“E mesmo que ele não nos livre, fique sabendo, ó rei, que não prestaremos culto aos seus deuses, nem adoraremos a imagem de ouro que o senhor levantou.”Daniel 3.18 · NAA
A cena
“O rei Nabucodonosor fez uma imagem de ouro que tinha vinte e sete metros de altura e dois metros e setenta de largura” (Dn 3.1).
Vale lembrar o que acontecera pouco antes. No sonho da estátua, o rei era a cabeça de ouro, e o restante da imagem, de prata, bronze, ferro e barro, anunciava que o reino dele passaria. A resposta de Nabucodonosor foi mandar fazer uma estátua inteira de ouro.
É a soberba respondendo à revelação. Ele ouviu que seu reino teria fim e mandou erguer, em metal, a negação daquilo. O orgulho raramente discute com Deus: em geral apenas constrói alguma coisa maior.
A cerimônia foi um ato de Estado. Todas as autoridades do império convocadas, uma orquestra dando o sinal, e uma ordem simples: ao som dos instrumentos, todos se prostram. Não era apenas religião: era teste de lealdade política. E a pena estava anunciada: a fornalha.
O capítulo não o menciona. Não sabemos por quê: pode estar a serviço em outro lugar, doente, ou simplesmente fora do alcance da narrativa. O texto não explica, e é melhor não inventar. O que se pode dizer é que os três não tiveram, naquele dia, o amigo mais forte do grupo ao lado. Tiveram uns aos outros e tiveram Deus.
A denúncia veio com sabor de ressentimento: “Há uns homens judeus, que o senhor, ó rei, pôs como administradores da província da Babilônia” (Dn 3.12). Estrangeiros promovidos, e agora acusados. A inveja costuma usar a religião como pretexto.
O coração da lição
O rei ofereceu uma segunda chance e encerrou com um desafio: “E quem é o deus que os poderá livrar das minhas mãos?” (Dn 3.15).
A resposta dos três é uma das maiores declarações de fé da Bíblia, e precisa ser lida inteira, nas três partes:
Não havia o que deliberar. A questão já estava decidida muito antes, como no capítulo 1. Eles não pediram tempo para pensar.
Fé plena no poder de Deus. Eles não duvidam nem por um instante de que Ele pode.
Aqui está o centro. Eles obedecem sem garantia de desfecho. A fidelidade não estava condicionada ao livramento.
Essas seis palavras, “e mesmo que ele não nos livre”, separam a fé verdadeira de qualquer negócio religioso. Muita gente serve a Deus enquanto o resultado compensa. Os três disseram, diante da fornalha acesa, que serviriam de todo jeito.
Dentro do fogo
O rei mandou aquecer a fornalha sete vezes mais do que o costume, e os soldados que os lançaram morreram com o calor. Os três caíram amarrados no meio do fogo.
Então Nabucodonosor se levanta espantado: “Não eram três os homens que amarramos e jogamos no fogo?… Eu, porém, estou vendo quatro homens soltos, andando no meio do fogo! Não sofreram nenhum dano! E o aspecto do quarto é semelhante a um filho dos deuses” (Dn 3.24-25).
Apenas as cordas. Eles entraram amarrados e foram vistos soltos. O fogo destruiu exatamente aquilo que os prendia.
“Os cabelos da cabeça não foram chamuscados, os mantos não sofreram mudança, e eles não estavam com cheiro de fumaça” (Dn 3.27). Saíram sem levar consigo o cheiro daquilo que os quis destruir.
Vale ser exato aqui. A expressão “semelhante a um filho dos deuses” é de Nabucodonosor, um rei politeísta descrevendo o que via com o vocabulário que tinha. Poucos versículos depois, ele mesmo diz que Deus “enviou o seu anjo e livrou os seus servos” (Dn 3.28).
Muitos cristãos leram nessa figura uma manifestação do próprio Cristo antes da encarnação, e é uma leitura antiga e respeitável. Mas o texto não afirma isso, e não é preciso que afirme para que a promessa esteja de pé: “Quando você passar pelo fogo, você não se queimará; as chamas não o atingirão” (Is 43.2). O ponto certo do capítulo é que Deus não os poupou da fornalha: entrou nela com eles.
O desfecho tem a mesma ambiguidade do capítulo 2. O rei bendisse o Deus dos três e baixou um decreto ameaçando de morte quem blasfemasse contra Ele (Dn 3.29). É admiração, e ainda não é conversão: um homem que tenta impor a fé pela força ainda não entendeu o Deus de quem fala. Isso só aconteceria no capítulo seguinte, e pelo caminho mais duro.
Para a nossa vida
São a promoção que depende de um silêncio, a família que ridiculariza, o grupo que exige adesão. A pressão para se ajoelhar quase nunca vem acompanhada de ameaça de morte, e nem por isso é pequena.
Eles responderam sem pedir tempo porque a questão estava resolvida antes. Como no capítulo 1: quem decide antes não precisa deliberar sob pressão.
“E mesmo que ele não nos livre.” A fé que só continua enquanto o resultado compensa é um contrato, não é fé.
A promessa bíblica não é a de uma vida sem fogo, e sim a da presença dentro dele. O que se queimou foram as cordas.
Uma pergunta para levar
Os três disseram, com a fornalha acesa à vista, que obedeceriam de todo jeito. É a pergunta que separa a confiança em Deus da confiança no desfecho que esperamos dele.
Fixação
Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Cinco questões, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, e errar aqui também ensina.
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Para pensar e conversar
É a pergunta que separa a confiança em Deus da confiança no desfecho que esperamos dele. Vale responder pensando num pedido concreto, e não em tese.
Raramente há fogo. Costuma ser a promoção que depende de um silêncio, o grupo que exige adesão, a família que ridiculariza.
“Quanto a isto não precisamos nem responder.” A hora de decidir não é na planície de Dura, com a orquestra tocando.
O orgulho raramente discute com Deus abertamente. Em geral apenas ergue alguma coisa que negue o que foi dito.
O detalhe é do próprio texto (Dn 3.27). Nem sempre saímos dos lugares sem carregar o cheiro deles.
Deus livrou estes três e não livrou Estêvão. A fé dos três não estava na certeza do livramento, e sim em Deus. Ensinar de outro modo prepara decepções graves.
A fornalha e o “se não” · Bispo Ildo Mello · Igreja Metodista Livre do Brasil