Evangelho de MarcosAula 12

A Ressurreição e o Envio

“Ele ressuscitou! Ele não está aqui.”Marcos 16.6 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Mc 16; 1Co 15.1-11; Jo 21.15-19

Para começar

As perguntas que nos guiam

O capítulo mais curto do curso carrega a notícia que muda tudo. Três perguntas para o último degrau da escola.

1

Quem viu primeiro?

As primeiras testemunhas e mensageiras da ressurreição não foram os apóstolos. Isso significa algo.

2

Por que “e a Pedro”?

O anjo mandou um recado com endereço. Duas palavras que restauram um discípulo caído.

3

O que fazemos agora?

O curso começou com “Venham comigo”. Termina com “Vão por todo o mundo”. O círculo se fecha em nós.

Mc 16.1-8

O túmulo vazio: “Ele ressuscitou!”

“Passado o sábado”, três mulheres madrugam com aromas para ungir um corpo — e encontram a pedra removida e o túmulo aberto.

Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé saem “muito cedo, no primeiro dia da semana, ao nascer do sol” (Mc 16.1-2). No caminho, a preocupação prática: “Quem removerá para nós a pedra?” (Mc 16.3) — e Deus já havia resolvido o problema antes de elas chegarem, como tantas vezes resolve os nossos. Dentro do sepulcro, um jovem vestido de branco anuncia o evangelho em três frases: “Não se assustem. Vocês procuram Jesus, o Nazareno, que foi crucificado. Ele ressuscitou! Ele não está aqui. Vejam o lugar onde o tinham posto” (Mc 16.6). O anúncio une as duas coisas que a fé cristã jamais separa: o crucificado é o ressuscitado — a cruz não foi anulada pela Páscoa; foi vindicada por ela (Rm 4.25; 1Co 15.3-4).

E note quem recebe a primeira missão da nova era: “Mas vão e digam aos discípulos dele e a Pedro que ele vai adiante de vocês para a Galileia” (Mc 16.7). Num tempo em que o testemunho de mulheres nem era aceito nos tribunais, Deus as escolheu como primeiras testemunhas e primeiras mensageiras da ressurreição — as apóstolas dos apóstolos, como a igreja antiga carinhosamente as chamou. Não é acaso: elas ficaram na cruz (Mc 15.40-41), acompanharam o sepultamento (Mc 15.47) e madrugaram no túmulo; a honra seguiu a fidelidade. Ao longo de todo o curso vimos as mulheres sendo erguidas por Jesus e enxergando antes dos videntes — a sogra de Pedro levantada, a hemorrágica chamada de filha, a sírio-fenícia vencedora do único debate, a viúva do maior tesouro, a mulher de Betânia que entendeu a cruz. Aqui, a coroa: o próprio Deus lhes confiou a primeira pregação do evangelho pleno. Viva a graça que honra os fiéis pequenos!

“E a Pedro.” Duas palavras que valem um tratado sobre a graça. O último registro de Pedro no livro era um homem chorando após negar três vezes (Mc 14.72). O Ressuscitado não o riscou da lista: mandou-lhe recado nominal, marcou encontro na Galileia — onde tudo começou — e o restaurou (Jo 21.15-17), a ponto de Pedro se tornar o pregador de Pentecostes (At 2.14-41) e a fonte deste Evangelho. Se você caiu, o recado tem o seu nome também: a queda não cancela o chamado de quem se arrepende e volta (1Jo 1.9).

Marcos anota, com honestidade de testemunha, a primeira reação delas: saíram fugindo, “tomadas de temor e de assombro”, e por um tempo “nada disseram a ninguém, porque estavam com medo” (Mc 16.8) — medo santo diante do inaudito, que logo se converteu em anúncio, pois os demais Evangelhos mostram que elas foram, sim, contar (Mt 28.8; Lc 24.9-10; Jo 20.18). O evangelho não esconde a fragilidade das suas testemunhas; e é exatamente isso que as torna críveis.

Registro especial

As mulheres no Evangelho de Marcos

As mulheres receberam um tratamento todo especial no Evangelho de Marcos. Antes de encerrar o curso, vejamos, reunido num só lugar, o fio que acompanhamos aula a aula.

A primeira pessoa curada foi uma mulher — a sogra de Pedro. E é interessante notar o que o texto diz: Jesus a ergueu (Mc 1.30-31). Jesus se manifestou para desfazer as obras do Diabo (1Jo 3.8): o Diabo derrubou a mulher, mas Jesus veio para levantar a mulher.
Se por uma mulher entrou o pecado no mundo, tornou-se fato também que, por uma mulher, nasceu o Salvador do mundo. E Maria estava entre as mulheres que testemunharam a morte e o sepultamento de Jesus depois que os discípulos fugiram (Mc 15.40-41, 47).
A mulher que sofria de hemorragia demonstrou ser pessoa de fé e de atitude corajosa (Mc 5.27-34) — e é a única pessoa que Jesus chama de “filha” nos Evangelhos.
A mulher sírio-fenícia destaca-se no Evangelho de Marcos como a única pessoa a desafiar com sucesso as palavras de Jesus, mostrando também discernir, antes mesmo dos apóstolos, que o Reino de Deus é destinado a todos, e não apenas aos judeus (Mc 7.24-30).
A viúva pobre teve sua oferta apreciada e destacada por Jesus como a mais importante de todas (Mc 12.41-44).
A mulher de Betânia, que ungiu a Jesus, mostrou reconhecer, antes mesmo dos apóstolos, que Jesus era o Messias e que haveria de morrer (Mc 14.3-9) — e por isso o seu gesto é contado onde quer que o evangelho seja pregado.
As mulheres que seguiam e serviam a Cristo estavam junto à cruz enquanto os discípulos homens haviam fugido (Mc 15.40-41). Elas testemunharam o sepultamento (Mc 15.47) e foram as primeiras a visitar o túmulo — e a encontrá-lo vazio (Mc 16.1-8).
Maria Madalena foi a primeira a ver Jesus ressuscitado e a primeira a proclamar as boas-novas (Mc 16.9-10).

Mc 16.9-20

Uma palavra honesta sobre o final de Marcos

Sua Bíblia provavelmente traz uma nota em Mc 16.9: “alguns dos mais antigos manuscritos não trazem os versículos 9-20”. Não há motivo para susto — há motivo para gratidão pela seriedade com que o texto bíblico chegou até nós.

Os dois manuscritos mais antigos e completos que possuímos encerram o Evangelho no versículo 8, e alguns pais da igreja conheciam cópias assim; por outro lado, a imensa maioria dos manuscritos traz o final longo, citado já no segundo século. Estudiosos fiéis dividem-se: alguns entendem que Marcos terminou propositalmente no assombro do versículo 8, ou que seu final original se perdeu; outros defendem a autenticidade do final longo. Duas âncoras pastorais bastam-nos. Primeira: nenhuma doutrina cristã depende desses versículos — a ressurreição está firmada em Mc 16.1-8 e no restante do Novo Testamento (1Co 15.3-8), e tudo o que o final longo relata tem paralelo nos demais Evangelhos e em Atos. Segunda: o fato de as nossas Bíblias informarem isso em nota é sinal de honestidade, não de fraqueza — o cristianismo não teme a luz sobre seus manuscritos, pois nenhum livro da antiguidade tem transmissão tão fartamente documentada. Podemos ler Mc 16.9-20 com proveito, como a igreja fez por séculos, sabendo o que as notas dizem.

Mc 16.15

O Ide: a moldura se fecha

“Vão por todo o mundo e preguem o evangelho a toda criatura” (Mc 16.15).

Lembre a Aula 1: o Evangelho de Marcos é emoldurado por dois chamados. No primeiro capítulo, “Venham comigo, e eu farei de vocês pescadores de gente” (Mc 1.17); no último, “Vão por todo o mundo” (Mc 16.15). Entre o Vinde e o Ide, o Mestre fez exatamente o que prometeu: tomou pescadores comuns — lerdos para entender, prontos para dormir, capazes de negar — e os transformou, pelo convívio, pela correção paciente e pela cruz, em testemunhas que virariam o mundo de cabeça para baixo (At 17.6). O verbo “farei” de Mc 1.17 se cumpriu. E o Senhor que subiu ao céu e “se assentou à direita de Deus” não abandonou a obra: “eles saíram e pregaram por toda parte, e o Senhor cooperava com eles” (Mc 16.19-20). O Evangelho do Servo termina com o Servo entronizado — e ainda trabalhando com os seus.

O livro não termina de verdade no versículo 20: termina em cada leitor que ouve o Vinde e obedece ao Ide. Marcos escreveu a escola do discipulado — e a matrícula continua aberta.

Síntese do curso

O que Marcos nos ensinou

Doze aulas, dezesseis capítulos, uma escola. Encerro com a minha posição explícita, como prometi na primeira aula.

Quem é Jesus: a tese de Mc 1.1 foi demonstrada — o Filho de Deus é o Servo que serve e dá a vida em resgate por muitos (Mc 10.45), confessado pelo Pai no batismo e no monte, pelo centurião na cruz e pelo túmulo vazio na Páscoa.
O que é discipulado: processo, não evento. Da visão turva do primeiro toque à visão clara do segundo (Mc 8.22-25); do Pedro que confessa e tropeça ao Pedro restaurado do recado nominal (Mc 16.7). Ninguém se forma no dia da matrícula — mas o Mestre completa a obra que começa (Fp 1.6).
Como se entra e como se vive: entra-se de mãos vazias, como criança e como Bartimeu (Mc 10.15, 50-52); vive-se de cruz diária e serviço (Mc 8.34; 10.43-44), com memória dos cestos (Mc 8.19-21), oração de dependência (Mc 9.29) e vigilância de servo no posto (Mc 13.37).
Quem Deus honra: os pequenos fiéis — a viúva das duas moedas, a estrangeira das migalhas, as mulheres da cruz e da madrugada. No Reino do Servo, a grandeza se mede pela toalha, não pelo trono (Mc 9.35).

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

“Digam aos discípulos dele e a Pedro” (Mc 16.7). Que nome você acrescentaria hoje a esse recado — o seu ou o de alguém que caiu e precisa saber que o chamado não foi cancelado?Ver resposta sugerida
O recado do anjo ensina como Deus trata os caídos arrependidos: pelo nome, com endereço de reencontro (“a Galileia”, onde tudo começou) e com futuro (Pedro pregaria em Pentecostes, At 2.14). Se o nome for o seu: a negação de Pedro não foi menor que a sua queda, e o caminho é o mesmo — chorar o pecado (Mc 14.72), voltar ao lugar do primeiro amor e responder três vezes “tu sabes que te amo” (Jo 21.15-17; 1Jo 1.9). Se o nome for de outra pessoa: talvez você seja, nesta semana, o mensageiro — como as mulheres foram. Escreva o nome, ore por ele e leve o recado com mansidão: “o Ressuscitado ainda conta com você”. Igrejas que aprendem a dizer “e a Pedro” tornam-se hospitais de restauração, não tribunais de arquivamento (Gl 6.1).
Um amigo diz: “Descobri que Mc 16.9-20 não está nos manuscritos mais antigos. Então a Bíblia foi adulterada?” Como responder com mansidão?Ver resposta sugerida
Comece pelo fato surpreendente embutido na pergunta: ele só sabe disso porque a própria Bíblia dele informa em nota — editores cristãos publicaram a informação, o que é o oposto de adulteração escondida. Explique o quadro: possuímos milhares de manuscritos do Novo Testamento, muito mais do que de qualquer obra antiga, e é justamente essa abundância que permite comparar cópias e identificar as raras passagens com variação relevante — todas conhecidas, catalogadas e sinalizadas nas edições. Nenhuma doutrina depende delas: a ressurreição está firme em Mc 16.1-8, nos quatro Evangelhos e no credo antiquíssimo de 1Co 15.3-8. A transmissão do texto não foi um telefone sem fio, foi uma rede de cópias abundante e conferível — e a honestidade das notas é evidência da confiabilidade do processo, não contra ela (Lc 1.1-4; 2Pe 1.16).

Para casa e próxima aula

Tarefas

Ler Mc 16 e 1Co 15.1-11, anotando as testemunhas listadas por Paulo; escrever o “recado com nome” para alguém que caiu, e entregá-lo nesta semana; e, encerrando o curso, reler de uma sentada o Evangelho de Marcos inteiro — comparando a sua visão de Cristo de agora com a da Aula 1.

Fim do curso

Você concluiu as doze aulas do Evangelho de Marcos. Do Vinde ao Ide, a escola do Servo continua na vida de cada discípulo. Reveja as aulas quando quiser em Lições →

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. · Bispo Ildo Mello