Daniel · Aula 3Lição

A fornalha e o “se não”

“E mesmo que ele não nos livre, fique sabendo, ó rei, que não prestaremos culto aos seus deuses, nem adoraremos a imagem de ouro que o senhor levantou.”Daniel 3.18 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Leitura prévia: Dn 3; Is 43.1-3; Hb 11.32-40

A cena

Uma estátua de ouro na planície de Dura

“O rei Nabucodonosor fez uma imagem de ouro que tinha vinte e sete metros de altura e dois metros e setenta de largura” (Dn 3.1).

Vale lembrar o que acontecera pouco antes. No sonho da estátua, o rei era a cabeça de ouro, e o restante da imagem, de prata, bronze, ferro e barro, anunciava que o reino dele passaria. A resposta de Nabucodonosor foi mandar fazer uma estátua inteira de ouro.

É a soberba respondendo à revelação. Ele ouviu que seu reino teria fim e mandou erguer, em metal, a negação daquilo. O orgulho raramente discute com Deus: em geral apenas constrói alguma coisa maior.

A cerimônia foi um ato de Estado. Todas as autoridades do império convocadas, uma orquestra dando o sinal, e uma ordem simples: ao som dos instrumentos, todos se prostram. Não era apenas religião: era teste de lealdade política. E a pena estava anunciada: a fornalha.

Onde estava Daniel?

O capítulo não o menciona. Não sabemos por quê: pode estar a serviço em outro lugar, doente, ou simplesmente fora do alcance da narrativa. O texto não explica, e é melhor não inventar. O que se pode dizer é que os três não tiveram, naquele dia, o amigo mais forte do grupo ao lado. Tiveram uns aos outros e tiveram Deus.

A denúncia veio com sabor de ressentimento: “Há uns homens judeus, que o senhor, ó rei, pôs como administradores da província da Babilônia” (Dn 3.12). Estrangeiros promovidos, e agora acusados. A inveja costuma usar a religião como pretexto.

O coração da lição

“E mesmo que ele não nos livre”

O rei ofereceu uma segunda chance e encerrou com um desafio: “E quem é o deus que os poderá livrar das minhas mãos?” (Dn 3.15).

A resposta dos três é uma das maiores declarações de fé da Bíblia, e precisa ser lida inteira, nas três partes:

“Quanto a isto não precisamos nem responder”

Não havia o que deliberar. A questão já estava decidida muito antes, como no capítulo 1. Eles não pediram tempo para pensar.

“Se o nosso Deus, a quem servimos, quiser livrar-nos, ele nos livrará”

Fé plena no poder de Deus. Eles não duvidam nem por um instante de que Ele pode.

“E mesmo que ele não nos livre, fique sabendo, ó rei, que não prestaremos culto aos seus deuses”

Aqui está o centro. Eles obedecem sem garantia de desfecho. A fidelidade não estava condicionada ao livramento.

Essas seis palavras, “e mesmo que ele não nos livre”, separam a fé verdadeira de qualquer negócio religioso. Muita gente serve a Deus enquanto o resultado compensa. Os três disseram, diante da fornalha acesa, que serviriam de todo jeito.

Dentro do fogo

Quatro homens soltos

O rei mandou aquecer a fornalha sete vezes mais do que o costume, e os soldados que os lançaram morreram com o calor. Os três caíram amarrados no meio do fogo.

Então Nabucodonosor se levanta espantado: “Não eram três os homens que amarramos e jogamos no fogo?… Eu, porém, estou vendo quatro homens soltos, andando no meio do fogo! Não sofreram nenhum dano! E o aspecto do quarto é semelhante a um filho dos deuses” (Dn 3.24-25).

O que o fogo queimou

Apenas as cordas. Eles entraram amarrados e foram vistos soltos. O fogo destruiu exatamente aquilo que os prendia.

O que o fogo não tocou

“Os cabelos da cabeça não foram chamuscados, os mantos não sofreram mudança, e eles não estavam com cheiro de fumaça” (Dn 3.27). Saíram sem levar consigo o cheiro daquilo que os quis destruir.

Quem era o quarto?

Vale ser exato aqui. A expressão “semelhante a um filho dos deuses” é de Nabucodonosor, um rei politeísta descrevendo o que via com o vocabulário que tinha. Poucos versículos depois, ele mesmo diz que Deus “enviou o seu anjo e livrou os seus servos” (Dn 3.28).

Muitos cristãos leram nessa figura uma manifestação do próprio Cristo antes da encarnação, e é uma leitura antiga e respeitável. Mas o texto não afirma isso, e não é preciso que afirme para que a promessa esteja de pé: “Quando você passar pelo fogo, você não se queimará; as chamas não o atingirão” (Is 43.2). O ponto certo do capítulo é que Deus não os poupou da fornalha: entrou nela com eles.

O desfecho tem a mesma ambiguidade do capítulo 2. O rei bendisse o Deus dos três e baixou um decreto ameaçando de morte quem blasfemasse contra Ele (Dn 3.29). É admiração, e ainda não é conversão: um homem que tenta impor a fé pela força ainda não entendeu o Deus de quem fala. Isso só aconteceria no capítulo seguinte, e pelo caminho mais duro.

Para a nossa vida

A fé que não negocia

As nossas fornalhas raramente têm fogo

São a promoção que depende de um silêncio, a família que ridiculariza, o grupo que exige adesão. A pressão para se ajoelhar quase nunca vem acompanhada de ameaça de morte, e nem por isso é pequena.

A hora de decidir não é na planície

Eles responderam sem pedir tempo porque a questão estava resolvida antes. Como no capítulo 1: quem decide antes não precisa deliberar sob pressão.

Servir sem garantia

“E mesmo que ele não nos livre.” A fé que só continua enquanto o resultado compensa é um contrato, não é fé.

Deus entra na fornalha

A promessa bíblica não é a de uma vida sem fogo, e sim a da presença dentro dele. O que se queimou foram as cordas.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, e errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

“E mesmo que ele não nos livre.” O senhor continuaria servindo a Deus se a resposta para o seu maior pedido fosse não?Ver resposta sugerida

É a pergunta que separa a confiança em Deus da confiança no desfecho que esperamos dele. Vale responder pensando num pedido concreto, e não em tese.

Quais são as fornalhas de hoje na sua vida: onde há pressão real para se ajoelhar diante de algo que o senhor sabe que não deveria?Ver resposta sugerida

Raramente há fogo. Costuma ser a promoção que depende de um silêncio, o grupo que exige adesão, a família que ridiculariza.

Os três responderam sem pedir tempo para pensar. Que questões o senhor ainda não resolveu e por isso terá de decidir sob pressão?Ver resposta sugerida

“Quanto a isto não precisamos nem responder.” A hora de decidir não é na planície de Dura, com a orquestra tocando.

Nabucodonosor ouviu que seu reino teria fim e mandou fazer uma estátua inteira de ouro. Onde o senhor já respondeu a uma correção de Deus construindo algo maior em vez de se dobrar?Ver resposta sugerida

O orgulho raramente discute com Deus abertamente. Em geral apenas ergue alguma coisa que negue o que foi dito.

Eles saíram do fogo sem cheiro de fumaça. Que marcas de ambientes difíceis o senhor tem levado consigo para casa e para a igreja?Ver resposta sugerida

O detalhe é do próprio texto (Dn 3.27). Nem sempre saímos dos lugares sem carregar o cheiro deles.

Nem todos os fiéis saem da fornalha, como lembra Hebreus 11. Como ensinar essa história sem prometer o que Deus não prometeu?Ver resposta sugerida

Deus livrou estes três e não livrou Estêvão. A fé dos três não estava na certeza do livramento, e sim em Deus. Ensinar de outro modo prepara decepções graves.

A fornalha e o “se não” · Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil