W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume III · A administração da redenção (continuação)

A santificação e a inteira santificação

III, 28A SANTIFICAÇÃO CRISTÃ.

Santificação. Uma classe muito extensa de termos, talvez a mais extensa de todas, apresenta o estado cristão como estado de consagração a Deus. Toda essa gama de expressões foi transferida do antigo serviço do templo para o uso do novo templo, que é a igreja. Abrange todos os aspectos do privilégio cristão como privilégio de dedicação a Deus, seja a dedicação externa ou interna, efetuada pelo Espírito ou apresentada pelo crente. Mas a Santificação é considerada aqui como bênção concedida gratuitamente na aliança da graça; por isso, temos de omitir até certo ponto, embora não de todo, as suas relações éticas. Como privilégio da aliança, o seu princípio é duplo: purificação do pecado e consagração a Deus, sendo a santidade o estado que delas resulta. Como dom da graça, declara-se que ela é perfeita no desígnio do Espírito; e faz-se plena provisão para a Inteira Santificação do crente na vida presente, assim como se faz plena provisão para a sua Justiça consumada e para a sua Filiação perfeita.

Terminologia. Os termos que pertencem a este ramo da teologia cristã são abundantes: constituem a maior classe de expressões homogêneas do Novo Testamento e incluem quase todas as palavras próprias da economia levítica. No seu alcance, abrangem todo o vocabulário do Altar, com os seus sacrifícios, a sua oblação e o seu sacerdócio, divino e humano; santificação, dedicação, apresentação, o ter por santo, consagração; aspersão, lavagem e remoção do pecado; pureza, sacralidade, amor e santidade, e os opostos de tudo isso, com todas as suas nuances; selo, unção e, portanto, a própria palavra cristão. Os termos originais formam um conjunto amplo e sagrado para o campo da teologia bíblica; e a cuidadosa distinção dos seus significados, à luz do Antigo Testamento e do grego clássico, é o melhor método de estudar todo este assunto. Podem, contudo, ser distribuídos em dois grupos: primeiro, os que significam o processo da santificação, enquanto negativo e positivo, isto é, enquanto purificação do pecado e consagração a Deus; e, em segundo lugar, os que definem o estado de santidade, enquanto imperfeito e perfeito, ou seja, enquanto santificação parcial e inteira. Ao considerá-los, é preciso observar que ainda não estamos tratando da santificação ética, mas da bênção comunicada na aliança da graça, ficando em plano subordinado os esforços e as conquistas do homem. Naturalmente, os deveres correspondentes não podem ser omitidos de todo; mas a distinção é importante e deve ser lembrada ao longo de toda a nossa discussão deste privilégio da nova aliança.

III, 29A SANTIFICAÇÃO EM PRINCÍPIO E EM PROCESSO.

Princípio. A santificação, considerada negativamente, é a purificação do pecado; considerada positivamente, é a consagração do amor a Deus. Ambas são obra direta e exclusiva do Espírito Santo, e a sua unidade é a santidade.

Purificação. I. A purificação ou limpeza do pecado tem, na Bíblia inteira, mas especialmente no Novo Testamento, dois significados: o da remoção do obstáculo que impede que Deus aceite o ofertante no seu altar e o da remoção da contaminação que torna a oferta dele imprópria para ser apresentada. Na verdade, em toda a Escritura os dois significados quase nunca aparecem separados.

Da culpa. 1. Os cristãos são santificados da culpa. Essa combinação de palavras pode parecer estranha. Mas a culpa, isto é, a consciência do pecado como nosso, não é palavra apenas forense: tem esse sentido no tribunal, na casa e no templo. Diante do altar divino, é a consciência de pecados (Hb 10.2) que impediria o ofertante de se aproximar. Muito mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito eterno, a si mesmo ofereceu sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência de obras mortas (Hb 9.14). Aqui o termo καθαρίζειν [purificar] equivale, no templo, ao δικαιοῦν [justificar] de são Paulo no foro do evangelho: ser purificado é ter o coração aspergido de má consciência (Hb 10.22) [N. do T.: a NAA traz “purificado”], isto é, da consciência, ou percepção culpada, do mal.

III, 30Contaminação. 2. São santificados também pela purificação do seu pecado considerado como contaminação. Mas vocês foram lavados, foram santificados, foram justificados (1Co 6.11): aqui o termo do meio parece unir em si os outros dois. A ilustração disso no Antigo Testamento era a purificação da carne (Hb 9.13), que era o símbolo exterior da libertação, não da culpa, mas da impureza. Na verdade, a palavra lavagem é um dos termos mais amplos da classe: inclui todos os processos de remoção do pecado, seja na sua culpa, seja na sua contaminação, até o extremo; e foi nesse sentido amplo que o salmista penitente clamou por ela: Lava-me completamente da minha iniquidade (Sl 51.2), onde a iniquidade representa a contaminação de que ela foi a causa. Mas a culpa e a contaminação podem aqui ser consideradas uma só coisa, Macula. pois a mancha ou MACULA do pecado é o caráter ofensivo dele aos olhos de Deus, apagado ou removido quando o pecador é aceito.

Santificação e justificação. 3. Essas duas formas de purificação são às vezes combinadas e apresentadas como correspondentes, no serviço do templo do cristianismo, às bênçãos da justificação e da regeneração no tribunal mediador e na família da fé. Observe-se esta passagem notável: Porque, com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre os que estão sendo santificados, isto é, proveu o perdão e a santidade perfeitos deles. E disto nos dá testemunho também o Espírito Santo. Porque, após ter dito: “Esta é a aliança que farei com eles, depois daqueles dias, diz o Senhor: Imprimirei as minhas leis no coração deles e as inscreverei sobre a sua mente”, acrescenta: “Também dos seus pecados e das suas iniquidades jamais me lembrarei.” Ora, onde há remissão de pecados, não existe mais necessidade de sacrifício pelo pecado (Hb 10.14-18). Nestas frases temos a justificação, a regeneração e a santificação unidas: a remissão dos pecados e a nova lei no coração, ambas introduzidas para ilustrar a perfeita santificação operada pelo Espírito. Do mesmo modo, a respeito dos primeiros gentios: purificando-lhes o coração por meio da fé (At 15.9), o que deve incluir toda a obra do evangelho sobre eles e dentro deles. Embora a distinção não deva ser forçada, pode-se dizer que a purificação da culpa se efetua pela aspersão, como aplicação mais externa e, por assim dizer, imputativa daquilo que na lavagem é mais interno; as duas, porém, são na realidade a mesma coisa. Lemos em são Pedro: eleitos… em santificação do Espírito (1Pe 1.2), a qual se divide em dois ramos: para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo. Da contaminação e da corrupção interior do pecado os cristãos são purificados ou lavados: para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra (Ef 5.26). A lavagem, porém, às vezes tem de incluir as duas coisas, como na doxologia: Àquele que nos amou e nos lavou dos nossos pecados no seu próprio sangue (Ap 1.5); aqui a leitura λούσαντι [que lavou] é, em alguns textos, significativamente mudada para λύσαντι [que libertou]. Seja qual for a leitura correta, o corretor não introduziu um erro teológico; pois a lavagem equivale à libertação da culpa, e o soltar e o purificar são a mesma coisa. As duas ideias se encontram em alguns dos sinônimos empregados, como remover ou tirar os pecados (Hb 10.4, 11). A santificação tem o duplo sentido em outra passagem: também Jesus, para santificar o povo, pelo seu próprio sangue (Hb 13.12); e também nas que falam dos cristãos como santificados em Cristo Jesus, chamados para ser santos (1Co 1.2).

III, 31Consagração. II. O elemento positivo da santificação é a consagração a Deus, pelo Espírito Santo, daquilo que o homem dedica a Deus. No Novo Testamento, essa consagração é o amor de Deus que é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi dado (Rm 5.5): o amor divino como princípio da consagração, despertando o nosso amor como princípio da nossa dedicação pessoal.

Coisas. 1. Há em toda a Escritura um sentido inferior, mais amplo e, por assim dizer, impróprio do termo. (1.) O que já é santo é santificado pelo reconhecimento da sua santidade. Santificado seja o teu nome! (Mt 6.9). Santifiquem a Cristo, como Senhor, no seu coração (1Pe 3.15). Continue a ser santo (Ap 22.11) [N. do T.: a NAA traz “o santo continue a santificar-se”], o que significa que a santidade consumada dos santos há de ser para sempre ratificada e aceita no céu. A ideia aqui é a de separação absoluta de tudo o que não é santo; e o termo é sempre ἁγιάζειν: o reconhecimento de uma santidade existente. (2.) O que é comum e, nesse sentido, não santificado, mas sem implicar no objeto, tanto quanto isso é possível, nenhum caráter moral, é tornado santo: é o oposto de κοινὸν ἡγεῖσθαι [considerar comum]. O santuário que santifica o ouro (Mt 23.17). É santificado pela palavra de Deus e pela oração (1Tm 4.5). (3.) Nestes últimos casos o termo se refere a coisas; mas em todos os outros lugares do Novo Testamento é usado a respeito de pessoas, e pode-se dizer que essa consagração pessoal absorve em si todos os outros sentidos. Será útil, porém, lembrar a distinção quando viermos a considerar mais detidamente o caráter imputativo da santificação.

Pessoas. 2. A consagração propriamente dita das pessoas deve ser vista como dupla: é consagração para a posse de Deus e para o serviço de Deus.

Posse e comunhão. (1.) A ideia principal, ou pelo menos a mais importante, é a de posse. Todos os homens pertencem a Deus pela criação; mas a concessão da virtude da redenção os faz dele num sentido especial; e, se são dele, tudo o que têm passa a ser dele: a consagração em detalhe decorre da consagração geral e é parte dela. Supõe-se que o crente se DEDICA, e o Espírito o SANTIFICA a Deus. CONSAGRAÇÃO é, em inglês, um termo sinônimo de ambos e, por isso, comum ao crente e ao Espírito, como em muitas passagens. Para que a santificasse, tendo-a purificado… para a apresentar a si mesmo como igreja gloriosa (Ef 5.26-27), onde a consagração e a apresentação estão unidas como ato divino. Aqui temos a santificação seguindo-se à purificação, ἁγιάσῃ καθαρίσας, e a palavra dedicar, ou apresentar, usada a respeito do próprio Cristo, assim como são Paulo a restringe ao crente: que ofereçam o seu corpo (Rm 12.1), ou ofereçam a si mesmos a Deus (Rm 6.13). As duas ideias estão nas palavras e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu (Tt 2.14), que ensinam também, como acréscimo significativo, que a consagração é feita a Cristo como Deus; pois ninguém senão Deus recebe o objeto consagrado. A posse, contudo, é o mesmo que união e comunhão. As almas dedicadas e consagradas a Deus não são apenas dele; têm também com ele a mais íntima união. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com o seu Filho, Jesus Cristo (1Jo 1.3, 7): uma comunhão de santificação que depende de sermos purificados do pecado. A glória da relação do crente com Deus na nova aliança está em que ela é mais do que ser simplesmente propriedade dele. É uma comunhão transcendente e mística: Santifica-os na verdade (Jo 17.17); e eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade (Jo 17.23).

III, 32Serviço. (2.) Segue-se a consagração ao serviço de Deus. O templo divino e o serviço divino são termos correlativos. Toda a vida do cristão se passa num santuário. O povo é a casa de Deus: nós somos santuário do Deus vivo (2Co 6.16); a sua vida é o seu culto: a fim de oferecerem sacrifícios espirituais (1Pe 2.5); e ele mesmo é o templo em que vivemos, nos movemos e existimos (At 17.28), pois aquele que permanece no amor permanece em Deus (1Jo 4.16). Daí o espírito da consagração ser o da inteira devoção ao serviço divino. Os cristãos são utensílios para honra, santificados e úteis ao seu senhor (2Tm 2.21).

O selo. 3. O Espírito Santo é o selo e o poder desta consagração; e as duas coisas como que numa só, mas com uma distinção: ele é o SELO da posse de Deus e o PODER da dedicação ao serviço de Deus. Depois que creram, ou ao crerem, πιστεύσαντες, receberam o selo, ἐσφραγίσθητε, do Espírito Santo da promessa, o qual é o penhor da nossa herança, até o resgate da sua propriedade (Ef 1.13-14) [N. do T.: a NAA traz “tendo nele também crido”]: aqui a posse de Deus é selada até que ele finalmente a resgate; e o selo que separa o seu povo é o começo da experiência religiosa do próprio povo, que é a posse de Deus como sua herança. O simples contato com o altar santificava o ouro, mas o espírito do homem é santificado por nada menos que o Espírito que nele habita. A consciência da presença do Espírito Santo dentro de si é o testemunho dado ao cristão de que ele está santificado para Deus: quanto ao seu perdão e à sua adoção, o Espírito, por assim dizer, fala expressamente; mas a sua santificação é declarada em silêncio pela própria presença e habitação dele. Isso quanto ao primeiro, o Selo. Quanto ao segundo, o Poder, o Espírito Santo é a energia da consagração da alma à vontade e ao serviço de Deus. A fé que atua pelo amor (Gl 5.6) é a fé que é fruto do Espírito (Gl 5.22). É a força de toda obediência, de toda resignação e de toda devoção. O Espírito cuja habitação dá a certeza da aceitação é o poder de uma consagração final de todas as faculdades a Deus: a inteira santificação (para antecipar) é isto, seja o que for além disso. É a energia plena, desimpedida, ilimitada e todo-poderosa do poder da sua presença na alma.

III, 33Santidade. III. A unidade destes dois elementos é a SANTIDADE. Os que foram purificados, ou aspergidos, do pecado, que é separação de Deus, e que foram consagrados a ele, são santos, ἅγιοι. Cristo é o seu ἁγιασμός: o fundamento, ou princípio, ou fonte da sua santificação enquanto processo, anulando em todos os sentidos o pecado deles. O estado em que vivem é o de ἁγιωσύνη, isto é, de santidade.

Relativa. 1. É uma santidade relativa: não forense, naturalmente, mas correspondente, ainda assim, à imputação da justiça. Assim como há um dia santo, uma igreja santa, uma cidade santa, e assim como tudo o que tocar o altar será santo (Êx 29.37), isto é, será considerado santo, assim também os cristãos são nação santa (1Pe 2.9). A cidade santa (Mt 27.53) era impuríssima quando assim foi chamada, em lembrança da sua santidade passada e ainda não de todo perdida; e a congregação de Corinto, embora ainda não fosse inteiramente santa, foi saudada como os santificados em Cristo Jesus (1Co 1.2).

Interior. 2. Mas esta última citação indica que se trata também de uma santidade interior: não apenas chamados santos, mas chamados para ser santos; o acréscimo da tradução exprime com precisão a dupla verdade de que todos os que são chamados santos são chamados a tornar-se santos. Esses mesmos coríntios, a quem se dá o nome de santos, são exortados a alcançar a santidade moral: purifiquemo-nos de toda impureza, tanto da carne como do espírito, aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus (2Co 7.1), ἐπιτελοῦντες ἁγιωσύνην. Como a alma é una e indivisível, o seu princípio dominante de consagração a Deus lhe dá o seu caráter, embora este ainda não seja perfeito. A lavagem diária e habitual nos purifica de todo pecado (1Jo 1.7), καθαρίζει, como uma fonte que continuamente derrama as suas correntes sobre a alma.

III, 34Combinadas. 3. A santidade externa e a interna estão sempre combinadas no propósito de Deus. Nenhuma santidade possível ao homem, nem mesmo aos pés do trono, é perfeita sem imputação. O pecado passado é considerado como removido para sempre pela aspersão: permanece como fato da história, mas fato cancelado; como uma contaminação que existiu, mas agora está apagada. Mas nenhuma imputação de santidade, como algo que pertence à igreja, terá valor sem a realidade. Na consecução da perfeição cristã, o externo e o interno são uma só coisa.

Terminologia. 4. Muitos outros termos são usados para designar o estado de santidade sob cada um dos dois aspectos, o da purificação e o da consagração. Quando se tem em vista sobretudo o ato divino, ele é descrito por ἁγιασμός, SANTIFICAÇÃO. Cristo se tornou para nós… santificação (1Co 1.30); a vontade de Deus é a santificação de vocês (1Ts 4.3); eleitos… em santificação do Espírito (1Pe 1.2): assim se faz referência a cada uma das pessoas da Trindade. A purificação resulta em PUREZA: além do termo mais restrito ἁγνεία, usa-se o termo ἁγνότης, pureza (2Co 6.6). Todo o que tem essa esperança nele purifica a si mesmo, assim como ele é puro (1Jo 3.3). Καθαρισμός inclui a libertação tanto da culpa como da contaminação: objetivamente, depois de ter feito a purificação dos pecados (Hb 1.3); subjetivamente, se esqueceu da purificação dos seus antigos pecados (2Pe 1.9). Embora a distinção não seja absoluta, a consagração positiva a Deus geralmente é expressa pela própria palavra santificação. Foi o nosso Senhor quem primeiro falou dos seus como santificados na verdade (Jo 17.19): isso, vindo depois de eu me santifico, tem de referir-se a uma consagração positiva a Deus. Não há outro termo que, no Novo Testamento grego, exprima o lado positivo da dedicação a Deus. Mas o estado consagrado é considerado de vários modos. Intercede pelos santos (Rm 8.27-28): a palavra santos refere-se aqui ao elevado caráter ideal daqueles que amam a Deus e a respeito dos quais se afirma todo o processo da salvação. Santificados em Cristo Jesus (1Co 1.2): Cristo é o cenário, a esfera e a região, o templo, o santuário e o Santo dos Santos, em que os crentes são consagrados e separados. Nessa vontade é que temos sido santificados, mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez por todas (Hb 10.10): aqui o termo é ἡγιασμένοι, santificados ideal e completamente em virtude da única oferta perfeita. Porque, com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre os que estão sendo santificados (Hb 10.14): aqui a palavra é ἁγιαζομένους, em curso ou em processo de santificação, e idealmente aperfeiçoados, isto é, tornados independentes de qualquer outro sacrifício. No propósito da redenção, eles são do Senhor para sempre.

III, 35O homem inteiro. 5. É digno de nota que a consagração a Deus, como estado, é predicada da natureza do homem em todos os seus elementos constitutivos. O mesmo Deus da paz os santifique em tudo. E que o espírito, a alma e o corpo de vocês sejam conservados íntegros e irrepreensíveis (1Ts 5.23). Por isso se diz: o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo (1Co 6.19); e a exortação é: ofereçam o seu corpo (Rm 12.1), para que o Espírito o consagre e santifique a Deus. Esta é a distinção característica da santificação: ela é do homem inteiro, considerado em todos os elementos constitutivos da sua natureza. Isso não se pode dizer da justificação, visto que o corpo da pessoa justificada está morto por causa do pecado (Rm 8.10) e ainda não foi libertado do carrasco; nem, por enquanto, da adoção, que só no último dia abrange o homem inteiro, pois os filhos de Deus só serão inteiramente filhos quando se tornarem filhos da ressurreição (Lc 20.36).

A SANTIFICAÇÃO PROGRESSIVA E PERFEITA.

Perfeita e progressiva. Embora haja um sentido em que a santificação é um princípio permanente e imutável, ela é também um processo que chega à sua consumação na vida presente, segundo as provisões da Nova Aliança e o testemunho do Espírito.

Imutável. 1. É evidente que, onde quer que o termo seja usado para significar no templo aquilo que a justificação significa no tribunal do cristianismo, ele não admite mudança. Os que prestam culto, tendo sido purificados uma vez por todas, não mais teriam consciência de pecados (Hb 10.2). O termo purificados varia depois para santificados, e κεκαθαρμένους passa a ἡγιασμένοι: Nessa vontade é que temos sido santificados, mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez por todas (Hb 10.10). Como a justificação, esta santificação é um ato definitivo; e os santificados, como os justificados, vivem sem a consciência do pecado como obstáculo à entrada no Santo dos Santos, tendo o coração aspergido de má consciência (Hb 10.22).

III, 36Em princípio. 2. A consagração positiva também não conhece mudança enquanto princípio. Tudo o que está sobre o altar que santifica a oferta (Mt 23.19) é do Senhor pelo simples fato de estar sobre ele: nada pode estar ao mesmo tempo santificado e não santificado. O Espírito Santo (que é o Senhor e Doador da santidade, assim como da vida, sendo as duas a mesma coisa) é concedido uma vez, e uma vez por todas, aos crentes que, como pertencentes a ele, receberam o selo… até o resgate da sua propriedade (Ef 1.13-14). Todos os que nascem de Deus na nova economia entram nos privilégios dos primogênitos da antiga. Os filhos adotivos da casa são santificados no templo: Consagre-me todo primogênito (Êx 13.2). O princípio consagrador do amor é a primeira graça do novo nascimento. Em todos os seus graus, é o instrumento permanente da santificação que o Espírito opera na alma regenerada.

Como santidade. 3. A santidade como estado é também imutável no uso da Escritura. O Novo Testamento fala desse estado como ideal e como virtualmente aperfeiçoado em todos os que pertencem a Cristo. Também nesse sentido, tanto o que santifica como os que são santificados, todos vêm de um só (Hb 2.11). São vistos por antecipação, o que para Deus não é antecipação, como santificados em Cristo Jesus (1Co 1.2). Na perspectiva retrospectiva de são Paulo, já estão conformes à imagem de seu Filho (Rm 8.29), o que é, mais uma vez, a santificação expressa em termos tomados da filiação cristã.

SANTIFICAÇÃO PROGRESSIVA.

Progressiva. Na sua administração da graça santificadora, o Espírito Santo procede por graus. Aplicam-se termos de progresso a cada departamento dessa obra no santo; ou, em outras palavras, a meta da inteira santificação é apresentada como o fim de um processo no qual o Espírito requer a cooperação do crente. Essa cooperação, porém, é apenas a condição da qual depende aquilo que é obra exclusiva da graça divina.

Purificação gradual. I. O lado negativo da santificação, como remoção do pecado, é descrito como um processo, e de diversas maneiras.

III, 37Morte. 1. A mais conhecida é a que apresenta a natureza pecadora como estando sob a sentença de morte. A nossa velha natureza foi crucificada com ele, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sejamos mais escravos do pecado (Rm 6.6): a crucificação é um processo mortal gradual, que incapacita o corpo de servir a qualquer senhor e, como tal, tende certamente à morte. Assim também no texto paralelo da epístola aos Gálatas: os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e os seus desejos (Gl 5.24). E em outro lugar se diz que eles se despiram da velha natureza e se revestiram da nova natureza (Cl 3.9-10). Além disso, nesta última passagem o apóstolo nos ordena: mortifiquem, pois, os seus membros (Cl 3.5) [N. do T.: a NAA traz “façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena”], matando, ou enfraquecendo até a extinção, cada tendência ou disposição individual para o mal. Não só a velha natureza deve ser destruída pela sentença da crucificação, mas cada membro específico do seu pecado deve ser entregue à atrofia: não façam nada que venha a satisfazer os desejos da carne (Rm 13.14). A crucificação é do corpo inteiro; a mortificação é de cada membro. Ora, embora todas essas passagens se refiram à séria disciplina que o crente exerce sobre si mesmo, a qual faz parte do desígnio da redenção, elas representam apenas a submissão da fé que traz à alma a virtude do Espírito que dá a vida e dá a morte. Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito (Gl 5.25): andemos no caminho da dor, a via dolorosa, que leva à morte, a morte do pecado. Se, PELO ESPÍRITO, mortificarem os feitos do corpo, certamente viverão (Rm 8.13). É o Espírito Santo quem faz aquilo que nós fazemos por meio dele.

Inclinação ao pecado. 2. Disso podemos deduzir dois princípios. Primeiro, a inclinação geral, ou caráter da alma, torna-se positivamente cada vez mais alheia ao pecado e voltada para o bem; e, proporcionalmente, a suscetibilidade à tentação, ou a afinidade com o pecado, torna-se negativamente cada vez menos evidente na sua consciência. Há, no progresso sadio do cristão, uma confirmação constante da vontade na sua escolha última e um aumento constante do seu poder de fazer o que quer: o ponto de fuga da perfeição da vontade é fundir-se inteiramente na vontade de Deus. Há também um enfraquecimento contínuo da suscetibilidade à tentação: o que a princípio era uma luta árdua avança gradualmente até o sublime triunfo do Salvador: Vá embora, Satanás! (Mt 4.10). Toda graça ativa e toda graça passiva avançam com firmeza, e o pecado se apaga da natureza. Todo hábito do mal vai sendo desatado da vida, até que, por fim, o cristão pode dizer, como o seu Mestre: aí vem o príncipe do mundo, e ele nada tem em mim (Jo 14.30) [N. do T.: a NAA traz “ele não tem poder sobre mim”]. Esse rebaixamento gradual e seguro do princípio pecaminoso até o seu zero, ou limite de inexistência, é a santificação progressiva. Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça (1Jo 1.9): por uma bela mistura de figuras, a tortuosidade que permanece na alma é uma impureza que está em processo de ser inteiramente purificada. Isso se refere a pecados particulares; de modo mais geral, o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado (1Jo 1.7).

III, 38Consagração gradual. II. O lado positivo, o da consagração pelo Espírito de amor, também é um processo, um processo gradual.

1. O próprio Espírito nos é dado por medida, embora não o seja ao Filho encarnado por nós (Jo 3.34). Desse grande dom vale a palavra: a todo o que tem será dado ainda mais (Lc 19.26). A exortação é: deixem-se encher do Espírito (Ef 5.18). Dos primeiros cristãos do Pentecostes se diz que ficaram cheios do Espírito Santo (At 2.4); mas depois encontramos variações do dom e oscilações no uso fiel do dom, até o ponto mais baixo do declínio: seguem os seus próprios instintos e não têm o Espírito (Jd 19).

Graus do amor. 2. Por isso, o derramamento do amor de Deus pelo Espírito Santo admite aumento. Basta citar a oração do apóstolo: que o amor de vocês aumente mais e mais (Fp 1.9). Isso, em harmonia com o teor uniforme da Escritura, refere-se ao crescimento do amor para com Deus e para com o homem. Mais importante é mostrar que o amor de Deus para conosco, ou, como diz são João, o amor conosco, é um princípio progressivo e que se fortalece cada vez mais; nessa expressão, o amor de Deus por nós e o nosso amor por ele, porque ele nos amou primeiro, são a mesma coisa (1Jo 4.17, 19). São João prova isso na sua primeira epístola. Uma vez ele usa uma expressão que indica que o amor de Deus alcança em nós uma operação perfeita. Ἐν τούτῳ τετελείωται ἡ ἀγάπη μεθ᾽ ἡμῶν: nisto é aperfeiçoado o nosso amor, ou o amor conosco (1Jo 4.17) [N. do T.: a NAA traz “Nisto o amor é aperfeiçoado em nós”]. São Paulo diz: o amor de Cristo nos constrange (2Co 5.14), referindo-se àquele amor, em nós, que constrange o próprio Cristo: como me sinto constrangido até que o mesmo se cumpra! (Lc 12.50) [N. do T.: a NAA traz “nos domina” e “como me angustio”; no grego, o verbo é o mesmo]. O termo συνέχει indica uma pressão que se aprofunda gradualmente; e, tanto no próprio Senhor como nos seus servos, o poder do amor varre diante de si todo impedimento. Nos seus servos, mas não como no próprio Senhor, esse poder se concentra gradual, segura e eficazmente em laços cada vez mais estreitos, até que a sua força se torna irresistível. E desse mesmo amor a oração da epístola aos Efésios pede: que vocês, estando enraizados e alicerçados em amor, possam compreender, com todos os santos, qual é a largura, o comprimento, a altura e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento (Ef 3.17-19).

III, 39Santidade progressiva. III. A santidade como estado também é descrita como progressiva: primeiro, como uma meta a ser alcançada; alcançada, em segundo lugar, por meio do esforço humano; mas, por último, somente como dádiva do Espírito Santo, o Agente supremo de todo bem.

1. Uma vez temos a expressão aperfeiçoando a nossa santidade, ἐπιτελοῦντες (2Co 7.1), em que a palavra indica um fim para o qual o esforço converge sempre, quer esse fim seja plenamente alcançado, quer não: em todo caso, é um progresso. Outra vez, são Paulo ora: O mesmo Deus da paz os santifique em tudo (1Ts 5.23), em que evidentemente se trata do aperfeiçoamento gradual do corpo, da alma e do espírito. Outra vez, numa oração ainda mais elevada: Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade! (Jo 17.17); verdade, porém, de que o Senhor sempre fala como comunicada gradualmente: ele os guiará em toda a verdade (Jo 16.13); e da qual ele diz: Se vocês permanecerem na minha palavra, são verdadeiramente meus discípulos, conhecerão a verdade, e a verdade os libertará (Jo 8.31-32). Mas a prova mais clara está no teor da linguagem usada sobre o assunto, da qual esta é uma amostra: Pois, tanto o que santifica como os que são santificados, todos vêm de um só (Hb 2.11). Os irmãos, a quem o Sumo Sacerdote gradualmente socorre e salva, são οἱ ἁγιαζόμενοι, os que estão em processo de santificação; em paralelo com τοὺς σωζομένους (At 2.47), os que estavam em processo de salvação. É importante lembrar a forma dos particípios presentes nessas passagens: na segunda não é σεσωσμένους, os que tinham sido efetivamente salvos, nem σωθησομένους, os que haveriam de ser salvos; na primeira não é ἡγιασμένοι, os que foram santificados de uma vez por todas.

Condicional. 2. A santificação administrada, efetuada e comunicada como dom gratuito do Espírito Santo também é condicionada ao esforço do homem. Aqui a bênção da aliança cristã entra na região ética. É extremamente difícil manter as duas coisas separadas. Reservando para a ética cristã o exame de muita coisa que pertence ao assunto, observamos que o processo da santificação anda no mesmo passo que o cumprimento de certas condições. Bastarão algumas ilustrações, referentes a cada departamento.

Purificar-nos a nós mesmos. (1.) Somos exortados, como cristãos, a purificar-nos de toda impureza, tanto da carne como do espírito (2Co 7.1): isso é notável por ser uma das poucas passagens em que a purificação levítica do Espírito Santo é de fato apresentada como obra humana, καθαρίσωμεν. Passagens como essa, cuja força só se percebe no grego original, devem ser estudadas com cuidado, pois lançam rica luz sobre toda a doutrina da cooperação humana com a graça divina. As mesmas coisas são verdadeiras nele e em nós. São Tiago diz: καθαρίσατε, limpem as mãos, e ἁγνίσατε, purifiquem o coração (Tg 4.8). E são Paulo usa a forte expressão mortifiquem, pois, os seus membros (Cl 3.5): νεκρώσατε, palavra que parece apropriar-se do ofício especial do Espírito Santo, o único que, nesse sentido, pode dizer: eu mato e eu faço viver (Dt 32.39). Diz-se que os cristãos se despiram da velha natureza e se revestiram da nova natureza (Cl 3.9-10). Ninguém entende corretamente todas essas passagens se não perceber que todas dependem de um único princípio: a obra do Espírito em nós se torna nossa. A expressão tendo tais promessas (2Co 7.1) governa todas elas. Mas, por outro lado, tais passagens não se encontrariam se não fosse intenção do Espírito imprimir em nós uma noção elevada da nossa própria responsabilidade.

III, 40Cooperação humana. (2.) Nada é declarado com mais constância do que isto: a efusão do Espírito de consagração anda no mesmo passo que a cooperação do crente. Quer considere o amor como o de Deus por nós, quer como a resposta, em nós, a ele, são João inculca a necessidade de cumprirmos certas condições. Mas quem guarda a sua palavra, nele verdadeiramente tem sido aperfeiçoado o amor de Deus. Nisto sabemos que estamos nele (1Jo 2.5). Não é pelo despotismo soberano e arbitrário da graça, mas como a bênção que repousa sobre uma obediência sincera e universal, a qual também vem de Deus, que o amor é aperfeiçoado. E ainda: Se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor é, em nós, aperfeiçoado. Nisto conhecemos que permanecemos nele e que ele permanece em nós: pelo fato de nos ter dado do seu Espírito (1Jo 4.12-13). O Espírito da nossa união com Deus é um Espírito de consagração que santifica perfeitamente os que abundam em dedicação abnegada aos outros. Mais uma vez: Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele. Nisto o amor é aperfeiçoado em nós, para que, no Dia do Juízo, mantenhamos confiança; pois, assim como ele é, também nós somos neste mundo (1Jo 4.16-17). Embora a reprodução perfeita do exemplo do Senhor não seja exatamente uma condição da efusão perfeita do Espírito que consagra, é dela um acompanhamento muito próximo. Nos três casos, a habitação de Deus em nós pelo Espírito é a causa eficiente, ao passo que a OBEDIÊNCIA, a CARIDADE para com o homem e a IMITAÇÃO DE CRISTO são a condição trina e una. O amor é o canal pelo qual se comunica o amor e o instrumento que o produz: DE AMOR EM AMOR corresponde aqui ao de fé em fé de são Paulo (Rm 1.17). Ocupa-nos, porém, apenas a prova assim fornecida de que a consagração do amor é um processo condicional. O espírito de devoção a Deus se fortalece à medida que essas condições são observadas na dependência do Espírito que comunica esse amor.

III, 41A santidade, uma graça. (3.) Quanto ao estado de santidade, é uma meta para cuja conquista se exige habitualmente dos cristãos que empenhem o seu esforço. É o objeto da sua própria aspiração. Isso é verdade de modo geral e universal: é o segredo e a força do mandamento aperfeiçoando a nossa santidade (2Co 7.1). Aqui podemos combinar a ideia de santidade com as de justiça e de filiação: as três são uma só na perfeição que exigem que o cristão tenha em vista. Quanto à justiça: a fim de que a exigência da lei se cumprisse em nós (Rm 8.4), em quem o cumprimento da lei é o amor (Rm 13.10). O verbo cumprir-se deve ter aqui toda a sua força; refere-se à realização gradual de um propósito. Mas é preciso notar com cuidado que, nessa realização, a preeminência cabe ao poder divino. Na verdade, a palavra πληρωθῇ pertence estritamente só a Deus, pois é ele quem cumpre as exigências da justiça; ao passo que o acréscimo em nós, que não vivemos segundo a carne, mas segundo o Espírito justifica suficientemente o uso que fazemos do texto: a graça divina em nossa vida realiza gradual e seguramente as exigências da nova lei evangélica interpretada pela graça. E essa nova lei desafia a crítica do homem: é a justiça de Deus (Rm 3.21), que é o único Legislador. Quanto à filiação: o Pai predestinou, para serem conformes à imagem de seu Filho (Rm 8.29), filhos que são transformados, de glória em glória, na sua própria imagem (2Co 3.18). O decreto de que todo filho de Deus será semelhante àquele santo Filho (At 4.27) [N. do T.: a NAA traz “santo Servo”], o Filho eterno feito carne, é revelado no íntimo da alma; e o Espírito de adoção que está em nós busca na palavra dele a forma do Modelo e a contempla para sempre com um amor transformador. Quanto à santidade: Sejam santos, porque eu sou santo (1Pe 1.16). A todas essas coisas o Salvador se refere nas bem-aventuranças do Sermão do Monte. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados (Mt 5.6): esta é a bênção da lei evangélica. É a bênção pronunciada, segundo cremos, por antecipação, sobre a busca diligente da nova justiça da fé, cujo sentido profundo ainda não tinha sido revelado. Daí a força do futuro: serão saciados. Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus (Mt 5.8): esta é a bênção da inteira consagração, que é, negativamente, a dos limpos, ou santificados do pecado, e, positivamente, a dos limpos de coração, isto é, daqueles cujo coração e personalidade mais íntima estão inflamados pelo amor de toda santidade. Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus (Mt 5.9): esta é a bênção prometida à futura família cristã, unida no perfeito amor fraternal e na difusão da sua paz. Mas essas e todas as outras bênçãos são prometidas aos que as buscam perseverando em fazer o bem. A perfeição cristã é o grandíssimo galardão da perseverança na renúncia de todas as coisas por Deus; no exercício do amor a Deus, manifestado na submissão passiva e na devoção ativa; e na obediência esforçada a todos os seus mandamentos. Os herdeiros da herança cristã são guiados, e não arrebatados, à terra da retidão (Sl 143.10) [N. do T.: a NAA traz “por terreno plano”]: no caso deles não se suspende a lei geral que rege todo o trato de Deus com o homem. Assim como há uma graça preliminar que conduz à vida perfeita da regeneração, também há uma graça preliminar, própria do regenerado, que conduz à perfeição da consagração a Deus. Pois ao que tem, mais será dado, e terá em abundância (Mt 13.12): palavra do nosso Senhor que tem ampla aplicação em todo o âmbito da teologia cristã.

III, 42Tudo vem do Espírito. 3. Será, então, que o processo de santificação termina numa conquista que simplesmente recompensa o esforço humano? Certamente não: o Espírito Santo conclui a obra no seu próprio tempo e do seu próprio modo, como ato seu, e na absoluta supremacia, se não na absoluta soberania, do seu próprio poder gracioso.

Ato e hábito. (1.) Todo ato e todo hábito de santidade vêm do Espírito. Embora se diga que os que são de Cristo, eles mesmos, crucificaram a carne, com as suas paixões e os seus desejos (Gl 5.24), essa é uma união com o mistério da cruz na comunhão daquele que de uma vez para sempre morreu para o pecado (Rm 6.10), união que só o Espírito pode efetuar; por isso, logo em seguida vem: Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito (Gl 5.25). Tudo o que o homem faz na mortificação do seu pecado é, na realidade, feito pelo Espírito Santo nele. A crucificação de si mesmo é abominável à natureza humana e, para a natureza humana, impossível. Aproximações dela podem ser encontradas na ética humana; mas o seu segredo mais íntimo nunca é alcançado senão como o ensino místico da Cruz. Quando o nosso Salvador ordenou ao seu seguidor que odiasse até a sua própria vida (Lc 14.26), primeiro ilustrou o seu preceito com o sacrifício de si mesmo e depois deixou o seu Espírito para ensinar ao seu povo a severa lição. Só ele pode ensiná-la. Ninguém jamais odiou a sua própria carne (Ef 5.29) [N. do T.: a NAA traz “o seu próprio corpo”]: aplicando isso à sua carne pecaminosa (Rm 8.3), podemos dizer que aquilo que nenhum homem jamais fez por natureza a graça de Deus pode levá-lo a fazer. Assim também o termo mais elevado para a consagração dos purificados é reservado ao Espírito, ao passo que todos os outros, exceto o mais elevado, são dados ao crente. Assim, pois, se alguém se purificar destes erros, será utensílio para honra, santificado (2Tm 2.21): ἐκκαθάρῃ ἑαυτόν, obra dele mesmo; ἡγιασμένον, a obra divina nele. Enquanto o cristão mantém a sua natureza má cravada na cruz interior, é a espada do Espírito, vinda do alto, que tira a vida a essa natureza; e, quando ele é inteiramente governado pelo amor divino, isso é a lei do Espírito da vida (Rm 8.2) dentro dele.

III, 43τέτελεσται. (2.) Há uma consumação da experiência cristã que, pode-se dizer, introduz a perfeição: é quando o Espírito clama no crente: ESTÁ CONSUMADO. O momento em que o pecado expira, conhecido somente por Deus, é a vitória divina sobre o pecado na alma: esse é ofício exclusivo do Espírito. O momento em que o amor se torna supremo no seu domínio, momento conhecido somente por Deus, é o triunfo do Espírito na consagração da alma: também isso é inteiramente obra dele. E, sempre que se alcança aquela maturidade da experiência e da vida cristã pela qual o apóstolo ora tantas vezes, isso se dá unicamente pela operação do mesmo Espírito. É sermos cheios até toda a plenitude de Deus (Ef 3.19) [N. do T.: a NAA traz “cheios de toda a plenitude de Deus”], e isso por sermos fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito, no íntimo de cada um (Ef 3.16).

Um só ato. (3.) Portanto, embora o teor do Novo Testamento apresente a inteira santificação como resultado de um processo, ela também é atribuída à efusão constante do Espírito Santo, da qual resulta, coroada num último ato consumador do seu poder. Também a respeito desta ressurreição podemos perguntar, como o apóstolo perguntou a respeito de outra: Por que se julga incrível? (At 26.8). E com a mesma ênfase: τί; quê? Coisa incrível que DEUS ressuscite os mortos! Que ressuscite uma alma morta para a vida perfeita!

Um novo começo. (4.) Mas, por fim, é preciso lembrar que esse ato final e decisivo do Espírito é o selo posto sobre uma obra anterior e contínua. Os processos podem ser apressados e condensados num curto espaço de tempo; mas têm de ser percorridos como processos. Pelo contrário, confirmamos a lei (Rm 3.31) foi a defesa que o apóstolo fez da doutrina da fé atribuída como justiça (Rm 4.5); e a mesma defesa é necessária para o processo da santificação. Os justificados têm o seu fruto para a santificação (Rm 6.22). Unindo a vida da justificação com a da santificação, o nosso Senhor disse: eu vim para que tenham vida e para que a tenham MAIS (Jo 10.10): o mesmo dom expandindo-se até a perfeição para sempre. Não há nova dispensação do Espírito em nenhum sentido semelhante àquele em que houve uma nova aliança que substituiu a antiga: o Espírito da inteira santificação é apenas o Espírito do começo da graça exercendo um poder mais amplo. Nunca lemos de uma VIDA SUPERIOR que seja outra coisa senão a intensificação da inferior; nunca de uma SEGUNDA BÊNÇÃO que seja mais do que o derramamento sem restrições do mesmo Espírito que deu a primeira. Vocês receberam o Espírito Santo desde que creram? (At 19.2) [N. do T.: assim a versão inglesa (KJV) citada por Pope, “since ye believed”; a NAA traz “quando creram?”, o sentido que ele defende] quer dizer: Vocês receberam o Espírito Santo ao crer? ἐλάβετε πιστεύσαντες? E não pode referir-se à recepção do dom superior, sobreposto a um dom inferior que estivesse sem o Espírito da inteira consagração. O único caso em que se diz que cristãos não têm o Espírito (Jd 19) é aquele em que são Judas descreve o estado caído de homens que, para usar as palavras de são Paulo, tendo começado no Espírito, agora se aperfeiçoavam na carne (Gl 3.3): tinham chegado ao desfecho mais lamentável, o de seguir os seus próprios instintos outra vez. Além disso, isso foi dito a uma parte, ainda que uma parte ignorante, da mesma congregação de Éfeso a quem são Paulo escreveu: tendo nele também crido, receberam o selo do Espírito Santo da promessa (Ef 1.13), πιστεύσαντες ἐσφραγίσθητε, crendo, foram selados. Para o Espírito Santo não há limitação de tempo. Os preparativos para uma consagração inteira a Deus podem prolongar-se muito, ou podem ser apressados. Sempre que o selo da perfeição é posto sobre a obra, seja na morte, seja na vida, tem de ser um ato decisivo e instantâneo; possivelmente conhecido só por Deus, ou, se revelado à consciência trêmula do crente, um segredo que ele não sabe como exprimir. Mas isso nos leva do Santuário ao Santo dos Santos.

III, 44A INTEIRA SANTIFICAÇÃO.

Inteira. A aliança cristã faz provisão para a completude da obra do Salvador, como a aplicação perfeita da sua expiação ao crente. Essa completude pode ser vista como a destruição completa do pecado, como a inteireza da consagração a Deus e como o estado de santidade consumada ao qual o caráter do santo pode ser conformado na vida presente. Esses privilégios podem ser considerados, respectivamente, como Inteira Santificação, Amor Perfeito e Perfeição Evangélica; e os três são um só, como a aplicação consumada da Obra Consumada do Salvador, na medida em que a sua consumação pertence ao tempo e à graça.

III, 45Não se quer dizer que esses três sejam ramos distintos do privilégio cristão. Cada um implica o outro, e nenhum pode ser tratado sem envolver os demais. Os termos também não são exatos como indicação do departamento particular de cada um: por exemplo, a santificação é tanto consagração positiva a Deus quanto purificação negativa do pecado. Mas a distinção é conveniente, porque dá ocasião a uma visão metódica e, se o termo for admitido, científica de todos os lados de uma questão profundamente importante. A controvérsia ficará excluída, por não se harmonizar com este assunto sacratíssimo: a referência polêmica que for necessária ficará reservada para a Revisão Histórica.

A PURIFICAÇÃO DO PECADO OU A INTEIRA SANTIFICAÇÃO.

Inteira santificação. A virtude da expiação, administrada pelo Espírito Santo, é apresentada na Escritura como aquilo que efetua a inteira destruição do pecado. Em toda parte se declara que esse é o propósito da redenção; e isso é prometido ao crente como a sua preparação necessária para a vida futura. A remoção inteira do pecado da natureza nunca é associada a nenhum outro meio senão à palavra de Deus recebida pela fé e comprovada na experiência.

Abolição do pecado. I. A obra de Cristo tem por fim a remoção do pecado da natureza do homem: da natureza do crente, nesta vida presente. Nenhum fim nos é posto diante dos olhos com mais constância.

1. Vista de modo geral, esta é uma verdade incontestada. Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo (1Jo 3.8). São palavras que se referem ao mal nos indivíduos cristãos, e não apenas a todo o império do pecado e de Satanás, como cenário de rebelião ativa, na história da nossa raça. Elas vêm colocadas entre duas outras declarações que lhes dão um sentido profundo e ilimitado. Ele se manifestou para tirar os pecados, e nele não existe pecado (1Jo 3.5). Ele, que é sem pecado, torna sem pecado o seu povo. Todo aquele que é nascido de Deus não comete pecado, no ato exterior; não pode pecar, porque é nascido de Deus, no princípio interior (1Jo 3.9) [N. do T.: a NAA traz “não vive na prática de pecado” e “não pode viver pecando”]. E isso é dito a respeito da marca final e distintiva daqueles que são assim aprovados como filhos de Deus, no mais alto sentido ideal tornado real: Nisto são manifestos os filhos de Deus e os filhos do diabo (1Jo 3.10). A manifestação é aqui a revelação plena e acabada do seu nascimento interior de Deus. Ele se manifestou para aniquilar o pecado por meio do sacrifício de si mesmo (Hb 9.26): ἀθετῆσαι, abolir, termo que vai além da terminologia sacrificial da Epístola, assim como o do Batista: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! (Jo 1.29). Nosso Senhor deu a si mesmo por nós, a fim de nos remir de toda iniquidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, dedicado à prática de boas obras (Tt 2.14): aqui estão todos os termos da santificação aplicados ao propósito da morte de Cristo, no que diz respeito àqueles que, sendo capazes de boas obras, devem naturalmente ser considerados ainda vivos sobre a terra. Por isso são João testemunha que o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado (1Jo 1.7): tanto no sentido levítico como no moral, DE TODO PECADO, de tudo o que se chama pecado, seja a sua culpa diante de Deus, seja o seu poder no homem. E são Paulo declara que o propósito da nossa crucificação com Cristo, isto é, da nossa união pela fé com a morte de Cristo para o pecado, é que o corpo do pecado seja destruído (Rm 6.6): que o pecado, que move os nossos corpos mortais e faz do corpo o seu servo, seja privado de nós como seus escravos, abolido o corpo da nossa servidão. Quem morreu está liberto ou justificado do pecado (Rm 6.7); assim, o instrumento terreno da servidão é destruído para que não sejamos mais escravos do pecado (Rm 6.6). Não é apenas que a escravidão do pecado chega ao fim; o próprio corpo que serve há de ser inteiramente abolido. Não pode haver servidão se não há nada com que servir. Por isso, finalmente, esses apóstolos se unem para exortar os cristãos a se considerarem inteiramente libertos da lei do pecado. São João diz: escrevo-lhes estas coisas para que vocês não pequem (1Jo 2.1). São Paulo, de modo ainda mais abrangente: Assim também vocês considerem-se [como] mortos para o pecado (Rm 6.11), uma imputação moral em nós mesmos, que corresponde à imputação forense de Deus. São João evidentemente se refere ao propósito de Deus de que a eficácia purificadora livre do pecado; e a sua ressalva, se alguém pecar (1Jo 2.1), apenas apresenta o caso como algo que não está previsto como necessário, mas para o qual, em misericórdia, se fez provisão para nós. São Paulo nos manda fazer uso generoso da doutrina da imputação e alegrar-nos na consciência de que podemos ser, e seremos, salvos de toda ligação com o mal. Essas diversas passagens, combinadas, estabelecem de modo geral toda a doutrina de uma purificação provida para todo pecado.

III, 47Destruição do pecado original. 2. Mais particularmente, temos de tratar do pecado original. Ele tem aqui dois sentidos: é a porção individual da herança comum e é o pecado comum que infecciona a raça humana durante todo o desenrolar da sua história no tempo.

Objetivo. (1.) Quanto ao segundo sentido, não se deve duvidar de que o pecado original, ou o pecado como genérico e pertencente à raça na sua constituição federal sobre a terra, não é abolido até o tempo do qual se diz: Eis que faço novas todas as coisas (Ap 21.5). Assim como algo da pena permanece sem ser removido, assim também permanece algo da concupiscência peculiar, ou sujeição à tentação, ou afinidade com o mal, que assedia o homem neste mundo. O santo liberto do pecado pessoal continua ligado ao pecado pelo seu próprio passado: o perdão único é considerado como perpetuamente renovado até o ato final de misericórdia. Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos enganamos (1Jo 1.8): num sentido, ainda somos contados com os transgressores, embora em outro sentido não sejamos considerados no número deles. Não há homem que não tenha de unir-se à oração: perdoa-nos as nossas dívidas (Mt 6.12). Por isso não é costume falar do pecado original, em termos absolutos, como eliminado em Cristo. A raça tem o seu pecado que tão firmemente se apega a nós (Hb 12.1), o seu εὐπερίστατον ἁμαρτίαν; e precisamos deixar de pertencer à linhagem de Adão antes que o nosso estado de não pecar se torne ausência de pecado.

Subjetivo. (2.) Mas o pecado original, na sua qualidade de pecado que habita no Eu da alma (Rm 7.20), de princípio que tem no homem afinidade efetiva com a transgressão, de fonte e lei do pecado que está nos meus membros (Rm 7.23), de alma que anima o corpo desta morte (Rm 7.24) e, finalmente, de carne, com as suas paixões e os seus desejos (Gl 5.24) [N. do T.: o original indica Gl 5.18], é abolido pelo ESPÍRITO DE SANTIDADE que habita no cristão, quando a graça purificadora dele realiza a sua obra perfeita.

Na terra. 3. E certamente o cenário do sacrifício expiatório do nosso Salvador é sempre apresentado como o cenário do seu poder redentor. Há apenas uma redenção que está reservada para a sua segunda vinda: a redenção do nosso corpo (Rm 8.23). Mas não há outra. O argumento é completo em si mesmo e quase não precisa de mais confirmação. O combate ao pecado tem de ser inteiro e completo no homem e sobre a terra: o outro mundo é a esfera da fruição e do juízo. A história bíblica da redenção não dá nenhum indício de que o triunfo consumado do Libertador do pecado nunca venha a ser conhecido neste mundo. Mas isso nos leva adiante.

III, 48Ausência de pecado. II. A plena libertação do pecado é tanto exigida como prometida, como a preparação para a admissão final à presença de Deus.

Exigida. 1. Somos exortados a buscar a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor (Hb 12.14). A essa declaração pode-se ligar o mandamento que cita o Antigo Testamento, Sejam santos, porque eu sou santo (1Pe 1.16), lembrando a sua relação solene com o dia daquele que julga segundo as obras de cada um (1Pe 1.17). Mas tanto a advertência como o mandamento tinham sido antecipados pela promessa: Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus (Mt 5.8), bem-aventurança que não está reservada para o mundo vindouro, assim como não o estão as outras que a cercam.

Prometida. 2. A oração (especialmente a do nosso Senhor e a do seu servo Paulo) é usada como veículo para ensinar isso. Santifica-os na verdade! … a fim de que todos sejam um. E como tu, ó Pai, estás em mim e eu em ti, também eles estejam em nós (Jo 17.17, 21). A unidade num só corpo místico, e esse único corpo místico unido a Deus em Cristo assim como as Pessoas da Trindade estão unidas interiormente, é simples e unicamente a perfeição da santificação cristã: neste mundo, pois é daí que os homens hão de crer que tu me enviaste. Mais alto do que isso a linguagem não pode ir; mas as orações de são Paulo não ficam abaixo disso. Em todas as epístolas, menos uma, ele faz um pedido pela inteira santificação daqueles a quem escreve, e às vezes com referência expressa à apresentação dessa santidade a Cristo na sua vinda. A primeira delas diz: a fim de que o coração de vocês seja fortalecido em santidade, isento de culpa, na presença de nosso Deus e Pai, na vinda de nosso Senhor Jesus, com todos os seus santos (1Ts 3.13). E isso vem depois de uma oração para que eles abundem no amor fraterno e na caridade universal (1Ts 3.12). As orações que se encontram nas epístolas aos Efésios e aos Colossenses desdenham, ou deixam muito abaixo de si, qualquer interpretação mais baixa do que a de se alcançar a santidade perfeita. A purificação de todo pecado, a consagração inteira a Deus e um estado de santidade que não deixa lugar para a imperfeição, tudo isso se encontra na oração central e suprema de são Paulo: e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que vocês fiquem cheios até toda a plenitude de Deus (Ef 3.19) [N. do T.: a NAA traz “cheios de toda a plenitude de Deus”]. A sua doxologia torna isso certo: Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo o que pedimos ou pensamos (Ef 3.20). Ela mostra também por que a doutrina é tão mal compreendida: nem o PEDIR nem o PENSAR da Igreja (especialmente este último) se mantiveram à altura do elevado padrão do privilégio evangélico.

III, 49Alcançada. 3. A Escritura apresenta um estado sem pecado como efetivamente alcançado nesta vida. O perfeito amor lança fora o medo (1Jo 4.18): note-se ἡ τελεία ἀγάπη, que certamente é o amor na alma humana; o lançar fora do medo, que é o lançar fora do pecado, a única causa do medo; e todo o contexto. Não há nada mais claro na Bíblia do que este seu último testemunho sobre o privilégio da experiência cristã. Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim (Gl 2.19-20): aqui são Paulo, com a mais profunda humildade, declara pelo menos a possível supressão do eu do pecado. Embora, no combate de um capítulo posterior, a carne lute contra o Espírito, e o Espírito lute contra a carne, é apenas para que vocês não façam o que querem (Gl 5.17). A vitória é completa no eco final das mesmas palavras: por quem o mundo está crucificado para mim, e eu estou crucificado para o mundo (Gl 6.14) [N. do T.: a NAA traz “pela qual”, isto é, pela cruz]. A tríplice crucificação, para a lei, para o próprio pecado e para o mundo, é para a morte, morte perfeita e absoluta.

Pelo evangelho, durante a vida. III. Nenhum instrumento na comunicação desta graça é jamais mencionado, senão o evangelho e os seus meios de ação, conscientemente recebidos.

Nenhum outro meio. 1. A disciplina da aflição está entre os instrumentos da graça, a qual faz de todas as tristezas do crente em Cristo um tomar parte nos seus sofrimentos, um tornar-se como ele na sua morte (Fp 3.10). Mas essa é uma disciplina consciente. O morrer físico não o é: essa morte não é o despojar-se do velho homem ou do corpo do pecado. A noção de que não somos finalmente separados do mal aderente à nossa natureza enquanto não somos separados da carne é uma relíquia sutil do gnosticismo. O único CORPO DO PECADO na Escritura (Rm 6.6) é, primeiro, o corpo físico como instrumento da alma que peca e, em segundo lugar, o velho homem figurado, considerado como vivendo simultaneamente com o novo, embora apenas como um transgressor condenado e supérfluo. Mas o crente tem o privilégio de deixar a ambos antes da dissolução física ou natural. Não há nenhum vírus, nenhuma substância do mal, nenhum elemento acrescentado e infundido por ele, que exija a desintegração da morte para ser removido. O pecado é, em certo sentido, apenas uma negação: é a desordem da alma, que a restauração da vontade à sua unidade com a vontade divina repara perfeitamente. Também não há na Escritura nenhum vestígio de uma purificação purgatorial depois da morte. Mesmo os que creem numa disciplina intermediária desse tipo, como necessária para a consumação da obra apenas começada na terra, não professam pensar que ela seja absolutamente necessária em todos os casos.

III, 50A vida presente. 2. O único átrio exterior de preparação é a vida presente. A Escritura não fala de potes de pedra, que os judeus usavam para as purificações (Jo 2.6), postos no limiar do templo eterno, nem de um batismo final à porta do céu. Lemos em toda parte, especialmente no Apocalipse, sobre a satisfação final de toda esperança ainda não satisfeita, exceto a da libertação do pecado, que nunca está incluída. Ouvimos de antemão os regozijos do Paraíso: eles não exultam sobre este mal como finalmente destruído. Entre as profecias sobre a bem-aventurança final, encontramos que nunca mais haverá qualquer maldição (Ap 22.3), a pena do pecado, mas não que nunca mais haverá pecado. Cristo virá, no seu aparecimento final, não para tirar pecados, mas para salvar (Hb 9.28): sem provisão para a remoção do pecado, pois já aniquilou o pecado por meio do sacrifício de si mesmo (Hb 9.26), no seu primeiro aparecimento. Quanto à sua Igreja visível, a sua segunda vinda removerá o mal que nela habita, lançando fora tudo o que serve de pedra de tropeço. Não será assim quanto aos seus santos considerados individualmente: em cada um deles, o pecado que habita no crente terá de ser procurado naquele dia e não será encontrado.

A CONSAGRAÇÃO INTEIRA OU O AMOR PERFEITO.

Consagração inteira. O Espírito é concedido na sua plenitude para a consagração inteira da alma ao Deus triúno: o amor de Deus, realizando em nós a sua obra perfeita, é o instrumento da nossa libertação do pecado que habita em nós; e o retorno do nosso amor, também aperfeiçoado, é a força da nossa obediência para a inteira santidade. Isso é abundantemente atestado como experiência possível e alcançada dos cristãos.

III, 51O amor perfeito ordenado. I. O mandamento da Escritura inteira, do começo ao fim, é o da consagração perfeita a Deus; e a fonte e a energia dessa consagração é o amor.

1. O amor a Deus é o mesmo no Antigo Testamento e no Novo. Não é só um sentimento da mente, nem só uma afeição da sensibilidade, nem só uma energia da vontade; mas é a devoção do homem, na integridade de tudo isso, a Deus como o único Objeto, e Descanso, e Centro, e Vida da alma. O que é que o Senhor requer de vocês? Não é que vocês temam o Senhor, seu Deus, andem em todos os seus caminhos, amem e sirvam o Senhor, seu Deus, de todo o coração e de toda a alma? (Dt 10.12). Aqui o amor perfeito está entre o temor perfeito e o serviço perfeito, como o vínculo e o complemento de ambos. Nosso Senhor nem sequer mudou as palavras, que ele cita; não disse a respeito deste mandamento: Eu lhes dou um novo mandamento (Jo 13.34). É o mandamento antigo, que vocês tiveram desde o princípio (1Jo 2.7), a lei universal de todas as criaturas inteligentes: fazer de Deus o seu único Objeto, o Fim Supremo da sua existência, sendo o próximo e todas as outras coisas objetos de amor somente nele, ocultos juntamente com Cristo, em Deus (Cl 3.3). Este mandamento é a medida do privilégio evangélico, que o crente só precisa aceitar, e admirar, e crer, e alcançar.

O que é o amor perfeito. 2. A sua perfeição é simplesmente a sua exclusividade e supremacia. Ela não está na medida da sua intensidade, que nunca deixa de crescer por toda a eternidade, até atingir o máximo, se é que existe, da força de uma criatura; mas, na qualidade do seu predomínio único e soberano, o amor tem diante de si a crise da perfeição como algo alcançável. Na interpretação do céu, perfeito é o amor que leva consigo o homem inteiro e tudo o que ele tem e é. A sua perfeição é negativa quando nenhum outro objeto, isto é, nenhuma criatura, o recebe à parte de Deus ou em comparação com ele; e é positiva quando a máxima força das faculdades, na medida e segundo o grau do que lhes é possível na terra, está posta nele. Assim interpretado, nenhuma lei da Bíblia é mais absoluta do que esta do amor perfeito a Deus: Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, com todas as suas forças e todo o seu entendimento (Lc 10.27). Omitida a última expressão, todo o seu entendimento, esta era a lei antiga (Dt 6.5), a respeito da qual a promessa era: O Senhor, seu Deus, circuncidará o coração de vocês e o coração dos seus descendentes, para que vocês amem o Senhor, seu Deus (Dt 30.6). O quaternário de atributos (ou o coração como a personalidade una, à qual pertencem o entendimento, as afeições e a vontade), tal como nosso Senhor o completou, não deixa lugar para a imperfeição. Por mais que isso vá além das nossas teorias, das nossas esperanças e das nossas realizações, é, e tem de ser, o padrão do privilégio. Ocupamo-nos agora apenas dos privilégios da aliança da redenção, tal como administrada pelo Espírito Santo.

III, 52O Espírito de amor. II. O Espírito de Deus, como Espírito de consagração perfeita, é derramado sobre a Igreja cristã. E ele exerce o seu ofício santificador como Espírito que habita no crente: capaz de encher perfeitamente a alma de amor e de despertar, em retorno, um amor perfeito.

1. O último documento do Novo Testamento dá expressão clara à primeira destas coisas. Nós [o] amamos porque ele nos amou primeiro (1Jo 4.19). O amor divino ao homem, na redenção, é revelado À alma para a sua conversão; e é derramado NO espírito regenerado como o mais poderoso argumento da sua gratidão. Nós conhecemos o amor e cremos neste amor que Deus tem por nós (1Jo 4.16): esta revelação, recebida pela fé, foi o segredo do nosso retorno a Deus. Mas são João, repetidas vezes, fala desse amor como aperfeiçoado em nós (1Jo 4.12), isto é, como amor que realiza o seu triunfo perfeito sobre o pecado e o egoísmo da nossa natureza e sobre a separação dela em relação a Deus, separação que é o segredo de todo pecado e de todo egocentrismo. Nele verdadeiramente tem sido aperfeiçoado o amor de Deus (1Jo 2.5): isso garante que se trata de algo individual e contém o máximo absoluto pelo qual pleiteamos. Declara-se que o amor de Deus, como o seu instrumento mais poderoso para a santificação do espírito do homem, tem nele a sua obra perfeita. O verdadeiramente repreende a nossa incredulidade e anima a nossa esperança.

O retorno do amor aperfeiçoado. 2. Ele também fala, de modo muito expresso, do retorno do amor a Deus, em nós, como aperfeiçoado. Essa expressão ocorre uma única vez na Escritura em forma tão absolutamente incontestável. Enquanto nos casos anteriores o apóstolo queria dizer que o amor de Deus é aperfeiçoado em nós, nas palavras seguintes ele não pode ter outro sentido senão o de que o nosso próprio amor deve ser, e é (pois, no nosso argumento, as duas coisas são a mesma), ele mesmo aperfeiçoado, τετελειωμένη. Naturalmente, é a mesma coisa que o amor de Deus seja aperfeiçoado ou que o nosso seja aperfeiçoado em retorno; mas a combinação dá muita força à declaração do privilégio: O perfeito amor lança fora o medo. Quem teme não é aperfeiçoado no amor (1Jo 4.18). Assim como são João é o único escritor que diz que Deus é amor (1Jo 4.16) [N. do T.: o original indica 1Jo 4.19], assim também é o único que fala do perfeito amor de um cristão (1Jo 4.18). Esse texto solitário, porém, dá o seu sentido a uma multidão de outros. É o último testemunho, que glorifica tudo o que veio antes.

III, 53O amor como instrumento. 3. O Espírito Santo usa o amor de Deus como seu instrumento para efetuar uma consagração inteira. Esta é aquela unção que vem do Santo (1Jo 2.20), que nos faz a todos participantes da consagração do Salvador, o qual recebeu por nós o Espírito não por medida (Jo 3.34). Assim como o Cristo supremo foi perfeitamente consagrado no amor a Deus e ao homem, assim também é privilégio de todo cristão, que pelo próprio nome é uma imagem de Cristo, ser perfeitamente consagrado. E não há limitação no ofício do Espírito quanto à reprodução do caráter de Cristo em nós. Essa foi a lição daquele grande e glorioso dia do Senhor, o Pentecostes. Na manhã daquele dia, o símbolo escolhido do Espírito foi o fogo. Primeiro ele apareceu como a glória da Shekinah, sem véu, difundida sobre toda a Igreja, e depois pousou sobre cada um. A luz que tocou cada fronte, para aceitação, entrou como fogo em cada coração, e todos ficaram cheios do Espírito Santo (At 2.3-4) [N. do T.: o original indica At 2.4-5]: cheios literalmente, naquele momento; e, se supusermos permanente essa habitação, temos a nossa doutrina comprovada. Que nisso pode haver continuidade, são Paulo nos ensina: deixem-se encher do Espírito (Ef 5.18). Por fim, como língua, o símbolo significava a santificação da vida exterior de devoção a Deus e de serviço ao homem. Portanto, não há limite para a graça consagradora do Espírito. Eu me santifico, para que eles também sejam santificados (Jo 17.19). Este é o exemplo do Salvador naquilo em que ele é perfeitamente imitável: os métodos da nossa santificação, e o seu processo na destruição das afeições estranhas, não encontram modelo nele; mas o resultado brilha claramente no seu exemplo. Contemplando, como num espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, que é o Espírito (2Co 3.18) [N. do T.: a NAA traz “contemplando a glória do Senhor”]. Recebemos até a perfeição a glória que refletimos.

Realizado. III. Pode-se dizer que tudo isso é o alto ideal do cristianismo, ideal que nunca foi realizado. Mas o teor do Novo Testamento proíbe esse método de interpretação, sob qualquer forma. Uma concentração contínua, perfeita e ininterrupta de todas as faculdades em Deus é possível em si mesma, e é possível na terra.

III, 54A honra do Espírito. 1. A honra do ofício do Espírito exige isso. A sua dispensação é para o homem neste mundo; quando Cristo voltar, ela cessa; e, se a sua obra perfeita se cumpre, é na vida presente. Não ouvimos falar de nenhuma operação da sua graça senão neste mundo. E as coisas que a ele se referem também TÊM UM FIM (Lc 22.37) [N. do T.: a NAA traz “o que a mim se refere está sendo cumprido”]. Ele administra até a perfeição uma expiação perfeita. Sobre este argumento pode repousar, com todo o seu peso, a doutrina da inteira destruição do pecado na natureza humana e da plena operação do amor divino no coração. Esta é também a nossa justificativa para introduzir o assunto neste lugar. A inteira santificação dos crentes está profundamente ligada à Ética; mas está ainda mais inseparavelmente ligada à administração do Espírito: como a justiça e a filiação, é um dom da graça.

As orações de são Paulo. 2. As orações de são Paulo invariavelmente suplicam, em favor dos cristãos no estado presente, o derramamento mais abundante do amor que consagra. Nisso elas apenas fazem eco à oração do próprio Senhor pelo seu povo. Mas são peculiares e únicas na Escritura, como uma série de súplicas intercessórias que não põem limites ao privilégio cristão. Já foram consideradas sob esta luz. Basta agora apontar, por exemplo, a Oração de Efésios, que contém todos os elementos da nossa doutrina (Ef 3.16-21). A força do Espírito, derramada no íntimo de cada um, há de necessariamente dar vitória sobre todo pecado, ser a energia de uma consagração inteira e infundir o poder de uma santidade perfeita. A petição de que, pela fé, Cristo habite no coração de vocês, e de que a alma, enraizada e alicerçada em amor, possa compreender, com todos os santos, qual é a largura, o comprimento, a altura e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, não pode ter alvo mais baixo. E ficar cheio até toda a plenitude de Deus (Ef 3.19) [N. do T.: a NAA traz “cheios de toda a plenitude de Deus”] é santidade perfeita. A única questão é se o apóstolo ora como por uma bênção alcançável: questão que nem deveria ser levantada.

A natureza humana. 3. A natureza do homem confirma isso e ilustra a sua possibilidade. A constituição da mente humana é feita para a unidade, e a unidade é perfeição. Mas essa unidade é o amor: isto é, o alvo ou empenho supremo da vontade é o amor, que é o vínculo da perfeição (Cl 3.14). Quando as faculdades da alma se retiram de todo outro objeto que as distrai e se encerram, com a sua força concentrada, num só, nada mais resta além dele. Era isso que o salmista pedia: Une o meu coração para temer o teu nome! (Sl 86.11) [N. do T.: a NAA traz “põe em meu coração o desejo de temer o teu nome”], onde a unidade no temor é unidade no amor; pois o seu Objeto é o Ser Único: só tu és Deus! (Sl 86.10). O ÚNICO Deus, e SÓ ELE temido e amado!

III, 55O exemplo supremo. 4. O exemplo do nosso Senhor é apresentado de modo a nos assegurar a possibilidade de um amor perfeito a Deus e ao homem. No exercício desse duplo amor, uno nele como em nenhum outro, ele realizou a nossa redenção. E disso ele disse: eu lhes dei o exemplo, para que, como eu fiz, vocês façam também (Jo 13.15). A única vez em que se fala do nosso amor como literalmente perfeito, isso está ligado a este Modelo supremo: pois, assim como ele é, também nós somos neste mundo (1Jo 4.17).

Aspiração. 5. A aspiração da alma renovada é uma prova confirmatória. O argumento tirado da aspiração é, em geral, um dos mais fortes que se podem usar para mover uma mente racional; é válido em muitos ramos da teologia. Neste caso, é especialmente forte. Assim como crianças recém-nascidas desejam o genuíno leite espiritual (1Pe 2.2), assim também as almas renovadas desejam amar a Deus supremamente. Nenhum espírito tocado pelo amor de Deus se contenta com nenhuma esperança inferior a um amor perfeito; nem podemos crer que o Espírito acenda em vão esse fervor. Ele satisfará esse desejo, e não no mundo futuro, mas neste. Muitos dos que se opõem a este ensino com a maior falta de amor trazem no coração a repreensão secreta da sua oposição.

Fé. 6. A honra conferida à fé é tal que justifica a maior expectativa e sanciona a doutrina mais elevada. Três vezes o nosso Senhor falou do poder ilimitado dela como de um princípio que vive e se desenvolve de dentro, como a vida do grão de mostarda. Quanto ao desarraigamento do pecado, disse aos seus discípulos admirados, que haviam pedido aumento de fé, que eles poderiam não só vencer a falta de caridade, mas ter extirpado o seu princípio: diriam a esta amoreira: “Arranque-se e transplante-se no mar.” E ela obedeceria! (Lc 17.6). Quanto ao cumprimento de um dever sobrenatural, representado pela expulsão de demônios, disse em outra ocasião: dirão a este monte: “Mude-se daqui para lá”, e ele se mudará. Nada lhes será impossível (Mt 17.20). As duas coisas se unem no último caso, e algo é acrescentado: Em verdade lhes digo que, se tiverem fé e não duvidarem, não somente farão o que foi feito à figueira, mas até mesmo, se disserem a este monte: “Levante-se e jogue-se no mar”, assim será feito. E tudo o que pedirem em oração, crendo, vocês receberão (Mt 21.21-22).

III, 56Vida cristã. 7. A experiência e o caráter dos santos, tais como foram registrados, devem ter o seu peso: a sua experiência, não o seu testemunho, que, pela natureza das coisas, não se deve esperar, pois não há mistério mais profundamente escondido em Deus, nem consciência mais inconsciente de si mesma, do que a da santidade e do amor perfeitos. Quanto aos exemplos bíblicos, as referências expressas são poucas. Não é ali que se deve procurar biografia nem descrição de caráter, a não ser a de Um só; os homens são descritos apenas na sua relação com o reino de Deus, e a sua santidade aparece apenas na sua vida de devoção. Mas em toda dispensação se encontram alguns nomes aos quais aquele que sonda os corações dá testemunho de que lhe agradaram inteiramente. No juízo da Igreja cristã, muitos, em quase toda comunidade e em todas as épocas, foram santos aperfeiçoados em santidade, em renúncia de si mesmos e em caridade, cujo registro está com Deus. Mas não nos preocupamos em firmar este argumento. É o privilégio da aliança, e não a declaração dele, que aqui nos ocupa.

PERFEIÇÃO CRISTÃ OU EVANGÉLICA.

Perfeição. A maturidade do privilégio cristão é posta diante dos crentes como o alvo de toda aspiração evangélica. Esta perfeição, por ser evangélica e efeito da graça divina, é avaliada segundo uma interpretação graciosa da lei cumprida no amor; além disso, é limitada e, em todos os aspectos, ajustada a uma condição de provação; ao mesmo tempo, é universal, pois se estende, sob essas condições, a todas as relações do homem cristão.

Um alvo atingível. I. Que a perfeição é o alvo de um estado possível é inegável.

1. É comum demais, porém, representar o Espírito como pondo diante dos cristãos um ideal inatingível na vida presente. Sobre isso muito já se disse, e mais se dirá adiante. Basta reiterar que nenhum desejo de santidade pode ser vão.

Textos não válidos. 2. É argumento mais razoável apontar passagens em que a palavra tem sentido menos intenso, embora, mesmo quando estas são deixadas de lado, reste um conjunto amplo e suficiente de testemunhos claros. Sem dúvida, alguns são aplicados incorretamente na discussão, pois se referem antes à perfeição com que o cristianismo começa do que àquela com que termina. Todos, pois, que somos perfeitos, tenhamos este modo de pensar (Fp 3.15). Transmitimos sabedoria entre os que são perfeitos (1Co 2.6) [N. do T.: nos dois textos, a NAA traz “maduros” em lugar de “perfeitos”]. Estes, e alguns outros, referem-se ao começo perfeito, ou iniciação, da alma no mistério cristão, em contraste com o conhecimento preliminar das crianças: deixando os princípios elementares da doutrina de Cristo, avancemos para o que é perfeito (Hb 6.1). Eles não tocam o nosso ponto: que a perfeição é um alvo prometido. Do mesmo modo, Procurem aperfeiçoar-se, καταρτίζεσθε (2Co 13.11), pode referir-se à integridade eclesiástica. E dessa natureza ambígua são algumas outras aplicações do termo, especialmente na tradução inglesa: por exemplo, aperfeiçoou para sempre os que estão sendo santificados (Hb 10.14), que se refere antes à perfeição objetiva da provisão expiatória e é linguagem que antecipa o futuro eterno.

III, 57Exortações. 3. Os preceitos que mandam buscar a perfeição, e as promessas correspondentes, são poucos, mas muito claros. Ainda que não houvesse outro, o do Redentor bastaria: Portanto, sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês, que está no céu (Mt 5.48). Esta palavra, como muitas outras do nosso Senhor, tem um sentido presente e limitado, que deve ser ampliado sem receio até a maior generalidade.

Cristã ou evangélica. II. Esta perfeição é evangélica, isto é, distingue-se de toda espécie de perfeição que não seja de pura graça; e traz, como tudo o que pertence ao estado da humanidade, a marca da condescendência e da benignidade de Deus. É, por mais que a ideia seja reprovada pelos homens, uma perfeição ajustada à nossa condição caída: não rebaixada, mas ajustada; e esta não é uma distinção sem diferença. Há uma consumação aqui, assim como no porvir.

Não absoluta. 1. Não é a perfeição absoluta; nem a perfeição do estado de Adão, que não havia caído; nem a perfeição da ausência de pecado, que nunca se pode atribuir àqueles que hão de levar em si as consequências do pecado até o fim. Os que não pecam, segundo a avaliação graciosa de Deus, não se consideram sem pecado no sentido mais extremo da palavra, nem desejam ser considerados assim.

Segundo o evangelho. 2. É a perfeição daquele estado ao qual os homens são chamados pelo evangelho das boas-novas: boas-novas não só quanto à remissão dos pecados passados, mas também quanto à aceitação do serviço futuro. Aplicando isso à tríplice divisão desse estado, podemos observar: (1.) A justiça de Deus, que ele aceita, é considerada um cumprimento da lei, tal como esta se cumpre no amor: o cumprimento da lei é o amor (Rm 13.10); (2.) somos filhos de Deus e conformes à imagem de seu Filho (Rm 8.29), embora haja em nós muitas fraquezas que não poderia haver nele; (3.) somos descritos, na oração do apóstolo, como santificados em tudo, no espírito, na alma e no corpo, e conservados irrepreensíveis (1Ts 5.23), embora o espírito ainda esteja anuviado pela ignorância e pela fraqueza, a alma esteja sob a influência das coisas sensíveis e o corpo esteja a caminho da dissolução. Essa tríplice perfeição pode ser identificada em outras passagens.

III, 58Perfeccionismo. 3. Entendido isso, a doutrina não fica desacreditada pelo uso da própria expressão. A palavra PERFECCIONISMO é às vezes aplicada com sarcasmo aos que defendem a doutrina que aqui sustentamos: os que levam esse nome levam nele o opróbrio de Cristo. O termo Perfeição, sozinho, não deveria ser adotado sem qualificação; mas, com os adjetivos que o resguardam, CRISTÃ ou EVANGÉLICA, é irrepreensível. É o ponto de fuga de toda doutrina, exortação, promessa e profecia do Novo Testamento.

Relativa. III. A perfeição cristã é relativa e própria de um estado de prova e, portanto, num certo sentido, talvez indefinível, limitada.

1. Isso pode ser considerado em relação à consumação final. Na esperança daquele último τετέλεσται [está consumado] todos os cristãos se unem: quando as palavras SANTO AO SENHOR (Zc 14.20) forem a lei eterna do homem glorificado, na sua integridade. Nesta vida, o corpo está morto por causa do pecado (Rm 8.10): não só ele mesmo perece, mas, na linguagem do livro apócrifo da Sabedoria, o corpo corruptível oprime a alma, e o tabernáculo terreno sobrecarrega a mente que medita em muitas coisas (Sabedoria 9.15). A perfeição cristã é o estado de um espírito inteiramente são, mas ainda num corpo cuja fraqueza é a parte principal da sua provação. Cada um tem a sua própria ordem. Com respeito à ressurreição física, são Paulo diz: O que vem primeiro não é o espiritual, e sim o natural (1Co 15.46). Essa ordem se inverte quanto à ressurreição da alma: primeiro o espiritual. Mas, quando se alcança a perfeição da alma, o corpo ainda tem de se sujeitar ao pó: o olho espiritual vê o rei na sua formosura . . . na terra que se estende até longe (Is 33.17); o olho natural desce para ver corrupção (Sl 16.10). E o corpo, a caminho da dissolução, compromete de dez mil maneiras o caráter absoluto do livramento do espírito. Sob este e sob todo outro aspecto, a perfeição é relativa.

III, 59Em estado de prova. 2. A perfeição cristã, no melhor dos casos, é a de um estado de prova. Não há razão, portanto, para que ela não possa ser perdida de novo, e perdida inteiramente, mesmo depois de desfrutado o resultado de longos anos de bênção celestial sobre a diligência terrena. O princípio do pecado, extinto na alma, pode ser aceso e voltar à vida, como foi aceso em Eva. Não há razão para que isso não aconteça; mas há toda razão para que não precise acontecer e não deva acontecer. Uma segunda queda como essa seria queda de fato. Não é provável que alguma vez se tenha presenciado. É só a nossa teoria que exige que se admita a sua possibilidade.

Só individual. 3. É a perfeição da pessoa individual, cuja relação com a raça permanece. Embora esteja pessoalmente em Cristo, e inteiramente em Cristo, durante a provação ele ainda está sob a condenação genérica do pecado original, com uma concupiscência que não é pecado, mas o combustível dele, sempre pronto a ser aceso, e, de modo geral, sob aquela lei de provação que é peculiar à nossa raça. Por isso ele é também um pecador entre homens pecadores até o fim da sua permanência na carne: herdeiro de uma natureza pecaminosa que, purificada nele mesmo, ele transmite não purificada aos próprios filhos. Ele não perde de todo a sua ligação com a linhagem da humanidade pecadora. Nunca lemos que uma separação completa do primeiro Adão seja prerrogativa dos que se acham no Segundo. O crente inteiramente santificado pode ser, quanto à sua relação com Cristo e em Cristo, sem mancha e irrepreensível; ao mesmo tempo, em relação a Adão e nele, é apenas um homem pecador entre homens pecadores.

Ética. 4. Mais uma vez, é uma perfeição própria do estado de prova, visto que está sempre sob a lei ética. O cristianismo é a lei perfeita, lei da liberdade (Tg 1.25): a sua perfeição está em ser a liberdade da lei, a obrigação mais livre possível e a liberdade mais vinculada e necessária. É um estado que deve ser guardado pela vigilância, que está sujeito a uma variedade infinita de provas e que deve ser mantido pelo exercício habitual e, pela graça divina, perfeito de todas as virtudes, ativas e passivas. Por um lado, é um estado de descanso: cheio do Espírito (Ef 5.18), o cristão pode dizer: Tudo posso naquele que me fortalece (Fp 4.13). Por outro, é um estado em que a alma só está segura no exercício mais elevado da virtude mais severa. A sua segurança exige a sua assiduidade. Nesse aspecto, é muito diferente da perfeição do céu, ou mesmo do paraíso.

III, 60Precisa da Expiação. 5. Por isso, esta perfeição precisa constantemente da obra mediadora de Cristo: requer a influência constante dele para preservar como estado o que é concedido como dom. A intercessão mediadora nunca é tão urgentemente necessária como para aqueles que têm um tesouro tão inestimável em vasos de barro: quanto mais alta a graça e mais acabada a santidade, tanto mais estranha ela é ao mundo que a rodeia, tanto mais odiosa ao tentador e tanto mais graça requer para a sua guarda. As palavras com que o nosso Senhor enuncia a sua intercessão permanente nos dizem isso: Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do mal (Jo 17.15).

Perfeição em todos os domínios. 6. Com todas essas condições e limitações, a palavra perfeição, τελειότης, integridade, estende-se a todas as bênçãos da aliança da graça, tais como são providas para o homem em estado de prova. Em outras palavras, essas diversas bênçãos são perfeitas na sua imperfeição: imperfeitas, quando vistas em relação à exigência eterna do Supremo Legislador; perfeitas, quando vistas em relação à presente economia da graça. (1.) No tribunal judicial do evangelho, o crente é, ou pode ser, perfeito na sua relação com a lei. Com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre os que estão sendo santificados (Hb 10.14): a absolvição da culpa é tão completa quanto poderia ser no céu: PARA SEMPRE. E de tal modo se cumpre a exigência da lei (Rm 8.4) que os crentes podem ter confiança no Dia do Juízo (1Jo 4.17), confiança que jamais será experimentada diante daquele tribunal tremendo, a menos que seja levada até lá. (2.) Como filhos de Deus, nada falta ao seu estado: embora aguardem a adoção quanto à sua declaração e prerrogativa finais, agora somos filhos de Deus (1Jo 3.2) [N. do T.: o original indica 1Jo 3.1]; e eles são conformes à imagem de seu Filho (Rm 8.29), sendo irrepreensíveis e puros, filhos de Deus inculpáveis (Fp 2.15), na teoria, e por que não na prática, da religião? (3.) E no templo de Deus, do qual se diz: à tua casa convém a santidade, Senhor (Sl 93.5), a perfeição do cristianismo requer e alcança uma pureza e uma simplicidade tais que podem suportar o escrutínio daquele que sonda os corações. Provas-me no fogo e não encontras em mim nenhuma iniquidade (Sl 17.3). Esta é a sexta bem-aventurança: Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus (Mt 5.8). A visão de Deus pertence à santidade consumada do templo, seja na terra, seja no céu; e o Salvador não faz nenhuma distinção como a que nós, na nossa incredulidade, estamos inclinados demais a fazer.

Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. III, pp. 28-61, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.