Evangelho de MarcosAula 8

Jerusalém: o Senhor no Templo

“A minha casa será chamada casa de oração para todas as nações.”Marcos 11.17 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Mc 11–12; Zc 9.9-10; Sl 118.19-29

Para começar

As perguntas que nos guiam

O Rei chega à sua cidade — montado num jumentinho. E a primeira coisa que ele inspeciona não é o palácio de Herodes nem a fortaleza romana: é o templo.

1

Que tipo de rei é este?

Sem cavalo de guerra, sem espada, aclamado por gente simples com ramos e capas no chão.

2

Por que amaldiçoar uma figueira?

O único milagre destrutivo de Jesus é uma parábola encenada — e o alvo não é a árvore.

3

Qual é o maior mandamento?

De todas as perguntas daqueles dias, uma foi sincera — e recebeu a resposta que resume a Lei inteira.

Mc 11.1-11

A entrada do Rei manso

Pela primeira vez, Jesus aceita — e organiza — uma manifestação messiânica pública.

Ele envia dois discípulos por um jumentinho “sobre o qual ninguém ainda montou” (Mc 11.2) e entra em Jerusalém cumprindo à letra a profecia: “Eis aí o seu rei, que vem a você, justo e trazendo salvação, humilde, montado num jumento” (Zc 9.9). A multidão estende capas e ramos pelo caminho, gritando o Salmo 118: “Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor! Bendito o reino que vem, o reino de Davi, nosso pai!” (Mc 11.9-10; Sl 118.25-26). Tudo proclama realeza — e tudo desmente a realeza que esperavam: o rei vem manso, sem exército, chorando sobre a cidade (Lc 19.41). Marcos encerra o dia com uma frase carregada: Jesus entrou no templo, “observou tudo ao redor” e saiu (Mc 11.11). Foi uma vistoria. O Senhor veio ao seu templo (Ml 3.1) — e o veredicto sairia no dia seguinte.

Mc 11.12-25

A figueira e o templo: o sanduíche de Marcos

Marcos entrelaça de novo duas histórias — figueira, templo, figueira — para que uma explique a outra.

No caminho, Jesus tem fome e vai a uma figueira cheia de folhas; não achando “senão folhas”, sentencia: “Nunca jamais coma alguém fruto de você!” (Mc 11.13-14). A figueira frondosa e sem figos é Israel daqueles dias — e toda religiosidade de fachada: folhagem litúrgica exuberante, fruto nenhum (Os 9.10, 16; Mq 7.1). Entre a maldição e o seu cumprimento, Marcos coloca a cena do templo: Jesus expulsa vendedores e compradores, derruba as mesas dos cambistas e não permite que se transporte utensílio algum pelo pátio (Mc 11.15-16). E explica com dois profetas: “A minha casa será chamada casa de oração para todas as nações. Mas vocês fizeram dela um covil de assaltantes” (Mc 11.17; Is 56.7; Jr 7.11).

O comércio ocupava justamente o pátio dos gentios — o único espaço reservado às nações. O lucro religioso havia tomado o lugar da oração dos de fora. Na manhã seguinte, a figueira estava “seca desde as raízes” (Mc 11.20): a parábola encenada se completa, e a lição de Jesus, surpreendentemente, é sobre fé e oração — “Tenham fé em Deus… Tudo o que vocês pedirem em oração, creiam que receberam, e assim será com vocês. E, quando estiverem orando, perdoem” (Mc 11.22-25). O templo que Deus procura é um povo que ora, crê e perdoa; folhas sem figos secam.

Advertência pastoral: a distância entre folhas e frutos é a distância entre reputação e realidade. A pergunta da figueira alcança cada igreja e cada crente: se o Senhor viesse hoje com fome ao nosso pátio, encontraria figos — oração, fé, perdão, justiça — ou apenas a nossa bela folhagem?

Mc 11.27–12.34

O dia das perguntas: armadilhas e a resposta maior

Sacerdotes, fariseus, herodianos e saduceus se revezam em perguntas-armadilha. Jesus responde a todas — e conta uma parábola que lhes tira o chão.

“Com que autoridade?” (Mc 11.28). Jesus devolve com a pergunta sobre o batismo de João — do céu ou dos homens? — e o silêncio calculado deles (“não sabemos”) revela que a questão nunca foi de evidência, mas de conveniência (Mc 11.29-33).
A parábola dos vinhateiros (Mc 12.1-12). A vinha é Israel (Is 5.1-7); os servos maltratados, os profetas; e por fim o dono envia “ainda um, o seu filho amado” — que os lavradores matam para ficar com a herança. Jesus está contando, dias antes, a própria morte — e cita o Salmo 118: “A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular” (Mc 12.10; Sl 118.22). Eles entenderam “que esta parábola era contra eles” (Mc 12.12).
O tributo a César (Mc 12.13-17). A armadilha era perfeita: dizer “paguem” indispunha com o povo; “não paguem”, com Roma. Jesus pede um denário: “De quem é esta imagem?” — “De César.” — “Deem a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” A moeda leva a imagem de César; o ser humano leva a imagem de Deus (Gn 1.27): devolva-se a cada um o que lhe pertence — e ninguém dê a César o coração.
A ressurreição (Mc 12.18-27). Os saduceus, que não criam em ressurreição, trazem a fábula da mulher com sete maridos. Jesus aponta o duplo erro: “vocês não conhecem as Escrituras nem o poder de Deus”. E prova a ressurreição pelo tempo de um verbo: “Eu sou — não ‘eu fui’ — o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó. Ele não é Deus de mortos, e sim de vivos” (Mc 12.26-27; Êx 3.6).
O maior mandamento (Mc 12.28-34). Um escriba sincero pergunta, e Jesus une o Shemá ao amor ao próximo: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força” e “Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes” (Dt 6.4-5; Lv 19.18). O escriba concorda — vale mais que holocaustos — e ouve: “Você não está longe do Reino de Deus”. Perto não é dentro: falta o passo da fé naquele que estava diante dele.

Mc 12.35-44

Do esplendor dos escribas à oferta da viúva

Jesus encerra o dia virando o jogo: faz a sua pergunta — e depois aponta para a pessoa mais invisível do pátio.

Primeiro, a pergunta que ninguém respondeu: se o Cristo é filho de Davi, como Davi, no Salmo 110, o chama de Senhor — “Disse o Senhor ao meu Senhor: assenta-te à minha direita”? (Mc 12.35-37; Sl 110.1). O Messias é mais que descendente de Davi: é o seu Senhor. Em seguida, o alerta contra os escribas que amam vestes talares, saudações e primeiros lugares, “que devoram as casas das viúvas e, para disfarçar, fazem longas orações” (Mc 12.38-40).

E então, sentado diante do gazofilácio, Jesus observa a multidão depositar ofertas. Muitos ricos depositavam grandes quantias; e uma viúva pobre lançou duas pequenas moedas, um quadrante — a menor oferta daquele dia em valor. Jesus chama os discípulos: “Em verdade lhes digo que esta viúva pobre depositou mais do que todos… porque todos deram do que lhes sobrava; mas ela, da sua pobreza, deu tudo o que possuía, todo o seu sustento” (Mc 12.41-44). Ninguém a notou; Jesus a notou — como notou o esforço dos que vieram de longe (Mc 8.3). Deus não mede a oferta pelo valor que sai da mão, mas pelo que permanece nela e pela confiança que a move. No dia em que os poderosos do templo armavam ciladas, a maior adoradora do pátio era uma viúva anônima com duas moedinhas.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

“Todos deram do que lhes sobrava; mas ela, da sua pobreza, deu tudo” (Mc 12.44). Como esta régua de Jesus avalia não só as suas ofertas, mas o seu tempo, os seus dons e o seu culto?Ver resposta sugerida
A régua de Jesus mede a partir do que fica, não do que sai: os ricos deram muito e não sentiram; a viúva deu pouco e entregou tudo. Aplicada ao dinheiro, a pergunta deixa de ser “quanto dei?” e passa a ser “quanto custou-me dar — e em quem estou confiando com o que resta?” (2Co 8.2-3, 12). Aplicada ao tempo, expõe se servimos a Deus com as sobras da agenda; aplicada aos dons, se oferecemos o que não nos custa exposição nem esforço; aplicada ao culto, se levamos a Deus um coração inteiro ou distraído (Ml 1.8). O convite não é a culpa, é a confiança: a viúva pôde dar tudo porque cria que o Deus do templo cuida das viúvas (Sl 68.5). E, no fim, ela apontava para aquele que a observava: dias depois, o Filho daria, da sua riqueza, tudo — a própria vida (2Co 8.9).
Um irmão pergunta: “Jesus expulsando vendedores com chicote não contradiz o Jesus manso e humilde?” Como responder com mansidão?Ver resposta sugerida
Primeiro, situe a cena: o comércio ocupava o pátio dos gentios, o único lugar de oração reservado às nações — o lucro religioso roubava dos de fora o acesso a Deus, e “devorar” os simples em nome da religião é o que Jesus mais duramente denuncia (Mc 11.17; 12.40). Segundo, distinga mansidão de passividade: manso, na Escritura, é o forte sob controle — o mesmo Moisés “mui manso” (Nm 12.3) quebrou as tábuas diante do bezerro. A ira de Jesus é o zelo do amor: “o zelo da tua casa me consome” (Jo 2.17; Sl 69.9); ele feriu mesas, não pessoas, e no dia seguinte estava no mesmo templo curando e ensinando (Mt 21.14; Mc 12.35). Um amor incapaz de indignar-se com a exploração dos pequenos não seria manso — seria indiferente. A mansidão de Cristo o levou ao jumentinho e à cruz; o seu zelo, às mesas dos cambistas. As duas coisas são o mesmo amor.

Para casa e próxima aula

Tarefas

Ler Mc 11–12 e anotar cada citação do Antigo Testamento feita por Jesus nesses capítulos, procurando o texto original; e fazer a “vistoria da figueira”: listar com honestidade três folhas (aparências) e três frutos (realidades) da sua vida com Deus, orando sobre a diferença.

Aula 9

O sermão profético do monte das Oliveiras: a destruição do templo, os sinais, a grande tribulação e a ordem que ecoa até hoje — vigiai (Mc 13). Ir para a Aula 9 →

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. · Bispo Ildo Mello