Daniel · Aula 6Lição

A cova dos leões

“Três vezes por dia, ele se punha de joelhos, orava, e dava graças diante do seu Deus, como era o seu costume.”Daniel 6.10 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Leitura prévia: Dn 6; 1Rs 8.46-53; Hb 11.32-38

O novo império

Um velho promovido, e a inveja que veio junto

Babilônia caiu, os medos e persas assumiram, e Daniel, já com mais de oitenta anos, foi promovido outra vez. O texto explica por quê: “porque nele havia um espírito excelente” (Dn 6.3).

Um estrangeiro, servo de um império derrotado, prestes a ser posto sobre todo o reino. A reação dos colegas foi imediata, e o que o texto diz sobre a investigação que fizeram é um dos maiores elogios já escritos sobre alguém:

Então disseram entre si: “Nunca acharemos um pretexto para acusar esse Daniel, a menos que procuremos algo relacionado com a lei do Deus que ele adora” (Dn 6.5). Não havia como pegá-lo por corrupção, negligência ou deslealdade. Só restava a fé dele.

Este é o tipo de perseguição que honra a Deus. Muitos cristãos sofrem no trabalho por atraso, malfeito ou aspereza, e chamam isso de perseguição religiosa. Com Daniel não havia dúvida possível: o único ponto vulnerável era a oração dele.

A armadilha foi montada com bajulação. Foram ao rei propondo um decreto que proibia, por trinta dias, qualquer pedido a qualquer deus ou homem que não fosse o próprio rei (Dn 6.7). E mentiram ao dizer que todos os presidentes concordavam: Daniel, o primeiro deles, nem fora consultado.

O versículo central

“Como era o seu costume”

“Quando Daniel soube que o documento tinha sido assinado, voltou para casa. Em seu quarto, no andar de cima, as janelas abriam para o lado de Jerusalém. Três vezes por dia, ele se punha de joelhos, orava, e dava graças diante do seu Deus, como era o seu costume” (Dn 6.10).

Leia devagar, porque cada detalhe importa.

Ele soube, e foi orar

Não convocou reunião, não organizou reação, não procurou o rei. Diante da notícia, foi para casa e se ajoelhou.

Nem mais, nem menos

Não aumentou as orações para fazer ponto, nem as reduziu para se proteger. Manteve exatamente o que fazia. A crise não mudou a rotina dele em nada.

As janelas abertas para Jerusalém

Ele orava voltado para a cidade destruída, como Salomão pedira que os exilados fizessem (1Rs 8.48). Um homem que nunca vira Jerusalém em pé continuava orando na direção dela.

“E dava graças”

No dia em que a própria sentença de morte foi assinada, ele deu graças. Não é uma frase de efeito: está no texto.

E a expressão final explica tudo o que virá: “como era o seu costume”. Ele não teve de decidir nada naquele dia. A decisão já estava tomada havia sessenta anos, três vezes por dia, na mesma sala. Quando a lei mudou, ele simplesmente continuou.

A noite

O rei que não dormiu

Descoberto orando, Daniel foi denunciado. E aqui a narrativa faz algo inesperado: ela se demora no sofrimento do rei, e não no de Daniel.

Dario percebeu tarde demais que fora usado. “Ao ouvir isso, o rei ficou muito triste e decidiu livrar Daniel. Até o pôr do sol, se empenhou por salvá-lo” (Dn 6.14). Preso à própria lei, teve de mandar executá-la. E, ao fazê-lo, disse uma frase que é quase uma oração: “O seu Deus, a quem você serve continuamente, que ele o livre” (Dn 6.16).

Depois, “o rei se dirigiu para o seu palácio, passou a noite em jejum e não deixou trazer à sua presença instrumentos de música; e o sono fugiu dele” (Dn 6.18). O imperador jejuou pelo prisioneiro. O homem no poder passou a noite pior do que o homem na cova.

De madrugada

Correu à cova e chamou “com voz triste”: “Daniel, servo do Deus vivo! Será que o seu Deus, a quem você serve continuamente, conseguiu livrá-lo dos leões?” (Dn 6.20).

A resposta

“O meu Deus enviou o seu anjo e fechou a boca dos leões, para que não me fizessem mal algum. Porque fui considerado inocente diante dele. E também não cometi nenhum delito contra o senhor, ó rei” (Dn 6.22).

Repare que Daniel afirma duas inocências: diante de Deus e diante do rei. A vida dele era coerente nas duas direções. Não havia um Daniel para o culto e outro para o expediente.

E o narrador acrescenta a explicação: “não se achou nele ferimento algum, porque havia confiado em seu Deus” (Dn 6.23).

A mesma cautela da aula sobre a fornalha vale aqui. Deus fechou a boca dos leões para Daniel. Hebreus 11 lembra que houve fiéis que “fecharam a boca de leões” e outros que foram “serrados ao meio, mortos ao fio da espada” (Hb 11.33, 37). A lição não é que quem ora sempre escapa: é que quem confia em Deus não está sozinho na cova.

O capítulo termina com o decreto de Dario, que reconhece o “Deus vivo e que permanece para sempre”, cujo reino “não será destruído” (Dn 6.26). E com uma nota final: “Daniel prosperou no reinado de Dario e no reinado de Ciro, o persa” (Dn 6.28). O menino do capítulo 1 continua de pé, agora sob o rei que autorizaria a volta do povo para casa.

Para a nossa vida

O que sustenta na hora da cova

O hábito de sempre

“Como era o seu costume.” O que nos sustenta na crise é o que fizemos todos os dias sem crise. Ninguém constrói vida de oração no dia em que precisa dela.

Uma vida sem brechas

Inimigos vasculharam sessenta anos de trabalho e não acharam nada. Vale perguntar o que uma investigação assim encontraria em nós.

Perseguição por causa da fé, não da falha

Se alguém for hostilizado por nossa causa, que seja pelo que cremos, e não por atraso, malfeito ou aspereza.

Deus na cova

O anjo não impediu que Daniel fosse lançado: fechou a boca dos leões depois que ele já estava lá dentro. É o mesmo Deus da fornalha.

O fio de todo o curso

De uma bandeja recusada a uma janela aberta

Seis capítulos, três impérios, mais de setenta anos. O jovem que decidiu antes que a comida chegasse é o velho que ora antes que o decreto seja assinado. Entre uma coisa e outra houve sonhos interpretados, fornalha, escrita na parede e uma corte que o esqueceu. Nada disso o mudou, porque ele já sabia, desde o começo, quem governa os reinos do mundo.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Seis questões, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, e errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Daniel cedeu na língua, na cultura e no nome, mas não na mesa. Quais são, hoje, as suas linhas, e quais são apenas costumes que o senhor defende como se fossem princípios?Ver resposta sugerida

Quem transforma tudo em questão de princípio fica sem força quando a questão realmente importante aparece. Vale escrever duas listas: o que é diferente e o que é contaminação.

O texto diz que Daniel “resolveu” antes de a pressão chegar. Que decisão o senhor precisa tomar agora, com calma, para não ter de tomá-la sob pressão depois?Ver resposta sugerida

Quem não decide antes decide no calor do momento, e quase sempre decide errado. Nomear a situação já é metade do caminho.

Ele pediu, propôs um teste e levou em conta o risco que o funcionário corria. Como o senhor tem defendido suas convicções: com firmeza cortês ou com confronto?Ver resposta sugerida

Firmeza não é grosseria. O modo de Daniel abriu porta em vez de fechá-la, e o texto atribui isso também a Deus, que lhe concedeu “misericórdia e compreensão” diante do chefe dos eunucos.

Os quatro foram os melhores alunos de uma escola pagã. De que maneira a qualidade do seu trabalho tem sido, ou deixado de ser, um testemunho?Ver resposta sugerida

“Deus deu o conhecimento e a inteligência”, e eles estudaram três anos. Fé não dispensa preparo, e preparo não substitui Deus.

Deus não tirou Daniel da Babilônia; guardou-o dentro dela. Onde o senhor tem desejado fugir de um ambiente em vez de ser fiel dentro dele?Ver resposta sugerida

Compare com Jeremias 29.7 e João 17.15. Há situações que de fato exigem sair; a maioria exige permanecer sendo outra coisa.

A cova dos leões · Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil