Jacó Armínio · Declaração de Sentimentos · parte 3 de 5

I. A predestinação (segunda parte)

XI. Esta predestinação também se opõe à natureza da morte eterna e aos títulos com que ela é descrita na Escritura. Pois ela é chamada “o salário do pecado” (Rm 6.23), “a penalidade de eterna destruição, que será retribuída aos que não conhecem a Deus e aos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo” (2Ts 1.8-9), “o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos” (Mt 25.41), “um fogo que consumirá os inimigos e adversários de Deus” (Hb 10.27). [N. do T.: Armínio combina e resume aqui os textos indicados; em Hb 10.27, por exemplo, a NAA traz “fogo vingador prestes a consumir os adversários”.] Portanto, Deus não preparou a morte eterna para pessoa alguma por um decreto absoluto, sem levar em conta o pecado e a desobediência.

XII. Esta predestinação é incompatível com a natureza e as propriedades do pecado, de duas maneiras: (1.) Porque o pecado é chamado “desobediência” e “rebelião”, e nenhum desses termos pode de modo algum aplicar-se a uma pessoa que, por um decreto divino anterior, é colocada sob a necessidade inevitável de pecar. (2.) Porque o pecado é a causa meritória da condenação. Ora, a causa meritória que move a vontade divina a reprovar é conforme à justiça; e ela induz Deus, que abomina o pecado, a querer a reprovação. Portanto, o pecado, que é uma causa, não pode ser colocado entre os meios pelos quais Deus executa o decreto ou a vontade de reprovação.

XIII. Esta doutrina é igualmente contrária à natureza da graça divina e, tanto quanto lhe permitem as suas forças, produz a destruição dela. Sob quaisquer pretextos especiosos que se afirme que “esta espécie de predestinação é admiravelmente apropriada e inteiramente necessária para o estabelecimento da graça”, ela, no entanto, a destrói de três maneiras:

1. Porque a graça está de tal modo ajustada e entremeada com a natureza do homem que não destrói nele a liberdade da sua vontade, mas lhe dá a direção correta, corrige a sua depravação e permite ao homem possuir as suas próprias noções. Esta predestinação, ao contrário, introduz uma espécie de graça que tira o livre-arbítrio e impede o seu exercício.

2. Porque as representações da graça contidas nas Escrituras são tais que a descrevem como capaz de “ser resistida” (At 7.51) e “recebida em vão” (2Co 6.1), e mostram que é possível ao homem deixar de dar a ela o seu assentimento e recusar toda cooperação com ela (Hb 12.15; Mt 23.37; Lc 7.30). Esta predestinação, ao contrário, afirma que a graça é uma certa força e operação irresistível.

3. Porque, segundo a intenção primária e o desígnio principal de Deus, a graça contribui para o bem das pessoas a quem é oferecida e por quem é recebida. Esta doutrina, ao contrário, arrasta consigo a afirmação de que a graça é oferecida até mesmo a certos réprobos, e lhes é comunicada a ponto de iluminar o seu entendimento e de despertar neles o gosto pelos dons celestiais, somente com este fim e propósito: que, na proporção da altura a que são elevados, seja mais profundo o abismo em que são precipitados e mais pesada a sua queda, e que eles tanto mereçam quanto recebam uma perdição maior.

XIV. A doutrina desta predestinação é injuriosa à glória de Deus, a qual não consiste numa declaração de liberdade ou de autoridade, nem numa demonstração de ira e de poder, a não ser na medida em que essa declaração e essa demonstração possam ser compatíveis com a justiça e com uma perpétua ressalva em favor da honra da bondade de Deus. Mas, segundo esta doutrina, segue-se que Deus é o autor do pecado, o que pode ser provado por quatro argumentos:

1. Uma das suas posições é que Deus decretou absolutamente demonstrar a sua glória pela justiça punitiva e pela misericórdia, na salvação de alguns homens e na condenação de outros; o que nem foi feito, nem poderia de modo algum ter sido feito, se o pecado não tivesse entrado no mundo.

2. Esta doutrina afirma que, para alcançar o seu objetivo, Deus determinou que o homem cometesse pecado e se tornasse corrompido; e dessa ordenação ou designação divina seguiu-se necessariamente a queda do homem.

3. Ela afirma que Deus negou ao homem, ou retirou dele, a porção de graça que é suficiente e necessária para capacitá-lo a evitar o pecado, e que isso foi feito antes que o homem tivesse pecado; ato que equivale a Deus ter prescrito ao homem uma lei que lhe seria absolutamente impossível cumprir, levando-se em consideração a natureza em que ele fora criado.

4. Ela atribui a Deus certas operações a respeito do homem, tanto externas quanto internas, tanto mediatas (por meio da intervenção de outras criaturas) quanto imediatas; e, uma vez admitidas essas operações divinas, o homem tem necessariamente de cometer pecado, por aquela necessidade que os escolásticos chamam “necessidade de consequência, antecedente à própria coisa”, e que destrói totalmente a liberdade da vontade. Tal ato esta doutrina atribui a Deus, e o representa como procedente da sua intenção primária e principal, sem nenhuma presciência de uma inclinação, vontade ou ação da parte do homem.

Destas premissas deduzimos, como conclusão ulterior, que Deus realmente peca. Porque, segundo esta doutrina, ele move ao pecado por um ato inevitável, e segundo o seu próprio propósito e a sua intenção primária, sem ter recebido para tal ato nenhum estímulo prévio de algum pecado ou demérito anterior no homem.

Da mesma posição poderíamos também inferir que Deus é o único pecador. Pois do homem, que é impelido por uma força irresistível a cometer pecado (isto é, a praticar algum ato que foi proibido), não se pode dizer que ele mesmo peque.

Como consequência legítima, segue-se também que o pecado não é pecado, visto que, seja o que for que Deus faça, isso não pode ser pecado, nem nenhum dos seus atos deve receber esse nome.

Além dos casos que já relatei, há outro modo pelo qual esta doutrina inflige um ferimento profundo à honra de Deus; mas estes, provavelmente, serão considerados por ora amplamente suficientes.

XV. Esta doutrina é altamente desonrosa para Jesus Cristo, nosso Salvador. Pois, 1. ela o exclui inteiramente daquele decreto de predestinação que predestina o fim, e afirma que os homens foram predestinados para ser salvos antes que Cristo fosse predestinado para salvá-los; e assim sustenta que ele não é o fundamento da eleição. 2. Ela nega que Cristo seja a causa meritória que de novo obteve para nós a salvação que havíamos perdido, ao colocá-lo apenas como causa subordinada daquela salvação que já havia sido preordenada e, assim, apenas como ministro e instrumento para aplicar-nos essa salvação. Isso, de fato, está em evidente congruência com a opinião segundo a qual “Deus quis absolutamente a salvação de certos homens, pelo primeiro e supremo decreto que estabeleceu, e do qual todos os seus outros decretos dependem e são consequentes”. Se isso for verdade, era portanto impossível que a salvação desses homens se tivesse perdido e, portanto, desnecessário que ela fosse reparada e de algum modo recuperada de novo, e encontrada, pelo mérito de Cristo, que foi preordenado Salvador somente para eles.

XVI. Esta doutrina é também prejudicial à salvação dos homens.

1. Porque impede aquela tristeza salvadora, segundo Deus, pelos pecados cometidos, a qual não pode existir naqueles que não têm consciência do pecado. Mas é evidente que o homem que cometeu pecado pela necessidade inevitável do decreto de Deus não pode de modo algum ter esse tipo de consciência do pecado (2Co 7.10).

2. Porque remove toda piedosa solicitude por ser convertido do pecado para Deus. Pois não pode sentir tal preocupação aquele que é inteiramente passivo e se comporta como um morto, não só quanto ao seu discernimento e à sua percepção da graça de Deus que o estimula e o auxilia, mas também quanto ao seu assentimento e à sua obediência a ela; e que é convertido por um impulso tão irresistível que não só não pode deixar de perceber a graça de Deus que bate dentro dele, mas também tem de, por necessidade, dar-lhe o seu assentimento e, assim, converter-se a si mesmo, ou antes, ser convertido. É evidente que tal pessoa não pode produzir no coração nem conceber na mente essa solicitude, a não ser que tenha sentido antes o mesmo movimento irresistível. E, se viesse a produzir no coração alguma preocupação desse tipo, ela seria vã e sem a menor vantagem. Pois não pode ser verdadeira solicitude aquela que não é produzida no coração por nenhum outro meio senão por uma força irresistível, segundo o propósito e a intenção absolutos de Deus de efetuar a salvação dessa pessoa (Ap 2.3; 3.2).

3. Porque reprime, nas pessoas convertidas, todo zelo e todo empenho pelas boas obras, visto que declara “que os regenerados não podem praticar nem mais nem menos bem do que praticam”. Pois aquele que é movido ou impelido pela graça salvadora tem de agir e não pode interromper o seu trabalho; mas aquele que não é movido pela mesma graça nada pode fazer, e se vê obrigado a desistir de toda tentativa (Tt 3.14).

4. Porque extingue o zelo pela oração, que, no entanto, é um meio eficaz instituído por Deus para pedir e obter dele toda espécie de bênçãos, mas principalmente a grande bênção da salvação (Lc 11.1-13). Mas, pela circunstância de ter sido determinado de antemão, por um decreto imutável e inevitável, que essa categoria de homens [os eleitos] obteria a salvação, a oração não pode de modo algum ser meio para pedir e obter essa salvação. Pode ser apenas uma forma de adorar a Deus, porque, segundo o decreto absoluto da sua predestinação, ele determinou que tais homens sejam salvos.

5. Ela tira todo aquele temor e tremor, tão salutares, com os quais nos é ordenado desenvolver a nossa salvação (Fp 2.12), pois afirma “que aquele que é eleito e crê não pode pecar com aquela vontade plena e inteira com que o pecado é cometido pelos ímpios, e que eles não podem cair da fé ou da graça, nem total nem finalmente”.

6. Porque produz nos homens desespero, tanto de cumprir aquilo que o seu dever exige quanto de obter aquilo para que se dirigem os seus desejos. Pois, quando lhes ensinam que a graça de Deus (que é realmente necessária para a prática da menor porção de bem) é negada à maior parte da humanidade, segundo um decreto absoluto e peremptório de Deus, e que essa graça é negada porque, por um decreto anterior igualmente absoluto, Deus determinou conferir-lhes não a salvação, mas a condenação; quando assim lhes ensinam, dificilmente pode seguir-se outro resultado senão que o indivíduo que não consegue, nem mesmo com grande esforço, formar dentro de si a persuasão de que é eleito logo se considere incluído no número dos réprobos. De uma apreensão como essa tem de surgir certo desespero de praticar a justiça e de obter a salvação.

XVII. Esta doutrina inverte a ordem do evangelho de Jesus Cristo.

Pois no evangelho Deus requer do homem arrependimento e fé, prometendo-lhe a vida eterna se ele consentir em converter-se e crer (Mc 1.15; 16.16). Mas neste decreto [supralapsário] de predestinação afirma-se que é vontade absoluta de Deus conceder a salvação a certos homens em particular, e que ele quis, ao mesmo tempo, dar absolutamente a esses mesmos indivíduos o arrependimento e a fé, por meio de uma força irresistível, porque era da sua vontade e do seu agrado salvá-los. No evangelho, Deus comina a morte eterna aos impenitentes e incrédulos (Jo 3.36). E essas ameaças contribuem para o propósito que ele tem em vista: que, por tais meios, possa dissuadi-los da incredulidade e, assim, salvá-los. Mas por este decreto de predestinação ensina-se que Deus não quer conferir a certos homens individuais aquela graça que é necessária para a conversão e para a fé, porque decretou absolutamente a condenação deles.

O evangelho diz: “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna” (Jo 3.16). [N. do T.: a NAA traz “para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”; o texto inglês omite “não pereça”.]

Mas esta doutrina declara “que Deus amou de tal maneira aqueles que havia eleito absolutamente para a vida eterna, que deu o seu Filho somente a eles, e que, por uma força irresistível, produz neles a fé nele”. Para abranger tudo em poucas palavras: o evangelho diz “cumpra o mandamento e você obterá a promessa; creia e você viverá”. Mas esta doutrina [supralapsária] diz: “visto que é minha vontade dar a você a vida, é, portanto, minha vontade dar a você a fé”; o que é uma inversão real e manifestíssima do evangelho.

XVIII. Esta predestinação está em aberta hostilidade contra o ministério do evangelho.

1. Pois, se Deus vivifica por um poder irresistível aquele que está morto em delitos e pecados, ninguém pode ser ministro e “cooperador de Deus” (1Co 3.9), nem pode a palavra pregada pelo homem ser instrumento da graça e do Espírito, assim como uma criatura não poderia ter sido instrumento da graça na primeira criação, nem dispensadora dessa graça na ressurreição do corpo dentre os mortos.

2. Porque, por esta predestinação, o ministério do evangelho se torna “cheiro de morte para morte” no caso da maioria dos que o ouvem (2Co 2.14-16), bem como instrumento de condenação, segundo o desígnio primário e a intenção absoluta de Deus, sem nenhuma consideração de rebelião anterior.

3. Porque, segundo esta doutrina, o batismo, quando administrado a muitas crianças réprobas (que, no entanto, são filhas de pais que creem e que pertencem ao povo da aliança de Deus), é evidentemente um selo [ou ratificação] de nada e, assim, torna-se inteiramente inútil, em conformidade com a intenção primária e absoluta de Deus, sem nenhuma falta [ou culpa] da parte das próprias crianças, a quem é administrado em obediência ao mandamento divino.

4. Porque impede que as orações públicas sejam oferecidas a Deus de maneira conveniente e apropriada, isto é, com fé e com a confiança de que serão proveitosas a todos os ouvintes da palavra, quando há muitos entre eles a quem Deus não só não quer salvar, mas a quem, por sua vontade absoluta, eterna e imutável (que é anterior a todas as coisas e causas, quaisquer que sejam), é da sua vontade e do seu agrado condenar. Entretanto, quando o apóstolo ordena que se façam orações e súplicas por todos os homens, acrescenta esta razão: “Isto é bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador, que deseja que todos sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (1Tm 2.1-4).

5. A constituição desta doutrina é tal que muito facilmente torna os pastores e mestres preguiçosos e negligentes no exercício do seu ministério. Porque, por esta doutrina, parece-lhes como se fosse impossível que toda a sua diligência fosse útil a alguém, exceto somente àqueles que Deus quer salvar absoluta e precisamente e que não podem de modo algum perecer; e como se toda a sua negligência não pudesse ser prejudicial a ninguém, exceto somente àqueles que Deus quer absolutamente destruir, que necessariamente hão de perecer e para quem uma sorte contrária é impossível.

XIX. Esta doutrina subverte completamente o fundamento da religião em geral e da religião cristã em particular.

1. O fundamento da religião, considerada em geral, é um duplo amor de Deus, sem o qual não há nem pode haver religião alguma. O primeiro deles é um amor à justiça [ou retidão], que dá existência ao seu ódio ao pecado. O segundo é um amor à criatura dotada de razão e (no assunto que agora temos diante de nós) é um amor ao homem, segundo a expressão do apóstolo aos Hebreus: “porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que recompensa os que o buscam diligentemente” (Hb 11.6). [N. do T.: a NAA traz “que recompensa os que o buscam”; o inglês diz “os que o buscam diligentemente”, expressão que Armínio retoma adiante.] O amor de Deus à justiça manifesta-se nesta circunstância: não é da sua vontade e do seu agrado conceder a vida eterna a ninguém, exceto “aos que o buscam”. O amor de Deus ao homem consiste em estar ele disposto a dar-lhe a vida eterna, se o homem o buscar.

Entre essas duas espécies de amor subsiste uma relação mútua, que é esta: a segunda espécie de amor, que se estende às criaturas, não pode entrar em exercício senão na medida em que a primeira [o amor à justiça] o permite. A primeira espécie de amor é, portanto, de longe a mais excelente; mas em todas as direções há amplo espaço para as emanações da segunda [o amor à criatura], exceto onde a primeira [o amor à justiça] colocou algum impedimento ao alcance do seu exercício. A primeira dessas consequências se prova da maneira mais evidente pela circunstância de Deus condenar o homem por causa do pecado, embora o ame na relação em que se encontra como criatura sua; o que de modo algum teria sido feito, se ele amasse o homem mais do que a justiça [ou retidão] e se demonstrasse maior aversão à miséria eterna do homem do que à sua desobediência. Mas a segunda consequência se prova por este argumento: Deus não condena pessoa alguma senão por causa do pecado, e salva uma multidão tão grande de homens que se afastam [ou são convertidos] do pecado; o que ele não poderia fazer, se não fosse da sua vontade permitir ao seu amor pelas criaturas um espaço tão amplo quanto o permite a justiça [ou retidão], sob a regulação do juízo divino.

Mas esta doutrina [supralapsária] inverte essa ordem e essa relação mútua de duas maneiras: (1.) Uma é quando afirma que Deus quer absolutamente salvar certos homens em particular, sem ter tido, nessa sua intenção, a menor referência ou consideração à obediência deles. É dessa maneira que ela coloca o amor de Deus ao homem antes do seu amor à justiça, e estabelece a tese de que Deus ama os homens (como tais) mais do que a justiça, e demonstra maior aversão à miséria deles do que ao seu pecado e à sua desobediência. (2.) A outra é quando afirma, ao contrário, que Deus quer absolutamente condenar certos homens em particular, sem manifestar em seu decreto nenhuma consideração pela desobediência deles. Dessa maneira, ela subtrai ao seu amor pela criatura aquilo que lhe pertence, ao passo que ensina que Deus odeia a criatura sem nenhuma causa ou necessidade derivada do seu amor à justiça e do seu ódio à iniquidade. Nesse caso, não é verdade “que o pecado é o objeto primário do ódio de Deus e a sua única causa meritória”.

A grande influência e força que esta consideração tem para subverter o fundamento da religião pode ser apropriadamente descrita pela seguinte comparação. Suponha-se que um filho diga: “Meu pai é tão grande amante da justiça e da equidade que, embora eu seja seu filho amado, me deserdaria se eu fosse achado desobediente a ele. A obediência, portanto, é um dever que tenho de cultivar com diligência e que me incumbe seriamente, se desejo ser seu herdeiro.” Suponha-se que outro filho diga: “O amor de meu pai por mim é tão grande que ele está absolutamente resolvido a fazer-me seu herdeiro. Não há, portanto, necessidade alguma de que eu me esforce com empenho para prestar-lhe obediência, pois, segundo a sua vontade imutável, eu me tornarei seu herdeiro. Mais ainda: ele me atrairá por uma força irresistível a obedecer-lhe, em vez de permitir que eu não seja feito seu herdeiro.” Mas um raciocínio como este último se opõe diametralmente à doutrina contida nas seguintes palavras de João Batista: “E não pensem que podem dizer uns aos outros: ‘Temos por pai Abraão’, porque eu afirmo a vocês que Deus pode fazer com que destas pedras surjam filhos a Abraão” (Mt 3.9).

2. Mas também a religião cristã tem a sua superestrutura edificada sobre esse duplo amor como fundamento. Esse amor, porém, deve ser considerado de modo um tanto diferente, em consequência da mudança na condição do homem, que, tendo sido criado segundo a imagem de Deus e no seu favor, tornou-se, por sua própria culpa, pecador e inimigo de Deus. (1.) O amor de Deus à justiça [ou retidão], sobre o qual repousa a religião cristã, é, em primeiro lugar, aquela justiça que ele declarou uma única vez, e isso em Cristo; porque era da sua vontade que o pecado não fosse expiado de nenhum outro modo senão pelo sangue e pela morte do seu Filho, e que Cristo não fosse admitido diante dele como Advogado, Deprecador e Intercessor senão aspergido com o seu próprio sangue. Mas esse amor à justiça é, em segundo lugar, aquele que ele manifesta diariamente na pregação do evangelho, na qual declara ser da sua vontade não conceder a comunicação de Cristo e dos seus benefícios a homem algum, exceto àquele que se converte e crê em Cristo. (2.) O amor de Deus aos pecadores miseráveis, sobre o qual igualmente se funda a religião cristã, é, em primeiro lugar, aquele amor pelo qual ele deu o seu Filho por eles e o constituiu Salvador dos que lhe obedecem. Mas esse amor aos pecadores é, em segundo lugar, aquele pelo qual ele requereu a obediência, não segundo o rigor e a severidade a que tinha direito pelo seu próprio direito supremo, mas segundo a sua graça e clemência, e com o acréscimo de uma promessa de remissão dos pecados, contanto que o homem caído se arrependa.

A doutrina [supralapsária] da predestinação opõe-se de duas maneiras a esse duplo fundamento. Primeiro, ao afirmar “que Deus tem um amor tão grande por certos pecadores, que foi da sua vontade salvá-los absolutamente antes de ter dado satisfação, por meio de Cristo Jesus, ao seu amor à justiça [ou retidão], e que assim quis a salvação deles até mesmo na sua presciência e segundo o seu propósito determinado”. Além disso, ela derruba totalmente, e da forma mais completa, esse fundamento, ao ensinar que foi “do agrado de Deus que se pagasse satisfação à sua justiça [ou retidão], porque ele quis absolutamente salvar tais pessoas”; o que não é nada menos do que tornar o seu amor à justiça, manifestado em Cristo, subordinado ao seu amor pelo homem pecador, a quem é da sua vontade salvar absolutamente. Em segundo lugar, ela se opõe a esse fundamento ao ensinar “que é vontade de Deus condenar absolutamente certos pecadores sem nenhuma consideração da impenitência deles”, quando, ao mesmo tempo, uma satisfação plenaríssima e completa fora prestada, em Cristo Jesus, ao amor de Deus à justiça [ou retidão] e ao seu ódio ao pecado. De modo que agora nada pode impedir a possibilidade de ele estender a misericórdia ao pecador, seja ele quem for, exceto a condição do arrependimento. A não ser que alguém prefira afirmar o que é dito nesta doutrina: “que foi vontade de Deus agir para com a maior parte da humanidade com a mesma severidade que exerceu para com o diabo e os seus anjos, ou até com maior, visto que foi do seu agrado que nem Cristo nem o seu evangelho fossem produtivos de bênçãos maiores para eles do que para os demônios, e visto que, segundo a primeira ofensa, a porta da graça está tão fechada para eles como está para os anjos maus”. No entanto, cada um daqueles anjos pecou por si mesmo, em sua própria pessoa, por sua malícia individual e por um ato voluntário seu; ao passo que os homens pecaram somente em Adão, seu pai, antes de terem sido trazidos à existência.

Mas, para que entendamos com mais clareza o fato de que esse duplo amor é o fundamento de toda religião, e de que maneira o é, juntamente com a correspondência mútua que existe entre um e outro, tal como já os descrevemos, será proveitoso contemplarmos com maior atenção as seguintes palavras do apóstolo aos Hebreus: “é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que recompensa os que o buscam diligentemente”. Nessas palavras, duas coisas são estabelecidas como fundamentos da religião, em oposição a dois dardos inflamados de Satanás, que são as pestes mais perniciosas para ela, e cada um dos quais é capaz, por si só, de derrubar e extirpar toda religião. Um deles é a segurança; o outro, o desespero. A segurança opera quando alguém se permite pensar que, por mais desatento que seja ao culto de Deus, não será condenado, mas obterá a salvação. O desespero está em operação quando uma pessoa nutre a persuasão de que, seja qual for o grau de reverência que demonstre para com Deus, não receberá remuneração alguma. Em qualquer mente humana em que uma dessas pestes seja alimentada, é impossível que ali resida algum culto verdadeiro e apropriado a Deus. Ora, ambas são derrubadas pelas palavras do apóstolo. Pois, se um homem crê firmemente “que Deus concederá a vida eterna somente aos que o buscam, mas que infligirá aos demais a morte eterna”, de modo algum pode entregar-se à segurança. E, se ele crê também que “Deus é verdadeiramente aquele que recompensa os que o buscam diligentemente”, aplicando-se à busca não correrá o perigo de cair em desespero. O fundamento da primeira espécie de fé, pela qual um homem crê firmemente “que Deus não concederá a vida eterna a ninguém senão aos que o buscam”, é aquele amor que Deus tem à sua própria justiça [ou retidão], e que é maior do que aquele que ele nutre pelo homem. E só por ele é removida toda causa de segurança. Mas o fundamento da segunda espécie de fé, “que Deus sem dúvida recompensará os que o buscam diligentemente”, é aquele grande amor ao homem que nem quer nem pode impedir Deus de efetuar a salvação dele, a não ser que Deus seja impedido pelo seu amor ainda maior à justiça ou retidão. Todavia, esta última espécie de amor está tão longe de agir como impedimento para que Deus seja aquele que recompensa os que o buscam diligentemente que, ao contrário, promove de todos os modos possíveis a concessão dessa recompensa. Portanto, os que buscam a Deus de modo algum podem alimentar uma única dúvida sequer quanto à disposição dele de recompensar. E é isso que age como salvaguarda contra o desespero ou a desconfiança. Sendo este o real estado da questão, esse duplo amor, e a relação mútua que cada parte dele mantém com a outra e que acabamos de expor, são os fundamentos da religião, sem os quais não pode de modo algum existir religião. Portanto, a doutrina que está em aberta hostilidade contra esse amor mútuo e contra a relação que subsiste mutuamente entre ambos é, ao mesmo tempo, subversiva do fundamento de toda religião.

XX. Por último. Esta doutrina da predestinação foi rejeitada, tanto em tempos passados como em nossos dias, pela maior parte dos que professam o cristianismo.

1. Mas, omitindo toda menção dos períodos que transcorreram em épocas passadas, os próprios fatos declaram que as igrejas luterana e anabatista, assim como a de Roma, consideram esta uma doutrina errônea.

2. Por mais que Lutero e Melâncton tenham aprovado esta doutrina no próprio começo da Reforma, depois a abandonaram. Essa mudança em Melâncton é bem visível em seus escritos posteriores; e os que se denominam “discípulos de Lutero” fazem a mesma afirmação a respeito do seu mestre, sustentando, porém, que sobre este assunto ele fez uma declaração mais clara e mais ampla das suas convicções, em vez de abandonar inteiramente as que antes sustentava. Mas Filipe Melâncton acreditava que esta doutrina não diferia muito do destino dos estoicos. Isso se vê em muitos dos seus escritos, mas sobretudo numa carta que dirigiu a Gaspar Peucer, na qual, entre outras coisas, afirma: “Lélio me escreve dizendo que a controvérsia sobre o Destino estoico é agitada com tão extraordinário fervor em Genebra que um indivíduo foi lançado na prisão porque lhe aconteceu discordar de Zenão. Ó tempos infelizes! Em que a doutrina da salvação é assim obscurecida por certas disputas estranhas!” [N. do T.: Zenão foi o fundador do estoicismo; aqui o nome designa ironicamente Calvino.]

3. Todas as igrejas dinamarquesas abraçam uma doutrina inteiramente oposta a esta, como é evidente pelos escritos de Nicolau Hemmingius, em seu tratado sobre a graça universal, no qual declara que a disputa entre ele e os seus adversários consistia na determinação destes dois pontos: “creem os eleitos?” ou “são os crentes os verdadeiros eleitos?”. Ele considera que “os que sustentam a primeira posição têm convicções conformes à doutrina dos maniqueus e dos estoicos; e os que sustentam o segundo ponto estão em evidente acordo com Moisés e os profetas, com Cristo e os seus apóstolos”.

4. Além disso, para muitos dos habitantes destas nossas próprias províncias, esta doutrina é um agravo de tal natureza que leva vários deles a afirmar que, por causa dela, não podem nem querem ter comunhão alguma com a nossa Igreja. Outros se uniram às nossas igrejas, mas não sem lavrar um protesto: “que não podem de modo algum dar o seu consentimento a esta doutrina”. Mas, por causa desta espécie de predestinação, as nossas igrejas foram abandonadas por não poucos indivíduos que antes tinham as mesmas opiniões que nós; e outros também ameaçaram afastar-se de nós, a menos que sejam plenamente certificados de que a Igreja não sustenta nenhuma opinião desse tipo.

5. Também não há ponto de doutrina a que os papistas, os anabatistas e os luteranos se oponham com maior veemência do que a este, e através do qual criem pior opinião sobre as nossas igrejas ou lhes granjeiem maior porção de ódio, desacreditando assim todas as doutrinas que professamos. Eles afirmam também “que, de todas as blasfêmias contra Deus que a mente do homem pode conceber ou a sua língua pode exprimir, não há nenhuma tão torpe que não se possa deduzir, por consequência legítima, desta opinião dos nossos doutores”.

6. Por último. De todas as dificuldades e controvérsias que surgiram nestas nossas igrejas desde o tempo da Reforma, não há nenhuma que não tenha tido a sua origem nesta doutrina ou que, ao menos, não tenha estado misturada com ela. O que eu disse aqui se mostrará verdadeiro, se trouxermos à lembrança as controvérsias que houve em Leiden, no caso de Koolhaes; em Gouda, no de Herman Herberts; em Hoorn, a respeito de Cornelius Wiggerston; e em Medemblik, no caso de Tako Sybrants. Esta consideração não esteve entre os menores motivos que me induziram a dar a minha mais diligente atenção a este ponto de doutrina e a esforçar-me para impedir que as nossas igrejas sofressem algum dano por causa dela; porque dela os papistas tiraram grande parte do seu crescimento. Todos os mestres piedosos, ao mesmo tempo que devem desejar de todo o coração a destruição do papismo, como desejariam a do reino do Anticristo, devem, com o maior zelo, empenhar-se nesse intento e, tanto quanto estiver em seu poder, fazer os preparativos mais eficazes para a sua derrubada.

As opiniões precedentes são, em resumo, as que sustento a respeito desta doutrina nova da predestinação. Eu a expus com toda a boa-fé, a partir das próprias expressões dos seus autores, para não parecer que invento e lhes atribuo algo que não pudesse provar claramente pelos seus escritos.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de James Nichols, The Works of James Arminius, vol. 1 (Londres, 1825), domínio público. Armínio leu a Declaração em holandês, em 1608. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.