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Isaque: o filho do riso e os poços do pai

“Eu sou o Deus de seu pai Abraão. Não tenha medo, porque eu estou com você. Eu o abençoarei e multiplicarei a sua descendência.”Gênesis 26.24 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Leitura prévia: Gn 21.1-8; Gn 22.1-14; Gn 24.62-67; Gn 25.19-28; Gn 26; Hb 11.20

O nascimento

O filho do riso

“O SENHOR visitou Sara, como tinha dito, e cumpriu o que lhe havia prometido” (Gn 21.1). Isaque é o único patriarca que nasce por promessa cumprida, e não por caminho natural.

Abraão tinha cem anos. Sara já passara da idade e havia rido quando ouviu o anúncio. Quando o menino nasceu, ela disse: “Deus me deu motivo de riso. E todo aquele que ouvir isso vai rir comigo” (Gn 21.6). O nome Isaque quer dizer “ele ri”.

É um nome que carrega as duas coisas: o riso de descrença que houve antes e o riso de alegria que veio depois. Deus não apagou a memória da dúvida; transformou-a. O nome que o menino levaria a vida inteira era a lembrança diária de que aquela família não se sustentava por mérito próprio.

Note a expressão do texto: “no tempo determinado, de que Deus lhe havia falado” (Gn 21.2). Foram vinte e cinco anos de espera desde o chamado em Harã. Deus não se atrasou; Ele trabalhava num calendário que Abraão não via.

Gênesis 22

O menino que carregou a lenha

A história de Moriá costuma ser contada do ponto de vista de Abraão. Vale contá-la, uma vez, do lado do filho.

“Abraão pegou a lenha do holocausto e a colocou sobre Isaque, seu filho. Ele, por sua vez, levava nas mãos o fogo e a faca. Assim, os dois caminhavam juntos” (Gn 22.6). Quem sobe o monte carregando a lenha é Isaque.

No caminho ele faz a pergunta que qualquer criança faria, e que atravessa a Bíblia inteira: “Eis aqui o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?” (Gn 22.7). A resposta do pai é uma confissão de fé: “Deus proverá para si o cordeiro para o holocausto, meu filho.” E o versículo termina: “E os dois seguiam juntos.”

O texto não diz a idade de Isaque, mas ele era forte o bastante para carregar lenha de holocausto monte acima, e o pai já era velho. É razoável concluir que Isaque poderia ter resistido, e não resistiu (Gn 22.9). Aquela obediência silenciosa é a primeira coisa que sabemos do caráter dele.

A cena está desenvolvida na aula Moriá e a herança que ele não viu, do curso sobre Abraão. Aqui interessa o que ela revela de Isaque: o herdeiro da promessa aprendeu, ainda menino, que a vida dele estava nas mãos de Deus.

O casamento

Um homem que meditava no campo e orou vinte anos

Isaque não escolheu a esposa nem viajou para buscá-la. Ficou em casa enquanto o servo de Abraão percorria seiscentos quilômetros orando por direção.

A cena do encontro é uma das mais delicadas de Gênesis: “Ao cair da tarde, Isaque saiu para meditar no campo. Erguendo os olhos, viu, e eis que vinham camelos” (Gn 24.63). E o desfecho: “Ele tomou Rebeca, e esta se tornou a mulher dele. Ele a amou; e assim Isaque foi consolado depois da morte de sua mãe” (Gn 24.67).

São duas informações raras no Antigo Testamento. Primeiro, que ele amou a esposa, dito com todas as letras. Segundo, que ele estava de luto, e que o casamento foi consolo. O texto trata Isaque como uma pessoa inteira, com afeto e com dor.

Aos quarenta anos

“Ele tinha quarenta anos quando tomou por esposa Rebeca” (Gn 25.20).

A esterilidade

“Isaque orou ao SENHOR por sua mulher, porque ela era estéril. O SENHOR ouviu as orações dele” (Gn 25.21). A mesma provação da mãe dele reaparece na esposa.

Aos sessenta

“Isaque tinha sessenta anos quando Rebeca deu à luz” (Gn 25.26). Ou seja: ele orou por vinte anos antes da resposta.

Vinte anos é tempo suficiente para a maioria das pessoas desistir de orar por alguma coisa. E note o conteúdo da oração: ele ora pela esposa, e não apenas pela própria descendência. Sendo ele o portador da promessa, teria justificativa de sobra para tomar outra mulher, como o pai fizera com Agar. Não fez. Orou e esperou.

Gênesis 26

A fome, a ordem de ficar e a mentira herdada

Veio fome à terra, “assim como tinha acontecido nos dias de Abraão” (Gn 26.1). A mesma prova da geração anterior, agora na vez dele.

Diante da fome, o caminho óbvio era o Egito, onde havia comida. Foi o que o pai fizera. Mas desta vez Deus fala antes:

A palavra que muda a rota

“Não desça ao Egito, mas fique na terra que eu lhe indicar. Habite nela, e serei com você e o abençoarei”

E Deus renova a Isaque, pessoalmente, as promessas feitas a Abraão: a terra, a descendência e a bênção para todas as nações (Gn 26.3-4).

Gênesis 26.2-3

Isaque obedeceu e ficou. É a única vez em toda a Bíblia em que se diz a um patriarca que permaneça, e ele permanece. Abraão desceu ao Egito; Jacó desceria; José seria levado. Isaque nunca sai da terra prometida.

E, no versículo seguinte, o fracasso

Instalado em Gerar, com medo, ele diz de Rebeca: “É minha irmã”, pensando: “Os homens do lugar me matarão por causa de Rebeca, porque ela é muito bonita” (Gn 26.7). É exatamente a mentira do pai, contada duas vezes por Abraão, e agora repetida pelo filho na terceira geração da mesma família.

Abimeleque descobre por acaso, olhando pela janela, e faz a pergunta constrangedora: “É evidente que ela é a sua mulher! Como é que você disse que ela era a sua irmã?” (Gn 26.9). Um rei pagão dá lição de ética ao herdeiro da promessa.

Pecados se herdam como se herdam poços. Isaque recebeu do pai a fé, a promessa e também o medo. O texto não esconde isso, e é bom que não esconda: ninguém está automaticamente protegido do erro dos pais só por ter crescido numa casa de fé. O que se recebe precisa ser examinado, e não apenas repetido.

O coração da história

Eseque, Sitna, Reobote

Isaque prosperou de um modo escandaloso para os vizinhos: “semeou naquela terra e, no mesmo ano, recolheu cem por um, porque o SENHOR o abençoava… Ele enriqueceu, continuou prosperando, ficou riquíssimo” (Gn 26.12-13).

O resultado foi inveja. Os filisteus entulharam de terra todos os poços que os servos de Abraão haviam cavado (Gn 26.15), e Abimeleque pediu que ele fosse embora: “Saia da nossa terra, porque você já é muito mais poderoso do que nós” (Gn 26.16).

Isaque saiu sem discutir. E fez então a coisa mais característica da vida dele: “Isaque tornou a abrir os poços que haviam sido cavados nos dias de Abraão, seu pai… e lhes deu os mesmos nomes que o seu pai já lhes tinha dado” (Gn 26.18).

Três poços, três nomes

Eseque, “contenda”

Os servos acharam água nascente, e os pastores de Gerar brigaram: “Esta água é nossa!” Isaque não revidou (Gn 26.19-20).

Sitna, “inimizade”

Cavaram outro poço, e houve conflito de novo. Ele cedeu outra vez (Gn 26.21). Ceder uma vez pode ser prudência; ceder duas já é caráter.

Reobote, “lugar amplo”

“Partindo dali, Isaque cavou ainda outro poço. E, como por esse não houve conflito, deu-lhe o nome de Reobote. Ele disse: Porque agora o SENHOR abriu espaço para nós e vamos prosperar nesta terra” (Gn 26.22).

Repare em quem ele credita o desfecho. Não diz “finalmente venci a disputa”, nem “consegui um lugar melhor”. Diz: o SENHOR abriu espaço. Ele cedeu duas vezes e continuou cavando, e entendeu o resultado como obra de Deus, e não como vitória própria.

É a lógica que Jesus formularia séculos depois: “Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra” (Mt 5.5). A mansidão de Isaque não foi covardia: ele não parou de cavar. Não abriu mão da vocação, abriu mão da briga.

Berseba: o altar e a paz

Em Berseba, Deus lhe aparece de noite: “Eu sou o Deus de seu pai Abraão. Não tenha medo, porque eu estou com você” (Gn 26.24). E Isaque faz três coisas, nesta ordem: levanta um altar, invoca o nome do SENHOR, arma a tenda — e só então os servos cavam mais um poço (Gn 26.25). O culto vem antes da moradia e do trabalho.

E então acontece o desfecho mais bonito do capítulo. Os mesmos homens que o expulsaram voltam para pedir aliança, e explicam por quê: “Vimos claramente que o SENHOR está com você” (Gn 26.28). Isaque pergunta, com toda a razão: “Por que vocês vieram à minha presença, se me odeiam e me expulsaram do meio de vocês?” (Gn 26.27). Mas faz o juramento, oferece um banquete e os despede “em paz” (Gn 26.31).

O testemunho veio do jeito de viver, e não de um discurso. Os filisteus não se converteram por argumento; concluíram que Deus estava com aquele homem observando como ele reagia à injustiça. É o que Paulo pede: “Se possível, no que depender de vocês, vivam em paz com todas as pessoas” (Rm 12.18). E o que Jesus promete: “Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5.9).

Honestidade do texto

A sombra da velhice

Gênesis não faz de Isaque um santo de vitral. A mesma casa que orou vinte anos por um filho acabou dividida entre dois.

A frase é curta e devastadora: “Isaque amava Esaú, porque se saboreava de sua caça; Rebeca, porém, amava Jacó” (Gn 25.28). Cada pai escolheu um filho. O favoritismo produziu o engano da bênção, a fuga de Jacó e vinte anos de separação, e é o assunto da aula A bênção roubada.

Vale reparar em uma coisa: o amor de Isaque por Esaú aparece ligado ao apetite, “porque se saboreava de sua caça”. Não é um julgamento cruel do texto; é uma observação honesta de como preferências pequenas, alimentadas por anos, terminam decidindo o destino de uma família.

E, mesmo ali, a fé continuou operando. Quando o engano foi descoberto, “Isaque estremeceu, sentindo uma violenta comoção”, e ainda assim não desfez o que fizera: “eu o abençoei, e ele será abençoado” (Gn 27.33). Ele reconheceu que a decisão já não era dele. Hebreus registra: “Pela fé, igualmente Isaque abençoou Jacó e Esaú, a respeito de coisas que ainda estavam para vir” (Hb 11.20).

O fim

“Os dias da vida de Isaque foram cento e oitenta anos. Após uma longa velhice, Isaque expirou e morreu, sendo reunido ao seu povo” (Gn 35.28-29). É a vida mais longa dos três patriarcas.

O detalhe final

“E Esaú e Jacó, seus filhos, o sepultaram.” Os dois irmãos, juntos. A casa que o favoritismo dividiu se reencontrou ao redor do túmulo do pai.

Para a nossa vida

O patriarca do meio

Isaque é o menos narrado dos três. Abraão tem doze capítulos, Jacó tem outros tantos, e a maior parte da história de Isaque acontece dentro da história do pai ou dentro da história dos filhos. Só um capítulo é inteiramente dele: Gênesis 26.

Ele nunca sai da terra. Nunca muda de nome. Tem uma esposa só. Não funda nada: reabre os poços do pai e lhes devolve os mesmos nomes. E é chamado por Deus, para sempre, ao lado dos outros dois: “Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó” (Êx 3.6).

A vocação de continuar

Nem todo servo de Deus é fundador. A maior parte de nós é chamada a manter, reabrir e transmitir o que recebeu. Isso não é uma vocação menor: é a que garante que a fé chegue à geração seguinte.

A fé herdada precisa virar própria

Em Berseba, Deus se apresenta como “o Deus de seu pai Abraão” (Gn 26.24). Mas, uma geração depois, Ele já se apresenta a Jacó como “o Deus de Isaque” (Gn 28.13). Em algum ponto do caminho, o Deus do pai virou o Deus dele. É a pergunta que toda pessoa criada na igreja precisa responder.

Ceder sem parar de cavar

Eseque, Sitna, Reobote. Ele abriu mão da briga, não da vocação. Há conflitos que não valem a água que se perde neles, e Deus costuma abrir espaço para quem não gasta a vida disputando poço.

Orar por vinte anos

A resposta demorou duas décadas, e ele não buscou atalho. Quem já orou por anos pela mesma pessoa, pelo mesmo filho, pela mesma situação, encontra em Isaque um companheiro.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, e errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Isaque orou vinte anos pela esposa estéril, sem buscar atalho. Por que o senhor tem orado há mais tempo, e o que o tem sustentado?Ver resposta sugerida

Vinte anos é tempo suficiente para a maioria desistir. Vale notar também o conteúdo da oração: ele orava pela esposa, e não apenas pela própria descendência.

Isaque reabriu os poços do pai e lhes devolveu os mesmos nomes. O que, na sua igreja ou na sua família, foi entupido pelo tempo e precisa ser desentupido?Ver resposta sugerida

Nem toda obra de Deus é começar algo inédito. Pode ser retomar uma prática de oração, um ministério abandonado, um hábito de leitura ou uma reconciliação que ficou pelo caminho.

Em Eseque e Sitna ele cedeu; em Reobote disse que “o SENHOR abriu espaço”. Que disputa da sua vida talvez não valha a água que se perde nela?Ver resposta sugerida

Ceder não foi parar de cavar: ele abriu mão da briga, não da vocação. A pergunta é onde termina a prudência e onde começaria a omissão.

Em Berseba, Deus se apresenta como “o Deus de seu pai Abraão”; a Jacó, já se apresenta como “o Deus de Isaque”. A sua fé já deixou de ser a dos seus pais para ser sua?Ver resposta sugerida

É a pergunta central para quem cresceu na igreja. A herança abre a porta, mas em algum ponto do caminho o Deus dos pais precisa virar o nosso Deus.

Isaque repetiu a mentira do pai sobre a esposa. Que padrão da casa em que o senhor cresceu ainda se repete na sua, sem que ninguém o tenha escolhido?Ver resposta sugerida

Ninguém está automaticamente protegido do erro dos pais por ter crescido numa casa de fé. O que se recebe precisa ser examinado, e não apenas repetido.

Isaque amava Esaú “porque se saboreava de sua caça”. Onde uma preferência pequena, alimentada por anos, pode estar dividindo uma família que o senhor conhece?Ver resposta sugerida

O texto liga o favoritismo a algo trivial, o apetite. É assim que essas coisas costumam começar, e o resultado foi um engano, uma fuga e vinte anos de separação.

Isaque: o filho do riso e os poços do pai · Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil