“Três vezes por dia, ele se punha de joelhos, orava, e dava graças diante do seu Deus, como era o seu costume.”Daniel 6.10 · NAA
O novo império
Babilônia caiu, os medos e persas assumiram, e Daniel, já com mais de oitenta anos, foi promovido outra vez. O texto explica por quê: “porque nele havia um espírito excelente” (Dn 6.3).
Um estrangeiro, servo de um império derrotado, prestes a ser posto sobre todo o reino. A reação dos colegas foi imediata, e o que o texto diz sobre a investigação que fizeram é um dos maiores elogios já escritos sobre alguém:
O resultado da devassa
Depois de mais de sessenta anos no serviço público de dois impérios, uma comissão de inimigos vasculhou a vida dele e não achou nada.
Daniel 6.4
Então disseram entre si: “Nunca acharemos um pretexto para acusar esse Daniel, a menos que procuremos algo relacionado com a lei do Deus que ele adora” (Dn 6.5). Não havia como pegá-lo por corrupção, negligência ou deslealdade. Só restava a fé dele.
Este é o tipo de perseguição que honra a Deus. Muitos cristãos sofrem no trabalho por atraso, malfeito ou aspereza, e chamam isso de perseguição religiosa. Com Daniel não havia dúvida possível: o único ponto vulnerável era a oração dele.
A armadilha foi montada com bajulação. Foram ao rei propondo um decreto que proibia, por trinta dias, qualquer pedido a qualquer deus ou homem que não fosse o próprio rei (Dn 6.7). E mentiram ao dizer que todos os presidentes concordavam: Daniel, o primeiro deles, nem fora consultado.
O versículo central
“Quando Daniel soube que o documento tinha sido assinado, voltou para casa. Em seu quarto, no andar de cima, as janelas abriam para o lado de Jerusalém. Três vezes por dia, ele se punha de joelhos, orava, e dava graças diante do seu Deus, como era o seu costume” (Dn 6.10).
Leia devagar, porque cada detalhe importa.
Não convocou reunião, não organizou reação, não procurou o rei. Diante da notícia, foi para casa e se ajoelhou.
Não aumentou as orações para fazer ponto, nem as reduziu para se proteger. Manteve exatamente o que fazia. A crise não mudou a rotina dele em nada.
Ele orava voltado para a cidade destruída, como Salomão pedira que os exilados fizessem (1Rs 8.48). Um homem que nunca vira Jerusalém em pé continuava orando na direção dela.
No dia em que a própria sentença de morte foi assinada, ele deu graças. Não é uma frase de efeito: está no texto.
E a expressão final explica tudo o que virá: “como era o seu costume”. Ele não teve de decidir nada naquele dia. A decisão já estava tomada havia sessenta anos, três vezes por dia, na mesma sala. Quando a lei mudou, ele simplesmente continuou.
A noite
Descoberto orando, Daniel foi denunciado. E aqui a narrativa faz algo inesperado: ela se demora no sofrimento do rei, e não no de Daniel.
Dario percebeu tarde demais que fora usado. “Ao ouvir isso, o rei ficou muito triste e decidiu livrar Daniel. Até o pôr do sol, se empenhou por salvá-lo” (Dn 6.14). Preso à própria lei, teve de mandar executá-la. E, ao fazê-lo, disse uma frase que é quase uma oração: “O seu Deus, a quem você serve continuamente, que ele o livre” (Dn 6.16).
Depois, “o rei se dirigiu para o seu palácio, passou a noite em jejum e não deixou trazer à sua presença instrumentos de música; e o sono fugiu dele” (Dn 6.18). O imperador jejuou pelo prisioneiro. O homem no poder passou a noite pior do que o homem na cova.
Correu à cova e chamou “com voz triste”: “Daniel, servo do Deus vivo! Será que o seu Deus, a quem você serve continuamente, conseguiu livrá-lo dos leões?” (Dn 6.20).
“O meu Deus enviou o seu anjo e fechou a boca dos leões, para que não me fizessem mal algum. Porque fui considerado inocente diante dele. E também não cometi nenhum delito contra o senhor, ó rei” (Dn 6.22).
Repare que Daniel afirma duas inocências: diante de Deus e diante do rei. A vida dele era coerente nas duas direções. Não havia um Daniel para o culto e outro para o expediente.
E o narrador acrescenta a explicação: “não se achou nele ferimento algum, porque havia confiado em seu Deus” (Dn 6.23).
A mesma cautela da aula sobre a fornalha vale aqui. Deus fechou a boca dos leões para Daniel. Hebreus 11 lembra que houve fiéis que “fecharam a boca de leões” e outros que foram “serrados ao meio, mortos ao fio da espada” (Hb 11.33, 37). A lição não é que quem ora sempre escapa: é que quem confia em Deus não está sozinho na cova.
O capítulo termina com o decreto de Dario, que reconhece o “Deus vivo e que permanece para sempre”, cujo reino “não será destruído” (Dn 6.26). E com uma nota final: “Daniel prosperou no reinado de Dario e no reinado de Ciro, o persa” (Dn 6.28). O menino do capítulo 1 continua de pé, agora sob o rei que autorizaria a volta do povo para casa.
Para a nossa vida
“Como era o seu costume.” O que nos sustenta na crise é o que fizemos todos os dias sem crise. Ninguém constrói vida de oração no dia em que precisa dela.
Inimigos vasculharam sessenta anos de trabalho e não acharam nada. Vale perguntar o que uma investigação assim encontraria em nós.
Se alguém for hostilizado por nossa causa, que seja pelo que cremos, e não por atraso, malfeito ou aspereza.
O anjo não impediu que Daniel fosse lançado: fechou a boca dos leões depois que ele já estava lá dentro. É o mesmo Deus da fornalha.
O fio de todo o curso
Seis capítulos, três impérios, mais de setenta anos. O jovem que decidiu antes que a comida chegasse é o velho que ora antes que o decreto seja assinado. Entre uma coisa e outra houve sonhos interpretados, fornalha, escrita na parede e uma corte que o esqueceu. Nada disso o mudou, porque ele já sabia, desde o começo, quem governa os reinos do mundo.
Fixação
Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Seis questões, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, e errar aqui também ensina.
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Para pensar e conversar
Quem transforma tudo em questão de princípio fica sem força quando a questão realmente importante aparece. Vale escrever duas listas: o que é diferente e o que é contaminação.
Quem não decide antes decide no calor do momento, e quase sempre decide errado. Nomear a situação já é metade do caminho.
Firmeza não é grosseria. O modo de Daniel abriu porta em vez de fechá-la, e o texto atribui isso também a Deus, que lhe concedeu “misericórdia e compreensão” diante do chefe dos eunucos.
“Deus deu o conhecimento e a inteligência”, e eles estudaram três anos. Fé não dispensa preparo, e preparo não substitui Deus.
Compare com Jeremias 29.7 e João 17.15. Há situações que de fato exigem sair; a maioria exige permanecer sendo outra coisa.
A cova dos leões · Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil