W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume II · A administração da redenção

A unidade dos privilégios evangélicos

II, 391O ESTADO DE SALVAÇÃO.

Salvação. Por estado de salvação entende-se aqui o círculo de privilégios evangélicos que constituem o estado dos crentes em Cristo e lhes são comunicados pelo Espírito Santo. É a graça na qual eles estão firmes, distinta, de um lado, dos preliminares da vocação e, de outro, dos deveres éticos da religião: é o resultado daqueles e o fundamento destes. Esses privilégios são descritos de vários modos, como pertencentes à Justiça pessoal, à Filiação cristã e à Santificação do Espírito; e cada um deles é, ao mesmo tempo, externo e imputado, interno e real. Mas, embora assim distinguidos, devem também ser considerados como uma só grande bênção da aliança, a da salvação pessoal: uma só, como o dom comum da graça, comunicado pela administração do Espírito, em Cristo Jesus, sob diversos aspectos. Precisamos estudá-los primeiro na sua unidade geral e depois, individualmente, como distintos.

A UNIDADE DOS PRIVILÉGIOS EVANGÉLICOS.

Unidade das bênçãos da aliança em Cristo. A salvação pessoal é um só grande dom. Isso pode ser demonstrado pelos termos usados para descrevê-la; pela comunicação simultânea das suas diversas bênçãos à fé, por meio do Espírito; pela relação de todas elas com a união com Cristo; pela plenitude com que cada uma atende à posição relativa e à posição real do crente; e pela harmonia dos vários privilégios na recepção da única Expiação. É importante ter essa unidade em mente, para evitar o erro de refinar demais a distinção e a ordem dos vários dons que compõem a graça salvadora.

II, 392TERMOS GERAIS.

Termos. Há alguns termos gerais que são usados para descrever as bênçãos comunicadas sob a aliança cristã naquilo em que elas são uma só na sua diversidade. Esses termos são tirados da relação delas com Deus, o Doador, e do resultado naqueles que as recebem.

Graça. 1. Todas elas se resumem como a graça de Deus (2Co 8.1); como a graça de Deus que traz salvação (Tt 2.11); como o dom pela graça (Rm 5.15-16); e especialmente como esta graça na qual estamos firmes (Rm 5.2). Um exame cuidadoso dessas passagens mostrará que uma só palavra, GRAÇA, abrange todo o alcance das bênçãos da aliança em Cristo: a primeira, como a fonte; a segunda, como o benefício universal; a terceira, na sua realização mais perfeita. Nisso se baseia a distinção que às vezes se faz entre os três estados de natureza, de graça e de glória: o termo do meio exprime tudo o que fica entre o acesso, pela fé, a um estado de aceitação e a entrada na vida eterna. Por isso, o círculo de privilégios às vezes é chamado Aceitação diante de Deus: expressão fundada nas palavras aceitos no Amado (Ef 1.6), o que, literalmente, quer dizer AGRACIADOS no Amado [N. do T.: Pope segue a KJV; a NAA traz “que ele nos concedeu gratuitamente no Amado”]. Nada há que se acrescente à natureza e prepare para a glória que não se encontre na graça. Mas já se viu que o estado de natureza não está privado da influência de certa medida de graça.

Salvação. 2. A unidade dessas bênçãos é expressa por alguns termos tirados do lado humano, ou do resultado da sua concessão. Assim, lemos da salvação que temos em comum (Jd 3), expressão pela qual, como em muitíssimas outras passagens, por exemplo pela graça vocês são salvos (Ef 2.5), se entende toda a promessa e todo o dom do evangelho. Às vezes, todo o método divino, ou economia da graça, é ligado ao dom comum: o evangelho da salvação (Ef 1.13), a palavra desta salvação (At 13.26). Os privilégios da nova aliança são assim resumidos como um só, para depois serem decompostos, de vários modos, nos elementos que os compõem: santificação, remissão de pecados e renovação para a vida (Hb 10.14-18) [N. do T.: o original indica Hb 7.14-18]. Pode-se dizer ainda que, às vezes, cada uma dessas várias grandes bênçãos recebidas pelo homem representa todo o alcance do seu privilégio: a Santificação, na oração sumo sacerdotal e na Epístola aos Hebreus, tem esse significado amplo, assim como o têm a Justiça e a Filiação restaurada nos escritos de são Paulo e de são João. A palavra Vida (At 5.20), que é um compêndio, resume, em passagens numerosas demais para serem citadas, todo o dom de Deus por meio da mediação de Cristo: reúne num só termo tudo o que é negativo e tudo o que é positivo, e talvez seja o termo mais amplo usado no Novo Testamento. O mesmo se pode dizer do Reino de Deus (Rm 14.17) dentro de nós, como também do penhor do Espírito (Ef 1.14) comunicado aos crentes. E, como se verá mais plenamente adiante, a Expiação recebida (Rm 5.11) [N. do T.: Pope segue a KJV, we have now received the atonement; a NAA traz “recebemos, agora, a reconciliação”] é o resumo de todas as bênçãos que fluem para a alma a partir da palavra da reconciliação (2Co 5.19). Por fim, tudo é a promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho, da qual somos coparticipantes (Ef 3.6). É impossível estudar essas diversas palavras centrais nas suas múltiplas conexões sem sentir que cada uma delas tem o propósito de descrever o estado de graça como um só.

II, 393A APLICAÇÃO DA EXPIAÇÃO PELO ESPÍRITO.

O Espírito Santo. Administrador. Essa unidade se vê ainda no fato de que o Espírito Santo administra cada bênção como aplicação especial da Expiação.

1. Quanto a ele mesmo, na sua relação com a Obra Consumada de Cristo, ele é o Guardião dos mistérios da cruz; como disse o nosso Senhor: vai receber do que é meu (Jo 16.15). A redenção consumada é o seu tesouro, de cuja plenitude inesgotável todos nós recebemos das mãos dele. Ele é, ao mesmo tempo, o Administrador das bênçãos externas dessa redenção, o Agente que comunica as internas e a Testemunha de umas e outras. Não se quer dizer que ele dispense de uma só vez todas as provisões da aliança. Mas a comunhão do Espírito Santo (2Co 13.13) é o gozo comum da graça de Cristo, comunicada como resultado do amor do Pai na redenção. Receber a Expiação é receber as suas diversas bênçãos, ao menos nos seus começos, de uma só vez. A Justificação é a revogação de uma sentença no tribunal; a Adoção é, no mesmo momento, a revogação de uma sentença que excluía da herança da família divina; mas nenhuma das duas pode ser recebida à parte da renovação da alma para a nova vida de Deus e da sua Santificação para o serviço dele. E todos esses atos são benefícios simultâneos de uma só e mesma graça em Cristo. Todos são a aplicação pessoal, à fé que o próprio Espírito opera no homem, da única obediência sacrificial. Ele revela e atesta o perdão dos pecados, revela a adoção de filhos e dela persuade interiormente, e sela o crente para Deus: tudo isso num só e mesmo momento. E todos esses atos de testemunho ele os continua sempre, como o selo pessoal e permanente da participação na grande redenção.

II, 394Ordem do pensamento. 2. Com isso é perfeitamente compatível que haja uma ordem do pensamento que exige uma distinção entre essas bênçãos. Elas pertencem a relações diferentes: não são homogêneas. A justificação é perfeitamente distinta da adoção: a primeira é pronunciada pelo Juiz; a segunda, pelo Pai. A regeneração pertence a outra categoria: a vida nova e filial, embora seja um dom gratuito que acompanha a justificação, está ligada da maneira mais íntima à adoção, que é a adoção de filhos (Gl 4.5). É coerente tanto com a razão como com a Escritura dizer que os filhos regenerados são, como tais, adotados, e que os adotados têm necessariamente de ser regenerados. Dificilmente se concilia com uma ou com outra a ideia de que o Espírito de adoção que dá testemunho seja, por meio desse testemunho, o Agente da regeneração. Embora o Espírito que testifica seja o Espírito que opera interiormente, as duas operações são distintas. O amor que se acende na alma quando o amor divino é derramado é o primogênito fruto do Espírito de vida (Gl 5.22), e não o instrumento que produz essa vida. A vida é mais profunda até do que o amor. E, finalmente, a santificação pertence a uma ordem do pensamento inteiramente distinta da regeneração. A regeneração não é santificação iniciada em nenhum outro sentido senão naquele em que a justificação também o é; nem a santificação é regeneração continuada em nenhum outro sentido senão naquele em que é justiça continuada. Na verdade, ela envolve uma ideia inteiramente independente: a da consagração a Deus da alma justificada e regenerada. Mas disso trataremos mais adiante.

UNIÃO COM CRISTO.

União com Cristo. O Dom do Espírito conduz à União com Cristo; e, nessa união mística, todos os altos benefícios derivados da Fonte da bênção são um só. Estar EM CRISTO e ter CRISTO EM NÓS são, em todo o Novo Testamento, termos equivalentes; mas essa habitação recíproca é mediada pelo Espírito comum à Cabeça e aos seus membros: somos UM SÓ ESPÍRITO com ele, se nos tornamos membros do seu corpo místico. Aquele que se une ao Senhor é um só Espírito com ele (1Co 6.17) [N. do T.: a NAA traz “espírito”, com minúscula; Pope grafa Spirit e lê aqui o Espírito Santo].

Referida a cada um. 1. Ora, todas as prerrogativas do estado de graça são nossas em virtude da nossa união com o Senhor; cada uma delas, em particular, é referida expressamente à mesma fonte. De modo geral, somos abençoados com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestiais (ou nas coisas celestiais) em Cristo (Ef 1.3). Entesouradas nele, no alto, onde são a nossa herança, elas se fundem numa só bênção indistinguível. Mas, quando o Espírito as dispensa aos que estão unidos a Jesus na terra, elas são diversas, embora ainda uma só na sua diversidade. A nossa comunhão com ele, ou nele, é a nossa justiça, quer como justificação imputada, quer como conformidade inerente com a lei. Nele temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados (Ef 1.7); nele, fomos feitos justiça de Deus (2Co 5.21). A nossa filiação cristã se baseia na mesma união, seja ela adoção, seja regeneração: somos um com o primogênito entre muitos irmãos (Rm 8.29). Se alguém está em Cristo, é nova criação (2Co 5.17) [N. do T.: a NAA traz “é nova criatura”]; e essa nova criação é uma criação filial. Ele é a nossa vida; e é Deus quem nos deu vida juntamente com Cristo (Ef 2.5), ele que enviou o Espírito de seu Filho ao nosso coração, e esse Espírito clama: Aba, Pai! (Gl 4.6). A nossa consagração a Deus e a nossa santidade interior têm o mesmo fundamento e a mesma garantia. Os crentes são santificados em Cristo Jesus (1Co 1.2).

II, 395Um só nele. 2. Assim, a união com Cristo, a incorporação ao seu corpo místico pelo seu Espírito, faz de todas as bênçãos da aliança cristã uma só nele. E essa preciosa doutrina, cuja primeira declaração foi feita pelo próprio nosso Senhor, permeia o Novo Testamento. São João registra o grande dito do Salvador, reservado para as últimas horas do seu ensino: Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês (Jo 15.4); dito que foi glorificado na sua oração: a fim de que todos sejam um. E como tu, ó Pai, estás em mim e eu em ti, também eles estejam em nós… EU NELES, e tu em mim (Jo 17.21, 23). E ele traz pelo menos um eco dessas mesmas palavras: Nisto conhecemos que permanecemos nele e que ele permanece em nós: pelo fato de nos ter dado do seu Espírito (1Jo 4.13). Mas são Paulo, que não estava presente quando o Salvador dirigiu essa palavra aos seus discípulos, fez dela, mais do que qualquer outro escritor, a marca da religião pessoal, e especialmente da sua própria religião pessoal. É nesse tom que está afinada a Epístola aos Filipenses; nela, essa união assume uma variedade ilimitada de formas. Mas é na Epístola aos Gálatas que ela tem a sua expressão mais ousada. Ali, e somente ali, ela tem o caráter de uma união mística, ou, como às vezes se diz, ética ou moral, com a morte do Salvador. Três vezes o apóstolo fala da crucificação com Cristo. Primeiro, da sua comunhão, e da de todo crente, com a virtude da morte de Cristo para a lei: eu, mediante a própria lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. E esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim (Gl 2.19-20). Aqui está a união com a morte de Cristo e com a sua vida, como se ambas fossem do próprio apóstolo, por meio da identificação mística da fé: morto com o seu Senhor para a sentença da justiça, ele vivia a vida da justificação. Mas essa nova vida é, ela mesma, toda a plenitude do privilégio em Cristo. Em segundo lugar, ele volta à mesma ideia, peculiar a esta epístola, para mostrar que a vida regenerada é comunhão com a virtude da morte de Cristo para o pecado: os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e os seus desejos (Gl 5.24). Aqui a união é a mortificação contínua e a morte do velho homem, ou da natureza corrompida, significada pela carne, que ainda permanece no crente. Em terceiro lugar, ele se volta de novo para si mesmo e exulta no seu senso de comunhão com a virtude da morte de Cristo para o mundo e para tudo o que, no mundo, afasta a alma de Deus: por quem o mundo está crucificado para mim, e eu estou crucificado para o mundo (Gl 6.14) [N. do T.: a NAA traz “pela qual”, isto é, pela cruz]. Seria fácil mostrar que aqui se significam a justificação, a regeneração e a santificação, cada uma como um ideal aperfeiçoado e realizado; que cada uma define por si mesma todo o privilégio do evangelho; e que todas se fundamentam, e não de modo indistinto, na união da alma, pela fé, com o Salvador que morreu e ressuscitou. Isso quanto à vida presente; na vida por vir, a glória à qual elas conduzem, e para a qual preparam, é do mesmo modo a bem-aventurança da união com o Senhor: ser achado nele (Fp 3.9) é a suprema aspiração do apóstolo.

II, 396Perversão. 3. Essa doutrina tem sido pervertida de dois modos. Primeiro, por aqueles que a reduzem simplesmente à união com a Igreja e à comunhão de Cristo por meio de uma genuína profissão cristã: um estilo de interpretação que reduz sempre o EM a POR, contrariando a sã exegese gramatical. Segundo, por aqueles que interpretam essa união mística com Cristo apenas como a concessão soberana, no tempo, de uma prerrogativa eternamente decretada para os eleitos; como se a salvação tivesse sido provida em Cristo, de modo absoluto e incondicional, para aqueles que o Pai lhe deu antes que houvesse mundo. Mas, bem entendida, não há aspecto da salvação que temos em comum mais salutar na sua influência do que aquele que faz dela a comunhão da morte e da vida de Cristo, desfrutada por aqueles que são considerados como sofrendo, crucificados, ressuscitados e elevados aos céus com o Redentor.

II, 397CADA BÊNÇÃO DA ALIANÇA É PERFEITA.

Cada uma atende a todas as exigências. I. Há dois modos de considerar a unidade da grande salvação do evangelho: podemos vê-la como uma série de dons, dos quais um aperfeiçoa os demais; ou podemos ver cada um deles como pleno e completo sob um aspecto especial. Segundo o primeiro modo de ver, há em primeiro lugar a libertação da culpa na justificação, palavra que encerra ali a sua função ou é completada pela adoção. O novo nascimento é simultâneo, com os seus frutos e privilégios. Mas tudo desemboca no estado de perfeição por meio de uma santificação progressiva, que por fim se torna inteira e consumada. Segundo o outro modo de ver, a unidade das bênçãos da aliança cristã pode ser ilustrada pela plenitude com que cada uma delas atende à dupla categoria da nossa condição de pecadores: a de uma posição diante de Deus e a de um caráter interior. A graça da redenção tem necessariamente de atender a ambas as exigências. Cada um dos principais privilégios do cristianismo responde perfeitamente à necessidade do pecador, seja ela relativa, seja interior. A sua justiça é, por um lado, uma justificação na qual Deus não lhe imputa o pecado; e é, por outro, uma graça infundida pela qual a justiça da lei se cumpre nele. A sua filiação é, do mesmo modo, a adoção que o coloca na relação de filho e o novo nascimento que faz dele um filho. A sua santificação é a aspersão exterior que remove o impedimento à sua aceitação sobre o altar e também a purificação interior que o limpa de todo pecado. Ora, cada uma dessas bênçãos provê a consumação da religião da alma sob o seu próprio aspecto particular: há perfeição diante da lei, há perfeição na vida regenerada e há perfeição na santidade ao Senhor. Esses pontos serão tratados mais adiante com mais vagar.

Terminologia. II. Enquanto isso, pode ser útil considerar alguns dos termos teológicos que denotam a distinção acima referida, e a propriedade com que se aplica cada um deles.

II, 398Absoluto e relativo. 1. Achamos necessário falar de bênçãos ABSOLUTAS e RELATIVAS, termos que se correspondem com mais exatidão do que Relativo e Real, embora estes dois sejam usados com frequência e o último talvez evite certa incondicionalidade que se prende ao termo absoluto. Os privilégios do crente são todos eles dons inerentes, ao mesmo tempo que todos são relativos: afetam agora, e afetarão para sempre, a relação dele aos olhos de Deus, ao mesmo tempo que são agora, e serão mais plenamente no futuro, a posse absoluta daqueles que os recebem: eles nos são GRATUITAMENTE dados, mas nos são gratuitamente DADOS por Deus (1Co 2.12). A mesma verdade é expressa por três outros pares de termos correspondentes, que explicam o seu próprio sentido: EXTERNO e INTERNO, DECLARATÓRIO e COMUNICADO, IMPUTADO e OPERADO INTERIORMENTE.

Forense e moral. 2. É evidente que FORENSE e MORAL, como correlativos, não têm aplicação tão ampla. O primeiro pertence ao tribunal judicial, ou foro, onde só se recebe a absolvição da culpa: nada tem que ver com a santificação, nem com a adoção, a não ser que se suponha que este termo deriva do uso do direito romano. Somente a justificação é forense; e isso apenas na vida presente; pois, embora a justiça do santo aperfeiçoado venha a ser, por toda a eternidade, questão de imputação (visto que o seu pecado passado é um fato eterno), o tribunal em que ela é pronunciada não fica do lado de dentro da porta do céu. Pode-se acrescentar que o termo Imputado se limita, por convenção, à justificação, e o termo Declaratório, à adoção: falamos com mais propriedade de uma justiça imputada do que de uma filiação imputada, a qual é a graciosa declaração do Pai. E, além disso, embora a linguagem teológica em geral limite o termo santificação ao processo interior, pode-se dizer que ela também é imputada, ou declarada, ou externa. Mas forense, naturalmente, ela não pode ser.

Ideal e atual. 3. Podem-se notar alguns outros correlatos, de sentido não tão evidente. As bênçãos da aliança são IDEAIS, tal como se apresentam em toda a sua perfeição na carta da aliança; REALIZADAS ou ATUAIS, tal como constituem a experiência geral dos cristãos. Isso se ilustra na regeneração sem pecado de que fala são João: todo aquele que é nascido de Deus não comete pecado (1Jo 3.9) [N. do T.: a NAA traz “não vive na prática de pecado”; Pope segue a KJV, doth not commit sin]; e no testemunho de são Paulo de que Deus nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo (Ef 1.3). São, ao mesmo tempo, INCONDICIONAIS e CONTINGENTES: incondicionais para a Igreja dos eleitos, enquanto conhecida de antemão em Cristo, assim como Deus nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo (Ef 1.4); contingentes para os seus membros militantes, em estado de provação, aos quais se ordena confirmar a vocação e a eleição deles (2Pe 1.10).

II, 399Usos. 4. Mais adiante se verá que todos esses termos correlativos têm os seus usos; que as peculiaridades dos erros romanista, calvinista e outros têm muito que ver com a perversão deles; e que, por isso, uma avaliação precisa do seu sentido é importante, tanto para o teólogo como para o pregador. Enquanto isso, a justeza com que cada bênção abrange todo o estado e todas as condições da vida do crente mostra que a salvação da aliança é uma só na sua diversidade.

DIVERSIDADE NA UNIDADE.

Diversidade. Não temos melhor ilustração da unidade que reina na diversidade do que aquela que se encontra na própria diversidade. Não há benefícios salvadores conferidos na aliança cristã que não estejam ligados a um ou outro destes três termos: Justiça, Filiação, Santificação. Encontram-se sinônimos de cada um em número considerável; mas estas são as palavras regentes das fórmulas, que governam, respectivamente, amplas esferas da fraseologia evangélica. Embora cada uma abranja todo o estado da religião pessoal e providencie, no seu próprio domínio, para apresentar todo homem irrepreensível em Cristo, elas são tão distintas em si mesmas quanto os termos indicam, pertencendo, respectivamente, ao Tribunal Judicial, à Casa e ao Templo do cristianismo.

Justiça. I. A JUSTIÇA preside ao evangelho tal como é administrado no Tribunal Mediador. Ali Deus é o Justo Juiz; Cristo é o Mediador de uma aliança de perdão, tendo oferecido uma expiação na qual se destaca a ideia de satisfação à justiça divina como guardiã da lei, e em virtude da qual ele, como o Justo, é Advogado. Naquele tribunal, o ímpio e o pecador comparecem no seu caráter especial de condenados pela lei. Ali o arrependimento é simplesmente convencimento do pecado e confissão. Ali se pronuncia a sentença do perdão, ou remissão da pena, e da justificação, ou aceitação como justo por amor de Cristo. E o testemunho do Espírito é a declaração do perdão à consciência, fazendo o pecador absolvido sentir que não há condenação. Aquele tribunal exige também a garantia, em favor de todo aquele que é absolvido, de que nele se cumprirá a justiça da lei. Tudo o que o Novo Testamento diz a respeito da justiça, em toda a severa família de termos que lhe pertence, é coerente com a grande ideia de que o evangelho é administrado num tribunal de justiça suprema, rígida, exigente e perfeita. A justiça está escrita nos seus umbrais, atrás do seu Juiz e por toda parte. As duas ideias de imputação e de comunicação estão inextricavelmente entrelaçadas e constituem a distinção eterna entre esse tribunal e toda figura humana dele. Tudo é judicial, do começo ao fim. Nenhum dos termos que temos usado pode ser transferido, a rigor, para qualquer dos outros departamentos. Em resumo: o Deus que preside é somente Juiz; não é que ele perdoe como Governante e justifique como Juiz; não há ato soberano à parte do judicial. Tanto neste mundo como no limiar da eternidade, o evangelho é uma economia judicial.

II, 400Filiação. II. A FILIAÇÃO é o centro dos privilégios cristãos que pertencem à relação filial dos crentes com o Pai, em Cristo. Aqui muda toda a terminologia. O povo de Deus é uma família, numa Casa em que o Redentor é o Irmão mais velho, o Primogênito entre muitos irmãos, o Mediador de uma aliança mais de reconciliação do que de satisfação. O pecador é recebido como pródigo: a sua regeneração é a nova vida dada pelo Espírito de Cristo, e a sua adoção é a sua reintegração em todos os privilégios da família de Deus. O Espírito Santo é o Espírito de adoção: o seu testemunho é interior, não tanto falado a nós quanto falado em nós, testemunhando juntamente com o nosso espírito regenerado e capacitando-nos a chamar Deus de Pai. Ali nenhuma lei reina, a não ser a lei do amor interior; e a perfeição do caráter cristão é aquela vida mais abundante da qual o pecado, em ato e em raiz, desapareceu. A sua bênção é a bênção filial; a sua santidade é a imitação do Primogênito; o seu alimento é a vida de Cristo, dada em penhor no banquete sacramental. É o departamento central e supremo do privilégio cristão, o único do qual se diz que fomos predestinados para ser conformes à Imagem do Filho.

II, 401Santificação. III. A SANTIFICAÇÃO é a bênção comunicada aos crentes quando são admitidos na presença e no serviço do Deus da santidade, no seu templo. Aqui o pecador busca entrada como contaminado e interiormente corrompido. No templo cristão, o Salvador é o Sumo Sacerdote e não admite outro nome. Ele é o Mediador de uma aliança ratificada agora, não por satisfação nem por amor reconciliador, mas por um sacrifício expiatório. A aspersão do seu sangue remove o obstáculo à aceitação sobre o altar, e o Espírito que testemunha imprime o selo silencioso da consagração, que é a sua própria habitação pessoal na unidade do Pai e do Filho. Essa bênção é a libertação da alma de tudo o que é contrário ao serviço puro de Deus no seu santuário. Aqui a perfeição é a inteira santificação. O amor que no Tribunal é o cumprimento da lei, e na Casa é a conformidade com a Lei viva e a imagem do Filho amado, é aqui a fonte e a energia da inteira consagração.

Unidade na diversidade. Ora, não é preciso provar que todas essas bênçãos são realmente uma só, sob aspectos diferentes. O pecador absolvido no Tribunal é, pelo mesmo ato, recebido na Família e consagrado no Templo. O Juiz, o Pai e o Deus são Um. O Advogado, o Filho e o Sumo Sacerdote são Um. O penitente que está diante do tribunal, que é recebido como pródigo à porta, que se aproxima do altar da consagração levando apenas contaminação na alma, essa alma que ele vem devolver a Deus, é um só e o mesmo penitente. O Espírito que testemunha À consciência, COM o espírito, e como selo SOBRE o coração ou DENTRO dele, é um só Espírito. A perfeição de cada uma é a mesma perfeição; e a porta de cada uma se abre para a eterna Presença de Deus.

Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. II, pp. 391-401, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.