Personagens da BíbliaLição

José do Egito

“Vocês, na verdade, planejaram o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como estão vendo agora, que se conserve a vida de muita gente.”Gênesis 50.20 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Gn 37; Gn 39; Gn 45.1-15; Gn 50.15-21

A história

Um menino odiado pelos próprios irmãos

José aparece na Bíblia como o filho preferido de um pai que não escondia a preferência. Essa é a raiz do drama, e vale começar por aí, sem suavizar.

Jacó amava José mais do que a todos os outros filhos, e deu a ele uma túnica que os irmãos não tinham (Gn 37.3). O texto é direto sobre o efeito disso: os irmãos passaram a odiá-lo e não conseguiam falar com ele pacificamente (Gn 37.4). Não foi a piedade de José que criou o conflito. Foi o favoritismo do pai, somado à imprudência de um rapaz de dezessete anos que contava tudo o que via.

Então vieram os sonhos. Os feixes que se curvavam, o sol, a lua e as onze estrelas (Gn 37.5-11). É importante entender o que esses sonhos eram e o que não eram. Não eram ambição de José, nem projeto de vida que ele tivesse formulado. Eram revelação de Deus a respeito de um futuro que o próprio José não compreendia e que levaria mais de vinte anos para se cumprir. Ele recebeu a visão muito antes de entender o preço dela.

Uma observação honesta: José contou os sonhos aos irmãos que já o odiavam. Um jovem mais prudente teria guardado. A Escritura não o apresenta como perfeito desde o início; apresenta como alguém que Deus formou ao longo do caminho.

O desfecho é conhecido. Os irmãos o jogaram numa cisterna, cogitaram matá-lo e acabaram vendendo-o por vinte moedas de prata a mercadores que iam para o Egito (Gn 37.23-28). Depois mancharam a túnica com sangue de bode e deixaram o pai concluir o resto (Gn 37.31-33). A mentira duraria mais de duas décadas.

A provação

Treze anos entre a cova e o palácio

A Bíblia dá as duas pontas: José tinha dezessete anos quando foi vendido (Gn 37.2) e trinta quando se apresentou a Faraó (Gn 41.46). Entre uma coisa e outra, treze anos.

Vendido pelos irmãos

Da cisterna em Dotã para uma caravana rumo ao Egito. Perde a família, a terra, o nome e a liberdade de uma só vez (Gn 37.28).

Escravo na casa de Potifar

Comprado por um oficial de Faraó. Trabalha bem, ganha confiança e chega a administrar tudo o que o senhor possuía (Gn 39.1-6).

Acusado injustamente

Recusa o assédio da mulher de Potifar, e é ela quem o acusa. José vai preso por ter feito o certo (Gn 39.7-20).

Esquecido na prisão

Interpreta o sonho do copeiro e pede para ser lembrado. O copeiro esquece. Passam-se mais dois anos (Gn 40.14, 23; 41.1).

Diante de Faraó

Chamado às pressas, interpreta os sonhos, propõe um plano de estocagem e é posto sobre todo o Egito (Gn 41.14-41).

Vale demorar nesse número. Treze anos não é uma temporada difícil: é uma juventude inteira. José entrou naquilo adolescente e saiu adulto. Durante a maior parte desse tempo, nada indicava que os sonhos fossem verdadeiros. A Escritura não conta que ele tenha recebido uma só palavra nova de Deus entre os dezessete e os trinta anos.

O coração da aula

Dez virtudes que fizeram de José um vencedor

Este é o estudo do Bispo Ildo Mello, apresentado aqui na íntegra. Toque em cada virtude para abrir.

1Tinha sonhos, uma visão do plano de Deus para sua vida+

Tinha sonhos, uma visão do plano de Deus para sua vida (Gn 37.5).

2Confiava no amor e no cuidado de Deus+

Sabia que Deus o amava. Sentir-se amado por Deus faz muita diferença na vida!

3Andava por fé e não se deixava abater pelas circunstâncias+

Muitos desanimam em sua fé e outros tantos chegam a blasfemar de Deus diante de provações menores do que as que José enfrentou.

4Era otimista+

Consequência natural de sua fé no amor de Deus e na sua Palavra, na visão que tinha do plano de Deus para a sua vida.

5Era paciente e aprendeu a esperar em Deus+

Foram treze anos de grande provação: odiado pelos irmãos que o invejavam; foi colocado no fundo do poço, pensaram em matá-lo, mas acabaram vendendo-o como escravo. Foi acusado injustamente e condenado à prisão. Experimentou a solidão e o desamparo familiar.

6Via cada crise e dificuldade como uma oportunidade de crescimento+

Não se deixava abater. Sentia-se desafiado pelas tribulações. Adaptava-se facilmente a cada uma das situações adversas e logo conquistava a simpatia e a confiança de seus superiores (Gn 39.1-23 e 41.39-41).

7Não murmurava, em tudo dava graças ao Senhor+

Sabia que Deus tem o seu caminho na tormenta (Na 1.3).

8Não culpava os outros por seus infortúnios+

Confiava na soberania de Deus (Gn 45.5).

9Era perdoador e misericordioso+

Não era vingativo, não guardava rancor, enxergava tudo do ponto de vista elevado de Deus (Gn 45.15).

10Possuía a sabedoria de Deus, que tem como princípio o temor do Senhor+

Por esta razão não caiu em tentação com a mulher de Potifar. Era um homem honesto, de caráter e princípios. Reto diante dos olhos de Deus. Não agia corretamente só porque outros estavam observando, mas porque temia a Deus, que tudo vê (Gn 39.10).

Revelou sabedoria também para administrar a casa de Potifar e para governar o Egito.

Repare que oito das dez virtudes aparecem durante a provação, não depois dela. José não foi recompensado por ter esperado bem: ele foi formado enquanto esperava. É diferente.

Integridade

A porta que José não abriu

O episódio com a mulher de Potifar é o teste mais conhecido da vida de José, e costuma ser contado errado. Não foi um momento de heroísmo. Foi uma decisão repetida.

O texto diz que ela falava a José dia após dia, e ele não anuía (Gn 39.10). A tentação não bateu uma vez e foi embora. Ela voltou, insistiu, teve tempo de encontrar o dia em que ele estivesse cansado. José venceu porque já havia decidido antes, e continuou decidindo.

É aí que a décima virtude do estudo se explica. José não estava calculando risco: o risco de ser descoberto era baixo, a casa estava vazia (Gn 39.11). Ele estava diante de Alguém que via. Como diz o Bispo, não agia corretamente só porque outros estavam observando, mas porque temia a Deus, que tudo vê.

A conta que José poderia ter feito

Ninguém saberá. Sou escravo, não tenho nada a perder. Ela é quem manda aqui. Se eu recusar, ela pode me destruir, e foi exatamente o que aconteceu.

A conta que ele fez

Há um Deus. Ele vê. Isso basta.

E o resultado imediato foi injusto: José saiu da casa direto para a prisão (Gn 39.20). Fazer o certo custou caro e não trouxe alívio nenhum no curto prazo. Qualquer ensino sobre integridade que prometa o contrário está prometendo o que a Bíblia não promete.

O centro teológico

“Vocês planejaram o mal; Deus o tornou em bem”

Gênesis 50.20 é o versículo que organiza toda a história. E precisa ser lido com cuidado, porque é fácil torcê-lo.

José diz duas coisas na mesma frase, e as duas são verdadeiras ao mesmo tempo. Primeira: vocês planejaram o mal contra mim. Ele não chama o crime dos irmãos de bênção disfarçada, nem diz que no fundo eles quiseram o bem. Foi mal, e ele o nomeia como mal. Segunda: Deus o tornou em bem. Deus não foi surpreendido pelo pecado deles nem ficou refém dele.

O que o texto não diz. Não diz que Deus mandou os irmãos venderem José, nem que o mal deixou de ser mal por ter dado em bem. A soberania de Deus, aqui, não desculpa o pecado de ninguém: ela o vence. Os irmãos continuam responsáveis, e é por isso que precisam ser perdoados.

Essa distinção é pastoral, não apenas técnica. Quem sofreu injustiça e ouve que “Deus quis assim” costuma sair pior do que entrou. O que a Escritura oferece não é a negação da dor, e sim a promessa de que ela não terá a última palavra. Deus tem o seu caminho na tormenta (Na 1.3), como lembra o estudo do Bispo. Na tormenta, não depois dela.

A reconciliação

O perdão que curou uma família

José tinha poder absoluto sobre os irmãos quando eles chegaram ao Egito. Podia prendê-los, escravizá-los ou simplesmente mandá-los embora. Fez outra coisa.

Antes de se revelar, José testou os irmãos com Benjamim (Gn 42—44). Isso não foi vingança disfarçada: foi apuração. Ele precisava saber se aqueles homens ainda eram os mesmos que haviam vendido um irmão, ou se algo tinha mudado. Quando Judá se ofereceu para ficar como escravo no lugar do irmão mais novo (Gn 44.33), José teve a resposta e não conseguiu mais se conter.

Então ele chorou tão alto que os egípcios ouviram (Gn 45.2), beijou todos os irmãos e chorou sobre eles. Só depois disso, diz o texto, os seus irmãos falaram com ele (Gn 45.15). O medo os havia emudecido; o perdão devolveu a conversa.

O que José disse a eles

“Não fiquem tristes nem irritados contra vocês mesmos por terem me vendido para cá”

Ele tira dos irmãos o peso que os esmagava, sem fingir que o crime não existiu. É perdão, não amnésia.

Gênesis 45.5

Anos depois, morto Jacó, os irmãos voltam apavorados, achando que a hora da vingança havia chegado (Gn 50.15). José chora de novo e faz uma pergunta que resolve tudo: “Será que eu estou no lugar de Deus?” (Gn 50.19). Vingar-se seria assumir um lugar que não lhe pertencia. Quem entrega o julgamento a Deus fica livre para amar.

O perdão de José não foi barato nem instantâneo. Levou mais de vinte anos, passou por lágrimas, por apuração e por uma conversa difícil. Perdoar não é dizer que não doeu. É recusar-se a cobrar a dívida.

Aplicação

José e nós

A história de José não está na Bíblia para produzir admiração, mas obediência. Três aplicações concretas.

Para quem está no meio dos treze anos

A parte mais dura da vida de José foi a que não tinha explicação. Se você está num tempo assim, o texto não promete que ele será curto; promete que o Senhor está com você onde você está (Gn 39.2, 21), e essa frase aparece tanto na casa do escravo quanto na prisão.

Para quem foi tratado com injustiça

José nomeia o mal como mal e ainda assim não cobra. Não confunda perdoar com fingir que nada houve, nem com voltar a se expor sem cuidado. Ele perdoou os irmãos e, mesmo assim, os testou antes de confiar de novo.

Para quem está sozinho diante de uma porta

A vitória de José em Gn 39 foi preparada muito antes daquele dia. O que decide a hora da tentação é o que já foi decidido na véspera. E o critério dele não era quem estava olhando, e sim quem sempre vê.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, e errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Você consegue nomear uma injustiça que sofreu sem chamá-la de bênção disfarçada, e ainda assim entregá-la a Deus?Ver resposta sugerida

Essa é a operação que José faz em Gn 50.20, e é mais difícil do que parece, porque somos tentados a um de dois extremos. Ou guardamos a mágoa e ficamos presos a ela, ou espiritualizamos tão depressa que nunca chegamos a chamar o mal pelo nome.

José faz as duas coisas na mesma frase: “vocês planejaram o mal” e “Deus o tornou em bem”. Nomear é honesto; entregar é fé. Um passo prático: escreva o que houve com as palavras exatas, sem adoçar, e depois entregue aquilo em oração, sem pedir que Deus mude o passado, e sim que faça dele alguma coisa. Se ainda não conseguir, não force. José levou mais de vinte anos.

Como você responderia a alguém que diz: “se Deus é bom, por que permitiu treze anos daqueles”?Ver resposta sugerida

Comece reconhecendo que a pergunta é legítima, e não uma provocação. A Escritura não a evita: ela a coloca na boca de Jó, dos salmistas e do próprio Senhor na cruz.

Depois, mostre o que o texto de fato faz. Ele não explica por que Deus permitiu; explica o que Deus fez com o que foi permitido. E há um detalhe que costuma passar despercebido: o Senhor estava com José na casa de Potifar e também na prisão (Gn 39.2, 21). A resposta bíblica ao sofrimento não é primeiro uma explicação, é uma presença.

Evite duas saídas fáceis: dizer que Deus mandou o mal, o que o texto nega ao chamá-lo de mal; e dizer que Deus estava ausente, o que o texto também nega. Fale com mansidão e respeito (1Pe 3.15-16), e não tenha pressa de vencer a conversa.

José do Egito · Estudo do Bispo Ildo Mello, ampliado para uso em classe.