Jacó Armínio · Declaração de Sentimentos · parte 1 de 5

Dedicatória e relato das conferências

Aos nobres e potentíssimos Estados da Holanda e da Frísia Ocidental, meu supremo Governante, meus nobilíssimos, poderosos, sábios e prudentes Senhores:

Depois que a conferência entre Gomaro e mim, convocada aqui em Haia por ordem de Vossas Altas Potências, se realizou na presença de quatro ministros e sob a supervisão de Suas Senhorias, os conselheiros do Supremo Tribunal, o resultado desse encontro foi relatado a Vossas Altezas. Como nesse relatório se fez alguma alusão à natureza e à importância da controvérsia entre nós, pouco depois pareceu bem a Vossas Altezas citar cada um de nós, com aqueles quatro ministros, a comparecer abertamente diante de vós em vossa honrada assembleia, para, dessa forma pública, comunicar a todos nós o que então julgastes conveniente. Depois que comparecemos diante de Vossas Altas Potências, Gomaro afirmou “que a controvérsia entre ele e mim era de tão imensa importância que, com as opiniões que eu professava, ele não ousaria comparecer na presença do seu Criador”. Afirmou também “que, se não se encontrasse prontamente algum meio de prevenção, a consequência seria que as diversas províncias, igrejas e cidades de nossa pátria, e até os próprios cidadãos, seriam postos em estado de inimizade e discórdia mútua, e se levantariam em armas uns contra os outros”. A todas essas alegações não respondi nada naquela ocasião, exceto “que eu certamente não tinha consciência de nutrir, em matéria de religião, convicções tão atrozes como aquelas de que ele havia falado; e expressei com confiança a esperança de que jamais daria causa ou ocasião a cisma e separação, na Igreja de Deus ou em nossa pátria comum”. Em confirmação disso, acrescentei “que estava pronto a fazer uma declaração aberta e bona fide (de boa-fé) de todas as minhas convicções, pontos de vista e propósitos sobre todo assunto ligado à religião, sempre que fosse chamado a comparecer diante desta augusta assembleia, e até mesmo antes de me retirar naquela ocasião da vossa presença”. Vossas Altezas, tendo desde então deliberado sobre a proposta e a oferta que fiz naquele momento, julgam conveniente agora convocar-me à vossa presença, a fim de que eu resgate, neste salão, o compromisso que havia assumido anteriormente. Para cumprir essa promessa, compareço agora neste lugar e, com toda a devida fidelidade, desempenharei o meu dever, seja o que for que se exija de mim com relação a este assunto.

Contudo, há muito tempo circula a meu respeito, com empenho e por toda parte, não só entre meus compatriotas, mas também entre estrangeiros, um boato maldoso segundo o qual eu teria até agora recusado, depois de frequentes solicitações, fazer uma profissão aberta de minhas convicções em matéria de religião e de meus propósitos a esse respeito. E, visto que esse rumor infundado já me tem causado gravíssimo prejuízo, rogo com insistência que me seja concedida vossa graciosa permissão para fazer uma declaração franca e aberta de todas as circunstâncias relativas a esse assunto, antes de passar à discussão de outros temas.

1. Relato de uma conferência que me foi proposta, mas que recusei

No dia 30 de junho do ano de 1605, três deputados do Sínodo da Holanda do Sul vieram ter comigo em Leiden: Francis Lansbergius, Libertus Fraxinus e Daniel Dolegius, de piedosa memória, ministros, respectivamente, das igrejas de Roterdã, Haia e Delft. Acompanhavam-nos dois membros do Sínodo da Holanda do Norte: John Bogardus, ministro da igreja de Haarlem, e James Rolandus, da igreja de Amsterdã. Disseram-me “que tinham ouvido que, nas reuniões regulares de algumas de suas classes (os presbitérios da região), no exame a que os candidatos às ordens sagradas devem submeter-se antes de serem admitidos ao ministério cristão, alguns estudantes da Universidade de Leiden haviam dado às perguntas que lhes foram propostas respostas de caráter novo e contrárias à doutrina comum e aceita das igrejas. Essas novidades”, dizia-se, “os jovens afirmavam que lhes haviam sido incutidas enquanto estavam sob a minha instrução”. Diante dessa situação, pediram-me “que entrasse com eles numa conferência amigável, pela qual pudessem verificar se havia alguma verdade nessa acusação, e ficassem depois mais habilitados a cuidar dos interesses da Igreja”. A essas sugestões respondi “que de modo algum podia aprovar o procedimento que recomendavam. Pois tal caminho me sujeitaria inevitavelmente a frequentes e quase incessantes pedidos de entrevistas e conversas amigáveis, caso alguém julgasse necessário importunar-me desse modo toda vez que um estudante desse uma resposta nova ou incomum e, para se desculpar, alegasse tê-la aprendido comigo. Por isso, parecia-me mais sábio e prudente o seguinte plano: sempre que um estudante, durante o exame, desse alguma resposta que, segundo ele afirmasse, proviesse de minhas lições, contanto que os irmãos considerassem que essa resposta se opunha à confissão e ao catecismo das igrejas belgas [N. do T.: “igrejas belgas” são as igrejas reformadas dos Países Baixos; a confissão é a Confissão Holandesa (a Confissão Belga), e o catecismo é o Catecismo de Heidelberg.], deveriam imediatamente acareá-lo comigo; e, para investigar tal caso, eu estava pronto a ir, à minha própria custa, a qualquer cidade, por mais distante que fosse, que os irmãos houvessem por bem designar para esse fim. A consequência evidente desse método seria que, depois de usado algumas vezes, ele faria aparecer clara e evidentemente se a afirmação do estudante era a verdade ou apenas uma calúnia.

Mas como Francis Lansbergius, em nome dos demais irmãos, continuasse a insistir e a pedir uma conferência, dei uma razão a mais pela qual não via conveniência em entrar numa conferência com eles: apresentavam-se diante de mim na qualidade de deputados, que depois teriam de prestar ao Sínodo contas de todos os seus atos; e, portanto, eu não tinha liberdade para atender ao seu desejo, a não ser com o conhecimento e o consentimento, e mais ainda por ordem expressa, de outros que eram meus superiores, e a quem eu, tanto quanto eles, era obrigado a obedecer. Além disso, haveria para mim não pequeno risco e perigo se, no relato do resultado de nossa conferência que eles viessem a fazer depois ao Sínodo, eu deixasse esse relato inteiramente à fidelidade e à discrição deles. Também não tinham motivo para exigir de mim coisa alguma desse tipo, pois eu não tinha a menor consciência de ter proposto uma única doutrina, nem em Leiden nem em Amsterdã, que fosse contrária à palavra de Deus ou à Confissão e ao Catecismo das igrejas dos Países Baixos. Pois até então ninguém jamais havia levantado contra mim tal acusação; e eu estava certo de que ninguém tentaria sustentar contra mim uma acusação dessa natureza, se quem a fizesse fosse obrigado ao mesmo tempo a comprová-la com provas ou, na falta delas, a confessar a sua ofensa contra a caridade.”

2. Oferta, de minha parte, de uma conferência com esses deputados, que eles recusaram

Disse então a esses cinco senhores “que, apesar de tudo isso, se consentissem em abrir mão do título de deputados e cada um, em caráter particular, entrasse numa conferência comigo, eu estava pronto a iniciá-la naquele mesmo instante”. As condições que propus que fossem mutuamente observadas por nós eram estas: (i.) que eles explicassem suas opiniões sobre cada artigo em particular, e então eu explicaria as minhas; (ii.) que eles apresentassem suas provas, e eu apresentaria as minhas; e (iii.) que, por fim, eles tentassem refutar minhas convicções e razões, e eu, por minha vez, tentaria refutar as deles. (iv.) Se dessa maneira qualquer das partes conseguisse dar plena satisfação à outra, o resultado seria agradável; mas, se nenhuma das partes conseguisse satisfazer a outra, então não se faria menção alguma dos assuntos discutidos em nossa conferência particular, nem de seu desfecho desfavorável, em lugar ou companhia alguma, até que todo o assunto fosse submetido a um Sínodo Nacional.”

Mas, como deram uma recusa categórica a essa proposta, teríamos nos separado sem mais conversa, se eu não lhes tivesse pedido “que oferecessem uma conferência da mesma maneira a Gomaro, bem como a Trelcatius, de piedosa memória, porque não me parecia que eu lhes tivesse dado algum motivo para fazer tal exigência a mim, e não a qualquer de meus dois colegas”. Ao mesmo tempo, reforcei essas palavras finais com vários argumentos, que seria fastidioso demais repetir agora na presença de Vossas Altas Potências. Quando terminei, os deputados responderam “que atenderiam ao meu pedido, e iriam ter com os outros dois professores de teologia para lhes fazer oferta semelhante”; e, antes de partirem de Leiden, vieram ver-me e me asseguraram que, nesse ponto, haviam cumprido a promessa.

Esta é, pois, a primeira das muitas solicitações que me foram feitas. Ela deu muito o que falar na época em que ocorreu, pois muitas pessoas falaram dela. Algumas a relataram de forma incompleta e de um modo muito diferente das reais circunstâncias de todo o episódio; outras suprimiram muitos pormenores essenciais e ocultaram propositalmente a contraproposta que eu havia oferecido aos deputados e as fortes razões que apresentei em seu apoio.

3. Outra solicitação me é feita

Poucos dias depois, isto é, no dia 28 de julho do mesmo ano de 1605, foi-me apresentado igualmente um pedido de caráter semelhante, em nome do Presbitério da igreja de Leiden, mas com esta condição: se eu o aprovasse, outras pessoas, a quem tal pedido dizia respeito igualmente, seriam também convocadas diante do mesmo tribunal eclesiástico; mas, se essa oferta não obtivesse minha aprovação, nada mais se tentaria. Mas, quando dei a entender que não percebia claramente como esse pedido poderia de algum modo obter a minha aprovação, e acrescentei minhas razões, que eram da mesma natureza das que havia usado na ocasião anterior, minha resposta satisfez plenamente Bronchovius, o burgomestre [de Leiden], e Merula, de piedosa memória, que haviam ambos vindo ter comigo em nome daquela igreja, da qual eram presbíteros; e eles resolveram abandonar todo procedimento ulterior nesse assunto.

4. O pedido dos deputados do Sínodo da Holanda do Sul a Suas Senhorias, os curadores da Universidade, e a resposta que receberam

No dia nove de novembro do mesmo ano de 1605, os deputados do Sínodo da Holanda do Sul, Francis Lansbergius, Festus Hommius e seus companheiros, apresentaram nove perguntas a Suas Senhorias, os curadores da Universidade de Leiden, acompanhadas de uma petição “para que se ordenasse aos professores de teologia que as respondessem”. Mas os curadores responderam “que de modo algum podiam sancionar com seu consentimento que se propusessem perguntas aos professores de teologia; e que, se alguém supusesse que na Universidade se ensinava algo contrário à verdade e à retidão, essa pessoa tinha a possibilidade de levar o objeto de sua queixa a um Sínodo Nacional, que, segundo se esperava, seria convocado na primeira oportunidade; então o assunto chegaria regularmente ao conhecimento daquela assembleia e receberia a mais ampla discussão”. Entregue essa resposta, os deputados do Sínodo não hesitaram em pedir com insistência, como favor especial, “que, com a bondosa permissão de Suas Senhorias, eles próprios pudessem propor aquelas nove perguntas aos professores de teologia e, sem incomodar Suas Senhorias, informar-se pessoalmente sobre a resposta que cada um daqueles três teólogos daria por vontade própria e sem relutância”. Mas, depois de todas as suas súplicas, não conseguiram obter a permissão que tão ardorosamente desejavam. Toda essa negociação malsucedida foi conduzida de maneira tão clandestina, e tão cuidadosamente escondida de mim, que eu ignorava por completo até mesmo a chegada daqueles reverendos deputados à nossa cidade; mas, pouco depois de sua partida, tomei conhecimento de sua missão e do seu fracasso.

5. Uma quarta solicitação do mesmo tipo

Depois disso, passou-se um ano inteiro antes que eu fosse de novo chamado a prestar contas sobre tais assuntos. Mas não devo deixar de mencionar que, no ano de 1607, pouco antes da reunião do Sínodo da Holanda do Sul em Delft, John Bernards, ministro da igreja de Delft, Festus Hommius, ministro de Leiden, e Dibbetius, de Dort, foram enviados pelo Sínodo para vir ter comigo e perguntar que progresso eu havia feito na refutação dos anabatistas. Depois que lhes dei resposta adequada sobre esse assunto, que foi motivo de muita conversa entre nós de ambos os lados, e quando já estavam a ponto de se despedir, pediram-me “que não hesitasse em revelar-lhes quaisquer opiniões e propósitos que eu tivesse formado em matéria de religião, a fim de que fossem comunicados ao Sínodo pelos deputados, para satisfação dos irmãos”. Mas recusei-me a atender às suas súplicas, “porque a explicação desejada não podia ser dada nem de modo conveniente nem com proveito; e eu não conhecia lugar algum em que fosse possível explicar essas coisas com maior propriedade do que no Sínodo Nacional, que, segundo a resolução de Suas Nobilíssimas e Altas Potências, os Estados Gerais, se esperava que se reunisse muito em breve”. Prometi “que faria todo o esforço para poder, naquela assembleia, professar abertamente todas as minhas convicções, e que não usaria nada daquela suposta ocultação ou dissimulação sobre coisa alguma de que eles então pudessem queixar-se”. Concluí dizendo “que, se eu fizesse minha profissão diante deles como deputados do Sínodo da Holanda do Sul, não poderia confiar à fidelidade deles o relato do que viesse a ocorrer, porque, em assuntos dessa natureza, cada um é o intérprete mais competente do seu próprio pensamento”. Depois dessas explicações mútuas, despedimo-nos.

6. A mesma solicitação me é repetida em particular, e minha resposta a ela

Além dessas diversas solicitações, certos ministros me pediram em particular “que não considerasse um sacrifício comunicar meus pontos de vista e intenções aos seus colegas, os irmãos reunidos em Sínodo”; outros me suplicaram “que lhes revelasse meus pontos de vista, para que tivessem a oportunidade de ponderá-los e examiná-los por si mesmos, no temor do Senhor”, e me deram a garantia “de que não divulgariam parte alguma da comunicação desejada”. Aos do primeiro desses dois grupos dei em comum a minha resposta habitual, “que não tinham razão para exigir de mim tal explicação, e não de outros”. Mas a um desses ministros, que não pertencia ao segundo desses dois grupos de solicitantes, propus em três ocasiões diferentes uma conferência sobre todos os artigos da nossa religião, na qual poderíamos considerar e planejar os melhores meios possíveis para estabelecer a verdade sobre o fundamento mais sólido e para refutar completamente toda espécie de falsidade. Fazia parte também da minha oferta que essa conferência se realizasse na presença de alguns dos principais homens do nosso país; mas ele não aceitou essa condição. Aos demais que me interrogavam dei respostas variadas: em algumas, neguei claramente o que me pediam; em outras, fiz algumas revelações aos interessados. Minha única regra ao fazer essa distinção era o grau maior ou menor de intimidade que eu tinha com as pessoas. Enquanto isso, aconteceu com frequência que, pouco depois de eu ter assim revelado algo em confiança a alguém, isso fosse contado a outros de forma caluniosa, por mais seriamente que essa pessoa tivesse afirmado em minha presença que o que eu então lhe comunicara era, a seu juízo, conforme à verdade, e embora tivesse empenhado solenemente a sua honra de que de modo algum o divulgaria.

7. O que ocorreu a respeito do mesmo assunto na Convenção Preparatória

A essas é preciso acrescentar também um boato que se espalhou por meio de cartas, não só dentro destas províncias, mas muito além de suas fronteiras, segundo o qual, “na Convenção Preparatória realizada em Haia, no mês de junho de 1607, por um grupo de irmãos ali reunidos por convocação de Suas Altas Potências, os Estados Gerais, depois de me pedirem do modo mais amigável que consentisse em revelar, diante dos irmãos então presentes, meus pontos de vista sobre a fé cristã, eu recusei; e, embora eles prometessem esforçar-se, tanto quanto possível, para me dar satisfação, ainda assim me neguei a atender aos seus desejos”. Ora, vejo por experiência que essa versão distorcida dos fatos me tem valido não poucas provas de ódio e má vontade da parte de muitas pessoas, que pensam que eu deveria ter demonstrado deferência muito mais honrosa para com aquela assembleia, que era uma convenção de teólogos de cada uma das Províncias Unidas. Por isso percebo que me é imposta a necessidade de começar pela própria origem desse episódio, ao relatar o modo como ele ocorreu:

Antes de eu partir de Leiden para a convenção em Haia que acabo de mencionar, puseram-me nas mãos cinco artigos que, segundo se dizia, tinham sido enviados a algumas das províncias, lidos por certos ministros e assembleias eclesiásticas, e considerados por eles como documentos que continham minhas convicções sobre vários pontos da religião. Os pontos de que pretendiam apresentar um retrato correto eram a predestinação, a queda de Adão, o livre-arbítrio, o pecado original e a salvação eterna das crianças. Depois de ler todos eles, pensei perceber claramente, pelo estilo em que estavam escritos, quem era o seu autor; e, como ele estava então presente (sendo um dos convocados naquela ocasião), abordei-o sobre esse assunto e aproveitei a oportunidade para lhe dizer francamente que tinha boas razões para crer que aqueles artigos eram de sua autoria. Ele não fez nenhuma tentativa de negar a exatidão dessa suposição, e respondeu que eles não haviam sido distribuídos propriamente como artigos meus, mas como aqueles sobre os quais os estudantes de Leiden haviam sustentado disputas acadêmicas.” Em resposta a essa observação, eu lhe disse “que de uma coisa ele devia ter plena consciência: pelo simples ato de pôr em circulação tal documento, não podia evitar criar um preconceito grave e imediato contra a minha inocência, e logo os mesmos artigos seriam atribuídos a mim, como se fossem de minha autoria; quando, na realidade”, como então afirmei abertamente, “não haviam procedido de mim, nem concordavam com minhas convicções, e, tanto quanto eu podia julgar, pareciam-me estar em desacordo com a palavra de Deus”.

Depois que ele e eu conversamos assim na presença de apenas duas outras pessoas, julguei aconselhável fazer alguma menção desse assunto na própria convenção, à qual compareciam algumas pessoas que tinham lido aqueles mesmos artigos e que, segundo sua própria confissão, os haviam tido por meus. Segui, portanto, esse plano. Justamente quando a convenção estava a ponto de ser dissolvida, depois de assinada a ata de nossos trabalhos e de algumas pessoas terem recebido instruções para dar a Suas Altas Potências, os Estados Gerais, um relato de nossas deliberações, pedi aos irmãos “que não achassem incômodo permanecer juntos por um pouco, pois eu tinha algo que desejava comunicar”. Eles concordaram com a proposta, e eu lhes disse “que havia recebido os cinco artigos que tinha na mão, cujo teor li brevemente para eles; que descobrira que tinham sido enviados por um membro daquela convenção a diversas províncias; que tinha certeza de sua distribuição na Zelândia e na diocese de Utrecht; e que tinham sido lidos por alguns ministros em suas reuniões públicas e eram considerados documentos que continham minhas convicções”. Contudo, declarei solenemente diante de toda aquela assembleia, com boa consciência e como na presença de Deus, “que aqueles artigos não eram meus, nem continham minhas convicções”. Repeti duas vezes essa afirmação solene, e roguei aos irmãos “que não dessem crédito tão depressa aos boatos que circulavam a meu respeito, nem ouvissem com tanta facilidade qualquer coisa que se apresentasse como procedente de mim ou que se tivesse espalhado por aí em manifesto prejuízo meu”.

A essas observações, um membro daquela convenção respondeu “que seria bom que eu, por esse motivo, indicasse aos irmãos que parte daqueles artigos tinha a minha aprovação e que parte eu rejeitava, para que tivessem assim a oportunidade de conhecer em alguma medida as minhas convicções”. Outro membro insistiu com as mesmas razões; ao que respondi “que a convenção não tinha sido convocada para esse fim, que já estávamos reunidos havia tempo suficiente e que Suas Altas Potências, os Estados Gerais, estavam agora aguardando a nossa resolução”. Dessa maneira nos separamos, sem que ninguém tentasse prolongar a conversa. Nem todos os membros da convenção manifestaram concordância conjunta com aquele pedido, nem usaram comigo qualquer tipo de persuasão para provar que tal explicação era, a seu juízo, inteiramente justa. Além disso, segundo as informações mais exatas que obtive depois, alguns dos que estavam então presentes declararam mais tarde “que fazia parte das instruções que lhes haviam sido dadas previamente não entrar em nenhuma conferência sobre doutrina, e que, se surgisse uma discussão desse tipo, teriam de retirar-se imediatamente da convenção”. Essas diversas circunstâncias provam, portanto, que eu estava muito longe de ter sido “solicitado por toda a assembleia” a dar a explicação desejada.

8. Minhas razões para recusar uma conferência

Nobilíssimos e poderosos Senhores, este é o relato verdadeiro daquelas entrevistas e conferências que os irmãos solicitaram, e da minha recusa constante. Por tudo isso, qualquer pessoa pode, a meu ver, perceber claramente que não há motivo algum para me acusar por causa do meu comportamento ao longo desses episódios, sobretudo se considerar o pedido deles e o modo como foi feito e, ao mesmo tempo, a minha recusa e as razões que a sustentam; mas isso fica ainda mais evidente pela minha contraproposta.

1. O pedido deles, que equivalia a exigir de mim uma declaração em matéria de fé, não se apoiava em razão alguma, tanto quanto me é dado julgar. Pois nunca dei a ninguém motivo para exigir de mim tal declaração, e não de outras pessoas, por ter ensinado algo contrário à palavra de Deus ou à Confissão e ao Catecismo das igrejas belgas. Em tempo algum deixei de fazer essa afirmação, e a repito nesta ocasião. Estou também disposto a consentir que se abra um inquérito sobre esta minha profissão, seja por um Sínodo Provincial, seja por um Sínodo Nacional, para que sua verdade se torne, por esse meio, ainda mais manifesta, se se julgar possível tirar algum proveito de tal exame.

2. O modo como o pedido foi feito revelou-se, por si só, obstáculo suficiente, porque foi apresentado abertamente por uma delegação. Fui também muito prejudicado pela maneira como o Sínodo prejulgou a minha causa, pois podemos presumir que ele não convidaria ninguém para uma conferência por meio de seus deputados, a menos que essa pessoa tivesse dado fortes motivos para tal encontro. Por essa razão, não me considerei livre para consentir numa conferência desse tipo, para não confessar, por esse mesmo ato e aparentemente por consciência de culpa, que eu havia ensinado algo errado ou ilícito.

3. As razões da minha recusa foram estas:

Primeira. Como não estou sujeito à jurisdição do Sínodo da Holanda do Norte nem à do Sínodo da Holanda do Sul, mas tenho outros superiores a quem devo prestar contas de todos os meus assuntos, eu não podia consentir numa conferência com deputados a não ser por conselho desses superiores e por sua ordem expressa, sobretudo porque uma conferência desse tipo não me cabia como parte do exercício ordinário do meu dever. Além disso, os deputados deram a entender, de modo nada obscuro, que a conferência [de 1605] de modo algum seria particular; e isso eles mostraram de forma bastante inteligível quando se recusaram a entrar numa conferência comigo despidos do seu título de “deputados”. Eu teria, portanto, faltado à obediência aos meus superiores se não tivesse rejeitado uma conferência proposta dessa maneira. Gostaria que os irmãos se lembrassem deste fato: embora cada um de nossos ministros esteja sujeito, como membro, à jurisdição do sínodo particular a que pertence, nenhum deles até hoje ousou entrar numa conferência sem o conselho e a permissão dos magistrados sob cuja autoridade está colocado; nenhum magistrado local jamais permitiu que algum ministro de sua jurisdição empreendesse uma conferência com os deputados das igrejas sem ter ele mesmo dado antes o seu consentimento; e muitas vezes os magistrados desejaram estar presentes a tal conferência, na pessoa de seus próprios deputados. Lembre-se o que aconteceu em Leiden, no caso de Coolhasius [Koolhaes], em Gouda com Herman Herberts, em Hoorn no caso de Cornelius Wiggeri [Wiggerston] e em Medemblik no caso de Tako [Sybrants].

A segunda razão que me dissuadiu de uma conferência é esta: percebi que haveria grande desigualdade na conferência proposta, quando, ao contrário, é necessário que exista a maior igualdade entre as partes que vão conferenciar sobre qualquer assunto. Pois (1.) eles vieram ter comigo armados de autoridade pública, ao passo que, quanto a mim, tudo tinha caráter particular. E não sou tão ignorante nessas coisas que não perceba o poderoso apoio de que goza quem trata qualquer assunto sob a sanção da autoridade pública. (2.) Eles eram três, e traziam consigo dois deputados do Sínodo da Holanda do Norte. Eu, por outro lado, estava sozinho, desprovido não só de toda ajuda, mas também de pessoas que pudessem servir de testemunhas dos trabalhos que então se iniciariam, e a quem tanto eles quanto eu pudéssemos confiar com segurança as nossas respectivas causas. (3.) Eles não eram pessoas que dispunham de si mesmas, mas eram obrigados a depender do juízo de seus superiores; e estavam obrigados a defender com toda a tenacidade aquelas convicções religiosas que seus superiores haviam decidido em seu íntimo sustentar. A tal ponto se estendia esse princípio que eles nem sequer ficavam livres para admitir, a seu critério, a validade dos argumentos que eu pudesse apresentar, por mais convincentes e fortes que os achassem, e ainda que fossem absolutamente irrespondíveis. Por essas considerações, eu não via por que meio ambas as partes poderiam obter aquele proveito mútuo que deveria propriamente resultar de tal conferência. Eu poderia ter tirado dela algum resultado benéfico, porque estava inteiramente livre e, servindo-me apenas da minha própria consciência para formar uma decisão, poderia, sem prejuízo para ninguém, ter feito as concessões que a minha convicção da verdade me ditasse como corretas. A grande importância que esta última circunstância podia ter, Vossas Senhorias a teriam descoberto por experiência, da forma mais completa,, se algum de vós tivesse estado presente na Convenção Preparatória como representante do vosso augusto corpo.

Minha terceira razão é que o relato que eles fariam aos seus superiores depois da conferência não poderia deixar de me prejudicar de muitas maneiras, quer eu estivesse ausente, quer presente no momento em que apresentassem o seu relatório. (1.) Se eu estivesse ausente, poderia facilmente acontecer que, pela omissão ou pelo acréscimo de certas palavras, ou pela alteração de outras quanto ao sentido ou à ordem, algum fato ou argumento fosse repetido de maneira muito diferente daquela em que realmente ocorreu. Tal relato errôneo poderia também ser feito pela irreflexão que nasce de uma deficiência do entendimento, pela fraqueza de uma memória imperfeita ou por um preconceito dos afetos. (2.) E, na verdade, com a minha presença, dificilmente eu poderia ter evitado ou corrigido esse inconveniente, porque se daria mais crédito aos seus próprios deputados do que a mim, que era apenas um particular.

Por último. Por esse meio, eu teria conferido àquela assembleia [o Sínodo Provincial] um direito e uma espécie de prerrogativa sobre mim, que, em relação a mim, ela de fato não possui; e que, de modo coerente com o ofício cujos deveres desempenho, eu não poderia transferir ao Sínodo sem manifesta injustiça para com aquelas pessoas sob cuja jurisdição aprouve à magistratura geral do país colocar-me. Uma necessidade imperiosa, portanto, bem como a equidade, exigiam de mim que rejeitasse os termos em que essa conferência era oferecida.

4. Mas, por mais fortes que fossem as minhas convicções sobre esse assunto, dei a esses deputados a oportunidade de obter a informação que desejavam. Se tivessem querido aceitar a conferência particular que propus, teriam tomado conhecimento de minhas convicções sobre cada artigo da fé cristã. Além disso, essa conferência teria sido muito mais adequada para promover a nossa edificação e instrução mútuas do que poderia ser uma conferência pública, porque nas conferências particulares é costume que cada um fale tudo com maior familiaridade e liberdade do que quando se observam todas as formalidades das delegações, se assim posso me expressar. Nem tinham eles o menor motivo para mostrar relutância nesse ponto, porque cada um deles estava livre (se quisesse) para entrar numa conferência particular apenas entre ele e mim. Mas, quando fiz essa oferta a todos e a cada um deles, acrescentei, como uma de minhas condições mais especiais, que quaisquer que fossem as discussões surgidas entre nós, elas ficariam guardadas em nosso peito, e nenhuma partícula delas seria divulgada a pessoa viva alguma. Se, nesses termos, eles tivessem consentido em realizar uma conferência comigo, não tenho a menor dúvida de que, ou teríamos dado um ao outro plena satisfação, ou ao menos teríamos deixado claro que da nossa controvérsia mútua não poderia surgir facilmente nenhum perigo iminente capaz de ferir a verdade necessária à salvação, a piedade ou a paz e a amizade cristãs.

9. A queixa sobre a minha recusa em fazer uma declaração de minhas convicções não concorda com os boatos a meu respeito que circulam em geral

Mas, deixando de lado qualquer outra menção a esses episódios, não consigo entender de modo inteiramente satisfatório por que artifício estas duas queixas parecem compatíveis entre si: (1.) que eu me recuso a fazer profissão de minhas convicções; e, no entanto, (2.) lançam-se contra mim invectivas, tanto no estrangeiro como em casa, como se eu estivesse tentando introduzir na Igreja e na religião cristã doutrinas novas, impuras e falsas. Se não professo abertamente as minhas convicções, de onde se pode tornar evidente a tendência nociva delas? Se não me explico, por que método posso estar introduzindo doutrinas falsas? Se o que se levanta contra mim são meras suspeitas sem fundamento, é contrário à caridade dar-lhes acolhida, ou pelo menos atribuir-lhes tão grande importância.

Mas lança-se contra mim a censura de “que, é verdade, revelo algumas de minhas opiniões, mas não todas; e que, pelas poucas que dou a conhecer, o objetivo a que viso já não é obscuro, mas se torna muito evidente”.

Em relação a essa censura, a grande questão deveria ser: “pode-se provar que alguma das convicções que, segundo dizem, revelei está em contradição com a palavra de Deus ou com a Confissão das igrejas belgas?” (1.) Se se decidir que são contrárias à Confissão, então estive ensinando algo em oposição a um documento contra o qual “nunca propor doutrina alguma” foi a promessa fiel que fiz quando o assinei de próprio punho. Se, portanto, eu for achado culpado nisso, devo receber o castigo merecido. (2.) Mas, se se puder provar que alguma dessas opiniões é contrária à palavra de Deus, então devo incorrer em maior censura e sofrer castigo mais severo, e ser obrigado a fazer retratação ou a renunciar ao meu cargo, sobretudo se aqueles pontos de doutrina que expressei forem de tal natureza que sejam notoriamente prejudiciais à honra de Deus e à salvação dos homens. (3.) Mas, se aquelas poucas convicções que me acusam de ter apresentado se mostrarem não estar em desacordo nem com a palavra de Deus nem com a Confissão que acabo de mencionar, então as consequências que delas se tiram, ou que parecem depender delas, não podem de modo algum ser contrárias nem à palavra de Deus nem à Confissão Belga. Pois, segundo a regra dos escolásticos, “se os corolários ou consequências de uma doutrina são falsos, segue-se necessariamente que a própria doutrina também é falsa, e vice-versa”. Por isso, um destes dois caminhos deveria ter sido seguido em relação a mim: ou abrir um processo contra mim, ou não dar crédito algum àqueles boatos. Se eu pudesse escolher, o segundo caminho é o que eu teria desejado; mas o primeiro não me causa medo algum. Pois, por mais amplamente e em todas as direções que aqueles Trinta e Um Artigos que me dizem respeito tenham sido espalhados, para meu grande prejuízo e descrédito, e embora tenham sido postos nas mãos de vários homens de grande destaque, eles dão suficiente testemunho interno, pela falta de sentido e de outros requisitos visível na sua própria redação, de que me são imputados com total desprezo pela justiça, pela honra e pela consciência.

10. As principais razões pelas quais não ousei revelar aos deputados minhas opiniões em matéria de religião

Mas talvez alguém diga: “para evitar essas perturbações, e em parte para dar com tal medida alguma satisfação a grande número de ministros, o senhor sem dúvida poderia ter feito aos seus irmãos uma declaração aberta e simples de suas convicções sobre toda a matéria da religião, seja para ser o senhor mesmo instruído com maturidade em princípios mais corretos, seja para que eles pudessem preparar-se oportunamente para uma conferência mútua”.

Mas fui dissuadido de adotar esse método por causa de três inconvenientes que eu temia:

Primeiro. Eu temia que, se tivesse feito profissão de minhas convicções, a consequência seria que outros passariam a investigar de que modo se poderia montar um processo contra mim a partir dessas premissas. Segundo. Outro motivo do meu temor era que tal exposição de minhas opiniões forneceria matéria para discussão e refutação nos púlpitos das igrejas e nos exercícios escolásticos das universidades. Terceiro. Eu temia também que minhas opiniões fossem enviadas a universidades e igrejas estrangeiras, na esperança de obter delas uma sentença de condenação e os meios de me oprimir.” Que eu tinha razões muito sérias para temer todas essas consequências ao mesmo tempo, não me seria difícil demonstrar claramente pelos Trinta e Um Artigos e pelos escritos de certas pessoas.

Quanto à “instrução e edificação pessoal” que eu poderia ter esperado tirar de tal revelação, é preciso considerar que não só eu, mas muitos outros, e até eles mesmos, têm opiniões próprias que formaram sobre temas religiosos; e que, portanto, tal instrução não pode ser aplicada a nenhum fim útil, a não ser em algum lugar em que todos possamos futuramente comparecer juntos, e onde uma sentença definitiva, como se diz, possa e deva ser pronunciada. Quanto à “preparação oportuna e proveitosa que meus irmãos deveriam ir fazendo, enquanto isso, para uma conferência”, declaro que ela será sumamente oportuna e apropriada no momento em que todos tiverem apresentado seus pontos de vista e os tiverem exposto diante de uma assembleia inteira, para que assim se possa tomar conhecimento de todos de uma só vez e considerá-los em conjunto.

Como nenhuma dessas objeções tem lugar nesta augusta assembleia, passo à declaração de minhas convicções

Tendo assim refutado todas as objeções que foram feitas contra mim, procurarei agora cumprir a minha promessa e executar as ordens que Vossas Senhorias houveram por bem me impor. Tenho a confiante persuasão de que nenhum preconceito será criado contra mim ou contra as minhas convicções por este ato, por mais imperfeitamente que eu o realize, porque ele tem origem naquela obediência que devo a esta nobre assembleia, depois de Deus e segundo a vontade divina.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de James Nichols, The Works of James Arminius, vol. 1 (Londres, 1825), domínio público. Armínio leu a Declaração em holandês, em 1608. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.