Quem morreu no lugar de quem?
Barrabás, réu de morte, saiu livre; o inocente ocupou a sua cruz. A cena é uma teologia inteira.
“Verdadeiramente, este homem era o Filho de Deus.”Marcos 15.39 · NAA
Para começar
O capítulo mais sóbrio da Bíblia: Marcos narra a crucificação quase sem adjetivos. Os fatos falam — e três perguntas nos conduzem.
Barrabás, réu de morte, saiu livre; o inocente ocupou a sua cruz. A cena é uma teologia inteira.
“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” — a frase mais misteriosa da cruz vem do Salmo 22.
Não um sacerdote, não um discípulo: um centurião pagão, ao pé da cruz — e as mulheres que não fugiram.
Mc 15.1-15
De manhã cedo, o Sinédrio entrega Jesus a Pilatos — e a acusação muda de blasfêmia para sedição: “Você é o rei dos judeus?” (Mc 15.2).
“Tu o dizes”, responde Jesus — e depois, diante das muitas acusações, cala-se, a ponto de Pilatos se admirar (Mc 15.3-5; Is 53.7). O governador percebe que o entregaram “por inveja” (Mc 15.10) e tenta uma saída pelo costume da festa: soltar um preso. Havia um chamado Barrabás, preso com sediciosos que haviam cometido homicídio (Mc 15.7). A multidão — incitada pelos sacerdotes — escolhe Barrabás e grita sobre Jesus: “Crucifica-o!” “Que mal ele fez?” — “Crucifica-o!” (Mc 15.11-14). E Pilatos, “querendo contentar a multidão”, solta o culpado e entrega o inocente, depois de açoitá-lo (Mc 15.15).
Pare na cena: Barrabás é o primeiro homem da história que pôde dizer, literalmente, “Jesus morreu no meu lugar” — a cruz que o esperava foi ocupada pelo inocente. O nome dele, ironia providencial, significa “filho do pai”: o falso filho do pai foi solto porque o verdadeiro Filho do Pai foi entregue. Ali está, encenada, a substituição que o evangelho anuncia a cada um de nós: “aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós” (2Co 5.21; Is 53.5-6; 1Pe 3.18).
Mc 15.16-37
Os soldados o vestem de púrpura, coroam-no de espinhos e o saúdam com escárnio: “Salve, rei dos judeus!” (Mc 15.17-18). Estavam zombando — e coroando o Rei verdadeiro.
Simão de Cirene carrega a cruz (Mc 15.21 — Marcos nomeia seus filhos, Alexandre e Rufo, conhecidos da igreja; cf. Rm 16.13). No Gólgota, crucificam-no às nove da manhã, repartem suas vestes lançando sortes e o penduram entre dois ladrões (Mc 15.24-27). Leia agora o Salmo 22, escrito mil anos antes: “repartem entre si as minhas vestes e sobre a minha túnica lançam sortes” (Sl 22.18); “todos os que me veem zombam de mim… ele confiou no Senhor! Que o Senhor o livre!” (Sl 22.7-8; cf. Mc 15.29-32). Os zombadores, sem saber, recitavam a profecia que o crucificado cumpria.
Ao meio-dia, trevas sobre toda a terra até as três da tarde — o juízo cobrindo o Justo (Am 8.9). E então o grito: “Eloí, Eloí, lemá sabactâni? — Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mc 15.34). É a primeira linha do Salmo 22: Jesus morre orando a Escritura, e nela expressa o desamparo real de quem foi “feito pecado” e “maldição em nosso lugar” (2Co 5.21; Gl 3.13). O mistério é profundo e devemos pisar descalços: o Pai não deixou de amar o Filho — este era o momento da suprema obediência amada (Jo 10.17) —, mas o Filho experimentou, em nosso lugar, o cálice do juízo até a última gota. E quem lê o Salmo 22 até o fim descobre que ele não termina em desamparo, termina em vindicação e louvor entre as nações (Sl 22.22-31): o grito da cruz já carregava, embutida, a certeza da Páscoa. “Mas Jesus, dando um forte grito, expirou” (Mc 15.37) — em Marcos, o Servo morre como viveu: com força, entregando, não sendo vencido (Jo 10.18).
Mc 15.38-39
No instante da morte, dois acontecimentos declaram o significado da cruz — um dentro do templo, outro ao pé do madeiro.
“O véu do santuário se rasgou em duas partes, de alto a baixo” (Mc 15.38). O véu separava o Santo dos Santos, dizendo há séculos: “não se aproxime”. Rasgado de alto a baixo — de cima para baixo, por mãos que não eram humanas —, ele declara que o caminho até Deus está aberto pelo corpo entregue do Filho (Hb 10.19-22). Lembre o batismo: ali os céus “se rasgaram” (Mc 1.10, o mesmo verbo); aqui, o véu. O Evangelho inteiro corre entre dois rasgos: Deus rompendo as distâncias para chegar até nós, e depois removendo a barreira para que cheguemos até ele.
E então, o clímax cristológico do livro: “O centurião que estava em frente dele, vendo que havia expirado assim, disse: Verdadeiramente, este homem era o Filho de Deus” (Mc 15.39). Marcos abriu o livro anunciando “Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1.1); a voz do Pai o confirmou no batismo e no monte (Mc 1.11; 9.7); os demônios o sabiam e foram calados (Mc 3.11-12). Mas o primeiro ser humano a confessá-lo plenamente, na narrativa, é um oficial pagão do pelotão de execução — um romano, o leitor-alvo de Marcos —, e ele o confessa não diante de um milagre de poder, mas diante do modo como Jesus morreu. A cruz, que parecia refutar a filiação divina (“desça da cruz, para que vejamos e creiamos”, Mc 15.32), é precisamente o lugar onde ela mais resplandece: conhece-se o Filho de Deus pelo seu amor até o fim.
Mc 15.40-47
Quando os valentes fugiram, elas permaneceram — e por isso se tornaram as testemunhas de tudo.
“Estavam ali algumas mulheres, observando de longe: Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o menor, e de José, e Salomé — as quais o seguiam e o serviam quando ele estava na Galileia; e muitas outras que tinham subido com ele para Jerusalém” (Mc 15.40-41). Marcos revela, quase no fim, o que sustentava o ministério desde o início: um grupo fiel de mulheres que seguia e servia. Os apóstolos fugiram (Mc 14.50); elas ficaram na cruz, viram onde o corpo foi posto (Mc 15.47) e madrugariam no túmulo (Mc 16.1-2). Na hora mais escura do Evangelho, a fidelidade tem rosto de mulher — e por isso Deus as honrou como primeiras testemunhas da ressurreição, como veremos na próxima aula.
Ao entardecer, aparece uma figura inesperada: José de Arimateia, “membro respeitável do Sinédrio, que também esperava o Reino de Deus”, criou coragem, foi a Pilatos e pediu o corpo de Jesus (Mc 15.43). O discípulo que fora secreto se torna público exatamente quando parecia não haver mais nada a ganhar: envolve o corpo no lençol, deposita-o num túmulo aberto na rocha e rola a pedra (Mc 15.46) — cumprindo, sem saber, Isaías: com o rico foi na sua morte (Is 53.9). Pilatos, antes de ceder o corpo, certificou-se com o centurião de que Jesus de fato já havia morrido (Mc 15.44-45): o atestado de óbito romano ficou registrado, importante contra toda teoria de desmaio. A pedra rolou, a sexta-feira terminou — e as mulheres, sentadas diante do sepulcro, guardavam o endereço da esperança.
Fixação
Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.
0 de 5
Para pensar e conversar
Tarefas
Ler Mc 15 com o Salmo 22 aberto ao lado, marcando cada cumprimento; e escrever um parágrafo de gratidão na primeira pessoa de Barrabás: “Ele morreu no meu lugar” — porque essa é, no fundo, a autobiografia de cada cristão.
Aula 12
O túmulo vazio, as mulheres enviadas como primeiras mensageiras, o recado “e a Pedro” e o Ide que fecha o curso (Mc 16). Ir para a Aula 12 →
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. · Bispo Ildo Mello