Jacó Armínio · Declaração de Sentimentos · parte 2 de 5
O primeiro e mais importante artigo da religião sobre o qual tenho de apresentar meus pontos de vista, e que há muitos anos ocupa a minha atenção, é a predestinação de Deus, isto é, a eleição dos homens para a salvação e a reprovação deles para a destruição. Começando por este artigo, explicarei primeiro o que certas pessoas ensinam a respeito dele, tanto em discursos como em escritos, em nossas igrejas e na Universidade de Leiden. Depois declararei meus próprios pontos de vista e pensamentos sobre o mesmo assunto, ao mostrar a minha opinião sobre o que eles apresentam.
Sobre este artigo não há uma opinião uniforme e simples entre os mestres de nossas igrejas; mas há alguma variação em certas partes dele, nas quais divergem uns dos outros.
A opinião dos que assumem a posição mais elevada neste ponto, tal como se encontra geralmente em seus escritos, é a seguinte:
“I. Deus, por um decreto eterno e imutável, predestinou, dentre os homens (que ele não considerava como já criados, muito menos como caídos), certos indivíduos para a vida eterna e outros para a destruição eterna, sem levar em conta de modo algum a justiça ou o pecado, a obediência ou a desobediência, mas puramente por seu próprio beneplácito, para demonstrar a glória da sua justiça e da sua misericórdia; ou (como afirmam outros) para demonstrar a sua graça salvadora, a sua sabedoria e o seu poder livre e incontrolável.
“II. Além deste decreto, Deus preordenou certos meios determinados que dizem respeito à sua execução, e isso por um decreto eterno e imutável. Esses meios seguem-se necessariamente em virtude do decreto anterior e conduzem necessariamente aquele que foi predestinado ao fim que lhe foi preordenado. Alguns desses meios pertencem em comum tanto ao decreto da eleição quanto ao da rejeição, e outros estão restritos especialmente a um ou a outro decreto.
“III. Os meios comuns aos dois decretos são três. O primeiro é a criação do homem no estado reto [ou ereto] da justiça original, ou segundo a imagem e semelhança de Deus em justiça e verdadeira santidade. O segundo é a permissão da queda de Adão, ou a ordenação de Deus de que o homem pecasse e se tornasse corrupto ou viciado. O terceiro é a perda ou a remoção da justiça original e da imagem de Deus, e o ser encerrado sob o pecado e a condenação.
“IV. Pois, se Deus não tivesse criado alguns homens, não teria tido nenhum a quem pudesse conceder a vida eterna ou infligir a morte eterna. Se não os tivesse criado em justiça e verdadeira santidade, ele mesmo teria sido o autor do pecado e, por isso, não teria tido direito algum nem de puni-los para louvor da sua justiça, nem de salvá-los para louvor da sua misericórdia. Se eles mesmos não tivessem pecado e, pelo demérito do pecado, não se tivessem tornado culpados de morte, não haveria lugar para a demonstração nem da justiça nem da misericórdia.
“V. Os meios preordenados para a execução do decreto da eleição são também estes três. O primeiro é a preordenação, ou a dádiva, de Jesus Cristo como Mediador e Salvador, que por seu mérito pudesse merecer [ou adquirir], para todos os eleitos e somente para eles, a justiça e a vida perdidas, e pudesse comunicá-las por seu próprio poder [ou virtude]. O segundo é o chamado [ou vocação] à fé, exteriormente pela palavra, mas interiormente pelo seu Espírito, na mente, nos afetos e na vontade, por uma operação de tal eficácia que a pessoa eleita, por necessidade, dá assentimento e obediência à vocação, de modo que não lhe é possível fazer outra coisa senão crer e obedecer a essa vocação. Daí nascem a justificação e a santificação pelo sangue de Cristo e pelo seu Espírito, e delas a existência de todas as boas obras. E tudo isso, manifestamente, por meio da mesma força e necessidade. O terceiro é aquilo que guarda e preserva os eleitos na fé, na santidade e no zelo pelas boas obras; ou seja, é o dom da perseverança, cuja virtude é tal que as pessoas crentes e eleitas não só não pecam com vontade plena e inteira, nem caem totalmente da fé e da graça, mas também não lhes é possível pecar com vontade plena e perfeita, nem cair total ou finalmente da fé e da graça.
“VI. Os dois últimos desses meios [a vocação e a perseverança] pertencem somente aos eleitos que estão em idade adulta. Mas Deus emprega um caminho mais curto para a salvação, pelo qual conduz aqueles filhos de crentes e de santos que partem desta vida antes de chegar à idade da maturidade; isto é, desde que pertençam ao número dos eleitos (que só Deus conhece), pois Deus lhes concede Cristo como seu Salvador e os dá a Cristo, para salvá-los pelo seu sangue e pelo Espírito Santo, sem fé atual e sem perseverança nela [na fé]; e isso ele faz segundo a promessa da aliança da graça: Serei o seu Deus e o Deus da sua descendência depois de você.
“VII. Os meios que dizem respeito à execução do decreto de reprovação para a morte eterna são, em parte, tais que pertencem particularmente a todos os que são rejeitados e réprobos, quer cheguem algum dia à idade da maturidade, quer morram antes desse período; e, em parte, tais que são próprios somente de alguns deles. O meio comum a todos os réprobos é o abandono no pecado, pela negação daquela graça salvadora que é suficiente e necessária para a salvação de qualquer pessoa. Essa negação [ou recusa] consiste em duas partes. Pois, em primeiro lugar, Deus não quis que Cristo morresse por eles [os réprobos] ou se tornasse o Salvador deles, e isso nem em referência à vontade antecedente de Deus (como alguns a chamam), nem em referência à sua vontade suficiente, ou ao valor do preço da reconciliação; porque esse preço não foi oferecido pelos réprobos, nem com respeito ao decreto de Deus, nem quanto à sua virtude e eficácia. (1.) Mas a outra parte dessa negação [ou recusa] é que Deus não quer comunicar aos réprobos o Espírito de Cristo; e, no entanto, sem tal comunicação, eles não podem tornar-se participantes nem de Cristo nem dos seus benefícios.
“VIII. O meio que pertence propriamente só a alguns dos réprobos é o endurecimento [ou o ato de endurecer], que sobrevém àqueles dentre eles que chegaram à idade da maturidade, seja porque pecaram com muita frequência e de modo enorme contra a lei de Deus, seja porque rejeitaram a graça do evangelho. (1.) À execução da primeira espécie de induração, ou endurecimento, pertencem a iluminação da consciência deles por meio do conhecimento e o convencimento dela quanto à justiça da lei. Pois é impossível que essa lei não os detenha necessariamente na injustiça, para torná-los indesculpáveis. (2.) Para a execução da segunda espécie de induração, Deus emprega um chamado pela pregação do seu evangelho, chamado esse que é ineficaz e insuficiente, tanto com respeito ao decreto de Deus quanto ao seu resultado ou efeito. Esse chamado ou é apenas externo, e obedecer a ele não está nem no desejo nem no poder deles; ou é também interno, e por ele alguns deles podem ser estimulados em seu entendimento a aceitar e crer nas coisas que ouvem, mas apenas com uma fé como aquela de que são dotados os demônios quando creem e tremem. Outros deles são estimulados e conduzidos ainda mais longe, a ponto de desejarem em certa medida provar o dom celestial. Mas estes últimos são, de todos, os mais infelizes, porque são erguidos ao alto para serem lançados abaixo com uma queda mais pesada. E desse destino lhes é impossível escapar, pois devem necessariamente voltar ao seu vômito e afastar-se ou cair da fé.
“IX. Deste decreto de eleição e reprovação divina, e desta administração dos meios que dizem respeito à execução de ambos, segue-se que os eleitos são necessariamente salvos, sendo-lhes impossível perecer, e que os réprobos são necessariamente condenados, sendo-lhes impossível ser salvos; e tudo isso pelo propósito absoluto [ou determinação] de Deus, que é inteiramente anterior a todas as coisas e a todas aquelas causas que estão nas próprias coisas ou que delas possam resultar.”
Essas opiniões sobre a predestinação são consideradas, por alguns dos que as defendem, como o fundamento do cristianismo, da salvação e da certeza dela. Sobre essas convicções, supõem eles, “está fundada a consolação segura e indubitável de todos os crentes, capaz de tranquilizar a consciência deles; e delas depende também o louvor da graça de Deus, de modo que, se esta doutrina sofrer qualquer contestação, Deus é necessariamente privado da glória da sua graça, e então o mérito da salvação é atribuído ao livre-arbítrio do homem e às suas próprias forças e capacidades, atribuição essa que tem sabor de pelagianismo.”
Estas são, pois, as causas apresentadas para explicar por que os defensores dessas convicções se esforçam, com uma solicitude comum, por manter a pureza de tal doutrina em suas igrejas, e por que se opõem a todas as inovações que estão em desacordo com elas.
Quanto a mim, porém, para falar as minhas convicções com liberdade, mas com a ressalva de um juízo melhor, sou de opinião que essa doutrina deles contém muitas coisas falsas e impertinentes, em completo desacordo umas com as outras. O tempo presente não me permite enumerar todos os exemplos disso; mas a submeterei a exame apenas naquelas partes que são mais salientes e abrangentes. Proponho-me, portanto, quatro pontos principais, que são da maior importância nesta doutrina; e, depois de explicar em primeiro lugar de que natureza são, declararei mais amplamente o juízo e as convicções que formei a respeito deles. São os seguintes:
“I. Que Deus decretou absoluta e precisamente salvar certos homens particulares por sua misericórdia ou graça, mas condenar outros por sua justiça; e fazer tudo isso sem levar em conta, nesse decreto, a justiça ou o pecado, a obediência ou a desobediência, que pudessem de algum modo existir da parte de uma ou de outra classe de homens.
“II. Que, para a execução do decreto anterior, Deus determinou criar Adão, e todos os homens nele, num estado reto de justiça original; além disso, também determinou que eles cometessem pecado, para que assim se tornassem culpados de condenação eterna e fossem privados da justiça original.
“III. Que aquelas pessoas que Deus assim quis positivamente salvar, ele as decretou não só para a salvação, mas também para os meios que a ela dizem respeito (isto é, conduzi-las e levá-las à fé em Cristo Jesus e à perseverança nessa fé); e que ele também, de fato, as conduz a esses resultados por uma graça e um poder irresistíveis, de modo que não lhes é possível fazer outra coisa senão crer, perseverar na fé e ser salvas.
“IV. Que àqueles que Deus, por sua vontade absoluta, preordenou para a perdição, ele também decretou negar a graça que é necessária e suficiente para a salvação, e de fato não a confere a eles; de modo que não são colocados nem numa condição possível nem em capacidade alguma de crer ou de ser salvos.”
Depois de considerar e examinar diligentemente esses quatro pontos, no temor do Senhor, faço a seguinte declaração a respeito desta doutrina da predestinação.
I. Porque ela não é o fundamento do cristianismo, nem da salvação, nem da certeza da salvação.
1. Não é o fundamento do cristianismo: (1.) pois esta predestinação não é aquele decreto de Deus pelo qual Cristo é designado por Deus para ser o Salvador, o Cabeça e o Fundamento daqueles que serão feitos herdeiros da salvação. E, no entanto, esse decreto é o único fundamento do cristianismo. (2.) Pois a doutrina desta predestinação não é aquela doutrina pela qual, mediante a fé, nós, como pedras que vivem, somos edificados em Cristo, a única pedra angular, e somos inseridos nele assim como os membros do corpo estão unidos à sua cabeça.
2. Não é o fundamento da salvação: (1.) pois esta predestinação não é aquele decreto do beneplácito de Deus em Cristo Jesus, o único em que a nossa salvação repousa e do qual depende. (2.) A doutrina desta predestinação não é o fundamento da salvação, pois não é “o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê”, porque por meio dela “a justiça de Deus” não “se revela de fé em fé”.
3. Nem é o fundamento da certeza da salvação:
Pois esta depende deste decreto: “os que creem serão salvos”; eu creio, portanto serei salvo. Mas a doutrina desta predestinação não abrange em si nem o primeiro nem o segundo membro do silogismo.
Isso é também confessado por algumas pessoas nestes termos:
“não queremos afirmar que o conhecimento desta [predestinação] seja o fundamento do cristianismo ou da salvação, ou que seja necessário para a salvação da mesma maneira que a doutrina do evangelho” etc.
II. Esta doutrina da predestinação não contém em si nem o todo nem parte alguma do evangelho. Pois, segundo o teor dos discursos proferidos por João e por Cristo, tal como nos são descritos pelo evangelista, e segundo a doutrina dos apóstolos e de Cristo depois da sua ascensão, o evangelho consiste, em parte, numa ordem de arrepender-se e crer e, em parte, numa promessa de conceder o perdão dos pecados, a graça do Espírito e a vida eterna. Mas esta predestinação não pertence nem à ordem de arrepender-se e crer, nem à promessa a ela anexa. Mais ainda: esta doutrina nem sequer ensina que tipo de homens, em geral, Deus predestinou, o que é propriamente a doutrina do evangelho; mas abrange em si certo mistério, conhecido somente por Deus, que é o Predestinador, e nesse mistério está compreendido quais pessoas em particular, e quantas, ele decretou salvar e condenar. Dessas premissas tiro mais uma conclusão: esta doutrina da predestinação não é necessária para a salvação, nem como objeto de conhecimento, nem de crença, nem de esperança, nem de prática. Uma confissão nesse sentido foi feita por certo homem erudito, nas teses que propôs para discussão sobre este assunto, nos seguintes termos:
“Por isso, o evangelho não pode ser chamado simplesmente o livro ou a revelação da predestinação, mas apenas em sentido relativo. Porque não indica de modo absoluto nem a matéria do número nem a forma; isto é, não declara quantas pessoas em particular, nem (com poucas exceções) quem são, mas apenas a descrição geral daqueles que Deus predestinou.”
III. Esta doutrina nunca foi admitida, decretada nem aprovada em concílio algum, geral ou particular, nos primeiros seiscentos anos depois de Cristo.
1. Não no Concílio geral de Niceia, em que se deu sentença contra Ário e a favor da divindade e da consubstancialidade do Filho de Deus. Não no primeiro Concílio de Constantinopla, em que se aprovou um decreto contra Macedônio, a respeito da divindade do Espírito Santo. Não no Concílio de Éfeso, que decidiu contra Nestório e a favor da unidade da pessoa do Filho de Deus. Não no de Calcedônia, que condenou Eutiques e determinou “que na única e mesma pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo havia duas naturezas distintas, que diferem entre si em sua essência”. Não no segundo Concílio de Constantinopla, em que Pedro, bispo de Antioquia, e Antimo, bispo de Constantinopla, com algumas outras pessoas, foram condenados por terem afirmado “que o Pai também havia sofrido”, assim como o Filho. Nem no terceiro Concílio de Constantinopla, em que os monotelitas foram condenados por terem afirmado “que havia uma só vontade e uma só operação em Jesus Cristo”.
2. Mas esta doutrina também não foi discutida nem confirmada nos concílios particulares, como o de Jerusalém, o de Orange, ou mesmo o de Mela, na África [N. do T.: isto é, o Concílio de Mileve (Milevo), na Numídia, no norte da África.], que foi realizado contra Pelágio e seus erros, como se vê pelos artigos de doutrina então decretados, tanto contra a pessoa dele quanto contra as suas falsas opiniões.
Mas a doutrina de Agostinho sobre a predestinação estava tão longe de ser recebida naqueles concílios que, quando Celestino, bispo de Roma, seu contemporâneo, escreveu aos bispos da França e condenou as doutrinas dos pelagianos, concluiu a sua epístola com estas palavras: “mas, assim como não ousamos desprezar, também não julgamos necessário defender as partes mais profundas e difíceis das questões que ocorrem nesta controvérsia, e que foram tratadas muito extensamente por aqueles que se opuseram aos hereges. Porque cremos que tudo o que nos ensinaram os escritos conformes às regras da Sé Apostólica acima mencionadas é amplamente suficiente para confessar a graça de Deus, de cuja obra, crédito e autoridade não se deve subtrair ou retirar nem um til [N. do T.: o texto inglês disponível traz “not a little” (“não pouco”), provável erro de transcrição por “not a tittle” (“nem um til”); o argumento, como a própria carta de Celestino, é que nada se deve tirar da obra da graça.]” etc. Quanto às regras estabelecidas por Celestino naquela epístola, e que tinham sido decretadas nos três concílios particulares anteriores, não teremos dificuldade alguma em concordar a respeito delas, especialmente no que se refere às matérias necessárias para estabelecer a graça em oposição a Pelágio e seus erros.
IV. Nenhum daqueles doutores ou teólogos da Igreja que sustentaram convicções corretas e ortodoxas nos primeiros seiscentos anos depois do nascimento de Cristo jamais apresentou esta doutrina ou lhe deu a sua aprovação. Nem foi ela professada e aprovada por um único sequer dentre os que se mostraram os principais e mais ardorosos defensores da graça contra Pelágio. Desse grupo, como é evidente, eram São Jerônimo, Agostinho, o autor do tratado intitulado De Vocatione Gentium [“O chamado dos gentios”], Próspero de Aquitânia, Hilário, Fulgêncio e Orósio. Isso fica muito claro pelos seus escritos.
V. Ela não concorda com a Harmonia daquelas confissões que foram impressas e publicadas juntas num só volume em Genebra, em nome das igrejas reformadas e protestantes, nem corresponde a ela. Se essa harmonia de confissões for consultada com fidelidade, ver-se-á que muitas delas não falam da mesma maneira sobre a predestinação; que algumas apenas a mencionam incidentalmente; e que, evidentemente, nunca tocam sequer uma vez naqueles pontos da doutrina que agora gozam de grande prestígio, que são particularmente enfatizados no esquema de predestinação exposto acima e que já apresentei. Nem há uma única confissão que exponha esta doutrina da mesma maneira como acaba de ser proposta por mim. As confissões da Boêmia, da Inglaterra e de Württemberg, a primeira Confissão Helvética [Suíça] e a das quatro cidades de Estrasburgo, Constança, Memmingen e Lindau não fazem menção alguma desta predestinação. As de Basileia e da Saxônia apenas a mencionam muito de passagem, em três palavras. A Confissão de Augsburgo fala dela de tal maneira que levou os editores genebrinos a pensar que era necessária alguma anotação de sua parte, para nos dar um aviso prévio. A última das confissões helvéticas [suíças], à qual grande parte das igrejas reformadas manifestou o seu assentimento e que subscreveu, também fala dela em tais termos que me deixa muito desejoso de ver que método se poderia adotar para fazê-la concordar de algum modo com aquela doutrina da predestinação que acabo de apresentar. E, no entanto, esta confissão [suíça] é a que obteve a aprovação das igrejas de Genebra e da Saboia.
VI. Sem a menor contenda ou cavilação, pode-se com toda a propriedade pôr em dúvida se esta doutrina concorda com a Confissão Belga e o Catecismo de Heidelberg, como demonstrarei brevemente.
1. No artigo 14 da Confissão Holandesa ocorrem estas expressões: “O homem, consciente e voluntariamente, sujeitou-se ao pecado e, em consequência, à morte e à maldição, ao dar ouvidos às palavras enganosas e às imposturas do diabo” etc. Dessa frase concluo que o homem não pecou por necessidade alguma, em virtude de um decreto anterior de predestinação; inferência que se opõe diametralmente àquela doutrina da predestinação contra a qual agora argumento. Depois, no artigo 16, que trata da eleição eterna de Deus, estão contidas estas palavras: “Deus se mostrou misericordioso, livrando da condenação e salvando aquelas pessoas que, em seu conselho eterno e imutável, e segundo a sua bondade gratuita, escolheu em Cristo Jesus, nosso Senhor, sem levar em conta as obras delas. E mostrou-se justo, deixando os outros naquela sua queda e perdição em que eles mesmos se haviam precipitado.” Não me é evidente como essas palavras são compatíveis com esta doutrina da predestinação.
2. Na 20ª pergunta do Catecismo de Heidelberg lemos:
“a salvação por meio de Cristo não é dada [restituída] a todos os que haviam perecido em Adão, mas somente aos que são enxertados em Cristo pela fé e abraçam os seus benefícios.” Dessa frase infiro que Deus não predestinou homem algum para a salvação de modo absoluto, mas que, em seu decreto, os considerou [ou os viu] como crentes. Esta dedução está em aberto conflito com o primeiro e o terceiro pontos desta predestinação. Na 54ª pergunta do mesmo Catecismo se diz: “Creio que, desde o princípio até o fim do mundo, o Filho de Deus, dentre todo o gênero humano, por sua palavra e Espírito, reúne ou congrega para si uma comunidade escolhida para a vida eterna e concorde na verdadeira fé.” Nesta frase, “eleição para a vida eterna” e “concordância na fé” estão em justaposição mútua, e de tal maneira que a segunda não fica subordinada à primeira, como, segundo essas convicções sobre a predestinação, deveria ter sido feito. Nesse caso, as palavras deveriam ter sido colocadas na seguinte ordem: “o Filho de Deus chama e congrega para si, por sua palavra e Espírito, uma comunidade escolhida para a vida eterna, para que creiam e concordem na verdadeira fé.”
Visto que tais são as afirmações da nossa Confissão e do nosso Catecismo, não existe razão alguma para que os que abraçam e defendem essas convicções sobre a predestinação procurem impô-las com violência aos seus colegas e à Igreja de Cristo, nem para que levem a mal, e lhe deem a pior interpretação, quando se ensina na Igreja ou na Universidade algo que não está exatamente de acordo com a sua doutrina ou que se opõe a ela.
VII. Afirmo que esta doutrina é contrária à natureza de Deus, mas particularmente àqueles atributos da sua natureza pelos quais ele realiza e administra todas as coisas: a sua sabedoria, a sua justiça e a sua bondade.
1. É contrária à sua sabedoria de três maneiras. (1.) Porque representa Deus decretando algo para um fim particular [ou propósito] que não é nem pode ser bom, a saber, que Deus criou algo para a perdição eterna, para louvor da sua justiça. (2.) Porque afirma que o objetivo que Deus se propôs com esta predestinação foi demonstrar a glória da sua misericórdia e da sua justiça; mas essa glória ele não pode demonstrar senão por um ato que é contrário ao mesmo tempo à sua misericórdia e à sua justiça, como é aquele decreto de Deus pelo qual determinou que o homem pecasse e se tornasse miserável. (3.) Porque muda e inverte a ordem da dupla sabedoria de Deus, tal como nos é mostrada nas Escrituras. Pois afirma que Deus predeterminou absolutamente salvar os homens pela misericórdia e pela sabedoria compreendidas na doutrina da cruz de Cristo, sem ter previsto esta circunstância: que era impossível ao homem (e isso, na verdade, por sua própria culpa) ser salvo pela sabedoria que foi revelada na lei e que lhe foi infundida no momento da sua criação. A Escritura, ao contrário, afirma que “Deus achou por bem salvar os que creem por meio da loucura da pregação”, isto é, “pela doutrina da cruz, visto que, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria” (1Co 1.21).
2. É contrária à justiça de Deus, não só em referência a esse atributo enquanto denota em Deus o amor à justiça e o ódio à iniquidade, mas também em referência a ele enquanto é em Deus um desejo perpétuo e constante de dar a cada um o que lhe é devido. (1.) Opõe-se à primeira dessas ideias de justiça da seguinte maneira: porque afirma que Deus quis absolutamente salvar certos homens individuais e decretou a salvação deles sem levar minimamente em conta a justiça ou a obediência; e a inferência correta daí é que Deus ama tais homens muito mais do que a sua própria justiça [ou retidão]. (2.) Opõe-se à segunda ideia da sua justiça: porque afirma que Deus deseja sujeitar a sua criatura à miséria (que não pode ter existência alguma senão como castigo do pecado), embora, ao mesmo tempo, não a veja [ou considere] como pecadora e, portanto, a tenha como não sujeita nem à ira nem ao castigo. É desta maneira que estabelece a tese de que Deus quis dar à criatura não só algo que não lhe pertence, mas algo que está ligado ao seu maior dano; o que é outro ato diretamente oposto à sua justiça. Segundo esta doutrina, portanto, Deus, em primeiro lugar, tira de si mesmo o que é seu [ou o seu direito] e, depois, dá à criatura o que não lhe pertence, para grande miséria e infelicidade dela.
3. É também contrária à bondade de Deus. A bondade é uma afeição [ou disposição] em Deus de comunicar o seu próprio bem, na medida em que a sua justiça considera e admite ser conveniente e apropriado. Mas nesta doutrina atribui-se a Deus o seguinte ato: por si mesmo, e sem ser induzido a isso por nada externo, ele quer o maior mal para as suas criaturas; e, desde toda a eternidade, preordenou para elas esse mal, ou predeterminou comunicá-lo a elas, antes mesmo de resolver conceder-lhes qualquer porção de bem. Pois esta doutrina afirma que Deus quis condenar e, para poder fazê-lo, quis criar; embora a criação seja o primeiro egresso [ou a primeira saída] da bondade de Deus em direção às suas criaturas. Quão imensamente diferentes são tais afirmações daquela ampla bondade de Deus pela qual ele concede benefícios não só aos indignos, mas também aos maus, aos injustos e aos que merecem castigo; e esse traço da beneficência divina, em nosso Pai que está nos céus, é o que nos é ordenado imitar (Mt 5.45).
VIII. Tal doutrina da predestinação é contrária à natureza do homem, no que diz respeito a ter ele sido criado segundo a imagem divina, no conhecimento de Deus e em justiça; a ter sido criado com liberdade de vontade; e a ter sido criado com disposição e aptidão para desfrutar a vida eterna. Essas três circunstâncias a respeito dele podem ser deduzidas destas breves expressões: “Faça isto e você viverá” (Rm 10.5) [N. do T.: em Rm 10.5, a NAA traz “Aquele que observar os seus preceitos por eles viverá”; a forma “Faça isto e você viverá” é a de Lc 10.28.]; “no dia em que dela comer, você certamente morrerá” (Gn 2.17). Se o homem for privado de qualquer dessas qualificações, advertências como essas não poderão de modo algum ser eficazes para incitá-lo à obediência.
1. Esta doutrina é incompatível com a imagem divina, que consiste no conhecimento de Deus e na santidade. Pois, segundo esse conhecimento e essa justiça, o homem foi habilitado e capacitado, e foi também posto sob a obrigação de conhecer a Deus, de amá-lo, adorá-lo e servi-lo. Mas pela intervenção, ou melhor, pela antecipação desta predestinação, foi preordenado que o homem fosse formado vicioso e cometesse pecado, isto é, que não conhecesse a Deus, nem o amasse, nem o adorasse, nem o servisse; e que não fizesse aquilo que, pela imagem de Deus, estava bem habilitado e capacitado a fazer e que tinha o dever de fazer. Isso equivale a uma declaração como a seguinte, que qualquer pessoa poderia fazer:
“Deus, sem dúvida, criou o homem segundo a sua própria imagem, em justiça e verdadeira santidade; mas, apesar disso, preordenou e decretou que o homem se tornasse impuro e injusto, isto é, que fosse feito conforme à imagem de Satanás.”
2. Esta doutrina é incompatível com a liberdade da vontade, na qual e com a qual o homem foi criado por Deus. Pois impede o exercício dessa liberdade, prendendo ou determinando a vontade absolutamente a um só objeto, isto é, a fazer precisamente esta coisa ou aquela. Segundo essa afirmação, portanto, Deus pode ser censurado por uma destas duas coisas (do que ninguém acuse o seu Criador!): ou por ter criado o homem com liberdade de vontade, ou por tê-lo impedido de usar a sua própria liberdade depois de o ter formado como agente livre. No primeiro desses dois casos, Deus é acusável de falta de ponderação; no segundo, de mutabilidade. E, em ambos, de ser injurioso tanto para com o homem quanto para consigo mesmo.
3. Esta predestinação é prejudicial ao homem no que diz respeito à inclinação e à capacidade para o gozo eterno da salvação, das quais foi dotado no momento da sua criação. Pois, uma vez que por esta predestinação foi predeterminado que a maior parte da humanidade não se tornará participante da salvação, mas cairá na condenação eterna, e uma vez que essa predeterminação ocorreu antes mesmo de ter sido aprovado o decreto de criar o homem, tais pessoas são privadas de algo para cujo desejo foram dotadas por Deus de uma inclinação natural. Essa grande privação elas a sofrem, não em consequência de algum pecado ou demérito anterior delas próprias, mas única e exclusivamente por causa desse tipo de predestinação.
IX. Esta predestinação se opõe diametralmente ao ato da criação.
1. Pois a criação é uma comunicação de bem, segundo a propriedade intrínseca da sua natureza. Mas uma criação deste tipo, cuja intenção ou propósito é abrir por meio de si mesma um caminho pelo qual a reprovação previamente determinada possa alcançar o seu objetivo, não é uma comunicação de bem. Pois devemos formar a nossa estimativa e o nosso juízo de todo bem a partir da mente e da intenção daquele que é o doador, e do fim para o qual, ou por causa do qual, ele é concedido. No presente caso, a intenção do doador teria sido condenar, ato que não poderia atingir ninguém senão uma criatura; e o fim ou resultado da criação teria sido a perdição eterna da criatura. Nesse caso, a criação não teria sido a comunicação de bem algum, mas uma preparação para o maior dos males, tanto segundo a própria intenção do Criador quanto segundo o resultado efetivo da questão; e, segundo as palavras de Cristo, “Melhor seria para ele se nunca tivesse nascido!” (Mt 26.24).
2. A reprovação é um ato de ódio e tem no ódio a sua origem. Mas a criação não procede do ódio; portanto, não é um caminho ou meio que pertença à execução do decreto de reprovação.
3. A criação é um ato perfeito de Deus, pelo qual ele manifestou a sua sabedoria, bondade e onipotência; portanto, não está subordinada ao fim de nenhuma outra obra ou ação anterior de Deus. Deve antes ser vista como aquele ato de Deus que necessariamente precede todos os outros atos que ele possa decretar ou empreender, e lhes é anterior. Se Deus não tivesse formado previamente o conceito da obra da criação, não poderia ter decretado empreender efetivamente nenhum outro ato; e, enquanto não tivesse executado a obra da criação, de modo algum poderia ter completado qualquer outra operação.
4. Todas as ações de Deus que tendem à condenação das suas criaturas são obra estranha, ou alheia a ele [N. do T.: alusão a Is 28.21, onde a NAA fala da “sua obra alheia” e da “sua tarefa estranha”.], porque Deus consente nelas por alguma outra causa, inteiramente extrínseca. Mas a criação não é uma ação alheia a Deus; é-lhe própria. É, eminentemente, a ação que mais lhe é apropriada, e para a qual ele não podia ser movido por nenhuma outra causa externa, porque é o primeiro de todos os atos divinos e, até que fosse realizada, nada podia ter existência efetiva, exceto o próprio Deus; pois tudo o mais que tem ser veio à existência por meio desta ação.
5. Se a criação é o caminho e o meio pelo qual Deus quis a execução do decreto da sua reprovação, ele estava mais inclinado a querer o ato da reprovação do que o da criação; e, consequentemente, teve maior satisfação no ato de condenar algumas de suas criaturas inocentes do que no ato de criá-las.
6. Por último. A criação não pode ser caminho ou meio de reprovação segundo o propósito absoluto de Deus, porque, depois de completada a criação, estava no poder do homem continuar obediente aos mandamentos divinos e não cometer pecado; e, para tornar isso possível, Deus, por um lado, lhe havia concedido força e poder suficientes e, por outro, havia também colocado impedimentos suficientes; circunstância que se opõe da forma mais diametral a uma predestinação desse tipo.
X. Esta doutrina está em aberta hostilidade com a natureza da vida eterna e com os títulos pelos quais ela é distinguida de modo notável nas Escrituras. Pois é chamada “a herança dos filhos de Deus” (Tt 3.7); mas, segundo a doutrina do evangelho, somente são filhos de Deus “os que creem no nome de Jesus Cristo” (Jo 1.12). É também chamada “a recompensa da obediência” (Mt 5.12) e “do trabalho do amor” (Hb 6.10), “a recompensa dos que combatem o bom combate e correm bem, a coroa da justiça” etc. (Ap 2.10; 2Tm 4.7-8). [N. do T.: nestas expressões entre aspas, Armínio resume os textos indicados; a NAA não as traz literalmente. Em Tt 3.7, por exemplo, lê-se “nos tornemos seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna”; em Jo 1.12, “aos que creem no seu nome”; e em 2Tm 4.7-8, “Combati o bom combate, completei a carreira […] me está guardada a coroa da justiça”.] Portanto, Deus não designou a homem algum a vida eterna, nem determinou designá-la, por seu próprio decreto absoluto, sem levar em consideração ou em conta, de modo algum, a fé e a obediência.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de James Nichols, The Works of James Arminius, vol. 1 (Londres, 1825), domínio público. Armínio leu a Declaração em holandês, em 1608. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.