto, pode-se concluir que “o pecado tem necessariamente de seguir-se do decreto de reprovação ou de preterição, porque, se fosse de outro modo, poderia de algum modo acontecer que uma pessoa que tivesse sido deixada de lado não cometesse pecado e, por essa circunstância, não ficasse sujeita à condenação, visto que o pecado é a única causa meritória da condenação; e assim certos indivíduos dentre os que foram deixados de lado poderiam não ser nem salvos nem condenados, o que é grande absurdo”.

Esta segunda opinião sobre a predestinação, portanto, cai no mesmo inconveniente que a primeira. Pois não só não evita aquela [conclusão de fazer de Deus o autor do pecado], mas, enquanto os que a professam fazem a tentativa, caem numa contradição consigo mesmos, palpável e absurda; ao passo que, com referência a este ponto, a primeira dessas opiniões é uniforme do começo ao fim e coerente consigo mesma.

2. O terceiro destes esquemas de predestinação escaparia desse rochedo com resultado muito melhor, se os seus defensores, ao declarar as suas convicções sobre a predestinação e a providência, não empregassem certas expressões das quais se poderia deduzir a necessidade da queda. Contudo, essa necessidade não pode de modo algum ter outra origem senão algum grau de predestinação.

(1.) Uma dessas expressões explicativas é a descrição que fazem da permissão divina, pela qual Deus permite o pecado. Alguns deles a descrevem assim: “a permissão é a retirada daquela graça divina pela qual, quando Deus executa os decretos da sua vontade por meio das criaturas racionais, ele ou não revela à criatura aquela vontade divina sua pela qual quer que a ação seja praticada, ou não inclina a vontade da criatura a prestar obediência à vontade divina naquele ato”. A essas expressões seguem-se imediatamente estas: “se esta é uma afirmação correta, a criatura comete pecado por necessidade, mas voluntariamente e sem constrangimento”. Se alguém objetar que “esta descrição não condiz com aquela permissão pela qual Deus permitiu o pecado de Adão”, também nós temos a mesma opinião a esse respeito. Contudo, segue-se como consequência desta mesma descrição que “outros pecados são cometidos por necessidade”.

(2.) Da mesma tendência são as expressões que alguns deles usam quando sustentam que a declaração da glória de Deus, que tem necessariamente de ser manifestada, está colocada “na demonstração da misericórdia e da justiça punitiva”. Mas tal demonstração não poderia ter sido feita, a menos que o pecado, e a miséria por meio do pecado, tivessem entrado no mundo, para formar ao menos algum grau de miséria pelo menor pecado. E desta maneira também o pecado é introduzido necessariamente, pela necessidade de tal demonstração da glória divina. Visto que a queda de Adão já é apresentada como necessária e, por isso, como um meio para executar o decreto anterior de predestinação, a própria criação é ao mesmo tempo apresentada também como um meio subordinado à execução do mesmo decreto. Pois a queda não pode ser consequência necessária da criação, a não ser por meio do decreto de predestinação, que não pode ser colocado entre a criação e a queda, mas é anteposto a ambas, como tendo a precedência, ordenando a criação para a queda, e ambas para a execução de um só e mesmo decreto: demonstrar a justiça de Deus na punição do pecado e a sua misericórdia na remissão dele. Porque, se assim não fosse, aquilo que tem de seguir-se necessariamente do ato da criação não teria sido intencionado por Deus quando criou, o que é supor uma impossibilidade.

Mas admitamos que a necessidade da queda de Adão não possa ser deduzida de nenhuma das duas últimas opiniões; ainda assim, todos os argumentos precedentes que foram apresentados contra a primeira opinião, depois de uma pequena modificação para se ajustarem ao propósito diverso, são igualmente válidos contra as duas últimas. Isso ficaria muito evidente se, para demonstrá-lo, se instituísse uma conferência.

5. Minhas próprias convicções sobre a predestinação

Até aqui tenho exposto as opiniões a respeito do artigo da predestinação que são inculcadas em nossas igrejas e na Universidade de Leiden, e que eu desaprovo. Ao mesmo tempo, apresentei as minhas próprias razões por que formo um juízo tão desfavorável a respeito delas; e agora declararei as minhas próprias opiniões sobre este assunto, as quais são de tal natureza que, segundo os meus pontos de vista, parecem as mais conformes à palavra de Deus.

I. O primeiro decreto absoluto de Deus a respeito da salvação do homem pecador é aquele pelo qual ele decretou designar o seu Filho, Jesus Cristo, como Mediador, Redentor, Salvador, Sacerdote e Rei, que pudesse destruir o pecado pela sua própria morte, obter pela sua obediência a salvação que havia sido perdida e comunicá-la pela sua própria virtude.

II. O segundo decreto preciso e absoluto de Deus é aquele em que ele decretou receber em seu favor os que se arrependem e creem e, em Cristo, por amor dele e por meio dele, efetuar a salvação dos penitentes e crentes que perseverassem até o fim; mas deixar no pecado e sob a ira todas as pessoas impenitentes e incrédulas, e condená-las como estranhas a Cristo.

III. O terceiro decreto divino é aquele pelo qual Deus decretou administrar de maneira suficiente e eficaz os meios que eram necessários para o arrependimento e a fé, e fazer que essa administração fosse instituída (1.) segundo a sabedoria divina, pela qual Deus sabe o que é próprio e conveniente tanto à sua misericórdia como à sua severidade, e (2.) segundo a justiça divina, pela qual ele está preparado para adotar tudo o que a sua sabedoria possa prescrever e pô-lo em execução.

IV. A estes segue-se o quarto decreto, pelo qual Deus decretou salvar e condenar certas pessoas em particular. Este decreto tem o seu fundamento na presciência de Deus, pela qual ele conheceu desde toda a eternidade os indivíduos que, por meio da sua graça preveniente, haveriam de crer e, por meio da sua graça subsequente, haveriam de perseverar, segundo a administração, descrita acima, daqueles meios que são adequados e próprios para a conversão e a fé; e, por essa mesma presciência, conheceu igualmente os que não haveriam de crer e perseverar.

A predestinação, assim explicada, é

1. O fundamento do cristianismo, da salvação e da certeza dela.

2. É a soma e a matéria do evangelho; mais ainda, é o próprio evangelho e, por essa razão, é necessário crer nela para a salvação, no que diz respeito aos dois primeiros artigos.

3. Não teve necessidade de ser examinada ou definida por concílio algum, nem geral nem particular, visto que está contida nas Escrituras clara e expressamente, com todas as letras; e até hoje nenhum teólogo ortodoxo jamais a contradisse.

4. Foi constantemente reconhecida e ensinada por todos os mestres cristãos que sustentaram convicções corretas e ortodoxas.

5. Concorda com aquela Harmonia de todas as confissões que foi publicada pelas igrejas protestantes.

6. Concorda também, da maneira mais excelente, com a Confissão Holandesa e com o Catecismo. Essa concordância é tal que, se no artigo 16 estas duas expressões, “aquelas pessoas que” e “os outros”, forem explicadas pelas palavras “crentes” e “incrédulos”, estas minhas opiniões sobre a predestinação ficarão compreendidas naquele artigo com a maior clareza. Esta é a razão por que mandei compor a tese com as próprias palavras da Confissão quando, certa ocasião, tive de sustentar uma disputa pública diante da minha turma particular na Universidade. Esta espécie de predestinação concorda também com o raciocínio contido na vigésima e na quinquagésima quarta pergunta do Catecismo.

7. Está também em excelente conformidade com a natureza de Deus, com a sua sabedoria, bondade e justiça; porque contém a matéria principal de todas elas e é a mais clara demonstração da sabedoria, da bondade e da justiça [ou retidão] divinas.

8. Está de acordo, em todos os pontos, com a natureza do homem, seja qual for a forma em que essa natureza seja contemplada: no estado primitivo da criação, no da queda ou no da restauração.

9. Está em pleno acordo com o ato da criação, ao afirmar que a própria criação é uma real comunicação do bem, tanto pela intenção de Deus quanto com respeito ao próprio fim ou resultado; que teve a sua origem na bondade de Deus; que tudo o que se refere à sua continuação e preservação procede do amor divino; e que este ato da criação é uma obra perfeita e apropriada de Deus, na qual ele se compraz em si mesmo e pela qual obteve todas as coisas necessárias para um estado sem pecado.

10. Concorda com a natureza da vida eterna e com os títulos honrosos com que essa vida é designada nas Escrituras.

11. Concorda também com a natureza da morte eterna e com os nomes com que essa morte é distinguida na Escritura.

12. Afirma que o pecado é uma real desobediência e a causa meritória da condenação; e, por essa razão, está na mais perfeita concordância com a queda e com o pecado.

13. Em todos os pormenores, harmoniza-se com a natureza da graça, atribuindo-lhe todas aquelas coisas que concordam com ela [ou lhe são adequadas] e conciliando-a da maneira mais completa com a justiça de Deus e com a natureza e a liberdade da vontade humana.

14. Contribui da maneira mais notável para declarar a glória de Deus, a sua justiça e a sua misericórdia. Também apresenta Deus como a causa de todo o bem e da nossa salvação, e o homem como a causa do pecado e da sua própria condenação.

15. Contribui para a honra de Jesus Cristo, ao colocá-lo como fundamento da predestinação e como causa tanto meritória quanto comunicadora da salvação.

16. Promove grandemente a salvação dos homens. É também o poder e o próprio meio que conduzem à salvação, ao despertar e criar na mente do homem a tristeza por causa do pecado, a solicitude pela sua conversão, a fé em Jesus Cristo, um desejo diligente de praticar boas obras e o zelo na oração, e ao fazer que os homens desenvolvam a sua salvação com temor e tremor. Também impede o desespero, até onde tal prevenção é necessária.

17. Confirma e estabelece aquela ordem segundo a qual o evangelho deve ser pregado: (1.) exigindo arrependimento e fé; (2.) e depois prometendo a remissão dos pecados, a graça do Espírito e a vida eterna.

18. Fortalece o ministério do evangelho e o torna proveitoso no que diz respeito à pregação, à administração dos sacramentos e às orações públicas.

19. É o fundamento da religião cristã, porque nela o duplo amor de Deus pode ser unido:

O amor de Deus à justiça [ou retidão] e o seu amor aos homens podem, com a maior coerência, ser conciliados um com o outro.

20. Por último. Esta doutrina da predestinação sempre foi aprovada pela grande maioria dos que professam o cristianismo e, ainda agora, nestes dias, goza do mesmo amplo apoio. Ela não pode dar a pessoa alguma justo motivo para manifestar aversão a ela, nem pode dar pretexto algum para contenda na Igreja cristã.

Portanto, é muito de desejar que os homens não avancem mais neste assunto e não tentem investigar os juízos insondáveis de Deus; ou, pelo menos, que não avancem além do ponto até o qual esses juízos foram claramente revelados nas Escrituras.

Isto, meus poderosíssimos Senhores, é tudo o que pretendo agora declarar a Vossas Altas Potências a respeito da doutrina da predestinação, sobre a qual existe tão grande controvérsia na Igreja de Cristo. Se não for demasiado enfadonho para Vossas Senhorias, tenho algumas outras proposições que gostaria de apresentar, porque contribuem para uma declaração completa das minhas convicções e tendem ao mesmo propósito para o qual Vossas Altas Potências me ordenaram comparecer neste lugar.

Há certos outros artigos da religião cristã que têm estreita afinidade com a doutrina da predestinação e que dependem dela em grande medida. Desse tipo são a providência de Deus, o livre-arbítrio do homem, a perseverança dos santos e a certeza da salvação. Sobre esses temas, se não for desagradável a Vossas Altas Potências, relatarei de modo breve a minha opinião.

II. A providência de Deus

Considero a providência divina “aquela inspeção e supervisão de Deus, solícita, contínua e universalmente presente, segundo a qual ele exerce um cuidado geral sobre o mundo inteiro, mas mostra uma preocupação particular por todas as suas criaturas [inteligentes], sem exceção alguma, com o propósito de preservá-las e governá-las na sua própria essência, qualidades, ações e paixões, de um modo que é ao mesmo tempo digno dele e adequado a elas, para louvor do seu nome e salvação dos crentes”. Nesta definição da providência divina, de modo algum lhe tiro partícula alguma daquelas propriedades que concordam com ela ou lhe pertencem; mas declaro que ela preserva, regula, governa e dirige todas as coisas, e que nada no mundo acontece fortuitamente ou por acaso. Além disso, coloco em sujeição à providência divina tanto o livre-arbítrio quanto as próprias ações de uma criatura racional, de modo que nada pode ser feito sem a vontade de Deus, nem mesmo qualquer daquelas coisas que são feitas em oposição a ela; apenas devemos observar uma distinção entre as boas ações e as más, dizendo que “Deus tanto quer como realiza as boas ações”, mas que “ele somente permite livremente as que são más”. Ainda mais do que isso, concedo muito prontamente que até mesmo todas as ações, quaisquer que sejam, relativas ao mal, que possam de algum modo ser imaginadas ou inventadas, podem ser atribuídas à providência divina, empregando apenas uma cautela: “não concluir desta concessão que Deus é a causa do pecado”. Isso eu testemunhei com suficiente clareza numa certa disputa sobre a justiça e a eficácia da providência divina a respeito das coisas que são más, a qual foi debatida em Leiden em duas ocasiões diferentes, como ato acadêmico de teologia, sob a minha presidência. Nessa disputa, esforcei-me por atribuir a Deus todas as ações relativas ao pecado que eu pudesse de algum modo concluir, pelas Escrituras, que lhe pertencem; e cheguei tão longe nessa tentativa que algumas pessoas, por essa razão, acharam conveniente acusar-me de ter feito de Deus o autor do pecado. A mesma grave acusação também me foi feita muitas vezes do púlpito, na cidade de Amsterdã, por causa dessas mesmas teses; mas com que aparência de justiça se fez tal acusação, pode ficar evidente a qualquer pessoa pelo conteúdo da minha resposta escrita àqueles Trinta e Um Artigos mencionados anteriormente, que me foram falsamente imputados, e dos quais este era um.

III. O livre-arbítrio do homem

Esta é a minha opinião a respeito do livre-arbítrio do homem. Na sua condição primitiva, tal como saiu das mãos do seu Criador, o homem foi dotado de tal porção de conhecimento, santidade e poder que o capacitava a entender, estimar, considerar, querer e praticar o verdadeiro bem, segundo o mandamento que lhe foi dado. Contudo, nenhum desses atos ele podia praticar, a não ser pelo auxílio da graça divina. Mas, no seu estado decaído e pecaminoso, o homem não é capaz, de si mesmo e por si mesmo, nem de pensar, nem de querer, nem de fazer aquilo que é realmente bom; mas é necessário que seja regenerado e renovado no seu intelecto, nos seus afetos ou vontade e em todas as suas forças, por Deus em Cristo, por meio do Espírito Santo, para que seja habilitado a entender, estimar, considerar, querer e praticar corretamente tudo o que é verdadeiramente bom. Quando ele é feito participante dessa regeneração ou renovação, considero que, visto estar liberto do pecado, é capaz de pensar, querer e fazer aquilo que é bom, mas não sem os auxílios contínuos da graça divina.

IV. A graça de Deus

Com referência à graça divina, creio: 1. Que ela é uma afeição gratuita pela qual Deus está benignamente disposto para com um pecador miserável, e segundo a qual ele, em primeiro lugar, dá o seu Filho, “para que todo o que nele crê tenha a vida eterna” (Jo 3.15-16), e, depois, o justifica em Cristo Jesus e por amor dele, e o adota no direito de filhos, para a salvação. 2. Que é uma infusão (tanto no entendimento humano quanto na vontade e nos afetos) de todos aqueles dons do Espírito Santo que pertencem à regeneração e à renovação do homem, como a fé, a esperança, a caridade etc.; pois, sem esses dons da graça, o homem não é suficiente para pensar, querer ou fazer coisa alguma que seja boa. 3. Que é aquela assistência perpétua e aquele auxílio contínuo do Espírito Santo, segundo os quais ele age sobre o homem já renovado e o estimula ao bem, infundindo nele pensamentos salutares e inspirando-lhe bons desejos, para que ele possa assim querer efetivamente tudo o que é bom; e segundo os quais Deus pode então querer e operar juntamente com o homem, para que o homem possa realizar tudo o que quer.

Desta maneira, atribuo à graça o começo, a continuação e a consumação de todo o bem; e a tal ponto estendo a sua influência que um homem, embora já regenerado, não pode nem conceber, nem querer, nem fazer bem algum, nem resistir a tentação má alguma, sem esta graça preveniente e estimulante, esta graça subsequente e cooperante. Por esta afirmação ficará claramente evidente que de modo algum faço injustiça à graça atribuindo, como de mim se diz, demasiado ao livre-arbítrio do homem. Pois toda a controvérsia se reduz à solução desta pergunta: “é a graça de Deus uma certa força irresistível?”. Isto é, a controvérsia não diz respeito às ações ou operações que podem ser atribuídas à graça (pois reconheço e inculco tantas dessas ações ou operações quanto qualquer homem jamais o fez), mas diz respeito somente ao modo de operação, se é irresistível ou não. A esse respeito, creio, segundo as Escrituras, que muitas pessoas resistem ao Espírito Santo e rejeitam a graça que é oferecida.

V. A perseverança dos santos

As minhas convicções a respeito da perseverança dos santos são que aquelas pessoas que foram enxertadas em Cristo pela verdadeira fé, e assim foram feitas participantes do seu Espírito vivificante, possuem forças suficientes [ou vigor] para lutar contra Satanás, o pecado, o mundo e a sua própria carne, e para obter a vitória sobre esses inimigos; mas não sem o auxílio da graça do mesmo Espírito Santo. Jesus Cristo também, pelo seu Espírito, as assiste em todas as suas tentações e lhes concede o pronto auxílio da sua mão; e, contanto que estejam preparadas para a batalha, implorem o seu socorro e não faltem a si mesmas, Cristo as preserva de cair. De modo que não lhes é possível, por nenhuma astúcia ardilosa nem por nenhum poder de Satanás, ser nem seduzidas nem arrancadas das mãos de Cristo. Mas penso que é útil, e será inteiramente necessário, em nossa primeira convenção [ou Sínodo], instituir uma investigação diligente a partir das Escrituras sobre se não é possível que alguns indivíduos, por negligência, abandonem o começo da sua existência em Cristo, voltem a apegar-se ao presente mundo mau, se desviem da sã doutrina que uma vez lhes foi entregue, percam a boa consciência e façam que a graça divina se torne ineficaz.

Embora eu aqui afirme aberta e francamente que nunca ensinei que um verdadeiro crente possa, quer de modo total, quer de modo final, cair da fé e perecer, não ocultarei, contudo, que há passagens da Escritura que me parecem ter esse aspecto; e as respostas a elas que me foi permitido ver não são de tal natureza que se recomendem em todos os pontos ao meu entendimento. Por outro lado, apresentam-se em favor da doutrina contrária [da perseverança incondicional] certas passagens que são dignas de muita consideração.

VI. A certeza da salvação

Com respeito à certeza [ou segurança] da salvação, a minha opinião é que é possível àquele que crê em Jesus Cristo estar certo e persuadido e, se o seu coração não o condena, ele está agora, na realidade, seguro de que é filho de Deus e está firme na graça de Jesus Cristo. Tal certeza é produzida na mente tanto pela ação do Espírito Santo, que move interiormente o crente, e pelos frutos da fé, como pela sua própria consciência e pelo testemunho do Espírito de Deus, que testifica juntamente com a sua consciência. Creio também que é possível a tal pessoa, com uma confiança segura na graça de Deus e na sua misericórdia em Cristo, partir desta vida e comparecer diante do trono da graça sem nenhum medo ansioso nem pavor terrível; e, no entanto, essa pessoa deve orar constantemente: “Ó Senhor, não entres em juízo com o teu servo!” (Sl 143.2).

Mas, visto que “Deus é maior do que o nosso coração e conhece todas as coisas”, e visto que o homem não julga a si mesmo, sim, ainda que a consciência de alguém não o acuse de nada, nem por isso ele está justificado, mas quem o julga é o Senhor (1Jo 3.20; 1Co 4.3-4) [N. do T.: o inglês indica 1 João 3.19 e 1 Coríntios 4.3; as palavras citadas estão em 1Jo 3.20 e 1Co 4.3-4.], não ouso [por essa razão] colocar esta segurança [ou certeza] em pé de igualdade com aquela pela qual sabemos que há um Deus e que Cristo é o Salvador do mundo. Contudo, será conveniente fazer da extensão dos limites desta segurança um objeto de investigação na nossa convenção.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de James Nichols, The Works of James Arminius, vol. 1 (Londres, 1825), domínio público. Armínio leu a Declaração em holandês, em 1608. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.