O que falta a quem tem tudo?
Um jovem rico, moral, religioso e simpático saiu triste da presença de Jesus. Por quê?
“Para os seres humanos é impossível, mas não para Deus, porque para Deus tudo é possível.”Marcos 10.27 · NAA
Para começar
Marcos 10 é o capítulo do caminho: casamento, crianças, riqueza, ambição e um cego à beira da estrada. Em cada cena, a mesma pergunta de fundo: o que é seguir a Jesus?
Um jovem rico, moral, religioso e simpático saiu triste da presença de Jesus. Por quê?
Tiago e João pediram os primeiros lugares. A resposta redefiniu grandeza para sempre.
Bartimeu viu o que multidões com olhos sãos não viram — e é o retrato final do discípulo.
Mc 10.1-16
Os fariseus perguntam sobre divórcio querendo testar; Jesus responde apontando para o princípio: “no princípio da criação” (Mc 10.6).
Moisés permitiu a carta de divórcio “por causa da dureza do coração” de vocês (Mc 10.5) — concessão reguladora num mundo caído, não ideal criacional. Jesus volta a Gênesis: Deus os fez homem e mulher; o homem se une à sua mulher e os dois se tornam uma só carne; “portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mc 10.6-9; Gn 1.27; 2.24). Numa cultura em que a mulher podia ser dispensada por trivialidades, a palavra de Jesus é proteção: o casamento não é contrato descartável ao gosto do mais forte, é aliança diante de Deus. O ideal permanece; e onde houve ruptura, o mesmo Senhor que restaurou Pedro restaura lares e recomeços — a igreja deve ser hospital, não tribunal.
Na sequência, trazem crianças a Jesus, e os discípulos as repreendem — os mesmos discípulos que acabaram de ver uma criança no colo do Mestre (Mc 9.36-37). Jesus se indigna: “Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam, porque delas é o Reino de Deus. Em verdade lhes digo: quem não receber o Reino de Deus como uma criança de maneira nenhuma entrará nele” (Mc 10.14-15). E, tomando-as nos braços, as abençoava. A criança não entra no Reino por inocência, mas por dependência: recebe tudo, não paga nada, confia em quem a carrega. Este é o único jeito de entrar.
Mc 10.17-31
Ele veio correndo, ajoelhou-se e fez a pergunta certa à pessoa certa — e mesmo assim saiu triste.
“Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” (Mc 10.17). Jesus primeiro o faz pensar no que disse: “Por que você me chama bom? Ninguém é bom, a não ser um, que é Deus” (Mc 10.18) — não negando a própria bondade, mas obrigando o jovem a decidir quem Jesus é. Depois cita os mandamentos da segunda tábua, e o jovem responde: “Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude” (Mc 10.20). Um homem exemplar. E então Marcos registra o detalhe que muda tudo: “Jesus, olhando para ele, o amou” (Mc 10.21). O diagnóstico que vem a seguir não é dureza; é amor que se recusa a mentir: “Uma coisa lhe falta: vá, venda tudo o que tem, dê aos pobres e você terá um tesouro no céu; depois, venha e siga-me”.
“Ele, porém, contrariado com esta palavra, retirou-se triste, porque era dono de muitas propriedades” (Mc 10.22). A rigor, as propriedades é que eram donas dele. O primeiro mandamento — não terás outros deuses — estava quebrado por baixo da fachada dos demais. Jesus então ensina: “Como é difícil para os ricos entrar no Reino de Deus! É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha” (Mc 10.23-25). Os discípulos, espantados (a riqueza era vista como sinal de bênção), perguntam: “Então quem pode ser salvo?” E a resposta é o evangelho inteiro numa frase: “Para os seres humanos é impossível, mas não para Deus, porque para Deus tudo é possível” (Mc 10.26-27). A salvação não é conquista de bons moços; é milagre da graça — e a graça pede as mãos vazias que o jovem não quis abrir.
Mc 10.32-45
Terceiro anúncio da cruz, o mais detalhado — e, de novo, a resposta dos discípulos é a ambição.
Jesus caminha à frente, resoluto, rumo a Jerusalém, e descreve o que o espera: entregue, condenado, escarnecido, açoitado, morto — “mas, depois de três dias, ressuscitará” (Mc 10.33-34). E Tiago e João escolhem exatamente este momento para pedir: “Permite que, na tua glória, nos assentemos um à tua direita e o outro à tua esquerda” (Mc 10.37). Jesus responde com uma pergunta: “Vocês podem beber o cálice que eu bebo?” — o cálice, nas Escrituras, é a medida de sofrimento e juízo (Sl 75.8; Mc 14.36). Eles, confiantes, dizem que podem; e de fato beberiam do cálice do sofrimento (At 12.2; Ap 1.9), mas os lugares na glória pertencem ao Pai (Mc 10.39-40).
Os dez ficam indignados — provavelmente menos por piedade e mais por terem chegado atrasados ao pedido. E Jesus, então, entrega a carta magna da liderança cristã: “Vocês sabem que os que são considerados governadores dos povos dominam sobre eles… Mas entre vocês não é assim. Pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vocês, que se coloque a serviço dos outros; e quem quiser ser o primeiro entre vocês seja servo de todos. Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10.42-45). O versículo-chave do Evangelho aparece aqui, no lugar exato: onde a ambição dos melhores homens de Jesus mostra que só a cruz cura o coração que quer trono.
Mc 10.46-52
À saída de Jericó, um mendigo cego fecha a seção do caminho — e fecha a moldura aberta em Betsaida (Mc 8.22-26).
Bartimeu, filho de Timeu, estava assentado à beira do caminho, mendigando (Mc 10.46). Ouvindo que era Jesus, o Nazareno, começou a clamar: “Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim!” (Mc 10.47). Repare no título: Filho de Davi — confissão messiânica aberta (2Sm 7.12-16; Is 11.1). O cego enxergou o que os videntes de Jerusalém se recusavam a ver. Muitos o repreendiam para que se calasse; ele, porém, “clamava ainda mais” (Mc 10.48). A fé de Bartimeu venceu o obstáculo da multidão — a mesma multidão que deveria tê-lo levado a Jesus tentou silenciá-lo, como os discípulos com as crianças. Quantos ficaram sem Cristo porque a igreja atrapalhou o caminho?
Jesus para. O Filho de Deus, a caminho da cruz que salvaria o mundo, para ao som de um mendigo. “Chamem-no.” E Bartimeu, “lançando de si a capa, levantou-se de um salto e foi até Jesus” (Mc 10.50) — a capa era o seu bem de mendigo, estendida no chão para recolher moedas; ele a deixa para trás sem olhar, o oposto exato do jovem rico, que não largou as propriedades. Então a pergunta preciosa: “O que você quer que eu faça por você?” (Mc 10.51) — a mesma feita a Tiago e João (Mc 10.36). Eles pediram tronos; o cego pediu visão: “Mestre, que eu volte a ver”. “Pode ir; a sua fé o salvou. E imediatamente ele recuperou a visão e seguia Jesus pelo caminho” (Mc 10.52).
O verbo final é o retrato acabado do discípulo: não voltou para Jericó — “seguia Jesus pelo caminho”. E o caminho, neste ponto do Evangelho, sobe para Jerusalém, para a cruz. A seção que começou com um cego que precisou de dois toques termina com um cego que, ao primeiro toque, viu tudo e seguiu. A escola de Jesus funciona.
Fixação
Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.
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Para pensar e conversar
Tarefas
Ler Mc 10 e escrever o contraste, em duas colunas, entre o jovem rico e Bartimeu (o que cada um tinha, o que pediu, o que largou, como saiu); e responder por escrito à pergunta de Jesus: “O que você quer que eu faça por você?” — com o pedido mais honesto que tiver.
Aula 8
A chegada a Jerusalém: a entrada do Rei manso, a figueira sem fruto, a purificação do templo e a oferta da viúva pobre (Mc 11–12). Ir para a Aula 8 →
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. · Bispo Ildo Mello