“Quando será isso?”
A pergunta dos discípulos (Mc 13.4) tinha um alvo concreto: a destruição do templo. A nossa leitura precisa começar por aí.
“O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão.”Marcos 13.31 · NAA
Para começar
Saindo do templo, um discípulo admira as pedras. Jesus responde com uma profecia que deixa quatro homens no monte das Oliveiras com a pergunta que atravessou os séculos.
A pergunta dos discípulos (Mc 13.4) tinha um alvo concreto: a destruição do templo. A nossa leitura precisa começar por aí.
Leitores fiéis da Bíblia respondem de modos diferentes. Vamos pesar os argumentos com equilíbrio.
Jesus não entregou um calendário; entregou uma ordem, repetida como um sino: “Vigiem!”
Nota editorial. A Igreja Metodista Livre não define uma posição sobre o milênio. O Manual afirma que a volta de Cristo é certa e pode acontecer a qualquer momento, e que haverá ressurreição corporal dos justos e dos injustos (§§127-128), sem adotar nenhum dos esquemas milenaristas. A leitura apresentada nesta aula é a do seu autor, o Bispo Ildo Mello. Irmãos que sustentam o pré-milenismo ou o pós-milenismo permanecem em plena comunhão conosco, e a diferença aqui é de interpretação, não de fé.
Mc 13.1-4
“Mestre, olhe que pedras e que construções!” — “Não ficará pedra sobre pedra que não seja derrubada” (Mc 13.1-2).
O templo de Herodes era uma das maravilhas do mundo antigo: pedras colossais, ouro reluzindo ao sol. E Jesus, que acabara de vistoriá-lo e reprová-lo (Mc 11–12), anuncia sua ruína total. Assentado no monte das Oliveiras, defronte do templo, Pedro, Tiago, João e André perguntam em particular: “Dize-nos quando essas coisas acontecerão, e que sinal haverá quando todas elas estiverem para se cumprir” (Mc 13.4). Qualquer leitura honesta do sermão precisa segurar firme esta âncora: a pergunta que Jesus responde é, antes de tudo, sobre a destruição do templo — que de fato aconteceu, à letra, no ano 70 d.C., quando os exércitos romanos arrasaram Jerusalém e o santuário, sem deixar pedra sobre pedra. A profecia mais verificável de Jesus se cumpriu dentro de uma geração, diante da história.
Mc 13.5-13
A primeira palavra do sermão não é um sinal — é um alerta: “Cuidado! Que ninguém os engane” (Mc 13.5).
Falsos cristos, guerras e rumores de guerras, terremotos, fomes: “é necessário que essas coisas aconteçam, mas ainda não é o fim… são o princípio das dores” (Mc 13.7-8). Note a pedagogia: Jesus lista exatamente as coisas que cada geração aponta como prova do fim iminente — e diz que elas, por si, não provam o fim. O que ele garante aos seus, no meio das dores, não é isenção, é assistência: seriam entregues a tribunais e sinagogas, levados perante governadores e reis “por minha causa, para lhes servir de testemunho”; e, quando isso acontecesse, o Espírito Santo lhes daria a palavra na hora (Mc 13.9-11) — promessa que o livro de Atos mostra cumprida repetidas vezes (At 4.8-13; 7.55). No meio do quadro, uma frase de alcance mundial: “é necessário que primeiro o evangelho seja pregado a todas as nações” (Mc 13.10). E o arremate que sustenta mártires desde então: “Aquele que perseverar até o fim será salvo” (Mc 13.13).
Mc 13.14-31
“Quando, porém, vocês virem o abominável da desolação estar onde não deve estar (quem lê, entenda), então os que estiverem na Judeia fujam para os montes” (Mc 13.14).
Aqui os intérpretes fiéis se dividem, e vale apresentar o melhor de cada leitura antes de nos posicionarmos. A leitura que costumo chamar de preterista parcial entende que este trecho central descreve, em linguagem profética, os anos terríveis de 66–70 d.C.: o “abominável” ligado à profanação e ao cerco do templo (Lc 21.20 traduz o sinal como “Jerusalém sitiada por exércitos”), a fuga para os montes — que os cristãos da Judeia de fato praticaram, refugiando-se em Pela, escapando do massacre —, a tribulação local “qual nunca houve” sobre aquela cidade, e detalhes que só fazem sentido naquele cenário: telhados, capas no campo, o inverno, o sábado (Mt 24.20). O forte desta leitura é honrar a pergunta original (Mc 13.4) e a declaração solene de Jesus: “não passará esta geração sem que todas essas coisas aconteçam” (Mc 13.30) — e, de fato, quarenta anos depois, tudo aquilo aconteceu.
A leitura futurista, por sua vez, vê no trecho uma tribulação final que antecede a volta de Cristo, apoiando-se na intensidade universal da linguagem (“qual nunca houve desde o princípio da criação”, Mc 13.19) e no paralelo com 2Ts 2.3-4 e com Daniel (Dn 9.27; 12.1). O forte desta leitura é levar a sério que a história ainda não terminou e que o Novo Testamento aguarda uma apostasia e uma angústia finais. E há quem some as duas, entendendo que o ano 70 foi cumprimento típico e antecipatório de um padrão que se repete e culmina no fim — como tantas profecias bíblicas têm horizonte duplo.
Minha posição, com as cartas na mesa: sou de tradição arminiana-wesleyana e de escatologia amilenista, e leio este bloco central em diálogo com o preterismo parcial: entendo que Mc 13.14-31 fala primariamente do juízo de 70 d.C., o que faz justiça a “esta geração” (Mc 13.30) sem malabarismos — enquanto a vinda gloriosa do Filho do Homem permanece futura. Digo isso sem dogmatismo: cristãos fiéis leem diferente, e nenhuma dessas leituras toca a fé essencial. O que nenhum leitor pode fazer é transformar o sermão em calendário especulativo — exatamente o uso que Jesus proibiu (Mc 13.32).
Mc 13.24-27, 32-37
“Então verão o Filho do Homem vir nas nuvens, com grande poder e glória” (Mc 13.26).
Seja qual for a leitura do bloco central, a esperança da igreja não muda: Cristo virá “nas nuvens, com grande poder e glória” — linguagem de Daniel 7.13-14, onde o Filho do Homem recebe do Ancião de Dias um domínio eterno — e “reunirá os seus escolhidos dos quatro ventos” (Mc 13.27). Esta vinda será pessoal, visível e gloriosa (At 1.11; 1Ts 4.16-17), e com ela vêm a ressurreição, o juízo e a plenitude do Reino. “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão” (Mc 13.31).
E sobre o quando, a declaração mais esquecida da escatologia popular saiu dos lábios do próprio Jesus: “A respeito daquele dia ou daquela hora ninguém sabe; nem os anjos no céu, nem o Filho, senão somente o Pai” (Mc 13.32) — o Filho, em sua humilhação voluntária, abriu mão de exercer esse conhecimento (Fp 2.6-8). Se nem o Filho encarnado divulgou datas, todo vendedor de datas está, por definição, falando o que não sabe. Por isso o sermão não termina com um mapa, termina com uma parábola e uma ordem: o senhor viajou, deixou a casa aos servos, “cada um com o seu trabalho”, e ordenou ao porteiro que vigiasse. “Vigiem, pois, porque vocês não sabem quando o dono da casa virá… E o que digo a vocês, digo a todos: Vigiem!” (Mc 13.34-37).
Fixação
Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.
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Para pensar e conversar
Tarefas
Ler Mc 13 ao lado de Lc 21.20-24, anotando o que Lucas esclarece sobre o sinal da desolação; e escrever num cartão a frase “que ele me encontre servindo”, definindo qual posto de serviço você assumirá com mais fidelidade nesta semana.
Aula 10
A Paixão começa: o perfume de Betânia, a Ceia da nova aliança, o Getsêmani e a noite em que Pedro chorou (Mc 14). Ir para a Aula 10 →
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. · Bispo Ildo Mello