W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume II · O ministério mediador

A expiação na história

II, 297DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO.

Histórico. A história da doutrina eclesiástica sobre a Expiação é extremamente complicada e difícil, se forem levados em conta todos os diversos matizes de opinião e de controvérsia; é muito simples, se forem considerados apenas os pontos fundamentais.

Igreja primitiva. I. A era pré-nicena não foi científica nem controversa neste assunto. Felizmente, nada sabia daquelas especulações que, em épocas posteriores, tanto fizeram para obscurecer o conselho da nossa redenção, embora aqui e ali se possam discernir os germes de erros futuros. De modo geral, a doutrina patrística primitiva foi um reflexo sem distorção do ensino do Novo Testamento.

Pais apostólicos. 1. Os Pais apostólicos e os demais escritores do século II reproduziram com fidelidade a doutrina de são Paulo e de são João, as duas colunas da teologia mais tardia das Escrituras, os quais, concordes quanto à necessidade de uma propiciação no próprio Deus, seguiram depois caminhos distintos: são Paulo apresenta antes a visão judicial e reitoral da Expiação; são João, o amor e a influência moral dela. Ver-se-á que esses dois aspectos são tratados com fidelidade quase igual, embora a característica dominante daquele ensino primitivo pareça antes ter-se ligado à apresentação final que são João faz de Cristo como a Expiação Viva na sua Pessoa encarnada. É o que se poderia esperar, visto que os Pais apostólicos estavam, na maioria, sob a influência do último evangelista. O sacrifício de Cristo era mantido constantemente à vista, e tanto mais porque o culto primitivo da Igreja se baseava na comemoração eucarística desse Sacrifício. Mesmo os exageros acerca da Santa Ceia contribuíam, enquanto não se aprofundaram em erro positivo, para manter diante da mente dos cristãos o caráter central da morte do Salvador. Foi depois dos dias desses primeiros escritores que as perversões da Festa desviaram a atenção da morte para a encarnação do nosso Senhor. Clemente Romano, o pai da literatura cristã não inspirada, acerta a nota verdadeira em todos os pontos que a controvérsia posterior pôs em evidência. Bastam algumas frases para demonstrá-lo: “Fixemos os olhos no sangue de Cristo e vejamos quão precioso ele é aos olhos de Deus (τίμιον τῷ Θεῷ); o qual, derramado para a nossa salvação, trouxe a graça do arrependimento ao mundo inteiro” (Clemente Romano, Epístola aos Coríntios, cap. VII). “Que pelo sangue do nosso Senhor houvesse redenção para todos os que creem e esperam em Deus” (cap. XII). “Vedes, amados, qual é o modelo de amor, paciência, humildade que nos foi dado” (cap. XVI). “Pelo amor que nos tinha, nosso Senhor Jesus Cristo deu o seu próprio sangue por nós, pela vontade de Deus: a sua carne pela nossa carne, a sua alma pelas nossas almas.” Essas frases dão a sua alta sanção não só à doutrina geral da Expiação exposta nas páginas anteriores, mas também a algumas das particularidades que a distinguem. Segundo esse Pai, o mais antigo de todos, a obra expiatória do nosso Senhor foi uma paixão ordenada pela vontade divina, suportada pelo amor do Salvador, de valor infinito como satisfação à justiça e à misericórdia divinas, disponível para todos, fonte de toda a graça preliminar do arrependimento que é dada à humanidade em geral, o sacrifício substitutivo pelas nossas almas, mas de tal natureza que vale também para o nosso corpo, tornado pessoal, porém, somente pela fé, e, finalmente, o modelo supremo de devoção que se sacrifica a si mesma. É desnecessário citar mais os escritores subapostólicos. A Epístola a Diogneto é obra de um autor desconhecido, provavelmente do século II, e pode ser citada por apresentar a doutrina moderna da Expiação na sua forma mais pura. Nela se encontram frases como estas: “Ele mesmo deu o seu próprio Filho como Resgate por nós, o Santo pelos transgressores, o Inocente pelos culpados, o Justo pelos injustos, o Incorruptível pelos corruptíveis, o Imortal pelos mortais. Pois que outra coisa poderia cobrir os nossos pecados senão a sua justiça? Ó doce troca: que a maldade de muitos fosse escondida num só Justo, e que a Justiça de um só justificasse a muitos!” (Epístola a Diogneto, cap. IX). Aqui temos a divindade da Pessoa do Redentor e a sua essencial isenção de pecado no próprio fundamento da sua obra. O caráter substitutivo dos seus sofrimentos fica quase expresso; e a redenção realizada em nosso favor, em favor de todos os transgressores, aparece com tanto destaque quanto a redenção realizada em nós.

II, 299Gnósticos. 2. Os ataques dos gnósticos deram uma direção peculiar ao ensino dos séculos II e III. Os gnósticos, embora diferissem muito nos pormenores, concordavam em que a redenção era a libertação da matéria pela obra do Salvador, mas em que os sofrimentos dele eram apenas simbólicos e, na aparência de carne, ensinavam a necessidade de morrer para a carne. Irineu e Tertuliano proclamaram a realidade dos sofrimentos do Deus-homem, e o caráter expiatório e substitutivo deles, com uma clareza e uma ênfase jamais superadas desde então. O primeiro deixou esta frase memorável: “Quando incarnatus est et homo factus, longam hominum expositionem in se ipso recapitulavit in compendio nobis salutem præstans, ut quod perdideramus in Adamo, i.e., secundum imaginem et similitudinem esse Dei, hoc in Christo reciperemus” [quando se encarnou e se fez homem, recapitulou em si mesmo a longa história dos homens, concedendo-nos a salvação de modo abreviado, para que aquilo que havíamos perdido em Adão, isto é, ser à imagem e semelhança de Deus, isso recuperássemos em Cristo] (Irineu, Contra as heresias III, 17, 1). A mesma reprodução fiel da doutrina dos Dois Adões, de são Paulo, encontra-se em palavras que podem ser traduzidas assim: “Assim como pecamos no primeiro Adão, porque não guardamos os mandamentos de Deus, assim fomos reconciliados, ou recebemos a expiação, no segundo Adão, porque nele fomos obedientes até a morte; pois a nenhum outro éramos devedores senão àquele cujos mandamentos transgredimos desde o princípio” (V, 16, 3). Tertuliano é igualmente Justino Mártir. explícito. Mas é nos escritos de Justino Mártir que temos a exposição mais completa dos efeitos da Expiação, embora não sem alguma falta de nitidez em certos pontos, que se pode atribuir às dificuldades peculiares da sua obra apologética. Ele une estreitamente as duas ideias de Sacrifício e Resgate. Quanto ao suportar a maldição por nós, Justino o defende da objeção do judeu, e de tal modo que mostra que o Filho, bendito para sempre e sempre bendito, sofreu “PELA RAÇA HUMANA AS MALDIÇÕES DE TODOS” (Diálogo com Trifão 94, 95). Ele tem o cuidado de mostrar, coisa que desde então se tem esquecido com demasiada frequência, que “o sacrifício era por todos os pecadores que estão dispostos a se arrepender e a jejuar o jejum de Isaías” (Diálogo com Trifão 40). A sua doutrina de uma expiação vicária pelo mundo não é menos forte por exigir a fé pessoal, sendo “salvação para os que creem nele”. Em Justino, como em todos os Pais anteriores a Agostinho, encontramos a doutrina de uma redenção universal que se torna particular sob a condição do arrependimento e da fé individuais.

II, 300Doutrina patrística. 3. Os primeiros Pais ensinavam, em geral, a necessidade de uma vindicação da justiça essencial de Deus. O amor estava em Deus, como Deus estava em Cristo, suportando passivamente a punição do pecador, tanto quanto providenciando ativamente a expiação. Mas a afirmação da justiça de Deus diante do universo foi perturbada por alguns erros peculiares (um deles, a tendência a exagerar o lugar de Satanás), que, em maior ou menor grau, ofuscaram a doutrina durante mil anos. Esses erros foram em parte resultado do gnosticismo, mas muito mais efeito do ensino de Orígenes. Esse Pai alexandrino, como Clemente, da mesma escola, elaborou em todos os pontos o esquema sacrificial e ensinou explicitamente o caráter substitutivo da Paixão. Mas a sua especulação quase neutralizou a sua ortodoxia. Ao mesmo tempo que afirmava a validade única da oblação do Redentor, atribuía à morte dos mártires uma virtude relativamente expiatória. Declara que o sacrifício de Cristo foi oferecido na terra pelo homem e, no céu, por todo espírito do universo. A redenção operada por esse sacrifício era uma libertação de Satanás, mas de um modo que não é bíblico. A alma humana de Jesus foi entregue ao Inimigo como resgate pelas almas dos homens que estavam em seu poder; mas o Inimigo não foi capaz de retê-la, e o mundo ficou livre: o direito que ele tinha sobre os homens pecadores perdeu-se quando o Representante deles, sem pecado, esteve nas suas mãos. Satanás, como disse Gregório mais tarde, “hamo ejus incarnationis captus est” [foi fisgado pelo anzol da encarnação dele], enganado pela Divindade presente no Redentor, com a qual não havia contado. Irineu expressou o mesmo pensamento: “O Logos, onipotente e a quem não faltava a justiça essencial, procedeu com estrita justiça até contra a própria apostasia, ou reino do mal, resgatando dela aquilo que originalmente era seu, não usando de violência, como fez o diabo no princípio, mas de persuasão, como convinha a Deus, de modo que nem a justiça fosse violada nem perecesse a criação de Deus” (Contra as heresias V, 1, 1). Mas uma avaliação imparcial de uma passagem como esta, que representa boa parte do ensino daquela época, tem de admitir que ela contém apenas uma declaração inexata da conciliação entre as exigências essenciais da justiça divina e o método espiritual do amor pelo qual os homens hão de ser redimidos. Mas aqui entra outro elemento infeliz. Orígenes ensinava que a apostasia ocorrida num estado anterior ao tempo era expiada no presente e, por fim, abolida por meio de Cristo. Era impossível sustentar uma opinião como essa sem dois erros concomitantes: as expiações ascéticas se infiltrariam quase necessariamente, uma vez que a carne fosse feita, em qualquer sentido, a esfera da escravidão; e a justiça de Deus, ou o seu santo desagrado contra o mal, logo se dissolveria na ideia de uma bondade soberana que predetermina a salvação de todos. Daí que à redenção da escravidão de Satanás se seguiu a redenção do próprio Satanás. A universalidade da redenção humana nunca fora posta em dúvida; mas Orígenes a fez incluir todo o universo do mal, lendo um texto incorreto, χωρὶς θεοῦ: sem Deus, ou fora de Deus, provou a morte por todos (Hb 2.9) [N. do T.: a NAA traz “pela graça de Deus”]. O seu universalismo foi combatido com vigor por Jerônimo e outros e, tal como sustentado pelos seguidores de Orígenes, foi formalmente condenado num sínodo em Constantinopla, no ano 544 d.C.

II, 301Período pré-niceno. 4. Deixando de lado esses erros e germes de erro, não pode haver dúvida de que a Igreja pré-nicena conhecia profunda e vitalmente a verdade que temos por sã. Ela não tentou formulá-la de modo científico. Quase não se pode dizer que existisse heresia sobre este assunto, pois os erros gnósticos estavam fora da comunidade cristã e eram enfrentados com as simples declarações do Credo acerca da manifestação histórica do Jesus real. Os Pais mais antigos simplesmente reproduziam o espírito e a linguagem dos apóstolos. E, quando pareciam errar, o seu erro era antes exegético do que teológico. Não se propunham distinguir entre um sacrifício oferecido a Deus e um resgate pago a Satanás; mas não perceberam claramente que o ensino dos seus Mestres inspirados fazia daquele sacrifício e daquele resgate uma só coisa, e apresentava ambos como oferecidos e pagos por Deus a si mesmo em Cristo.

II, 302Doutrina medieval. II. Da era nicena até Anselmo, por volta de 1100 d.C., a doutrina da redenção esteve estreitamente ligada à da Pessoa de Cristo. Mas teve alguns desenvolvimentos independentes, a que se pode fazer breve referência.

Igreja grega. 1. A cristandade oriental foi preparada para o estudo da Expiação pelas suas prolongadas discussões das questões trinitárias. Atanásio trata explicitamente da expiação do pecado e da satisfação da justiça eterna (Da encarnação do Verbo, cap. VII); dá a supremacia ao ofício sacerdotal; e, acima de tudo, fundamenta a morte de Cristo numa necessidade da natureza e dos atributos de Deus, embora talvez não tão absolutamente na natureza divina quanto na veracidade e na dignidade divinas. Embora fosse o grande expositor da encarnação como revelação de Deus na natureza humana, pôs em primeiro lugar, entre as razões por que Cristo assumiu a carne, a necessidade de expiar a culpa humana. As palavras seguintes dão o seu ensino sobre quase todos os aspectos da questão: “Deus não pode faltar com a verdade, nem mesmo em nosso benefício. O arrependimento não satisfaz as exigências da verdade e da justiça. Se a questão dissesse respeito somente às corrupções do pecado, e não à sua culpa e ao seu demérito, o arrependimento talvez bastasse. Mas, visto que Deus é veracíssimo e justíssimo, quem pode salvar, nesta emergência, senão o Logos, que está acima de todos os seres criados? Aquele que criou os homens do nada podia sofrer por todos e ser o substituto deles. Por isso o Logos apareceu. Aquele que era incorpóreo, imperecível, onipresente manifestou-se. Viu tanto a nossa miséria como a ameaça da lei; viu quão inconveniente (ἄτοπον) seria que o pecado escapasse da lei, a não ser por meio do cumprimento e da satisfação dela.” Satanás fica de fora; a satisfação à lei ocupa lugar de destaque; e, se não se estabelece com precisão uma necessidade eterna em Deus, a doutrina pouco fica aquém disso. Gregório de Nazianzo (390) nega o resgate a Satanás (φεῦ τῆς ὕβρεως [que ultraje!]), mas insiste com vigor um tanto excessivo na exigência do governo divino como razão do resgate pago a Deus. Deu a primeira nota da posterior teoria grociana: “Não é evidente que o Pai recebeu o resgate, não porque ele mesmo o exigisse ou dele precisasse, mas por causa do governo divino do universo (δι’ οἰκονομίαν), e porque o homem tinha de ser santificado pela encarnação do Filho de Deus?” (Orações XLII). Cirilo de Jerusalém (386) foi o primeiro a dar ênfase ao VALOR TEANTRÓPICO da morte expiatória e ao seu caráter vicário universal; esse foi um precioso resultado da controvérsia nestoriana. Cirilo de Alexandria (444) expôs essa ideia com clareza ainda maior: “Só um Deus-homem podia sofrer uma vez por todas, e Um por todos”; de novo com referência às controvérsias nestoriana e eutiquiana. João Damasceno (759), o último dos Pais gregos, expressou a doutrina geral do seu tempo e de algumas épocas seguintes: “Aquele que assumiu a morte por nós morreu e ofereceu-se a si mesmo como sacrifício ao Pai; pois havíamos cometido agravo contra ele, e era necessário que ele recebesse de nós um resgate e que assim fôssemos livrados da condenação. Não permita Deus que o sangue do Senhor tenha sido oferecido a Satanás, o tirano” (Exposição da fé ortodoxa III, 27). Encontramos aqui três palavras de ordem da teologia grega ortodoxa no seu ocaso: a necessidade, na justiça divina, de uma expiação pelo agravo; o caráter substitutivo do preço, o nosso resgate; e a ligação do resgate tanto com o sacrifício como com o perdão.

II, 303Igreja ocidental. 2. A cristandade ocidental, antes do tempo de Anselmo, não fez avanço algum além dos primeiros Pais, nem em precisão nem em evitar o erro. Poder-se-ia supor que um homem, Agostinho, teria ocupado o seu intelecto penetrante com algumas das questões que o Novo Testamento deixara indeterminadas e que as controvérsias anteriores não haviam resolvido. Mas, na verdade, ele não acrescentou uma só ideia. Herdou a velha noção de um resgate pago aos direitos de Satanás, correspondente ao sacrifício oferecido à justiça de Deus: “Deus Filho, revestido da humanidade, sujeitou ao homem até o diabo, nada lhe extorquindo pela violência, mas vencendo-o pela lei da justiça; pois teria sido injustiça se o diabo não tivesse tido o direito de dominar o ser que havia levado cativo” (Agostinho, Do livre-arbítrio III, 10). Perturbou a doutrina ao fazer a justificação, ou imputação da justiça ao crente, depender da infusão da graça: erro que obscurece toda a obra da redenção mediante uma expiação objetiva de perfeito efeito expiatório. Talvez fosse mais correto dizer que ele não conseguiu conciliar a santificação ou justiça interna, operada pelo Espírito, com a santificação ou justiça externa, creditada àquele em quem a primeira é operada. Afastou-se da fraseologia paulina talvez mais do que da doutrina paulina. Além disso, nunca se exprimiu sequer com a mesma confiança de alguns dos gregos quanto à necessidade da expiação para a justiça de Deus; em outras palavras, onde eles vacilaram, ele vacilou ainda mais. “São insensatos”, diz ele, “os que declaram que a sabedoria de Deus não podia libertar os homens de outro modo senão assumindo Deus a humanidade, nascendo de mulher e sofrendo nas mãos de pecadores.” Separou a onipotência da justiça e ensinou, como Orígenes, que o poder de Deus era absoluto na provisão da salvação. Assim como os arianos pensavam que o Filho foi gerado βουλήσει, pela vontade do Pai, assim Agostinho, com muitos antes e depois dele, pensava que a Expiação não era uma necessidade eterna, mas provinha somente da vontade de Deus. Finalmente, Agostinho estreitou o alcance da virtude Gregório Magno. da Expiação: foi o primeiro dos Pais a fazê-lo. Gregório Magno (604), chamado o primeiro Pontífice, é notavelmente paulino nesta parte do seu ensino, e vai muito além do seu predecessor Agostinho. As frases seguintes dão uma ideia da sua teologia. “A culpa só pode ser extinta por uma oferta penal à justiça.” Cristo “assumiu a nossa natureza sem a nossa corrupção. Fez-se sacrifício por nós: vítima capaz de morrer por causa da sua humanidade e, na justiça divina, capaz de purificar” (Moralia in Job XVII, 46). Durante os quatrocentos anos seguintes, não houve desenvolvimento particular da doutrina que justifique menção aqui.

II, 304III. Anselmo, na última parte do século XI, deu direção inteiramente nova ao pensamento eclesiástico sobre esta grande questão: uma direção que tem sido permanente.

Cur Deus Homo. 1. No seu livro CUR DEUS HOMO [Por que Deus se fez homem], a ideia de uma expiação propriamente dita foi exposta como nunca antes se tinha visto; e o termo Satisfação à justiça divina tornou-se a fórmula dominante. Anselmo rejeitou por completo as pretensões de Satanás a uma reparação; fixou a atenção no pensamento de que o pecado é dívida para com Deus, uma falta em dar-lhe o que lhe é devido, e de que, visto que “Suprema justitia non est aliud quam ipse Deus” [a justiça suprema não é outra coisa senão o próprio Deus], a satisfação à justiça divina era indispensável. Como ninguém senão Deus podia vindicar a sua própria honra, o Deus-homem tinha de fazer a expiação; e o seu sacrifício, por apresentar EM FAVOR DO HOMEM “algo maior do que tudo o que não é Deus”, tem infinito Satisfação. valor expiatório. O termo SATISFAÇÃO fora trazido por Tertuliano da jurisprudência para a teologia, mas com referência especialmente aos atos humanos de penitência; Hilário e Ambrósio o haviam aplicado à paixão de Cristo; mas Anselmo despertou-o de um longo sono como palavra de ordem para todos os tempos futuros. Não distingue entre a justiça ativa e a justiça passiva do Deus-homem na prestação dessa satisfação; mas certamente põe a ênfase na segunda: dare animam seu tradere se ipsum morti ad honorem Dei, hoc ex debito Deus non exigit ab Illo [dar a vida, ou entregar-se à morte para a honra de Deus, isso Deus não o exige dele como coisa devida]. Essa oferta sacrificial, de valor infinitamente maior do que o próprio demérito ético do pecado, é o MÉRITO de Cristo, que transborda para todo aquele que crê. “Pode haver algo mais justo do que Deus remitir toda a dívida, quando desse modo recebe uma satisfação maior do que toda a dívida, contanto apenas que ela seja oferecida com o sentimento devido?” Assim, a Culpa ou Dívida humana exigia um pagamento divino-humano, e a fé se apropria dele como justificação para a alma. Há falhas na doutrina anselmiana, como o episódio secundário de que o número dos homens redimidos compensaria o vazio aberto pela queda dos anjos. Mas nada pode empanar o valor do serviço que Anselmo prestou à teologia cristã, por ter estabelecido a necessidade, imanente na natureza divina, de uma expiação pelo mal e pela ofensa infinitos do pecado.

II, 305Controvérsia medieval. 2. A controvérsia medieval sobre esta grande questão foi muito importante, por ter moldado em direções opostas os desfechos de Trento e da Reforma. A doutrina de Anselmo foi, durante quatrocentos anos, o texto comum: alguns se opuseram à sua teoria bíblica, outros refinaram e exageraram as suas opiniões, e uns poucos abriram um caminho de mediação. Essa distribuição tríplice da polêmica escolástica fornecerá um fio condutor ao estudante que acompanhar este assunto na história eclesiástica.

Abelardo. (1.) Abelardo (1141) foi o principal opositor de Anselmo, e pode-se dizer que é o fundador de uma teoria da Expiação que exclui o mistério mais profundo da cruz. Atribuía a redenção cristã somente ao amor de Deus como sua fonte e ensinava que não podia haver na essência divina nada que exigisse absolutamente satisfação pelo pecado. A redenção, como a criação, foi um Fiat [faça-se]: igualmente certa, igualmente livre e igualmente independente de qualquer coisa na criatura. A influência da obra de Cristo, consumada na cruz e continuada na sua intercessão, é somente moral: subjuga o coração, desperta o arrependimento e conduz a alma à misericórdia ilimitada de Deus, cuja benevolência é o único atributo envolvido no perdão do pecado. Pedro Lombardo (1164) pouco se afastou dessa opinião e introduziu, para serviço futuro, no seu Liber Sententiarum [Livro das Sentenças], a perigosa doutrina de que os sofrimentos penais de Cristo livram das consequências temporais do mal. Duns Escoto negou a possibilidade de um demérito infinito na transgressão humana e, por conseguinte, a necessidade de um valor infinito no sofrimento humano de Cristo. A relação da Expiação com o pecado era puramente arbitrária, nascida do mero beneplácito de Deus: “Toda oblação de criatura vale aquilo pelo que Deus a aceita, e nada além disso.” Esta é a teoria da Acceptilatio, da qual falaremos mais adiante.

II, 306Refinamentos escolásticos. (2.) Os refinamentos escolásticos sobre a doutrina de Anselmo foram infindáveis. Boaventura e Tomás de Aquino, que representam os escolásticos posteriores na sua máxima sutileza e que, mais do que quaisquer outros, moldaram a teologia romanista, distinguem entre a necessidade absoluta e a necessidade relativa da expiação: sustentam apenas a segunda, embora admitam que, de todos os modos possíveis, este, o da satisfação, era o mais congruente com as perfeições divinas. Na sua ansiedade por salvaguardar a liberdade e a onipotência de Deus, introduziram na essência divina uma distinção, ou discórdia, de que a teoria de Anselmo está livre. Tomás de Aquino deu grande ênfase à União Mística entre o Salvador e o seu povo; e aqui se infiltraram dois erros. Abriu-se espaço para a limitação da redenção ao crente configurado ao seu Senhor: a culpa do pecador é transferida a Cristo, assim como o mérito de Cristo é transferido ao pecador. Isso está em estranha contradição com a universalidade atribuída em outros lugares à virtude da Expiação. E, em segundo lugar, no caso do pecado depois do batismo, o crente tem de ser “configurado” ao seu Senhor pela penitência pessoal. Essa penitência é imperfeita; mas é uma expiação unida à do Redentor. Tomás de Aquino introduziu também a distinção entre a satisfação e o mérito do nosso Substituto. A sua teoria, de que a satisfação foi oferecida à justiça penal e de que o mérito da obediência conquista a vida eterna para o santo, foi uma antecipação da distinção, introduzida depois sem necessidade, entre a Justiça Ativa e a Justiça Passiva de Cristo. O seu novo dogma da superabundância dos méritos do Salvador (Christi passio non solum sufficiens, sed etiam SUPERABUNDANS SATISFACTIO [a paixão de Cristo é satisfação não só suficiente, mas também SUPERABUNDANTE]), que, embora parecesse honrar a Expiação, se baseava certamente numa estimativa rebaixada do pecado, lançou o alicerce para a superestrutura de um tesouro de méritos à disposição da Igreja. Os tomistas, como eram chamados os seus seguidores, tiveram uma longa controvérsia com os escotistas, seguidores de Duns Escoto, sobre este ponto e sobre muitos outros que mais tarde se tornaram proeminentes nas controvérsias da Reforma.

II, 307Mediação. (3.) Os escolásticos que mediaram entre a doutrina de Anselmo e a doutrina oposta foram Bernardo, Boaventura, Alexandre de Hales e muitos dos místicos posteriores. Prepararam o caminho para a Reforma do século XVI: em parte, admitindo uma real frouxidão quanto à necessidade ABSOLUTA da expiação, que não pode ser trocada por uma necessidade RELATIVA sem grande perigo; e, em parte, mantendo viva, num círculo mais estreito, a teoria anselmiana, que havia de manifestar a sua energia renovada no grande despertar. Foi o que se deu especialmente com alguns dos místicos e precursores Wessel. da Reforma, como Wessel, que diz: “Ipse Deus, ipse sacerdos, ipse hostia, pro se, de se, sibi satisfecit” [ele mesmo Deus, ele mesmo sacerdote, ele mesmo vítima, por si, de si, a si mesmo satisfez]. Essas palavras profundas merecem ser lembradas pelo seu próprio valor, e também por terem sido escritas no limiar do templo da teologia reformada; assim como as que as seguem: “Em Cristo contemplamos não só uma Divindade reconciliada, mas uma Divindade que reconcilia; um Deus encarnado que, no lugar do pecador e para a salvação do pecador, fornece o que os seus próprios atributos de santidade e justiça exigem.”

Doutrina tridentina. IV. A soteriologia tridentina, estudada com cuidado, revela afastar-se muito da doutrina anselmiana que professa sustentar, embora isso não apareça à superfície nem fique evidente nas definições. Podem-se notar as duas tendências opostas que seguem, referindo-nos, porém, à Expiação objetiva, a única de que aqui nos ocupamos.

Satisfação. 1. A satisfação prestada à justiça divina pela Paixão de Cristo é plenamente reconhecida: “Christus, qui, cum essemus inimici, propter nimiam caritatem, qua dilexit nos, nobis sua sanctissima passione ligno crucis justificationem meruit et pro nobis Deo Patri satisfecit” [Cristo, que, quando éramos inimigos, pelo imenso amor com que nos amou, nos mereceu a justificação por sua santíssima paixão no lenho da cruz e satisfez por nós a Deus Pai] (Concílio de Trento, sessão VI, cap. 7). Mas acrescenta-se “abunde cumulateque satisfecit” [satisfez abundante e cumuladamente]; e por isso o mérito de Cristo é, em certo sentido, superestimado. Superestimação. O dogma tomista do Meritum Christi Superabundans [mérito superabundante de Cristo] lançou, como vimos, o fundamento daquele tesouro que, acrescido do mérito excedente dos santos e confiado à Igreja, misticamente una com Cristo e idêntica a ele, constituiu a fonte das indulgências. Orígenes aplicou esse excedente infinito ao restante do universo; esta doutrina o restringiu à remissão das consequências temporais do pecado.

II, 308Subestimação. 2. Por outro lado, o mérito expiatório é subestimado, pois se declara que a virtude da morte de Cristo vale apenas para os pecados do mundo e para os cometidos antes do batismo. A virtude da Expiação, aplicada aos pecados mortais cometidos depois, tem de ligar-se, no que toca à pena temporal, ou não eterna, à expiação feita pelo próprio homem.

Quanto à justificação. 3. Mas é antes no seu caráter subjetivo, ou no seu aspecto individual, como justificação, que aparece o erro da teologia católica romana. Reservando para a Justiça da Fé algumas observações adicionais sobre o assunto, basta-nos remeter aos cânones tridentinos que negam ser a satisfação expiatória de Cristo o único fundamento meritório da justificação do pecador. Qualquer que seja o valor atribuído à paixão do Redentor como expiação do pecado da humanidade, a justiça só é imputada ao pecador pessoal na medida em que ele é feito justo pela infusão da fé: ela é, por assim dizer, imputada à fé, e não ao homem que crê. Sem dúvida, afirma-se que a graça que justifica cada vez mais a alma vem por meio da Expiação. Mas a aplicação direta da obra consumada do Salvador na purificação da consciência fica efetivamente excluída.

Reforma. V. A Reforma reavivou, de modo geral, a teoria de Anselmo, enquanto defesa de uma necessidade de satisfação na natureza divina que é eterna e absoluta, e não apenas relativa e econômica. As mesmas variações na formulação dessa teoria que marcaram a teologia patrística e a escolástica podem ser observadas entre os reformadores. Lutero e os grandes teólogos que o seguiram foram mais rígidos do que Calvino e os seus seguidores, que falam da possibilidade da redenção mesmo à parte da obra de Cristo.

Lutero e Calvino. 1. Os pontos que a teoria luterana e a confissão reformada concordaram em resgatar da deturpação de séculos foram a suficiência da Satisfação do Redentor para todos os pecados, o original e os atuais, e a primazia da morte de Cristo na obra expiatória, ladeada de um lado pela sua encarnação e do outro pela sua ressurreição. O lado ativo da obediência do Salvador foi acrescentado ao passivo, separando-se uma SATISPASSIO [satisfação pelo sofrimento] da SATISFACTIO [satisfação]; ou então consideravam toda a virtude da Expiação como Satisfação e Mérito, a primeira reparando a desonra feita à lei e o segundo provendo justiça para o homem. Pode-se dizer que os dois ramos da nova teologia insistiram muito numa divisão da virtude da obra de Cristo entre a reparação da honra da lei pela Obediência e o padecimento da pena dessa lei na Paixão.

II, 309A doutrina reformada. 2. A doutrina reformada, ou calvinista, restringiu aos eleitos o alcance e o propósito da Expiação; os teólogos luteranos, depois de alguma hesitação, adotaram a teoria de uma eficácia universal na mediação do Redentor. Os calvinistas davam menos importância aos três ofícios do Redentor, visto que a obra dele era antes a execução instrumental de um decreto eterno. Contra as ideias de Piscator, que sustentava que a obediência de Cristo à lei era necessária para ele mesmo como homem e devia ser excluída da sua obra expiatória vicária, a Fórmula de Consenso reformada (1675) afirmou: “Cristo prestou satisfação a Deus Pai, pela obediência da sua morte, no lugar dos eleitos, de tal modo que toda a obediência que ele prestou à lei ao longo de toda a sua vida, quer ativa, quer passivamente, deve ser computada na conta da sua justiça e obediência vicárias.” Esta, como muitas outras declarações dos formulários e dos teólogos, é ambígua: só não chega a estabelecer positivamente o princípio errôneo de que as duas partes da obediência una do nosso Salvador são distribuídas separadamente ao crente, para a libertação da condenação e para o revestimento de santidade. Mas a questão aqui envolvida pertence antes à doutrina da justificação.

Socinianismo. VI. A doutrina sociniana, se assim se pode chamá-la, deve ser mencionada aqui: em parte porque representou, no século XVII, o ataque racionalista aos princípios da Expiação, ataque que foi modificado, mas não essencialmente alterado, em tempos posteriores; e em parte porque ajudou a moldar a doutrina arminiana, que veio depois dela, e outros sistemas de pensamento ortodoxos em outros aspectos. O socinianismo primitivo tinha uma estima muito mais alta, tanto da Pessoa como da Obra de Cristo, do que a dos unitaristas modernos. Mas, assim como nele não podia haver doutrina, em sentido estrito, da Pessoa encarnada, assim também ele não tem doutrina da Expiação. A sua contribuição para a história do assunto é simplesmente o arsenal de argumentos contra os princípios anselmianos e o seu método de esvaziar o sentido da Escritura.

II, 310Soberania divina da misericórdia. 1. O princípio supremo do socinianismo, como do predestinacionismo, é uma soberania absoluta em Deus, que dispõe de todas as criaturas segundo a sua própria vontade. No calvinismo, a vontade arbitrária governa os destinos dos homens; no socinianismo, governa os atributos de Deus. O socinianismo se recusa a admitir na natureza divina quaisquer qualidades imutáveis, seja de justiça, seja de misericórdia, sendo estas apenas expressões da vontade ocasional de Deus, suscitadas, por assim dizer, pela conduta do homem. Uma justiça eterna que exige punição é incompatível com uma misericórdia eterna que impele a perdoar. A satisfação pelo pecado é incompatível com o amor. Contra essa objeção basta dizer que ela se opõe aos primeiros princípios do ensino bíblico acerca de Deus, que é apresentado como reconciliando em si mesmo esses atributos opostos por meio de uma expiação que é, a um tempo e em igual medida, expressão de ambos, e como regulando a sua vontade. Assim, a nossa doutrina só está a salvo da censura sociniana quando primeiro se encerra em Deus e apreende a reconciliação da justiça e da misericórdia na natureza divina.

Substituição. 2. Descendo à teoria da substituição, o socinianismo nega a sua possibilidade sob qualquer forma. O pecado e a punição são ambos estrita e eternamente pessoais. Há uma forma da doutrina contra a qual essa alegação tem muita força. Mas ela não atinge a exposição que fazemos dela. (1.) Em sentido estrito, Cristo não é substituto de homem algum. Ele é o Representante e Vigário da humanidade e o Outro Eu da raça, sendo o segundo Adão; ao passo que é também o Outro Eu de todo crente que reivindica o sacrifício dele como seu e diz, na linguagem da devoção que se apropria, TUDO O QUE É TEU É MEU. Mas o pecado deste é tratado como próprio dele e afastado dele. Ele está CRUCIFICADO COM CRISTO (Gl 2.19). (2.) A objeção de que o Salvador não sofreu o equivalente exato do pecado do homem só vale contra os que alegam ter havido tal equivalente comercial. Ele não podia sofrer tormentos eternos. A união do Filho de Deus com a humanidade deu valor infinito à sua intenção de expiar pelo sofrimento: ela foi aceita como tal porque estava no coração dele. Num sentido infinitamente mais alto que o seu servo Paulo, ele disse: Eu desejaria! ηὐχόμην γὰρ αὐτὸς ἐγὼ ἀνάθεμα εἶναι [porque eu mesmo desejaria ser amaldiçoado] (Rm 9.3). (3.) Ao sustentar que a obediência ativa do Redentor não podia ser vicária enquanto acrescentada à sua obediência passiva, o socinianismo combate um falso dogma da Expiação. (4.) Por fim, a objeção de que a imputação à fé é incompatível com uma satisfação plena é importante. Socino argumentava contra o ensino que sustenta que esse benefício universal não é dado a ninguém senão aos que creem. Mas essa não é a verdadeira doutrina. O benefício de Cristo é concedido antes da fé pessoal; e, no caso dos crentes, a fé deles consiste em não rejeitar o que antes lhes fora provido como seu. O veemente protesto contra a combinação da justiça ativa imputada com a exigência inexorável da lei tem toda a sua força contra aqueles a quem diz respeito, mas não contra os que creem que a apropriação de um perdão pleno deixa o crente livre para cumprir no amor todas as exigências da justiça.

II, 311O socinianismo e a Escritura. 3. Os princípios mais positivos do socinianismo sustentam que a linguagem sacrificial usada acerca do Redentor descreve apenas figuradamente a sua autoridade no céu para declarar o perdão; e que as Escrituras, sem figura, anunciam o perdão como à espera de todos os que, em simpatia com a morte do Redentor, se arrependem e abandonam os seus pecados.

Sacerdócio só no céu. (1.) Segundo o ensino do socinianismo primitivo (distinto do ensino do unitarismo moderno), o ofício sacerdotal do Salvador era apenas figurado na terra e começou no céu, onde ele usa a sua autoridade exaltada para interceder pela humanidade. “O ofício sacerdotal consiste nisto: assim como ele pode, com autoridade real, socorrer-nos em todas as nossas necessidades, assim também no seu caráter sacerdotal; e o caráter do seu socorro é chamado, por figura, o seu sacrifício” (Catecismo Racoviano, pergunta 476). Mas pode-se dizer que o perdão nunca é apresentado como concedido senão por meio de um sacrifício real: Deus está em Cristo reconciliando consigo o mundo; e, por amor de Cristo, perdoa os pecados que só o Espírito obtido pela Expiação nos capacita a confessar e abandonar.

O arrependimento basta. (2.) Diz-se que o Supremo, em sua majestade, perdoa com base no arrependimento e na obediência. Os sofrimentos de Cristo foram o veículo de uma influência moral para induzir esse arrependimento e para animar e exemplificar essa obediência. Não há relaxamento da santa lei, que assim é honrada como o vínculo de obrigação do universo moral. Nós também sustentamos o caráter exemplar dos sofrimentos de Cristo, mas como ilustração da necessidade de uma satisfação à pura justiça, e não apenas do amor e da misericórdia do Legislador. Nos tempos modernos, esse argumento tem sido reproduzido de mil maneiras, todas elas marcando o escândalo da cruz, que não cessou. Há duas salvaguardas perpétuas da verdade: a constituição da mente humana, que dá testemunho tanto da ira como do amor de Deus; e a revelação expressa da Escritura acerca da reconciliação.

II, 312Latitudinarismo moderno. 4. Em tempos recentes, princípios socinianos foram introduzidos na teologia latitudinária de muitos que não rejeitam a doutrina da Trindade. E é aí que são mais perigosos. Nas obras de alguns teólogos, só o amor de Deus é introduzido no sacrifício expiatório, que, da parte de Cristo, é um ato sublime e supremo de arrependimento pelo homem, o seu AMÉM à sentença da lei, e, para o próprio homem, uma tristeza representativa comovente, que ele deve fazer sua acrescentando-lhe o elemento da consciência pessoal da culpa. Esta última ideia a liga à doutrina romanista de uma expiação humana adicional; e, quanto à primeira, uma tristeza representativa que não prova a ira de Deus contra o pecado fica imensuravelmente abaixo das ilustrações bíblicas da paixão expiatória, na qual o nosso Senhor foi feito maldição por nós. A teoria falha por completo no elo entre a tristeza divino-humana e a apropriação humana dela; e esquece inteiramente que Cristo foi feito a corporificação e o representante do pecado, tanto quanto a encarnação do sofrimento. Outras modificações da teoria unitarista da Expiação, combinadas com a doutrina trinitária de Deus, são inúmeras; mas nenhuma apresenta um sistema tão definidamente marcado que mereça deter a atenção.

Arminianismo. VII. A doutrina da expiação que às vezes é caracterizada como grociana e às vezes como arminiana baseia-se num princípio fundamental comum. Armínio e o seu seguidor Grócio sustentavam a mesma teoria até certo ponto; depois disso, divergem.

Mediação. 1. Ambos procuraram mediar entre a rigorosa visão anselmiana de uma satisfação que consiste em substituir a pena devida ao pecado por um equivalente estrito e a rejeição sociniana de toda intervenção vicária. A reparação expiatória que concordam em sustentar é uma reparação que satisfez não só, nem especialmente, o rigor e a exatidão da justiça divina, mas também, e principalmente, a vontade justa e compassiva de Deus, pondo a ênfase antes no amor do que na justiça de Deus como honrados na Expiação. Recusam-se a ver a redenção do Salvador como o pagamento de uma dívida a um credor; ela é para eles um substituto de uma pena judicial, substituto que, sendo a oblação de Cristo, infinitamente preciosa, é considerado suficiente pelo Pai. Isso tem algo Acceptilatio. do caráter da ACCEPTILATIO (accepti latio) escotista, que no direito romano era a quitação de uma obrigação por palavra falada, sem pagamento real; distingue-se dela por supor uma compensação real, mas não de caráter exato e comercial. E aqui o princípio arminiano entra com um justo protesto. Grócio, que na sua importantíssima obra sobre a satisfação de Cristo reintroduziu o termo, foi obrigado a justificá-lo. Insistiu em que a sua teoria de uma satisfação oferecida por Cristo e tida por Deus como suficiente era mais do que a acceptilatio da jurisprudência romana. De fato, o que Deus considerou suficiente era de valor infinito, mas, ainda assim, não o equivalente exato da pena devida ao pecado. Houve um relaxamento das exigências da lei num sentido, embora não em outro. A mais rigorosa teoria anselmiana tem de admitir o princípio, no que se refere à aceitação de um substituto; por que, então, não levar o princípio um pouco mais adiante e fazer o ato de intervenção estender-se ao VALOR da coisa substituída, tanto quanto ao PRINCÍPIO da substituição, sobretudo sendo aqui infinito o valor?

II, 313O arminianismo propriamente dito. 2. Mas Grócio, o seu representante posterior, não concordou com a teologia arminiana quando restringiu a satisfação à dignidade da lei, à honra do Legislador, à proteção dos interesses do universo e à exibição de um exemplo dissuasivo. Grócio fundou o que tem sido chamado de teoria reitoral, ou governamental, da Expiação, que se detém de modo exclusivo demais na necessidade dela para a defesa da justiça de Deus como Governante de todos. Para não falar da repugnância invencível que toda mente reverente sente diante da ideia de que o nosso Senhor foi assim feito espetáculo para o universo, essa teoria erra ao tornar supremo um propósito subordinado. Limborch, como representante do arminianismo, responde à sua própria pergunta, An Christus morte suâ circa Deum aliquid effecerit? [Terá Cristo, com a sua morte, efetuado algo em relação a Deus?], dizendo que os sofrimentos de Cristo foram os de um SACRIFÍCIO divinamente designado para tomar o lugar de uma pena e que reconciliaram Deus com o homem como se tivessem sido a punição do próprio pecador. Portanto, Cristo, pela sua morte, efetuou algo em Deus, embora, em sentido estrito, apenas tenha realizado em ato o que já fora efetuado em propósito. Mais do que isso a Escritura não exige. O arminianismo sustenta que o Sacrifício foi oferecido pelo mundo inteiro; deve, portanto, também por essa razão, renunciar à teoria comutativa da compensação exata e mútua, visto que alguns por quem Cristo morreu podem perecer, e ele seria defraudado da sua recompensa neles.

II, 314Resumo. VIII. Podem-se fazer, para concluir, algumas breves observações.

Três teorias. 1. A maior parte dos erros que passamos em revista nasceu da incapacidade de ligar as três principais ideias bíblicas: a expiação em Deus, como uma necessidade nos atributos divinos; a reconciliação na terra, como vindicação, perante o universo, da justiça reitoral de Deus; e a exibição da redenção ao homem, como algo que move a sua consciência, a sua vontade e o seu coração. Aqui se unem as que às vezes são chamadas teorias SUBSTITUTIVA, GOVERNAMENTAL e da INFLUÊNCIA MORAL. A união delas é a doutrina bíblica, tal como é exposta na Escritura, e especialmente nas epístolas de são Pedro, são Paulo e são João, este último dando, em muitos pormenores, os toques finais na união da Pessoa e da Obra de Cristo. Nenhuma dessas teorias é válida sozinha. Cada uma é necessária como complemento das outras. A doutrina se recomendaria à mente de todas as pessoas piedosas mais do que se recomenda, se se fizesse justiça a cada aspecto. O defensor de qualquer dessas teorias que julga necessário negar absolutamente a verdade das outras prova que a sua própria está errada.

Personalidade humana. 2. Outra fonte frequente de confusão é a tendência a subestimar a personalidade e a relativa independência do homem na sua relação com Deus. Nenhuma doutrina da religião revelada imprime tamanha dignidade ao espírito humano quanto a que faz dele o objeto dessa intervenção estupenda. Mas há um certo panteísmo que contamina boa parte da teologia da Igreja cristã moderna, tingindo as teorias e o vocabulário mesmo quando os princípios básicos do panteísmo são rejeitados, ou talvez nem sejam compreendidos. Quanto mais de perto se estudam as especulações desse cristianismo filosófico, mais evidente se torna que elas reduzem a Pessoa e a Obra de Cristo à condição de meros símbolos de mistérios transcendentais da evolução, que parecem honrar a união de Deus e do homem, mas à custa de tudo o que se pode chamar Mediação. A individualidade da alma se perde, e o homem é absorvido na humanidade. Mas não é na Inglaterra que temos de enfrentar esse substituto da doutrina da Expiação.

II, 315A avaliação do pecado. 3. Aparentada a esta, embora distinta dela, é a tendência, não especialmente moderna, a subestimar o mal do pecado. As teorias da Expiação oscilam com as teorias do mal que a torna necessária. Se o pecado é considerado um fenômeno necessário do desenvolvimento humano, a Expiação só pode ser um auxílio acidental nesse desenvolvimento. Se é visto apenas como doença, ou apenas como miséria, então a expiação será considerada apenas um expediente, embora um dos mais elevados e eficazes, para remediar a fraqueza humana. Mas, se o pecado é considerado, à luz da Escritura, uma rebelião ativa da vontade humana, que atinge a natureza, os atributos e o governo de Deus, tanto quanto os interesses humanos, então a Expiação se torna uma necessidade eterna em Deus, tanto quanto uma necessidade eterna para o homem. Toda teoria que despoja a obra de Cristo do seu caráter expiatório, examinada de perto, mostrará que faz do pecado, comparativamente, COISA LEVE no que toca ao Supremo Governante, por mais lamentável que ele seja nas suas operações e consequências para a sua vítima. Ora, nada há mais claro do que isto: a Bíblia, desde a história da perda do Paraíso até a predição da volta ao Paraíso, ensina de modo coerente e uniforme que a injustiça na criatura atinge a essência mais íntima do Deus triúno, e que suscita nas profundezas da natureza divina eterna compaixão pelo mal e eterno desagrado contra o pecado. Nenhum tema da teologia bíblica varia tão pouco no seu desenvolvimento quanto este.

Amor. 4. Prevalece entre teólogos que se dizem ortodoxos a tendência a atribuir ao Deus eterno um certo atributo de AMOR que a tudo comanda, descrito de tal modo que solapa os fundamentos da doutrina da Expiação. É possível exagerar de tal modo a compaixão divina que ela se torne incompatível com os fatos mais óbvios da experiência. A mente pode ficar tão possuída por um sentimento mórbido da necessária supremacia da ternura de Deus que se torne incapaz de contemplar com firmeza a sua santa ira contra o pecado. Para tal sentimento, a Escritura inteira há de parecer escrita numa linguagem feita dos símbolos mais violentos e incongruentes. Corrigir essa visão unilateral é a mais pura homenagem ao amor, o vínculo da perfeição em Deus tanto quanto no homem. Se ele é o atributo régio (o que, no entanto, a Escritura não diz), reina EM Deus, mas não SOBRE ele. Do Ser divino também se diz: Justiça e direito são o fundamento do teu trono (Sl 89.14).

II, 316Linguagem bíblica e linguagem teológica. 5. Em todas as discussões sobre a Expiação, é importante lembrar que a linguagem da teologia deve ser regida e explicada pela linguagem da Escritura. Por se esquecer isso, surgem muitos preconceitos que, de outro modo, talvez fossem evitados. Os principais termos do Novo Testamento são tão simples que podem ser reunidos numa só frase. Cristo, como MEDIADOR, exibe na sua própria Pessoa a RECONCILIAÇÃO entre Deus e a humanidade, a qual, porém, precisava ser realizada por um SACRIFÍCIO de OBEDIÊNCIA na vida e na morte, tal que PROPICIOU Deus no tocante ao pecado e efetuou uma REDENÇÃO para todos os homens, a ser apropriada pela fé dos indivíduos. A teologia variou esses termos e acrescentou alguns. Eles indicam que a oblação de Cristo foi uma EXPIAÇÃO [N. do T.: no original, ATONEMENT, termo distinto de EXPIATING, adiante], ou SATISFAÇÃO expiatória, da justiça divina e das exigências da lei, bem como do amor divino ou vontade salvadora, EXPIANDO o pecado, ou cancelando a sua pena, e PROPICIANDO o desagrado divino, num só e mesmo ato. Assim como as Escrituras são uma revelação de Deus ao homem, assim também esta doutrina, que está na base dessa revelação e a permeia do começo ao fim, deve ser guardada com a diligência mais vigilante. Só na cruz, onde o Pai aceita por nós o sacrifício do seu Filho, nosso Representante, o verdadeiro Deus é revelado à humanidade.

Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. II, pp. 297-316, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.