Ensino · Teologia

A Teologia de Charles Wesley

Uma teologia que primeiro se cantou. Doutrina da Trindade, da encarnação, da cruz, da graça e da esperança, colhida inteira dos hinos, das cartas e do diário do próprio Charles Wesley (1707–1788), com cada citação ligada ao trecho exato da obra.

Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil

Há um modo de fazer teologia que não começa na cátedra, e sim no canto. Charles Wesley quase nunca escreveu um tratado; escreveu perto de seis mil hinos, um diário e centenas de cartas. Mas quem os lê com atenção descobre ali uma doutrina inteira, ordenada e coerente: a Trindade, a pessoa de Cristo, a expiação, a graça, a santificação, a Igreja e a esperança final. O que segue é uma tentativa de reunir, de forma sistemática, aquilo que Charles cantou de modo disperso, deixando que ele mesmo fale. Cada frase entre aspas com um link leva o leitor diretamente ao verso ou à página em que ela aparece nas obras já publicadas neste site.

Três perguntas guiam quem se aproxima desse material. A primeira: pode um hino ser fonte de teologia, ou é só devoção emocionada? A segunda: qual é, afinal, o centro do pensamento de Charles, o eixo em torno do qual tudo o mais se organiza? A terceira, mais pastoral: o que essa teologia cantada tem a dizer a quem hoje procura crer, e não apenas admirar? As seções abaixo respondem a essas perguntas na ordem em que a própria fé costuma amadurecer, do conhecimento de Deus à esperança do fim.

1. O Deus Triúno que é amor+

Toda teologia decide cedo quem é o Deus de quem fala, e essa decisão condiciona tudo o que vem depois. Charles Wesley herdou da Igreja da Inglaterra a fé trinitária dos concílios antigos, e a professou sem hesitar: um só Deus, Um em Três, e Três em Um, adorado na unidade da essência e na distinção das pessoas (Mt 28.19). Não é para ele um enigma a resolver, e sim a plenitude de vida em comunhão que a criatura é convidada a contemplar e, por fim, a partilhar.

O que distingue o Deus de Charles, porém, não é primeiro a metafísica, e sim o caráter. Contra toda representação de um Deus severo, calculista, avaro de misericórdia, ele canta um Deus cuja definição é o amor: Deus não é ódio, mas Deus é amor (1Jo 4.8). E esse amor não é conclusão de silogismo, é experiência da alma: Deus é amor, eu sei, eu sinto. Aqui já se anuncia o método de toda a sua teologia. A verdade sobre Deus se conhece adorando, e o que se canta com o coração inteiro é o que de fato se crê.

Desse Deus que é amor decorre uma convicção que Charles defenderá a vida toda: o amor de Deus alcança a todos, porque cada pecador é, nas suas palavras, alguém amado com um amor eterno (Jr 31.3). É a raiz do seu arminianismo, e o tema da próxima seção.

2. A graça para todos, contra o “decreto horrível”+

No século XVIII, a grande divisão entre os evangélicos ingleses não era sobre a autoridade da Bíblia nem sobre a necessidade da conversão, pontos em que concordavam. Era sobre o alcance da graça. Os calvinistas, com Whitefield à frente, ensinavam que Cristo morreu apenas pelos eleitos, escolhidos por decreto eterno; os demais estariam desde sempre destinados à perdição. Charles, com o irmão John, tomou o lado oposto, e o fez cantando.

Sua resposta poética à dupla predestinação é uma das mais veementes que a língua inglesa produziu. Ele chama o decreto da reprovação eterna pelo nome com que a tradição arminiana o marcou, o decreto que confunde o decreto horrível, porque lhe parecia impossível conciliar um Deus que é amor com a ideia de que ele teria criado multidões já condenadas. Contra isso, Charles proclama que Cristo morreu por todos (Rm 5.18–19, 2Co 5.14–15).

Aqui é preciso ouvir Charles com precisão, para não o fazer dizer o que ele não diz. A universalidade que ele canta é a da oferta e a do preço: não há ninguém por quem Cristo não tenha morrido, e por isso o convite do evangelho pode ser dirigido a qualquer pessoa, sem exceção. Isso não é o mesmo que afirmar que todos serão de fato salvos. Para Charles, como para o Novo Testamento, a redenção conquistada por Cristo se recebe pela fé (Ef 2.8, Jo 3.16). O amor é universal na intenção e no alcance da provisão; a salvação se consuma onde há fé. Essa distinção, longe de enfraquecer o evangelho, é o que permite pregá-lo a todos com sinceridade absoluta.

3. O Filho: o Deus que se fez homem+

Se Deus é amor, a encarnação é o lugar onde esse amor se torna visível e tocável. Nenhum tema arranca de Charles imagens mais ousadas. Ele contempla o Infinito assumindo os limites de um corpo de criança e pergunta, maravilhado, como pode o Imenso ficar reduzido a um palmo (Jo 1.14, Fp 2.6–7). A força da imagem está no contraste: aquele que sustenta o universo se deixa conter numa manjedoura.

Dessa contemplação nasce a afirmação mais audaz de toda a poesia de Charles, e também a mais teologicamente carregada. Firmado na antiga doutrina da comunhão das propriedades, pela qual o que se diz da humanidade de Cristo se pode dizer da sua única pessoa divina, ele ousa cantar a morte de Deus: pergunta a si mesmo por que teme, se Deus morreu para comprar-me (At 20.28). Não é descuido nem exagero devoto. É a confissão de Calcedônia levada ao canto: na cruz, quem padece é o próprio Filho de Deus encarnado, e por isso aquela morte tem valor infinito.

Compreende-se então por que a expiação ocupa em Charles o centro que ocupa. Se foi Deus mesmo, em nossa carne, quem se ofereceu, então a cruz não é um episódio triste de uma vida boa, e sim o ato em que a Trindade resolve, dentro da história, o problema do pecado.

4. A cruz: o Cordeiro imolado por nós+

Pergunte-se a qualquer leitor dos hinos de Charles qual a figura que mais se repete, e a resposta será o Cordeiro. A cruz é, para ele, o coração pulsante de toda a fé, e a imagem do Cordeiro pascal e sacrificial (Ap 5.6, Is 53) lhe dá a linguagem. Ele adora o Cordeiro de Deus, imolado pelos pecadores, e faz dessa imolação o fundamento de toda a segurança do crente.

É nos Hinos para a Ceia do Senhor que essa teologia da cruz atinge a sua expressão mais concentrada, porque ali a expiação se torna presente e comunicável. Charles põe na boca do próprio Salvador as palavras do sangue derramado por vós e por toda a raça pecadora, e canta o Cordeiro que paga a minha dívida com sangue (1Pe 1.18–19, Cl 2.14). Repare-se de novo na amplitude, “toda a raça”, e de novo na condição implícita, “por vós”: o sacrifício basta para o mundo e se aplica a quem, pela fé, o recebe como seu.

Essa é a teologia da expiação que sustenta tudo o mais. Não um Deus a ser aplacado por um terceiro, mas o próprio Deus, no Filho, tomando sobre si a dívida que não contraiu. A cruz, em Charles, nunca é doutrina fria: é o lugar onde o pecador descobre, com espanto, que foi amado até o extremo (Jo 13.1).

5. O Espírito e a segurança da fé+

Uma expiação realizada fora de nós precisa tornar-se, de algum modo, realidade dentro de nós; do contrário permanece notícia distante. É a obra do Espírito Santo, e é aqui que a teologia de Charles se distingue da mera ortodoxia repetida sem calor. Ele pede ao Espírito que faça no coração o que Cristo fez na cruz: apõe o teu selo em que sou dele (Ef 1.13), e reconhece que é ali, no íntimo, que Deus dá o seu testemunho verdadeiro (Rm 8.16).

Essa é a doutrina wesleyana da segurança, o testemunho do Espírito com o nosso espírito de que somos filhos de Deus. Não se trata de exaltação passageira nem de presunção; trata-se da certeza serena, dada pelo próprio Espírito, de que a promessa vale para mim. Por isso Charles invoca sem cansar: Vem, Espírito Santo (Jo 14.16–17). O Deus que é amor não permanece objeto de estudo; ele se dá a conhecer por dentro.

Convém guardar aqui um equilíbrio que o próprio Charles guardava. O testemunho do Espírito não dispensa os frutos que o confirmam (Gl 5.22–23); a certeza verdadeira se reconhece pela vida transformada, não pela intensidade do sentimento. A segurança da fé e a santidade caminham juntas, como se verá.

6. A conversão e a nova criação+

Charles não pregou uma teologia que não tivesse primeiro atravessado. No domingo de Pentecostes de 1738, poucos dias antes da experiência mais conhecida do irmão John, ele registrou no diário o instante em que a doutrina virou vida. As palavras são sóbrias e por isso mesmo comoventes: encontrei-me em paz com Deus, e me alegrei na esperança de amar a Cristo (Rm 5.1).

Dessa experiência nasceu o hino que talvez melhor resuma o evangelho de Charles. Diante do amor que morre pelo próprio inimigo, ele exclama a pergunta atônita, se é possível que eu alcance interesse no sangue do Salvador, e descreve a libertação em imagem que ficou célebre: minhas cadeias caíram, o meu coração ficou livre (At 12.7, Rm 6.6). A conversão, para Charles, não é reforma de costumes; é ressurreição, nova criação chamada à existência pela palavra do Criador (2Co 5.17).

Note-se a ordem, que é a ordem do próprio evangelho. Primeiro a graça que perdoa e reconcilia; depois, sobre esse fundamento, a vida nova. Charles nunca inverte os termos. Não se torna filho quem primeiro se aperfeiçoa; aperfeiçoa-se, no amor, quem já foi feito filho pela fé.

7. A santificação: a perfeição no amor+

Chegamos ao tema mais caracteristicamente wesleyano, e também ao mais mal compreendido. Quando Charles canta a perfeição cristã, muitos ouvidos entendem “impecabilidade”, uma pretensão de já não ter falhas, e recuam com razão. Mas não é isso o que ele diz. A perfeição que ele implora não é ausência de fraqueza nem infalibilidade de juízo; é a plenitude do amor, o coração de tal modo tomado por Deus que já não reina nele outro senhor.

Por isso o seu pedido constante não é “torna-me perfeito” no sentido moral raso, e sim tira de mim o poder de pecar, que a Escritura promete a quem permanece em Cristo (1Jo 3.9, Rm 6.14). E o alvo dessa obra é positivo, não apenas a remoção do mal: que Deus se digne coroar os seus dons com o dom maior, o amor perfeito que lança fora o medo (1Jo 4.18). É a plena redenção, obra da graça e não da vontade esforçada, recebida como se recebeu o perdão: pela fé.

Essa doutrina, longe de gerar orgulho, gera fome. Quem canta com Charles a profundidade do amor divino (Rm 11.33) percebe que jamais a esgotará, e por isso avança. A perfeição cristã não é um platô onde se descansa; é um oceano em que se entra e no qual sempre há mais adentro. A santidade wesleyana é isto: não a vaidade de ter chegado, e sim a paixão de amar sem reservas Aquele que primeiro nos amou.

8. A Igreja, a Ceia e a unidade+

A fé de Charles nunca foi solitária. Ele viveu e morreu clérigo da Igreja da Inglaterra, e nutriu por ela uma fidelidade que às vezes o pôs em tensão com o próprio movimento metodista que ajudara a criar. Onde John, por fim, admitiu passos que abriam caminho à separação, Charles resistiu até o fim. Nas cartas o seu clamor é inequívoco: Que Deus aumente o horror que me deu de uma separação, e a sua oração pelos irmãos é a oração sacerdotal do próprio Cristo, que sejamos todos um, e aperfeiçoados na unidade (Jo 17.21–23).

No centro dessa vida eclesial está a Ceia do Senhor, à qual Charles dedicou uma coleção inteira, a mais rica meditação eucarística já escrita em verso na tradição protestante. Para ele a Ceia não é lembrança vazia nem repetição do sacrifício, e sim o memorial vivo em que o único sacrifício da cruz se torna presente e se aplica ao fiel. Ali o sangue que foi derramado “por toda a raça pecadora” se oferece a cada comungante, e a mesa se faz penhor: aquilo que os hinos chamam arras do amor e penhor do céu (Ef 1.14). O sacramento é, ao mesmo tempo, olhar para trás, para a cruz, e olhar para diante, para o banquete das bodas.

Há nisso uma lição para a Igreja de hoje. A unidade, para Charles, não é estratégia nem diplomacia; é obediência ao desejo de Cristo e fruto da mesma mesa partilhada. Uma Igreja que come do mesmo Cordeiro não tem título para dividir-se por menos do que a verdade.

9. A esperança: o antegozo e a consumação+

Toda a teologia de Charles está inclinada para diante, para a consumação de tudo em Deus. Mas a sua esperança não começa no além; começa já aqui, como primícia. O crente que prova o amor de Deus recebe desde agora um adiantamento do céu, abençoado com este antegozo do céu (Ef 1.14, Rm 8.23). O que a Ceia sela e o Espírito garante é isto: a glória futura não é salto no escuro, e sim a plenitude daquilo cujo primeiro gosto o fiel já conhece.

Sobre as questões finais, Charles canta com mais reverência do que sistema, e é sábio segui-lo nesse ponto. A Escritura afirma com clareza a ressurreição dos mortos, o juízo justo de Deus e a vida eterna dos que são de Cristo (1Co 15.51–57, Ap 21.3–4). Sobre a sorte final dos que rejeitam a graça, convém falar com sobriedade: as Escrituras usam tanto a linguagem do tormento quanto a da destruição, e o mais seguro é sustentar a certeza do juízo justo, proporcional à culpa, sem transformar em dogma aquilo que o texto deixa em parte velado. O que não se pode fazer, em nome de Charles ou de qualquer outro, é dissolver o juízo num universalismo que prometa a salvação de todos à revelia da fé. O amor que se oferece a todos é o mesmo amor que respeita a recusa e que salva a quem crê (Mc 16.16).

É essa esperança, e não o medo, que dá o tom final. A última palavra de Charles não é sobre o inferno, e sim sobre o céu do amor consumado, as bodas do Cordeiro (Ap 19.7–9) para as quais toda a sua obra é um longo convite. A morte, para quem assim crê, deixa de ser precipício e passa a ser porta.

10. Conclusão: a doutrina que virou vida+

Volto às três perguntas do início. Pode um hino ser fonte de teologia? A obra de Charles Wesley responde que sim, e de que maneira. O que nele se canta não é sentimento à procura de doutrina, e sim doutrina que encontrou a sua forma mais fiel, porque o que se ama de fato é o que se põe em música. A Trindade, a encarnação, a expiação universal, a segurança pela fé, a perfeição no amor, a Ceia, a unidade, a esperança: está tudo ali, ordenado, ainda que disperso em milhares de estrofes.

Qual é o centro? Depois de percorrer o conjunto, a resposta impõe-se: o amor de Deus revelado e comunicado em Jesus Cristo crucificado. Dele parte tudo, a ele tudo retorna. O arminianismo de Charles, a sua doutrina da segurança, a sua paixão pela santidade, o seu apego à Igreja e à Ceia, a sua esperança, nada disso é peça avulsa; tudo é desdobramento da convicção de que “Deus é amor” e de que esse amor foi ao extremo da cruz por cada pecador. Minha posição, como pastor e professor, é que essa é também a espinha dorsal do evangelho, e que a tradição wesleyana presta um serviço à Igreja inteira quando a guarda: a graça é para todos, mas se recebe pela fé; a santidade é possível, mas é dom, não conquista; a segurança é real, mas anda com a obediência.

E o que diz isso a quem hoje procura crer? Que a distância entre a doutrina e a vida é menor do que parece. Charles não separou as duas: a paz que registrou no diário em 1738 é a mesma que cantou nos hinos e defendeu nas cartas. A teologia dele convida não a admirar de longe, mas a entrar, provar o antegozo, e deixar-se conduzir, pela graça e pela fé, ao amor que não terá fim.

Bispo Ildo Mello

As fontes desta teologia

Tudo o que se afirma acima está apoiado nas obras de Charles Wesley já traduzidas e publicadas neste site. Cada citação leva ao trecho exato:

Tradução das obras de Charles Wesley realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.