“Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.”Marcos 8.34 · NAA
Para começar
Por que os discípulos, depois de duas multiplicações de pães, ainda se afligiam por não terem pão no barco? Por que Jesus curou um cego em duas etapas, se podia curá-lo com uma só palavra? Como Pedro pôde fazer a maior confissão de fé dos Evangelhos e, minutos depois, ser chamado de Satanás?
Estas perguntas encontram resposta quando lemos Marcos 8 como aquilo que ele é: a sala de aula de Jesus, o coração do processo de formação de discípulos. Bem no meio do livro, este capítulo concentra, num único dia, os elementos fundamentais desta escola: a compaixão que supre, a correção da incredulidade, a visão que amadurece em dois toques, as duas perguntas que definem a fé, a confissão e o tropeço de Pedro e o chamado à cruz. Um dia inteiro com Jesus. Imagine o impacto disso.
Lembre a moldura: a grande seção do discipulado é emoldurada por duas curas de cegos — o cego de Betsaida, curado em dois toques (Mc 8.22-26), e Bartimeu, à saída de Jericó (Mc 10.46-52). Não é coincidência: Marcos está nos dizendo que o tema central é aprender a enxergar — quem Jesus é, o caminho da cruz e, com os olhos dele, o mundo que ele veio salvar.
Mc 8.1-10
Milagres grandes podem se repetir; Deus não está limitado a agir uma única vez.
A multidão estava com Jesus havia três dias num lugar deserto, ouvindo a sua voz, sem murmurar nem reclamar de fome (Mc 8.2). Isto é notável, quase um milagre silencioso: três dias de jejum forçado e nenhuma murmuração. A Palavra os alimentava mais do que o pão, pois “nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4).
Mas observe quem toma a iniciativa. Ninguém pediu nada. Foi Jesus quem percebeu a necessidade: “Tenho compaixão desta multidão… Se eu os mandar para casa em jejum, vão desfalecer pelo caminho; e alguns deles vieram de longe” (Mc 8.2-3). Ele viu o sacrifício de quem veio de longe, valorizou este esforço e providenciou o milagre a partir de sete pães e alguns peixinhos — e todos comeram e se fartaram, sobrando sete cestos cheios (Mc 8.5-8). Assim é o nosso Senhor: ele vê o que ninguém vê. Viu a oferta da viúva pobre que ninguém notou (Mc 12.41-44), conhece a palavra antes que chegue à nossa língua (Sl 139.4) e é “socorro bem presente na angústia” (Sl 46.1). Por isso Paulo pode nos exortar: “Sejam firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o trabalho de vocês não é em vão” (1Co 15.58). Deus vê o nosso esforço, e a sua compaixão supre o que a nossa dedicação não alcança.
Mc 8.11-21
Os fariseus exigem um sinal do céu, mesmo depois de tantos milagres. Há quem, por mais sinais que veja, permaneça incrédulo — o problema não está nos olhos, mas no coração.
Jesus suspira profundamente no espírito e embarca com os discípulos para a outra margem. E no barco acontece a cena que seria cômica se não fosse tão parecida conosco: eles se esqueceram de levar pão, restou um único pão para todos, e começa a discussão sobre quem esqueceu (Mc 8.14, 16). Jesus então os adverte: “Cuidado com o fermento dos fariseus e com o fermento de Herodes” (Mc 8.15). O fermento é aquilo que, em pequena quantidade, leveda a massa toda: a incredulidade dos fariseus podia contaminar também os discípulos.
E a repreensão vem sem anestesia: “Por que vocês estão discutindo sobre não terem pão? Ainda não compreendem nem entendem? Vocês têm o coração endurecido? Tendo olhos, não veem?” (Mc 8.17-18). Em seguida, Jesus aplica o remédio da memória: “Quando parti os cinco pães para os cinco mil, quantos cestos cheios vocês recolheram?” Doze. “E os sete pães para os quatro mil?” Sete (Mc 8.19-20). E conclui: “Vocês ainda não entendem?” (Mc 8.21).
Mc 8.22-26
É o único milagre de cura registrado em duas etapas. Jesus podia curar com uma palavra. Por que dois toques?
No primeiro toque, o homem passa a ver de forma turva: “Vejo os homens, porque, como árvores, os vejo andando” (Mc 8.24). No segundo, passa a ver tudo claramente (Mc 8.25). A resposta está na posição do milagre: ele vem logo depois de Jesus perguntar aos discípulos “Tendo olhos, não veem?” (Mc 8.18) e logo antes da confissão ainda imperfeita de Pedro. O milagre físico é uma parábola encenada da condição espiritual dos discípulos: eles já haviam recebido um primeiro toque, já viam mais do que antes, já haviam deixado tudo para seguir a Jesus — mas ainda enxergavam de modo embaçado, confundindo o Messias sofredor com um rei de glória imediata.
A visão espiritual, como a deles, amadurece por etapas. Quantos de nós não estamos exatamente aí: já tocados por Cristo, já fora da escuridão, mas ainda vendo homens como árvores que andam? A boa notícia é que Jesus não abandona a obra no primeiro toque. Aquele que começou a boa obra há de completá-la (Fp 1.6). Às vezes, o que mais precisamos pedir é um segundo toque.
Mc 8.27-33
“Quem os homens dizem que eu sou?” E depois, aquela da qual ninguém escapa: “E vocês, quem dizem que eu sou?”
A primeira resposta revela a visão da multidão: João Batista, Elias, um dos profetas (Mc 8.28). Uma visão elogiosa, mas turva; viam algo de muito bom em Jesus, mas não viam o Filho de Deus. E esta continua sendo a visão do mundo até hoje: Jesus como grande mestre, revolucionário, exemplo moral. Tudo verdadeiro, tudo insuficiente. Então vem a segunda pergunta, e Pedro responde: “Tu és o Cristo” (Mc 8.29) — e Mateus registra o complemento: “o Filho do Deus vivo”, revelado não por carne e sangue, mas pelo Pai (Mt 16.16-17). Nenhuma pesquisa de opinião salva ninguém; a fé que salva é sempre resposta em primeira pessoa.
Feita a confissão, Jesus começa a ensinar abertamente que era necessário que o Filho do Homem sofresse, fosse rejeitado, morto, e ressuscitasse depois de três dias (Mc 8.31). E Pedro, o mesmo que acabara de confessar, chama Jesus à parte e começa a repreendê-lo (Mc 8.32) — como quem diz: nada de sofrimento, nada de morte, nada de cruz, só vitória. A resposta é a repreensão mais dura dos Evangelhos: “Para trás de mim, Satanás! Porque você não pensa nas coisas de Deus, e sim nas dos homens” (Mc 8.33). A dureza se explica: Pedro repetia, sem saber, a tentação do deserto, quando o diabo ofereceu a Jesus glória sem cruz (Mt 4.1-11). O mesmo Pedro alternava altos e baixos, visão e cegueira; sua visão de Cristo era real, mas ainda de primeiro toque. Satanás continua operando hoje onde operou em Pedro: cegando seguidores de Jesus para que pensem em Deus apenas em termos do aqui e agora. Mas “se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os seres humanos” (1Co 15.19).
Mc 8.34-38
“Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8.34).
Há duas cruzes neste capítulo: a cruz de Cristo, que só ele podia carregar, na qual foi consumada a nossa redenção; e a cruz do discípulo, que ninguém pode carregar por nós — a renúncia diária de si mesmo para viver sob o senhorio de Jesus (Lc 9.23; Gl 2.20). “Pois quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho vai salvá-la. Pois que adianta alguém ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mc 8.35-36). O sofrimento pelo Reino não é acidente de percurso; é graça concedida: “a vocês foi dada a graça de não apenas crer em Cristo, mas também de sofrer por ele” (Fp 1.29).
Ao meditar neste chamado radical, me vem à memória Fernando Pessoa. O poeta cantou os grandes feitos das navegações e perguntou pelo seu preço: “Quantas noivas ficaram por casar para que fosses nosso, ó mar!”. E respondeu: “Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador tem que passar além da dor”. Noutro poema, sobre D. Sebastião, vai mais longe: “Louco, sim, louco, porque quis grandeza qual a Sorte a não dá”; e arremata que, sem a loucura de viver por um propósito maior, o homem é “cadáver adiado que procria”. Sem um ideal que valha a vida, apenas existimos até morrer.
Aqui está a diferença essencial: os portugueses lutaram por mares, impérios e glórias temporais; Jesus nos chama a um ideal eterno. Eles buscaram impérios que passaram; nós somos chamados a um Reino que jamais passará (Dn 7.14; Hb 12.28). Se homens foram capazes de tamanha renúncia por glória humana, quanto mais nós, por amor daquele que nos amou primeiro (1Jo 4.19)? Aos olhos do mundo, loucura; para nós, “a loucura de Deus é mais sábia do que os homens” (1Co 1.25).
Fixação
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Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.
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Para pensar e conversar
Tarefas
Reler Mc 8 e anotar as duas perguntas de Jesus (Mc 8.27, 29), respondendo à segunda por escrito, em primeira pessoa; memorizar Mc 8.34; e fazer nesta semana a oração de dois toques: “Senhor, mostra-me onde ainda vejo homens como árvores — e toca-me de novo.”
Aula 6
Do monte da Transfiguração ao vale do menino atormentado: a glória que confirma o caminho da cruz e a oração do pai que clamou “creio, ajuda-me na minha falta de fé” (Mc 9). Ir para a Aula 6 →
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. · Bispo Ildo Mello