W. B. Pope · Compêndio de Teologia Cristã · volume III · A Igreja cristã

O culto e os meios de graça

A IGREJA COMO INSTITUIÇÃO PARA O CULTO.

Culto. A Igreja de Cristo não é apenas o seu Corpo representativo na terra; é também o Templo do serviço divino, que continua e aperfeiçoa o culto do passado. Esse serviço pode ser estudado sob dois aspectos: enquanto inclui a oferta apresentada a Deus e enquanto inclui a bênção recebida dele. O primeiro abrange toda a ordenança do culto, com a sua natureza, as suas razões e as suas observâncias; o segundo abrange os meios de graça: a oração em comum, a Palavra e os sacramentos. Esses dois aspectos, porém, são na realidade um só, e as suas relações mútuas, enquanto unidade, são de grande importância. Ambos exigem, para se realizarem, a instituição do ministério evangélico. Temos, pois, agora diante de nós o culto divino, os meios de graça e o ministério cristão.

III, 288Quanto à unidade do culto e dos meios de graça, é preciso lembrar que ambos são tomados no seu sentido mais amplo. O culto inclui tudo o que pertence ao serviço que os homens oferecem a Deus, enquanto ele é o Objeto da adoração e a Fonte da bênção, incluindo o louvor e a oração em todas as suas formas. A comunhão com ele é, portanto, o canal de toda bênção; e podemos falar, de modo geral, de esperar em Deus nos meios de graça. Mas este último termo (Media Gratiæ) tem também o seu sentido técnico, quando designa os canais determinados e específicos pelos quais o Espírito divino derrama as suas influências na Igreja. Na Igreja: pois, embora toda doxologia e toda bênção sejam individuais, nós as consideramos agora como ordenanças da congregação. O seu caráter congregacional é representado pelo ministério, que deve ser visto como instituição destinada ao corpo coletivo, e que só afeta os indivíduos enquanto são membros, cada um em particular.

O CULTO DIVINO.

Leis do culto. O culto da Igreja cristã pode ser considerado nos seus princípios divinos e nas suas disposições humanas. Quanto aos primeiros, o seu objeto é a Trindade revelada; a sua forma é mediadora, por meio do Filho encarnado, pelo Espírito Santo; os seus atributos são a espiritualidade, a simplicidade, a pureza e o reverente decoro; os seus tempos são, por excelência, o sábado cristão [N. do T.: isto é, o domingo] e todos os momentos de santa assembleia. Quanto às segundas, cabe à própria congregação determinar os pormenores secundários, segundo o modelo mostrado na Escritura; essa liberdade se estende à ordem do culto, aos seus horários fixos, às suas formas, litúrgicas ou não, e ao seu cerimonial decoroso em geral.

A ORDEM DIVINA.

Princípios divinos. As leis divinas e permanentes da economia perfeita do culto público prescrevem os seguintes princípios gerais.

III, 289Objeto. 1. Que sempre e em toda parte o DEUS TRIÚNO seja o seu objeto, tal como agora se revelou plenamente na dispensação cristã. Toda homenagem, adoração ou gratidão deve, virtual ou efetivamente, render o seu tributo ao Nome trino e uno; e todo ato de culto oferecido a uma Pessoa divina deve ser oferecido a essa Pessoa na unidade das outras duas. O Deus do templo cristão é o mesmo que, no templo antigo, recebia a tríplice doxologia e concedia a tríplice bênção.

Forma mediadora. 2. Que a forma estabelecida de todo culto, seja de louvor, seja de oração, deve ser MEDIADORA, tacitamente ou de modo declarado. Deus Pai, o Representante da Trindade, só deve ser invocado por meio da mediação do Filho encarnado, cujo ofício de intercessor, fundado no seu único sacrifício, tem referência especial ao nosso privilégio de ter ousadia para entrar no Santuário (Hb 10.19). E por meio dele, ambos temos acesso ao Pai em um só Espírito (Ef 2.18). Esse Espírito da graça e de súplicas (Zc 12.10) é o único que inspira a energia do culto inteligente e aceitável; e a sua influência está igualmente presente em toda assembleia, da menor à maior. Essas são as plenas preparações mediadoras, no céu e na terra (lá, por meio do Sumo Sacerdote; aqui, por meio do seu Espírito), para as devoções perfeitas da Igreja aqui embaixo. Encontramos essa ordem divina observada em todas as orações e louvores dos escritos posteriores do Novo Testamento. Em harmonia com essa lei organizamos todo o nosso culto litúrgico. E, embora não ousemos acrescentar ao Pai-Nosso a fórmula das palavras mediadoras, nós o apresentamos em silêncio por meio do nome daquele que no-lo deu.

Natureza. 3. As preparações do coração do homem também vêm do Senhor (Pv 16.1) [N. do T.: a NAA traz “O coração do ser humano pode fazer planos, mas a resposta certa vem dos lábios do Senhor”]. A primeira condição do culto divino é que ele seja ESPIRITUAL. Deus é Espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade (Jo 4.24). Essa lei de Cristo é a lei de toda a Escritura; mas ele a promulgou de novo, solenemente, assim como promulgou de novo a lei do amor, para mostrar a sua suprema importância: ela exige o coração do homem como santuário do culto, santifiquem a Cristo, como Senhor, no seu coração (1Pe 3.15); proíbe toda representação do Supremo, exceto as que ele mesmo determinou e que são espirituais no seu significado; e reduz todas as exterioridades do culto ao seu verdadeiro lugar. A PUREZA também é essencial a esse culto: os limpos de coração, no seu templo, veem a Deus (Mt 5.8), e ninguém se aproxima realmente dele, ainda que se encontre na congregação, se os seus motivos não forem sinceros; sem ira e sem animosidade (1Tm 2.8). A ORDEM é outra lei divina do culto: Deus não é Deus de confusão, ἀκαταστασίας (1Co 14.33). E a sua vontade é que tudo seja feito com decência e ordem, εὐσχημόνως καὶ κατὰ τάξιν (1Co 14.40). Na presença de Deus, um sagrado decoro é regra tanto da natureza como da graça. Além disso, o culto deve ser COMPLETO no seu tributo ao Supremo: na adoração do seu nome, que é o Louvor; na lembrança das suas misericórdias, que é a Ação de Graças; no reconhecimento da nossa indignidade, que é a Confissão; na expressão da nossa dependência, que é a Oração; na oblação da caridade, que é a Intercessão. Por fim, o culto deve ser INDIVIDUAL. No cristianismo, tal como nosso Senhor o ensina, não há culto representativo senão o dele; e nesse culto estamos unidos a ele. A devoção é a devoção da Igreja, mas a sua harmonia é a fusão das melodias de todos os seus membros individuais, sem que nenhum deles seja esquecido.

III, 290Tempos. O sábado. 4. Entre as ordenanças divinas permanentes do culto deve-se contar O SÁBADO, como o seu tempo principal e representativo. Essa instituição foi uma determinação de Deus, desde o princípio dos tempos, para esse fim. O descanso do trabalho era um propósito físico, cumprido em conexão com um propósito espiritual: que o homem deixasse toda outra ocupação para ter comunhão com o seu Criador. Esse era o propósito supremo do dia; e, como tal, estava ligado a todas as normas do Antigo Testamento sobre o serviço religioso. O cristianismo conservou a instituição como pertencente ao culto divino; mas, pela mesma autoridade que deu a lei original, modificou-a. Terminou a sua ligação com o ciclo sabático judaico e, portanto, o seu lugar como sinal da aliança entre Jeová e o povo de sua propriedade. Conservou-se o seu propósito original de comemorar a criação e de dar testemunho do governo do Deus único; mas, como a nova criação da humanidade em Cristo Jesus revelara mais plenamente o Deus triúno, o dia da ressurreição de nosso Senhor, o primeiro dia da semana, tornou-se o sábado cristão, ou dia do Senhor. A relação especial do dia com o culto da Igreja, à parte do seu lugar na lei moral, encontra-se na oportunidade que ele oferece de plena assembleia pública, geralmente impossível em qualquer outro tempo, e à qual está vitalmente ligada a continuidade da religião no mundo. Em resumo, o dia do Senhor, na Igreja cristã, é o grande tempo do culto e da reunião para o culto; conserva o seu desígnio original de comemorar a criação, acrescenta-lhe a festa da redenção e suspende periodicamente o trabalho deste mundo para antecipar o culto do céu. Alguns pontos dessa exposição geral exigem desenvolvimento.

III, 291Original. (1.) Já se duvidou de que o relato do Gênesis afirme a instituição do sábado naquele tempo: E Deus abençoou o sétimo dia e o santificou (Gn 2.3) poderia, segundo se diz, ser proléptico. Mas a intenção evidente da narrativa é histórica; há também indícios da divisão do tempo em semanas ao longo dos primeiros livros (Gn 8.10-11; 29.27-28); e o testemunho de nosso Senhor é que o sábado foi estabelecido por causa do homem (Mc 2.27). Por isso encontramos a instituição mencionada como algo que já era bem conhecido antes de ser dada a lei mosaica no Sinai (Êx 16.23, 26): Lembre-se do dia de sábado, para o santificar (Êx 20.8).

Abolido. (2.) Na medida em que o sábado foi introduzido na lei cerimonial e se tornou a base de um ciclo sabático de dias; na medida em que se tornou um sacramento da antiga lei, que comemorava a redenção do Egito, sinal entre mim e vocês de geração em geração, para que vocês saibam que eu sou o Senhor, que os santifica (Êx 31.13), e cercado de severas prescrições (Jr 17.20-27), ele está abolido no cristianismo. Portanto, que ninguém julgue vocês por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados (Cl 2.16).

Renovado. (3.) A nova ordenança do sábado no evangelho foi dada pelo próprio Cristo, que é senhor também do sábado (Mc 2.28). Antes da sua paixão, ele tratou dela como tratou de todas as suas instituições, com indicações preliminares da sua vontade futura. Condenou as falsas interpretações, ao mesmo tempo que a incluiu na lei que ele não veio para revogar (Mt 5.17). Pelo seu exemplo e pelo seu preceito, abrandou-lhe o rigor. Com a sua ressurreição começou a sua designação formal do primeiro dia, e com o Pentecostes ele a ratificou definitivamente. No intervalo, podemos supor que ele estabeleceu por palavra o que na sua majestade havia sancionado por ato. Por isso encontramos o primeiro dia, como dia do Senhor, santificado em todo o Novo Testamento, e o último tributo une a ressurreição e o Pentecostes: Achei-me no Espírito, no dia do Senhor (Ap 1.10). Para usar a palavra de são Paulo em outra ocasião, a lei do sábado cristão vem não da parte de pessoas, nem por meio de homem algum, não da Igreja nem por meio da Igreja, mas por Jesus Cristo (Gl 1.1).

III, 292Sacramento do tempo. (4.) É, por assim dizer, o sacramento do tempo santo na economia evangélica. O primeiro dia da semana santifica todos os dias que o seguem, mas conserva o seu significado simbólico. É o dia da santa convocação, a respeito do qual se diz, preeminentemente, embora não exclusivamente: Não deixemos de nos congregar (Hb 10.25). Assim como o batismo é sinal da separação entre o mundo dos não regenerados e a igreja dos renovados, e como a Eucaristia é memorial permanente da Expiação redentora, e ambos até que ele venha (1Co 11.26), assim o Dia Santo é memorial duradouro da obrigação permanente do culto congregacional. Por isso, é uma das três instituições do Senhor: a CASA DO SENHOR, a CEIA DO SENHOR, o DIA DO SENHOR, ἡ Κυριακὴ ἡμέρα.

Lei moral. (5.) Por fim, essa visão geral do sábado em relação ao culto o liga à Igreja, embora dificilmente seja correto contá-lo entre as INSTITUIÇÕES DO CRISTIANISMO. É uma instituição do cristianismo que é tão antigo quanto a criação [N. do T.: alusão ao livro do deísta Tindal, Christianity as Old as the Creation (1730)]. Mas isso o liga à lei moral, onde, como preceito positivo, é de obrigação perpétua na ética, não só da Igreja, mas de toda religião. O sábado, como ordenança para o culto, é o dia que reúne a congregação; mas, nesse próprio culto, o mandamento do sábado é lido como um dos preceitos do código eterno da moralidade. Qual seja a sua interpretação espiritual, como lei permanente para a humanidade, é questão de ética, e já foi considerada como tal. Por ora, nós o consideramos em sua relação com o serviço divino.

AS FORMAS HUMANAS

Ordenanças humanas. O culto público é deixado, quanto à sua forma, ao critério da congregação, sujeito, porém, à autoridade das leis divinas e orientado pelo uso da Escritura. As questões que surgem aqui não pertencem estritamente à teologia dogmática; por isso, precisam apenas de breve indicação.

Tempos e ocasiões. 1. Ressalvados os direitos das leis já estabelecidas, a Igreja pode determinar tempos, ocasiões e lugares de culto religioso. Não há restrição: a própria Ceia do Senhor não está limitada a nenhum dia determinado. Não há hora que não possa ser separada para isso. O culto diário e as horas canônicas não são maus em si mesmos, a não ser quando ligados a superstições e na medida em que tendem a absorver o culto familiar e particular. Os dias de ação de graças e de jejum têm a plena sanção da Escritura. Mas os dias de santos não têm essa autoridade; e, embora muito se possa dizer em favor de dar destaque, no culto, aos nomes dos servos inspirados de nosso Senhor, convém abster-se. Há apenas um passo, como mostra a história das corrupções do cristianismo, entre isso e a invocação dos santos. Quanto aos lugares, não há Templo nem Santuário: essa palavra fica reservada para a comunidade espiritual, ou corpo da Igreja, e para o espírito regenerado do cristão. Em certo sentido há uma Casa de Deus; mas onde quer que a congregação se reúna, ali está, no sentido mais verdadeiro, a Casa de Oração: Esta casa somos nós (Hb 3.6).

III, 293Disposições. 2. Quanto às disposições do serviço divino, há a mesma liberdade. A lei da decência e da ordem exige que o culto seja regulado e que não se deixe lugar para o capricho. As relações entre o culto, o sacramento e a pregação devem ser organizadas pela comunidade. Quanto à questão tão debatida da ORAÇÃO LITÚRGICA, pode-se ao menos dizer que o seu uso está dentro da prerrogativa da congregação. O Salvador deu o germe dela no seu modelo sagrado, na sua aprovação do culto e dos hinos do Templo e da sinagoga e nas suas instituições sacramentais. Ela tem sido um dos usos mais universais da cristandade; os seus abusos Culto litúrgico. não desacreditam o seu uso; ela comprova o seu valor na experiência, tanto por assegurar a completude do culto como por favorecer a devoção tranquila; virtualmente, ela entra em todos os cultos existentes; e, como complemento, e não substituto, das orações espontâneas, ou melhor, não litúrgicas, pode com segurança ser praticada e defendida.

Cerimônias. 3. Quanto aos cerimoniais acrescentados ao culto público, quase não há a mesma liberdade. A jurisdição da Igreja neste ponto, ou o seu poder de ordenar cerimônias, envolve grande dificuldade. Não temos agora de decidir entre a exigência dura, que esquece tudo, exceto a natureza puramente espiritual do adorador, e o extremo oposto, que adula todos os seus sentidos. Nenhum dos dois pode estar certo. Há um espírito no homem que adora, do contrário ele não poderia adorar o Invisível; e ele também é carne e sangue, do contrário não poderia adorar em assembleias públicas. Há uma simples veste estética do serviço divino sem a qual ele não deveria comparecer diante de Deus, e sem a qual não pode recomendar-se ao homem. Mas o que hoje se chama convencionalmente ritualismo deve ser inteiramente condenado; isto é, a introdução de símbolos não ordenados pelo Cabeça da Igreja: símbolos na arquitetura do edifício, nas vestes do ministro oficiante e, especialmente, na própria condução do culto. O ritualismo tende a desonrar a Sagrada Escritura, ao fazer que os cerimoniais ensinem doutrinas que só a Palavra de Deus deveria ensinar: de fato, ele é outra forma da Tradição Oral, que se põe em pé de igualdade com a Escritura como autoridade de ensino. Ele põe em risco a dignidade dos sacramentos, que, por serem os únicos elementos de ritual que nos foram dados numa religião que fechou o templo ritual, deveriam ser rigorosamente guardados na sua simplicidade, tal como o Salvador os deixou; ao passo que o ritual que lhes foi acrescentado em tempos posteriores ensina princípios e aplicações jamais contemplados pelo Fundador do cristianismo. E o que se chama espírito ritualista desonra o Espírito da devoção com apelos aos sentidos tão inumeráveis e sempre variados que distraem a alma da sua única função. A respeito desses acréscimos do culto que os homens inventam, o Senhor do Templo ainda diz: Tirem estas coisas daqui! (Jo 2.16)

III, 294OS MEIOS DE GRAÇA.

Media Gratiæ. Como instituição de culto, a Igreja de Cristo tem os seus canais ordinários para a comunicação das influências do Espírito Santo à alma dos homens. São estes os Media Gratiæ, ou MEIOS DE GRAÇA. Embora o Espírito não esteja preso a eles, são “geralmente necessários à salvação” [N. do T.: palavras do Catecismo do Livro de Oração Comum sobre os dois sacramentos]. Não são, porém, necessários igualmente nem no mesmo sentido. A Palavra de Deus e a oração são, juntas e cada uma por si, aquilo que se pode chamar de meios absolutos e universais: como tais, podem ser tratadas em primeiro lugar. Os sacramentos são meios econômicos, distintos dos primeiros, mas inteiramente dependentes deles para a sua virtude.

III, 295OS MEIOS SUPREMOS: A PALAVRA E A ORAÇÃO.

Meios supremos. Estes são os meios supremos, porque são a base de todos: dão a sua virtude às ordenanças da Igreja, incluindo os sacramentos. Estão unidos: a Palavra autoriza a oração e todos os seus objetos; a oração é o instrumento que torna eficaz a Palavra. Mas, como meios de graça, podem ser considerados separadamente.

A PALAVRA.

A Palavra. A Palavra de Deus nas Escrituras contém todo o âmbito daquela verdade espiritual que o Espírito Santo usa como seu instrumento para comunicar toda influência da qual depende a salvação do homem. Como revelação da lei de Deus, ele a usa para o convencimento; como promessa do evangelho, ele a usa para a salvação; como depósito da verdade ética, ele a usa para a santificação, por meio de toda a moralidade e da disciplina da vida santa.

Vejamos isso à luz da própria Escritura; depois lancemos um olhar sobre as divergências antigas e atuais.

Testemunho sobre si mesma. I. A doutrina da Palavra a respeito de si mesma é que ela é o canal universal da graça; que não o é por si mesma, por alguma eficácia inerente, mas como órgão do Espírito Santo; e que, ainda assim, a sua eficácia é em certo sentido inerente, como instrumento do Espírito, embora se possa resistir a ela. Esses temas já foram discutidos, na sua aplicação, quando tratamos da administração da redenção. A sua relação com a Palavra, enquanto principal dos meios de graça, pode, porém, ser considerada brevemente.

Escritura. 1. A suficiência da Escritura é declarada em toda a extensão dos dois Testamentos. Os louvores à lei do Senhor abundam no Antigo Testamento, especialmente nos Salmos. Um deles discorre longamente sobre o assunto, tomando todos os dez nomes dados à Lei e aplicando-os a cada fase da necessidade humana e da experiência religiosa (Sl 119). No Novo Testamento, não temos uma única passagem, mas um testemunho que perpassa tudo. O que são Paulo diz das Escrituras em geral, que elas podem tornar sábio para a salvação e são úteis para toda função da graça, para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça (2Tm 3.15-16), há de ser verdade a respeito da Escritura suprema, as palavras de Cristo, que são e encerram em si toda a verdade (Jo 16.13). Por isso ele ora: Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade (Jo 17.17).

III, 296A Palavra. 2. O estado decaído do homem não permite pensar que a mera apresentação da verdade o salve. Ele tem um órgão ou faculdade para recebê-la, pois ela é tão adequada à necessidade da sua alma quanto o pão à necessidade do seu corpo; mas o próprio órgão ou faculdade precisa ser vivificado. Por isso o poder inerente da Palavra requer a influência do Espírito para se tornar eficaz. O apóstolo Paulo declara que a sua pregação foi, em geral, em demonstração do Espírito e de poder (1Co 2.4); mas declara também que a pessoa natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura. E ela não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente (1Co 2.14). A linguagem, ou o alfabeto, da doutrina do Espírito Santo tem de ser ensinada a quem há de entender o seu ensino sequencial e geral. Ele apela, como apelou o Senhor: Por que vocês não compreendem a minha linguagem (λαλιάν)? É porque vocês são incapazes de ouvir a minha palavra (λόγον) (Jo 8.43). O homem tem de se submeter à doutrina do pecado em geral, o que significa ouvir a palavra ou o testemunho de Cristo a respeito de si mesmo e da relação do pecador com ele, antes de poder receber a exposição completa dessa doutrina enquanto ela é salvação.

Palavra e Espírito. 3. Mas há uma eficácia inerente na Escritura, quando aplicada pelo Espírito. Ela é o meio universal de graça, embora os homens possam resistir a ela. A Palavra de Deus é tão eficaz quanto é universal e suficiente. É a sua eficácia inerente que descobre a incredulidade e a convence: ela não é eficaz apenas para salvar, mas também para condenar. É o mesmo evangelho, poder de Deus, que é cheiro de morte para morte e aroma de vida para vida (2Co 2.16). A doutrina bíblica da Palavra divina como meio de graça não permite que ela seja jamais invalidada (Mt 15.6). É um instrumento que nunca falha. Considerada como a Palavra dirigida à humanidade, ela não pode estar sem o seu poder. O Espírito nunca está ausente da Palavra: nela ele vive e se move, e por meio dela derrama uma variedade infinita de influências sobre todos os que a rejeitam ou a recebem. Considerada como meio de graça dentro da Igreja, ela tem uma graça sagrada, específica e sempre presente, que acompanha cada verdade e cada promessa. O Espírito está na Verdade, como a virtude estava e está em Cristo: pronta para ser comunicada a todo toque da fé. A energia com que a Bíblia dá prova de si mesma é a sua credencial segura. Nenhum homem vivo pode dizer que ela tenha falhado por completo em descobri-lo, em comover o mais íntimo do seu ser e em agir sobre as suas convicções mais profundas.

III, 297Erros. II. Bastará indicar alguns erros, mais ou menos difundidos, que pertencem a dois tipos inteiramente opostos.

Pelagianismo. 1. Nunca faltou a tendência a considerar as Escrituras suficientes por si mesmas, sem nenhuma influência sobrenatural que as acompanhe, para efetuar a salvação dos homens. Os antigos pelagianos e semipelagianos consideravam a Palavra de Deus como a disciplina intelectual e moral que melhor convém à natureza espiritual do homem, de modo que o seu uso honesto levaria à perfeição os que buscam com sinceridade. Como a natureza humana conserva intactos os seus elementos originais, supõe-se que as suas faculdades naturais bastam, sob a influência da verdade, para guiar à salvação. O racionalismo moderno tem a mesma avaliação geral da Palavra de Deus: não a considera, em nenhum sentido específico, o meio de graça, mas apenas um entre muitos instrumentos de disciplina moral.

Misticismo. 2. O misticismo mais elevado de todas as épocas procura, servindo-se dos meios, elevar-se acima dos meios e morrer para eles. Para os místicos mais bíblicos de todas as comunhões, a Palavra deve ser valorizada pela sua substância de verdade, a qual exerce a sua influência sobre a mente, mas só para elevá-la à intuição superior de Deus. A meditação nos princípios e nas verdades da Palavra conduz à Contemplação, que deixa para trás todas as palavras, pensamentos e imagens. Esta é a linha além da qual o misticismo deixa de ser seguro.

Predestinacionismo. 3. A doutrina que faz da soberania divina o seu princípio supremo considera a Palavra o meio de uma graça absoluta e irresistível. Todo efeito que ela produz é produzido pela operação eficaz daquele a quem não se pode resistir. O Espírito Santo, como Espírito pessoal, livre em todos os seus atos, e que aplica a redenção somente àqueles cujos nomes já estão escritos no Livro da Vida, usa a Palavra para cumprir os seus propósitos, ou os cumpre sem ela, como bem lhe parece. Quando a Palavra é usada, ela é literalmente o seu CANAL de graça para as almas predestinadas à salvação.

III, 298Bíblica. 4. A doutrina que sustentamos reúne tudo o que há de bom nesses erros e rejeita o que há de mau. Dá um lugar elevado, na verdade o mais elevado, à Escritura como instrumento de toda graça. Rende o seu tributo ao Espírito, o único que a torna tal. Mas considera que a operação do Espírito atua, para a salvação, não simples e unicamente POR MEIO DA Palavra, mas também NELA e COM ELA.

A ORAÇÃO.

Oração. A oração, ou comunhão com Deus, não costuma ser contada entre os Meios de Graça, no sentido técnico do termo. É considerada antes como acompanhamento dos outros. Mas, embora seja inegavelmente verdade que a oração é condição da eficácia dos outros meios, ela é, em si mesma e por si só, um meio de graça. Em muitos aspectos, é o mais elevado, o mais simples, o mais universal, o mais abrangente e o mais eficaz desses meios.

Universal. 1. É o mais universal. Onde quer que se encontre a criatura, Peçam e lhes será dado (Mt 7.7) é a lei que rege as suas relações com o Criador. A mediação de Cristo, que abrange, ou envolve, a história de toda a humanidade, estabeleceu esse meio infalível de comunhão entre o Supremo e todo ser humano. A constituição da natureza está organizada em função dessa lei, e todos os atos da Providência a pressupõem. Nenhuma especulação filosófica consegue perturbar a ordenança original, embora nenhuma consiga explicá-la. Em toda a extensão da Palavra de Deus nunca se levanta a questão da dificuldade de ajustar a economia fixa das coisas a essa eterna interferência nela: na verdade, essa eterna interferência faz parte da economia fixa. Por mais que se discuta a questão, aqui está a última palavra sobre o assunto. O Deus pessoal é aquele que ouve e responde à oração: assim como a sua existência é sempre pressuposta e nunca provada, assim também a sua regulação de todas as coisas na terra segundo a Harmonia Preestabelecida entre o pedido e a provisão é tida como certa do começo ao fim. A oração é o meio eterno da graça, entendida a graça como distinta dos dons concedidos independentemente da vontade da criatura; embora, a rigor, grande parte dessa graça também seja independente dela.

III, 299Que tudo permeia. 2. Ela permeia tudo. A Palavra pela qual o homem vive se torna canal de bênção quando as suas promessas são invocadas em oração. Dela os sacramentos tiram a sua eficácia. E ela se adapta a todas as condições da vida: a oração particular, a social e a comum abrem e mantêm abertos os seus respectivos canais para a alma individual, para a família e para a congregação. Mas, embora a oração permeie todos os outros meios, ela se estende para além de todos eles. Não há momento da vida, não há ocupação, nem há lugar algum onde se possa achar o espírito que suplica, em que o voltar-se da alma para Deus não possa ser acompanhado de toda a virtude dessa ordenança eterna.

Unidas. 3. Daí vemos a importância de unir da forma mais estreita a Palavra e a Oração como os meios de graça permanentes, preeminentes e essenciais. Elas não depreciam os outros meios; mas não devem ser suplantadas por eles. Isso, porém, aparecerá mais plenamente quando considerarmos o que segue.

OS SACRAMENTOS COMO MEIOS DE GRAÇA DA ECONOMIA OU DA ALIANÇA.

Os sacramentos, meios da economia. O Salvador, que não veio para revogar a lei, mas para cumpri-la, conservou sob novas formas aquelas duas observâncias rituais antigas que eram os distintivos específicos da antiga aliança como tal: a circuncisão, o rito pelo qual se entrava na aliança, tornou-se o batismo; e a Páscoa, o rito pelo qual ela era confirmada anualmente, tornou-se a Ceia do Senhor. Estes foram instituídos para a observância perpétua da Igreja cristã e colocados entre os seus meios de graça. Como meios de graça, têm elementos de diferença e elementos em comum com os outros meios. A sua diferença está em serem Transações da Aliança: sinais e selos da aliança da redenção. Como sinais, representam em ação e por símbolos as grandes bênçãos da aliança; como selos, são penhores permanentes da fidelidade divina em concedê-las sob certas condições, sendo o instrumento do Espírito para auxiliar e fortalecer a fé que eles exigem e para assegurar a essa fé a concessão presente do seu objeto. Assim, eles são, de um lado, instituições objetivas que asseguram a continuidade da administração da redenção pelo Espírito na Igreja e, de outro, confirmações subjetivas, a cada um que os recebe com fé, da sua própria participação presente na aliança. Além disso, como a aliança NÃO É DE UM SÓ, mas implica a condescendência de Deus em entrar em relações de aliança com o seu povo, os sinais e selos são mútuos: são ordenanças emblemáticas pelas quais se empenha a fidelidade divina e são, da nossa parte, o sinal exterior e visível pelo qual a nossa fé dá a Deus os seus penhores de cordial aceitação das condições dele; uma coisa e outra, porém, pelo Espírito Santo. Essas transações da aliança, enquanto pertencentes aos meios de graça, têm também os seus elementos em comum com os outros meios. Baseiam-se na mediação daquele que é o supremo Meio de Graça; são instituídas pela mesma autoridade; como os outros meios, são notas e distintivos exteriores da profissão cristã; e, finalmente, dependem, para a sua eficácia, do poder do Espírito Santo que opera na fé humana e por meio dela. Essas ordenanças foram desde o princípio chamadas SACRAMENTOS. A sua natureza, a sua eficácia, o seu número e a sua relação geral com os meios de graça são questões muito controvertidas, que deram origem a algumas das mais importantes diferenças entre as confissões cristãs.

III, 300O que mais este tema exige será mais bem apresentado numa breve visão da história do princípio sacramental em geral.

III, 301Escritura. 1. No Novo Testamento não se dá nenhuma designação a esses símbolos. Todos os tipos, ou profecias em ato, terminaram com Cristo, o Antítipo universal; e todos os símbolos, ou representações proféticas visíveis de realidades invisíveis, terminaram com as línguas de fogo no Dia de Pentecostes e, portanto, com o Espírito Santo, a realidade espiritual universal. Na medida em que são tipos e símbolos proféticos, têm de cessar com o seu cumprimento. Isso dá profunda ênfase ao fato de que dois símbolos foram conservados, ou melhor, instituídos de novo, para observância permanente. Estão estreitamente ligados às bênçãos que significam; estão também claramente separados delas; e, por mandamento expresso, que vemos sempre obedecido em todo o Novo Testamento, são tornados perpétuos. Isso aparecerá mais plenamente na discussão de cada um dos sacramentos.

Mistério. 2. Muito cedo se deram dois nomes à instituição sacramental. Na Igreja grega usava-se o termo Μυστήριον: mistério, não no sentido paulino mais geral de um segredo revelado, mas no do significado profundo de algum emblema perceptível (Ap 1.20); por isso ele se conserva, como lembrança do passado, na liturgia inglesa da Comunhão: “estes santos mistérios”. Na Igreja ocidental empregou-se a palavra correspondente SACRAMENTUM: no uso romano, o termo tinha uma grande variedade de sentidos, todos, porém, baseados na ideia de uma obrigação sagrada. Era o juramento, particularmente aquele pelo qual o soldado se obrigava à fidelidade: obtemperaturus sum et facturus quicquid mandabitur ab imperatoribus juxta vires [obedecerei e farei tudo o que me for ordenado pelos comandantes, segundo as minhas forças]. Na Igreja primitiva, as duas ordenanças eram consideradas os ritos da religião pelos quais os cristãos assumiam a obrigação mais solene de fazer a sua parte no cumprimento das condições da graça. O batismo, porém, tinha mais do caráter sacramental, e a Eucaristia mais do de mistério. No latim eclesiástico, a palavra sacramentum passou a significar qualquer coisa consagrada; na Vulgata, foi adotada como tradução de μυστήριον; e, como sinal de uma coisa sagrada, tornou-se o nome convencional da instituição. As diversidades Variedades de opinião. posteriores podem ser agrupadas sob os diversos tópicos do Sinal, do Selo e da instituição divina.

SINAIS.

Sinais. Quanto ao seu caráter de significação, não houve, desde o princípio, nenhuma diferença real entre os que se mantiveram firmes nos sacramentos como parte da economia permanente do evangelho. O aliud videtur, aliud intelligitur [uma coisa se vê, outra se entende] de Agostinho, ou verba visibilia, Palavras Visíveis, e o ἕτερα ὁρῶμεν ἕτερα πιστεύομεν, “uma coisa vemos, outra cremos”, de Crisóstomo foram aceitos igualmente por todos os cristãos como indicação correta do sentido dos emblemas, seja da antiga aliança, seja da nova. Aqui não há discussão. Aprouve a Deus, em todas as épocas, incluir entre as suas muitas maneiras (Hb 1.1) o método de ensinar por símbolos. O próprio Salvador ensinou assim: testemunham-no os relatos a seu respeito nos Evangelhos, desde o chicote de cordas até o lava-pés. Nem há no Novo Testamento uma só palavra que revogue formalmente os símbolos em geral, embora a instituição dos dois sacramentos possa ser razoavelmente entendida como indicação de que eles deviam ser os únicos no culto da congregação cristã.

III, 302SELOS.

Selos. O seu caráter de selos tem sido objeto de muita discussão e de amplas divergências. As várias teorias que predominaram podem ser estudadas com grande proveito na sua ordem histórica.

Igreja primitiva. 1. Na Igreja primitiva encontramos os germes de todo o ensino posterior. Mas, para quem estuda com atenção, não pode haver dúvida de que, quase logo depois da partida dos apóstolos, se manifestou uma forte tendência a deter-se mais no Mysterium do que no Sacramentum e a fazer toda a religião depender, por assim dizer, desses dois ritos sacramentais.

Tridentina. 2. Essa avaliação exagerada das ordenanças cerimoniais tomou a sua forma final no ensino tridentino, que faz dos sacramentos não selos de uma aliança, mas depósitos de uma graça que flui por meio deles necessariamente e só por meio deles: supõe-se que a sua eficácia intrínseca acompanha sempre a administração sacerdotal, desde que, bem entendido, seja realizada com a intenção conforme o pensamento da Igreja e sobre quem os recebe sem interpor o obstáculo do pecado mortal. O Concílio de Trento tem este cânon: Si quis dixerit per ipsa novæ legis sacramenta ex opere operato non conferri gratiam sed solam fidem divinæ promissionis ad gratiam consequendam sufficere, anathema sit [Se alguém disser que pelos próprios sacramentos da nova lei não se confere a graça em virtude do próprio ato realizado, mas que só a fé na promessa divina basta para alcançar a graça, seja anátema]. Essa sentença admite duas interpretações. Como no caso da justificação, pode-se dizer que tudo o que se condena é a fé SOMENTE; mas o instinto comum do protestantismo viu nela o fundamento do erro de uma comunicação necessária da graça, alojada unicamente nos sacramentos. Esse erro, muito antigo e muito difundido, embora não seja sustentado pela Igreja grega, tem três características. Eleva indevidamente os meios, dos quais se supõe que contêm a sua graça e a descarregam de modo, por assim dizer, mecânico ou mágico. Faz depender demais da intenção e do propósito de quem administra. E a sua condição negativa, o não interpor um obstáculo, ou o OBICEM do pecado mortal, tende a desonrar a fé evangélica e complica o assunto, envolvendo nele as definições de pecado mortal e venial. Omite-se também a influência direta do Espírito Santo.

III, 303Luteranos e reformados. 3. Os tipos de doutrina luterano e reformado acerca da ideia sacramental condenam o EX OPERE OPERATO, isto é, aquilo que torna o ato sacramental eficaz per se [por si mesmo], ou sem referência à fé de quem o recebe; mas em alguns outros aspectos diferem. O luteranismo põe a virtude nos sacramentos, torna-a inerente a eles por ordenação de Cristo, mas salvadora somente para o crente: aproxima-se da teoria romanista quanto a serem eles os canais designados e, em geral, os únicos canais da salvação. Adotando uma máxima de Agostinho, Accedit verbum et fit sacramentum (a palavra divina, acrescentada, faz dele um sacramento), considera que essa palavra consagradora transmite aos elementos uma graça que eles necessariamente comunicam: aos maus, para condenação; aos crentes, para o seu bem. Faz dos sacramentos meios de graça necessários: não apenas os primeiros e geralmente necessários, mas, quanto à graça específica que representam, os únicos meios. A participação nessas instituições é tida como essencial para a participação nas coisas que elas significam. Por isso os sacramentos se tornam, em certo sentido, o centro do plano da salvação. Isso deve ser lembrado em toda avaliação do luteranismo enquanto tal.

Reformados. 4. A doutrina reformada dá mais ênfase ao concurso do Espírito Santo: virtus Spiritus sancti extrinsecus accedens [a virtude do Espírito Santo, que se acrescenta de fora]. Não a Palavra, como no dito de Agostinho, mas o Espírito é que faz Sacramentos necessários. do sacramento um canal da graça; e, como esse Espírito não está preso a formas, pode dispensar a sua graça sem os sacramentos, antes deles ou depois deles. Ainda assim, embora não sejam absolutamente necessários, sine quâ non [como condição indispensável], são necessários por preceito; e, como selos e penhores designados da administração da graça redentora, devem ser observados. Os primeiros socinianos foram além do suíço Zuínglio ao fazer dos sacramentos apenas sinais da profissão cristã e emblemas destinados a exercer uma influência moral sobre a mente: opinião amplamente difundida entre os ramos menores da cristandade, tanto no continente europeu quanto na Inglaterra.

III, 304Arminianos. 5. A doutrina arminiana primitiva é às vezes classificada no sistema a que pertencem estas últimas opiniões. Mas ouçamos as palavras da Confissão Remonstrante: Sacramenta cum dicimus, externas Ecclesiæ cæremonias seu ritus illos sacros ac solennes intelligimus, quibus veluti fœderalibus signis ac sigillis visibilibus Deus gratiosa beneficia sua in fœdere præsertim evangelico promissa non modo nobis repræsentat et adumbrat, sed et certo modo exhibet atque obsignat, nosque vicissim palam publiceque declaramus ac testamur, nos promissiones omnes divinas vera, firma atque obsequiosa fide amplecti et beneficia ipsius jugi et grata semper memoria celebrare velle [Quando falamos de sacramentos, entendemos as cerimônias externas da Igreja, ou aqueles ritos sagrados e solenes pelos quais, como por sinais e selos visíveis da aliança, Deus não somente nos representa e esboça os seus graciosos benefícios prometidos na aliança, sobretudo na evangélica, mas também, de certo modo, os exibe e sela; e pelos quais nós, por nossa vez, declaramos e testificamos aberta e publicamente que abraçamos todas as promessas divinas com fé verdadeira, firme e obediente, e que queremos celebrar sempre os benefícios dele com memória contínua e grata]. Estas palavras devem ser cuidadosamente Sinais e selos da aliança. estudadas no seu contexto, e traduzidas, pois apresentam, mais do que as de qualquer outro símbolo, todos os elementos necessários para compor a verdadeira ideia sacramental. A definição dá ênfase a serem os sacramentos sinais e selos da aliança: não apenas esboçam as bênçãos evangélicas da aliança cristã, mas também as exibem e aplicam; e, ao mesmo tempo, exprimem a nossa fé pública e a nossa grata lembrança. Este testemunho inclui tudo o que está incluído nas nossas grandes confissões britânicas; e, se acrescenta alguma coisa, o acréscimo é um aperfeiçoamento. A Confissão de Westminster diz: “Os sacramentos são sinais e selos santos da aliança da graça. Há em todo sacramento uma relação espiritual, ou união sacramental, entre o sinal e a coisa significada; donde resulta que os nomes e os efeitos de um são atribuídos ao outro.” E no Sinal, selo e instrumento. Breve Catecismo o padrão de fé presbiteriano fala assim: “Sacramento é uma santa ordenança instituída por Cristo, na qual, por meio de sinais sensíveis, Cristo e os benefícios da nova aliança são representados, selados e aplicados aos crentes.” Aqui a última expressão dá força adicional à ideia do selo: as bênçãos não são apenas garantidas em penhor, mas também comunicadas ali mesmo, naquele momento. Assim também o Artigo da Igreja da Inglaterra: “Os sacramentos ordenados por Cristo não são apenas distintivos ou sinais da profissão dos cristãos, mas são antes testemunhos certos e seguros e sinais eficazes da graça e da boa vontade de Deus para conosco, pelos quais ele opera invisivelmente em nós e não somente vivifica, mas também fortalece e confirma a nossa fé nele.” Com esses símbolos (arminiano, reformado e anglicano) concorda a nossa proposição geral.

III, 305INSTITUIÇÃO DIVINA.

Instituição divina. Quanto à instituição divina dos sacramentos, houve dois erros principais. Um deles, representado por alguns dos místicos mais panteístas de épocas anteriores e pelos quacres nos tempos modernos, nega a obrigação permanente dessas ordenanças. Segundo estes últimos, o batismo destinava-se apenas à primeira introdução dos gentios na nova comunidade; a Eucaristia era apenas a santificação do alimento comum da vida; e, de modo geral, a economia cristã não tem nem pode ter em si nenhum ritual. O outro erro foi ao extremo oposto e multiplicou as instituições sacramentais do cristianismo.

ACRÉSCIMOS AOS SACRAMENTOS.

Multiplicação. 1. A origem dessa multiplicação dos sacramentos pode ser rastreada até o uso indefinido do termo na linguagem antiga: ele era aplicado a quase todo mistério da fé cristã e a quase todo símbolo religioso. Assim, Agostinho, embora reconheça a supremacia dos Dois, fala de modo incerto e vacilante acerca de alguns outros ritos de natureza sacramental. Bernardo estava disposto a acrescentar o lava-pés, e muitos escritores, antes e depois dele, mencionam entre os sacramentos outros atos simbólicos de Os sete. Cristo. Os sete sacramentos foram definidos pela primeira vez por Oto de Bamberg, em 1124; receberam sanção eclesiástica em Florença, em 1439, e foram confirmados no Concílio de Trento. Os escolásticos os ilustraram e defenderam de várias maneiras. Supunha-se que cada um era simbolizado por uma das sete virtudes cardeais, ou a simbolizava: fé, amor, esperança, sabedoria, temperança, coragem, justiça; e eram explicados pela analogia entre a vida espiritual e a física, quanto ao nascimento, ao crescimento até a idade adulta, à nutrição, à cura, à reprodução, à instrução, à morte; e assim por diante. A definição final de Trento admite a preeminência da Eucaristia (Concílio de Trento, sessão XIII, cap. 3): Sanctitate longe cæteris antecellit [em santidade, excede de longe os demais] (Catecismo Romano II, 1, 22). O batismo, a confirmação e a ordem eram tidos como dotados de um caráter indelével, que jamais se apaga, e nunca deviam ser repetidos. Pronuncia-se o anátema contra os que negam que os sete foram todos instituídos por Cristo, ainda que não igualmente: com isso se admite que a instituição feita por nosso Senhor é a única e definitiva prova de um verdadeiro sacramento.

III, 306Comunhões grega e romana. 2. É notável que as comunhões grega e romana, que diferem em tantas outras coisas, concordem em aceitar sete sacramentos. Ambas fundamentam essa aceitação na autoridade da Igreja como intérprete da vontade de Cristo e os defendem como aquilo que envolve, cerca e santifica a vida inteira nas suas diversas fases: o batismo é a santificação do nascimento; a confirmação, da vida adulta; a penitência, da vida de pecado diário; a Eucaristia, da própria vida; a ordem, da autoridade legítima; o matrimônio, da lei de continuidade e crescimento da Igreja; e a unção, da partida deste mundo. Outras comunhões tentaram, e estão tentando, introduzir a distinção entre ordenanças sacramentais que não são sacramentos e sacramentos propriamente ditos; mas a prova da instituição feita pelo próprio Senhor proíbe absolutamente qualquer acréscimo às suas duas instituições da aliança. “Sacramento é um sinal exterior e visível de uma graça interior e espiritual, ordenado pelo próprio Cristo como meio pelo qual a recebemos e como penhor que nos dá a certeza dela.” Nosso Senhor escolheu e santificou dois, somente dois; e é inútil elevar à condição de sacramentos propriamente ditos atos que são antes de bênção, ou apenas simbólicos, do que sacramentais.

Reforma. 3. A Apologia da Confissão de Augsburgo admitiu a penitência como uma das instituições sacramentais do Salvador, e Melâncton estava disposto a admitir no número a ordenação. Elas não foram mantidas, porém, nas igrejas da Reforma, embora os luteranos tenham conservado a confissão como parte salutar da ordem rejeitada. A definição do Artigo inglês dá a nota certa: os cinco acrescentados por Roma “não devem ser contados como sacramentos do evangelho, sendo tais que em parte nasceram da imitação corrompida dos apóstolos e em parte são estados de vida permitidos nas Escrituras; mas não têm a mesma natureza de sacramentos que o batismo e a Ceia do Senhor, pois não têm nenhum sinal visível ou cerimônia ordenada por Deus.” A isso, porém, pode-se acrescentar que eles não têm nenhuma ligação com o caráter de aliança do evangelho de Cristo. Tendo esta prova para aplicar, podemos considerar os sacramentos acrescentados na sua ordem.

III, 307OS CINCO SACRAMENTOS ACRESCENTADOS.

Confirmação. 1. O suposto sacramento da CONFIRMAÇÃO nasceu de um rito antigamente conhecido como CRISMA ou O SELO, que se julgava acrescentar o dom positivo do Espírito à remoção batismal da culpa: assim, desde cedo se ligava ao seu erro uma verdade importante. Era administrado não antes do sétimo ano, e somente por um bispo, como sucessor na prerrogativa apostólica da imposição das mãos. No seu desenvolvimento final, na Idade Média, a imposição e a unção constituem a Matéria do sacramento; e a Forma é: Signo te signo crucis et confirmo te chrismate salutis in nomine, etc. [Eu te assinalo com o sinal da cruz e te confirmo com o crisma da salvação, em nome etc.]. O fundamento bíblico disso não resiste a um exame rigoroso. O batismo de nosso Senhor com o Espírito Santo, naturalmente, não tem nenhuma relação com a questão. Nem a têm os casos em que os apóstolos comunicaram o Espírito Santo aos samaritanos (At 8): tratou-se de um reconhecimento especial do cristianismo samaritano por sinais peculiares e quase pentecostais. O batismo e a unção dos discípulos de João em Éfeso foram simultâneos (At 19.4): estes não tinham recebido antes o batismo cristão. Outra passagem comumente aduzida é aquela em que são Paulo diz que os efésios, depois de crerem, foram selados (Ef 1.13): aqui o grego exige quando vocês creram, foram selados [N. do T.: a NAA traz “tendo nele também crido, receberam o selo”]. A recepção dos jovens na congregação por uma profissão formal de fé tem sido um costume louvável em algumas comunhões. Mas não há nenhuma instituição sacramental para esse fim.

Penitência. 2. O sistema da PENITÊNCIA elaborado na Igreja antiga baseava-se na suposta necessidade de dar satisfação a Deus pelo pecado cometido depois do batismo. Elevada por fim à condição de sacramento, a sua Matéria (para usar a expressão escolástica) é Contritio cordis, Confessio oris, Satisfactio operis [a contrição do coração, a confissão da boca, a satisfação por obras]. A Forma é o ato e a palavra judiciais da absolvição. Não se exige que a contrição do coração seja absolutamente perfeita: a atrição, ou um desejo sincero de arrepender-se, pode bastar; a confissão é auricular, inclui omnia et singula peccata mortalia [todos e cada um dos pecados mortais] e deve ser feita pelo menos uma vez por ano. A satisfação supõe que o sacerdote é um juiz que, em nome de Deus, impõe penitências como condição da remissão das penas temporais do pecado, o qual, quanto ao reatus culpæ [reato da culpa] e às suas consequências eternas, é perdoado por causa dos méritos de Cristo. Essas penas temporais podem ser cobradas nesta vida ou no estado intermediário, sendo ambos temporais. Podem ser comutadas por satisfações de vários tipos (jejum, oração, esmolas), as quais, porém, muitas vezes estiveram ligadas às formas mais antievangélicas de autodisciplina. Deste sacramento da penitência depende a doutrina do Purgatório, o lugar onde se suplementa a satisfação suprema de Cristo; e também as Indulgências, baseadas no fundo de mérito armazenado na Igreja e concedidas declaradamente para a remissão da pena temporal, mas muitas vezes, na compreensão popular, para a remissão de todo e qualquer pecado. Esta instituição importantíssima não se baseia na Palavra de Deus: a absolvição bíblica é a declaração dos termos do perdão; a confissão bíblica não é auricular nem imposta; a sua única satisfação é a obediência perfeita de Cristo; e o seu único Juiz e Confessor é o próprio Senhor.

III, 308Ordem. 3. O sacramento da ORDEM, ou consagração ao sacerdócio, está estreitamente ligado ao anterior: quo tribuitur potestas consecrandi corpus et sanguinem Domini, nec non remittendi et retinendi peccata [pelo qual se confere o poder de consagrar o corpo e o sangue do Senhor, e também de perdoar e reter os pecados]. Assim como os batizados eram dotados de graça pela imposição das mãos episcopais, também somente as mãos episcopais podiam conferir a graça específica do sacerdócio. Mas não há nada, nem na designação dos seus ministros feita por nosso Senhor, nem na confirmação apostólica dessa designação, que sustente tal investidura com tão tremendos privilégios e responsabilidades. Sobre isso se dirá mais no lugar apropriado.

Matrimônio. 4. O MATRIMÔNIO foi elevado à dignidade de sacramento sobretudo com base nas palavras do Apóstolo: Grande é este mistério, mas eu me refiro a Cristo e à igreja (Ef 5.32). Como sacramento, a ordenança do casamento é tratada com muitíssima minúcia na teologia romana e na oriental. Na realidade, porém, de todos os usurpadores do caráter sacramental, é o que tem o título mais frágil, pois é apenas uma relação natural santificada e honrada como sinal da união do Salvador com a sua Igreja. Em estranha contradição com esse elevado caráter da ordenança estava a sua desvalorização na vida celibatária, dentro ou fora do sacerdócio.

Unção. 5. A EXTREMA-UNÇÃO apoia-se sobretudo na unção mencionada por são Tiago (Tg 5.14-15), onde, porém, o rito não tinha relação com a morte. Supõe-se encontrar a sua instituição sacramental por Cristo numa alusão a um assunto semelhante no Evangelho de são Marcos (Mc 6.13), a respeito da qual se pode fazer a mesma observação. É um sacramento abrangente, o Viático, útil para a alma e, se Deus quiser, também para o corpo: effectus est mentis sanatio et, in quantum autem expedit, ipsius etiam corporis [o seu efeito é a cura da mente e, na medida em que convém, também do próprio corpo] (Concílio de Florença, 1439).

III, 309DESVALORIZAÇÃO DOS SACRAMENTOS.

Negação dos sacramentos. O erro oposto, o daqueles que negam a instituição autorizada de meios de graça sacramentais no sentido em que entendemos o termo, isto é, de ordenanças que garantem em penhor ou selam, além de simbolizarem, a graça da redenção aos que dignamente as recebem, deve ser cuidadosamente evitado.

Doutrina indigna. 1. Há os que, como vimos, querem honrar o caráter espiritual da religião de Cristo dispensando as instituições expressas dele próprio. Mas certamente estão a caminho do mesmo erro os que consideram que nosso Senhor pôs na sua Igreja dois ritos que são apenas ritos, apenas símbolos que ensinam pelos olhos, quer dos participantes, quer dos espectadores, e assim fazem dele o Fundador de um culto puramente ritual e simbólico. Se esse tivesse sido o seu propósito, nós o teríamos aceitado com Nenhum rito cristão sem graça. reverência. Mas não foi esse o seu propósito. Não há nada ordenado por ele para a observância permanente do seu povo que não seja acompanhado pelo Espírito Santo e feito canal da graça que lhe é própria. Os ritos do cristianismo têm as suas bênçãos concomitantes e nunca estão sem elas, exceto para os que não trazem nenhuma preparação de fé, cuja ausência faz de toda religião mero cerimonial. A verdadeira doutrina fica entre dois extremos. Evita o exagero ilusório que liga bênçãos específicas, a regeneração e o sustento da vida de Cristo, aos sacramentos como os seus únicos condutores até a alma: estes são apenas os penhores da aliança de um dom que é comunicado com eles e por meio deles, mas não necessariamente só com eles e só por meio deles. E evita a atenuação ilusória que faz das ordenanças sacramentais meros sinais que agem esteticamente sobre a mente dos que delas participam. Isso, pode-se repetir, é abolir a distinção entre aquelas ações simbólicas de nosso Senhor (como pôr uma criança no meio deles, fazer secar a figueira, lavar os pés dos discípulos, soprar o Espírito Santo), que eram ações que ensinavam a sua lição primeiro pelo símbolo e depois eram interpretadas pelas suas palavras, e aquelas cerimônias permanentes que ele ordenou para serem Meios, e não apenas sinais, da sua graça para o crente.

III, 310Negligência. 2. Há, porém, uma desvalorização dos sacramentos que não nasce de nenhuma oposição ou escrúpulo teológico, mas é resultado da indiferença ou da ignorância. Há muitas crianças não batizadas cujos pais são responsáveis pela negligência da ordem do Salvador, negligência que não recairá sobre as próprias crianças. Mas a negligência é talvez mais notável no caso do outro sacramento. Não que ele seja tratado com irreverência; mas, por falta de instrução adequada, multidões passam a considerar a Ceia do Senhor uma solenidade religiosa ligada, de um modo ou de outro, à aceitação de responsabilidades religiosas e dependente, quanto à sua bênção, do vigor da fé e da expectativa do comungante, mas sem nenhuma percepção clara do seu lugar peculiar e distinto na economia evangélica. O recuo diante de um extremo levou estes longe demais na direção oposta. Deveria ser motivo de solicitude da parte dos ministros cristãos ensinar ao seu povo a doutrina correta dos sacramentos, especialmente aquela que dá ênfase à sua relação com a nova aliança, com os seus benefícios e as suas obrigações.

Tradução para o português a partir de William Burt Pope, A Compendium of Christian Theology, 2ª edição revista e ampliada, Londres, Wesleyan Conference Office, 1877-1879, na forma revista da tiragem de Nova York (Phillips & Hunt, 1881), vol. III, pp. 287-310, domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Os números em cinza no canto dos parágrafos indicam a página da edição inglesa. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.